terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 32




Sol Totalmente Pirótico

            Eu buscava, busco, até que vou buscar, até que vou alcançar, até que espero alcançar, aquilo que me anima desde sempre, que nem sei, que nem sei completo, que nem entendi, que tenho que encontrar e nem sei onde está, nem sei o total.
            Precisava das coisas. Mas do jeito que aconteciam nem estava adiantando.
            Quero ver o país, pensava.
            Pescar ali a cidade o rio o dia a dia as horas e devolver o peixe.
            As mesmas respostas para as mesmas perguntas sempre identificadas com o mesmo lugar. Pessoa assim que fazia sempre as mesmas coisas tudo igual e nem conseguia sair dali. As respostas e as perguntas.
            O perigo que estava passando, o perigo que estava correndo, que estava ficando, que estava parando, o perigo que estava rolando, o perigo que estava perdendo.
            Eu nunca passei muito por isso de ficar pensando.
            Sonhei, eu e meus cinco irmãos - onde fomos parar àquela noite? -, que entramos numa igreja, nem rezamos, ficamos um tempo gasto à toa com bobagens, sinos, carrilhões, estátua de santo de santa de anjo, janelas vitrais da via-sacra, saímos, viemos embora a pé e quando chegamos em casa... olhamos estarrecidos atônitos do outro lado da rua... a nossa casa dos pais da família incendiada desaparecida pegara fogo e com tudo que tínhamos dentro... sem restos sem sobras somente escombros e fumacinha...
            A lua ia indo rolando arqueando e se perguntando em o espaço. E cada vez mais a lua se aproximando do sol.
            O ano apenas estava no seu (re)começo.
                                                                       ***
            Enigmática na paisagem.
Sinais por toda parte. Dai-vos e tirai-vos! Setembro. Isso nem estava na seleção na lista de espera: socavão, socalco, sopapo, sacalão, socarrão. Domingo. Óculos escuros irisados. Araribás-amarelos. Escorpião de o zodíaco.
Uma manhã calma menos pelos passarinhos nos ares arredores, os tais e quais chirriares, bicos-roxos, gralhas-do-campo, saíras-pintores, cauanãs, iratauás... e  carros nas ruas, um sol como deve ser, uma lua para cada um. Toda a melhor boa vontade.
Isso nem era acontecimento de mundo. Nem comigo. Nem com ela.
Todo mundo achava a Enigmática boa, muito boa, linda, querida, atraente, inteligente, sociável e aérea. Aérea nem. Etérea. Coisa do espaço sideral estelar cósmico interplanetário azul infinito e universal.
Mas a presença de Enig e quem chegava e quem partia e quem era ali e quem era a lua.
Ver como um filme, olhar bem de perto dentro dela. E ela tinha o meu nome entre os dentes certinhos? O sorriso dela esquecia tudo.
            O que tenho certeza que era o que nem era: indefinível, misteriosa, ambígua, onipresente: Enigmática.
            Que adiantava? Nem sabia, nem sei. Eu mesmo, é, procurava outra pergunta e nem encontrava melhor.
                                                                       ***
            Um calor de verão sufocante endêmico. Até parecia pronto para uma pancada de chuva. Para os lados de lá, noroeste, de onde sempre vinha a chuva, as nuvens estavam carregadas e baixas e pretas e elétricas e em movimento, irmãs confabulando entre si, chamados e chiochios de chuva, suiriris, cutipuruís, sabiás-pocas, pica-paus-do-campo... pois sabiam o que era certo e o que errado.
            Grunhidos de autos na rua Cipó-Cruz com a avenida Masacá, gritos de caxinguelê no alto da tapeacuaçu, relinchos de cães por dentro dos quintais, resmungos de gatos nas varandas, zumbidos de gente nas calçadas discutindo o novo preço do cacetinho pela hora da morte.
            Eu os irmãos os primos fomos tomar banho no açude meio que afluente do rio Retiro. Um açude que localizava nas terras banhados pertencentes ao tio Urubici. Cruzamos o caponete e chegamos ao açude feito por nós mesmos a gurizada de pedras e pedregulho. Ouvimos uns gritinhos de meninas, o quê?! Espiamos por entre as aroeiras-de-bugre e era mesmo. Eram as 4 filhas do seu Xerimbabo Cuicuro. Família recém-chegada e bem-vinda de Serrinha ou Maraial, Alagoas ou Sergipe.
            Eram os dias e meses e mares e ano de 1983 e meus 14 ou 15 verões sobrevoando sobrenadando em os meus 70 pra 75kg. As aves cantavam e os pássaros escolhiam parceiras meio malucos por toda parte, mariquita-tio-tio, gaudério, poiaeiro-de-sobrancelha, botió, carão... Olhei o relógio digital 14:02, duas e dois da tarde, simples como dois e dois são 9, pensei.
            Chegamos mesmo assim com cara de pau, de surpresa, em bando, ali do meio do matinho de guamirins, pitangueiras, saboneteiras, cambuins, paracaris... Elas gritaram com vontade parecendo mesmo as tuimaitacas. Uma delas sofreu de tensão nervosa e desmaiou. Depois riram porque nos reconheceram. Meu primo Mbéru se convidou, o bobo:
            - Podemos tomar banho também e juntos?
