domingo, 24 de abril de 2016

Contos de Santa Luzia (10)


                                               


         Há que se esquecer da partitura da piscicaptura da conjuntura. E as gurias mais ainda nem sabiam de nada. Uns pontos a favor, portanto:
         - Você conhece Normandia e o lago Caracaranã?
         - E o antigo palácio Tiradentes, morro da Viúva, campo dos Afonsos, ilha das Cobras, hein?!
         - Pode me adicionar?
         - Se eu curti? Curti.
         - Nem curti, ainda.
         - Tem o ideal o preferencial e o possível. Nessa ordem.
         - Um fardinho de latinhas de cerveja, ah ah ah!...
         - Talvez galhos secos, roupas no varal... e o próprio vento, vuuu!...
         Naquele dia 14 de maio de 2014 lindonas gostosonas bonitonas arrumadonas confirmadonas instigadonas um início de manhã a história já parecia muito bem encaminhada e suspeita.        
Um grupo, as amigas da região do Seridó, RN, estavam sempre dispostas a fazer exercícios comumentemente verticais. Isso todos os sábados pela manhã sem nuvens sem chuva sem nevoeiro. Em algum ponto diverso do território nacional. De preferência longe.
Acordaram cedo antes dos raios do sol. A viagem alada. As horas voaram. Passaram nas alturas sobre os doze mil metros já para lá de Pacaraima, Itaqui, Itirapina, Corumbataí, Almirante Tamandaré do Sul e etc.
E eram sete as saltadoras potiguar, como os sete pecados capitais, as sete sombras do arco-íris, os sete dias da semana, os sete fôlegos do gato, as sete maravilhas do mundo contemporaníssimo: Pitumba, a materialista; Parari, a espiritualista; Juriti, a cooperativista; Carajá, a existencialista; Arirambinha, a feminista; Piava-Verdadeira, a corporativista; Baníua, a governista; e Tariana, ou Largata, a ecologista e determinista.
E todas tinham um cuidado ótimo com o próprio sorriso, sombra dos olhos, lábios pintados, unhas compridas para duas cores distintas, brincos, colar, pulseiras, tornozeleira, tatuagem de árabe ou chinês. Gurias de pernas saradas longas ginastas e olhares perdidos. Roupas paraquedistas e calcinhas moda tipo pixel. Todas levavam os pelos das pernas e axilas e etc bem depilados. E os cabelos podiam ficar soltos e assustados e desgrenhados e de qualquer jeito amarelos de sol.
         O avião voou cinco horas e tanto para o interior. Latitude sul longitude oeste altitude acima do mar dos cupuaçus das casas das nuvens. Então, receberam ordem do piloto para saltar. Onze horas de sábado, céu limpo, uma e outra nuvenzinha branca aqui e acolá. Pularam uma após a outra, iuuu!... A paisagem lá pelo chão parecia boa, olhando de tão alto. Já pularam todas. A liberdade de braços abertos queda a 250 km por hora gravidade puxando vento na cara liberdade liberdade. A terra desenhada em canteiros e trilhas. A geografia foi se aproximando. As cores foram se isolando se definindo. Os detalhes foram aparecendo se materializando aos milhares e milhões. Os retalhos geométricos de áreas quadrados círculos triângulos...
         Tariana, a bonita, teve um probleminha com a direção na corrente dos ventos e foi aterrissar sobre a copa de uma ex-perova-amarela. O paraquedas se enfiou e se misturou e se tramou com a galhada seca, se enroscou, ficou preso. Tariana, a dengosa, também conhecida como Largata, apelido de colégio, se soltou e caiu do alto de sete metros, trooopes!... e torceu o tornozelo do pé e. Quando sentiu o estalinho, pleque!... e a dor:
         - Doeu, tá bom!!!
         Até gritou e chorou solitária sentada numa pedra escaldante. No ex-mato sem cachorro, nem tinha com quem extravasar. Lugar seco, estorricado, incinerado pelo verão milenar. Solita no mais como gata em tapera. E queria muito muito que viessem buscá-la, socorrê-la, resgatá-la. E até queria um espelho para ver as melenas as madeixas as guedelhas. Beijou o escapulário. E tribeijou o breve. Olhou em volta:
         - Que que é isso, meu?! Que que estou fazendo aqui? Eu mereço!
         Aborrecida e com o desconforto, isso sim. Procurou manter a calma e esperar. Tinha que ter calma, dar um prazo, esperar, aguardar por um eventual socorro. Deus estava vendo, isso sim! Viriam buscá-la, isso sim! Nem fita elástica branca na cabeça para prender o cabelo. Nem conseguia esquecer a dor, nem conseguia ter calma suficiente para esquecer a dor e o mau jeito que dera no pé. E estava mesmo no meio do sequíssimo deserto. Ela mesma fez aquilo mesmo. Nem ouvia nenhum som, nenhum barulho, nada de ruído, tudo silêncio, bem silêncio. Vento baixo carregado de poeira vermelha, nuvens vermelhas.
