sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Papagaio de Pirata (conto juvenil)




            Da escola da carteira do livro em páginas numeradas... Lilás partiu e aprendeu de uma vez até hoje que uma época, nos muitos tempos idos e passados, existiam piratas corsários por toda a costa brasileira. Eles roubavam, pilhavam, saqueavam, esnobavam, capturavam e saíam rindo, “oh oh oh... uma boa colheita estamos satisfeitos, cambada!”, pelos largos mares azuis verdes navegáveis. Então, fascinada a menina por essas coisas, aventuras tesouros caravelas e naus, embarcou nas asas do pensamento e foi pro outrora caiu na história colonial.
            Depois de sequestrarem e saquearem a cidade de Natal, Rio Grande do Norte, os piratas corsários correram ao cais, pegaram a caravela Bufarinheiro e saíram fora:
- Vambora e vambora, gringada!...
E justamente nessa hora da partida foi que Lilás apareceu surgiu e subiu na embarcação e, sem ser percebida, sem ser vista, sem ser cheirada, sem ser notada, se enfiou no porão debaixo de lonas velhas, entre barris de água doce e caixas baús de comida seca... Em poucas horas estavam em alto mar e balançando forte. No tombadilho os marujos festejavam com gritos, bebida, música agitada, anedotas picantes, discussões, empurrões, tiros para o ar...
Quando a menina saiu do esconderijo, um marujo, cheio de tatuagens pelos braços e ombros e pescoço, falou, já surpreso, aumentando a voz:
- Cambada, oh oh oh!... Temos uma clandestina a bordo a bordo.
- Fique na sua, marinheiro - lhe respondeu Lilás. Nem mexa comigo porque nem tô pra palhaçada.
- Mas que é isso! Eu tô mesmo tonto e mareado - disse outro marujo, com gancho no lugar da mão direita. Pois nem é que a menina é lilás!
- Capitão! - gritou um de badana vermelha na cabeça, cavanhaque plantado no queixo. Faz o nosso casamento!
- Esquece! - disse a menina.
- Ela é teimosa. Cuidado que tem dentes afiados e unhas longas - mangou o corsário da perna de pau.
- Se morder vai lavar o convés todinho, isso sim! - riu um de cabeça raspada e de tapa olho no lugar do esquerdo.
E os marujos ficaram naquela troça, rindo, gritando, jogando dados, bebendo, ainda por um tempo. Os marinheiros eram desse tipo de comportamento, ninguém tinha nada com isso. Até que o capitão, que levava no ombro um papagaio de pirata (papagaio de língua seca, dura e despregada), resolveu colocar ordem no navio galeão:
- Olhe aqui, menina! Todo mundo nesta embarcação trabalha para merecer o de-comer. E você, mesmo criança infantil, quantos anos?, dez anos, nem vai fugir à norma e à regra. A menos que pretenda voltar pro continente a nado e de braçada. Claro, há sempre o perigo dos tubarões moreias orcas meros... mas, quem sabe!, tendo sorte, muita sorte...
- Sorte... crou! - repetiu o papagaio de pirata, vulgo apelido Pepê.
- Então, menina?! Que ocê acha? Que você pensa? Quer ganhar seu prato de comida ou virar manjar de tubarão-martelo ou cação-lixa?
- Cação-lixa... crou!
- Tudo bem e entendido, seu comandante proprietário - respondeu Lilás. Mas em que posso servir? Nem tenho prática de mão de obra qualificada e profissional.
Lilás foi posta na cozinha, junto a dois cozinheiros, para ajudar a descascar batatas cenouras abacaxis laranjas... Era serviço duro e contínuo. Era serviço para fazer ligeiro com pressa e para ontem. Pior seria virar isca de tubarão-vitamínico ou manjar de baleia jubarte.
            Depois de dias no mar enfrentando os mais perigosos elementos naturais, tempestades, furacões, calor sufocante, ondas enormes que queriam engolir varrer a embarcação, bando de golfinhos curiosos, alguém, lá da gávea, gritou enlouquecido:
- Inimigo! Navio inimigo! Inimigo a estibordo! Inimigo!... Inimigo!...
Esse grito de alerta armou, abalou, estourou a maior confusão no navio dos piratas corsários Bufarinheiro. Ninguém mais se entendeu, caíram no pânico, corre-corre, adrenalina nervosos e preparação para o combate o embate. Lilás pensou lutar também mas, antes de se armar, já a colocavam de escanteio, para o fundo do porão, dentro de um cesto de vime com abobrinhas paulistas. Ela e o papagaio de pirata, apelido Pepê, ficaram ali no escuro. Enquanto isso lá no tombadilho a coisa pegava, e pegava nervoso e esculhambado. Batalha terrível, dos infernos, dos piratas do mar Atlântico de sul a norte.
- Acabou a história calma e navegante e bonita - se lamentou Lilás
- Bonita... crou! - replicou Pepê.
- Vamos afundar, naufragar, encalhar, virar enfeite de coral ali em Abrolhos.
- Abrolhos... crou!
Se ouviam já os poderosos tiros de canhões, p-tum p-tum p-tum p-tum!... As duas embarcações trocavam tiros de canhões, muitos petardos. E muitos deles, de lá, acertaram as estruturas da embarcação, de cá. Se ouvia também, desta banda, os berros, as pragas, maldições, ordens nem atendidas, sapateado, correria, estouros, estardalhaços... Era uma guerra mesmo pra valer. E ninguém no mundo está livre de guerra. Guerra é assim mesmo; e é muito definitivo. Porém, fatal.
            O mar balançava sacudia no seu vaivém, o céu baixou um teto de nuvens cinzentas, os dois navios inimigos se bicaram, os marujos marinheiros se cruzaram na briga tipo briga de foice no escuro. E tudo ficou mesmo muito perigoso e atrapalhado e forte, e seja lá o que D quiser!
O encontro, a abordagem, o choque, e homens ferozes se atracaram no braço, na garrucha, na faca, na espada, na unha, na adaga, na lança, no bacamarte, no arcabuz, no mosquete, e sem demora sem demora. Foi luta de bicho e... se salve quem puder! Tiroteio no meio da fumaceira e tudo pegando fogo fogo!... Os gritos o rebuliço e feridos aumentando dos dois lados. E muita raiva, barrigas abertas, rostos escorrendo suor frio, narizes quebrados, joelhos inchados, pólvora e enxofre temperando o chão, o mar, e o céu por testemunha.
