quarta-feira, 10 de maio de 2017

Contos de Santa Luzia (6)

                                                          


            Umas coisas acontecem muito antes muito cedo das outras coisas acontecerem, e de vereda.
            Um dia desbotado. Uma estrada longa e poeirenta e pedregosa. Uma estrada riscando o mapa mundial do nada. E no meio dessa estrada, nem pra lá nem pra cá, a vila de Santa Luzia.
            A vila, ou o mundo, já parecia bastante antiga. O dia os dias todos parada. D ausente. O tempo inexistente. Silêncio.
            Um homem vinha chegando sabe-se lá de onde. Sabe-se lá como. Sabe-se lá por quê. Ele era mesmo cego, deficiente visual, somente percebia manchas disformes em preto e branco, e cheiro de poeira, e gosto de poeira. Um cego teimoso, insistente, obstinado, curioso, viajado, perguntador, persistente. Diziam a ele: nem vá para aquele lado!, e ele ia mesmo. Falavam a ele: você nem conseguirá!, e ele tentava mesmo assim.
            Vestia camiseta branca empoeirada e perfurada pelo uso, bermuda azul desfiada nas pernas, sapato-tênis marrom com o dedão de fora, boné de time de futebol, uma antena para tatear o caminho. Pois o cara era assim desse jeito. E, então, ele veio de onde mesmo? Como e por quê? Veio do mapa desconhecido.
E o Cego chegou tateando com sua varinha mágica pela única ruela da aldeia. Fazia um dia normal de muito calor, sem jeito de chuva. Nem chovia há meses meses. Mormaço apocalíptico. Nem se via o alto teto, tudo envolvido em nuvens de pó vermelho, cheiro de queimado, ambiente incinerado.
            O visitante esbarrou no degrau da porta do ex-boteco. Aí, parou. O ex-Bodegueiro interpelou o forasteiro:
- Alguma coisa, moço?
- Queria um copo de açaí com dois cubos de gelo e canudinho.
O ex-Bodegueiro viu, ouviu e nem se levantou da cadeira. O Cego ainda em pé na soleira da porta, perguntou:
- Que horas são?
- São duas horas... da tarde.
- Que dia?
- 24 e tanto.
- Mês?
- Dezembro, véspera de natal.
Era engodo. Era mentira. Pernas curtas da mentira. O desconhecido sabia que era dia 13 de dezembro, dia consagrado à santa Luzia. Mentiam. Por quê?
O Cego ajeitou os óculos escuros sobre o velho nariz, baixou a cabeça. Ele sabia se conter. O ex-Bodegueiro continuou ali sentado meio alheio sem nada que fazer. O estranho procurou procurou alguma ideia solta no raciocínio, para depois declarar:
- Calor, né?!
- Muito.
O Cego afinou o nariz no sentido do seu interlocutor:
- Que lugar é este?
- É aldeia Santa Luzia.
- Ãhn!...
- É para a direita, a capela.
Então, o Cego se revirou meia volta, volver. Andou em linha reta no sentido indicado, sempre batendo o chão com a antena, teso no andar. Nenhum cão latia. Nenhum passarinho piava. Nenhum inseto voava. Nenhuma nuvem para chover. O sol por trás da poeirama. O homem tropeçou numa pedra solta aterrissou caiu no chão, bateu o queixo, cheirou o pó. Já estava acostumado.
O estrangeiro tremia de fome. Um dia muito quente, sufocante, vazio. Tremia igualmente de sede. O tempo custando a passar. Aí, ele cheirou o ar... cheirou poeira vermelha, degustou as partículas de terra. Teve ilusão ilusão de cheirar pão quentinho e xícara de café com leite.