         Se lembrou da época da escola garotinha de tenra idade. Estavam visitando o museu Júlio de Castilhos. Na entrada fila de dois, uma menina de mão com um menino, a professora perguntou:
         - O que a gente combinou?
         - Silêncio - todos responderam ao mesmo tempo.
         Passou uma hora. Cochilou. Sonhou com um bando de borboletas amarelas. Passou mais meia hora, talvez. Sonhou um bando maior ainda de borboletas brancas. Acabou se irritando. Se estressou mais mais do que já estava irritada.
         Acabou de acordar e resolveu se mexer. Procurou se arrastar até um ponto de referência, um lugar aberto onde pudesse pleitear socorro, ser vista, encontrar gente, acender um foguinho, desenhar um sos no chão, fazer um lanche, se esticar numa rede e esperar. Sentia mesmo uma dor no vazio no lado nas cadeiras.
         Então, andou como um saci. E sacudindo o cabelo criativo. Logo precisou de uma escora. Andando assim, saiu para o limpo, para um lado da mata seca, uma trilha que lhe pareceu melhor. Desceu um morrinho. Ali embaixo encontrou uma estradinha de areia e pedrinhas redondas, ou quase redondas. Era o leito seco e tortuoso de um ex-riachinho. Leito pedregoso do corguinho extinto. Para que lado, uma vez? Desceria o ex-rio, subiria o ex-rio? Resolveu acompanhar a descida do ex-riachinho. Parecia ser melhor acompanhar o santo ex-riachinho abaixo. Podia até encontrar um santo, um peregrino vestido de santo, um condomínio, e em volta do loteamento um bairro ou distrito habitado.
         Se sentou numa laje para o descanso. Olhou o pé machucado. Sentiu uma dor pulsando na ideia, sentiu raiva, sentiu vexame, sentiu vazio, sentiu fracasso. E ali mesmo ela ficou muito cansada e exausta.
         - Que dia tem aí, meu?!
         Largata, a ajuizada, olhou em volta e viu a vala, antigo leito do ex-rio. Um chão de areia e pedregulho os seixinhos rolados. Um caminho sinuoso entre peraus, pedras soltas e arbustos secos. Uma trilha difícil de caatinga.
A moça deixou a cabeça cair quase entre as pernas. Cochilou. Sonhou com um bando de pixixicas entrando numa pedra. Ficou reparando. E sonhou ter visto ainda um bando maior de formigas entrando para uma pedra. A pedra nem engordava, ela acordou.
         Então, Tariana, a saborosa, abriu os olhos cansados. E olhou o pé torcido, inchado. Lembrou do pé dolorido. Este parecia muito mal e se complicando cada vez mais. Um pé que estava querendo morrer ali mesmo. E água? A boca seca e a garganta seca pediam água. A moça queria mesmo uma solução. O sol era horrível sobre tudo, embora a fumaceira vermelha.
         A galinha de sol ia pondo os ovos das horas ao longo do ninho do dia. O sol as horas o dia são coisas diferentes. A galinha os ovos o ninho são coisas diferentes.
         Largata, a linda, olhou a sua volta... e olhou o que lhe restava da própria sorte... da própria sombra... e decidiu continuar descendo o leito do ex-riachinho. Apoiada na escora. Sem filtro solar. O pé inchado inchando.
         Sol muito quente na cabeça. Uma luz forte que se refletia nas pedras e que derretia as meninas dos olhos. O miolo do coco também derretia. Nenhuma ideia então vingava. O meio-dia zênite sol a pino. Céu indisposto lotado de poeira.  
         Tariana, a elegante, percebeu ou intuiu que estava sendo seguida. Seguida deserto afora? Parou, olhou em volta... Nem viu nada além do capoeirão seco e o entulho de pedras no leito do riozinho seco. Talvez nem chovesse por ali há meses. Achou mesmo que nem chovia por ali há anos-luz. Procurou ouvir... Um silêncio de fim de mundo... de fim dos tempos...
         - Quem quer que seja.    
Depois de mais umas duas horas, sempre sob o sol escaldante, com sede, ela descansou, tentou descansar, né!, sentando na sombra de uma embaubatinga petrificada. O pé parecia uma madura bola de futebol.
         Sentada ali na base da ex-árvore, por acaso e por favor, Largata, a angélica, viu quem a seguia: um cachorro: e dos grandes: cachorrão, canzarrão. E pensou rápido, pensou alto e rápido:
         - Nunca comi um cachorrinho apetitoso. E daí?!