Um dos times tinha, como teve, que perder, acabar e sair derrotado. Brigas de piratas sempre foram coisas sérias demais. Naquele passado sem lei, e de muitos reis corsários, para cá ou para lá da linha do equador, eram os assaltantes de várias bandeiras que desgovernavam os mares do Atlântico e entre os outros tantos oceanos. O time do navio de cá o Bufarinheiro, onde Lilás estava, perdeu para o time do navio de lá o Asperges. Os piratas corsários flibusteiros do Asperges sempre foram melhores, quer dizer, piores que os piratas corsários do Bufarinheiro. E pirata era tudo igual. E pirata que roubava de pirata ficava um grande pirata muito mais rico.
O adversário Asperges acabou por conquistar o barco, a nau, a embarcação Bufarinheiro. E o comandante atacante invadiu entrou e subiu pro alto das cordas e gritou, em língua de pirata assaltante, e para os seus marujos marinheiros, gritou falando de maus modos para a sua galera malcriada:
- Ordem! Basta, corja! Vamos limpar toda essa banheira suja e destroçada! Joguem todo o lixo no mar e passem sabão no tombadilho! Troquem a bandeira deles pela nossa! Vamos! Se mexam, mal-humorados!
Bem, houve a troca de donos ou de time na embarcação Bufarinheiro. E os vitoriosos, se apossando do navio e de tudo que nele continha, rumaram em dupla e lado a lado para casa.
Lilás foi poupada, e o papagaio de pirata, o Pepê, passou pro ombro do comandante vencedor vitorioso novo dono e patrão, sim senhor!
- Como você, uma menininha, veio parar nas mãos desses criminosos desalmados? Você foi raptada? Você foi roubada? Você foi comprada no mercado cais do Valongo dos escravos? - perguntou o comandante vitorioso.
- Escravos... crou!
- Nem, não fui sequestrada ou outra coisa. Pensei em viajar e peguei carona, entrei no barco clandestinamente - disse a menina.
- Esta história é perigosa, viu?!
- Viu?!... crou! - taramelou o maitaca-do-norte.
- Sei que nem é fácil, seu comandante, mas sempre quis conhecer a sorte no mar. Tão espetacular, tão cheia de aventuras, tão fabulosa, tão explosiva, tão dias e dias sem ver terra firme...
- Que nada, minha menina. É uma vida muito perigosa, muito cheia de sol na cabeça, vento no rosto, vento frio, ondas gigantes, chuvas e ventos e tornados furacões...
- Furacões... crou!
- Mas você nem troca por nada, nem?!
- Nem sei fazer outra coisa, embora. Sempre fui fiel servidor da rainha ou do rei de plantão. Sempre fui um pirata. Sempre fui um bucaneiro. Sempre fui um corsário. De vez em quando também um mercenário.
- Mercenário... crou!
            O dia foi todo pro mar e oceano e céu limpo. Nem se viu nada além de céu azul e mar azul e ventos azuis. O horizonte todo pintado da cor azul e verde. Nem havia, isso sim, novidade de novo.
- Para onde estamos indo, comandante vitorioso?
- Pra casa. Moramos a oeste, a poucos dias daqui, num arquipélago sensacional paradisíaco com umas ilhas pequenas, quentes, arborizadas... Vai gostar, são lindas ilhas, areias brancas, coqueiros tortos à beira-mar, água de coco e sombra e rede de dormir...
- Dormir... crou!
Navegaram por mais dois dias até chegarem numa ilha e uma aldeia caiçara. A ilha Grande, numa praia do Aventureiro e em pleno mar Atlântico Sul. Desembarcaram com festa, carnaval, muita comida, bebida, alegria, batuque, beijos e abraços. Todos os piratas corsários encontraram e abraçaram ali seus familiares, mulher, filhos, amigos, bichos de estimação e uma rede na varanda ao relento para descansar.
            O sítio era um paraíso perdido, lugar feliz, ideal para descansar na sombra, beber água de coco, dormir na rede carijó tropical. Dias de sol e um dia de chuva para refrescar. Noites estreladas com estrela cadente em parábola.
Uma noite talvez. Uma noite o comandante, que sabia das histórias, contou que ali mesmo, no interior misterioso da ilha bonita ilha Grande, havia uma montanha misteriosa. E naquela montanha uma caverna esquisita, e naquela caverna uns perigos e uns escuros e uns milhares de morcegos e um rico tesouro. Um fabuloso tesouro. Mas era um tesouro perdido porque ninguém o encontrara até então. Um tesouro que se ouvia falar de ouro e prata e pedras preciosas, mas ninguém provara que existia. Todo mundo que o procurara procurava procurou nem o conseguiu encontrar. Era um rico tesouro; era um tesouro difícil, isso sim! Porém todo mundo pensava que era um tesouro possível.
- E digo mais, minha gente - continuou o comandante. Dou os parabéns para quem tiver coragem e sorte de ir lá e trazer o tesouro. Dou meus parabéns mesmo e choque aqui!
            - Aqui... crou! - cantou mais uma o papagaio Pp.  
Lilás, quieta, quase aérea, ouviu a história, engoliu em seco, coçou atrás da orelha, e foi dormir com minhocas, carambolas, caraminholas, cambalhotas e outras voltas na cabeça em espiral.
            Na manhã seguinte a menina, o papagaio de pirata Pepê e o filho mocinho do comandante, o Barata, resolveram ir atrás do tesouro fabuloso da caverna encantada. Saíram de fininho. Escapuliram pela tangente. Bem cedo sem dizer nada aos adultos dorminhocos de até mais tarde.
Em pouco tempo já estavam em plena floresta selva. Um sol forte no céu. Seguiram pela sombra e pela margem do rio Madeira, na contra mão, subindo. Lilás sorriu com seus óculos escuros. O papagaio de pirata no ombro da menina. Barata bem que queria brincar perto de casa, brincar de subir e descer de coqueiro, brincar de mergulhar na praia de Sibaúna, brincar de se enterrar na areia quente ou fazer esculturas ou construir fortalezas:
- Tá ficando cansativo - disse Barata. É melhor deixar pra outro dia. Pra ontem.