            E foi e seguiu o cheiro da ex-padaria. Se aproximou faminto e baba escorrendo até o pescoço. Tropeçou, chutou uma pedra ou duas. Nem ouvia um som na vila. Encontrou a porta da ex-padaria. A bengala-antena calculou os dois degraus que separavam a rua da sala da loja. Subiu os degraus e parou. Aguardou. Deu prazo. Nem tinha muita certeza se já o esperavam. Se aquietou. Alguém se aproximava. Era uma mulher pesada, andar cansado, andar desanimado. Pode ser a dona do estabelecimento, pensou. A dona indagou:
- Alguma coisa, moço?
- Queria um ou dois desses cacetinhos que estão cheirando tão bem e gostosos e perfumosos e quentinhos e crocantes, hum!...
A Dona deu uma risada de, eh eh eh!... e procurou a cadeira para se sentar ali perto da janela aberta. O Cego em pé junto à porta, estacionado. Após um quê, o intruso falou:
- São que horas?
- São duas e meia... da tarde.
- Que dia?
- 24 e tanto.
- Mês?
- Dezembro, véspera de natal.
Era falso. Era mentira. Pernas bem curtas da mentira. E continuavam mentindo. Por quê? O homem sabia que era o dia 13 de dezembro, dia de santa Luzia Luzia.
O estrangeiro cego tentou unir uns fios soltos de pensamentos. Depois, deu uns passos para cá e para lá. Pensando o espaço, pensando o tempo, pensando os pensamentos. E ainda tentou, inquiriu:
- Calor, hein?!
- Muito.
O Cego sentia espaço no meio de si, fome e muita sede. E esse vazio moía, incomodava, desconfortava, roía. Escorou as costas na parede de pau-a-pique da ex-lojinha e perguntou:
- Que lugar é este?
- A aldeia Santa Luzia.
- Sério?
- É para a sua esquerda, a capela.
O Cego esperou mais alguma coisa. Depois girou nos calcanhares e desceu os dois degraus para a rua poeirenta. Pegou o rumo diagonal da sua esquerda, em linha direta. O mormaço terrível forno fritando o cérebro por baixo do boné. Sensação que a terra toda estivesse assando na fornalha. Por acaso tropeçou com bengala e tudo, e foi ao chão, batendo o queixo, ralando as palmas das mãos. Nem se acostumava.
Então, o alienígena se confundiu. Parou. Que diagonal a mulher me indicara?, se perguntou, pensando. A esquerda antes ou depois de ter chegado à rua?, se indagou, pensando. Frustrou-se.
De repente, ficou sério. Voltou a cabeça para os lados tentando ouvir, cheirar sentir o ar. Estava no meio da rua Única. É, estava no meio da única rua. Os aldeães e as aldeãs e as aldeãzinhas certamente o espionavam com os dois olhos normais que possuíam. Será, se perguntou pensativo, que me querem, me desprezam, me odeiam? Sinto que nem me ignoram, continuou ele em pensamento. Ficou parado, preocupado. O silêncio.
            A quietude. Nenhum barulho e mais nada. Nem havia mais nada se movimentando. As ex-árvores da pracinha nem cheiravam nem fediam. O visitante procurou alguma coisa para disfarçar a timidez. Então, pensou numa clássica marchinha de carnaval anos 50 ou 60, u-tu-tu! u-tu-tu!...
Dia de calor e poeira demais. Um dia esquisito. O sol acobertado pelas nuvens de vermelho. Pensando pouco, pensou, sinto no cérebro um zumbido de outro planeta. E rapidamente lhe veio um horror e um receio de tanta coisa que sentiu um arrepio subindo a espinha. Estava perdido e falido e mal pago.   
            Uma onda mais grossa de poeira invadiu a aldeia. Um redemoinho com saci por dentro. Com martinta-pereira rindo à toa, ih ah ah ah!... E tudo foi inundado por esse sopro pesado de poeira vermelha. A aldeia restou ali com uma luz amarela, um calor infernal, um cheiro de terra derretida.
            O Cego tinha uma porção de coisas para entender. Por enquanto nem sabia de nada, e estava cansado de esperar. Queria saber, mas ninguém nascia sabendo. E pedir nem sempre conseguia o que queria.
