Há que se esquecer da partitura da
piscicaptura da conjuntura. E as gurias mais ainda nem sabiam de nada. Uns
pontos a favor, portanto:
- Você conhece Normandia e o lago
Caracaranã?
- E o antigo palácio Tiradentes, morro
da Viúva, campo dos Afonsos, ilha das Cobras, hein?!
- Pode me adicionar?
- Se eu curti? Curti.
- Nem curti, ainda.
- Tem o ideal o preferencial e o
possível. Nessa ordem.
- Um fardinho de latinhas de cerveja,
ah ah ah!...
- Talvez galhos secos, roupas no
varal... e o próprio vento, vuuu!...
Naquele dia 14 de maio de 2014 lindonas
gostosonas bonitonas arrumadonas confirmadonas instigadonas um início de manhã
a história já parecia muito bem encaminhada e suspeita.
Um grupo, as amigas da região do Seridó, RN, estavam sempre
dispostas a fazer exercícios comumentemente verticais. Isso todos os sábados pela
manhã sem nuvens sem chuva sem nevoeiro. Em algum ponto diverso do território
nacional. De preferência longe.
Acordaram cedo antes dos raios do sol. A viagem alada.
As horas voaram. Passaram nas alturas sobre os doze mil metros já para lá de
Pacaraima, Itaqui, Itirapina, Corumbataí, Almirante Tamandaré do Sul e etc.
E eram sete as saltadoras potiguar, como os sete
pecados capitais, as sete sombras do arco-íris, os sete dias da semana, os sete
fôlegos do gato, as sete maravilhas do mundo contemporaníssimo: Pitumba, a materialista;
Parari, a espiritualista; Juriti, a cooperativista; Carajá, a existencialista; Arirambinha,
a feminista; Piava-Verdadeira, a corporativista; Baníua, a governista; e Tariana,
ou Largata, a ecologista e determinista.
E todas tinham um cuidado ótimo com o próprio sorriso,
sombra dos olhos, lábios pintados, unhas compridas para duas cores distintas, brincos,
colar, pulseiras, tornozeleira, tatuagem de árabe ou chinês. Gurias de pernas
saradas longas ginastas e olhares perdidos. Roupas paraquedistas e calcinhas
moda tipo pixel. Todas levavam os pelos das pernas e axilas e etc bem depilados.
E os cabelos podiam ficar soltos e assustados e desgrenhados e de qualquer
jeito amarelos de sol.
O avião voou cinco horas e tanto para o
interior. Latitude sul longitude oeste altitude acima do mar dos cupuaçus das
casas das nuvens. Então, receberam ordem do piloto para saltar. Onze horas de sábado,
céu limpo, uma e outra nuvenzinha branca aqui e acolá. Pularam uma após a outra,
iuuu!... A paisagem lá pelo chão parecia boa, olhando de tão alto. Já pularam
todas. A liberdade de braços abertos queda a 250 km por hora gravidade puxando
vento na cara liberdade liberdade. A terra desenhada em canteiros e trilhas. A
geografia foi se aproximando. As cores foram se isolando se definindo. Os
detalhes foram aparecendo se materializando aos milhares e milhões. Os retalhos
geométricos de áreas quadrados círculos triângulos...
Tariana, a bonita, teve um probleminha
com a direção na corrente dos ventos e foi aterrissar sobre a copa de uma ex-perova-amarela.
O paraquedas se enfiou e se misturou e se tramou com a galhada seca, se
enroscou, ficou preso. Tariana, a dengosa, também conhecida como Largata,
apelido de colégio, se soltou e caiu do alto de sete metros, trooopes!... e
torceu o tornozelo do pé e. Quando sentiu o estalinho, pleque!... e a dor:
- Doeu, tá bom!!!
Até gritou e chorou solitária sentada
numa pedra escaldante. No ex-mato sem cachorro, nem tinha com quem extravasar. Lugar
seco, estorricado, incinerado pelo verão milenar. Solita no mais como gata em tapera. E queria muito
muito que viessem buscá-la, socorrê-la, resgatá-la. E até queria um espelho
para ver as melenas as madeixas as guedelhas. Beijou o escapulário. E tribeijou
o breve. Olhou em volta:
- Que que é isso, meu?! Que que estou
fazendo aqui? Eu mereço!
Aborrecida e com o desconforto, isso
sim. Procurou manter a calma e esperar. Tinha que ter calma, dar um prazo,
esperar, aguardar por um eventual socorro. Deus estava vendo, isso sim! Viriam
buscá-la, isso sim! Nem fita elástica branca na cabeça para prender o cabelo. Nem
conseguia esquecer a dor, nem conseguia ter calma suficiente para esquecer a
dor e o mau jeito que dera no pé. E estava mesmo no meio do sequíssimo deserto.
Ela mesma fez aquilo mesmo. Nem ouvia nenhum som, nenhum barulho, nada de
ruído, tudo silêncio, bem silêncio. Vento baixo carregado de poeira vermelha,
nuvens vermelhas.
