A
aldeia de Santa Luzia levou uma pedrada e tanto. A pedrada quase a acertou em
cheio, foi por pouco, caiu ali no capoeirão, na beiradinha do povoadinho, incendiando
a capoeira. Todo o seco capoeiral pegou fogo. E parecia tudo surreal, ramos
secos de capoeira crepitando pedras estalando e uma fornalha queimando.
E a pedra veio
do espaço atravessando mistérios inéditos e profundos. Cruzou veloz o universo embolada
em fogo e caiu ali, se fazendo de morta e pegando fogo esfumaçando chiando na
fervura se cozinhando por fora e por dentro. Os aldeões e as aldeãs cuidaram uma
distância olhos esbugalhados pelos arrepiados.
- Era só o que
faltava, tá!
- Daqui a
pouco já vem uma explosão, quer ver?!
Imediatamente
chegaram à vilinha cinco forasteiros atraídos pelo fogaréu do fenômeno promessa
de ouro cheiro de carniça. Cinco maus elementos todos ávidos por aventuras, encrencas,
resultados práticos e recompensadores. Eram cinco dentes-secos, uta! se eram, cinco
cascas-grossas, cinco matadores impiedosos, os tais e quais: o Mata-Piolho, o
Mata-Bolo, o Mata-Pai, o Mata-Vizinho e o Mata-Curumim.
Com idades que
variavam entre vinte e vinte e nove. Com crimes hediondos nas costas que
variavam de quinze a trinta e dois óbitos. Penas entre cento e dez a mil trezentos
e quarenta anos. Doutores formados, e fugidos, nos melhores presídios
universitários federais. Donos todos, então, de currículo inquestionável,
respeitável, longo e pesado. Cada um precisaria de carrinho de mão para mover sua
obra calhamaçosa.
Os
cinco cramulhões chegaram juntos, montados em motos poeirentas, barulhentas,
cento e vinte e cinco cilindradas. Armados até os dentes de armas brancas e de
fogo trançados de cartucheiras, fuzil a tiracolo adaga na cinta. Desembarcaram,
apearam, desmontaram, bolearam a perna já ali no centro do estrago. Rodearam a gosma
viscosa e fumegante. Olharam em volta pelo capoeirão. Em o geral não sabiam o
que fazer ou desfazer. O lugar era todo desassistido. Lugar de nada. Desertão
de terra vermelha e capoeira seca. Nem chovia há cinco anos.
Um dos se
acocorou e fumou seu cigarro de maconha; outro mijou ali mesmo enquanto olhava
o céu sujo de poeira; dois deles se sentaram de braços cruzados, cada um no
selim da sua motoca, olhando para o fogo ardido da coisa espacial; e o último
parou em pé como um boneco inflável de posto de gasolina um x de pernas abertas
e braços ao alto.
-
Terá ouro, prata ou bronze?
-
Dizem que pode haver ouro, e até diamante.
-
Mas está em magma ardido.
-
Temos tempo...
-
Se chovesse pelo menos...
-
Que cheiro gozado tem essa joça.
Havia
dois anos que não chovia. Mormaço impossível de abril ou maio. Não chovia mesmo
há séculos e séculos. O capoeirão requeimado e coberto de pó vermelho. Pelo
chão rasteiro guanxumas esturricadas, barbas-de-bode queimadas, chapéus-de-sol-de-sapo
petrificados, macegas incineradas. Plantação de pedras, pedregulho e tucurus
desabitados. Um calorão que não dava para suportar.
Os
motoqueiros da fuzarca em suas máquinas endiabradas foram até a aldeia. Subiram
e desceram a única rua. Fizeram barulho e levantaram poeira e brita. Os aldeões
e as aldeãs e os aldeõezinhos escondidos e irritados com os escapamentos
abertos o vaivém das medonhas. Aí, os invasores pararam na frente do ex-açougue.
Pixotes de pés descalços, magros, pilungos, comendo ranho, brincavam de se
arrastar ali pela poeira na área da pracinha. A gangue de mão cheia entrou no
ex-açougue fazer o quê? Mata-Vizinho perguntou ao ex-açougueiro:
-
Então, onde temos aí uma pousada?
-
Pousada? Não, não existem pousadas, nem casas de pensão, nem quartos para
alugar, nem ranchos para pernoitar, nem tavernas para beber, nem boates para
dançar, nem armazéns para comprar mantimentos, nem etc.
