Mostrando postagens com marcador deserto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador deserto. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Contos de Santa Luzia (6)

                                                          


            Umas coisas acontecem muito antes muito cedo das outras coisas acontecerem, e de vereda.
            Um dia desbotado. Uma estrada longa e poeirenta e pedregosa. Uma estrada riscando o mapa mundial do nada. E no meio dessa estrada, nem pra lá nem pra cá, a vila de Santa Luzia.
            A vila, ou o mundo, já parecia bastante antiga. O dia os dias todos parada. D ausente. O tempo inexistente. Silêncio.
            Um homem vinha chegando sabe-se lá de onde. Sabe-se lá como. Sabe-se lá por quê. Ele era mesmo cego, deficiente visual, somente percebia manchas disformes em preto e branco, e cheiro de poeira, e gosto de poeira. Um cego teimoso, insistente, obstinado, curioso, viajado, perguntador, persistente. Diziam a ele: nem vá para aquele lado!, e ele ia mesmo. Falavam a ele: você nem conseguirá!, e ele tentava mesmo assim.
            Vestia camiseta branca empoeirada e perfurada pelo uso, bermuda azul desfiada nas pernas, sapato-tênis marrom com o dedão de fora, boné de time de futebol, uma antena para tatear o caminho. Pois o cara era assim desse jeito. E, então, ele veio de onde mesmo? Como e por quê? Veio do mapa desconhecido.
E o Cego chegou tateando com sua varinha mágica pela única ruela da aldeia. Fazia um dia normal de muito calor, sem jeito de chuva. Nem chovia há meses meses. Mormaço apocalíptico. Nem se via o alto teto, tudo envolvido em nuvens de pó vermelho, cheiro de queimado, ambiente incinerado.
            O visitante esbarrou no degrau da porta do ex-boteco. Aí, parou. O ex-Bodegueiro interpelou o forasteiro:
- Alguma coisa, moço?
- Queria um copo de açaí com dois cubos de gelo e canudinho.
O ex-Bodegueiro viu, ouviu e nem se levantou da cadeira. O Cego ainda em pé na soleira da porta, perguntou:
- Que horas são?
- São duas horas... da tarde.
- Que dia?
- 24 e tanto.
- Mês?
- Dezembro, véspera de natal.
Era engodo. Era mentira. Pernas curtas da mentira. O desconhecido sabia que era dia 13 de dezembro, dia consagrado à santa Luzia. Mentiam. Por quê?
O Cego ajeitou os óculos escuros sobre o velho nariz, baixou a cabeça. Ele sabia se conter. O ex-Bodegueiro continuou ali sentado meio alheio sem nada que fazer. O estranho procurou procurou alguma ideia solta no raciocínio, para depois declarar:
- Calor, né?!
- Muito.
O Cego afinou o nariz no sentido do seu interlocutor:
- Que lugar é este?
- É aldeia Santa Luzia.
- Ãhn!...
- É para a direita, a capela.
Então, o Cego se revirou meia volta, volver. Andou em linha reta no sentido indicado, sempre batendo o chão com a antena, teso no andar. Nenhum cão latia. Nenhum passarinho piava. Nenhum inseto voava. Nenhuma nuvem para chover. O sol por trás da poeirama. O homem tropeçou numa pedra solta aterrissou caiu no chão, bateu o queixo, cheirou o pó. Já estava acostumado.
O estrangeiro tremia de fome. Um dia muito quente, sufocante, vazio. Tremia igualmente de sede. O tempo custando a passar. Aí, ele cheirou o ar... cheirou poeira vermelha, degustou as partículas de terra. Teve ilusão ilusão de cheirar pão quentinho e xícara de café com leite.
            E foi e seguiu o cheiro da ex-padaria. Se aproximou faminto e baba escorrendo até o pescoço. Tropeçou, chutou uma pedra ou duas. Nem ouvia um som na vila. Encontrou a porta da ex-padaria. A bengala-antena calculou os dois degraus que separavam a rua da sala da loja. Subiu os degraus e parou. Aguardou. Deu prazo. Nem tinha muita certeza se já o esperavam. Se aquietou. Alguém se aproximava. Era uma mulher pesada, andar cansado, andar desanimado. Pode ser a dona do estabelecimento, pensou. A dona indagou:
- Alguma coisa, moço?
- Queria um ou dois desses cacetinhos que estão cheirando tão bem e gostosos e perfumosos e quentinhos e crocantes, hum!...
A Dona deu uma risada de, eh eh eh!... e procurou a cadeira para se sentar ali perto da janela aberta. O Cego em pé junto à porta, estacionado. Após um quê, o intruso falou:
- São que horas?
- São duas e meia... da tarde.
- Que dia?
- 24 e tanto.
- Mês?
- Dezembro, véspera de natal.
Era falso. Era mentira. Pernas bem curtas da mentira. E continuavam mentindo. Por quê? O homem sabia que era o dia 13 de dezembro, dia de santa Luzia Luzia.
O estrangeiro cego tentou unir uns fios soltos de pensamentos. Depois, deu uns passos para cá e para lá. Pensando o espaço, pensando o tempo, pensando os pensamentos. E ainda tentou, inquiriu:
- Calor, hein?!
- Muito.
O Cego sentia espaço no meio de si, fome e muita sede. E esse vazio moía, incomodava, desconfortava, roía. Escorou as costas na parede de pau-a-pique da ex-lojinha e perguntou:
- Que lugar é este?
- A aldeia Santa Luzia.
- Sério?
- É para a sua esquerda, a capela.
O Cego esperou mais alguma coisa. Depois girou nos calcanhares e desceu os dois degraus para a rua poeirenta. Pegou o rumo diagonal da sua esquerda, em linha direta. O mormaço terrível forno fritando o cérebro por baixo do boné. Sensação que a terra toda estivesse assando na fornalha. Por acaso tropeçou com bengala e tudo, e foi ao chão, batendo o queixo, ralando as palmas das mãos. Nem se acostumava.
Então, o alienígena se confundiu. Parou. Que diagonal a mulher me indicara?, se perguntou, pensando. A esquerda antes ou depois de ter chegado à rua?, se indagou, pensando. Frustrou-se.
De repente, ficou sério. Voltou a cabeça para os lados tentando ouvir, cheirar sentir o ar. Estava no meio da rua Única. É, estava no meio da única rua. Os aldeães e as aldeãs e as aldeãzinhas certamente o espionavam com os dois olhos normais que possuíam. Será, se perguntou pensativo, que me querem, me desprezam, me odeiam? Sinto que nem me ignoram, continuou ele em pensamento. Ficou parado, preocupado. O silêncio.
            A quietude. Nenhum barulho e mais nada. Nem havia mais nada se movimentando. As ex-árvores da pracinha nem cheiravam nem fediam. O visitante procurou alguma coisa para disfarçar a timidez. Então, pensou numa clássica marchinha de carnaval anos 50 ou 60, u-tu-tu! u-tu-tu!...
Dia de calor e poeira demais. Um dia esquisito. O sol acobertado pelas nuvens de vermelho. Pensando pouco, pensou, sinto no cérebro um zumbido de outro planeta. E rapidamente lhe veio um horror e um receio de tanta coisa que sentiu um arrepio subindo a espinha. Estava perdido e falido e mal pago.   
            Uma onda mais grossa de poeira invadiu a aldeia. Um redemoinho com saci por dentro. Com martinta-pereira rindo à toa, ih ah ah ah!... E tudo foi inundado por esse sopro pesado de poeira vermelha. A aldeia restou ali com uma luz amarela, um calor infernal, um cheiro de terra derretida.
            O Cego tinha uma porção de coisas para entender. Por enquanto nem sabia de nada, e estava cansado de esperar. Queria saber, mas ninguém nascia sabendo. E pedir nem sempre conseguia o que queria.
            Assim, ele se mexeu, escolheu um rumo, seguiu os passos. Batia a vareta no chão, chutava aquelas pedras soltas. Nenhum galo cantara. Quietude típica do deserto. Nem se importou mesmo. E no meio da rua um bafo de nuvenzinha carregada de areia calcinada. Andou mais, até esbarrar numa parede despencada. Bateu o nariz na parede. Já vai passar, pensou. Na parede tem de haver uma porta, raciocinou. Achou a entrada. Esperou junto à porta. Um degrau o separava da ex-loja de carnes.
            Sempre sabia que nem podia fazer mais do que aguardar. E chegou alguém. Lentamente, caminhando pachorrentamente, pensou, só pode ser o dono. Um moço lhe dirigiu a palavra a palavra:
- Alguma coisa, moço?
- Queria um copo de leite bem gelado e um pastel de queijo feito na hora.
O ex-Açougueiro deu um suspiro curto, eh!... e fez ruídos com os pés, andou para a direita e para a esquerda. O Cego ficou preocupado, e indagou:
- Horas são quê?
- São três horas... da tarde.
- Que dia?
- 24 e quebrados.
- Mês?
- Dezembro, véspera natalina.
Engano dos enganos. Lorota das lorotas. Olha que mentira!, pensou o Cego. Era uma grande mentira. Por quê? Nem adiantava mentir, o Cego sabia ser dia 13 de dezembro, o sagrado dia de santa Luzia. E pronto.
O visitante pensou: a ilusão até pode virar bobice ou pesadelo. E nem sabia mais o que fazer ali. Declarou de voz alta:
- Calor, pois não?!
- Muito.
O Cego queria sentar. Precisava até tirar uma soneca:
- Que lugar é este?
- A aldeia Santa Luzia.
- É mesmo?
- Atrás, as suas costas, a capela.
O adventício girou o corpo, desceu o degrau, foi em frente em linha reta. Sabia que precisava de muita persistência ou do acaso para encontrar o portão da capela.