         Largata, a judiciosa, se ergueu no mesmo instante, toda arrepiada. Ao ver o cão teve um pressentimento. O cão nem tinha cara de amigo. Mas nem tinha mesmo. E, então, mais que depressa, manquitolando, quicando como o saci-pererê, seguiu caminho. Decidiu caminhar como remédio.
         O sol temperamental castigava forte. O tempo inteiro. Era janeiro, era fevereiro, voltava dezembro, janeiro e fevereiro. Fazia mesmo calor. E era pleno verão. Era janeiro. Nem chovia fazia bem dois mil anos. A luz cintilando na poeira vermelha. Nada se mexia sob aquele calor.
         E Largata, a famosa, dava três ou quatro pulinhos e olhava para trás. E lá estava o cão e lá era o cão: língua caída para fora da boca, olhar básico de cão brabo, provavelmente babando pelo seu futuro almoço, olhar fixo, orelhas parabólicas, cauda meio que balançando, boca cheia de dentes caninos. Ela fazia um metro ou dois, o cão a imitava. Ela parava, o cão idem. Ela disfarçava e olhava para o lado, o cão disfarçava e olhava em volta.
         A moça pensou muita bobagem. Sempre o mais difícil. O cão parecia filósofo apóstolo curandeiro. Um olhar meloso de cão fugitivo, procurado pela justiça, fugido de manicômio, canil federal, sequestrador, estuprador, torturador, incendiador, senador, predador, britador.
         Tariana, a feliz, jogou uma pedra. O cão se esquivou, mas nem foi embora. E nem avançou. O cão a olhava sério, frio, obsessivo, matemático. Com certeza o cachorro só esperava que ela cochilasse ou se distraísse para comê-la viva. Por isso todo cuidado era pouco. Por isso nem podia parar. É, o cachorrão podia mesmo ser um cão assassino.
         - Que horas são, hein?! - ela perguntou alto.
Eram quinze horas e tanto, e muito quente. Nada mais se ouvia. Tudo um silêncio. O cão também, só aguardando o primeiro vacilo. Cães atacam pelas costas? Cães atacam bichos mancos ou feridos ou doentes? A moça tinha dúvidas. Cães comem aqueles seres humanos?
         Andou uns oito metros e sentou numa laje quentíssima. O cão parou ali. Fitaram-se. Silêncio contaminado de poeira. Era muito ruim. Ela se ergueu e continuou, bem estropiada, bem curvada, bem falida. O sol abrasador, abrasador, queimava a pele os olhos desprotegidos os cabelos sagazes.
         Que deserto era aquele? Onde viera parar? Por que nem aparecia santo algum? Teria que passar a noite ali, uma semana? Morreria devorada pelo canzarrão? Tinha dúvidas e pesadelos. E por que nem lembrou de trazer uma arma branca, uma cachaça, um telefone celular, um gps, uma palavras-cruzadas? Por que nem trouxe um sanduíche, um guaraná com pastéis, umas balas de goma.
- Hein? Sua burra! - gritou consigo mesma.
         Largata, a sensata, cabelo fabuloso e desgrenhado, jogou uma pedra. O cão olhou a pedra cantar no pedregulho e depois a encarou como sempre. Ela parou, o cão sentou e esperou. Ela agitou no ar a escora, o cão só olhou fixo por enquanto. O cão, língua tombada, nem salivando mais. Parecia mesmo estar esperando um excelente manjar. E por nada por nada os cães também sonham!
         A desfigurada resolveu descansar cinco minutos naquela sombrinha do rochedo. Ajeitou os cabelos sublimes em volta do pescoço. Sentou-se, deixou a escora perto da mão, qualquer coisa; também umas boas pedras à mão, para caso de precisão. Olhou o pé... que estava irreconhecível. Nem podia tocá-lo. Estava muito cansada. Dor de cabeça. O pé quase nem doía de tão inchado, inchando. Se fosse um filme nem seria um curta-metragem.
         Sem saber, sem querer, fechou os olhos. Se deixou. E, então, dormiu. Dormiu? Se abandonou. Dormiu. Viu em sonhos um bando de trinca-ferros, e depois, um bando maior ainda de passarinhos de peito amarelo. Dormiu. E sorriu. Sorria. E ria. Quase gargalhou.
         Então acordou, acordou rindo, sobressaltada, e viu, em cima do seu pé quebrado, o cão, o cão que vinha lhe perseguindo. Ele lambia a sola do seu pé inchado e provocava cócegas. Largata, a estudiosa, saltou para trás e o cão, tímido, cauda entre as pernas, também saltou para trás, correu, se precaveu, ficou afastado, andou uns cinco metros e sem falar nada.
         Tariana, a perfumosa, se ergueu muito preocupada. Dormira temerariamente. O cão parou a uma distância, balançando as orelhas desanimadamente. O cão direcionava para ela aquelas suas duas orelhas parabólicas, interessadas. Largata, a mimosa, e o cão separados por uma distância. Um com precavido do outro. Um com fome do outro? Um com nojo do outro? Os dois com muita sede e fome e cansaço.
