Nem Sinto Muito os Universos
Paralelos
Nuvens
silenciosas fantasmas, agora contemplar a serra de Ibiapaba, sudoeste do grande
oceano. Pios gritantes chilreios em toda manhã gorjeios de sombra na árvore ucuuba-punã
manhã sardenta aberta pacífica e piauiense.
Nem
que se diga e os macacos-pregos-do-peito-amarelo irrequietos papagaios-curaus
irrequietos formigas amestradas árvores enleadas de heras lianas cipós rios
frequentes de peixes ambiciosos nuvens sem rosto sem nome. Cada lugar escolheu seu
galho na árvore.
Era um domingo
tranquilo. Eu podia decidir. Vontade tinha de desocupar a moita, pegar o trem
das nove horas, migrar como um pássaro. As coisas tinham que acontecer.
Esperava que acontecessem. Eu mesmo tinha que votar por mim.
Eu
era com todos os iguais e havia confusão:
O
sol específico, montanha demorada, lua premiada, rio solar honesto e árvore
muito ibira ibira. E uma ilha festiva.
Meu
desejo de partir maior maior partir que quaisquer ilhas formidáveis.
Apareceu
um canto de coroado de sebinho de tiê-veludo apareceu uma toucá apareceu uma
cidade a minha cidade. Apareceu um vento que soprou o nordeste. Umas filas de
árvores pelas calçadas, ucuquirana, cajueiro-bravo, iperana, macacaúba-do-campo,
cambuizeiro... Aviões zunindo bem alto. Um máximo de coisas um rádio
funcionando música tinha gente buscando outros pontos da cidade galos balindo
cães coaxando cavalos guinchando meninos latindo meninas miando carros urrando
e brilhavam ao sol. Manhã tépida. Muitas pessoas que passavam por mim muitas
mulheres e muitos homens falavam a palavra brasil.
Avenida
Xukuru um carro verde um carro branco um carro vermelho um automóvel
azul-clarinho uma camionete vendendo verduras e frutas da estação um caminhão
carregadíssimo e enlonado. Parei falei com algumas pessoas e elas todas tinham
saudades e me pareceu que alma sedenta faminta do inverno e o rigor do frio
úmido gelado aqui da região.
A
rua continuava por dentro da rua.
Passei
na rua bem na hora do intervalo no colégio, como quem nem quer nada como quem
nem incomoda ninguém pensando lá longe nas minhas coisas, e me jogaram uma
pedra. A pura realidade. O objeto quase nem identificado voou, vruuuu!... (seria
o quê? Que era um trator, um aeromodelo perdendo altura, um
tucano-de-bico-verde voando baixo, um coleóptero abaixo da sua capacidade aérea)
mas a coisa era outra coisa bem mais pesada que o ar e fez uma natural parábola
meio desastre aéreo e caiu direto na minha cabeça, toque!...
O
sol era o sol, um arapaçu-grande era um pássaro, os paiaiá eram os índios
paiaiá e Sobral a cidade do norte no país de pindorama.
Depois
do fim do nada ainda se viam coisas.
Quer saber? Quer
dizer, doeu. E tirou um talho da testa, e um rio de sangue de estrelas começou naturalmente
a fluir. O vermelho nem parou mais de saltar pra fora. Eu mal orientado, um
pouco atordoado, coçando, me sentindo tonto. Sentia um zumbido, zunido,
estalido de coisa trincada e fora do lugar. Até procurei investigar quem teria
sido o bandido desalmado. Me disseram que foi falha do sistema universal ou do
sistema solar que desequilibrou e deixou cair um pedaço de pedra, uma lasquinha
de meteorito, algo do acaso, coincidência do lugar errado na hora errada. Me
pediram para perdoar perdoar porque nem tinha sido com essa intenção. Aí, eu
perguntei:
-
E o queco?
No
dia 8 de novembro daquele ano de mil novecentos e 78.
A
lua era uma boa pessoa de oitenta anos. Eu gostava de chuva eu gostava de rio Pirapama
eu gostava de praias. Havia de haver um e outro jeito.
Duvidei
de mim mesmo, duvidei de todos os semelhantes, duvidei da Trindade. Que que ia
fazer? Nem podia ser. Nem podia fazer. Nem podia esperar. Nem podia excogitar. Nunca
vou me curar da pedrada, pensei. Talvez outros sim, eu nem.