            - Mas é claro!
            Aí, os malucos já estavam sem camisa mesmo, de calção mesmo, chinelas de tiras de borracha, e nos atiramos na água límpida e fria, água até a cintura, como pernilongos, capororocas, garças-brancas-grandes, jaburus, aracuãs...
            As gurias eram 4 e a mais ou menos era a mais velha, a Piúva. Mbéru se animou e já se apinchou pro lado dela, o idiota, o arteiro. As outras 3, Caranha e Cará e Aicanã, eram de menor e menos de 30 quilos, dispensamos, chave de cadeia. Riam e chilreavam à vontade e mesmo próprio próximo das idades, abre-asas-de-cabeça-cinza, iraúna-grande, choca-barrada, barboletinha-do-mato...  
            E meu irmão Pajeú ficou teso logo de saída, apesar da água fria corrente e tal. Eu ria que me quebrava e até alertei. Ele nem aí, e ainda disse bem alto para quem quisesse ouvir:
            - Tá aqui e nem tá lá em casa!
            Eu continuei na minha e olhe lá. A gente parecia um bando de pula-pulas, gralhas-picaças, cujubis, socós-bois, quero-queros... Fiquei sem preocupação já que nem havia por que ter preocupação.
            Depois de meia hora elas as 4 foram simbora. Foi frustrante. Bateram asas, figuinha-do-mangue, saíra-sapucaia, risadinha, beija-flor-de-orelha-violeta... Mas foram embora e nem teve jeito. Eu e cia ficamos ali e rindo e contando vantagens, vantagens que nem aconteceram, o mundo nem tinha lógica e garantias, sabiá-pimenta, japacanim, pica-pau-branco, fura-barreira, macuco... E tinha sido bom.
            De repente a mais velha, a Piúva, apareceu de volta e, sanhaço-de-encontro-azul, dizendo, tagarelando:
            - Me esqueci do sabão, ah ah ah!... Dão licença...
            Pegou o sabão fez continência com muita pressa e foi se arrancando enrolada na toalha de banho com inspiração da praia de Joaquina, Paraná. Meu primo Malvaísco, pato-bravo, se aproveitou que ela estava longe das irmãzinhas e mostrou tangapema pra ela. Todo zonzo, girado. Ele alertou, zurrou:
            - Olha de uma vez, Piúva, ah ah ah!...
            Ela olhou, udu-de-coroa-azul, e mostrou a língua e-xor-bi-tantemente.
                                                                       ***
            Sorri ver se ia chover. Nuvens passavam em seus jatinhos particulares e ou em lotações coletivas. Do outro lado da calçada morava o famoso bar Maria-Gomes. Nesta cidade da pedra basalto neste lugar do país todo mundo abre bar abre loja para vender, pensei.
Parei para beber como um tracajá, um caburé-ferrugem, um preá, um gambá. Ou melhor, como um caiarara, um guirá, um teiú, quati, chocão-carijó. Nunca cheguei ao leão, mas ao burro foram várias e tantas que perdi a conta as tentativas. Quase nem me viciei, mas me acostumei. E discutia futebol atrás de copos de cerveja e pratinhos de batatinha frita ou cubinhos de queijo com torresmo. E outras discussões. E discutia com destilados, fermentados ao alcance das patas e garras. Oh!, sim, muito entendido. Bastante entendido só um pouco esquecido.
            Por tais motivos da bebida, saí de casa por dois dias, abandonei o barco o lar por três dias. Ninguém me procurou. Ou nem me encontraram, nem quiseram me resgatar. Ninguém se preocupou. Obrigado? Ou fingiram nem se dar conta da minha impresença. Um dia ou dois ou três, uma semana. Eu me desencontrando nem queria me procurar!
            Naquele pouco tempo deu pra sentir o inevitável do fracasso. Eu tinha vontade de correr e nem parar mais. Mas vou dizer que tive vontade de ser um cachorro solto, ou uma pedra abandonada na beira da estrada para Juiz de Fora, Tenório, Parelhas ou um peixe de cardume acarapicu em pleno mar-oceano.
            E voltei somente porque tinha todas as ideias e sabia o que iria fazer dali para a frente. Ou nenhuma ideia, nenhuma saída, completamente confuso e vazio e sem vontade de trabalhar.
            Eu queria correr uma maratona e chegar na frente e ganhar e receber os parabéns e os prêmios e o beijo da guria e os vivas e os elogios e a grana toda.
            As cidades que eu viajava na maionese estavam sempre lá com rio Tapajós correndo na margem da avenida Beira-Rio. O rio Araguaia na dele e a cidade de Goiânia sempre mais ligeira.
                                                                       ***
            Pensamento para maiores. Assistíamos tevê lá em casa? Parece que sim. Jogo de futebol, provavelmente. O tempo, qual era? N-nem sei. A família e mais um ou dois estranhos. Nem lembro da cara de ninguém. Mas eram esses, minha família de cara dura, e dois estrangeiros animais silenciosos. Dois assassinos profissionais? Parasitas incidentais? Casal de drogados? De doentes terminais?