- Será que o cão quer ser meu amigo? Pode ser, né? - falou para si mesma.
Desconfiada, ela o convidou a se aproximar. Batendo os dedos, pleque! pleque!... O cão, desconfiado, veio vindo devagar, farejando, cauda balançando, cabeça baixa, língua caída. Parecia rir. Chegou muito perto. A moça passou a mão entre as orelhas do bicho. Talvez fosse manso, talvez muito dependente dos tipos de humanos.
         Ficaram amigos ou sócios. Então, ela conseguiu um camarada e pronto. E o cão a seguiu muito de perto, cuidando do seu pé estropiado, olhando para ela ou por ela a cada dois metros. Desciam o leito seco do ex-riozinho. Largata, a risonha, tinha um guarda-costas. Coisa incrível naquele deserto ríspido e esquecido e etc.
         Três e quarenta da tarde. Os ventos quentes ralavam o todo em volta. O sol inclemente. Largata, a ditosa, nem aguentava mais. Queria parar e dormir por muito tempo. O cão era amigo, parecia com sede, com fome e assim por diante. A moça nada bebeu, nada comeu, nada podia fazer, nem falou nada. Volta e meia a mão passava pelos cabelos ressequidos e misteriosos.
         De repente, ouviram um rugido muito próximo, gruuu!... Tariana, a imaginosa, pensou alto, respondeu a uma pergunta interior, disse:
         - Quem quer que seja.
Largata, a espirituosa, se assustou, o cão se assustou e latiu com raiva e ousadia. Tariana, a brilhante, deixou cair a bengala, o cão evacuou ali mesmo e sem querer. Largata, a venturosa, teve uma certeza: era uma onça-pintada, brava e faminta e sedenta. Esta estava por aí, à espreita, se acercando.
- O que fazer agora? - se lastimou ela.
Mas nem queria pensar. Estava quente demais. Queria sumir, tomar um banho, beber água até cair, voltar para a estrada, dormir, fugir, sumir, acordar, se cobrir com o lençol até o queixo, pegar um táxi para Coqueiros do Sul.
         Largata, a respeitosa, tentou ir mais rápido. Difícil numa perna só. O cão estava preocupado, latia, acuava, grunhia, graaa!... olhava a sua volta. O cão estava com ódio. O cão estava preocupado com a própria sorte.
         Então, a onça-pintada, magra ossos contados, surgiu no alto de uma rocha. Uma fera perigosa e arisca. A fera abriu a bocarra para rugir ainda mais forte, tudo que podia, urrrrro!... Largata, a vaporosa, sentiu os cabelos arrepiados, espetados, duros, doendo no couro cabeludo. O cão engasgou de raiva e ódio e horror. A onça-pintada, enfraquecida pelo calor, acrocou e grunhiu, grrrrr!... Largata, a altíssima, atirou uma pedra e a onça-pintada se escondeu atrás das rochas, de repente.
         A moça e o cão andaram mais uns metros. O mundo tão pequeno e sem sentido e sem escapatória. A jaguaruçu, na espreita, rugiu lá atrás, ruuu!... A sorte era um baile. A sorte era um bilhete. A sorte era um jogo de xadrez. A sorte era um leito de rio. O cão latia sem parar, já rouco. A guria se apressou, quicando na perna cansada.
         De súbito a onça-pintada pulou sobre o cão e os dois travaram uma peleia de horror e poeira e garras e grunhidos, grrr!... Tariana, a apetitosa, tentou apartar, chegou a dizer o tal de “disso deixá vamo, gente!”. Os dois brigando muito entre rugidos, latidos, urros, ganidos, e poeira levantada, nuvem vermelha.
Nem demorou muito. E por que demoraria? E pedaços do cão voaram do meio da nuvem de pó. Largata, a melodiosa, já corria como podia, os cabelos habilidosos se sacudindo pelas costas, pendulando pelas costas, sujos de poeira, quase úmidos de suor.
         O cão só aguentara a onça-pintada por dois minutos. De repente, nem se ouviu mais o cachorro. De súbito nem se tinha mais guaipeca algum. Um rugido, gruuu!... e o silêncio... A acanguçu almoçava e jantava e lanchava e almoça e jantava e lanchava o ex-cão.
Largata, a veneranda, queria distância e sossego para reparar a perda. Corria e tentava correr mais e mais, sempre numa perna só. Largata, a deusa, precisava de uma cachaça, de um fuminho, de uma paisagem civilizada, de uma paisagem verde de pomar, de um lugar povoado e variado em comes e bebes, de um abrigo contra onças-pintadas, de uma piscina com água borbulhante cascata boias colchão inflável crianças gritando bem alto impertinentes.