Se lembrou da época da escola garotinha
de tenra idade. Estavam visitando o museu Júlio de Castilhos. Na entrada fila
de dois, uma menina de mão com um menino, a professora perguntou:
- O que a gente combinou?
- Silêncio - todos responderam ao mesmo
tempo.
Passou uma hora. Cochilou. Sonhou com
um bando de borboletas amarelas. Passou mais meia hora, talvez. Sonhou um bando
maior ainda de borboletas brancas. Acabou se irritando. Se estressou mais mais do
que já estava irritada.
Acabou de acordar e resolveu se mexer.
Procurou se arrastar até um ponto de referência, um lugar aberto onde pudesse
pleitear socorro, ser vista, encontrar gente, acender um foguinho, desenhar um
sos no chão, fazer um lanche, se esticar numa rede e esperar. Sentia mesmo uma
dor no vazio no lado nas cadeiras.
Então, andou como um saci. E sacudindo
o cabelo criativo. Logo precisou de uma escora. Andando assim, saiu para o
limpo, para um lado da mata seca, uma trilha que lhe pareceu melhor. Desceu um
morrinho. Ali embaixo encontrou uma estradinha de areia e pedrinhas redondas,
ou quase redondas. Era o leito seco e tortuoso de um ex-riachinho. Leito
pedregoso do corguinho extinto. Para que lado, uma vez? Desceria o ex-rio,
subiria o ex-rio? Resolveu acompanhar a descida do ex-riachinho. Parecia ser melhor
acompanhar o santo ex-riachinho abaixo. Podia até encontrar um santo, um
peregrino vestido de santo, um condomínio, e em volta do loteamento um bairro
ou distrito habitado.
Se sentou numa laje para o descanso.
Olhou o pé machucado. Sentiu uma dor pulsando na ideia, sentiu raiva, sentiu
vexame, sentiu vazio, sentiu fracasso. E ali mesmo ela ficou muito cansada e
exausta.
- Que dia tem aí, meu?!
Largata, a ajuizada, olhou em volta e
viu a vala, antigo leito do ex-rio. Um chão de areia e pedregulho os seixinhos
rolados. Um caminho sinuoso entre peraus, pedras soltas e arbustos secos. Uma
trilha difícil de caatinga.
A moça deixou a cabeça cair quase entre as pernas.
Cochilou. Sonhou com um bando de pixixicas entrando numa pedra. Ficou
reparando. E sonhou ter visto ainda um bando maior de formigas entrando para
uma pedra. A pedra nem engordava, ela acordou.
Então, Tariana, a saborosa, abriu os
olhos cansados. E olhou o pé torcido, inchado. Lembrou do pé dolorido. Este
parecia muito mal e se complicando cada vez mais. Um pé que estava querendo
morrer ali mesmo. E água? A boca seca e a garganta seca pediam água. A moça
queria mesmo uma solução. O sol era horrível sobre tudo, embora a fumaceira
vermelha.
A galinha de sol ia pondo os ovos das
horas ao longo do ninho do dia. O sol as horas o dia são coisas diferentes. A
galinha os ovos o ninho são coisas diferentes.
Largata, a linda, olhou a sua volta... e
olhou o que lhe restava da própria sorte... da própria sombra... e decidiu
continuar descendo o leito do ex-riachinho. Apoiada na escora. Sem filtro
solar. O pé inchado inchando.
Sol muito quente na cabeça. Uma luz
forte que se refletia nas pedras e que derretia as meninas dos olhos. O miolo
do coco também derretia. Nenhuma ideia então vingava. O meio-dia zênite sol a
pino. Céu indisposto lotado de poeira.
Tariana, a elegante, percebeu ou intuiu
que estava sendo seguida. Seguida deserto afora? Parou, olhou em volta... Nem
viu nada além do capoeirão seco e o entulho de pedras no leito do riozinho seco.
Talvez nem chovesse por ali há meses. Achou mesmo que nem chovia por ali há
anos-luz. Procurou ouvir... Um silêncio de fim de mundo... de fim dos tempos...
- Quem quer que seja.
Depois de mais umas duas horas, sempre sob o sol
escaldante, com sede, ela descansou, tentou descansar, né!, sentando na sombra
de uma embaubatinga petrificada. O pé parecia uma madura bola de futebol.
Sentada ali na base da ex-árvore, por
acaso e por favor, Largata, a angélica, viu quem a seguia: um cachorro: e dos
grandes: cachorrão, canzarrão. E pensou rápido, pensou alto e rápido:
- Nunca comi um cachorrinho apetitoso.
E daí?!
Largata, a judiciosa, se ergueu no
mesmo instante, toda arrepiada. Ao ver o cão teve um pressentimento. O cão nem
tinha cara de amigo. Mas nem tinha mesmo. E, então, mais que depressa, manquitolando,
quicando como o saci-pererê, seguiu caminho. Decidiu caminhar como remédio.