Os
cavaleiros montaram nas endiabradas e saíram acelerando nervosos, levantando
poeira e espirrando pedrinhas na derrapada. Andaram pela rua como idiotas
completos e tontos e encourados. Foram sossegar, em o após, na calçada de laje
da capela. Mata-Bolo tinha a sua ideia pontiaguda:
-
Então. Então, nóis aluga uma choça.
-
Até que a goma esfrie.
-
Eu tô é a fim de atirar em gente correndo.
-
Por enquanto é sufi uma palhoça pra passar a noite. Ou as noites.
-
É pra já.
-
Só se for pra ontem.
-
Alvejei aquela lá, ó!...
-
É a menos ruim das piores, é.
Montaram
nos cavalos de aço e rumaram para a oca indigitada. Expulsaram do gabioto os
seus fracassados habitantes. Com exceção da mulher que iria fazer a faxina e de
graça. E os malucos se instalaram com folga. As paredes da palhoça eram de
barro trazido de longe, o chão de terra batida e o telhado de folhas secas de
palmeira buriti. E cada um dos cinco ventoinhas já adivinhou o próprio canto
para se acomodar. Mata-Pai, chamou chamou:
-
Ei! Vamo jogá bisca ou menos copa?
Mata-Bolo,
Mata-Vizinho, Mata-Curumim e Mata-Pai se sentaram em volta da mesa para o jogo
de cartas. Mata-Piolho ficou de fora, talvez peruando, pra cá e pra lá espreitando
o jogo dos outros. E, diante da janela aberta, olhando lá pra fora para o
capoeirão para o tumulto do oco cinzento, uma hora, avisou avisou:
-
Olha! Aquela coisa ainda tá ardendo. Uma fumacinha subindo insistente, lenta e negligente.
A
noite na aldeia, a noite de sombras, a noite de saci rodando no redemoinho de
pó vermelho. Talvez uma mula sem cabeça. Quem sabe uma martinta-pereira.
Os
cinco lunáticos acordaram aí entre 10h e 11h. Todos com dor de cabeça, desertos
de ideias, doidos pra vadiar. A aldeã serviu o almoço: um preparado de pedras
roladas, pedrinhas lisas do fundo do riachinho seco, uns pedaços de latas
velhas temperadas de ferrugem.
-
Que tem aí na panela, dona Embaiá? - foi a pergunta genérica.
Depois,
os cinco seguiram nas motos para o capoeirão. Foram rever e cuidar do bolo
espacial. A poeira levantava na estradinha e era caótico. Chegaram perto da
coisa caída do espaço e reclamaram:
-
Porra! Que cheiro de não sei o quê!
-
Parece que esta coisa tá pela hora da morte!
-
Fede como mandato de político federal!
A
coisa ainda não esfriara. Saía uma fumaça provocante, metálica,
pós-carnavalesca. Por fora se formava uma crosta rachada crocante, mas por
dentro ainda latejava.
-
Parece uma bosta esfumando.
-
Cheiro é mesmo de algo passando mal.
-
Uta! Um vômito de cachorro cachaceiro.
Se
sentaram aí em volta, despreocupados e autossuficientes. Mata-Bolo cuspiu mesmo
sobre a coisa medonha e espacial; Mata-Curumim olhou a motoca, tateou-a,
alisou-a, preocupado com seu desempenho na poeira; Mata-Pai decidiu treinar
tiro nas latinhas incidentais por aí na capoeira; e Mata-Vizinho foi exercitar
abdominais apoiando uma mão subindo e descendo em pleno sertão inóspito.
Mata-Piolho
lembrou e continuou pensando... Em todo lugar que ia, lhe acudia aquela
lembrança ou pesadelo. Contava essas visões, às vezes contava, para os
camaradas e sócios e parceiros de cadeia: “Tudo foi que aconteceu naquele um
baile, muitos anos... em que cidade? As minas eram três e estavam lá dando mole,
mostrando a língua, fazendo sinal, rebolando. Dava impressão que queriam todos
os barbicachos do baile. Uma delas era muito interessante e inquieta e vermelha
nas bochechas e mecha de cabelo caindo nos olhos oblíquos. Me fixei nesta. Rodeei
rodeei o trio de gatas por um tempinho um tempinho. Rodeei a pista de dança. E
tomando cervejas, umas duas cervejas de latinha, indo e vindo pelo salão. Tomei
no mínimo umas cinco cervejas da mesma marca. É agora que a onça vai cutucar
com vara curta!, pensei naquela altura. E fui mesmo com sede ao pote de vereda
e cheio de decisão para intimar a guria, a tal guria. Tinha me resolvido, e
para não perder coragem, me resolvi e nem pensei mais nada, fui, cheguei e
convidei:
- Vamo dançá, índia
jucá?
