sexta-feira, 26 de maio de 2017

Contos de Santa Luzia (11)



                                                           


            A aldeia de Santa Luzia levou uma pedrada e tanto. A pedrada quase a acertou em cheio, foi por pouco, caiu ali no capoeirão, na beiradinha do povoadinho, incendiando a capoeira. Todo o seco capoeiral pegou fogo. E parecia tudo surreal, ramos secos de capoeira crepitando pedras estalando e uma fornalha queimando.
E a pedra veio do espaço atravessando mistérios inéditos e profundos. Cruzou veloz o universo embolada em fogo e caiu ali, se fazendo de morta e pegando fogo esfumaçando chiando na fervura se cozinhando por fora e por dentro. Os aldeões e as aldeãs cuidaram uma distância olhos esbugalhados pelos arrepiados.
- Era só o que faltava, tá!
- Daqui a pouco já vem uma explosão, quer ver?!
            Imediatamente chegaram à vilinha cinco forasteiros atraídos pelo fogaréu do fenômeno promessa de ouro cheiro de carniça. Cinco maus elementos todos ávidos por aventuras, encrencas, resultados práticos e recompensadores. Eram cinco dentes-secos, uta! se eram, cinco cascas-grossas, cinco matadores impiedosos, os tais e quais: o Mata-Piolho, o Mata-Bolo, o Mata-Pai, o Mata-Vizinho e o Mata-Curumim.
Com idades que variavam entre vinte e vinte e nove. Com crimes hediondos nas costas que variavam de quinze a trinta e dois óbitos. Penas entre cento e dez a mil trezentos e quarenta anos. Doutores formados, e fugidos, nos melhores presídios universitários federais. Donos todos, então, de currículo inquestionável, respeitável, longo e pesado. Cada um precisaria de carrinho de mão para mover sua obra calhamaçosa.
            Os cinco cramulhões chegaram juntos, montados em motos poeirentas, barulhentas, cento e vinte e cinco cilindradas. Armados até os dentes de armas brancas e de fogo trançados de cartucheiras, fuzil a tiracolo adaga na cinta. Desembarcaram, apearam, desmontaram, bolearam a perna já ali no centro do estrago. Rodearam a gosma viscosa e fumegante. Olharam em volta pelo capoeirão. Em o geral não sabiam o que fazer ou desfazer. O lugar era todo desassistido. Lugar de nada. Desertão de terra vermelha e capoeira seca. Nem chovia há cinco anos.
Um dos se acocorou e fumou seu cigarro de maconha; outro mijou ali mesmo enquanto olhava o céu sujo de poeira; dois deles se sentaram de braços cruzados, cada um no selim da sua motoca, olhando para o fogo ardido da coisa espacial; e o último parou em pé como um boneco inflável de posto de gasolina um x de pernas abertas e braços ao alto.
            - Terá ouro, prata ou bronze?
            - Dizem que pode haver ouro, e até diamante.
            - Mas está em magma ardido.
            - Temos tempo...
            - Se chovesse pelo menos...
            - Que cheiro gozado tem essa joça.
            Havia dois anos que não chovia. Mormaço impossível de abril ou maio. Não chovia mesmo há séculos e séculos. O capoeirão requeimado e coberto de pó vermelho. Pelo chão rasteiro guanxumas esturricadas, barbas-de-bode queimadas, chapéus-de-sol-de-sapo petrificados, macegas incineradas. Plantação de pedras, pedregulho e tucurus desabitados. Um calorão que não dava para suportar.
            Os motoqueiros da fuzarca em suas máquinas endiabradas foram até a aldeia. Subiram e desceram a única rua. Fizeram barulho e levantaram poeira e brita. Os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos escondidos e irritados com os escapamentos abertos o vaivém das medonhas. Aí, os invasores pararam na frente do ex-açougue. Pixotes de pés descalços, magros, pilungos, comendo ranho, brincavam de se arrastar ali pela poeira na área da pracinha. A gangue de mão cheia entrou no ex-açougue fazer o quê? Mata-Vizinho perguntou ao ex-açougueiro:
            - Então, onde temos aí uma pousada?
            - Pousada? Não, não existem pousadas, nem casas de pensão, nem quartos para alugar, nem ranchos para pernoitar, nem tavernas para beber, nem boates para dançar, nem armazéns para comprar mantimentos, nem etc.