            E o tempo passava e eu sabia que tinha hora para sair, para chegar no trabalho, caminhar um bocado, pegar quem sabe o ônibus o metrô ou ganhar uma carona. E, mesmo assim, que difícil sair da frente da tevê. Nem era pelo jogo em si. Sei lá por quê. Sabia também que tinha de me mexer, me aprontar todo e sair correndo. De-pressa!
            Um sonho de afogado. Tomar banho, comer, trocar de roupa, pegar coisas aqui e ali, me apressar, nem esquecer nada e pedalar sem parar. Senão nem faria hora entrar na farmácia.
            E quando foi mais pra frente o tempo já era tudo muito tarde. E eu perdia a hora. Tinha que correr, tomar banho, vestir, chegar na hora... v-a-mos! Minha cabeça sabia disso tudo e meus pés nem se mexiam. Me recusava me dar co-comando. Ninguém me pegou pelo braço e disse:
            - Olhe! Já tá na tua hora, menino! Te mexa, meu doce!
            Impressionante que eu estava preocupado pra nem perder a hora do trabalho e, ao mesmo tempo, nem queria chegar a tempo. Ninguém pegou no meu braço e me fez andar, ninguém me falou nada, tipo:
            - Veja! Te levanta daí! O sol já bate nas janelas envidraçadas do palácio Karnak!
Queria muito nem perder a hora, mas nem conseguia me arrancar da cadeira sonâmbulo onde estava plantado enraizado esperando cair a mala do céu. Como pode? Como pôde?
E o dia estava pra lá de aconteceu tudo num belo dia claro.
                                                                       ***
            Terceiro ano do ensino médio na época segundo grau e tudo bem, já sei, já disse. Bem que eu dizia com certo alívio: nem caiu nenhum raio na minha cabeça, bala perdida, briga de facão no escuro, atropelamento, casamento, filho, polícia. A turma estava mais enxuta. Havia os mais amigos que outros. Talvez faríamos uma excursão até Foz do Iguaçu ou até Tramandaí ou Torres ou Cassino ou Canela ou Santa Luzia para ver o palácio de Ondina.
E ensaiamos uma peça do tempo dos romanos, césares augustos antônios imperadores guarda pretoriana. Eu era um pobre auxiliar de carrasco, codinome Candombe. Meu único fazer na peça era aparecer na horinha de empurrar um cristão para a cova dos invisíveis leões famintos. E me ajoelhar na frente do incrível imperador e solicitar clemência de nem me ver ali simplesmente o seu escravo dedicado da mais baixa ralé. Enigmática era Cleópatra? Iracema? Ceci do Peri?
            E Enigmática tinha um sol no peito. Um enorme sol de cabelos amarelos espetados. Abraçada ao sol. Deusa-Sol. Um sol amarelo na cabeça, como chapéu, no peito, nas pernas e toda de ouro. Toda de ouro puro. Toda de sol amarelo. Toda de raios e brilhos e cores e dias claros e carnavais. Seu peso em ouro. Toda de sol e luz forte no verão. Colar com medalhão de sol ensolarada brasão imperial e dourado. Sabe aquele sol de criança de escola primária? Pois era a Enigmática-Sol. E pintada inteira de ouro. E uns cabelos de leões em jubas.
            Me lembro como se fosse contar de novo. As ordens do ordenança do imperador que por sua vez obedecia ao comando da imperatriz solar: e empurrei súdito eu mesmo com vontade com essas mãos atadas de serviçal o meu colega o Seridó para o poço sem fundo sem volta dos famintos leões invisíveis lá atrás da porta em o colégio NSAparecida.
            Meio-dia direto e reto sem pestanejar era o que a sol me dizia.          
                                                                       ***
            Nascera um tanto ciclotímico, bipolar, bem neurastênico, com ciúme da bicicleta. Ciclotímico? Que palavra é essa, meu?! Todo mundo usa na tevê e eu sei como é.
            Porque o dia nem era já o mesmo dia era outro mas o mesmo outra volta.
            Olhei de longe longe e D era parecido ou disfarçado ou a própria com a planta Cordão-de-Frade.
            Quando chegar o acaso das respostas se encontrar com as perguntas e ou as palavras certas.
            - Querem me mandar vão me tocar para a serra do Roncador, Estado de Teresina!
            Trocava de pessoa para pessoa, de pessoa para peixe, árvore, pessoa, ave, sapo-pipa, quebra-pedra, gente, sanhaço-cinzento e no correr das décadas e gerações. Sem discutir com quem o por quê.
            D, se havia D, me levava me julgava me devolvia com requintes a escolher.
                                                                       ***
            Depois ficava sem fazer nada.