- Que nada, cara. Você é um menino ou um rato de porão de navio? - desafiou Lilás.
- Navio... crou!
- Sou é muito corajoso, sua metida!
- Então, vamos! E cantando uma canção curta com estribilho longo...
- Longo... crou!
E cantaram em três vozes uma cantiga mais ou menos lembrada e deste modo:
“Onde o marujinho?
Ele foi navegar
                        Entrou na caravela
                        Virou foca do mar.”
Continuaram pela margem do rio das Antas. Lilás toda sorridente, saltitante, muito engraçada, falante, que todos gostavam. Maitaca Pepê apontando as coisas da mata, coquinhos tucum, caraguatás, amor-crescido, ananás-do-mato, marmeladas-de-cachorro, cagaitas... Barata com a cabeça girando olhos girando pensamento circular.
            Sempre bando e outros bandos de passarinhos aves os chauás, anus-de-enchente, iratauás, bem-te-vis-patos... Nuvens de passarinhos, os principais da estação, muitos bandos diversos, todos voando sossegados para nem perder os matos ou banhados ou restingas de vista. Todo verão era isso assim. Era sempre verão e meio baixo. Mais bandos de passarinhos procurando jeito de fazer ninhos nas árvores tortas as tais e quais curupiás.
Em tal hora estacaram sob uma árvore caroba para descansar os pés os pés. Barata, todo arrepiado, apontou algo no meio da folhagem e disse:
- Menina, acho que vi um jacaré! Vamos cair fora, meu!
- Nem me diga!... Por aqui! Vamos por aqui! - apontou Lilás, também assustada e afobada.
- Aqui... crou!
- Ele vai nos alcançar, vai nos pegar, vai nos comer vivos - calculava o Barata.
- Se mexa, se mexa! - gritou Lilás.
- Mexa... crou!
Os dois foram correndo, Pepê no ombro da menina, até pensar que realmente estavam livres do perigo. E talvez estivessem. Tanto que já avistavam ao longe, na linha do horizonte, a ponta da montanha que escondia o tesouro. Tinha que ser ali e será que escondia ou mentia que escondia? A menina testemunhou entre os presentes colegas:
- Opa, gente! Olha lá a montanha. Umas nuvens na frente ao redor, mas tudo bem.
- Bem... crou!
- Nem será nada fácil! - suspirou o Barata.
- Para de pensar no difícil ou impossível, oh!, carinha.
- Carinha... crou!
- Psiu! Escutem... Será que tem mais alguém além de nós três? Parece suspeito.
Os excursionistas pararam para escutar a mata. E, claro, ouviram ruídos bem típicos do mato, ou seja, ruídos de mosquitos zumbindo, de cigarras estridulando, do vento sacudindo folhas e ramas, passarinhos piando sobressaltados, folhas caindo e outros sons que nem se pode identificar, chios, grunhidos, estalar de folhas secas, passos furtivos. Então era normal e natural.
- Vamos, vamos que o dia já está todo descabelado em raios de cor.
- Cor... crou!
A mata era fechada, difícil de caminhar pelo seu interior, um verde muito escuro, passagens de bichos, estreitos corredores de porcos-do-mato, trilhas de antas. Aqui e ali, entre as árvores, uns coqueiros altos e espalmados as caranaís-do-mato. Borboletas fracas e tontas escapavam pelas sombras. Besouros negros azulados zumbiam entre as plantas trepadeiras. Abelhas atarefadas as iraxins. Piados de pássaros assustados e tímidos e anônimos. Assobios e urros de macacos-de-bando escondidos nos ocos das caaxiós.
 Barata pensava em tudo, pensava organizar organizado, olhava e pensava como um menino forte deve pensar:
- Nem haverá onça braba por aqui, escondida entre a folhagem, camuflada? Hein?! Talvez, hein?!
- Sim, por que nem?
- Nem... crou!
- Se for o caso da gente topar uma onça-pintada... - resmungou Barata. Tô com pressentimento que esta aventura acabará em fracasso.
Ainda caminharam umas horas. Mata quase fechada, catanduvas, bocaiúvas, ariris, pitombeiras, amoras-bravas... Depois andaram mais um tanto. E mais e mais ainda. Total: era já hora de sol alto. O sol na tarde de terça-feira, voando solto sobre a mata, sol de cabelos de ouro espetados, perto dos ventos que ventavam longe longe, e até um sorriso também de amarelo maciço.
As barrigas roncaram pedindo atenção. E o Barata reclamou, e outro sim:
- Tá na hora do almoço. Tô com fome. Vamos voltar.
- Ah, nem! Falta pouco. Veja, Barata, a montanha está bem próxima.
- Próxima... crou!
E a montanha estava mesmo ao alcance da mão, se entende assim. Já tinha uma cor a olhos vistos: era um verde por baixo, pela barra da saia; e um cinza puxando para rocha, no alto. Teriam que escalá-la? Teriam que esculpi-la? Teriam que enfrentá-la? Teriam que convencê-la? Pois é claro!
- Boa pergunta, né, Lilás! Vamos ter que subir tudo isso aí?
- Que tu achas, meu parceiro de aventura?! Perfeitamente, né!
- Né!... crou!
- Pois eu já estou arrependido. Já estou cansado. Vamos parar para comer. Para beber um caldo de cana.
- Beber como, se nem temos cantil? Comer o quê, se nem trouxemos merenda?
- Merenda... crou!
- Puxa vida! Que falta de planejamento. Foi muita improvisação.
Isso mesmo, tinham que aguentar a sede e a fome e a ansiedade. A floresta também nem oferecia nada de frutos, frutas e frutinhas. Nem pitangas, nem cajus, nem araticuns, nem goiabas-do-mato, nem araçás, nem guabijus, nem sete-capotes, nem pequis, nem gabirobas, nem muricis, nada.
- Sabe, essa caminhada é muito ufa! além do que eu imaginei. Meus pés estão acabados. Estou com dor nas vistas de tanto observar os labirintos da mata.
- Pense que vamos encontrar o tesouro, e ficar milionários, bilionários com b. Praticamente uns potentados sofisticados.