O sol temperamental castigava forte. O
tempo inteiro. Era janeiro, era fevereiro, voltava dezembro, janeiro e
fevereiro. Fazia mesmo calor. E era pleno verão. Era janeiro. Nem chovia fazia
bem dois mil anos. A luz cintilando na poeira vermelha. Nada se mexia sob
aquele calor.
E Largata, a famosa, dava três ou
quatro pulinhos e olhava para trás. E lá estava o cão e lá era o cão: língua
caída para fora da boca, olhar básico de cão brabo, provavelmente babando pelo
seu futuro almoço, olhar fixo, orelhas parabólicas, cauda meio que balançando,
boca cheia de dentes caninos. Ela fazia um metro ou dois, o cão a imitava. Ela
parava, o cão idem. Ela disfarçava e olhava para o lado, o cão disfarçava e
olhava em volta.
A moça pensou muita bobagem. Sempre o mais
difícil. O cão parecia filósofo apóstolo curandeiro. Um olhar meloso de cão
fugitivo, procurado pela justiça, fugido de manicômio, canil federal, sequestrador,
estuprador, torturador, incendiador, senador, predador, britador.
Tariana, a feliz, jogou uma pedra. O
cão se esquivou, mas nem foi embora. E nem avançou. O cão a olhava sério, frio,
obsessivo, matemático. Com certeza o cachorro só esperava que ela cochilasse ou
se distraísse para comê-la viva. Por isso todo cuidado era pouco. Por isso nem
podia parar. É, o cachorrão podia mesmo ser um cão assassino.
- Que horas são, hein?! - ela perguntou
alto.
Eram quinze horas e tanto, e muito quente. Nada mais
se ouvia. Tudo um silêncio. O cão também, só aguardando o primeiro vacilo. Cães
atacam pelas costas? Cães atacam bichos mancos ou feridos ou doentes? A moça
tinha dúvidas. Cães comem aqueles seres humanos?
Andou uns oito metros e sentou numa
laje quentíssima. O cão parou ali. Fitaram-se. Silêncio contaminado de poeira. Era
muito ruim. Ela se ergueu e continuou, bem estropiada, bem curvada, bem falida.
O sol abrasador, abrasador, queimava a pele os olhos desprotegidos os cabelos
sagazes.
Que deserto era aquele? Onde viera
parar? Por que nem aparecia santo algum? Teria que passar a noite ali, uma
semana? Morreria devorada pelo canzarrão? Tinha dúvidas e pesadelos. E por que
nem lembrou de trazer uma arma branca, uma cachaça, um telefone celular, um gps,
uma palavras-cruzadas? Por que nem trouxe um sanduíche, um guaraná com pastéis,
umas balas de goma.
- Hein? Sua burra! - gritou consigo mesma.
Largata, a sensata, cabelo fabuloso e desgrenhado,
jogou uma pedra. O cão olhou a pedra cantar no pedregulho e depois a encarou
como sempre. Ela parou, o cão sentou e esperou. Ela agitou no ar a escora, o
cão só olhou fixo por enquanto. O cão, língua tombada, nem salivando mais.
Parecia mesmo estar esperando um excelente manjar. E por nada por nada os cães
também sonham!
A desfigurada resolveu descansar cinco
minutos naquela sombrinha do rochedo. Ajeitou os cabelos sublimes em volta do
pescoço. Sentou-se, deixou a escora perto da mão, qualquer coisa; também umas
boas pedras à mão, para caso de precisão. Olhou o pé... que estava
irreconhecível. Nem podia tocá-lo. Estava muito cansada. Dor de cabeça. O pé
quase nem doía de tão inchado, inchando. Se fosse um filme nem seria um
curta-metragem.
Sem saber, sem querer, fechou os olhos.
Se deixou. E, então, dormiu. Dormiu? Se abandonou. Dormiu. Viu em sonhos um bando de trinca-ferros, e depois, um bando
maior ainda de passarinhos de peito amarelo. Dormiu. E sorriu. Sorria. E ria.
Quase gargalhou.
Então acordou, acordou rindo, sobressaltada,
e viu, em cima do seu pé quebrado, o cão, o cão que vinha lhe perseguindo. Ele
lambia a sola do seu pé inchado e provocava cócegas. Largata, a estudiosa,
saltou para trás e o cão, tímido, cauda entre as pernas, também saltou para
trás, correu, se precaveu, ficou afastado, andou uns cinco metros e sem falar
nada.
Tariana, a perfumosa, se ergueu muito
preocupada. Dormira temerariamente. O cão parou a uma distância, balançando as
orelhas desanimadamente. O cão direcionava para ela aquelas suas duas orelhas
parabólicas, interessadas. Largata, a mimosa, e o cão separados por uma
distância. Um com precavido do outro. Um com fome do outro? Um com nojo do
outro? Os dois com muita sede e fome e cansaço.