“E
a moça me olhou de través, de lado, de cima pra baixo e de baixo pra cima. Ela
fez um muxoxo. Ela se finge, essa fingida - foi o que pensei rápido. E eu insisti,
olhando firme, uma cara azeda que eu tinha de porco bêbado babão:
- Vamo dançá, índia
camaiurá?
“E ela me
disse, me olhando na cara:
- Agora não,
índio crenacarore.
- E a magrinha
pode me dizer o porquê e o motivo?
- Posso. É porque
estou esperando um cara mais ajeitado mais maneiro.
“Aí,
eu peguei a bichinha pelo antebraço esquerdo, apertei e puxei a guria para o
centro do salão onde a gente se misturou com outros pares dançarinos. Eu segurei
a mina pela cintura; ela pousou as mãos nos meus ombros. No começo, pouco nos
olhamos. Ela tinha um bafo de pastilhas sabor menta. Giramos uma. Dançamos duas
músicas. Ela de cara virada para o outro lado. Eu já pretendia dançar a noite
toda; ela dançaria só uma, talvez, ou no máximo duas músicas. Ela balbuciou:
- Então, eu
agradeço... tá bom...
“Aí,
eu mesmo, futuro Mata-Piolho, decidi e resolvi que queria muito mais, até
porque, e falei:
- Ah, quê! É
cedo.
“Ela
soprou para o ar. E nessa hora já se chamava a Iraquara. Hum!... uns cabelos
longos até o meio das costas e até mais. Um olhar de aço inoxidável. Um corpo serpentino
de moça solteira e desimpedida. Um cheiro de terra molhada. Tinha todos os
dentes quando queria bocejar; uma boca que repuxava para um lado, discretamente,
manhosamente. Dois brincos, um em cada ponta de orelha. Eu tava mesmo me
beliscando e me achando.
“Rodamos
até as duas da matina. Já a prensara quantas vezes na parede? Eu lambi ela no
pescoço nos olhos no pé do pescoço na ponta do queixo na ponta do nariz. O meu burro
xucro já pinoteava na cueca e queria mais e latejava e os bagos até doíam uma
barbaridade.
“Não sei que
horas da madruga saímos do salão e fomos continuar os amassos apalpações e
grunhidos no estacionamento. Ali do lado do bailão, no lusco-fusco da hora. Trocamos
algumas ideias entre arretos agarrões empurrões, principalmente muitos chupões
e mordidas e nhe-nhe-nhés. Eu já arrepiado que nem um galo de briga e eram 6h e
6min:
- Amanhã eu
vou te buscar...
- Não, não
precisa...
- Mas eu te quero
muito, índia tupiná!
- Deixe
acontecer por acaso, índio crenacore!
A
vila perdida no mundo esquecida do mundo, coberta de poeira vermelha tocada do
vento revoltoso. Um dia alucinado, um dia cheio de terra vermelha, um dia igual
ao outro, outro dia perdido e tonto de calor. Nem chovia há dois anos e meio.
O
cometa é um objeto estelar. Sua visibilidade aumenta na razão correta da
proximidade do sol. Do núcleo do cometa, parte a imensa cauda ou cabeleira que
às vezes alcança centenas de milhares de quilômetros.
Cometa
é um astro que gira em torno do sol. Seu giro é periódico, cíclico.
Os
cometas são formados por compostos moleculares - água, gás amoníaco,
cianogênio, monóxido de carbono, dióxido de carbono e nitrogênio. Quantidades proporções
volumes nem são revelados.
Há
as caudas ou cabeleiras retilíneas; as caudas ou cabeleiras pouco curvas; e as
caudas ou cabeleiras muito curvas.
A
cada passagem o cometa perde uma intensidade devido ao gás ejetado.
Cometa:
grande corpo celeste viajando pelo espaço.
Asteróide:
pequeno corpo celeste viajando pelo espaço.
Meteoróide:
pedaço de cometa ou asteróide solto no espaço.
Meteoro:
pedaço de corpo celeste invadindo a atmosfera terrestre - chuva, raio, neve,
estrela cadente.
Meteorito:
pedaço de corpo celeste caído na superfície terrestre. Exemplo é o do Bendegó.