- Sofisticados... crou!
- Ah, se eu tivesse asas como o baitaca Pepê!...
Em pouco menos pouco mais de duas horas, começaram a escalar os pés da montanha tão falada e recomendada. Já estavam subindo a montanha. Agora era olhar para cima, subir e escalar e trepar. Procurar pela entrada da caverna, encontrar a abertura da gruta, e deixar para trás a paisagem ao longe...
- Que altura terá essa baita montanha, hein?! - suspirou Lilás.
- Hein?!... crou! - chilrou o humaitá Pepê.
- Altura das nuvens, ulalá! - soprou o Barata.
Estes nossos caçadores de tesouros não trouxeram nem as coisas necessárias para essas aventuras de encontrar arcas perdidas e nunca encontradas e fabulosas. Sentiriam falta de tudo, praticamente. Nem trouxeram merenda, nem trouxeram binóculo, nem trouxeram relógio de pulso e nem bússola, nem trouxeram facão para abrir caminho no mato, nem trouxeram isqueiro para um fogo contra o frio da noite, nem trouxeram barraca, nem trouxeram repelente contra mosquitos, nem trouxeram telefone; estavam mesmo no mato sem cachorro sem mapa sem mantimentos e, de repente, sem coragem.
 Então, a menina Lilás viu algo importante e gritou, ouvindo sua voz:
- Olhe, olhe ali! É a abertura da caverna! Que legal! Que massa! Nem me diga!
- Diga!... crou!
- Eta e parabéns!
Os pobres exploradores estavam bem cansados. Talvez até com vontade de dormir. Com vontade de parar e lanchar. Seria a gruta encantada de algum ente enfeitiçado? Só o papagaio de pirata, o Pepê, sempre empoleirado no ombro de Lilás, viajava e viajou numa boa. Este papagaio de pirata tinha muita sorte. Então, pararam para arrumar as ideias, pensar um plano. Barata disse e se expressou ajudado pela esperança:
- E agora? Vamos com calma e...
- Que nada, meu, simboralá! Entramos na gruta e pronto.
- Pronto... crou!
- Como vamos fazer? Nem temos tochas lampiões lanternas isqueiros fósforos!...
- É mesmo - reconheceu Lilás. A gente nem lembrou de trazer. A gente nem lembrou de nada.
- Nada... crou!
Ficaram em silêncio tímido e calado. Escutaram os ruídos do local do lugar. Só o vento passava por ali àquela hora, e de vagarzinho. Fazia um silêncio fraco, longo, longe. Lilás tomou vontade e garra:
- Vamos entrar antes que eu perca a paciência. E é agora!
- Agora!... crou!
Entraram na caverna. Lilás guardou os óculos escuros. Estava muito escuro mesmo. Foram tateando, escorregando, tropeçando. O ambiente estava mais friozinho e silencioso. Do teto caíam estalactites, do chão subiam estalagmites. Barata pensou rapidinho e falou:
- E se a gente pisar numa cobra noturna? E se a gente pegar sem querer uma aranha do escurão? E se a gente estiver entrando numa fria? E se a gente estiver entrando na toca da onça-parda?
Com o passar dos minutinhos, os olhos até que se acostumaram com o escuro. Somente um pouco. E o ânimo também se acostumou um tantinho. Isto sempre acontece.
- Lilás-lás!... Que-e é-é isto-to?
- Normal-mal. É-é o-o eco-co.
- Eco-co... crou-crou!
Estava difícil caminhar o chão da caverna. Mais adiante a caverna descia em rampa. Apareciam no teto as goteiras das estalactites, no chão os montinhos das estalagmites. E assim dando cabeçadas, tropeçando, esbarrando. Depois a caverna era subida e descida. Depois as esquinas e os vãos estreitos. Parecia estreita, mas já se alargava. E cada vez mais úmida, alagada, pingando na cabeça, escorregadia. E um silêncio preocupante que dava receio que dava espirros que dava secura na garganta que dava tosse.
            Contudo, de susto e de supetão, que o Barata deu um berro ribombante ricocheteante:
- Aaaaaaah!... Alguma-ma coisa-sa tentou-tou me-me atacar-car!
Que susto! E correr para onde, se tudo estava no escurinho? Que susto! E correr para onde se tudo era um labirinto? E o coitado do Barata, hein?! E o que pensava Lilás e o sôia Pepê? Era um momento crítico, delicado, misterioso, difícil, embaraçoso. Lilás tentou acalmar a galera:
- Calma-ma, Barata-ta! O-o que-que que-que foi-foi?
- Foi-foi... crou-crou!
- Acho-cho que-que foi-foi uma-ma lesma-ma gigante-te!
Então eles se precipitaram, tentaram correr, escorregaram, tropeçaram, caíram todas às vezes, esbarraram pelos cantos de pedras, deram cabeçadas e joelhadas e cotoveladas, estavam por conta do fracasso e do pânico e do terror. Já nem tinham ideia, e nem sorte, para saber que rumo estavam tomando. Se D quiser! A caverna era um labirinto escuro como breu. Coisa mesmo muito difícil. Coisa inútil. Coisa nervosa. Coisa chata. Coisa sufocante.
- E-e agora-ra? - perguntou Barata, batendo o queixo.
- Vamos-mos seguir-guir. É-é a-a única-ca coisa-sa que-que se-se pode-de fazer-zer.
- Fazer-zer... crou-crou!
Continuaram, ora essa! O negócio era andar, tentar andar, tentar encontrar uma saída ou uma entrada. E aquela coisa lá no escuro que tentara atacar o Barata? O que seria? Ele disse que era um ser energúmeno. Mas podia ser um polvo, um jacaré-de-papo-amarelo, um peixe-boi, um muçum gigante, uma esponja-do-mar, um legume. Podia ser aranha gigante, escorpião gigante, um espírito fantasma encantado disfarçado gigante. Quem nem tem medo de bichos gigantes, hein?