         Dezesseis horas? Quase certo. E Largata, a flexível, nem suportava mais. Estava tonteando. Tonteou. E caiu ali mesmo na areia do leito do riozinho seco. Zonza. Maquiagem de terra seca vermelha. De boca aberta. E sapitucou. E desmaiou.
         No pesadelo, no delírio, a guria viu um bando de cães vindo na sua direção - queriam o quê, mesmo? -, e que corriam como malucos, todos velozes, eram cães onceiros, perdigueiros, paqueiros, anteiros; e viu ainda um bando maior de jaguaretés chegando na sua direção, olhos amarelos como o sol, olhos amarelos como fossem de mel, boca espumando de gula, língua pendida degustando o ar puro, lábios grossos, língua lambendo os pelos dos lábios grossos, língua lambendo, esleeeepes!... os compridos bigodes os fios do bigode.
         O desmaio da moça, já bem toda amarrotada, cabelos amistosos em descumprimento do dever, e isso durou dez doze minutos. Ela acordou rindo. E rindo, abriu os olhos. Diante de si a onça-pintada típica estampa dos livros do pantanal mato-grossense. E ali muito em cima, lambendo-lhe o pé inchado, lambendo-lhe o pé destroncado, a mesma onça-pintada que derrotara o cão. Largata, a colorida, gelou de pavor, tremeu de calor, saltou de banda. A onça-pintada recuou uns passos e fixou a moça, cauda entre as pernas.
Com metros separando, era uma onça-pintada, babando, muito pintada de pintas amarelas e pretas. Uma jaguarapinima com duas orelhas parabólicas, giratórias, gre-gre!... Uma onça-pintada de dar medo, de sair correndo, de se encantar, de aproveitar para fotos, de ousar uma carícia. Era o momento de ser amiga da onça ou sobremesa da pintada. E a onça-pintada era um bicho e tanto. E a felina tinha almoçado e jantado e lanchado há bem pouco tempo.
         Por um momento Largata, a calorosa, e onça-pintada se olharam nos olhos. Largata, a viçosa, tinha seus olhos muito abertos e verdezinhos; a fera tinha olhos de sol, ou de mel, ou de ouro, ou de vespa.
         Dezesseis e quarenta e seis da tarde. O sol ainda estava forte, alto, amarelo como gema de ovo, como moeda rara de ouro. A jaguar ali ali língua caída entre dois dentes grandes.
         Tariana, a doce, esperou a onça-pintada pular sobre o seu pequeno corpinho de mulher arteira e acabar com tudo. Fechou os belos olhos, até. Fechou os olhos e esperou um tempão. Pareceu um tempo largo. Passou instintivamente a mão pelos cabelos preciosos e longos. Nem foi mais que vinte e cinco segundos. A moça esperava um empurrão e nhaque!... Mas a onça-pintada se deitou, olhando com uma cara enigmática, um olhar neutro.
- Será o quê? - pensou alto a moça. Será que a onça me idolatra? Será que a onça quer o quê, esta hora, este calor, este sistema solar?
         A guria decidiu se erguer, pegar a escora - muito com cuidado para nem assustar a fera -, e seguir caminho. A onça-pintada também se resolveu a caminhar. Então, as duas desciam o leito de areia e pedregulho do ex-riachinho. A moça pensou para fora:
- Tenho uma amiga de garras afiadas, agora, meu!
         Largata, a frutuosa, olhava para trás, desnecessariamente. Pensou outra coisa:
- Como essa onça-pintada quer ser minha amiga, hein?!
Mas a canguçu parecia mesmo ser uma esperta estrategista, dali para a frente. A onça-pintada seguia Largata, a esperta, como uma sombra como uma sombra quente, como uma sombra pintada.
         A dona Largata, a lisa, ardia ao sol do dia aberto. Tonteava de cansaço e calor e fome e sede. Quase delirava. Começou a delirar. Pronto, viu um bando de libélulas verdes e leves, talvez azuis, subindo o morro da encosta leste; e viu ainda outro bando bem maior de libélulas elegantes seguindo pelo mesmo caminho aéreo. E pensou mais, ali no sonho mesmo: Essas libélulas tão bonitas... e meu cabelo desgarrado deve estar imundo e meu cabelo deve estar uma coisa e meu cabelo deve estar um fiasco. A moça continuou pensando ou sonhando: Não, meu cabelo está definitivamente desgovernado e precisando de um bom banho. E assim por diante a moça delirou e falou sozinha.
         Dia ensolarado, quentíssimo, horas e horas a fio, mundo perdido na poeira vermelha.
         - Vou pifar - disse para si mesma, e concordou.
         Largata, a bronzeada, olhou a onça-pintada, a onça-pintada olhou a moça. A jaguareté acompanhava como um gatinho, dócil, doméstica, calma, sistemática. Outro pensamento da mulher:
- Será que cuida da próxima refeição? E procurando me assar ao sol? Evitando jantar fora de antes da hora?