            Os cavaleiros montaram nas endiabradas e saíram acelerando nervosos, levantando poeira e espirrando pedrinhas na derrapada. Andaram pela rua como idiotas completos e tontos e encourados. Foram sossegar, em o após, na calçada de laje da capela. Mata-Bolo tinha a sua ideia pontiaguda:
            - Então. Então, nóis aluga uma choça.
            - Até que a goma esfrie.
            - Eu tô é a fim de atirar em gente correndo.
            - Por enquanto é sufi uma palhoça pra passar a noite. Ou as noites.
            - É pra já.
            - Só se for pra ontem.
            - Alvejei aquela lá, ó!...
            - É a menos ruim das piores, é.
            Montaram nos cavalos de aço e rumaram para a oca indigitada. Expulsaram do gabioto os seus fracassados habitantes. Com exceção da mulher que iria fazer a faxina e de graça. E os malucos se instalaram com folga. As paredes da palhoça eram de barro trazido de longe, o chão de terra batida e o telhado de folhas secas de palmeira buriti. E cada um dos cinco ventoinhas já adivinhou o próprio canto para se acomodar. Mata-Pai, chamou chamou:
            - Ei! Vamo jogá bisca ou menos copa?
            Mata-Bolo, Mata-Vizinho, Mata-Curumim e Mata-Pai se sentaram em volta da mesa para o jogo de cartas. Mata-Piolho ficou de fora, talvez peruando, pra cá e pra lá espreitando o jogo dos outros. E, diante da janela aberta, olhando lá pra fora para o capoeirão para o tumulto do oco cinzento, uma hora, avisou avisou:
            - Olha! Aquela coisa ainda tá ardendo. Uma fumacinha subindo insistente, lenta e negligente.
            A noite na aldeia, a noite de sombras, a noite de saci rodando no redemoinho de pó vermelho. Talvez uma mula sem cabeça. Quem sabe uma martinta-pereira.
            Os cinco lunáticos acordaram aí entre 10h e 11h. Todos com dor de cabeça, desertos de ideias, doidos pra vadiar. A aldeã serviu o almoço: um preparado de pedras roladas, pedrinhas lisas do fundo do riachinho seco, uns pedaços de latas velhas temperadas de ferrugem.
            - Que tem aí na panela, dona Embaiá? - foi a pergunta genérica.
            Depois, os cinco seguiram nas motos para o capoeirão. Foram rever e cuidar do bolo espacial. A poeira levantava na estradinha e era caótico. Chegaram perto da coisa caída do espaço e reclamaram:
            - Porra! Que cheiro de não sei o quê!
            - Parece que esta coisa tá pela hora da morte!
            - Fede como mandato de político federal!
            A coisa ainda não esfriara. Saía uma fumaça provocante, metálica, pós-carnavalesca. Por fora se formava uma crosta rachada crocante, mas por dentro ainda latejava.
            - Parece uma bosta esfumando.
            - Cheiro é mesmo de algo passando mal.
            - Uta! Um vômito de cachorro cachaceiro.     
            Se sentaram aí em volta, despreocupados e autossuficientes. Mata-Bolo cuspiu mesmo sobre a coisa medonha e espacial; Mata-Curumim olhou a motoca, tateou-a, alisou-a, preocupado com seu desempenho na poeira; Mata-Pai decidiu treinar tiro nas latinhas incidentais por aí na capoeira; e Mata-Vizinho foi exercitar abdominais apoiando uma mão subindo e descendo em pleno sertão inóspito.
            Mata-Piolho lembrou e continuou pensando... Em todo lugar que ia, lhe acudia aquela lembrança ou pesadelo. Contava essas visões, às vezes contava, para os camaradas e sócios e parceiros de cadeia: “Tudo foi que aconteceu naquele um baile, muitos anos... em que cidade? As minas eram três e estavam lá dando mole, mostrando a língua, fazendo sinal, rebolando. Dava impressão que queriam todos os barbicachos do baile. Uma delas era muito interessante e inquieta e vermelha nas bochechas e mecha de cabelo caindo nos olhos oblíquos. Me fixei nesta. Rodeei rodeei o trio de gatas por um tempinho um tempinho. Rodeei a pista de dança. E tomando cervejas, umas duas cervejas de latinha, indo e vindo pelo salão. Tomei no mínimo umas cinco cervejas da mesma marca. É agora que a onça vai cutucar com vara curta!, pensei naquela altura. E fui mesmo com sede ao pote de vereda e cheio de decisão para intimar a guria, a tal guria. Tinha me resolvido, e para não perder coragem, me resolvi e nem pensei mais nada, fui, cheguei e convidei:
- Vamo dançá, índia jucá?