            Pensa o quê! Acha que andar no escuro de uma caverna escura é moleza, é fácil? Têm os riscos. Nem é coisa fácil, nem. Nem é joia. Pensa que nem existem as tais e quais aranhas que andam no escuro e de oito pés? E aquelas lagartixas que aprenderam a sobreviver no escuro das cavernas? Ah, têm também algo do outro mundo! E têm muitas outras coisas que no escuro nem se pode ver e se adivinha. Sim, no escuro da caverna escura têm muitas possibilidades surpreendentes que nem se pode prever. Por isso que quem passa por uma caverna escura sorteia muita aventura. E precisa ter muita sorte para escapar com sorte. É só pedir para alguém que já passou por isso e aquilo. No escuro olham os olhinhos inteligentes, acesos e à espreita. Olhinhos à espera do menor descuido. E o pior é que o freguês nem vê nada. Daí o seguinte: onde o perigo? Onde mora o perigo? O freguês sente até a pele arrepiar. Sabe que há perigo em volta e nem vê um palmo à frente do nariz. Todo mundo se preocupa com receio do escuro. Apesar de que nem se sabe se tudo ou nada vai acontecer. Na maioria das vezes nem acontece grande coisa. E o receio do escuro é só assombração superstição encucação ficção.
            A caverna estava mesmo perdida na escuridão. A caverna era mesmo úmida e escorregadia. A caverna guardava perigos misteriosos. Eles três queriam sair o quanto antes da gruta, e sair abraçados cheios com barras de ouro, objetos caros de ouro e prata e diamantes troféus medalhas...
Barata perguntou todo aflito, e sim senhor!, com pose de atleta:
- Como-mo vamos-mos encontrar-trar o-o tesouro-ro no-no escuro-ro?
- Com-com muita-ta sorte-te.
- Sorte-te... crou-crou!
Andavam como por acaso, como tontos, como perdidos na imensa montanha oca. Desciam e subiam por pedras escorregadias. E ouviam uns ruídos estranhos, ruídos de bichinhos nervosos que acordavam no meio da noite e mal-humorados. Como eram? Quem seriam? Quantas pernas pinças e antenas teriam esses bichinhos esquisitos do escuro?
- Sera-rá o-o que-quê? - indagou Barata, precisando falar qualquer coisa.
- Devem-vem ser-ser morcegos-gos, ou pernilongos-gos, ou caranguejos-jos.
- Caranguejos-jos... crou-crou!
- Ai-ai-ai!... ai-ai!, meus-meus nervos-vos.
Tinham que continuar e logo em breve. E continuar para onde, até quando? Estariam andando em círculos? Estaria andando tontos e perdidos com certeza. E se fosse acordar do pesadelo nem seria melhor?
            Então aconteceu um susto horrível. Os morcegos começaram a atacar. Pareciam sedentos de sangue. E atacaram. O papagaio de pirata, o Pepê, era o alvo preferido. Lilás e Barata também nem eram poupados. Lilás se preocupou com os cabelos. Se ouviam os muitos gritinhos, rangidos, chiados, miados, relinchos, silvos, pios, mugidos, roncos, guinchos... Se ouviam os tantos e tantos ruídos brabos.
- Que-que loucura-ra!! - declarou o Barata.
Agora sim os aventureiros estavam por pouco, ou quase nada. Como escapar dos morcegos naquela escuridão? E estes bichinhos de orelhas de rato sabiam voar no escuro. Para os morcegos era fácil; para os aventureiros era ruim e péssimo. Azar dos aventureiros que invadiram o território e a casa dos pobres morcegos pacíficos. Procurar tesouros? Onde se viu! E morcegos andam à noite e no escuro das cavernas por quê?
            Então, Lilás escondeu o papagaio de pirata por dentro da blusa, e mais, pegou da mão do Barata e tentaram, juntos e unidos, tentaram qualquer saída ou entrada. Tatearam no escuro, escorregaram. Procuraram se proteger com os braços. Tropeçaram, derraparam, rolaram por qualquer coisa. Era o que custava. Mas foram em frente como verdadeiros heróis e heroína. E foram tentando. E tateando. E escorregando, tropeçando, batendo com a moringa nas pedras. E... que surpresa! Viram a luz no fundo da caverna.
            Assim aconteceu. Aos tropeções se encaminharam para a luz, os olhos ainda nem acostumados, os olhos ainda nem acreditando. Aí, os morcegos desistiram. Aí, os morcegos se deram por satisfeitos, se deram conta. Os morcegos nem puderam com a luz; os morcegos têm a pele muito sensível à luz.
- A luz... no fundo da caverna... é a saída!...
- Saída!... crou.
Já era a luz de um dia que vinha de fora da caverna. Nem havia mais o eco. Era talvez a salvação. Era a melhor hora. Era uma porta para a luz do dia. Era a luz do sol que estava por fora da montanha. Era o sol e o dia e o ar livre junto da floresta milenária.
- Uma porta na montanha! - berrou entusiasmado o Barata.
Quase uma porta porque nem era porta. Se pode dizer que era como uma janela. Quase janela porque montanhas nem têm janelas. Mas como se fosse. Montanhas necessitam mesmo de aberturas na rocha. Uma fresta na rocha por onde se podia ver o dia. Um belo dia de luz nas cores. Um belo dia filtrado de azul. Um belo dia livre e muito mais.
- Estamos salvos! - continuou comentando o Barata.
- Espere, meu! Nem vá já jantando vantagem.
- Vantagem... crou!
Pois nem era vantagem nenhuma aquele buraco na parede da montanha. Aliás, era um buraco bem no alto do corpo da montanha. E quando chegaram pertinho e olharam... nossa! lá para baixo... um perau, a floresta do alto, o panorama das alturas. Um precipício. Estavam no alto de um perau! Como descer, agora? Como descer?, era a pergunta. Estavam muito alto e nem tinham equipamentos de resgate. Estavam no alto do perau e sem tirolesa para descer de brincadeira.
            Novamente os três olharam a altura do precipício e tremeram na base. Era uma altura respeitável, sem dúvida, sem duvidar. Altura de um prédio de oito ou nove andares. Lilás pensou de leve, e disse e falou e pois com calma:
- E agora?
- Agora?... crou!
Como nem podiam voltar pela caverna, pois sofreriam novamente perigos escondidos na escuridão, resolveram, assim de improviso assim de imediato assim de corrido, saltar dali mesmo. Saltar daquela tremenda altura e pra baixo... Saltar com a ajuda da sorte. Saltar e... seja o que D quiser! Quer dizer, mais ou menos, quase isso.