Andou, chutou pedras, cutucou o chão poeirento. Talvez topasse com o que procurava. Aí mesmo foi que tropeçou em coisa que os moleques colocaram de propósito e, plaque!... caiu, bateu o queixo no chão, bateu o beiço no pó. Elevou o pensamento para outra coisa. Elevou o pensamento para outro alvo. Desconversou o pensamento para nem pensar no problema e para esquecer o fiasco. Separar o seu eu do vexame. Procurou se conter e se conteve.
E ele decidiu continuar tentando a capela. Chutou as pedras soltas com seus tênis terminados. Uma vez encontrou uma árvore, justamente uma ex-paineira petrificada, sem saber que esta uma já era ex-vegetariana, e a abraçou. Também cheirou o ar. Um cheiro de terra, um gosto de pedra entre os dentes. Nenhum miado. O certo é que posso me deitar aqui sob este calor de rachar e tentar um cochilo? se perguntou. Uns passos na minha direção?, pensou ter ouvido alguém caminhar na sua direção.
O Cego optou por andar, tateando por aí, sem ideia de rumo, apoiado na haste de alumínio. Um passo, dois passos, encontrou uma calçada de pedras. Estudou o espaço até encontrar a escada. Agilizou os movimentos pois lhe pareceu ter encontrado a capela. E foi mesmo persistência, obstinação, teimosia, e coincidência.
Começou a contar os degraus. Um cego sempre conta os degraus, pensou, sorriu. Um, dois, três... doze e treze. Encontrando a porta sempre aberta, entrou.
Tateou pelo recinto este já meio escondido na sombra todo aquietado. Procurou a pia de água salvadora. Onde a pia? hum!, se perguntou em pensamento. Procurou por aí, contatou com sua vareta mágica, a mão esquerda esticada. Tirou os óculos escuros e os colocou no bolso da bermuda. Pesquisou cantos, paredes, nariz para o ar, e esbarrou surpreso na pia. Sentiu o joelho de encontro à pedra. Nem foi nada, pensou. Aí, enfiou a mão no interior vazio, lavou a cara com água benta sonhada, limpou os olhos com água milagrosa imaginada. Deu muita atenção aos olhos, principalmente se preocupando muito com os olhos, os olhos eram o objetivo, os olhos eram o mais importante. Sentou num dos bancos de madeira.
Acomodado no banco de ex-castanheiro-do-brejo, cabeça baixa, fechado em si, assistiu a um filme de longa data. Segurou fechadas as pálpebras por uns minutos. Esperou. O filme foi e voltou, superou estradas. Queria que as cores abrissem seus olhos cheios da luz do mundo. Rezou? Falou com D? Falou, a seu modo, com santa Luzia? E muita espera, alguma, nada? Alguma. O silêncio.
            O Cego cochilou. Ou será que meditou? Nem se sabe se sonhou ou apenas ficou quieto. Quantas horas levaram? O tempo e o espaço, de alguma maneira, se grudaram lá fora lá longe no universo. O tempo passou o dia pra trás. O espaço perdeu o chão. O mundo redondo girando solto no tempo e no espaço.
            E quando o Cego acordou já era tarde. E percebeu pintar - julgou que fosse do peito, mas podia ser da cabeça, quem sabe dos olhos - vibrar um som forte e uma mancha em nuvem que aumentava o calor pelo corpo todo. Depois a mancha esquisitou... O Cego adivinhou que fosse a luz... E uma luz mais forte que já ouvira. Ele piscava e esfregava os olhos com os dedos. Um som que vinha para dar forma a outras coisas luminosas. Doíam os olhos e estes se tornavam tão mais irritados e a coçar mais e mais. Foi lhe aumentando um desespero, uma afobação, uma sensação de caso extraordinário. Andou uns passos, tropeçou... Parecia caminhar sobre nuvens, sobre um terremoto, sobre um chão movediço... Fachos de luzes por todos os cantos. Apareciam obstáculos, coisas, raios de sons nunca vistos.
- Peraí!... - gritou para fora para fora de si.
Já começava a ver algumas figuras nítidas fixas no ar... e nem as reconhecia. Manchas de tons de luz ou sons de cor... Aí, ele tentou se firmar sobre as pernas, incomodado, e reparou nas mãos... Eram as suas mãos! Levou as mãos ao rosto... aos olhos... viu as mãos medrosas... Nem estava delirando? Por que, então, se sentia incomodado, a cabeça girando? Deu uns passos e olhou os pés... Nem acreditou. Piscou piscou assustado encandeado. Nem havia mentira? Tentou tocar as aparições. Nem sabia se no sonho ou no real, se as imagens estavam dentro dos olhos ou no espaço diante si.
Assim, o objetivo de ver se realiza, declarou para si mesmo, empolgado. Este crédito se espalhou pelas suas ideias, pelos seus sentidos, pelo seu corpo completo. Entendia bem?! Só faltava se convencer um pouco mais.
            Esbarrou num banco... acompanhou com a mão o encosto do banco... os seus pés estudando o piso... estava ainda no interior da capela. Estava vendo o interior da capela? Nem, talvez um sonho, pensou. E quis gritar. Gritou! Sonho ou não, ele via. Parecia ver. Será que via mesmo? Gritou assim, inventando um grito na hora:
            - Greeeeeé!...
            Acompanhou o som solto e radiante da luz pelo mundo. O som era assim. A luz era assado. Olhou as mãos, os pés, as ramificações... As mãos e os pés eram assim. Caminhou mais. Desistiu da bengala. O movimento do corpo, talvez meio tonto, era assim. E agora os raios de sol, as manchas diversas, as coisas tão bem pintadas... era assim mesmo? Então, era verdade, ele via, ele estava vendo, aconteceu o fato consumado, nem era pesadelo, era sonho, estava tudo ali fora da cabeça e fora dos olhos, fora das ilusões. Entrava num mundo de coisas diversas, repartidas, fatiadas, distintas, presentes, naturais. E nem sabia mais se conter.
            Caminhou olhando os passos, esquecido da bengalinha auxiliar, esquecendo os óculos escuros, caminhando para a luz forte do mundo. Essa mesma uma luz de cegar qualquer ex-Cego.
            Chegando na escada tapou os olhos com as duas mãos. Insuportável tanta luz. Esperou. Seria o deus-sol? Queria olhar a cara do sol. Abriu os dedos... Espiou entre os dedos... O sol encoberto por nuvem de cinzas.
            - Ah!... Aquilo será o quê? Umas árvores secas, talvez ex-paineiras, ex-acapus, ex-içaras... Aquilo será o quê? As nuvens de poeira. Aquilo será o quê? Casas despencadas de pau-a-pique.
            Viu tudo em volta. Viu diferentes ondas de poeira. Eram as cores? O mais impressionante era o vasto horizonte. Depois, a rua Única, os redemoinhos de vermelho rodando na rua. Mas também havia muitas miudezas e detalhezinhos. Teria que relacionar nomes com coisas para ir decorando e aprendendo.
O ex-Cego cansou de ficar em pé e se sentou na escada de pedra da capela. Nem aves voando. Nem cão andando. Nem verde dos ex-salgueiros-do-mato, ex-inhames-cigarras, ex-cipós-cravos... O lugar nem ajudava. Que lugar era aquele? Agora a dica é ver, pensou, pensamento excitado.
E humanóides... Pessoas chegando para perto. Gente, ou algo assim, em bando... Muitos aldeões e aldeãs e aldeõezinhos se aprochegando... Vinham para olhá-lo. E o forasteiro estava despreocupado sem peso na consciência e com coisas para perguntar. Achou que teria muita história pela frente, já que teria que aprender a ver coisas. Muitas formas para estudar. A sensação de caminhar sobre o chão e ver era assim sólida, diferente e curiosa. Ver onde pisar e caminhar e tocar lhe dava fronteiras. Nem se continha. Era tudo tão rápido.
            Os aldeões e as aldeãs, desgrenhados esfarrapados insones, quase nem pararam para olhá-lo ele assim calmo e comportado ali sentado no degrau da capela. Os moradores chegaram e o ergueram pelas pernas e pelos braços. Os vilões e vilãs o levaram sem cerimônia para onde. Era um troféu? Era um ídolo?
            Enquanto os aldeões e as aldeãs o carregavam para uma clareira no meio do capoeirão, o ex-Cego olhava tudo no caminho cheio de novidades... E um pouco sem entender aquele passeio sem cerimônia de procissão. Me confundiram com um santo, pensou. Ou com uma oferenda.
            À força de ver e de ser visto.
O ex-Cego enlouquecia de tanto olhar, de querer tanto ver, entender a cara das coisas. Tudo novidade mesmo. Principalmente a cara das coisas. Era a apresentação do mundo. A cara dos aldeões. O mundo realmente aparece em figuras soltas por aí, ia pensando, e cheio de coisas. Uma curiosidade por tanta novidade.
            Chegando lá, na clareira do capoeirão, os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos rapidamente, revezadamente, cavaram um buraco. Calor terrível, e todos suavam muito. Decerto vão me plantar, pensou o ex-Cego.
O ex-Cego estava tenso todos estavam tensos. Meia hora depois apareceu o buraco de dentro do chão escaldante. Obra fumegante. Deitaram o estranho dentro do buraco e o cobriram com leve camada de terra local. Sobre a camada de terra, uma forte pilha de lenha. E o ex-Cego nem viu mais nada. Provavelmente vão me moquear, pensou.
            Debaixo da terra vermelha e da pilha de gravetos, o ex-Cego nem conseguia mais nem abrir os olhos. E respirava pouco ou quase nada. Nem conseguia entender coisa com coisa. Perdeu o controle do pensamento.
            Porém, e isso com justiça, ao menos o ex-Cego já se iludia com uma ascensão. Previa uma reencarnação muito próxima.