            “E a moça me olhou de través, de lado, de cima pra baixo e de baixo pra cima. Ela fez um muxoxo. Ela se finge, essa fingida - foi o que pensei rápido. E eu insisti, olhando firme, uma cara azeda que eu tinha de porco bêbado babão:
- Vamo dançá, índia camaiurá?
“E ela me disse, me olhando na cara:
- Agora não, índio crenacarore.
- E a magrinha pode me dizer o porquê e o motivo?
- Posso. É porque estou esperando um cara mais ajeitado mais maneiro.
            “Aí, eu peguei a bichinha pelo antebraço esquerdo, apertei e puxei a guria para o centro do salão onde a gente se misturou com outros pares dançarinos. Eu segurei a mina pela cintura; ela pousou as mãos nos meus ombros. No começo, pouco nos olhamos. Ela tinha um bafo de pastilhas sabor menta. Giramos uma. Dançamos duas músicas. Ela de cara virada para o outro lado. Eu já pretendia dançar a noite toda; ela dançaria só uma, talvez, ou no máximo duas músicas. Ela balbuciou:
- Então, eu agradeço... tá bom...
            “Aí, eu mesmo, futuro Mata-Piolho, decidi e resolvi que queria muito mais, até porque, e falei:
- Ah, quê! É cedo.
            “Ela soprou para o ar. E nessa hora já se chamava a Iraquara. Hum!... uns cabelos longos até o meio das costas e até mais. Um olhar de aço inoxidável. Um corpo serpentino de moça solteira e desimpedida. Um cheiro de terra molhada. Tinha todos os dentes quando queria bocejar; uma boca que repuxava para um lado, discretamente, manhosamente. Dois brincos, um em cada ponta de orelha. Eu tava mesmo me beliscando e me achando.
            “Rodamos até as duas da matina. Já a prensara quantas vezes na parede? Eu lambi ela no pescoço nos olhos no pé do pescoço na ponta do queixo na ponta do nariz. O meu burro xucro já pinoteava na cueca e queria mais e latejava e os bagos até doíam uma barbaridade.
“Não sei que horas da madruga saímos do salão e fomos continuar os amassos apalpações e grunhidos no estacionamento. Ali do lado do bailão, no lusco-fusco da hora. Trocamos algumas ideias entre arretos agarrões empurrões, principalmente muitos chupões e mordidas e nhe-nhe-nhés. Eu já arrepiado que nem um galo de briga e eram 6h e 6min:
- Amanhã eu vou te buscar...
- Não, não precisa...
- Mas eu te quero muito, índia tupiná!
- Deixe acontecer por acaso, índio crenacore!
            A vila perdida no mundo esquecida do mundo, coberta de poeira vermelha tocada do vento revoltoso. Um dia alucinado, um dia cheio de terra vermelha, um dia igual ao outro, outro dia perdido e tonto de calor. Nem chovia há dois anos e meio.
            O cometa é um objeto estelar. Sua visibilidade aumenta na razão correta da proximidade do sol. Do núcleo do cometa, parte a imensa cauda ou cabeleira que às vezes alcança centenas de milhares de quilômetros.
            Cometa é um astro que gira em torno do sol. Seu giro é periódico, cíclico.
            Os cometas são formados por compostos moleculares - água, gás amoníaco, cianogênio, monóxido de carbono, dióxido de carbono e nitrogênio. Quantidades proporções volumes nem são revelados.
            Há as caudas ou cabeleiras retilíneas; as caudas ou cabeleiras pouco curvas; e as caudas ou cabeleiras muito curvas.
            A cada passagem o cometa perde uma intensidade devido ao gás ejetado.
            Cometa: grande corpo celeste viajando pelo espaço.
            Asteróide: pequeno corpo celeste viajando pelo espaço.
            Meteoróide: pedaço de cometa ou asteróide solto no espaço.
            Meteoro: pedaço de corpo celeste invadindo a atmosfera terrestre - chuva, raio, neve, estrela cadente.
            Meteorito: pedaço de corpo celeste caído na superfície terrestre. Exemplo é o do Bendegó.