- Vamos saltar, gente. É a única - disse Lilás.
- Única... crou! - vozeou o maitá.
- Nem, jamé, de jeito manera, tá alto demais - retrucou Barata.
- Ah, é?! Então, fique. Eu vou. Vou ponto com.
- Com... crou!
- Ah, se eu tivesse asas como esse papagaio de pirata!... - falou Barata, todo hesitante e nervoso na hora h.
Olharam mais duas ou dez vezes lá para baixo... É, o perau dava arrepios. Calcularam. Tá certo que passava um rio lá embaixo, mas... seria fundo o suficiente? O perau media uns dez ou onze andares, ou mais.
- Vamos pular? A gente cai no rio, nem vai se machucar. Tem que ser pra hoje - incentivou Lilás.
- Hoje... crou! - declarou o maitaca-verde.
- E se eu nem souber voar? E se eu nem souber nadar? - temeu o Barata.
Enfim, a menina tinha que dar o exemplo e foi na frente. Como? A menina foi perto da beirinha é... “Haaaaéeee!...” - pulou no espaço como um pássaro uma ave um gavião-cauã - e caiu na água do rio Caí, tchibum!... E o Pepê... “Vooooo!...” e voou como um pássaro uma ave um maitaca-curica, aterrissou na folhagem da beira do rio Caí. Esta a vez do Barata. Agora o Barata, para nem ficar sozinho ali, se obrigou e... “Meu diiiviiinooo!...” pulou, voou como pássaro uma ave um piranga, e caiu de planchaaaaa!... nas águas turvas do rio Caí.
            Os dois nadaram até a margem junto do maitaca-de-face-verde e correram para o mato. Quero-queros, dois ou três e em turma, em posição de sentido, olharam piaram preocupados. O sol espiava daquela nuvem lá no céu. A montanha subindo bem para as nuvens. E o mundo parecia muito igual. E os ruídos da mata. Árvores diversas aí ali e organizadas. E o gargalhar do rio Caí. O correr de perdizes, o se esconder de emas, o pipocar de pombinhas-rolas, o bater asas dos gurundis-azuis...
            Era hora do café da tarde? Talvez sim, talvez nem, talvez quem. O sol nem se admirou de nada. Pregados de emoções, os três decidiram parar na sombra de uma jabuticabeira ou palmeira catulé.
- Vamos descansar um pouco - sugeriu a menina.
- Pouco... crou! - palrou o suia Pepê.
- Ufa! - soprou Barata. É duro ser herói, mas conforme com as suas recompensas. E acontecem coisas. Será que nem é época de araçás maduros?
Lilás enfiou a mão no bolso e puxou os óculos escuros. Que sorte!, pois os óculos escuros estavam quebrados, amassados, trincados. Faltava um olho. Guardou, então, para consertar depois. Barata pretendia mais e mais:
- Puxa, né, Lilás... nada de tesouro. Que tesouro que nada, hein?!
- É um tesouro difícil, já foi dito e redito. É um tesouro que se deixa pra lá. E já muito foi avisado e já muito se falou disso.
- Disso... crou!
Já descansados e com ânsia de chegar em casa para o lanche das dezesseis horas, decidiram continuar a marcha. Rio abaixo por entre os pés frondosos de curupiás. Rio Jacuí abaixo. Já viam em pensamento o sucesso que fariam ao chegarem e recebidos na aldeia dos piratas corsários. Seriam vistos como gente grande, e abraçados, e beijados, e esmagados pelos braços e beijos, e festejados. Fariam pose a outros meninos e meninas da mesma idade. Nem tinham tesouro algum, porém tinham um dia todo de aventuras no interior da ilha. E podiam contar causo e aumentar o acontecido.
- Vão nos receber com carnaval, banquete, foguetório, procissão, braços abertos e passeata - sonhava o bravo Barata.
- Três dias e noites sem parar os festejos - sonhava a criativa Lilás.
- Festejos... crou! - sonhava o esperto maritaca Pepê.
- Ninguém mais vai mandar em mim, faça isso! faça aquilo! nem vai lá! desça daí! vê se cresce! nem amola! você é tolo! você é isso e aquilo com assim e assado!
- É bom ser uma famosa, uma muito famosa, uma sucesso mundial.
- Mundial... crou!
- Quando o pai for pro mar vou querer ir junto, vou querer acompanhar, vou querer ser um bom pirata bandoleiro. Quero usar uma garrucha e uma espada para guerrear com os inimigos estranhos estrangeiros intrusos. E roubar todos esses ladrões dos sete mares.
- Quero assistir tevê até de madrugada, gastar muito ao telefone, calçar sapatos de salto alto, salto agulha, salto plataforma. E ainda uma saltitante coleção de sapos de verdade, de acordo com o Ibama.
- Ibama... crou!
- E pegar uma prancha de surfe. Levar uma semana nas ondas mais perigosas da praia da Joaquina. Andar de teleférico em Balneário Camboriú.
- Ei, gente! Psiu!... - soprou Lilás.
- Psiu... crou!
            Os três responsáveis pela aventura pararam com tudo. Silenciaram. Levantaram as orelhas largas para tentar ouvir tudo que podiam. Ouvir o quê? Que seria que acontecia? Nem estavam sozinhos?
- Que foi que você ouviu, Lilás? - perguntou baixinho o Barata. Os morcegos estão atrás de nós? Nos alcançaram? Um bicho do mato? Um bando de assaltantes?
- Quieto, meu! Nem sei, mas... alguma coisa...
- Coisa... crou!
- Então tá, que a paz de aventureiro dura pouco.
- Vamos continuar o planejado. Pode ser que eu esteja ouvindo coisas inexistentes. Um alarme falso.
- Falso... crou!
- Se for bando de bandidos ladrões larápios estaremos mal na parada, em?!
Continuaram andando, apesar de nervosos, apesar de trêmulos e muito desconfiados. Muito ligados em tudo em volta. Pressentiam que algo, que alguém, os seguia, e os olhava desde as sombras do mato. Já nem se lembravam do cansaço, das bolhas nos pés, do sol forte na moringa, os espinhos. O objetivo era chegar em casa, sãos e salvos, rapidamente, urgentemente, praticamente, triunfalmente.