            Assim, ele se mexeu, escolheu um rumo, seguiu os passos. Batia a vareta no chão, chutava aquelas pedras soltas. Nenhum galo cantara. Quietude típica do deserto. Nem se importou mesmo. E no meio da rua um bafo de nuvenzinha carregada de areia calcinada. Andou mais, até esbarrar numa parede despencada. Bateu o nariz na parede. Já vai passar, pensou. Na parede tem de haver uma porta, raciocinou. Achou a entrada. Esperou junto à porta. Um degrau o separava da ex-loja de carnes.
            Sempre sabia que nem podia fazer mais do que aguardar. E chegou alguém. Lentamente, caminhando pachorrentamente, pensou, só pode ser o dono. Um moço lhe dirigiu a palavra a palavra:
- Alguma coisa, moço?
- Queria um copo de leite bem gelado e um pastel de queijo feito na hora.
O ex-Açougueiro deu um suspiro curto, eh!... e fez ruídos com os pés, andou para a direita e para a esquerda. O Cego ficou preocupado, e indagou:
- Horas são quê?
- São três horas... da tarde.
- Que dia?
- 24 e quebrados.
- Mês?
- Dezembro, véspera natalina.
Engano dos enganos. Lorota das lorotas. Olha que mentira!, pensou o Cego. Era uma grande mentira. Por quê? Nem adiantava mentir, o Cego sabia ser dia 13 de dezembro, o sagrado dia de santa Luzia. E pronto.
O visitante pensou: a ilusão até pode virar bobice ou pesadelo. E nem sabia mais o que fazer ali. Declarou de voz alta:
- Calor, pois não?!
- Muito.
O Cego queria sentar. Precisava até tirar uma soneca:
- Que lugar é este?
- A aldeia Santa Luzia.
- É mesmo?
- Atrás, as suas costas, a capela.
O adventício girou o corpo, desceu o degrau, foi em frente em linha reta. Sabia que precisava de muita persistência ou do acaso para encontrar o portão da capela.
Andou, chutou pedras, cutucou o chão poeirento. Talvez topasse com o que procurava. Aí mesmo foi que tropeçou em coisa que os moleques colocaram de propósito e, plaque!... caiu, bateu o queixo no chão, bateu o beiço no pó. Elevou o pensamento para outra coisa. Elevou o pensamento para outro alvo. Desconversou o pensamento para nem pensar no problema e para esquecer o fiasco. Separar o seu eu do vexame. Procurou se conter e se conteve.
E ele decidiu continuar tentando a capela. Chutou as pedras soltas com seus tênis terminados. Uma vez encontrou uma árvore, justamente uma ex-paineira petrificada, sem saber que esta uma já era ex-vegetariana, e a abraçou. Também cheirou o ar. Um cheiro de terra, um gosto de pedra entre os dentes. Nenhum miado. O certo é que posso me deitar aqui sob este calor de rachar e tentar um cochilo? se perguntou. Uns passos na minha direção?, pensou ter ouvido alguém caminhar na sua direção.
O Cego optou por andar, tateando por aí, sem ideia de rumo, apoiado na haste de alumínio. Um passo, dois passos, encontrou uma calçada de pedras. Estudou o espaço até encontrar a escada. Agilizou os movimentos pois lhe pareceu ter encontrado a capela. E foi mesmo persistência, obstinação, teimosia, e coincidência.
Começou a contar os degraus. Um cego sempre conta os degraus, pensou, sorriu. Um, dois, três... doze e treze. Encontrando a porta sempre aberta, entrou.
Tateou pelo recinto este já meio escondido na sombra todo aquietado. Procurou a pia de água salvadora. Onde a pia? hum!, se perguntou em pensamento. Procurou por aí, contatou com sua vareta mágica, a mão esquerda esticada. Tirou os óculos escuros e os colocou no bolso da bermuda. Pesquisou cantos, paredes, nariz para o ar, e esbarrou surpreso na pia. Sentiu o joelho de encontro à pedra. Nem foi nada, pensou. Aí, enfiou a mão no interior vazio, lavou a cara com água benta sonhada, limpou os olhos com água milagrosa imaginada. Deu muita atenção aos olhos, principalmente se preocupando muito com os olhos, os olhos eram o objetivo, os olhos eram o mais importante. Sentou num dos bancos de madeira.