            Conhecido como estrela cadente, o fenômeno foi desde é sendo será ainda ao longo dos tempos objeto do temor supersticioso dos homens.
            O meteoro é atraído pela gravidade da Terra, penetra na atmosfera terrestre, e aí se fragmenta por causa da resistência que encontra. Em função do atrito, a queda de um meteoro é sempre acompanhada de luminosidade e de um assobio forte ou um estrondo prolongado.
            Caída a tarde ali no arraial de Santa Luzia, os cinco dedos voltavam para a palhoça. O impiedoso bafo de estufa, então, dava lugar ao resfriado, às sombras tumultuadas e a um ou outro guinchar de lobisomem.
 Atônitos desnutridos encardidos, rodeando a mesa tipo bicho, espreitavam a d. Embaiá servir o jantar.
            - Que é desta pedreira, dona Embaiá?
            - É guisado de pedras e capim-cheiroso seco. Pedras aqui da redondeza e ex-plantinhas espinhentas e secas catadas em meio da capoeira incendiada: macega seca, barba-de-bode seco, maracujazeiro seco...
            Depois do jantar, Mata-Piolho, Mata-Curumim, Mata-Vizinho e Mata-Pai jogaram bisca ou escova. Mata-Bolo ficou cuidando o jogo, olhando os jogadores jogar, espiando as cartas por cima dos ombros. Não podendo dar palpites nem apontar o dedo dava relinchos ao fim de cada mão ou partida ou jogada.
            A noite era tenebrosa, foi tenebrosa, continuaria sendo tenebrosa, muito misteriosa, cheia das obscuridades. O lobisomem saiu para caçar aldeãs solteiras e frustradas. O caapora passeou montado num espírito de porca-do-mato. Os diversos e diferentes sacis rodaram redemoinhos pela rua Única. E as coisas enigmáticas aconteciam sem deixar de acontecer.
            No outro dia, os cinco farroupilhas acordaram entre 13h e 14h. As caraminholas de cada qual envolvidas em nuvens de sons e de imagens, zunidos, zumbidos e delírios, isso devido o excesso de sono.
            No almoço a dona Embaiá serviu sopa de pedras com fios secos de capitiçoba. Fritou também uns dois ou três cabos de guarda-chuva e umas imprestáveis escovas de dente.
            Mais tarde, os cinco jagunços foram ver o meteorito. Sempre de moto. Levantaram a poeira vermelha com ousadia e até com orgulho. Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas nem apareciam, se escondiam, mordidos de raiva. Os pivetes arteiros atiraram pedras com os bodoque atiradeira funda e estilingue. O quinteto de bandidos assim assim ali perto da torta espacial:
            - Olha, tá ficando cascão.
            - Mas ainda sofre por dentro.
            - Vai para dias ainda.
            - Eu acho que é de repartir enquanto tá mole.
            - Não, tá muito quente. Nada aguenta cortar isso daí.
            - Vamo esperá ficá seco e frio e duro.
            Mata-Vizinho tentou empurrar a coisa medonha com o pé, só pra calcular o tamanho do bicho; Mata-Bolo olhou a força do verão sobre tudo que inexistia ou mal acontecia ali no lugar; Mata-Curumim tossiu com as mãos no bolso no bolso; Mata-Pai cortava as unhas dos pés com a adaga; Mata-Piolho teve que dizer até porque não adiantava esconder e se omitir:
            - Repare que o troço fede pra mais de metro, meu!
            - É. É duro, mas é queijo.
            - Já disse e repito: é coisa feita de político federal.
            Mata-Bolo foi chutar pedras soltas lá entre os pés de capoeira seca, meio xucro, demente, lembrando de uma história da sua curta trajetória juvenil mal contada e mal destinada e inditosa.
E Mata-Bolo foi lembrando tudo isso. Era uma vez um piá que ainda não se chamava Mata-Bolo. Ele subia em árvores altas para se esconder ou para olhar longe ou ainda para aparecer e se exibir. Ele até subia em pinheiros-do-paraná. Subia nos arcos da ponte sobre o rio das Antas. Aprendeu a nadar, apesar de sempre ter tido pesadelos com água. Todo mundo gozava dele. Era o palhaço da família, da rua, do bairro, da escola e do mundo inteiro.