domingo, 24 de abril de 2016

Contos de Santa Luzia (10)


                                               


         Há que se esquecer da partitura da piscicaptura da conjuntura. E as gurias mais ainda nem sabiam de nada. Uns pontos a favor, portanto:
         - Você conhece Normandia e o lago Caracaranã?
         - E o antigo palácio Tiradentes, morro da Viúva, campo dos Afonsos, ilha das Cobras, hein?!
         - Pode me adicionar?
         - Se eu curti? Curti.
         - Nem curti, ainda.
         - Tem o ideal o preferencial e o possível. Nessa ordem.
         - Um fardinho de latinhas de cerveja, ah ah ah!...
         - Talvez galhos secos, roupas no varal... e o próprio vento, vuuu!...
         Naquele dia 14 de maio de 2014 lindonas gostosonas bonitonas arrumadonas confirmadonas instigadonas um início de manhã a história já parecia muito bem encaminhada e suspeita.        
Um grupo, as amigas da região do Seridó, RN, estavam sempre dispostas a fazer exercícios comumentemente verticais. Isso todos os sábados pela manhã sem nuvens sem chuva sem nevoeiro. Em algum ponto diverso do território nacional. De preferência longe.
Acordaram cedo antes dos raios do sol. A viagem alada. As horas voaram. Passaram nas alturas sobre os doze mil metros já para lá de Pacaraima, Itaqui, Itirapina, Corumbataí, Almirante Tamandaré do Sul e etc.
E eram sete as saltadoras potiguar, como os sete pecados capitais, as sete sombras do arco-íris, os sete dias da semana, os sete fôlegos do gato, as sete maravilhas do mundo contemporaníssimo: Pitumba, a materialista; Parari, a espiritualista; Juriti, a cooperativista; Carajá, a existencialista; Arirambinha, a feminista; Piava-Verdadeira, a corporativista; Baníua, a governista; e Tariana, ou Largata, a ecologista e determinista.
E todas tinham um cuidado ótimo com o próprio sorriso, sombra dos olhos, lábios pintados, unhas compridas para duas cores distintas, brincos, colar, pulseiras, tornozeleira, tatuagem de árabe ou chinês. Gurias de pernas saradas longas ginastas e olhares perdidos. Roupas paraquedistas e calcinhas moda tipo pixel. Todas levavam os pelos das pernas e axilas e etc bem depilados. E os cabelos podiam ficar soltos e assustados e desgrenhados e de qualquer jeito amarelos de sol.
         O avião voou cinco horas e tanto para o interior. Latitude sul longitude oeste altitude acima do mar dos cupuaçus das casas das nuvens. Então, receberam ordem do piloto para saltar. Onze horas de sábado, céu limpo, uma e outra nuvenzinha branca aqui e acolá. Pularam uma após a outra, iuuu!... A paisagem lá pelo chão parecia boa, olhando de tão alto. Já pularam todas. A liberdade de braços abertos queda a 250 km por hora gravidade puxando vento na cara liberdade liberdade. A terra desenhada em canteiros e trilhas. A geografia foi se aproximando. As cores foram se isolando se definindo. Os detalhes foram aparecendo se materializando aos milhares e milhões. Os retalhos geométricos de áreas quadrados círculos triângulos...
         Tariana, a bonita, teve um probleminha com a direção na corrente dos ventos e foi aterrissar sobre a copa de uma ex-perova-amarela. O paraquedas se enfiou e se misturou e se tramou com a galhada seca, se enroscou, ficou preso. Tariana, a dengosa, também conhecida como Largata, apelido de colégio, se soltou e caiu do alto de sete metros, trooopes!... e torceu o tornozelo do pé e. Quando sentiu o estalinho, pleque!... e a dor:
         - Doeu, tá bom!!!
         Até gritou e chorou solitária sentada numa pedra escaldante. No ex-mato sem cachorro, nem tinha com quem extravasar. Lugar seco, estorricado, incinerado pelo verão milenar. Solita no mais como gata em tapera. E queria muito muito que viessem buscá-la, socorrê-la, resgatá-la. E até queria um espelho para ver as melenas as madeixas as guedelhas. Beijou o escapulário. E tribeijou o breve. Olhou em volta:
         - Que que é isso, meu?! Que que estou fazendo aqui? Eu mereço!
         Aborrecida e com o desconforto, isso sim. Procurou manter a calma e esperar. Tinha que ter calma, dar um prazo, esperar, aguardar por um eventual socorro. Deus estava vendo, isso sim! Viriam buscá-la, isso sim! Nem fita elástica branca na cabeça para prender o cabelo. Nem conseguia esquecer a dor, nem conseguia ter calma suficiente para esquecer a dor e o mau jeito que dera no pé. E estava mesmo no meio do sequíssimo deserto. Ela mesma fez aquilo mesmo. Nem ouvia nenhum som, nenhum barulho, nada de ruído, tudo silêncio, bem silêncio. Vento baixo carregado de poeira vermelha, nuvens vermelhas.
         Se lembrou da época da escola garotinha de tenra idade. Estavam visitando o museu Júlio de Castilhos. Na entrada fila de dois, uma menina de mão com um menino, a professora perguntou:
         - O que a gente combinou?
         - Silêncio - todos responderam ao mesmo tempo.
         Passou uma hora. Cochilou. Sonhou com um bando de borboletas amarelas. Passou mais meia hora, talvez. Sonhou um bando maior ainda de borboletas brancas. Acabou se irritando. Se estressou mais mais do que já estava irritada.
         Acabou de acordar e resolveu se mexer. Procurou se arrastar até um ponto de referência, um lugar aberto onde pudesse pleitear socorro, ser vista, encontrar gente, acender um foguinho, desenhar um sos no chão, fazer um lanche, se esticar numa rede e esperar. Sentia mesmo uma dor no vazio no lado nas cadeiras.
         Então, andou como um saci. E sacudindo o cabelo criativo. Logo precisou de uma escora. Andando assim, saiu para o limpo, para um lado da mata seca, uma trilha que lhe pareceu melhor. Desceu um morrinho. Ali embaixo encontrou uma estradinha de areia e pedrinhas redondas, ou quase redondas. Era o leito seco e tortuoso de um ex-riachinho. Leito pedregoso do corguinho extinto. Para que lado, uma vez? Desceria o ex-rio, subiria o ex-rio? Resolveu acompanhar a descida do ex-riachinho. Parecia ser melhor acompanhar o santo ex-riachinho abaixo. Podia até encontrar um santo, um peregrino vestido de santo, um condomínio, e em volta do loteamento um bairro ou distrito habitado.
         Se sentou numa laje para o descanso. Olhou o pé machucado. Sentiu uma dor pulsando na ideia, sentiu raiva, sentiu vexame, sentiu vazio, sentiu fracasso. E ali mesmo ela ficou muito cansada e exausta.
         - Que dia tem aí, meu?!
         Largata, a ajuizada, olhou em volta e viu a vala, antigo leito do ex-rio. Um chão de areia e pedregulho os seixinhos rolados. Um caminho sinuoso entre peraus, pedras soltas e arbustos secos. Uma trilha difícil de caatinga.
A moça deixou a cabeça cair quase entre as pernas. Cochilou. Sonhou com um bando de pixixicas entrando numa pedra. Ficou reparando. E sonhou ter visto ainda um bando maior de formigas entrando para uma pedra. A pedra nem engordava, ela acordou.
         Então, Tariana, a saborosa, abriu os olhos cansados. E olhou o pé torcido, inchado. Lembrou do pé dolorido. Este parecia muito mal e se complicando cada vez mais. Um pé que estava querendo morrer ali mesmo. E água? A boca seca e a garganta seca pediam água. A moça queria mesmo uma solução. O sol era horrível sobre tudo, embora a fumaceira vermelha.
         A galinha de sol ia pondo os ovos das horas ao longo do ninho do dia. O sol as horas o dia são coisas diferentes. A galinha os ovos o ninho são coisas diferentes.
         Largata, a linda, olhou a sua volta... e olhou o que lhe restava da própria sorte... da própria sombra... e decidiu continuar descendo o leito do ex-riachinho. Apoiada na escora. Sem filtro solar. O pé inchado inchando.
         Sol muito quente na cabeça. Uma luz forte que se refletia nas pedras e que derretia as meninas dos olhos. O miolo do coco também derretia. Nenhuma ideia então vingava. O meio-dia zênite sol a pino. Céu indisposto lotado de poeira.  
         Tariana, a elegante, percebeu ou intuiu que estava sendo seguida. Seguida deserto afora? Parou, olhou em volta... Nem viu nada além do capoeirão seco e o entulho de pedras no leito do riozinho seco. Talvez nem chovesse por ali há meses. Achou mesmo que nem chovia por ali há anos-luz. Procurou ouvir... Um silêncio de fim de mundo... de fim dos tempos...
         - Quem quer que seja.    
Depois de mais umas duas horas, sempre sob o sol escaldante, com sede, ela descansou, tentou descansar, né!, sentando na sombra de uma embaubatinga petrificada. O pé parecia uma madura bola de futebol.
         Sentada ali na base da ex-árvore, por acaso e por favor, Largata, a angélica, viu quem a seguia: um cachorro: e dos grandes: cachorrão, canzarrão. E pensou rápido, pensou alto e rápido:
         - Nunca comi um cachorrinho apetitoso. E daí?!
         Largata, a judiciosa, se ergueu no mesmo instante, toda arrepiada. Ao ver o cão teve um pressentimento. O cão nem tinha cara de amigo. Mas nem tinha mesmo. E, então, mais que depressa, manquitolando, quicando como o saci-pererê, seguiu caminho. Decidiu caminhar como remédio.
         O sol temperamental castigava forte. O tempo inteiro. Era janeiro, era fevereiro, voltava dezembro, janeiro e fevereiro. Fazia mesmo calor. E era pleno verão. Era janeiro. Nem chovia fazia bem dois mil anos. A luz cintilando na poeira vermelha. Nada se mexia sob aquele calor.
         E Largata, a famosa, dava três ou quatro pulinhos e olhava para trás. E lá estava o cão e lá era o cão: língua caída para fora da boca, olhar básico de cão brabo, provavelmente babando pelo seu futuro almoço, olhar fixo, orelhas parabólicas, cauda meio que balançando, boca cheia de dentes caninos. Ela fazia um metro ou dois, o cão a imitava. Ela parava, o cão idem. Ela disfarçava e olhava para o lado, o cão disfarçava e olhava em volta.
         A moça pensou muita bobagem. Sempre o mais difícil. O cão parecia filósofo apóstolo curandeiro. Um olhar meloso de cão fugitivo, procurado pela justiça, fugido de manicômio, canil federal, sequestrador, estuprador, torturador, incendiador, senador, predador, britador.
         Tariana, a feliz, jogou uma pedra. O cão se esquivou, mas nem foi embora. E nem avançou. O cão a olhava sério, frio, obsessivo, matemático. Com certeza o cachorro só esperava que ela cochilasse ou se distraísse para comê-la viva. Por isso todo cuidado era pouco. Por isso nem podia parar. É, o cachorrão podia mesmo ser um cão assassino.
         - Que horas são, hein?! - ela perguntou alto.
Eram quinze horas e tanto, e muito quente. Nada mais se ouvia. Tudo um silêncio. O cão também, só aguardando o primeiro vacilo. Cães atacam pelas costas? Cães atacam bichos mancos ou feridos ou doentes? A moça tinha dúvidas. Cães comem aqueles seres humanos?
         Andou uns oito metros e sentou numa laje quentíssima. O cão parou ali. Fitaram-se. Silêncio contaminado de poeira. Era muito ruim. Ela se ergueu e continuou, bem estropiada, bem curvada, bem falida. O sol abrasador, abrasador, queimava a pele os olhos desprotegidos os cabelos sagazes.
         Que deserto era aquele? Onde viera parar? Por que nem aparecia santo algum? Teria que passar a noite ali, uma semana? Morreria devorada pelo canzarrão? Tinha dúvidas e pesadelos. E por que nem lembrou de trazer uma arma branca, uma cachaça, um telefone celular, um gps, uma palavras-cruzadas? Por que nem trouxe um sanduíche, um guaraná com pastéis, umas balas de goma.
- Hein? Sua burra! - gritou consigo mesma.
         Largata, a sensata, cabelo fabuloso e desgrenhado, jogou uma pedra. O cão olhou a pedra cantar no pedregulho e depois a encarou como sempre. Ela parou, o cão sentou e esperou. Ela agitou no ar a escora, o cão só olhou fixo por enquanto. O cão, língua tombada, nem salivando mais. Parecia mesmo estar esperando um excelente manjar. E por nada por nada os cães também sonham!