Desciam, por enquanto, por acaso, pelo leito seco do riachinho. De um lado e de outro paredões de rocha, peraus, pedras roladas na pré-história, árvores secas, paus queimados apontando o céu de fogo, pedras rebatendo a luz, pedreiras, terra rachada, plantação de pedra canga.
Umas mais cedo, outras mais tarde, e ao longe do dia, assim, contando, todas as horas foram sendo exoneradas.
         Dois minutos mais e anoitecia dentro do vale esturricado. Largata, a fogosa, parou e cochilou. Imediatamente, a moça viu um bando de coleirinhas voltando para casa; e após, viu mais um bando maior de coleirinhas-do-brejo procurando se esconder da noite. Sonhou que viu, bem mais tarde, uns bandos de morcegos saindo das cavernas; e uns bandos maiores ainda de morcegos voando para o encontro com a lua arredondada.
         A moça esfomeada esbaforida acordou com um arrepio pela sola do pé destroncado. Muita coceira na sola do pé e riu, ih ih ih!... Estava quase sem roupas para a noite fria e dormir ao relento. Olhou no escuro e viu a onça-pintada dar um passo atrás, cauda entre as pernas, uns olhos de vaga-lume.
         - Que frio, meu!
         E, ainda mais, Largata, a plácida, estava exausta, dolorida, tonta de horror, guedelhas revoltas e revoltadas, a noite querendo fechar, noite fria. Por enquanto continuou ali sentada abraçada aos joelhos. Nem queria imaginar a noite que teria pela frente, a resposta da escuridão.
A onça-pintada já nem parecia se sentir bem. A fera tinha um problema na consciência que mantinha só para si. O cão lhe caíra bem. E o que preocupava a consciência da felina? Nem gostava de estrelas frias? Tinha pavor de lua arredondada? Seus olhos de vaga-lume procuravam o quê, lá por dentro da escuridão envolta em poeira?
         No alto do céu o manto escuro ia sendo esticado, desdobrado, montado. Aqui e ali umas janelinhas de luz, uns respiros de luz, uns brilhos de diamante, uns olhos de guri arteiro por entre as nuvens de poeira vermelha. Por aqui o frio se alastrando. Largata, a nova, se entregou de novo ao sono cansado.
Tariana, a natural, sonhou que viu um bando de avoantes em nuvem dar um giro mais longe; e viu ainda um bando maior de avoantes em nuvem grande ir em direção leste. E um bando mais outro de avoantes se encontrar e fazer coreografia artística complicada complexa teatral.
         A canguçu estava inquieta e preocupada e agitada. Olhava em volta de si, farejava o ar da noite. Miava de vez em quando, roncava de súbito, gania para a escuridão, gruuu!... Seus olhos acesos na brasa procuravam entender o escuro. De supetão, se ergueu, rosnou, bufou, roooo!... flechou o olhar firme para o fundo da escuridão. Sabia já que ia perder o sono. Perdeu a paciência.
         - Quem quer que seja.
         Um momento mais e se precipitaram batidas de latas e latões. A onça-pintada esturrou, uuuuur!... e subiu na rocha mais próxima, se preparando para o combate. Largata, a suspirosa, despertou sobressaltada, ofegante afobada, pé muito bem inchado.
- São caçadores! Quem sabe já estou salva? - pensou alto. Quem sabe seja o meu resgate? Tomara que me encontrem mesmo, embora os cabelos despreparados.
         À medida que as batidas de lata se aproximavam - e vinham chegando furiosas numa velocidade -, mais braba a onça-pintada se mostrava. A felina corria para cá e para lá, rodando em torno de si, subindo e descendo as rochas mais altas, urrando com muito ódio no coração. A fera precisava fugir, mas nem se decidia. Largata, a ideal, arquejante arfante, se viu pensando, e falou isso:
- Mas por que a onça-pintada nem foge nem corre nem se esconde e se salva?
         Nem demorou nada para que os batedores de latas chegassem com tudo, e cheios também de ódio, armados até os dentes e atirando. Era um bando deles. Um bando deles com raiva e fome, ao mesmo tempo. Foi um entrevero na escuridão e já levantando poeira vermelha da grossa.
E a seguir, o bando de caçadores armados foi atirando, te-te-tê!... na onça-pintada e nem deram a mínima chance. A onça e moça estavam cercadas pelo bando de caçadores. Uma fuzilaria ainda sobre a peneira felina. Largata, a idolatrada, tapou os ouvidos e nem pensou mais nada. Era como se a turma do anhangá-pitã tivesse chegado e parado ali e descarregado as armas ali. Tudo mal iluminado pelas estrelas frias e distantes e apocalípticas.