            Foi também um culepe que gostava de ir atrás da prima. A prima Guamixira. A prima predileta. A prima de olhos negros, veias azuis, língua borboleta, lábios verdes, dentes brancos. A prima com a qual fazia artes e arruaças. Andavam sempre juntos, brigando e se puxando o saco.
            Os dois peraltas se escondiam e se agarravam no escuro. Os dois tantãs se perdiam e se arranhavam atrás das coisas. Um na garupa do outro. Trocavam de roupa trocavam de nome e de gênero. Mas isso passou até muito rápido no tempo. Passou mesmo a época e parece que não aconteceu lá grandes coisas concretas.
            A vila de Santa Luzia estava em silêncio e mergulhada em poeira vermelha. Tudo em volta uma quietude um abandono. O deserto onde só o vento cheio de poeira funcionava. E uns sacis de vez em quando com remoinhos em espiral.
            Os cinco degas retornaram para a aldeia. Rente à noite. Alguns guris jogaram paus e pedras quando os foragidos passaram fazendo barulho. Depois de atirar as pedras, a curuminzada correu se esconder para não levar balas. Pois Mata-Curumim parou e detonou tiros de trabuco. Parece mesmo que pegou um moleque com bala perdida. E podia, pois não! o resto do caldo até entornar.
            Depois de uma sopinha de tabuinhas podres com raminhos secos de cravina-do-campo, foram para o jogo da bisca. O Mata-Pai sobrou dessa vez. Ele andou pelas costas dos jogadores olhando as cartas dos jogadores e roendo as unhas na expectativa das apostas e jogadas. Ficava de plantão atrás dos jogadores. Uma mão segurando o cotovelo e a seguinte o queixo.
            A noite ficou mesmo sem estrela sem lua. Toda cheia de ondas de poeira. Um casal de lobisomens uivava na região. Jurupari solto e invisível arrastando correntes urrando como extinta jaguatirica no cio.
            Já o outro dia cinzento e pegajoso, entre 12h e 13h, as ideias turvas, hálito de cabo de vassoura assado. Isso para todos os quintos. Isso para cada cada um mesmo. No almoço a mulher lhes apresentou sopa de pedras lascadas com gravetinhos secos de cambuci.
            Pegaram suas enferrujadas empoeiradas tremendas motocas e rumaram para o posto do meteorito. A fumacinha estava lá subindo preguiçosamente, tá então, mas diminuída comparando com outros dias. Dava o que pensar. Dos cinco facínoras o Mata-Piolho, pregou:
            - Esta polenta cósmica não esfria nunca, tchê?!
            - Espeta ela com uma vara de ex-embaúba-da-pedra.
            - Você não manda em mim, meu!
            - Tá pedra por fora e fogo por dentro.
            - Será que nóis consegue uns quilos de ouro? Duvideodó!
            - Não afirmo e nem desespero.
            Mata-Pai se afastou uns vinte metros, coçando a perna; Mata-Vizinho viu o relógio, exatamente 14h e 30min; Mata-Curumim pensou se deitar por ali mesmo, caso tivesse sombra, e nem tinha sombra alguma; Mata-Bolo percebeu que não havia nada se mexendo em lugar algum naquela capoeira seca; Mata-Piolho abriu os braços para o alto e bufou um bocejo.
            Mata-Pai se sentou numa pedra quente, afastado dos outros quatro, longe do bolo estelar. Levava já um olhar pensativo, distante no passado, não se sabe com ou sem remorsos.
            Mata-Pai não era Mata-Pai, ainda. Trabalhava na fábrica de carrocerias em Nova Prata, eternamente sujo de graxa e profundamente interessado numa galega chamada Jeriba. Todo mundo, aliás, estava a fim daqueles peitos e lábios e dentes grandes. Jeriba era uma moçona, um distúrbio dos sentidos, uma mega-sena, uma taça de campeonato, um sapato salto agulha, um traseiro de dar insônia, um samba de pagode, um cabelo grosso e largo e alto, um olho cheio de sombra.
            Um dia, na mesma fábrica, no horário do meio-dia, o ainda não Mata-Pai falou uma anedotinha no ouvido de Jeriba. Ele falou:
- Deixa eu fazer cócegas de língua nas tuas orelhinhas?
E ela abriu os olhos neutros. E até se interessou mais que o previsto. Mata-Pai, ainda não-Mata-Pai, voltou pra casa e se olhou no espelho, admitiu perguntando:
- Será que foram os meus olhos pretos de jabuticaba noturna?