Falou
um capitão-do-mato disse um sauiá rinchou uma sucupiraçu miou um gato-maracajá.
***
Muito
boa a invenção do espelho, invenção que ainda é engraçada, isso tudo do espelho
e do reflexo, da imagem copiada, da contracapa, era o que eu pensava. Bastava
eu andar pela rua e eu via mil reflexos nas vitrinas das lojas e isso era muito
legal. As pessoas se olhando no reflexo da loja as mulheres repuxando o cabelo
se conferindo de perfil.
As
fantasias acompanham as pessoas. As nuvens patrocinam almofadas de açúcar. O
sol escala o abecedário...
Nem
precisava secar a guria bonita, bastava olhar a vitrina e deixar a beldade
desfilar à vontade. Eu olhava a guria na vitrina como se estivesse olhando só
os objetos à venda. E olhando a vidraça eu olhava a Enigmática, por exemplo,
passar ali entre diversos objetos de venda, sapatos, mantas, luvas, ferramentas
de mecânica, perfumes, comidas, cifrões em valores dinheiros preços módicos e
chiques... fantasma. Todas as minhas mulheres bonitas passavam ali na vitrina.
E passavam numa tela de cinema de nem sei quantas e quantas polegadas. Depois
de vê-las passar na tela, aí sim, dava para olhar por cima do ombro.
Fazia
sol fácil forte as árvores da calçada balançavam a cabeça em sim sim e eu fazia
tempos que desconhecia animal e coisa que fosse que tivesse nome estranho de
tupi-guarani.
E
era o mesmo mundo mas dia novo dia após dia.
E
um dia foi num desses dias, numa dessas vitrinas aí da rua Paiauaru em Passo
Fundo, que justamente me tocou esperar a minha amiga e idolatrada salve salve a
Umutina. E eu a esperava olhando a vitrina, bem discreto. E via lá umas
beldades misturadas com tipos de tênis sandálias rasteirinhas chinelas pantufas
e de origem em diversos países. E esperava pacientemente como era do meu
costume da minha essência do meu feitio do meu pacato modo de ser.
D
iria me ajudar e sim do seu jeito.
E
o rio Mamoré dissera e sem poder nunca mais mentir:
-
Eu nunca mais vou voltar.
Uma
tal hora uns minutos depois Umutina chegou e apareceu na vitrina e eu a
reconheci logo logo. E ela chegou toda atrasada (que eu já previra), toda
calorosa, afobada, sem fôlego mesmo, me dando o seu beijo estouvado, dizendo:
-
Oh, me desculpe e tal... e já sei, já sei nem precisa me falar nada... me
atrasei por causa... - dizia isso e procurava uma coisa no interior da bolsa a
tiracolo.
E
ela ia falando toda catando nem sei o quê, toda atrapalhada, toda olhando o
interior da bolsa de couro ou coisa assim:
-
Ah, nem sei onde deixei... e será que eu trouxe... ai, que calor...
E
a Umutina era minha amiga de escola e de baladas e tal. E ainda procurando sei
lá o quê:
-
Sabe aquela coisa que... naquela hora que se procura e se precisa encontrar...
e a coisa que é uma coisa e teima em se esconder... pois eu nem acho...
Estávamos
num ponto da rua movimentada, um pipoqueiro parado na calçada, árvores
coroadas, os automóveis passando devagar com paciência ensinando os pedestres a
terem calma sem correrias no atravessar os traços brancos nos paralelepípedos da
rua.
Minha
amiga tinha um jeito que eu gostava: ela tinha uns olhos olhar de cachorrinha
mansa. Eu gostava da carinha de guaipequinha meiga da minha amiga Umutina
focinho parecido com poodle. E ela ainda na lida pelo interior da bolsa de
frisos vermelhos:
-
Uta, meu! Talvez eu já desista... esse tal meu espelhinho que eu sempre trago
aqui na bolsa... será o pé da cobra?
Os
olhos como viajavam no vento a voz nas águas os olhos no calor eterno das
estrelas. Todo mundo gosta de paisagem panorama cenário.
E
a manhã era minha voz e a vez do rádio do vento dos pássaros, chorão, figueira,
maria-cavaleira, avoante e das árvores dos automóveis dos passantes.