Conhecido
como estrela cadente, o fenômeno foi desde é sendo será ainda ao longo dos
tempos objeto do temor supersticioso dos homens.
O
meteoro é atraído pela gravidade da Terra, penetra na atmosfera terrestre, e aí
se fragmenta por causa da resistência que encontra. Em função do atrito, a
queda de um meteoro é sempre acompanhada de luminosidade e de um assobio forte
ou um estrondo prolongado.
Caída
a tarde ali no arraial de Santa Luzia, os cinco dedos voltavam para a palhoça.
O impiedoso bafo de estufa, então, dava lugar ao resfriado, às sombras
tumultuadas e a um ou outro guinchar de lobisomem.
Atônitos desnutridos encardidos, rodeando a
mesa tipo bicho, espreitavam a d. Embaiá servir o jantar.
-
Que é desta pedreira, dona Embaiá?
-
É guisado de pedras e capim-cheiroso seco. Pedras aqui da redondeza e ex-plantinhas
espinhentas e secas catadas em meio da capoeira incendiada: macega seca, barba-de-bode
seco, maracujazeiro seco...
Depois
do jantar, Mata-Piolho, Mata-Curumim, Mata-Vizinho e Mata-Pai jogaram bisca ou escova.
Mata-Bolo ficou cuidando o jogo, olhando os jogadores jogar, espiando as cartas
por cima dos ombros. Não podendo dar palpites nem apontar o dedo dava relinchos
ao fim de cada mão ou partida ou jogada.
A
noite era tenebrosa, foi tenebrosa, continuaria sendo tenebrosa, muito misteriosa,
cheia das obscuridades. O lobisomem saiu para caçar aldeãs solteiras e
frustradas. O caapora passeou montado num espírito de porca-do-mato. Os
diversos e diferentes sacis rodaram redemoinhos pela rua Única. E as coisas enigmáticas
aconteciam sem deixar de acontecer.
No
outro dia, os cinco farroupilhas acordaram entre 13h e 14h. As caraminholas de
cada qual envolvidas em nuvens de sons e de imagens, zunidos, zumbidos e delírios,
isso devido o excesso de sono.
No
almoço a dona Embaiá serviu sopa de pedras com fios secos de capitiçoba. Fritou
também uns dois ou três cabos de guarda-chuva e umas imprestáveis escovas de
dente.
Mais
tarde, os cinco jagunços foram ver o meteorito. Sempre de moto. Levantaram a
poeira vermelha com ousadia e até com orgulho. Os aldeões e as aldeãs e as
aldeãzinhas nem apareciam, se escondiam, mordidos de raiva. Os pivetes arteiros
atiraram pedras com os bodoque atiradeira funda e estilingue. O quinteto de
bandidos assim assim ali perto da torta espacial:
-
Olha, tá ficando cascão.
-
Mas ainda sofre por dentro.
-
Vai para dias ainda.
-
Eu acho que é de repartir enquanto tá mole.
-
Não, tá muito quente. Nada aguenta cortar isso daí.
-
Vamo esperá ficá seco e frio e duro.
Mata-Vizinho
tentou empurrar a coisa medonha com o pé, só pra calcular o tamanho do bicho;
Mata-Bolo olhou a força do verão sobre tudo que inexistia ou mal acontecia ali
no lugar; Mata-Curumim tossiu com as mãos no bolso no bolso; Mata-Pai cortava
as unhas dos pés com a adaga; Mata-Piolho teve que dizer até porque não
adiantava esconder e se omitir:
-
Repare que o troço fede pra mais de metro, meu!
-
É. É duro, mas é queijo.
-
Já disse e repito: é coisa feita de político federal.
Mata-Bolo
foi chutar pedras soltas lá entre os pés de capoeira seca, meio xucro, demente,
lembrando de uma história da sua curta trajetória juvenil mal contada e mal destinada
e inditosa.
E Mata-Bolo foi
lembrando tudo isso. Era uma vez um piá que ainda não se chamava Mata-Bolo. Ele
subia em árvores altas para se esconder ou para olhar longe ou ainda para
aparecer e se exibir. Ele até subia em pinheiros-do-paraná. Subia nos arcos da
ponte sobre o rio das Antas. Aprendeu a nadar, apesar de sempre ter tido
pesadelos com água. Todo mundo gozava dele. Era o palhaço da família, da rua, do
bairro, da escola e do mundo inteiro.