Todo o mundo, fala sério!, acha que tem olhar de cobra-coral. Pelo nem ou pelo não, futuro Mata-Pai encheu a caveira de cerveja. Foi na geladeira e encheu o casco de ceva até terminar o futebol na tevê.
            Semana posterior, na mesma fábrica de carrocerias, correu atrás do seu pesadelo - qual seria? Ficar, segurar, agarrar e derrubar de comprido a pretendida Jeriba. E na primeira chance daquela segunda vez pegou na mão. Ela o olhou e lhe mostrou os dois dentes de tapiti; também lembrando decerto das cócegas nas orelhas. Resultado total: ainda não-Mata-Pai acompanhou Jeriba até em casa. A rua dela era no fim do mundo, sem nome, sem calçamento, sem ônibus, poeirenta, cães latindo e cheia de traficantes atravancando os becos assobiando pelos escuros e no alto das mangabeiras.
            Namoraram dois meses? Lá se foram dois meses. Falaram com os pais dela, principalmente. Foram alugar duas peças com banheiro no bairro Iurimagua perto da fábrica, decididos que estavam a morar juntos e abraçados. E os meses... hem?! Transavam de assustar a vizinhança. Batiam nas fracas paredes, subiam por elas e ainda grunhiam como antas como jacarés como sucuris. Brigavam somente de vez enquanto e quase todos os dias, sempre na mesma hora pouco antes de ir pra cama. E voltavam a se jurar fidelidade na manhã de ressaca.
            Ali na vila de Santa Luzia, que horas seriam?, o empanado astro rolou para trás daquele morro, definitivamente. Os motoqueiros foram para o casinholo. Tinham caldo de pedra para o jantar. E ainda beliscaram uns gravetos de ripas de antigos cercados de ex-taquaras-pocas.
            - Onde achou tudo isso tudo, dona Embaiá?
            Mata-Vizinho ficou fora da bisca ou da menos copas. Se sentou na janela da salinha e cuidou olhar lá fora o oco esfumaçado. Queria ver se tinha de descobrir por acaso uma estrela decadente. Fumava um bagulho e soprava para as nuvens de areia. A escuridão tinha seu lobisomem escondido ali por perto. Talvez curupira atravessando o rasto da martinta-pereira.  
            No dia imediato, entre 11h e 30min e 12h e 40min, os cinco desgraçados já almoçavam. Dona Embaiá preparara assim: pedaços de arame farpado, compotas de pneu de bicicleta, cacos de garrafa de diversas cores, lascas de casas de caramujo colhidas no capoeirão queimado.
            Daí, os mãos-leves foram para o serviço. Chegando lá tentaram, na força bruta dos dez braços peludos, mexer, sacudir que seja, e até erguer, levantar o meteorito. Este, que era muito pesado e muito fundo no chão seco, não se deixou abalar. Um dos cinco, o cara de fuinha Mata-Piolho, brabejou:
            - Sabe, eu detesto essa fumacinha! E parece que nunca nunca deixará de queimar e de feder ali por dentro!
            - Mas é preciso persistir na desesperança, cambada!
            - Se nóis botasse umas dinamite?
            - Não, espalhará muito material por aí. É arriscado. De repente seria burrice. De repente seria explodir com os ovos de ouro.
            - Vamos telefonar e convidar um trator retroescavadeira?
            - Peraí, né! Enquanto não esfriar o troço... que que adianta.
            - É, temos que saber tudo certinho o que o medonho contém no bucho.
            Mata-Bolo, mãos nos bolsos, pensava umas coisas sempre sem importância para o mundo, coisas dele mesmo; Mata-Vizinho queria beber a gasolina da moto e sentar na sombra ou deitar numa rede de carijó; Mata-Curumim pensava sair ileso daquela enrascada e se aposentar e morar definitivamente em Brasília; Mata-Pai reparava o estado das botas cambaias e o dedão de fora com unha encravada; Mata-Piolho olhava para as nuvens vermelhas lentas pesadas de poeira. E até nem chovia desde muitos esquecidos anos.