- Será que o cão quer ser meu amigo? Pode ser, né? -
falou para si mesma.
Desconfiada, ela o convidou a se aproximar. Batendo os
dedos, pleque! pleque!... O cão, desconfiado, veio vindo devagar, farejando, cauda
balançando, cabeça baixa, língua caída. Parecia rir. Chegou muito perto. A moça
passou a mão entre as orelhas do bicho. Talvez fosse manso, talvez muito
dependente dos tipos de humanos.
Ficaram amigos ou sócios. Então, ela
conseguiu um camarada e pronto. E o cão a seguiu muito de perto, cuidando do
seu pé estropiado, olhando para ela ou por ela a cada dois metros. Desciam o
leito seco do ex-riozinho. Largata, a risonha, tinha um guarda-costas. Coisa
incrível naquele deserto ríspido e esquecido e etc.
Três e quarenta da tarde. Os ventos
quentes ralavam o todo em volta. O sol inclemente. Largata, a ditosa, nem aguentava
mais. Queria parar e dormir por muito tempo. O cão era amigo, parecia com sede,
com fome e assim por diante. A moça nada bebeu, nada comeu, nada podia fazer,
nem falou nada. Volta e meia a mão passava pelos cabelos ressequidos e misteriosos.
De repente, ouviram um rugido muito
próximo, gruuu!... Tariana, a imaginosa, pensou alto, respondeu a uma pergunta
interior, disse:
- Quem quer que seja.
Largata, a espirituosa, se assustou, o cão se assustou
e latiu com raiva e ousadia. Tariana, a brilhante, deixou cair a bengala, o cão
evacuou ali mesmo e sem querer. Largata, a venturosa, teve uma certeza: era uma
onça-pintada, brava e faminta e sedenta. Esta estava por aí, à espreita, se acercando.
- O que fazer agora? - se lastimou ela.
Mas nem queria pensar. Estava quente demais. Queria
sumir, tomar um banho, beber água até cair, voltar para a estrada, dormir,
fugir, sumir, acordar, se cobrir com o lençol até o queixo, pegar um táxi para
Coqueiros do Sul.
Largata, a respeitosa, tentou ir mais
rápido. Difícil numa perna só. O cão estava preocupado, latia, acuava, grunhia,
graaa!... olhava a sua volta. O cão estava com ódio. O cão estava preocupado
com a própria sorte.
Então, a onça-pintada, magra ossos
contados, surgiu no alto de uma rocha. Uma fera perigosa e arisca. A fera abriu
a bocarra para rugir ainda mais forte, tudo que podia, urrrrro!... Largata, a
vaporosa, sentiu os cabelos arrepiados, espetados, duros, doendo no couro cabeludo.
O cão engasgou de raiva e ódio e horror. A onça-pintada, enfraquecida pelo
calor, acrocou e grunhiu, grrrrr!... Largata, a altíssima, atirou uma pedra e a
onça-pintada se escondeu atrás das rochas, de repente.
A moça e o cão andaram mais uns metros.
O mundo tão pequeno e sem sentido e sem escapatória. A jaguaruçu, na espreita,
rugiu lá atrás, ruuu!... A sorte era um baile. A sorte era um bilhete. A sorte
era um jogo de xadrez. A sorte era um leito de rio. O cão latia sem parar, já
rouco. A guria se apressou, quicando na perna cansada.
De súbito a onça-pintada pulou sobre o
cão e os dois travaram uma peleia de horror e poeira e garras e grunhidos,
grrr!... Tariana, a apetitosa, tentou apartar, chegou a dizer o tal de “disso
deixá vamo, gente!”. Os dois brigando muito entre rugidos, latidos, urros,
ganidos, e poeira levantada, nuvem vermelha.
Nem demorou muito. E por que demoraria? E pedaços do
cão voaram do meio da nuvem de pó. Largata, a melodiosa, já corria como podia, os
cabelos habilidosos se sacudindo pelas costas, pendulando pelas costas, sujos
de poeira, quase úmidos de suor.
O cão só aguentara a onça-pintada por dois
minutos. De repente, nem se ouviu mais o cachorro. De súbito nem se tinha mais guaipeca
algum. Um rugido, gruuu!... e o silêncio... A acanguçu almoçava e jantava e
lanchava e almoça e jantava e lanchava o ex-cão.
Largata, a veneranda, queria distância e sossego para
reparar a perda. Corria e tentava correr mais e mais, sempre numa perna só. Largata,
a deusa, precisava de uma cachaça, de um fuminho, de uma paisagem civilizada,
de uma paisagem verde de pomar, de um lugar povoado e variado em comes e bebes,
de um abrigo contra onças-pintadas, de uma piscina com água borbulhante cascata
boias colchão inflável crianças gritando bem alto impertinentes.