Enigmática nem era problema. Era solução. Insolação e o rio Purus todo pela frente. Cabelos macios e flexíveis. Prendia os cabelos quando e onde queria. Achava melhor soltar. Prendia de um lado. Cabelos pra lá de jeitosos. Cabelos pra todo lado. E ela mesma com ela mesma nem tinha problema. Um rosto com sorriso e mais tudo de bom pela frente pelo ano vindouro pelo avanço tecnológico de chegar ao planeta Marte e ao mistério decifrado do fim dos dinos no sertão carrascal do Cariri. Cores tendências acessórios e 1.70m com ela.
            A boca comedora de frutas maduras doces amarelas suculentas se derretendo na boca nos lábios que dava até água na boca.
            Beleza como ela mesma punha na mesa. Encostar ali perto dela me plantar bem rente feito pé de taboca-de-marajó. Depois aguardar que acontecer alguma coisa notável e boa e provável.
            O pouco que ela me dirigia a palavra me dizia me percebia era pouco era muito era bom era unguento.
                                                                       ***
            Belém houve um churrascão do clã lá pros lados do Maragata ou bairro Rio Branco, divisa com a reserva da tribo dos marubo. Quase todos os tios e tias chegaram por lá. Então, assim mesmo, que nós fomos e estivemos. Um barracão enorme que comportava duas mesas gigantescas de madeira araucária, uma para menores nem muito menores e outra para maiores e bem menores. Muitos parentes aderentes, primos e primas, cores do vermelho pimentão ao cuia atarracado, cariboca, caboclo, mulato, cafuzo, mameluco, caburé.
            Pois eu era uma ave de rapina no céu, um gavião-carijó, e sobrevoava o pedaço de chão fazendo sombra no rincão sobrenadando a paisagem, alagados, charnecas, capões de cátedras, umburanas, vinháticos-testa-de-boi, mata-pasto, a chapada das Mesas, cercanias limites fronteiras com Lagoa Santa, Pimenteiras, Bodó, Frei Martinho... a região toda.  
            Dia o de muito sol, graça de D, muito ar e pouco vento. Todos chegando e se cumprimentando. Eu os contava um por uma. Minha tia Materlândia nascera num mês de julho e nem era uma pessoa interessante à primeira vista e mas era calma e falava pouco. O tio Araxá, no meio da gritaria dos pirralhos, distribuía balas e bênçãos. O primo Mbéru apresentava me apresentou a Iruri. As primas cunhantains gêmeas Maria-Branca e Mocinha-Branca vestidas iguais nem se separavam na hora do pega-pega, esconde-esconde, puxa-puxa. E chegavam soldados tenentes soldadas capitãs de Alfenas, Crato, Moji Mirim, Catende, Guaratinguetá...
A prima Aguanil chegou mais tarde, de moto, capacete esfolado, vestida de couro. Estacionou a moto debaixo de uma alta braúna alta e copada. Uma moto azul com cilindradas. Tirou o capacete agitando a cabeleira para longe. Vestida de couro ou algo parecido apropriado. Veio para junto de nós com tudo, com moça, com mistério, com motoqueira de lenço floreado no pescoço, com calça justa bem atochada em v, com cabelos louros e soltos e enfunados. Membro da família do tio Tembé - proprietários e anfitriões -, o cão Avião correu para cheirá-la. Ela solteira cão solteiro se abraçaram se falaram se beijaram na boca com lambidas. Durante e depois Avião esticou as orelhas e balançou a cauda. Ela tirou um petisco do bolso e o presenteou. Avião foi seguindo a mina por todo um tempo, cheirando, ouvindo conversas, participando dividindo os encontros. Avião sentou ali e por ali mesmo ficou mais um pouco enamorado atento enamorado tanto de enamorado como de atento.
            Os homens barbados cuidavam do churrasco e das caipirinhas e das anedotas de corno. As mulheres mães cuidavam das saladas e dos trajes de sábado à noite. Os primos e primas jogavam caçador, corriam, subiam em árvores, quipá, rabo-de-arara, tapaciriba-amarela, cedro-branco... dependendo da idade da altura e disposição. Idades que nem faltavam.
Uma tia Mandaçaia preparava o mate doce. Um tio Quixexeu preparava o mate amargo. A família de cinco seis com o tio Guibá na frente de tuxaua trouxe tudo de som entendidos de som e preferiram no caso barulho e agito e zoeira e dança. Chegaram placas sempre dos lugares, Pilão Arcado, Juazeiro, Queimadas, Mundo Novo, Alagoinhas, Ibiraiaras... Um prevenido tomava chá para o fígado. Uns tomavam refrigerante com bastante gelo e rodela de limão. Era uma paz de dezembro a janeiro e todo mundo contava vantagens. E o azul do céu era puro calor e luz e pássaros, ferro-velho, freirinha, rabo-mole-da-serra, topetinho-vermelho... Um competidor já saiu preparando o som alternativo de sertanejas e gauchescas. Zunidos zuniam abelhas sobre as plantas luzes incendiando floridas e verdes. Dupla de trio preparava as cervejas nuns isopores com gelo e serragem.