            Mata-Vizinho, esgar amarelo de canto de boca, pensava uma coisa deixada bem lá para trás na lembrança e muito pouco provável de ser novamente alcançada. Era uma passagem que não esquecia. Aproveitável no oco das noites ou das horas do dia como aquela. Enquanto pensava, decidiu também desenferrujar as pernas e caminhar pelo capoeirão. Recordava como tinha sido o tal encontro com a Guatiedéo. Ela, entre um gole e outro de cerveja, perguntara intimara:
- Ei! Você me quer? Fala logo, hum!
            Mata-Vizinho, na época não-Mata-Vizinho, ficou sem palavras e nem queria testemunhar. Nem tinha encabulado, mas também ficou sem saber o que responder. E pensou mesmo: por que toda pergunta tem que ter sua precisa resposta? Assim, pediu licença e foi ao banheiro. Depois voltou e esqueceu o assunto; Guatiedéo, idem.
            Pois Mata-Vizinho olhava a namorada muito friamente. Tinha os seus planos sem enganos. Podia acontecer como previa? Com Guatiedéo não tinha essa de falta do que falar, não. Assunto era com ela. Discutiam de futebol até música instrumental, passando por novelas de tevê, políticos corruptos e a vida alheia. E o principal: Guatiedéo não se importava de ficar domingo de tarde em casa assistindo jogo de futebol. O que pegava mesmo, no caso de Guatiedéo, eram os seus seios incipientes. E para adiantar onisciência, Guatiedéo tinha um mistério um segredo que Mata-Vizinho (futuro) não descobrira até então, e que se viesse a descobrir se encheria de horror de horror.
            Mais um dia comum na vilinha coberta de cinzas. E logo na janta, para a turma de zagueiros brucutus, a dona Embaiá preparou um filé de sola de pneu de jamanta, uma salada de guanxuma esturricada, umas folhinhas secas de jatobá, umas fibras incineradas de embira-de-porco, um ensopado de seixos rolados.  
            - Que pneu foi esse, dona Embaiá?
            - Ora, pneu de patrola! Que o nome científico é motoniveladora.
            Mata-Curumim não jogou bisca naquela noite, nem jogou tressetes. Decidiu conversar com seus pensamentos que saíam e vinham que iam e voltavam. Umas dúvidas interiores que cavavam fundo arranhavam.
            A noite iniciou com um saci escapulindo do redemoinho de poeira vermelha e que assobiou assustando querendo assustar. Um acoo de lobisomem ecoou na escuridão indevassável.
            No dia amanhecido acordaram entre 11h e 30min e 14h. Almoçaram o outro tanto que sobrara da gororoba de pneu de carreta mais folhas secas de ex-paineiras.
            Os todos v seguiram para o trabalho difícil de cuidar, vigiar, guardar... o esfriamento do meteorito. Cada qual na sua moto preferida, maltratada, mal-encarada, enferrujada, endiabrada, envenenada. Não estavam nem preocupados, nem nervosos, nem desiludidos, nem com dificuldades de fumo, nem com abstinência de assassinar. Estavam confiantes no ouro, ou na prata, ou ainda no cobre que o artefato sideral lhes proporcionaria. Então, aceleraram muito as máquinas para assustar os aldeões as aldeãs os aldeõezinhos e sacizinhos encontrados no caminho. Chegando até o posto fixo do meteorito trocaram estas suplentes ideias maníacas:
            - Acho que tô ficando surdo.
            - Hum?... Como? Quem, porém?
            - O meteorito tá calmo, não?! Nem fumaceia mais, o medonho. Nem cheira mais, o droga. Nem caga mais, o político estadual.
            - Vocês não estão ouvindo um zumbido? Parece um trem lenga-lenga!... lenga-lenga!... E vem nessa direção...
            - Não entendi! Fala alto!!
            - O oco vermelho muito baixo...
            - Não tô nem podendo te ouvir.
            - Desenrolem a língua, macacada!
            Mata-Bolo, a língua inchada, chutou uma pedrinha com o bico da chinela de borracha; Mata-Vizinho percebeu que as nuvens vermelhas arrastavam os morros vermelhos e as pedras vermelhas; Mata-Curumim achou que um meteorito era muito pouco para cinco dedos maus e ruins e péssimos; Mata-Pai sentiu um vazio de fome e uma ardência de sede; Mata-Piolho penteou o cabelo com os dedos da mão esquerda, sem querer, pensando coisa sem cabimento, bobo, zonzo.