Dezesseis horas? Quase certo. E Largata,
a flexível, nem suportava mais. Estava tonteando. Tonteou. E caiu ali mesmo na
areia do leito do riozinho seco. Zonza. Maquiagem de terra seca vermelha. De
boca aberta. E sapitucou. E desmaiou.
No pesadelo, no delírio, a guria viu um
bando de cães vindo na sua direção - queriam o quê, mesmo? -, e que corriam
como malucos, todos velozes, eram cães onceiros, perdigueiros, paqueiros,
anteiros; e viu ainda um bando maior de jaguaretés chegando na sua direção,
olhos amarelos como o sol, olhos amarelos como fossem de mel, boca espumando de
gula, língua pendida degustando o ar puro, lábios grossos, língua lambendo os pelos
dos lábios grossos, língua lambendo, esleeeepes!... os compridos bigodes os
fios do bigode.
O desmaio da moça, já bem toda
amarrotada, cabelos amistosos em descumprimento do dever, e isso durou dez doze
minutos. Ela acordou rindo. E rindo, abriu os olhos. Diante de si a onça-pintada
típica estampa dos livros do pantanal mato-grossense. E ali muito em cima,
lambendo-lhe o pé inchado, lambendo-lhe o pé destroncado, a mesma onça-pintada
que derrotara o cão. Largata, a colorida, gelou de pavor, tremeu de calor,
saltou de banda. A onça-pintada recuou uns passos e fixou a moça, cauda entre
as pernas.
Com metros separando, era uma onça-pintada, babando,
muito pintada de pintas amarelas e pretas. Uma jaguarapinima com duas orelhas
parabólicas, giratórias, gre-gre!... Uma onça-pintada de dar medo, de sair
correndo, de se encantar, de aproveitar para fotos, de ousar uma carícia. Era o
momento de ser amiga da onça ou sobremesa da pintada. E a onça-pintada era um
bicho e tanto. E a felina tinha almoçado e jantado e lanchado há bem pouco
tempo.
Por um momento Largata, a calorosa, e
onça-pintada se olharam nos olhos. Largata, a viçosa, tinha seus olhos muito
abertos e verdezinhos; a fera tinha olhos de sol, ou de mel, ou de ouro, ou de vespa.
Dezesseis e quarenta e seis da tarde. O
sol ainda estava forte, alto, amarelo como gema de ovo, como moeda rara de ouro.
A jaguar ali ali língua caída entre dois dentes grandes.
Tariana, a doce, esperou a onça-pintada
pular sobre o seu pequeno corpinho de mulher arteira e acabar com tudo. Fechou
os belos olhos, até. Fechou os olhos e esperou um tempão. Pareceu um tempo
largo. Passou instintivamente a mão pelos cabelos preciosos e longos. Nem foi
mais que vinte e cinco segundos. A moça esperava um empurrão e nhaque!... Mas a
onça-pintada se deitou, olhando com uma cara enigmática, um olhar neutro.
- Será o quê? - pensou alto a moça. Será que a onça me
idolatra? Será que a onça quer o quê, esta hora, este calor, este sistema solar?
A guria decidiu se erguer, pegar a
escora - muito com cuidado para nem assustar a fera -, e seguir caminho. A onça-pintada
também se resolveu a caminhar. Então, as duas desciam o leito de areia e
pedregulho do ex-riachinho. A moça pensou para fora:
- Tenho uma amiga de garras afiadas, agora, meu!
Largata, a frutuosa, olhava para trás,
desnecessariamente. Pensou outra coisa:
- Como essa onça-pintada quer ser minha amiga, hein?!
Mas a canguçu parecia mesmo ser uma esperta
estrategista, dali para a frente. A onça-pintada seguia Largata, a esperta,
como uma sombra como uma sombra quente, como uma sombra pintada.
A dona Largata, a lisa, ardia ao sol do
dia aberto. Tonteava de cansaço e calor e fome e sede. Quase delirava. Começou
a delirar. Pronto, viu um bando de libélulas verdes e leves, talvez azuis,
subindo o morro da encosta leste; e viu ainda outro bando bem maior de
libélulas elegantes seguindo pelo mesmo caminho aéreo. E pensou mais, ali no
sonho mesmo: Essas libélulas tão bonitas... e meu cabelo desgarrado deve estar
imundo e meu cabelo deve estar uma coisa e meu cabelo deve estar um fiasco. A
moça continuou pensando ou sonhando: Não, meu cabelo está definitivamente desgovernado
e precisando de um bom banho. E assim por diante a moça delirou e falou sozinha.
Dia ensolarado, quentíssimo, horas e
horas a fio, mundo perdido na poeira vermelha.
- Vou pifar - disse para si mesma, e
concordou.
Largata, a bronzeada, olhou a onça-pintada,
a onça-pintada olhou a moça. A jaguareté acompanhava como um gatinho, dócil,
doméstica, calma, sistemática. Outro pensamento da mulher:
- Será que cuida da próxima refeição? E procurando me
assar ao sol? Evitando jantar fora de antes da hora?