         A jaguarapinima já estava perdida esburacada. A onça já nem deu mais conta de ficar em pé. A fera estrebuchou toda perfurada arruinada. A pintada apagou os olhos de vaga-lume e deitou a cola.
         A seguir, já arreganhando os dentes, se aproximaram os caçadores com suas armas e suas tochas e seus lampiões a carvão. Cobertos de pó vermelho. Caçadores magrelos de olhos imensos. Pareciam também feitos de poeira vermelha. Um deles mirou o bacamarte e apertou o gatilho. A onça-pintada recebeu a bala maior entre os olhos, e esvaziou murchou por comprido.
Largata, a elegante, se deitou na poeira e tentou se cobrir de pó vermelho. Os cabelos desalinhados, os cabelos naquele estado lastimável, os cabelos em petição de miséria. Os cabelos um horror dos filmes da década de 70. Nem eram cabelos apresentáveis. Os cabelos imprestáveis na cor vermelha.
         Então, os caçadores procuraram recolher tudo e cair fora. Dois ótimos caçadores botaram a onça-pintada num pau-de-arara. Outro caçador carregou a moça nas costas. O cabelão dela pendendo e balançando como roupa suja no varal. A moça carregada nas costas por aldeão-caçador como fêmea-trouxa dos tempos bíblicos.
         Andaram uma hora ou duas por capoeirões secos labirinto e sem fim. O céu parecia se abrir para uma lua qualquer entre nuvens baixas de poeira. Terra do país das pedras e arbustos ressequidos. Poeirama invadindo tudo. Descansaram nenhuma vez, portanto.
Chegaram à aldeia de Santa Luzia pelas vinte e três horas. Vila corroída pela poeira. Aldeões e aldeãs esquálidos, esquálidas, costas curvas e tortas, desfigurados, cobertos de poeira poeira.
E esse povinho poeirento se deu as mãos no meio da rua Única. Se juntaram ali no meio da rua, se deram as mãos, rodaram em roda rodando e rindo e gritando e rodando mais e mais rápido, até ficarem bem tontos e zonzos e histéricos. Sem demora se atiraram ao chão, muito eufóricos.
Dois minutos mais, Largata, a perfeita, estava no interior de uma casinha de pau-a-pique coberta de sapê, deitada numa esteira, sobre o chão de terra batida, cabelos desgrenhados, cabelos abandonados, roendo as unhas, presa, requentada, destilada, arranhada.
         Tariana, a interessante, olhou o aldeão-caçador que a guardava de perto. Ele a olhava fixamente já com tempo. Ela olhou em volta. Considerou que estava salva e presa. E fechou os olhos verdinhos, passou a mão automaticamente pelas melenas orgulhosas. Dormiu. Um sono difícil. Um sono com pé quebrado ou torcido ardendo.
         Dormiu se dormiu, pensou que dormia, sonhou ou delirou que famílias de surucuás caminhavam na mata virgem em procura. E mais surucuás em bando gigante sempre tocando o membi a intervalos regulares, feeeu, feeeu!... catavam frutinhas do chão caídas dos guabijus. 
         Posteriormente após no dia seguinte, Largata, a caprichosa, acordou motivada de risos irresistíveis. Abriu os olhos e se rindo, ih ih ih!... O aldeão, o mesmo aldeão-caçador que a guardava, lambia-lhe o pé inchado, fazia cócegas, limava com a língua grossa a sola do seu pé inchado. Ela, a moça, ria e olhava para os lados. Às vezes lagrimejando e rindo. O aldeão meio que se afastou um tanto, receoso, pego em flagra, rabo entre as pernas. Largata, a inofensiva, tinha vontade de fazer xixi, mas ria do mesmo jeito e sempre e muito.
         Largata, a talentosa, olhou em volta. Olhou o pé lambido. Criou coragem, pensou: Nossa! Os meus cabelos devem estar um fiasco, e eu me parecendo com uma espantalha, uma martinta-pereira, uma pixuna desfolhada. Preciso encontrar água, sabonete, champu, toalha felpuda, pente e espelho, tudo no mesmo lugar.
         Depois, vieram alguns outros aldeões e aldeãs bater à porta, mas o dono da oca nem abriu. Os de fora ameaçaram, mas o de dentro nem se intimidou. Aí, os de fora desistiram e foram embora, mas o de dentro nem se acalmou.
         Largata, a deslumbrante, ainda estava na esteira. Ouviu, ou sonhou ter ouvido, um pio de caburé-do-campo? Nem viu, pensou ter ouvido, um bando de andorinhas muito rápidas e uniformes cruzando o céu limpo; e nem viu, ou nem ouviu, um bando ainda maior de andorinhas passar pelo quadro da janela tendo ao fundo o céu azul de poucas nuvens brancas.