            Prima Aracaí e Caiana e Aitá brincavam com os marmanjos do futebol. Elas praticamente nem sabiam chutar. Elas praticamente nem entendiam com que pé era o chute. Elas eram puro cabelo gigantesco. Elas eram adoráveis e lindas e importantes e risonhas de bermudas curtas e pernas longas. As duas mãos segurando cabelo e um bico na bola. E, por princípio, elas riam muito e todos riram muito mesmo.
            E primo Eugenópolis explicou como comprava carros usados, fazia motor e lataria, e os revendia por seminovos. Primo Felisburgo sonhava com um trator para o plantio da soja ou do trigo ou do arroz. A prima Argirita nem falava nada, ria muito, ria para contagiar todo mundo. Por falar em primas, eu tinha as mais lindas primas do mundo. Umas ainda tenras tenras. Também uma prima Jaci carente carente preguiçosa dormente manhosa quieta esperando o namorado Timutu que ainda demorava nem tinha telefonado quem sabe lá e natural de Jaboticatubas. A prima Cuíca-Lanosa se perdeu 30 quilômetros durante São Paulo e era só atravessar a avenida São João de carro novo em folha andar mais dois quarteirões se atrapalhou com uma carreta que ia passando bem na hora os sinais de trânsito os retornos foi parar na rodovia Presidente Dutra a BR-116 a SP-60 depois de trinta km e só foi resgatada ao se dignar telefonar e pedir socorro. Tínhamos cervejas louras e cervejas pra lá de pretas.
            E por que aconteceriam acontecimentos coisa de alarme mesmo de crime passional ou milagre? Apontar os céus com os dedos as mãos os braços jogados para o alto, por natureza. Todos empenhados com ultrapassar para o terceiro milênio.  
            E minha tia Bocaiuva era viciada em novela de tevê, programas de auditório, em tevê dominical de um modo geral. Eu pensava que tal mania nem aparecia mas compareceu, etc e tal. Tio Baldim nem tinha uma perna. Veio à festa como sempre fazia nesses últimos tempos: com perna de pau. Ele perdeu num acidente de carro, logo na estreia, lá no autódromo internacional de Tarumã, Guaporé. Capotou bateu no barranco foi ao alambrado atropelou os espectadores, nem sei bem, foi recebido no palácio do governador o Piratini. Mas ele nem ainda nem estava todo conformado. Ninguém podia falar mal do seu time time dele time teu que ele pulava. E pulava bravo numa perna só como o mascote do próprio time. As crianças o adoravam. As crianças o achavam muito teatral e gótico. Distribuía balas mas nem era vovó nem natal nem aniversário.
Tia Jatuaúba me contou que gostaria de me emprestar um dinheiro pra eu fazer faculdade quem sabe em Rio Grande ou São Mamede ou Cruzeta... Eu acreditei, agradeci, disse que nem precisava, ficava no aguardo. Quando eu fosse fazer vestibular. Ela me beijou duas vezes nas bochechas, disse que só pensara, nem podia mesmo, só cogitara, bem que queria e tal porque eu merecia. Ela tinha que comprar muitos remédios para o meu tio o marido dela o Timbapeba e que, coitadinho, nem pôde vir ao churrasco, que tinha lutado nas revoltas dos Quebra-Quilos lá dos 1872-77, vai saber!, peleias danadas de boas e duras e controversas e condecoráveis.
            Na planície da tarde toda de sol tudo parecia estudado e contado e às vezes os pássaros, as árvores, as plantas, fumos-bravos, macucus-do-rio-negro, espinhos-de-agulha, caapiás... as crianças, às vezes o Avião, o laguinho onde só os patos-corredores e marrecas-carijós e cisnes-de-pescoço-preto nadavam... O sol batendo nos telhados nas árvores nas pedras nos pássaros em geral e de grátis. As árvores exultavam, os pássaros com esmero.
E a priminha de oito anos Tapiçuá incompletos já sabia desenhar com lápis e caneta e colorir com lápis de cor, quer ver, titio?! Como quem pode quem viu responder toda a cascata de perguntas. Como se todo dia fosse de bela solene solerte belezinha nada encabulada de festa festival.
            O meio-dia foi rápido e rasteiro e nhãme-nhãme-nhãme... sucesso nos olhos dentes sanguinários lábios cheios de farofa pão de padeiro salada de batata. E boca cheia de festa festança e galhardia. O churrasco chegou aplaudido ferreiro espeto de pau. E justo que nos lançamos todos como cachorros esfomeados formigas-cortadeiras humanos e gente em geral. Ataques com golpes de duelo duelando. O Avião ficou na beirada em baita expectativa todo acelerado. E rimos com os tragos, cervejas, vinhos tintos e brancos de garrafão e guaranás. Bocas cheias, bocas gordurosas, bocas enfarofadas, bigodudos como tio Calumbi ou tia Braúna, todo mundo se enticando, olhando um para a cara da outra, todos para a cara de um e achando a maior graça. As sobremesas com variedade de compotas e sagus e jabuticabas e araticuns-ponhês, amoras-do-mato, cachacinha no butiá, graspa com essência de catuaba-do-mato, licor de pitangas.