Desciam, por enquanto, por acaso, pelo leito seco do
riachinho. De um lado e de outro paredões de rocha, peraus, pedras roladas na
pré-história, árvores secas, paus queimados apontando o céu de fogo, pedras
rebatendo a luz, pedreiras, terra rachada, plantação de pedra canga.
Umas mais cedo, outras mais tarde, e ao longe do dia,
assim, contando, todas as horas foram sendo exoneradas.
Dois minutos mais e anoitecia dentro do
vale esturricado. Largata, a fogosa, parou e cochilou. Imediatamente, a moça
viu um bando de coleirinhas voltando para casa; e após, viu mais um bando maior
de coleirinhas-do-brejo procurando se esconder da noite. Sonhou que viu, bem
mais tarde, uns bandos de morcegos saindo das cavernas; e uns bandos maiores
ainda de morcegos voando para o encontro com a lua arredondada.
A moça esfomeada esbaforida acordou com
um arrepio pela sola do pé destroncado. Muita coceira na sola do pé e riu, ih
ih ih!... Estava quase sem roupas para a noite fria e dormir ao relento. Olhou
no escuro e viu a onça-pintada dar um passo atrás, cauda entre as pernas, uns
olhos de vaga-lume.
- Que frio, meu!
E, ainda mais, Largata, a plácida,
estava exausta, dolorida, tonta de horror, guedelhas revoltas e revoltadas, a noite
querendo fechar, noite fria. Por enquanto continuou ali sentada abraçada aos
joelhos. Nem queria imaginar a noite que teria pela frente, a resposta da
escuridão.
A onça-pintada já nem parecia se sentir bem. A fera
tinha um problema na consciência que mantinha só para si. O cão lhe caíra bem. E
o que preocupava a consciência da felina? Nem gostava de estrelas frias? Tinha
pavor de lua arredondada? Seus olhos de vaga-lume procuravam o quê, lá por dentro
da escuridão envolta em poeira?
No alto do céu o manto escuro ia sendo
esticado, desdobrado, montado. Aqui e ali umas janelinhas de luz, uns respiros
de luz, uns brilhos de diamante, uns olhos de guri arteiro por entre as nuvens
de poeira vermelha. Por aqui o frio se alastrando. Largata, a nova, se entregou
de novo ao sono cansado.
Tariana, a natural, sonhou que viu um bando de avoantes
em nuvem dar um giro mais longe; e viu ainda um bando maior de avoantes em
nuvem grande ir em direção leste. E um bando mais outro de avoantes se
encontrar e fazer coreografia artística complicada complexa teatral.
A canguçu estava inquieta e preocupada
e agitada. Olhava em volta de si, farejava o ar da noite. Miava de vez em
quando, roncava de súbito, gania para a escuridão, gruuu!... Seus olhos acesos
na brasa procuravam entender o escuro. De supetão, se ergueu, rosnou, bufou,
roooo!... flechou o olhar firme para o fundo da escuridão. Sabia já que ia
perder o sono. Perdeu a paciência.
- Quem quer que seja.
Um momento mais e se precipitaram batidas
de latas e latões. A onça-pintada esturrou, uuuuur!... e subiu na rocha mais
próxima, se preparando para o combate. Largata, a suspirosa, despertou
sobressaltada, ofegante afobada, pé muito bem inchado.
- São caçadores! Quem sabe já estou salva? - pensou
alto. Quem sabe seja o meu resgate? Tomara que me encontrem mesmo, embora os
cabelos despreparados.
À medida que as batidas de lata se
aproximavam - e vinham chegando furiosas numa velocidade -, mais braba a onça-pintada
se mostrava. A felina corria para cá e para lá, rodando em torno de si, subindo
e descendo as rochas mais altas, urrando com muito ódio no coração. A fera
precisava fugir, mas nem se decidia. Largata, a ideal, arquejante arfante, se viu
pensando, e falou isso:
- Mas por que a onça-pintada nem foge nem corre nem se
esconde e se salva?
Nem demorou nada para que os batedores
de latas chegassem com tudo, e cheios também de ódio, armados até os dentes e
atirando. Era um bando deles. Um bando deles com raiva e fome, ao mesmo tempo. Foi
um entrevero na escuridão e já levantando poeira vermelha da grossa.
E a seguir, o bando de caçadores armados foi atirando,
te-te-tê!... na onça-pintada e nem deram a mínima chance. A onça e moça estavam
cercadas pelo bando de caçadores. Uma fuzilaria ainda sobre a peneira felina.
Largata, a idolatrada, tapou os ouvidos e nem pensou mais nada. Era como se a
turma do anhangá-pitã tivesse chegado e parado ali e descarregado as armas ali.
Tudo mal iluminado pelas estrelas frias e distantes e apocalípticas.