Foi
também um culepe que gostava de ir atrás da prima. A prima Guamixira. A prima
predileta. A prima de olhos negros, veias azuis, língua borboleta, lábios verdes,
dentes brancos. A prima com a qual fazia artes e arruaças. Andavam sempre
juntos, brigando e se puxando o saco.
Os
dois peraltas se escondiam e se agarravam no escuro. Os dois tantãs se perdiam
e se arranhavam atrás das coisas. Um na garupa do outro. Trocavam de roupa
trocavam de nome e de gênero. Mas isso passou até muito rápido no tempo. Passou
mesmo a época e parece que não aconteceu lá grandes coisas concretas.
A
vila de Santa Luzia estava em silêncio e mergulhada em poeira vermelha. Tudo em
volta uma quietude um abandono. O deserto onde só o vento cheio de poeira
funcionava. E uns sacis de vez em quando com remoinhos em espiral.
Os
cinco degas retornaram para a aldeia. Rente à noite. Alguns guris jogaram paus
e pedras quando os foragidos passaram fazendo barulho. Depois de atirar as
pedras, a curuminzada correu se esconder para não levar balas. Pois
Mata-Curumim parou e detonou tiros de trabuco. Parece mesmo que pegou um
moleque com bala perdida. E podia, pois não! o resto do caldo até entornar.
Depois
de uma sopinha de tabuinhas podres com raminhos secos de cravina-do-campo, foram
para o jogo da bisca. O Mata-Pai sobrou dessa vez. Ele andou pelas costas dos
jogadores olhando as cartas dos jogadores e roendo as unhas na expectativa das
apostas e jogadas. Ficava de plantão atrás dos jogadores. Uma mão segurando o
cotovelo e a seguinte o queixo.
A
noite ficou mesmo sem estrela sem lua. Toda cheia de ondas de poeira. Um casal de
lobisomens uivava na região. Jurupari solto e invisível arrastando correntes urrando
como extinta jaguatirica no cio.
Já
o outro dia cinzento e pegajoso, entre 12h e 13h, as ideias turvas, hálito de
cabo de vassoura assado. Isso para todos os quintos. Isso para cada cada um
mesmo. No almoço a mulher lhes apresentou sopa de pedras lascadas com
gravetinhos secos de cambuci.
Pegaram
suas enferrujadas empoeiradas tremendas motocas e rumaram para o posto do
meteorito. A fumacinha estava lá subindo preguiçosamente, tá então, mas
diminuída comparando com outros dias. Dava o que pensar. Dos cinco facínoras o Mata-Piolho,
pregou:
-
Esta polenta cósmica não esfria nunca, tchê?!
-
Espeta ela com uma vara de ex-embaúba-da-pedra.
-
Você não manda em mim, meu!
-
Tá pedra por fora e fogo por dentro.
-
Será que nóis consegue uns quilos de ouro? Duvideodó!
-
Não afirmo e nem desespero.
Mata-Pai
se afastou uns vinte metros, coçando a perna; Mata-Vizinho viu o relógio,
exatamente 14h e 30min; Mata-Curumim pensou se deitar por ali mesmo, caso
tivesse sombra, e nem tinha sombra alguma; Mata-Bolo percebeu que não havia nada
se mexendo em lugar algum naquela capoeira seca; Mata-Piolho abriu os braços
para o alto e bufou um bocejo.
Mata-Pai
se sentou numa pedra quente, afastado dos outros quatro, longe do bolo estelar.
Levava já um olhar pensativo, distante no passado, não se sabe com ou sem
remorsos.
Mata-Pai
não era Mata-Pai, ainda. Trabalhava na fábrica de carrocerias em Nova Prata , eternamente
sujo de graxa e profundamente interessado numa galega chamada Jeriba. Todo
mundo, aliás, estava a fim daqueles peitos e lábios e dentes grandes. Jeriba
era uma moçona, um distúrbio dos sentidos, uma mega-sena, uma taça de
campeonato, um sapato salto agulha, um traseiro de dar insônia, um samba de
pagode, um cabelo grosso e largo e alto, um olho cheio de sombra.
Um
dia, na mesma fábrica, no horário do meio-dia, o ainda não Mata-Pai falou uma anedotinha
no ouvido de Jeriba. Ele falou:
- Deixa eu
fazer cócegas de língua nas tuas orelhinhas?
E ela abriu os
olhos neutros. E até se interessou mais que o previsto. Mata-Pai, ainda
não-Mata-Pai, voltou pra casa e se olhou no espelho, admitiu perguntando:
- Será que foram
os meus olhos pretos de jabuticaba noturna?