Acomodado no banco de ex-castanheiro-do-brejo, cabeça baixa, fechado em si, assistiu a um filme de longa data. Segurou fechadas as pálpebras por uns minutos. Esperou. O filme foi e voltou, superou estradas. Queria que as cores abrissem seus olhos cheios da luz do mundo. Rezou? Falou com D? Falou, a seu modo, com santa Luzia? E muita espera, alguma, nada? Alguma. O silêncio.
            O Cego cochilou. Ou será que meditou? Nem se sabe se sonhou ou apenas ficou quieto. Quantas horas levaram? O tempo e o espaço, de alguma maneira, se grudaram lá fora lá longe no universo. O tempo passou o dia pra trás. O espaço perdeu o chão. O mundo redondo girando solto no tempo e no espaço.
            E quando o Cego acordou já era tarde. E percebeu pintar - julgou que fosse do peito, mas podia ser da cabeça, quem sabe dos olhos - vibrar um som forte e uma mancha em nuvem que aumentava o calor pelo corpo todo. Depois a mancha esquisitou... O Cego adivinhou que fosse a luz... E uma luz mais forte que já ouvira. Ele piscava e esfregava os olhos com os dedos. Um som que vinha para dar forma a outras coisas luminosas. Doíam os olhos e estes se tornavam tão mais irritados e a coçar mais e mais. Foi lhe aumentando um desespero, uma afobação, uma sensação de caso extraordinário. Andou uns passos, tropeçou... Parecia caminhar sobre nuvens, sobre um terremoto, sobre um chão movediço... Fachos de luzes por todos os cantos. Apareciam obstáculos, coisas, raios de sons nunca vistos.
- Peraí!... - gritou para fora para fora de si.
Já começava a ver algumas figuras nítidas fixas no ar... e nem as reconhecia. Manchas de tons de luz ou sons de cor... Aí, ele tentou se firmar sobre as pernas, incomodado, e reparou nas mãos... Eram as suas mãos! Levou as mãos ao rosto... aos olhos... viu as mãos medrosas... Nem estava delirando? Por que, então, se sentia incomodado, a cabeça girando? Deu uns passos e olhou os pés... Nem acreditou. Piscou piscou assustado encandeado. Nem havia mentira? Tentou tocar as aparições. Nem sabia se no sonho ou no real, se as imagens estavam dentro dos olhos ou no espaço diante si.
Assim, o objetivo de ver se realiza, declarou para si mesmo, empolgado. Este crédito se espalhou pelas suas ideias, pelos seus sentidos, pelo seu corpo completo. Entendia bem?! Só faltava se convencer um pouco mais.
            Esbarrou num banco... acompanhou com a mão o encosto do banco... os seus pés estudando o piso... estava ainda no interior da capela. Estava vendo o interior da capela? Nem, talvez um sonho, pensou. E quis gritar. Gritou! Sonho ou não, ele via. Parecia ver. Será que via mesmo? Gritou assim, inventando um grito na hora:
            - Greeeeeé!...
            Acompanhou o som solto e radiante da luz pelo mundo. O som era assim. A luz era assado. Olhou as mãos, os pés, as ramificações... As mãos e os pés eram assim. Caminhou mais. Desistiu da bengala. O movimento do corpo, talvez meio tonto, era assim. E agora os raios de sol, as manchas diversas, as coisas tão bem pintadas... era assim mesmo? Então, era verdade, ele via, ele estava vendo, aconteceu o fato consumado, nem era pesadelo, era sonho, estava tudo ali fora da cabeça e fora dos olhos, fora das ilusões. Entrava num mundo de coisas diversas, repartidas, fatiadas, distintas, presentes, naturais. E nem sabia mais se conter.