A jaguarapinima já estava perdida
esburacada. A onça já nem deu mais conta de ficar em pé. A fera estrebuchou
toda perfurada arruinada. A pintada apagou os olhos de vaga-lume e deitou a
cola.
A seguir, já arreganhando os dentes, se
aproximaram os caçadores com suas armas e suas tochas e seus lampiões a carvão.
Cobertos de pó vermelho. Caçadores magrelos de olhos imensos. Pareciam também
feitos de poeira vermelha. Um deles mirou o bacamarte e apertou o gatilho. A
onça-pintada recebeu a bala maior entre os olhos, e esvaziou murchou por
comprido.
Largata, a elegante, se deitou na poeira e tentou se cobrir
de pó vermelho. Os cabelos desalinhados, os cabelos naquele estado lastimável,
os cabelos em petição de miséria. Os cabelos um horror dos filmes da década de
70. Nem eram cabelos apresentáveis. Os cabelos imprestáveis na cor vermelha.
Então, os caçadores procuraram recolher
tudo e cair fora. Dois ótimos caçadores botaram a onça-pintada num pau-de-arara.
Outro caçador carregou a moça nas costas. O cabelão dela pendendo e balançando
como roupa suja no varal. A moça carregada nas costas por aldeão-caçador como fêmea-trouxa
dos tempos bíblicos.
Andaram uma hora ou duas por capoeirões
secos labirinto e sem fim. O céu parecia se abrir para uma lua qualquer entre
nuvens baixas de poeira. Terra do país das pedras e arbustos ressequidos. Poeirama
invadindo tudo. Descansaram nenhuma vez, portanto.
Chegaram à aldeia de Santa Luzia pelas vinte e três
horas. Vila corroída pela poeira. Aldeões e aldeãs esquálidos, esquálidas,
costas curvas e tortas, desfigurados, cobertos de poeira poeira.
E esse povinho poeirento se deu as mãos no meio da rua
Única. Se juntaram ali no meio da rua, se deram as mãos, rodaram em roda
rodando e rindo e gritando e rodando mais e mais rápido, até ficarem bem tontos
e zonzos e histéricos. Sem demora se atiraram ao chão, muito eufóricos.
Dois minutos mais, Largata, a perfeita, estava no
interior de uma casinha de pau-a-pique coberta de sapê, deitada numa esteira,
sobre o chão de terra batida, cabelos desgrenhados, cabelos abandonados, roendo
as unhas, presa, requentada, destilada, arranhada.
Tariana, a interessante, olhou o aldeão-caçador
que a guardava de perto. Ele a olhava fixamente já com tempo. Ela olhou em volta. Considerou
que estava salva e presa. E fechou os olhos verdinhos, passou a mão
automaticamente pelas melenas orgulhosas. Dormiu. Um sono difícil. Um sono com
pé quebrado ou torcido ardendo.
Dormiu se dormiu, pensou que dormia,
sonhou ou delirou que famílias de surucuás caminhavam na mata virgem em
procura. E mais surucuás em bando gigante sempre tocando o membi a intervalos
regulares, feeeu, feeeu!... catavam frutinhas do chão caídas dos guabijus.
Posteriormente após no dia seguinte,
Largata, a caprichosa, acordou motivada de risos irresistíveis. Abriu os olhos
e se rindo, ih ih ih!... O aldeão, o mesmo aldeão-caçador que a guardava, lambia-lhe
o pé inchado, fazia cócegas, limava com a língua grossa a sola do seu pé
inchado. Ela, a moça, ria e olhava para os lados. Às vezes lagrimejando e
rindo. O aldeão meio que se afastou um tanto, receoso, pego em flagra, rabo
entre as pernas. Largata, a inofensiva, tinha vontade de fazer xixi, mas ria do
mesmo jeito e sempre e muito.
Largata, a talentosa, olhou em volta. Olhou o pé
lambido. Criou coragem, pensou: Nossa! Os meus cabelos devem estar um fiasco, e
eu me parecendo com uma espantalha, uma martinta-pereira, uma pixuna desfolhada.
Preciso encontrar água, sabonete, champu, toalha felpuda, pente e espelho, tudo
no mesmo lugar.
Depois, vieram alguns outros aldeões e
aldeãs bater à porta, mas o dono da oca nem abriu. Os de fora ameaçaram, mas o de
dentro nem se intimidou. Aí, os de fora desistiram e foram embora, mas o de
dentro nem se acalmou.
Largata, a deslumbrante, ainda estava
na esteira. Ouviu, ou sonhou ter ouvido, um pio de caburé-do-campo? Nem viu, pensou
ter ouvido, um bando de andorinhas muito rápidas e uniformes cruzando o céu
limpo; e nem viu, ou nem ouviu, um bando ainda maior de andorinhas passar pelo
quadro da janela tendo ao fundo o céu azul de poucas nuvens brancas.