- Tudo indica que a história ainda vai longe, né, meu?!
- Pois tenho a impressão que... Ouviram isso?!... - a menina levantou a orelha.
- Isso... crou! - a ave torceu o pescoço.
Nem havia mais dúvidas. Estavam sendo seguidos, ou por morcegos, ou por outro bicho, ou por outro animal, talvez por sucuriju, por matintaperera, por ente mairata. Deu para escutar direitinho um graveto se partir, cleque!... ali dentro da mata, bem pertinho, atrás da plantinha.
- Estamos praticamente cercados estamos fritos e é o fim - confirmou o Barata.
- Vamos andando, como quem nem quer nada... - recomendou a menina.
- Nada... crou!... - meio que quis dizer, meio que engasgou, meio que tremeu em sua última palavra o ajurujuba Pepê.
Pepê nem pôde praticamente concluir o crocito porque um bom número de piratas desertores já os cercavam. Surgiram assim... de repente do nada e pronto, camuflados na mata. Todos armados de tacapes, machados de pedra, arcos de cambuim, flechas com ponta de osso ou pedra, seminus, tatuados, caras pintadas de urucum e jenipapo, e falando língua do pê língua crioula língua misturada no nheengatu.
- E chegaram os donos da selva e tudo mais, tá certo! - desabafou o Barata.
- Que situação! E é assim! - suspirou a Lilás.
- Assim!... crou! - grasnou o maitaca-azul.
Os desertores piratas falavam entre eles na língua enrolada e nem queriam papo com os prisioneiros. Nem queriam saber de prestar ajuda aos aventureiros sem tesouro. Nem adiantou a menina e o menino argumentarem, solicitarem, pedirem, quererem convencer. Sem esperança, nada de explicação. Foram presos de uma vez e pronto. Atados com embiras nas pernas e pulsos, erguidos do chão, carregados na altura por cima das cabeças no muque dos piratas rebeldes.
            Uma hora pela mata. Seguiam um caminho de anta. Caminho diverso daquele que pretendiam Lilás, Barata e curica Pepê. Natureza única e soberba. E porque tudo acontecia. E também o porquê de tudo acontecer.
Por fim chegaram à aldeia escondida dos piratas. Ali toda a taba veio recebê-los, curiosos todos da caça rara, como se fossem etês. Viraram atração para adultos e crianças. Todos queriam cheirá-los, tocá-los, atazaná-los, beliscá-los, chutá-los, estapeá-los, unhá-los. O papagaio de pirata Pepê passou do ombro de Lilás para o do capitão de nome Tauá. Barata e Lilás foram colocados em gaiolas suspensas no centro da ocara, pendendo do galho da oeirana. Ali balançando para todos admirarem. Barata descascou o abacaxi:
- Que fria, hem, Lilás! Estamos perto do fim e no rumo do nada!
- Eles nos olham como se a gente fosse fruta de feira, pastel de queijo, pão de queijo, pratinho de bolo fubá, objeto de artesanato e lembrancinha, colar de miçangas, broinha feita pela vovó, cacho de bananas...
- Vão nos engordar pra depois nos devorar, isso sim! Vão fazer picadinho da gente e, por fim, sopa de menino e menina. Eu detesto sopa, quanto mais ser a própria. Minha carne é magra e nem alimenta ninguém...
- Vão fazer isca dos nossos corpinhos. E iscas, petiscos, aperitivos, tira-gostos, acepipes, churrasquinho de gato...
- É, e é esta a história que chega ao seu final e mal planejada - lamentou o Barata.
- Você viu o Pepê, aquele espertinho aí? Meu amigo de ombro até agora e nosso amigo até esta hora e que já se bandeou pro lado deles.
- Traição mesmo e confirmada. Mas fazer o quê. O plumoso quer salvar o couro. Quer salvar idem as plumas azuis, vermelhas e verdes. É compreensível e humano. Cara de bico, isso sim!
- E já está aprendendo a língua geral do crioulo-pê-nheengatu, o vivaldino.
- Eu queria ir embora - se lamentou Barata, pela centésima vez. Nem sou macaco de circo, nem sou cachorrinho amestrado, zebu nelore de festa de rodeio, biruta de posto de gasolina, nem acarajé nem milho verde nem paçoquinha...
- Vamos torcer pra gente nem virar café da manhã de pirata revoltado desertor...
Por causa dos prisioneiros ou nem, aquela noite foi de muita festa na taba dos assaltantes. Até porque a corja gostava de festa e a veneravam. Todo mundo sabe como pirata fugitivo se veste. Um chapéu mais ou menos, uma espada e uma garrucha sem balas na cintura, calças largas e esfarrapadas, pé no chão, argola na orelha esquerda... Eles sempre fizeram a lei da floresta das ilhas dos cafundós das baías e sempre que puderam.
 Então, os velhos piratas prepararam muitos peixes e animais do mato e insetos e ervas e frutos e raízes. Banquete com temperos e molhos e perfumes. Em volta de uma grande fogueira cantaram, “uh! uh! uh! quererê!...” e dançaram, rodopiaram batendo o pé no pó, abalando a terra, assustando a mata. As poucas mulheres e a gurizada olhavam, riam e aplaudiam. O mandachuva Tauá, com o maitaca-do-sul Pepê no ombro, bebia cauim feito de milho, fumava cachimbo e ria à vontade. Para homens e mulheres adultos a bebida corria solta. Era costume. Os velhos capitães sacudiam os maracás, olhavam esquisito, rolando na poeira, tontos, zonzos. Precisaram ficar todos muito doidos. Era assim que um destemido pirata tinha que proceder. Cantavam, gritavam, falavam erguendo os braços para a noite, se jogando ao chão, se voltando para leste e depois para oeste. Os tambores os batuques acompanhando o bater dos pés no chão; davam vivas ao trovão; falavam com o deus Netuno; pediam chuva e boa colheita de milho de amendoim de mandioca de abóbora... De instante a instante inventavam pilhagens e criavam navegações e barcos enfrentando tormentas; um momento queriam subir até a lua; por nada queriam separar as estrelas das estrelas; outro momento queriam pintar o sol de amarelo.