Então,
era isso. Umutina queria o espelhinho e esse um objeto principal era todo o
problema dela no mundo. E ela ainda estava procurando pelo espelho. E, de
repente, jogou tudo no chão, todo o conteúdo da bolsa, jogou tudo na calçada,
abriu bem esbagaçou a bolsa e jogou tudo pelo chão. Se ajoelhou ali e ficou
ciscando catando e em completo despreocupado desalinho. Parecia ter extraviado
coisa muito preciosa e caríssima uma relíquia.
Na
última hora se ergueu e se virou para a vitrina e disse, quase gritando:
-
Ah, a vitrina! E por que você nem me disse nada, querido!
Então
sim, e só aí, Umutina tirou os cabelos dos olhos, se olhou na vitrina, passou
os dedos nos cabelos soltos, alisou as roupas, etc., e me olhou, me deu um
beijo estouvado e disse, suspirando mesmo, superando todos os pormenores
obstáculos:
-
Ufa!... Olha, meu! Já cheguei!
Um
sol com espaços de grandeza reflexos de pedaços de horas em dia de sol. Um rio
corria com palavras por fora de árvores. Os tais e quais colibris-rubis de
cores e penas e asas metálicas cambiantes.
Em
Iguape o dia estava agradável e ia também maneiro em Jacupiranga assim como
Ibirité e um pouco nublado já em Registro até porque até onde sei o
sabiá-da-praia é a ave do Maranhão.
***
Pouco
o dia clareou e eu já estava acordando. A luz de cabeceira acesa, janelas
fechadas, diante de mim o cardápio do dia a dia. Eu até pensava baixinho, me
falava baixinho com receio de acordar todo o mundo. Por enquanto deixei tudo
quieto como estava. Dia e hora insofismáveis. Tempo e espaço cabalísticos.
Figuras e geografias mandálicas. E os lugares meridianos e paralelos.
Depois
o rio subiu até uma enchente na mina e desceu cachoeira seguiu mais uns dias
úteis e feriados para saltar na costa. No caminho do rio um homem nadou na
praia uma mulher limpou o peixe na laje uma fábrica apitou no barranco a lua
foi em arco para o ocidente família de capivaras almoçou capim na várzea uma
ponte cruzou para o lado de lá aterrando em Miraíma. O rio contornou a montanha
falou sozinho murmurando baixinho e desapareceu entre as árvores ciliares tons
de verde. Dentro do rio uns cardumes em silêncio ou mesmo a respiração líquida.
O rio por dentro dos peixes prateados. Mais tarde o rio sinuoso longo foi ele
mesmo ser uma baita surpresa para todos.
Pois
antes mesmo de eu nascer, uma mulher deu à luz e apareci. Aí, eu nasci e fui
logo berrando uns berros que saíram de mim. Chorei aos gritos com lágrimas aos
borbotões por isso que gosto de água e etc. Tinha acordado para o mundo. Nem me
lembro daquele dia. Mas era um dia aberto. Um dia como outro qualquer. Um dia
para fazer aniversário no deus dará.
Bem,
até aí nem me lembrava de nada.
O
que lembro ainda hoje, e quase nem sabia naquele então, foi que um pessoal
inventou que o óleo de baleia era muito bom e iluminava ruas noturnas. Nem
demorou mais um século e outro pessoal inventou o querosene das pedras
profundas. E outro pessoal voltou a inventar inovar e descobriu o gás dos poços
artesianos. E tudo ia ficando cada noite mais clara mais clara eu gosto de
santa Clara de Assis. E todos já podiam ler à noite sem cheirar fumaça nem
incendiar as cortinas da casa.
Uma
noite com lua redonda amortecida encorpada iara saindo da água.
Em
primeiro lugar chegaram as mulas e suas cargas nas costas as orelhas altas
cruzaram o lugar pelo mato traçaram as estradas. Depois veio uma capela com
santo ou santa do dia e as casas e ruas foram surgindo ao derredor da capela de
São João Batista do Herval.
Tudo
estava iluminado e o céu foi fechando e escureceu. E as nuvens vieram do sul acompanhadas
de fortes rajadas. E muitas nuvens grandes, pesadas, baixas, pretas, elétricas,
peixes montes de feno caravelas chapéus balões árvores. E eram nuvens deitadas que
nem passavam em pé se agachando para nem bater no teto. E eram nuvens que,
ajudadas pelo vento minuano, começaram a cair com tudo em cachoeiras em
cascatas tropicais.