A moça acordou como sempre, se
estapeando, rindo da coceira, nem aguentando a comichão na sola do pé. O
aldeão-caçador deu um pulo resguardado para trás, rabo entre as pernas, maquiado
de pó vermelho, dedos nos lábios. E ficou ali, sentado no chão, olhar pedinte e
impreciso.
Largata, a pararé, olhou o pé e viu que
estava ainda inchado, porém doendo mais ou menos. Se ergueu quicando e foi procurar
o de-comer e o de-beber, que nem havia. O aldeão-caçador também andou pela
salinha pobre e podre. O caçador estava preocupado com os outros lá fora.
Constantemente ele vigiava espiando preocupado a rua Única. O fulano tinha duas
pistolas e um fuzil AK-47 e um facão e uma granada de mão sempre atada à
cintura.
Perto das doze horas, os aldeões e as
aldeãs voltaram para decidir a parada. Intimaram berraram que nem sairiam sem a
prisioneira. Largata, a irisada, pensou para fora:
- Que querem comigo?
E pensou bem mais rápido:
- Nossa! E meu cabelo? Preciso de um banho, de uns
grampos, de uma tiara, de uma grinalda de flores da oeirana. Com que cara vou
aparecer para essa gente?!
E Largata, a justinha, perguntou ao aldeão-caçador ali
presente:
- Como vai ser?! Explique! Por que logo
eu e logo hoje?
Nesse instante, de repente subitamente,
sabe-se lá como e por quê, um tremor de terra, misterioso suspeito, ali debaixo
dos pés do povinho todo, um tremor surdo. A vila tremeu, se assustou, soltou
poeira dos casebres todos, aldeões e aldeãs todos de olhos fixos e bem abertos.
Um tremor com estrondo cavernoso que veio do fundo do mundo, de debaixo dos
pés, do centro da terra.
Um silêncio depois. Um saci veio num
redemoinho. Dois sacis, cada qual no seu redemoinho de poeira brita e cisco.
Mais meia-hora e, depois de trinta
minutos, os aldeões e as aldeãs arrombaram a porta do casebre do tal
aldeão-caçador. A porta tombou para dentro da salinha. A casinha quase caiu de
podre. Imediatamente o aldeão-caçador reagiu com estocadas de facão e voadoras
e pontapés e rabos-de-arraia e mordidas. Os aldeãos e as aldeãs invasores deram
um passo atrás, e estratégicos, se esconderam se protegeram nas esquinas.
Largata, a viajada, pegou um revólver e
começou a atirar com fúria. Os cabelos lhe caíam para diante dos olhos. Quando
tinha tempo passava os cabelos para trás das orelhas. Falou por falar que
ninguém deu ouvidos ou deu bola:
- Logo logo vai faltar balas aqui, cara!
Os aldeões e as aldeãs nem queriam
incendiar a choça. Então, com muito cuidado, e paciência, foram cercando-a. Na
altura das treze horas o palacete estava cercado. Assim, aconteceu muita bala
de todo lado. De em torno e vindo assobiando, viii!... muita bala de todos os
cantos e muito mais. No interior do casebre faltou bala. A palhoça toda
perfurada direitinho.
Tariana, a expansiva, viu, ou sonhou, um
bando de sapos-aru chegando para comer as paredes frágeis da casinhola coberta
de sapê; depois ainda viu e ouviu, e sonhou, um bando maior ainda de sapos-arus,
urque! urque!... vindo bater a sua porta, a sua janela, a sua parede, e
entrando sem cerimônia, saltando e parando e saltando, devorando tudo.
E Largata, a pura, nem se lembrou de
mais nada. Ouviu sonhou viajou de avião de trem de carro foi a pé estava longe
indagando o caminho para Carazinho, serra do Roncador.
Dois minutos mais e acabou as balas o
chumbo dentro da casa sitiada. Dois minutos mais e os aldeões e as aldeãs em
bando entraram de sola na casa lar doce lar.
Aí, os aldeões e as aldeãs invasores
esbofetearam o aldeão-caçador renitente. Depois, ainda os aldeões e as aldeãs
arrastaram a moça para o matadouro. O aldeão-caçador, e muito teimoso, queria
salvar a guria. Queria salvar de todo jeito, e queria porque queria. Para a
maioria dos aldeões ou das aldeãs, a moça estava muito magra porém melhor que
nada.
Largata, a ensolarada, enquanto
arrastada pelos cabelos, delirava com um bando de aldeões e de aldeãs e de
aldeãzinhas muito quase satisfeitos acompanhando-a; e delirou com um bando
maior cem vezes maior de aldeões e de aldeãs e de aldeõezinhos esfregando as
mãos satisfeitos e quase saciados.
No meio da capoeira, entre os tucurus
abandonados, o espantalho nem atinava a nada disso. De braços abertos, pacífico,
sacrificado, sem pressa, olhando o vazio como um espantalho deve ter. Calor queimando,
chapéu na cabeça, esperando as gralhas-azuis chegar de onde. O sol vermelho no
céu amarelo.
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