A mordomia um calorão e um mormaço e uma preguiça de derrubar tudo. Foram embora as poucas e boas disposições de recolher o estrago da festa. Todo mundo se atirou nas cordas, se deitou na rede, se esticou na esteira, roncou na grama na sombra dos taxizeiros-brancos. Minha tia Jurema por parte de tio Pocheti gostava muito e sabia muito contar causos de mentiroso de bêbado e de velho gagá.
            Prima motoqueira Aguanil foi embora mais cedo, acelerando tudo, bundinha sem dúvida, cabelo aparecendo por baixo do capacete. Saiu pela estradinha levantando poeira fazendo onda fazendo ziguezague quase empinando tirando ohs! Avião acompanhou e latiu atrás correndo até cansar. Ela era muito importante pra ficar ali mais tempo. Primo Jequeri bebeu demais e tiveram que levá-lo ao pronto-socorro. Muitos beberam bem bebidos. Prima Brasópolis viera com o Icó namorado muito mais alto que ela meio metro e foi assim: pela manhã ficaram à parte, se beijando e se beijando debaixo do pinhão-roxo; pelo meio-dia sempre agarrados prometeram sair logo para o centro da cidade tomar sorvete ver gente desfilar pela praça dos Carabuiana; na tarde ainda agarrados debaixo do pé de umari-gordo nem haviam brigado uma única vez e graças, quem vai saber! às orações da mãe minha tia Jetirana. Eu mesmo fiquei surpreso e obcecado.
            Mas a coisa mais importante da festa do clã qual foi qual que era? Eu nem preciso pensar muito. Ninguém precisa nem adivinhar. Qualquer tomado sabe do que estou falando. O fato mais importante que aconteceu: a morte do boi. O boi veio até ali amarrado e sem precisar muito esforço. Anônimo e bem nutrido alto soberbo nas quatro pernas de gigante. Um boi nelore muito branco e farpela e cupim com pouca ou nenhuma guampa. Deixaram-no junto a uma janela do paiol. Ele berrava de vez em quando, talvez com fome, talvez com sede, pressentindo, adivinhando. Tio Gameleira o cevou por mais de onze doze meses lá na estância do Iapu, Protásio Alves. E o boi assustou meio mundo. Eu vi neguinho correr do sapateado do berro. Na hora h quando o boi mais precisou berrar.
            Minha prima Embiá divorciada do Chincoã Cuité mãe de quatro filhos meninos todos correndo pelaí solicitada a todo momento calma matreira quase sempre acomodada na cadeira e braços cruzados. Uns olhos pouco comuns raros e que se imagina em fina fantasia. Prima Embiá tinha responsabilidade tanta que ver suas histórias era ver e ouvir uma catedral. Mesmo ou apesar dos olhos lindos indecifráveis quase ausentes. Uma santa santa. Boca diferente de desenho de linhas retas. Uma igreja da Sé um palácio República dos Palmares um museu Casa dos Contos. Ela sabia sabendo antes de saber. Por menos idade que tivesse os caras iriam preferi-la por causa dos olhos dela impagáveis imbatíveis. Olhar da tia que ficava parado no alvo longe invisível muitos dias. Um olhar de cores de botânicas misturadas de flores de orquídea típica do cerrado. Uns diziam que era frio de serpente, eu achava que era de harpia.
Tio Gameleira chegou de mancinho e como quem nem queria nada, de supetão, escondendo a faca nas costas, nem pôde chamar pelo nome Canjo o boi, esticou o braço pela janela, esqueceu o nome do boi ou fingiu esquecer, cravou a faca no coração do pobre bicho animal praticamente domesticado. O boi abriu um berro de terneiro desmamado e evacuou... O boi se debateu contra a parede do paiol, pará-papá-patá!... O sangue o vinho jorrou esguichou vermelho e alto e longe e acintoso como um chafariz na festa da uva e do vinho em Flores da Cunha... O sangue do boi repercutiu longe e foi muito... O boi tonteou e caiu para sempre... O vermelho na parede na terra no boi tinha uma pele grossa e lenta...
- Era melhor comer carne de pacu piau piapara mandi-bicudo...
- Agora mesmo subiu aos céus dos touros e bois e vacas...
- Vou tomar mais café bem forte bem doce.
- Quando ele veio de lá da estrebaria... logo que eu vi o bicho... bem, ele com certeza me viu também olhou pra mim pra nós, muaaá!... e fez qualquer pedido de por favor! pra nós todos... Eu acho. Eu tou toda melindrada...
Depois caiu de lado ainda preso à corda encurtada, sem se dar conta que poderia morrer enforcado, a cara espremida na parede. O boi foi desatado arrastado descascado lonqueado desfeito em postas muito grandes. O ex-novilho foi posto pendurado em ganchos e pendurado por partes ainda no anexo da estrebaria. O boi era era manso e tinha até nome próprio o Canjo.
O dia todo uma luminosidade branca, oh!, incendiada sem uma única nuvem branca o dia todo branco: eu mesmo fiz. Todos fizeram. D fez a parte Dele.