Todo o mundo,
fala sério!, acha que tem olhar de cobra-coral. Pelo nem ou pelo não, futuro
Mata-Pai encheu a caveira de cerveja. Foi na geladeira e encheu o casco de ceva
até terminar o futebol na tevê.
Semana
posterior, na mesma fábrica de carrocerias, correu atrás do seu pesadelo - qual
seria? Ficar, segurar, agarrar e derrubar de comprido a pretendida Jeriba. E na
primeira chance daquela segunda vez pegou na mão. Ela o olhou e lhe mostrou os
dois dentes de tapiti; também lembrando decerto das cócegas nas orelhas. Resultado
total: ainda não-Mata-Pai acompanhou Jeriba até em casa. A rua dela era no fim
do mundo, sem nome, sem calçamento, sem ônibus, poeirenta, cães latindo e cheia
de traficantes atravancando os becos assobiando pelos escuros e no alto das mangabeiras.
Namoraram
dois meses? Lá se foram dois meses. Falaram com os pais dela, principalmente.
Foram alugar duas peças com banheiro no bairro Iurimagua perto da fábrica,
decididos que estavam a morar juntos e abraçados. E os meses... hem?! Transavam
de assustar a vizinhança. Batiam nas fracas paredes, subiam por elas e ainda
grunhiam como antas como jacarés como sucuris. Brigavam somente de vez enquanto
e quase todos os dias, sempre na mesma hora pouco antes de ir pra cama. E
voltavam a se jurar fidelidade na manhã de ressaca.
Ali
na vila de Santa Luzia, que horas seriam?, o empanado astro rolou para trás
daquele morro, definitivamente. Os motoqueiros foram para o casinholo. Tinham
caldo de pedra para o jantar. E ainda beliscaram uns gravetos de ripas de antigos
cercados de ex-taquaras-pocas.
-
Onde achou tudo isso tudo, dona Embaiá?
Mata-Vizinho
ficou fora da bisca ou da menos copas. Se sentou na janela da salinha e cuidou
olhar lá fora o oco esfumaçado. Queria ver se tinha de descobrir por acaso uma
estrela decadente. Fumava um bagulho e soprava para as nuvens de areia. A escuridão
tinha seu lobisomem escondido ali por perto. Talvez curupira atravessando o
rasto da martinta-pereira.
No
dia imediato, entre 11h e 30min e 12h e 40min, os cinco desgraçados já
almoçavam. Dona Embaiá preparara assim: pedaços de arame farpado, compotas de pneu
de bicicleta, cacos de garrafa de diversas cores, lascas de casas de caramujo
colhidas no capoeirão queimado.
Daí,
os mãos-leves foram para o serviço. Chegando lá tentaram, na força bruta dos
dez braços peludos, mexer, sacudir que seja, e até erguer, levantar o
meteorito. Este, que era muito pesado e muito fundo no chão seco, não se deixou
abalar. Um dos cinco, o cara de fuinha Mata-Piolho, brabejou:
-
Sabe, eu detesto essa fumacinha! E parece que nunca nunca deixará de queimar e de
feder ali por dentro!
-
Mas é preciso persistir na desesperança, cambada!
-
Se nóis botasse umas dinamite?
-
Não, espalhará muito material por aí. É arriscado. De repente seria burrice. De
repente seria explodir com os ovos de ouro.
-
Vamos telefonar e convidar um trator retroescavadeira?
-
Peraí, né! Enquanto não esfriar o troço... que que adianta.
-
É, temos que saber tudo certinho o que o medonho contém no bucho.
Mata-Bolo,
mãos nos bolsos, pensava umas coisas sempre sem importância para o mundo,
coisas dele mesmo; Mata-Vizinho queria beber a gasolina da moto e sentar na
sombra ou deitar numa rede de carijó; Mata-Curumim pensava sair ileso daquela
enrascada e se aposentar e morar definitivamente em Brasília; Mata-Pai reparava
o estado das botas cambaias e o dedão de fora com unha encravada; Mata-Piolho olhava
para as nuvens vermelhas lentas pesadas de poeira. E até nem chovia desde
muitos esquecidos anos.