            Mata-Curumim abriu as pernas como um touro guaxo, cruzou os braços e ficou querendo pensar uma lembrança que sempre lhe ocorria lembrar quando podia. Era já uma coisa usada e abusada das suas ideias. Uma coisa já pronta e acabada, com começo meio e fim. E uma recordação muito insistente.
            Então, Mata-Curumim lembrou aquela noite com a Cendira. Foram para o quartinho da zona. Ele já suficientemente pronto, o burrichó todo perfilado em posição de sentido, de cabeça polida alta e olímpica.
            Logo logo os dois no interior do reservado. Uma cama de casal sofrível. Fecharam porta do quarto e porta do banheiro. Cendira queria a luz apagada. Ele queria a luz acesa. Ficou a luz acesa mesmo. Ela reinou até a página doze. Ela levou um tapa no ouvido de cá, levou outro no ouvido de lá. Aí mostrou a língua com a cor de bala de hortelã. De repente ele, Mata-Curumim (futuro), foi e tirou a roupa toda. Estava pronto que nem o burro diante da mula. Ela com os cabelos desgrenhados cheirou tudo e viu tudo. A luz acesa era para isso mesmo. Ele falou calmo o suficiente como um bandido gosta de parecer:
            - Tá esperando o quê?
            Cendira procurou um refúgio para tirar a roupa. Ela só entendia de cabra-da-peste ou pai-d’egua ou gaudério ou manezinho. Não, o banheiro já estava de porta fechada. Então, Mata-Curumim (futuro) decidiu agilizar o troço. Com nervoso e pressa foi ajudando a sacar as peças e apetrechos e aparelhos e arreios. Ela também viu que tinha de rezar e ajoelhou. Ele falou e disse já muito zangão:
- Dá um chego aqui, mina!
Talvez ele achasse que ela não soubesse, talvez. Esticaram-se na cama. Ele, para começar, já escolheu dos o menor buraco. Que por acaso nem era para ela o ponto a posição mais recomendável. Mas foi assim como o tal e qual livre arbítrio entre os dois para quatro paredes.
            O (futuro) Mata-Curumim fechou os olhos, sentiu os amendoins apertando contra o ninho da caranguejeira. E ela sentiu lá dentro uma coceira que pedia socorro e mais e mais e por fervor. Aquilo podia ser sem sombra de dúvidas uma bobagem só para animais sem razão. E era mesmo, pois não! A cama ia junto. Mas eles não sabiam que a cama batia na parede. Ele olhava para ela, ela olhava para ele: queriam se matar ali sem dó nem piedade. E poderiam ficar por horas e horas sem saber se as horas passavam. Era um tremendo exercício suado, urrado, assobiado e sem esforço algum. Sentiam muito, não gastavam nada, gritavam por gritar, não sentiam calo nenhum. Ele pirou com cara de ódio e procurou mordê-la na boca. E a onça-pintada câmara lenta... escancarou a bocanha de dentes salivados.
            A vila de Santa Luzia era o fim do caminho. Não chovia havia mil e setecentos anos. Os lobisomens se criavam pelo capoeirão esturricado. As pedras emagreciam a olhos vistos. O vento levantava nuvens de poeira vermelha. O vento virava a curva e retornava com mais uma caçamba de areia nos olhos.
            Os cinco estavam em volta do meteorito prontos para voltar para a palhoça. Nada se mexia ali na roda. Um silêncio de deserto mesmo. Os quintos famigerados olhavam a coisa espacial. Insistiam olhar o objeto caído que veio do oco. Os v estavam agora caladões, e sem saber por quê. Os cinco, e cada qual, estavam com um zunido no labirinto do ouvido.
            Pois então, os cinco tolos não sabiam de onde vieram para parar naquele lugar seco e caloroso e fodido até demais. Os cinco traficantes eram somente cinco. Os cinco tropeçaram nos próprios pés. Os cinco tombaram de boca, totalmente de boca aberta, no pó vermelho do capoeirão. No mesmo segundo, juntos, como ensaiados. Os cinco porcarias já eram, e pronto, tum!... no chão de poeira vermelha.
            Meia hora depois, os cinco aloprados viraram churrasquinhos e espetinhos e sopinhas e caldinhos nos paladares apetites gulosos dos aldeões e das aldeãs. E tudo ali continuaria e prosseguiria em cheio às cinzentas nuvens de cinzas. E tudo persistiria do mesmo jeito e estilo sem chover sem chover desde milênios.
  


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