O mesmo tio Gameleira inventou de encher a bexiga do boi para fazer uma bola e atirou o brinquedo para os guris. Partes foram para as brasas. O boi foi engolido entre farofa e goles de cerveja ou guaraná e risadas. Correria de crianças, grupos de homens palestrando discutindo o peso do bicho carneado, reunião de mulheres com foco principal na roupa de domingo. As pessoas riram, cansaram de rir, quase se cansaram da tarde. Os carnívoros consumiram muito boi e até fartar. As pessoas nem quiseram nem pensar ao menos o nome do boi do pai do filho do espírito santo e amém.
Pois esse tio Calumbi que se escalou para comer os pagos do assassinado. De noite beijaria a minha tia esposa mulher dele na alegria e na tristeza beijaria tia Tubaiaiá bem ali mesmo na boca dela. E disse, em alto e bom tom:
- Querem um tira gosto?! Provem! É afrodisíaco, ah ah ah!...
Só podia era só o que faltava e lá pelas horas quentes e preguiçosas da tarde, verão crepitando na brasa, o tio Maricá puxou o lagarto do bolso e o apresentou e o estendeu na grama. Assim mesmo ali para apreciação e na sombra das favelas-brancas debaixo do nariz de certa plateia escolhida, enquanto as crianças corriam lá longe em torno do laguinho turvo. Quando se deram conta as galinhas cocoricaram os perus glugluzaram e foi um escândalo uma vaia geral. Ele tio Maricá sempre fazia isso em festa inda mais já tocado de cerveja. Minha tia esposa do girado tia Tibuna tentou cobrir com uma toalha de prato. Nem adiantou, tio atirou longe e fez fosquinha. Uns e outros jogaram outras coisas chinelo tamanco pedaço de tijolo qualquer calhau outras coisas possíveis e ele só recusava devolvia e dava gargalhadas, eh eh eh ah!...
E o que todo mundo riu nem foi fácil. Porque nem era que meu tio Calumbi passava por inocente como um pobre porco ou burro ou socó-de-bico-largo. Exemplificava, mastigando mascando manducando enchendo as bochechas escorrendo sumo pelos cantos dos lábios. Beijo na boca da titia Tubaiaiá. Hálito de vinagre azeite cebola limão sal pimenta alho bagos bem assados misturados na farofa e no palito. Bem engolido. Chupando os dentes ferozes inquieto fogoso. Beijo na boca de bocas e línguas e salivas apetitosas ácidas esverdeadas. Imaginamos do que estou falando, o acordo social de esforço cooperativo contraofensivo exatamente linguodentalabiais. Os frutíferos espaços quentes os tempos incertos meiguices arrulhos, ro-ro-rô!... de caçuirobas, asas-brancas, papa-bananas...
Sem nada da pressa para onde ir e vir. Tão calmo quieto meio-termo que nada precisava ser modificado.
                                                                       ***
            Apareceu o sol no seu jeito no seu espaço na sua mania no seu modo dos imperadores insolente.
De uma maneira fácil, tranquila, bem de brincadeira, de estalo de dedos, um dia Pitiguari subiu para as nuvens e bateu numa porta com aldrava, toque! toque! toque!... As pessoas sempre batem três vezes na madeira. Mesmo os que nem são nem um pouco supersticiosos como eu.
            A porta azul abriu e apareceu alguém que parecia um anjo um pássaro um beija-flor-de-peito-azul. Ou inseto de longas asas transparentes, helicóptero. Esse tal e qual indivíduo etéreo asado indagou da menininha:
            - Então?!... Já fez a lição de casa?
            Pitiguari, uns olhos desajeitados grandes negros molhados, se explicou:
            - Eu vim para uma volta no céu. Nem tinha com quem brincar de boneca ou outra coisa.
            A cunhataim estava feliz e os olhos brilhantes, que se via bem claramente, transbordando os sorrisos e os olhos abertos e os cabelos soltos esvoaçantes e a pele saudável. O etê que explicou sublimou lá o seu lado na história:
            - O céu nem recebe turistas. Você deve entrar se é que vem para ficar, uma vez. Só recebemos inquilinos com pagamento adiantado.
            Pitiguari, uma libélula, pensou um pouco mais ou menos rapidamente. Logo depois disse:
            - Eu posso entrar para telefonar?
            - Você nem tem telefone?
            - Nem, nem tenho aqui comigo. Você empresta?
            - Hum...
            O responsável concordou já meio contrariado e sem mesmo outro jeito fez salamaleque. A guriazinha entrou, olhou em volta, estava num amplo salão de entrada do céu, parecia o palácio do Campo das Princesas, procurou alguns objetos para ver, podia ser o museu do Ipiranga, pelo ar muitos alados brincando de voa-voa, saí-azul, marianinha, peitoril, arredio-pálido, grimpeiro, uirapuru ave título do Amazonas... o que mais viu foi a entrada da casa de D.