         A moça acordou como sempre, se estapeando, rindo da coceira, nem aguentando a comichão na sola do pé. O aldeão-caçador deu um pulo resguardado para trás, rabo entre as pernas, maquiado de pó vermelho, dedos nos lábios. E ficou ali, sentado no chão, olhar pedinte e impreciso.
         Largata, a pararé, olhou o pé e viu que estava ainda inchado, porém doendo mais ou menos. Se ergueu quicando e foi procurar o de-comer e o de-beber, que nem havia. O aldeão-caçador também andou pela salinha pobre e podre. O caçador estava preocupado com os outros lá fora. Constantemente ele vigiava espiando preocupado a rua Única. O fulano tinha duas pistolas e um fuzil AK-47 e um facão e uma granada de mão sempre atada à cintura.
         Perto das doze horas, os aldeões e as aldeãs voltaram para decidir a parada. Intimaram berraram que nem sairiam sem a prisioneira. Largata, a irisada, pensou para fora:
- Que querem comigo?
E pensou bem mais rápido:
- Nossa! E meu cabelo? Preciso de um banho, de uns grampos, de uma tiara, de uma grinalda de flores da oeirana. Com que cara vou aparecer para essa gente?!
E Largata, a justinha, perguntou ao aldeão-caçador ali presente:
         - Como vai ser?! Explique! Por que logo eu e logo hoje?
         Nesse instante, de repente subitamente, sabe-se lá como e por quê, um tremor de terra, misterioso suspeito, ali debaixo dos pés do povinho todo, um tremor surdo. A vila tremeu, se assustou, soltou poeira dos casebres todos, aldeões e aldeãs todos de olhos fixos e bem abertos. Um tremor com estrondo cavernoso que veio do fundo do mundo, de debaixo dos pés, do centro da terra.
         Um silêncio depois. Um saci veio num redemoinho. Dois sacis, cada qual no seu redemoinho de poeira brita e cisco.
         Mais meia-hora e, depois de trinta minutos, os aldeões e as aldeãs arrombaram a porta do casebre do tal aldeão-caçador. A porta tombou para dentro da salinha. A casinha quase caiu de podre. Imediatamente o aldeão-caçador reagiu com estocadas de facão e voadoras e pontapés e rabos-de-arraia e mordidas. Os aldeãos e as aldeãs invasores deram um passo atrás, e estratégicos, se esconderam se protegeram nas esquinas.
         Largata, a viajada, pegou um revólver e começou a atirar com fúria. Os cabelos lhe caíam para diante dos olhos. Quando tinha tempo passava os cabelos para trás das orelhas. Falou por falar que ninguém deu ouvidos ou deu bola:
- Logo logo vai faltar balas aqui, cara!
         Os aldeões e as aldeãs nem queriam incendiar a choça. Então, com muito cuidado, e paciência, foram cercando-a. Na altura das treze horas o palacete estava cercado. Assim, aconteceu muita bala de todo lado. De em torno e vindo assobiando, viii!... muita bala de todos os cantos e muito mais. No interior do casebre faltou bala. A palhoça toda perfurada direitinho.
         Tariana, a expansiva, viu, ou sonhou, um bando de sapos-aru chegando para comer as paredes frágeis da casinhola coberta de sapê; depois ainda viu e ouviu, e sonhou, um bando maior ainda de sapos-arus, urque! urque!... vindo bater a sua porta, a sua janela, a sua parede, e entrando sem cerimônia, saltando e parando e saltando, devorando tudo.
         E Largata, a pura, nem se lembrou de mais nada. Ouviu sonhou viajou de avião de trem de carro foi a pé estava longe indagando o caminho para Carazinho, serra do Roncador.
         Dois minutos mais e acabou as balas o chumbo dentro da casa sitiada. Dois minutos mais e os aldeões e as aldeãs em bando entraram de sola na casa lar doce lar.
         Aí, os aldeões e as aldeãs invasores esbofetearam o aldeão-caçador renitente. Depois, ainda os aldeões e as aldeãs arrastaram a moça para o matadouro. O aldeão-caçador, e muito teimoso, queria salvar a guria. Queria salvar de todo jeito, e queria porque queria. Para a maioria dos aldeões ou das aldeãs, a moça estava muito magra porém melhor que nada.
         Largata, a ensolarada, enquanto arrastada pelos cabelos, delirava com um bando de aldeões e de aldeãs e de aldeãzinhas muito quase satisfeitos acompanhando-a; e delirou com um bando maior cem vezes maior de aldeões e de aldeãs e de aldeõezinhos esfregando as mãos satisfeitos e quase saciados.
         No meio da capoeira, entre os tucurus abandonados, o espantalho nem atinava a nada disso. De braços abertos, pacífico, sacrificado, sem pressa, olhando o vazio como um espantalho deve ter. Calor queimando, chapéu na cabeça, esperando as gralhas-azuis chegar de onde. O sol vermelho no céu amarelo.
        


    

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