         A desfigurada resolveu descansar cinco minutos naquela sombrinha do rochedo. Ajeitou os cabelos sublimes em volta do pescoço. Sentou-se, deixou a escora perto da mão, qualquer coisa; também umas boas pedras à mão, para caso de precisão. Olhou o pé... que estava irreconhecível. Nem podia tocá-lo. Estava muito cansada. Dor de cabeça. O pé quase nem doía de tão inchado, inchando. Se fosse um filme nem seria um curta-metragem.
         Sem saber, sem querer, fechou os olhos. Se deixou. E, então, dormiu. Dormiu? Se abandonou. Dormiu. Viu em sonhos um bando de trinca-ferros, e depois, um bando maior ainda de passarinhos de peito amarelo. Dormiu. E sorriu. Sorria. E ria. Quase gargalhou.
         Então acordou, acordou rindo, sobressaltada, e viu, em cima do seu pé quebrado, o cão, o cão que vinha lhe perseguindo. Ele lambia a sola do seu pé inchado e provocava cócegas. Largata, a estudiosa, saltou para trás e o cão, tímido, cauda entre as pernas, também saltou para trás, correu, se precaveu, ficou afastado, andou uns cinco metros e sem falar nada.
         Tariana, a perfumosa, se ergueu muito preocupada. Dormira temerariamente. O cão parou a uma distância, balançando as orelhas desanimadamente. O cão direcionava para ela aquelas suas duas orelhas parabólicas, interessadas. Largata, a mimosa, e o cão separados por uma distância. Um com precavido do outro. Um com fome do outro? Um com nojo do outro? Os dois com muita sede e fome e cansaço.
- Será que o cão quer ser meu amigo? Pode ser, né? - falou para si mesma.
Desconfiada, ela o convidou a se aproximar. Batendo os dedos, pleque! pleque!... O cão, desconfiado, veio vindo devagar, farejando, cauda balançando, cabeça baixa, língua caída. Parecia rir. Chegou muito perto. A moça passou a mão entre as orelhas do bicho. Talvez fosse manso, talvez muito dependente dos tipos de humanos.
         Ficaram amigos ou sócios. Então, ela conseguiu um camarada e pronto. E o cão a seguiu muito de perto, cuidando do seu pé estropiado, olhando para ela ou por ela a cada dois metros. Desciam o leito seco do ex-riozinho. Largata, a risonha, tinha um guarda-costas. Coisa incrível naquele deserto ríspido e esquecido e etc.
         Três e quarenta da tarde. Os ventos quentes ralavam o todo em volta. O sol inclemente. Largata, a ditosa, nem aguentava mais. Queria parar e dormir por muito tempo. O cão era amigo, parecia com sede, com fome e assim por diante. A moça nada bebeu, nada comeu, nada podia fazer, nem falou nada. Volta e meia a mão passava pelos cabelos ressequidos e misteriosos.
         De repente, ouviram um rugido muito próximo, gruuu!... Tariana, a imaginosa, pensou alto, respondeu a uma pergunta interior, disse:
         - Quem quer que seja.
Largata, a espirituosa, se assustou, o cão se assustou e latiu com raiva e ousadia. Tariana, a brilhante, deixou cair a bengala, o cão evacuou ali mesmo e sem querer. Largata, a venturosa, teve uma certeza: era uma onça-pintada, brava e faminta e sedenta. Esta estava por aí, à espreita, se acercando.
- O que fazer agora? - se lastimou ela.
Mas nem queria pensar. Estava quente demais. Queria sumir, tomar um banho, beber água até cair, voltar para a estrada, dormir, fugir, sumir, acordar, se cobrir com o lençol até o queixo, pegar um táxi para Coqueiros do Sul.
         Largata, a respeitosa, tentou ir mais rápido. Difícil numa perna só. O cão estava preocupado, latia, acuava, grunhia, graaa!... olhava a sua volta. O cão estava com ódio. O cão estava preocupado com a própria sorte.
         Então, a onça-pintada, magra ossos contados, surgiu no alto de uma rocha. Uma fera perigosa e arisca. A fera abriu a bocarra para rugir ainda mais forte, tudo que podia, urrrrro!... Largata, a vaporosa, sentiu os cabelos arrepiados, espetados, duros, doendo no couro cabeludo. O cão engasgou de raiva e ódio e horror. A onça-pintada, enfraquecida pelo calor, acrocou e grunhiu, grrrrr!... Largata, a altíssima, atirou uma pedra e a onça-pintada se escondeu atrás das rochas, de repente.
         A moça e o cão andaram mais uns metros. O mundo tão pequeno e sem sentido e sem escapatória. A jaguaruçu, na espreita, rugiu lá atrás, ruuu!... A sorte era um baile. A sorte era um bilhete. A sorte era um jogo de xadrez. A sorte era um leito de rio. O cão latia sem parar, já rouco. A guria se apressou, quicando na perna cansada.
         De súbito a onça-pintada pulou sobre o cão e os dois travaram uma peleia de horror e poeira e garras e grunhidos, grrr!... Tariana, a apetitosa, tentou apartar, chegou a dizer o tal de “disso deixá vamo, gente!”. Os dois brigando muito entre rugidos, latidos, urros, ganidos, e poeira levantada, nuvem vermelha.
Nem demorou muito. E por que demoraria? E pedaços do cão voaram do meio da nuvem de pó. Largata, a melodiosa, já corria como podia, os cabelos habilidosos se sacudindo pelas costas, pendulando pelas costas, sujos de poeira, quase úmidos de suor.
         O cão só aguentara a onça-pintada por dois minutos. De repente, nem se ouviu mais o cachorro. De súbito nem se tinha mais guaipeca algum. Um rugido, gruuu!... e o silêncio... A acanguçu almoçava e jantava e lanchava e almoça e jantava e lanchava o ex-cão.
Largata, a veneranda, queria distância e sossego para reparar a perda. Corria e tentava correr mais e mais, sempre numa perna só. Largata, a deusa, precisava de uma cachaça, de um fuminho, de uma paisagem civilizada, de uma paisagem verde de pomar, de um lugar povoado e variado em comes e bebes, de um abrigo contra onças-pintadas, de uma piscina com água borbulhante cascata boias colchão inflável crianças gritando bem alto impertinentes.
         Dezesseis horas? Quase certo. E Largata, a flexível, nem suportava mais. Estava tonteando. Tonteou. E caiu ali mesmo na areia do leito do riozinho seco. Zonza. Maquiagem de terra seca vermelha. De boca aberta. E sapitucou. E desmaiou.
         No pesadelo, no delírio, a guria viu um bando de cães vindo na sua direção - queriam o quê, mesmo? -, e que corriam como malucos, todos velozes, eram cães onceiros, perdigueiros, paqueiros, anteiros; e viu ainda um bando maior de jaguaretés chegando na sua direção, olhos amarelos como o sol, olhos amarelos como fossem de mel, boca espumando de gula, língua pendida degustando o ar puro, lábios grossos, língua lambendo os pelos dos lábios grossos, língua lambendo, esleeeepes!... os compridos bigodes os fios do bigode.
         O desmaio da moça, já bem toda amarrotada, cabelos amistosos em descumprimento do dever, e isso durou dez doze minutos. Ela acordou rindo. E rindo, abriu os olhos. Diante de si a onça-pintada típica estampa dos livros do pantanal mato-grossense. E ali muito em cima, lambendo-lhe o pé inchado, lambendo-lhe o pé destroncado, a mesma onça-pintada que derrotara o cão. Largata, a colorida, gelou de pavor, tremeu de calor, saltou de banda. A onça-pintada recuou uns passos e fixou a moça, cauda entre as pernas.
Com metros separando, era uma onça-pintada, babando, muito pintada de pintas amarelas e pretas. Uma jaguarapinima com duas orelhas parabólicas, giratórias, gre-gre!... Uma onça-pintada de dar medo, de sair correndo, de se encantar, de aproveitar para fotos, de ousar uma carícia. Era o momento de ser amiga da onça ou sobremesa da pintada. E a onça-pintada era um bicho e tanto. E a felina tinha almoçado e jantado e lanchado há bem pouco tempo.
         Por um momento Largata, a calorosa, e onça-pintada se olharam nos olhos. Largata, a viçosa, tinha seus olhos muito abertos e verdezinhos; a fera tinha olhos de sol, ou de mel, ou de ouro, ou de vespa.
         Dezesseis e quarenta e seis da tarde. O sol ainda estava forte, alto, amarelo como gema de ovo, como moeda rara de ouro. A jaguar ali ali língua caída entre dois dentes grandes.
         Tariana, a doce, esperou a onça-pintada pular sobre o seu pequeno corpinho de mulher arteira e acabar com tudo. Fechou os belos olhos, até. Fechou os olhos e esperou um tempão. Pareceu um tempo largo. Passou instintivamente a mão pelos cabelos preciosos e longos. Nem foi mais que vinte e cinco segundos. A moça esperava um empurrão e nhaque!... Mas a onça-pintada se deitou, olhando com uma cara enigmática, um olhar neutro.
- Será o quê? - pensou alto a moça. Será que a onça me idolatra? Será que a onça quer o quê, esta hora, este calor, este sistema solar?
         A guria decidiu se erguer, pegar a escora - muito com cuidado para nem assustar a fera -, e seguir caminho. A onça-pintada também se resolveu a caminhar. Então, as duas desciam o leito de areia e pedregulho do ex-riachinho. A moça pensou para fora:
- Tenho uma amiga de garras afiadas, agora, meu!
         Largata, a frutuosa, olhava para trás, desnecessariamente. Pensou outra coisa:
- Como essa onça-pintada quer ser minha amiga, hein?!
Mas a canguçu parecia mesmo ser uma esperta estrategista, dali para a frente. A onça-pintada seguia Largata, a esperta, como uma sombra como uma sombra quente, como uma sombra pintada.
         A dona Largata, a lisa, ardia ao sol do dia aberto. Tonteava de cansaço e calor e fome e sede. Quase delirava. Começou a delirar. Pronto, viu um bando de libélulas verdes e leves, talvez azuis, subindo o morro da encosta leste; e viu ainda outro bando bem maior de libélulas elegantes seguindo pelo mesmo caminho aéreo. E pensou mais, ali no sonho mesmo: Essas libélulas tão bonitas... e meu cabelo desgarrado deve estar imundo e meu cabelo deve estar uma coisa e meu cabelo deve estar um fiasco. A moça continuou pensando ou sonhando: Não, meu cabelo está definitivamente desgovernado e precisando de um bom banho. E assim por diante a moça delirou e falou sozinha.
         Dia ensolarado, quentíssimo, horas e horas a fio, mundo perdido na poeira vermelha.
         - Vou pifar - disse para si mesma, e concordou.
         Largata, a bronzeada, olhou a onça-pintada, a onça-pintada olhou a moça. A jaguareté acompanhava como um gatinho, dócil, doméstica, calma, sistemática. Outro pensamento da mulher:
- Será que cuida da próxima refeição? E procurando me assar ao sol? Evitando jantar fora de antes da hora?
Desciam, por enquanto, por acaso, pelo leito seco do riachinho. De um lado e de outro paredões de rocha, peraus, pedras roladas na pré-história, árvores secas, paus queimados apontando o céu de fogo, pedras rebatendo a luz, pedreiras, terra rachada, plantação de pedra canga.
Umas mais cedo, outras mais tarde, e ao longe do dia, assim, contando, todas as horas foram sendo exoneradas.
         Dois minutos mais e anoitecia dentro do vale esturricado. Largata, a fogosa, parou e cochilou. Imediatamente, a moça viu um bando de coleirinhas voltando para casa; e após, viu mais um bando maior de coleirinhas-do-brejo procurando se esconder da noite. Sonhou que viu, bem mais tarde, uns bandos de morcegos saindo das cavernas; e uns bandos maiores ainda de morcegos voando para o encontro com a lua arredondada.
         A moça esfomeada esbaforida acordou com um arrepio pela sola do pé destroncado. Muita coceira na sola do pé e riu, ih ih ih!... Estava quase sem roupas para a noite fria e dormir ao relento. Olhou no escuro e viu a onça-pintada dar um passo atrás, cauda entre as pernas, uns olhos de vaga-lume.
         - Que frio, meu!
         E, ainda mais, Largata, a plácida, estava exausta, dolorida, tonta de horror, guedelhas revoltas e revoltadas, a noite querendo fechar, noite fria. Por enquanto continuou ali sentada abraçada aos joelhos. Nem queria imaginar a noite que teria pela frente, a resposta da escuridão.