Mata-Vizinho,
esgar amarelo de canto de boca, pensava uma coisa deixada bem lá para trás na
lembrança e muito pouco provável de ser novamente alcançada. Era uma passagem
que não esquecia. Aproveitável no oco das noites ou das horas do dia como
aquela. Enquanto pensava, decidiu também desenferrujar as pernas e caminhar
pelo capoeirão. Recordava como tinha sido o tal encontro com a Guatiedéo. Ela,
entre um gole e outro de cerveja, perguntara intimara:
- Ei! Você me quer?
Fala logo, hum!
Mata-Vizinho,
na época não-Mata-Vizinho, ficou sem palavras e nem queria testemunhar. Nem
tinha encabulado, mas também ficou sem saber o que responder. E pensou mesmo:
por que toda pergunta tem que ter sua precisa resposta? Assim, pediu licença e
foi ao banheiro. Depois voltou e esqueceu o assunto; Guatiedéo, idem.
Pois
Mata-Vizinho olhava a namorada muito friamente. Tinha os seus planos sem
enganos. Podia acontecer como previa? Com Guatiedéo não tinha essa de falta do
que falar, não. Assunto era com ela. Discutiam de futebol até música
instrumental, passando por novelas de tevê, políticos corruptos e a vida alheia.
E o principal: Guatiedéo não se importava de ficar domingo de tarde em casa
assistindo jogo de futebol. O que pegava mesmo, no caso de Guatiedéo, eram os
seus seios incipientes. E para adiantar onisciência, Guatiedéo tinha um
mistério um segredo que Mata-Vizinho (futuro) não descobrira até então, e que
se viesse a descobrir se encheria de horror de horror.
Mais
um dia comum na vilinha coberta de cinzas. E logo na janta, para a turma de
zagueiros brucutus, a dona Embaiá preparou um filé de sola de pneu de jamanta,
uma salada de guanxuma esturricada, umas folhinhas secas de jatobá, umas fibras
incineradas de embira-de-porco, um ensopado de seixos rolados.
-
Que pneu foi esse, dona Embaiá?
-
Ora, pneu de patrola! Que o nome científico é motoniveladora.
Mata-Curumim
não jogou bisca naquela noite, nem jogou tressetes. Decidiu conversar com seus
pensamentos que saíam e vinham que iam e voltavam. Umas dúvidas interiores que
cavavam fundo arranhavam.
A
noite iniciou com um saci escapulindo do redemoinho de poeira vermelha e que assobiou
assustando querendo assustar. Um acoo de lobisomem ecoou na escuridão indevassável.
No
dia amanhecido acordaram entre 11h e 30min e 14h. Almoçaram o outro tanto que
sobrara da gororoba de pneu de carreta mais folhas secas de ex-paineiras.
Os
todos v seguiram para o trabalho difícil de cuidar, vigiar, guardar... o
esfriamento do meteorito. Cada qual na sua moto preferida, maltratada, mal-encarada,
enferrujada, endiabrada, envenenada. Não estavam nem preocupados, nem nervosos,
nem desiludidos, nem com dificuldades de fumo, nem com abstinência de
assassinar. Estavam confiantes no ouro, ou na prata, ou ainda no cobre que o
artefato sideral lhes proporcionaria. Então, aceleraram muito as máquinas para
assustar os aldeões as aldeãs os aldeõezinhos e sacizinhos encontrados no
caminho. Chegando até o posto fixo do meteorito trocaram estas suplentes ideias
maníacas:
-
Acho que tô ficando surdo.
-
Hum?... Como? Quem, porém?
-
O meteorito tá calmo, não?! Nem fumaceia mais, o medonho. Nem cheira mais, o
droga. Nem caga mais, o político estadual.
-
Vocês não estão ouvindo um zumbido? Parece um trem lenga-lenga!...
lenga-lenga!... E vem nessa direção...
-
Não entendi! Fala alto!!
-
O oco vermelho muito baixo...
-
Não tô nem podendo te ouvir.
-
Desenrolem a língua, macacada!
Mata-Bolo,
a língua inchada, chutou uma pedrinha com o bico da chinela de borracha;
Mata-Vizinho percebeu que as nuvens vermelhas arrastavam os morros vermelhos e as
pedras vermelhas; Mata-Curumim achou que um meteorito era muito pouco para
cinco dedos maus e ruins e péssimos; Mata-Pai sentiu um vazio de fome e uma
ardência de sede; Mata-Piolho penteou o cabelo com os dedos da mão esquerda,
sem querer, pensando coisa sem cabimento, bobo, zonzo.