Como
por encanto começou a chover e D desceu da lua.
E
aquele dia foi de ver muita chuva. Dentro da chuva muitos raios e trovões.
Principalmente raios e mais raios em ziguezagues. Os rios foram saindo dos seus
ninhos de pedra basáltica. Nessa hora o pessoal humano ficou com um pé atrás
viu a luz no fundo do abismo no alto do céu e inventou a hidroelétrica.
O
homem apareceu, esse ser que come de tudo bebe tudo. E os animais voláteis
aquáticos terrestres.
Sendo
assim, todas as ruas do mundo se iluminaram de luz fabricada da chuva limpa e
boa e barata. E todas as cidades, Coreaú, Santana do Acaraú, Vargem Alta,
Afonso Claudio, Tocantínia... andaram em volta da luz.
E
eu ficava até tarde assistindo tevê e vendo os costumes nativos dos
cariri-xocó, paiacu, caiouá, aricapu... E eu ficava até mais tarde lendo o
jornal na parte do futebol que eu apreciava por afinidade.
***
Todos
os dias úteis e todos os dias inúteis eu pegava e ia para a farmácia. Estava
sempre fazendo o que nem me agradava. Era de esmagar de jogar no lixo a parte
comestível do dia. Realidade nada ousada, destino como de um boi ensinado. E um
incômodo no olhar uma sensação de pressa sem ter aonde e muito menos onde e
tinha que fazer e cumprir uma e outras vezes assim praticamente.
Duas
mulheres subindo a ladeira Jurupixuna e eu descendo com freio de mão puxado.
Dia solto aos quatro cardeais e sol radiante e hora de pouca sombra. À tarde e
aí pelas 13h e 40 minutos. A mais idosa, uns 70 anos e pouco mais:
-
Que exame mesmo que eu fiz?
A
mulher mais nova, uns 40 anos e pouco menos, puxou um papel da bolsa e olhou e
respondeu:
-
Espirometria.
Meu
primo Pairari dizia sempre o seguinte, abrindo os braços poderosos em arco no
deserto na costa do mar lá do alto das rochas no descampado dos campos:
-
Eu sou D!
Ele
dizia assim porque queria parecer um orador de púlpito de palanque de palco.
Queria invocar poderes divinos altos terríveis protagonistas. Fazia dizer isso
quando precisava urgente de poderes poderosos fazer milagre fazer estrago fazer
acontecer fazer chover dinheiro fazer chover mulher bonita. Fazia sem intenção
de se igualar com Ele lá de cima ou até porque admirava muito Ele de lá de
cima:
-
Eu sou D!!
E
mesmo esse giro que se sabe se ouviu falar que se viu escrito esse atrito que
se ouve às vezes na noite silenciosa vazia e o cheiro de borracha do atrito que
se sente nas noites de estrelas e lua sem jeito então aliás esse ruído de giro
de um pião é o da terra girando sobre seu próprio eixo sozinha no vacuo em
volta do astro solar num completo rastro no sistema estrada oval do espaço sideral
harmônico, pronto, zurrei.
***
Àquela
hora mesmo notei e nasci de novo. Notei, e todos notaram: o quanto Enigmática era
mais mais toda linda que todas as outras gurias multiplicadas exponenciais juntas.
E teria ela, achava ainda, um destino diferente. Um destino recomendado de dedo
de D. Impressionantemente diferente e melhor e super-humano. Claro que eram somente
minhas suposições. Garota perto do ideal. Perto do ideal era pouco, ela estava
dentro do que seria Iracema. Tudo isso. Ela seria a perfeição. E Enigmática seria
melhor que todos nós.
Ou eram meus
olhos, ou eram meus ouvidos, ou eram meus planos e aplausos.
Ouvindo seu
riso e seus risos eu pensava em riacho e rios correndo folgados entre pedras e
sombras de árvores.
Enigmática
descia a escada. Ela tinha um colar de miçangas, acho, até o umbigo. Ficava
muito bem. E parou para falar com o pessoal.
Eu
ouvia o que ela falava, olhava o que ela desenhava no ar com os gestos os
braços as mãos os dedos de anéis, sonhava as viagens que ela me inspirava.
Ela
nem me notava e eu ficava de mal comigo mesmo, e eu rompia amizade qualquer
relação comigo mesmo. Eu pensava em nova agricultura e queria homenageá-la. Ela
lá de outra galáxia.