A onça-pintada já nem parecia se sentir bem. A fera tinha um problema na consciência que mantinha só para si. O cão lhe caíra bem. E o que preocupava a consciência da felina? Nem gostava de estrelas frias? Tinha pavor de lua arredondada? Seus olhos de vaga-lume procuravam o quê, lá por dentro da escuridão envolta em poeira?
         No alto do céu o manto escuro ia sendo esticado, desdobrado, montado. Aqui e ali umas janelinhas de luz, uns respiros de luz, uns brilhos de diamante, uns olhos de guri arteiro por entre as nuvens de poeira vermelha. Por aqui o frio se alastrando. Largata, a nova, se entregou de novo ao sono cansado.
Tariana, a natural, sonhou que viu um bando de avoantes em nuvem dar um giro mais longe; e viu ainda um bando maior de avoantes em nuvem grande ir em direção leste. E um bando mais outro de avoantes se encontrar e fazer coreografia artística complicada complexa teatral.
         A canguçu estava inquieta e preocupada e agitada. Olhava em volta de si, farejava o ar da noite. Miava de vez em quando, roncava de súbito, gania para a escuridão, gruuu!... Seus olhos acesos na brasa procuravam entender o escuro. De supetão, se ergueu, rosnou, bufou, roooo!... flechou o olhar firme para o fundo da escuridão. Sabia já que ia perder o sono. Perdeu a paciência.
         - Quem quer que seja.
         Um momento mais e se precipitaram batidas de latas e latões. A onça-pintada esturrou, uuuuur!... e subiu na rocha mais próxima, se preparando para o combate. Largata, a suspirosa, despertou sobressaltada, ofegante afobada, pé muito bem inchado.
- São caçadores! Quem sabe já estou salva? - pensou alto. Quem sabe seja o meu resgate? Tomara que me encontrem mesmo, embora os cabelos despreparados.
         À medida que as batidas de lata se aproximavam - e vinham chegando furiosas numa velocidade -, mais braba a onça-pintada se mostrava. A felina corria para cá e para lá, rodando em torno de si, subindo e descendo as rochas mais altas, urrando com muito ódio no coração. A fera precisava fugir, mas nem se decidia. Largata, a ideal, arquejante arfante, se viu pensando, e falou isso:
- Mas por que a onça-pintada nem foge nem corre nem se esconde e se salva?
         Nem demorou nada para que os batedores de latas chegassem com tudo, e cheios também de ódio, armados até os dentes e atirando. Era um bando deles. Um bando deles com raiva e fome, ao mesmo tempo. Foi um entrevero na escuridão e já levantando poeira vermelha da grossa.
E a seguir, o bando de caçadores armados foi atirando, te-te-tê!... na onça-pintada e nem deram a mínima chance. A onça e moça estavam cercadas pelo bando de caçadores. Uma fuzilaria ainda sobre a peneira felina. Largata, a idolatrada, tapou os ouvidos e nem pensou mais nada. Era como se a turma do anhangá-pitã tivesse chegado e parado ali e descarregado as armas ali. Tudo mal iluminado pelas estrelas frias e distantes e apocalípticas.
         A jaguarapinima já estava perdida esburacada. A onça já nem deu mais conta de ficar em pé. A fera estrebuchou toda perfurada arruinada. A pintada apagou os olhos de vaga-lume e deitou a cola.
         A seguir, já arreganhando os dentes, se aproximaram os caçadores com suas armas e suas tochas e seus lampiões a carvão. Cobertos de pó vermelho. Caçadores magrelos de olhos imensos. Pareciam também feitos de poeira vermelha. Um deles mirou o bacamarte e apertou o gatilho. A onça-pintada recebeu a bala maior entre os olhos, e esvaziou murchou por comprido.
Largata, a elegante, se deitou na poeira e tentou se cobrir de pó vermelho. Os cabelos desalinhados, os cabelos naquele estado lastimável, os cabelos em petição de miséria. Os cabelos um horror dos filmes da década de 70. Nem eram cabelos apresentáveis. Os cabelos imprestáveis na cor vermelha.
         Então, os caçadores procuraram recolher tudo e cair fora. Dois ótimos caçadores botaram a onça-pintada num pau-de-arara. Outro caçador carregou a moça nas costas. O cabelão dela pendendo e balançando como roupa suja no varal. A moça carregada nas costas por aldeão-caçador como fêmea-trouxa dos tempos bíblicos.
         Andaram uma hora ou duas por capoeirões secos labirinto e sem fim. O céu parecia se abrir para uma lua qualquer entre nuvens baixas de poeira. Terra do país das pedras e arbustos ressequidos. Poeirama invadindo tudo. Descansaram nenhuma vez, portanto.
Chegaram à aldeia de Santa Luzia pelas vinte e três horas. Vila corroída pela poeira. Aldeões e aldeãs esquálidos, esquálidas, costas curvas e tortas, desfigurados, cobertos de poeira poeira.
E esse povinho poeirento se deu as mãos no meio da rua Única. Se juntaram ali no meio da rua, se deram as mãos, rodaram em roda rodando e rindo e gritando e rodando mais e mais rápido, até ficarem bem tontos e zonzos e histéricos. Sem demora se atiraram ao chão, muito eufóricos.
Dois minutos mais, Largata, a perfeita, estava no interior de uma casinha de pau-a-pique coberta de sapê, deitada numa esteira, sobre o chão de terra batida, cabelos desgrenhados, cabelos abandonados, roendo as unhas, presa, requentada, destilada, arranhada.
         Tariana, a interessante, olhou o aldeão-caçador que a guardava de perto. Ele a olhava fixamente já com tempo. Ela olhou em volta. Considerou que estava salva e presa. E fechou os olhos verdinhos, passou a mão automaticamente pelas melenas orgulhosas. Dormiu. Um sono difícil. Um sono com pé quebrado ou torcido ardendo.
         Dormiu se dormiu, pensou que dormia, sonhou ou delirou que famílias de surucuás caminhavam na mata virgem em procura. E mais surucuás em bando gigante sempre tocando o membi a intervalos regulares, feeeu, feeeu!... catavam frutinhas do chão caídas dos guabijus. 
         Posteriormente após no dia seguinte, Largata, a caprichosa, acordou motivada de risos irresistíveis. Abriu os olhos e se rindo, ih ih ih!... O aldeão, o mesmo aldeão-caçador que a guardava, lambia-lhe o pé inchado, fazia cócegas, limava com a língua grossa a sola do seu pé inchado. Ela, a moça, ria e olhava para os lados. Às vezes lagrimejando e rindo. O aldeão meio que se afastou um tanto, receoso, pego em flagra, rabo entre as pernas. Largata, a inofensiva, tinha vontade de fazer xixi, mas ria do mesmo jeito e sempre e muito.
         Largata, a talentosa, olhou em volta. Olhou o pé lambido. Criou coragem, pensou: Nossa! Os meus cabelos devem estar um fiasco, e eu me parecendo com uma espantalha, uma martinta-pereira, uma pixuna desfolhada. Preciso encontrar água, sabonete, champu, toalha felpuda, pente e espelho, tudo no mesmo lugar.
         Depois, vieram alguns outros aldeões e aldeãs bater à porta, mas o dono da oca nem abriu. Os de fora ameaçaram, mas o de dentro nem se intimidou. Aí, os de fora desistiram e foram embora, mas o de dentro nem se acalmou.
         Largata, a deslumbrante, ainda estava na esteira. Ouviu, ou sonhou ter ouvido, um pio de caburé-do-campo? Nem viu, pensou ter ouvido, um bando de andorinhas muito rápidas e uniformes cruzando o céu limpo; e nem viu, ou nem ouviu, um bando ainda maior de andorinhas passar pelo quadro da janela tendo ao fundo o céu azul de poucas nuvens brancas.
         A moça acordou como sempre, se estapeando, rindo da coceira, nem aguentando a comichão na sola do pé. O aldeão-caçador deu um pulo resguardado para trás, rabo entre as pernas, maquiado de pó vermelho, dedos nos lábios. E ficou ali, sentado no chão, olhar pedinte e impreciso.
         Largata, a pararé, olhou o pé e viu que estava ainda inchado, porém doendo mais ou menos. Se ergueu quicando e foi procurar o de-comer e o de-beber, que nem havia. O aldeão-caçador também andou pela salinha pobre e podre. O caçador estava preocupado com os outros lá fora. Constantemente ele vigiava espiando preocupado a rua Única. O fulano tinha duas pistolas e um fuzil AK-47 e um facão e uma granada de mão sempre atada à cintura.
         Perto das doze horas, os aldeões e as aldeãs voltaram para decidir a parada. Intimaram berraram que nem sairiam sem a prisioneira. Largata, a irisada, pensou para fora:
- Que querem comigo?
E pensou bem mais rápido:
- Nossa! E meu cabelo? Preciso de um banho, de uns grampos, de uma tiara, de uma grinalda de flores da oeirana. Com que cara vou aparecer para essa gente?!
E Largata, a justinha, perguntou ao aldeão-caçador ali presente:
         - Como vai ser?! Explique! Por que logo eu e logo hoje?
         Nesse instante, de repente subitamente, sabe-se lá como e por quê, um tremor de terra, misterioso suspeito, ali debaixo dos pés do povinho todo, um tremor surdo. A vila tremeu, se assustou, soltou poeira dos casebres todos, aldeões e aldeãs todos de olhos fixos e bem abertos. Um tremor com estrondo cavernoso que veio do fundo do mundo, de debaixo dos pés, do centro da terra.
         Um silêncio depois. Um saci veio num redemoinho. Dois sacis, cada qual no seu redemoinho de poeira brita e cisco.
         Mais meia-hora e, depois de trinta minutos, os aldeões e as aldeãs arrombaram a porta do casebre do tal aldeão-caçador. A porta tombou para dentro da salinha. A casinha quase caiu de podre. Imediatamente o aldeão-caçador reagiu com estocadas de facão e voadoras e pontapés e rabos-de-arraia e mordidas. Os aldeãos e as aldeãs invasores deram um passo atrás, e estratégicos, se esconderam se protegeram nas esquinas.
         Largata, a viajada, pegou um revólver e começou a atirar com fúria. Os cabelos lhe caíam para diante dos olhos. Quando tinha tempo passava os cabelos para trás das orelhas. Falou por falar que ninguém deu ouvidos ou deu bola:
- Logo logo vai faltar balas aqui, cara!
         Os aldeões e as aldeãs nem queriam incendiar a choça. Então, com muito cuidado, e paciência, foram cercando-a. Na altura das treze horas o palacete estava cercado. Assim, aconteceu muita bala de todo lado. De em torno e vindo assobiando, viii!... muita bala de todos os cantos e muito mais. No interior do casebre faltou bala. A palhoça toda perfurada direitinho.
         Tariana, a expansiva, viu, ou sonhou, um bando de sapos-aru chegando para comer as paredes frágeis da casinhola coberta de sapê; depois ainda viu e ouviu, e sonhou, um bando maior ainda de sapos-arus, urque! urque!... vindo bater a sua porta, a sua janela, a sua parede, e entrando sem cerimônia, saltando e parando e saltando, devorando tudo.
         E Largata, a pura, nem se lembrou de mais nada. Ouviu sonhou viajou de avião de trem de carro foi a pé estava longe indagando o caminho para Carazinho, serra do Roncador.
         Dois minutos mais e acabou as balas o chumbo dentro da casa sitiada. Dois minutos mais e os aldeões e as aldeãs em bando entraram de sola na casa lar doce lar.
         Aí, os aldeões e as aldeãs invasores esbofetearam o aldeão-caçador renitente. Depois, ainda os aldeões e as aldeãs arrastaram a moça para o matadouro. O aldeão-caçador, e muito teimoso, queria salvar a guria. Queria salvar de todo jeito, e queria porque queria. Para a maioria dos aldeões ou das aldeãs, a moça estava muito magra porém melhor que nada.
         Largata, a ensolarada, enquanto arrastada pelos cabelos, delirava com um bando de aldeões e de aldeãs e de aldeãzinhas muito quase satisfeitos acompanhando-a; e delirou com um bando maior cem vezes maior de aldeões e de aldeãs e de aldeõezinhos esfregando as mãos satisfeitos e quase saciados.
         No meio da capoeira, entre os tucurus abandonados, o espantalho nem atinava a nada disso. De braços abertos, pacífico, sacrificado, sem pressa, olhando o vazio como um espantalho deve ter. Calor queimando, chapéu na cabeça, esperando as gralhas-azuis chegar de onde. O sol vermelho no céu amarelo.
        