Mata-Curumim
abriu as pernas como um touro guaxo, cruzou os braços e ficou querendo pensar
uma lembrança que sempre lhe ocorria lembrar quando podia. Era já uma coisa
usada e abusada das suas ideias. Uma coisa já pronta e acabada, com começo meio
e fim. E uma recordação muito insistente.
Então,
Mata-Curumim lembrou aquela noite com a Cendira. Foram para o quartinho da zona.
Ele já suficientemente pronto, o burrichó todo perfilado em posição de sentido,
de cabeça polida alta e olímpica.
Logo
logo os dois no interior do reservado. Uma cama de casal sofrível. Fecharam porta
do quarto e porta do banheiro. Cendira queria a luz apagada. Ele queria a luz
acesa. Ficou a luz acesa mesmo. Ela reinou até a página doze. Ela levou um tapa
no ouvido de cá, levou outro no ouvido de lá. Aí mostrou a língua com a cor de bala
de hortelã. De repente ele, Mata-Curumim (futuro), foi e tirou a roupa toda.
Estava pronto que nem o burro diante da mula. Ela com os cabelos desgrenhados cheirou
tudo e viu tudo. A luz acesa era para isso mesmo. Ele falou calmo o suficiente
como um bandido gosta de parecer:
-
Tá esperando o quê?
Cendira
procurou um refúgio para tirar a roupa. Ela só entendia de cabra-da-peste ou
pai-d’egua ou gaudério ou manezinho. Não, o banheiro já estava de porta fechada.
Então, Mata-Curumim (futuro) decidiu agilizar o troço. Com nervoso e pressa foi
ajudando a sacar as peças e apetrechos e aparelhos e arreios. Ela também viu
que tinha de rezar e ajoelhou. Ele falou e disse já muito zangão:
- Dá um chego
aqui, mina!
Talvez ele
achasse que ela não soubesse, talvez. Esticaram-se na cama. Ele, para começar,
já escolheu dos o menor buraco. Que por acaso nem era para ela o ponto a
posição mais recomendável. Mas foi assim como o tal e qual livre arbítrio entre
os dois para quatro paredes.
O
(futuro) Mata-Curumim fechou os olhos, sentiu os amendoins apertando contra o
ninho da caranguejeira. E ela sentiu lá dentro uma coceira que pedia socorro e
mais e mais e por fervor. Aquilo podia ser sem sombra de dúvidas uma bobagem só
para animais sem razão. E era mesmo, pois não! A cama ia junto. Mas eles não
sabiam que a cama batia na parede. Ele olhava para ela, ela olhava para ele:
queriam se matar ali sem dó nem piedade. E poderiam ficar por horas e horas sem
saber se as horas passavam. Era um tremendo exercício suado, urrado, assobiado
e sem esforço algum. Sentiam muito, não gastavam nada, gritavam por gritar, não
sentiam calo nenhum. Ele pirou com cara de ódio e procurou mordê-la na boca. E
a onça-pintada câmara lenta... escancarou a bocanha de dentes salivados.
A
vila de Santa Luzia era o fim do caminho. Não chovia havia mil e setecentos
anos. Os lobisomens se criavam pelo capoeirão esturricado. As pedras emagreciam
a olhos vistos. O vento levantava nuvens de poeira vermelha. O vento virava a
curva e retornava com mais uma caçamba de areia nos olhos.
Os
cinco estavam em volta do meteorito prontos para voltar para a palhoça. Nada se
mexia ali na roda. Um silêncio de deserto mesmo. Os quintos famigerados olhavam
a coisa espacial. Insistiam olhar o objeto caído que veio do oco. Os v estavam
agora caladões, e sem saber por quê. Os cinco, e cada qual, estavam com um
zunido no labirinto do ouvido.
Pois
então, os cinco tolos não sabiam de onde vieram para parar naquele lugar seco e
caloroso e fodido até demais. Os cinco traficantes eram somente cinco. Os cinco
tropeçaram nos próprios pés. Os cinco tombaram de boca, totalmente de boca
aberta, no pó vermelho do capoeirão. No mesmo segundo, juntos, como ensaiados.
Os cinco porcarias já eram, e pronto, tum!... no chão de poeira vermelha.
Meia
hora depois, os cinco aloprados viraram churrasquinhos e espetinhos e sopinhas
e caldinhos nos paladares apetites gulosos dos aldeões e das aldeãs. E tudo ali
continuaria e prosseguiria em cheio às cinzentas nuvens de cinzas. E tudo persistiria
do mesmo jeito e estilo sem chover sem chover desde milênios.
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