            Pitiguari andou andou andou... até uma mesinha branca perto de uma branca parede de nuvem branca onde ficava o fixo branco. Tinha estrela acesa dia e noite mas tudo meio transparente translúcido sem nenhum quadro de enfeite. E discou para as pessoas da sua alçada da sua comarca. A primeira pessoa foi avó Machineri, ainda o avô seu Uraricoera, depois na sequência seu cãozinho Sapupira, a turma do colégio 11 de Agosto e que eram a Ica, o Iú, a Ixu, o Itu, o Iri. E foi com Ixu que continuou o bate-papo, dizendo:
            - Adivinha só onde é que tou, guria? E tou no céu!
            - Tá fazendo aí? E isso é imortal?
            - Telefonando, por enquanto, depois vou vê.
            - Até quando, até amanhã, até o fim de semana?
            - Até eles me dizê: chega, né!
            Depois de telefonar para todos que pensou falar, Pitiguari foi aprender a fazer araras, baitacas, periquitos, bem-te-vis, arus, saguis-brancos, macaúbas-mirins, bagres, borboletas-da-restinga, joaninhas, açaizeiros, inhames-cigarras, alecrins-de-são-josé e tudo mais que se fabrica no começo do mundo.
            A lua remoçada quente vagarosa ensimesmada saindo na hora h do meio das folhas da ibabiraba. Tão lenta tão doce tão sorte enamorada que parecia uma lagoa sobre a superfície ótima do rio São Francisco.
            Uma noite calma, já oito dias de Pitiguari no celeste do céu, ela foi conversar com a lua nova. A lua caminhava no céu já meio distraída, cheia de formiga, redonda como prato, então o ir e vir, olhando para a frente para os lados ouvindo a cidade uma ou outra vez que poucas olhou para trás. A menininha parou a lua nova e conversou:
            - Oi, Lua Nova!
            - Hum...
            A lua nova estava se olhando na lagoa Itapeva e penteava as longas e prateadas melenas com espinha de peixe piabanha. E ela se demorava porque era atenta e vaidosa e com muito tempo, toda a noite para se cuidar e aparecer linda. E passou horas e nuvens pela frente. Até quê:
            - O seu nome, guriazinha?
            - É Pi-ti-gua-ri.
            - Onde você pensa que vai essa hora da noite?
            - Hum...
            Numa praça de cidade, outra praça de cidade, mais praças de cidades, se ouviu gente tagarelando, conversando alto, cantando em coro perto do coreto, na frente do palácio da Abolição. E a lua nova se preparou para ouvir tudo isso e sorrir. E a lua nova se distraiu muito na praça Dom Sebastião.
            Pelas 22h e 11min, subiu um santo. O ombro lotado de passarinhos, andorinha, canarinho-da-terra, sabiá-laranja, tico-tico, papagaio-de-cara-roxa, rabo-de-palha... os mais famosos. O santo vinha quieto, decerto cansado e satisfeito do sacrifício da viagem. Pitiguari chamou a atenção:
            - Oi, Santo!
            - Hum...
            O santo assustou o santo reparou bem mais de perto quem chamava e até tropeçou num fiapo solto de nuvem e acordou de todo. Os aladinhos começaram a cantar nas várias línguas pensando que já era dia de recorrer. Aí, o santo olhou melhor e viu a menininha, e disse:           
- Que faz aqui solta no espaço e sozinha, guria?
            - Eu tou passeando, uma vez. O dia de noite tá bom. Ocê nem acha, Santo? Nem tinha ideia que os avião a jato passavam tão perto, uma vez.
            E a comunidade toda ali todos eles foram entrando para o interior da casa universal do infinito, pulando uma janela muito aberta e baixa e larga. Onde foi e voltou aquela lua aquela hora e brilho e ressonância. Depois que entraram caiu uma chuva bonita e ruidosa e boa de se ver.
            No outro dia, e como era dia claro, e como era domingo, bem aí pelas 10h e 11min, Pitiguari acordou com uma nota batendo na janela. Os passarinhos com os pios e cantares todos de cada qual, curica-cuiú, caneleirinho-de-chapéu-preto, soldado, ararajuba símbolo do Brasil...
            Pitiguari que viu e D logo ali e parecido e disfarçado e bonitinho e feliz por Si mesmo como uma Sape-Sape.
            A cunhataim abriu a janela e era dia e era de volta à casa dela em plena segunda-feira. Perguntou por perguntar, mas já sabia:
            - Quem bateu na minha janela?
            - Fui eu mesmo - disse o sol ali do alto.
            - E pois o quê?!
            - Fazendo um favorzão... Me vê aí um copo de suco de abacaxi gelado!
            Os passarinhos aproveitavam o dia livre. Poderes do sol da lua das estrelas dos rios das cidades. Os olhos maiores das casas das ruas das coisas dos automóveis que vigiavam com interesse.
            E porque o mundo era feito do que Pitiguari do jeito que acreditava do que via no espelho todas as manhãs.
            Parabéns aos caminhos e na boa para os lugares, Santa Bárbara do Tugúrio, Arapeí, Barbacena, São José do Barreiro...
O céu estava verde para os lados do sul, azul mais para o centro, um pouco mijuí para os lados do leste, um tanto branco para os lados do oeste, um tom mais amazônico ao norte.


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