    

domingo, 24 de março de 2013

Contos de Santa Luzia, (7)


                          

       Seus lábios finos esfarelados um dia seriam quentes ardentes molhados sensuais:

       - Idade um dois três quatro...

       Vivi era uma menina filha única órfã de pai e de mãe. E ocupava aquela altura já os seus doze anos. Bermuda brocada, colar de contas, pendentes de aro. Não passaria dos doze. Menina escassa, seca por fora, coberta de pó vermelho, vazia por dentro.

       Geralmente bordando no quarto sentada perto da janela aberta cortina descerrada. Bordando lenços lençóis ou olhando a pracinha deserta com a rua solitária e poeirenta.

       Calor sufocante, terra aquecida, chão esturricado, solo estéril. O cheiro de tudo respirava o pó vermelho na abandonada vila Santa Luzia.

       Não tinha revistinha não tinha rádio e não sabia cantar trautear. Cabelos vermelhos cortados curtos, sardentinha, lábios rachados, seios incipientes, pestanas compridas, despreparada, maquiagem vermelha. Nem alta nem baixa para a idade. Sorriso amarelo e de vez em quando.

       Manhã a Vivi atravessou a rua Única; o céu completamente pegado de nuvens vermelhas, revoltas; a luz fosca, a luz tonta sem brilho opaca embaçada do sol; um saci rodou no meio da poeira solta.

       A menina descalça, a rua descalça. A guria foi quase sem pensar, jogando uma perna na frente da outra - como as menininhas fazem quando estão de coração oco. Cruzou a rua poeirenta e pedregosa, única rua da vila, poeira batendo na cara, poeira fina com gosto de incêndio. Chegou à pracinha seca queimada esquecida e parou, de repente.

       Uma quietude esquisita. Nuvens de poeira navegantes encobrindo tudo. Parecia a parada a estação do fim dos tempos. Não existiam passarinhos para ouvir e para ver e para contar, corruíras, pintassilgos, irapurás, tudo desaparecido. Era mesmo o fim do mundo. Não se via verde algum, carandá, maniçoba, pataquera, capitiú, bacuri. Vento e calor em companhia da poeira.

       Vivi ficou ali tanto tempo curtindo o mormaço. Calada e tão mudinha e acocorada como coisa da paisagem seca, como pedregulho confundido na paisagem árida, como toco cariado de angico.