            Caminhou olhando os passos, esquecido da bengalinha auxiliar, esquecendo os óculos escuros, caminhando para a luz forte do mundo. Essa mesma uma luz de cegar qualquer ex-Cego.
            Chegando na escada tapou os olhos com as duas mãos. Insuportável tanta luz. Esperou. Seria o deus-sol? Queria olhar a cara do sol. Abriu os dedos... Espiou entre os dedos... O sol encoberto por nuvem de cinzas.
            - Ah!... Aquilo será o quê? Umas árvores secas, talvez ex-paineiras, ex-acapus, ex-içaras... Aquilo será o quê? As nuvens de poeira. Aquilo será o quê? Casas despencadas de pau-a-pique.
            Viu tudo em volta. Viu diferentes ondas de poeira. Eram as cores? O mais impressionante era o vasto horizonte. Depois, a rua Única, os redemoinhos de vermelho rodando na rua. Mas também havia muitas miudezas e detalhezinhos. Teria que relacionar nomes com coisas para ir decorando e aprendendo.
O ex-Cego cansou de ficar em pé e se sentou na escada de pedra da capela. Nem aves voando. Nem cão andando. Nem verde dos ex-salgueiros-do-mato, ex-inhames-cigarras, ex-cipós-cravos... O lugar nem ajudava. Que lugar era aquele? Agora a dica é ver, pensou, pensamento excitado.
E humanóides... Pessoas chegando para perto. Gente, ou algo assim, em bando... Muitos aldeões e aldeãs e aldeõezinhos se aprochegando... Vinham para olhá-lo. E o forasteiro estava despreocupado sem peso na consciência e com coisas para perguntar. Achou que teria muita história pela frente, já que teria que aprender a ver coisas. Muitas formas para estudar. A sensação de caminhar sobre o chão e ver era assim sólida, diferente e curiosa. Ver onde pisar e caminhar e tocar lhe dava fronteiras. Nem se continha. Era tudo tão rápido.
            Os aldeões e as aldeãs, desgrenhados esfarrapados insones, quase nem pararam para olhá-lo ele assim calmo e comportado ali sentado no degrau da capela. Os moradores chegaram e o ergueram pelas pernas e pelos braços. Os vilões e vilãs o levaram sem cerimônia para onde. Era um troféu? Era um ídolo?
            Enquanto os aldeões e as aldeãs o carregavam para uma clareira no meio do capoeirão, o ex-Cego olhava tudo no caminho cheio de novidades... E um pouco sem entender aquele passeio sem cerimônia de procissão. Me confundiram com um santo, pensou. Ou com uma oferenda.
            À força de ver e de ser visto.
O ex-Cego enlouquecia de tanto olhar, de querer tanto ver, entender a cara das coisas. Tudo novidade mesmo. Principalmente a cara das coisas. Era a apresentação do mundo. A cara dos aldeões. O mundo realmente aparece em figuras soltas por aí, ia pensando, e cheio de coisas. Uma curiosidade por tanta novidade.
            Chegando lá, na clareira do capoeirão, os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos rapidamente, revezadamente, cavaram um buraco. Calor terrível, e todos suavam muito. Decerto vão me plantar, pensou o ex-Cego.
O ex-Cego estava tenso todos estavam tensos. Meia hora depois apareceu o buraco de dentro do chão escaldante. Obra fumegante. Deitaram o estranho dentro do buraco e o cobriram com leve camada de terra local. Sobre a camada de terra, uma forte pilha de lenha. E o ex-Cego nem viu mais nada. Provavelmente vão me moquear, pensou.
            Debaixo da terra vermelha e da pilha de gravetos, o ex-Cego nem conseguia mais nem abrir os olhos. E respirava pouco ou quase nada. Nem conseguia entender coisa com coisa. Perdeu o controle do pensamento.
            Porém, e isso com justiça, ao menos o ex-Cego já se iludia com uma ascensão. Previa uma reencarnação muito próxima.



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