            Um capitão, talvez o mais experiente, o mais velho, cicatriz na cara barbada, saiu de uma oca de palha e pulou no meio do povo e do tumulto. Saracoteou, rodou como fazendo pajelança, dançando frenéticas coreografias, levado pelo álcool do abati. Era esse o papel dos valentes. Andou pra direita e pra esquerda pra frente pra trás umas três ou mais vezes e sem desistir. Tudo que fazia já era parte da festa, mesmo as cuspidas que incendiavam ainda mais as fogueiras no centro da ocara. Ficou nesse exercício meia hora e depois caiu desmaiado. Dois marujos ajudantes o arrastaram de volta para a palhoça dos mistérios. Os capitães impávidos eram muito respeitados e enigmáticos.
 Vez ou outra uma moça ou ainda uma cunhã com o filho curumim no colo ou um ex-marinheiro, vinha espiar os engaiolados, lhes apertar as bochechas, falar piada na língua do crioulo-pê-nheengatu. Os prisioneiros suspiravam, choramingavam, reclamavam, sem saber se virariam sopa de corsário na ressaca da manhã.
Enfim, o alvoroço todo atravessou a noite festiva e durou até de manhã. Até que o último flibusteiro cambaleou para sua oca e os passarinhos na mata começaram a acordar, a fazer algazarra, a sair para pescar, a sair para caçar insetos, a sair para buscar frutinhas... Alegria dos passarinhos depois de uma noite bem dormida no galho da árvore. Passarinhos sempre acordam de bom humor e esperando muito do porvir.
            Raiando o dia novo, a aldeia quieta, a ocara já bem quieta. Pelo chão muito lixo que os porcos-do-mato e cachorros vira-latas e aves da mata aproveitavam. Quanto aos prisioneiros restavam acabados e cansados nas gaiolas, os coitados. Vencidos pelo cansaço, pelo horror da espera, enjoados, quase mortos de cansaço, rodeados de carapanãs vespas mamangabas formigas-cortadeiras cupins micuins... Era demais mesmo quidemais! Os piratas florestais, enfim, nem acho que lembravam ainda dos prisioneiros.
            Por volta da tarde, vontade já restabelecida, o movimento no centro da aldeia recomeçou. Os homens se dividiram em dois grupos e disputaram competições. Cada time carregou um tronco, e do mato ao centro do arraial. Tudo isso ao som de gritos, uivos, flautas, tambores, vaias, gargalhadas, terminando com mais festa e comida. Correr carregando tronco de buriti ao ombro era o esporte preferido do bando de bandoleiros.
            Quanto aos engaiolados, sem dormir, abatidos, rodeados de borrachudos e abelhas arapuás, pensaram estar já nas últimas horas. Lilás, desolada, falou a Barata, que também estava preocupado:
- Se ao menos eles nos dessem ouvidos... Se ao menos conversassem com a gente numa boa... Se ao menos nos dessem uma chance... Se ao menos nos distraíssem com uma boa refeição...
- Estamos fritos. Você viu como nos tratam mal? Querem nos preparar para o pior. Daqui a pouco vai faltar caça e pesca e vão se lembrar da gente...
- É, é isso mesmo. Me sinto tão estressada, e com vontade de dormir na rede!
- Nem soltam a gente nem pra fazer xixi.
- Estão todos muito esquisitos. Tudo pode acontecer. Pirata bêbado nem vai com a cara de gente da cidade urbanos.
Os corsários piratas se divertiam na luta corporal. Corpo a corpo, um contra um. Cada qual desafiava o outro e a luta iniciava. Quase nus, só aquela tanguinha de nada na parte de baixo, e na frente e atrás. Havia torcida e muita farra. As mulheres moças cunhantãs também lutavam. Acontecendo vaias e aplausos para ambos os lutadores ou lutadoras. No final sobrou o maioral o grande vencedor. No final sobrou a maioral a grande vencedora.
            De repente toda a tropa silenciou. Bico calado. Lá da gaiola, suspensa no galho da castanheira-do-maranhão, Lilás mostrava, para quem quisesse ver, o óculo escuro e caolho. Lilás usava na cara aqueles óculos trincados, riscados, caolho. Todo caso, e parecendo enfeite de carnaval, era muito bonito e diferente. O chefão Tauá se aproximou, pegou da relíquia, examinou-a, cheirou-a, mordeu-a e a pôs sobre o nariz na cara pintada. O bando todo riu e deu os parabéns. Então, o morubixaba gostou, achou legal, e tomou para si. Deu uns passos para mostrar a todo mundo, estufou o peito, continuou andando, garboso, capitão dos capitães... Logo fez um gesto e um marujo abriu as gaiolas libertando os dois aventureiros.
Barata, que nem acreditou no começo, que nem estava acreditando no início, perguntou à menina Lilás:
- Que houve? Que está acontecendo? Vão nos cozinhar?
- É melhor preparar um bom discurso de despedida. Deve ser o fim. O fim mesmo.
- Vamos virar sopinha, ou espeto corrido.
- Uma pena. Tinha tantas aventuras pra realizar. Tantos planos. Foi um prazer lhe conhecer, Barata.
- O mesmo digo eu, menina Lilás. Inté!...
A festa prosseguiu. O baitão Tauá destacou um grupo para acompanhar os ex-prisioneiros até a praia enseada dos piratas caiçara. Se despediram perto das casas da vila. E o maitaca-de-garganta-azul, o Pepê, pousou novamente no ombro da menina. E aquele parecia muito confuso e lelé da cuca. Falava tudo pela língua crioula-pê-nheengatu. Estava tonto de hábitos e costumes e comportamentos de piratas selvagens fugitivos desertores. Tinha a língua para fora e os olhos esbugalhados e as penas tostadas. Que pagou o seu preço também.
            Os piratas florestais deixaram os ex-prisioneiros perto da vila, na praia na enseada das Estrelas e a uma pernada ou remada da ilha Jorge Grego. Graças à sorte retornavam para casa sãos e salvos. De mãos vazias, mas inteiros.
            Quem contou isso pra mim... hum!, nem sei nem lembro, jurou que aconteceu tudo de verdade realmente como faço o favor de repercutir pra vosmecê.

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