       Cavava um buraquinho com o dedo. Cavava um buraquinho com pedaço de palito. Trocava umas pedrinhas de lugar. Curtida de mormaço. Com a ponta do dedão do pé riscava figuras vazias no chão fofo poeirento.

       A garotinha se ergueu de mansinho e retornou para casa. Foi pegar a velha bicicleta, magrela cheia de enfeites mirabolantes indiscretos, tiras de pano e de plástico em cores variadas, buzina de plástico em forma de corneta sanfonada, catavento de plástico com as pazinhas amarelas, antenas vibrantes de plástico azul com bola na ponta, etc. Andou pedalando pela rua de terra batida. Queria dar banho, mas não tinha água, mas não tinha açude, mas não tinha rio, mas não tinha chuva. Não chovia há dez doze anos. Apreciava muito pedalar morro abaixo e sem freios. Descia o morrinho e lá embaixo dava cavalinho de pau espirando a poeira. E assim por diante.

       Não chovia há dezenas de anos. As árvores paradas da pracinha, plantas esqueléticas, estátuas, empedradas, galhos como espetos pretos apontando o céu avermelhado. Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas não comiam e não bebiam. O tempo que não acabava mais. O ar esfarinhado pesado denso sufocante.

       E seus braços abraços afetos aconchegos carinhos diariamente:

       - Idade cinco seis sete...

       Debruçada no parapeito da janela, de cotovelos na janela, fazendo todo o tempo do mundo. O sol por trás por dentro das nuvens pesadas de pó. Cadê horizontes morros montanhas serras. A pracinha doida para se esconder do calor, e não podia. A capela em favor e louvor e glória à santa Luzia. O mundo tantos e tantos meses sem uma gota de chuva, árido, abrasador, sufocante.

       Gostava de subir nas ex-árvores para olhar longe que longe. As árvores secas duras retorcidas e os passarinhos as lendas não sobreviventes, iraúnas-grandes, coleirinhas-do-brejo, tesoureiras, marias-é-dia, tizius, grimpeiros, pituãs.

       A mocinha era uma vidinha mansa e quieta e desbotada e solta. Foi só ela só que reparou no remoinho que vinha só pela única rua da aldeia. Começara um remoinho no meio da rua Única. Era vermelhinho, baixinho, risonhinho, ah ah ih ih ih!... O remoinho vinha rasteiro e de cabeça baixa, farejando, parando e olhando para trás, olhando em volta, quicando, revoando, se arrastando, rodando, caminhando, interpretando, nariz de vermelho pó, não poupando nem as pedras anônimas.

       O diachinho chegou e reparou no quintalzinho da casa de Vivi. Abriu o portãozinho num empurrão, não deu bola, pulou, foi até bem perto de uma ex-pata-de-vaca. Não se incomodou mais e deitou, sossegou. Aí mesmo o remoinho deitou com o queixo sobre as mãos, a cauda sossegada, os olhos fechados ou quase fechados, as orelhas abanando tentando espantar o calor. Talvez sonhando um sonho limpo e comprido.

       Olhos cheios de serragem, a garotinha Vivi estava pendurada na janela. Meio-dia ou doze horas. Não pensava quase nada. Então, Vivi ficou olhando, olhando assim, olhando o quê. Calor forte e poeira vermelha subindo com o vento sul.

       Foi ver o quintal de perto. Andava quase sempre apartada, solita no más, sem ninguém para conversar. Saltou no quintal todo seco e deserto, andou na poeira, se esgueirou por aí, se enroscou num toco de jacarandatã. A menina atirou uma pedrinha para o ar. Ver se a pedrinha voltava parar na sua mão.

       Então, a menina pegou e atravessou o dia cheio de cinza a rua vermelha para chegar à capela a poeira no rosto. Decidiu já estava correndo quase lá. As árvores da praça todas amortecidas, mordidas, arruinadas, loucas de calor. A menina gostava de correr mais que as próprias pernas. Não usava nada na boca para se proteger do pó vermelho. A cabeça vermelha de cabelos muito vermelhos como o fogo que queimava a terra, como as nuvens de pó, como a terra toda estorricada.

       Por tudo ali, nem as formigas sobreviveram.

       A menina se olhou do queixo para baixo. Estava de vestidinho até os joelhos, chinelas de dedo de borracha. O pó da rua já lhe tomando das canelas para baixo. Um mormaço de consumir as pedras. Capela coberta de telhas-vãs enferrujadas.

       Vivi, no tempo, já estava na casinha dos doze. Não passaria dos doze uma dúzia. Já sabia a diferença entre o sonhar e o esperar.

       Tarde quente, abafada, vento norte. As árvores da praça nem podiam se mover nem falar nem respirar. O menino Piracaia lhe prometera, coçando as pernas, torcendo os bracinhos,  rilhando os dentes:

- Vou chegar lá na sua casa hoje, talvez amanhã ou mais tarde, e te pedir em namoro. Tá entendido? Captou?

       Vivi, toda tremendo em calafrios, toda desequilibrada na postura, talvez com susto e mau humor e timidez:

- Vai, Piracaia! Quero só ver se você vai!

Agora, nessa hora, Vivi estava preocupada. Esperava com o coração disparado o coração na mão. Olhava ali da janela; não saía dali da janela. O coração disparado atiçado chutado. Gostava de olhar o tempo passar em vão. O coração aflito cheio de espinhos. O coração tum! tum!.. na mão. Queria que o Piracaia aparecesse e não queria que o Piracaia aparecesse.

       De repente, então, pelas três, Vivi viu o guri passando na bicicleta de espelhinho no guidão. Piracaia e a bicicleta e a sombra poeirenta dos dois. Vivi se escondeu nas dobras da cortina que ela mesma bordara. O coração batia como uma pedra na lata e repetitivo e acelerado e ensurdecedor.

       Mais tarde, três e meia, ele Piracaia menino voltou. Inventou de arrumar a bicicleta logo ali em frente. A sombra se sentara bem do lado direito. A cunhã, coração disparado, atrás da cortina, espiando detrás da cortina bordada que ela mesma havia bordado. O menino olhando para o casebre, calculando o portão. De certo não se sabe, mas podia mesmo estar calculando e se perguntando se teria ou não coragem. Arrumou a bicicleta, a sombra suja de vermelho nos calcanhares, e foram. Foram lentamente, ele e a bíci e a sombra grossa, a sombra acompanhando no mesmo passo, olhando para trás, cabelos amarrotados, cuidando para os lados, demoradamente. O menino mais preocupado que a bicicleta e a sombra.

       Lá vinham eles outra vez, Piracaia e a bíci e a sombra. Passaram para lá, para o leste, olhando a choça a palhoça. Vivi os espreitava atrás da empoeirada cortina bordada de ramos verdes e flores amarelas.

       Na volta o menino veio bem embalado, a bíci sem freios, a sombra de língua de fora, nuvem de pó esperta seguindo o rasto. Vivi de coração agitado assustado perseguido ameaçado. E quando Piracaia olhou a janela, parece que tirando a mão direita do guidão para fazer um gesto de beijo atirado, a bicicleta se desgovernou e pegou também uma pedrinha solta derrapou. Então, foi um só tombo e tanto, tuque!... e tudo pelo ar, a poeira subindo de repelão pegajosa descabelada eriçada. A sombra desajeitada desenxabida se derretendo no pó vermelho.

De pronto rapidamente o menino tentou se erguer para dizer que não doera mas, ai!..., percebeu que quebrara o braço. Deixou a pose de lado, não se importou com o vexame na frente da namorada ou ex-futura, e gritou berrou uivou como gritou, aaaaai!...

Vivi filmava tudo da janela o coração afligido e explodido e detonado, atrás da cortina que ela mesma bordara com fios dourados. E olhava sem poder fazer nadinha.

O menino foi embora, todo curvado e horrorizado e melado de lágrimas e de suor. A sombra mancando, curvada, lenta, machucada, pesada, seguiu o menino Piracaia. A bicicleta deitada deixada na poeira voltou a sonhar.

       Não chovia há meses e meses. Os aldeões e as aldeãs não jogavam baralho e não jogavam nada, não plantavam e não colhiam, ficavam dormindo como se todo dia fosse domingo, esperando mais nada mais tarde. O fogo do sol queimara tudo, calcinara tudo e um pouco mais do mundo todo.

       Seus olhos bem abertos semicerrados fechados para longe para perto para dentro de si:

       - Idade oito nove...

       A Vivi reparou da janela. Viu os dois garotos jogando com uma bola cega de borracha. Um passatempo esportivo pedestre. A bola escapulia para a rua; eles iam atrás. Chão de terra esturricada áspera grosseira. Poeira solta no ar suspensa flutuante. E chutavam a pelota cega um contra o outro; um na perseguição do outro; um empurrando o outro; um driblando o outro; um canelando o outro; ambos atiçados xingando e chutando e erguendo poeira.

       Por ela, Vivi, ela estaria lá com os dois perseguindo a bola com aquela bola cega no meio da rua poeirenta. Jogaria de goleira, rasparia os joelhos, ralaria os cotovelos, esfolaria as mãos. Depois, mais tarde, e quem sabe, poderiam jogar de caçador. O jogo que Vivi mais gostava era brincadeira de caçador. Mas o destino dela não deixava que ela jogasse tanto quanto queria de caçador. Gostava de ser caçada no jogo do caçador. Era uma brincadeira que dava gosto gritar de prazer e rir muito alto e sentir cócegas de tanto se divertir.

       A menina sardenta encardida de poeira vermelha cabelos ao vento do nordeste olhos curtidos de sono bermuda drapejada. Seus olhos não eram verdes, mas poderiam ser verdes, eram verdes. Calor sufocante, terra queimada, poeira batendo.

       Não se descobriu ainda, não se sabe ainda por que as meninas leves gostam tanto tanto de olhar da janela. Vivi era assim mesmo. Ela gostava de espreitar da janela do quarto. E olhava principalmente a rua desolada, abandonada, deserta, única. O horizonte consumido apagado.

       A Vivi entrou na capela. Levou um choque, perturbando o olhar na penumbra. Mais um pouco e seus olhos se acostumaram. Gostava de visitar a santa Luzia. De se sentar e olhar com calma a santa Luzia. Havia anjos bordados. Anjinhos pintados na parede, ou em quadrinhos nas paredes, uns em estátua do lado da santa. A guria parava, como parou, olhos bem arregalados sujos de poeira, olhava com calma, como olhou. Gostava de pensar que um dia voltaria na forma de anjo. Gostava de pensar que voltaria como anjo sobrevoando um lago um mato verde uma chuva entre os besouros colibris isabelinhas mariagombes as lendas flores de angélica-de-rama, etc.

       Vivi sempre admirou, como admirava, os anjinhos e suas praças e suas fontes e arredores. Todos de boa saúde, passando bem, loirinhos, translúcidos, cabelos loirinhos cacheados, sempre rindo. Todos rindo no banho do chafariz. A multidão deles rindo dava a sensação de ouvi-los em gargalhadas como joões-de-barro, ah ah eh eh eh!... Eram felizes em céu de esmeralda, sangas, morros, campos aveludados de capim-grama, dormideiras, azedinhas-grandes, zunidos de tujubas, assobios de saurás-fogos. Eram anjinhos que gostavam de brincar de caçador de nadar no espelho de água de descer das nuvens brancas deslisando pelo arco-da-chuva e assim por diante.

       Reparava bem muito bem nos anjinhos e suas asas e seus olhos azuis e sua cor de papel novo. Eles a achavam engraçada, riam para fora, e riam para ela. Ela ria para fora e para eles. O fantástico mesmo era que tinham asas nas costas e nos pés. Todos vinham do céu já com a bundinha enrolada num lençol sempre azul. Não eram pessoas, não eram meninos vendendo papelotes ou trouxinhas, não eram meninos se embebedando, não eram meninos cheirando cola, não eram meninos de atiradeira no pescoço, não eram deste mundo. Eram como nuvens brancas entre raios de ouro luz colorida.

       Pegou fogo o capoeirão seco. Combustão espontânea, talvez. Aumentando muito o sufoco. O mundo se encheu de fuligem, faíscas, fumaça escura, intoxicação, uma panela de pressão, um forno. Não se via um palmo. Respiração com tosse tosse, lágrimas, irritação. Os aldeães e as aldeãs e os aldeãezinhos sentiram mesmo o que era o beco sem saída. O sol já passava por trás das nuvens de pó vermelho e da fumaceira. Como restos sobras pelo ar de um vulcão em constante roncar.

       Elazinha foi até a praça dar uma volta um rolê. E abraçou os troncos carbonizados de umas ex-árvores que já foram lendas, paineiras, caroás, coxas-de-frango, olhos-do-diabo, etc. Saiu se despedindo de cada uma e de uma por uma. Diante do desengonçado portãozinho de ripinhas já em casa parou para ver se vinha alguém. Ficou olhando para tudo que era lado. Não acontecia nada. Veio sempre uma sombra de nuvens de pó.

       Por tudo aí, nem as baratas sobreviveram nem existiam mais. 

       Quase sempre, principalmente pelas manhãs revoltadas de nuvens de poeira, Vivi abria a janela e olhava a aldeia toda falida, se debruçava no parapeito da janela, olhava a rua Única toda pedregosa. Aí pensava, quase que poderia pensar: por que não. Dito e perfeito. Vivi saía pedalando a magricela pela rua. Quase sempre era isso. Apreciava de sair andando levantando poeira cavacos. Não se importava com mais nada, ou se interessava com qualquer coisinha. A boca cheia de terra, o nariz vermelho, a pele muito queimada e requeimada de sol.

       Se sentou na escadinha que dava para o quintal abandonado. As mãos no queixo, os cotovelos nos joelhos, a ponta dos cabelos empoeirados atrás das orelhas. Nem ela sabia o que esperar da sorte ali, assim. Que nada que dúvida. Vivi era uma menina calma, mansa, quieta, mirrada, silenciosa, de doze anos. Ergueu a barra do vestidinho florido que ela mesma bordou, apartou a calcinha com estampas de bichinhos que bordara, e conferiu a babaquinha. Nem bem sabia o nome. Achou tudo assim como sempre fora. Era isso aí. Tinha que ser. Não havia outro jeito. Fazer o quê.

       Talvez quando crescesse, pensava, como pensou, talvez um dia, crescida, já moça, chegasse a ser santa rodeada de anjinhos como santa Luzia. E todos os anjos estariam rindo um riso feliz. Gostava de pensar e saber que os anjos existem. Que os lugares com anjos existem, rios, enseadas, restingas, iraís, alamedas, hortas, trombas de água, bem-te-vis-do-gado, guaripés, flores-de-babado, paxiubamirins, etc.

       Abriu a janela para acompanhar a lua empanada de poeira. Uma vida inteira que não chovia. A lua esparramando entupindo de prata o ar de poeira vermelha. Acompanhou a lua que fugia na escada rolante. A lua era um caco, um prato, um disco. Tudo meio nublado da poeira que subia do chão tocada pelo vento sudoeste.

       Suas mãos reencontraram macias a brincadeira das partes por tudo por partes o calor o fogo as labaredas:

       - Idade dez onze doze.

       Era um verão centenário sem folga de muita fadiga. Um calorão de rachar as pedras. Os aldeões e as aldeãs dormiam de dia e descansavam à noite. Não chovia no lugar desde há bem pelo menos uns mil quinhentos toco ouricuri.

       Vivi ergueu os braços, estalou, bocejou, arreganhou a boca como não sei, os dentes trincando grãos de terra. Estava acordando distraída esticando o lençol, que ela mesma bordara. Sete horas, um domingo. Fazer como.

       O céu vermelho, não tinha um verde, não havia um inseto voando, nada de pássaro cantando, nada na manhã de barulhar de passaredo, nada que despertasse o dia para o domingo de manhã. E nem as formigas, pois aí não havia nem formigas nem cupins nem micuins. Só o vento leste poeirento se mexia ou tocava a massa vermelha sem rumo certo.

       Haveria sempre alguma coisa nas nuvens vermelhas. O céu nascia do deserto. A cor do céu a mesma da terra, etc.

       A menina apareceu com mania de plantar bananeira. Então, toda vez em casa, ali no pátio seco, virava rolava estrelinha, dava gambotas, rodopiava, imitava lebre saracura jaguatirica sauimpiranga. Gostava de acrobacias equilibrismos malabarismos. Se tivesse uma cartola preta alta de mágico saberia fazer mágicas e apresentar ao público as novidades do mundo oculto.

       Bordara no short uma borboleta impossível de achar por aí. A borboleta azul-ferrete virou bater de asas e voou. A borboleta pirou. A borboleta pintou. A borboleta virou passarinho e escapou. O passarinho pirou. O passarinho amanheceu. O passarinho viajão viajou toda vida para longe procurando água e um ramo verde para descansar.

       Toda menina de doze para na frente do espelho. E não cansa de se olhar no espelho do quarto, espelho de corpo inteiro, espelho de todos os ângulos. Os cabelos da cor do fogo da terra do ar da falta de ar.

       Uma manhã foi de bicicleta até a pracinha e os meninos a cercaram. Um menino pegou a bicicleta e pedalou. Os outros piás, enquanto esperavam vez, a seguraram pelos braços puxaram o cabelo beijaram o rosto sujo de pó.

       E ela viu o mundo todo alaranjado. E viu o mundo todo amarelado. Também um mundo quadrado. E viu o mundo todo recortado picado mordiscado perfurado.

       Um olhar de quem já viu tudo na sorte e não vira nada. Olhos fitos apagados duros hipnotizados amargos. Olhos escorregados de lágrimas na poeira.

       Vivi não sabia não compreendia não sabia explicar.       

       Junto da tarde de céu avermelhado, ela foi até o capoeirão ressequido. Chegou ali e ficou de bobeira. Ela e a  bicicleta sem guarda-lamas sem bagageiro. Foi pedalando para ali, contornou uns pedregulhos com feitio de bicho conhecido. Foi para lá, contornou uns troncos secos há muito secos tocos de pindobeira, de muriri, de mirindiba, etc.

       Foi pedalando e deixando atrás o rasto e a poeira levantada. Parou para ver o rasto e a poeira baixando. Voltou no próprio rasto ou inaugurou outro rasto.

       E pedalou de volta seguindo o rasto da bicicleta. Continuou pedalando pelo capoeirão queimado quando derrapou caiu urucubaca bateu a cabeça na pedra, tuque!...

       A coisa que percebeu foi um silêncio. A dor que ensurdeceu e cegou e rachou a cabeça.

       Caíram com tudo Vivi e bicicleta no meio do pó vermelho e a menina bateu a cabeça na pedra de ponta, tuque!...

       Uma parede alta, um muro alto e grosso e comprido.

       Aparentava uns oito nove anos, meiguice, afeto, carinho, ternura, bracinhos sem muque.

       A última coisa que sentiu foi se ver carregada por uma sombra gigante.

       Faça alguma coisa, menina.

       A menina Vivi não fazia nada não fez mais nada.

       A boca apertou em muxoxo os dedos das mãos em garras os braços em abraços os cabelos apertaram em traça, com fita de pano azul dando o nó na ponta. Mas não mais não conseguiu nem se mexer.

       Surgiu um saci a jato, um redemoinho trouxe poeira ciscos e entupiu os olhos.

       Começou a brincar de caçador com ninguém. Já saiu brincando de caçador com um invisível.

       Jogava de caçador com a cor lilás verde violeta. Jogava de caçador com os anjos azuizinhos no campinho junto do lago, lambaris, tucunarés, tracajás, iaras, pois estava chovendo, sobrevoo de beija-flor-de-garganta-azul, risos de bem-te-vi-de-três-riscas, etc.