Hoje
tenho comigo a certeza que aquela Enigmática bonita e rara e distante e
deiviril, que eu olhava e olhava, me fazia aceitar santas e divinas
naturalmente.
Com
Enigmática no brilho de estrela cheguei a um porto específico plano imaginário
mágico de ilha verde no meio do Atlântico. Era linda lenda bonita e muito boa.
***
O
sol reverberava. O vento soprava contra. Tinha muito no ar cheiros de árvores
floridas de amarelo lilás verde branco.
Eu encontrei o
Tatuí na esquina das ruas Presidente Vargas com Buarque de Macedo, um aperto de
mão à gaúcha, e ele me arrastou para a casa da família lá dele tomar um
chimarrão. Me apresentou à esposa e às três filhas em escadinha cronológica. A
casa era humilde, mas limpinha, cheirosinha, ajeitadinha, com rendas brancas aos
pés juntos dos bibelôs.
O que estou
fazendo aqui comigo mesmo?, me perguntei me perguntei.
Longe do mar
sem fim longe das cidades grandes longe dos rios grandes da estrada de ferro e
ele longe foi indo sem se mover parado no mesmo lugar muito muito tempo mas na
verdade os seus por volta dos 100 anos. E foi a primeira árvore plantada da
localidade.
Mas Tatuí era
gaúcho de verdade, a adaga prateada presa às costas pelo cinturão, com alpargata
e voz rouca de cachaceiro e etc. As prendas eram prendadas até demais segurando
a barra da saia e se curvando elegantes para cumprimentar. E fazia um calor de
esfalfar. Em vez de cerveja o Tatuí veio com um chimarrão bem quentinho. Eu
quase falei, mas me contive em tempo. Nem quis melindrá-lo. Assim, ligou a tevê
para a gente assistir um futebolzinho. Bem, eu detestava futebol. Até porque
meu time nem estava na final e etc.
Nem, olha que
nem adiantava a pressa. Ainda nem chegava a hora dos discos voadores astronaves
chegando e pousando e invadindo o mundo dos terráqueos. Nem chegava a hora.
O
chimarrão estava gostoso e amargo e quente como deve ser. O jogo na tevê me
interessava uma barbaridade. Aí, pelas horas, apareceu um prato de fatias de cuca:
-
Olha, chiru, experimente umas fatias de cuca. Foram aí as minhas gurias que
fizeram. Têm de diferentes sabores. Te mexa, meu!
Eu
meio que abri os olhos, me enxerguei, grunhi, limpei a saliva escorrida:
-
Hum!...
Então,
foi assim: vá cuca e chimarrão! E um joguinho que me dava pesadelos, uta!, que
jogo truncado. O Tatuí até me falou uma vez ou outra:
-
Ei, gaudério! O teu time,
hein?!, rah! rah! rah!...
Eu
quis ficar na minha e me bastar. Mais que tentei ficar de olhos semicerrados. Já
que o dia estava perdido, achei que nem valia a pena procurar uma filosofia. E
nem disse nada. Acho que pensei devia ter pensado em ir ficar na praia Brava
por uns dias a semana, é.
A
coisa, por mim, nem ia nada bem. Eu era mesmo só aquela coisa que se via ali. E
era o que eu merecia. Nem tinha uma inteligência há séculos.
-
Olha, índio velho! Você tá me parecendo que está muito assustado e meio, em?!
Por
hora veio uma das gurias e sentou do meu lado assim de um palmo no máximo. Era
a Sarapuí. Um lábio pintado e banho tomado com cheiro de fruta do mato ou flor
do campo ou canto de corruíra. Uma beleza. Uma coisa de gente com corpo felino de
mulher. O nariz um pouco parecido com o do velho, hum!... Ela me perguntou:
-
A cuca de laranja que lhe agrada?
Conversas,
discussões maduras e superinteressantes. E continuava cuca e chimarrão. Dois a
zero para o time que eliminara o meu na semifinal. Os caras eram ruins, mas
eram melhores que os nossos. E eu nem estava nem aí. Aliás, queria esquecer que
havia futebol e nem torcer por nada nem ninguém nem nunca mais nesse mundo de D.
De
repente, chegou do meu lado a Jataí. Ficou em pé apoiada na minha cadeira
empurrando a cadeira a mão presa entre o encosto e minhas costas. Era muito
interessante como guria e moça e fêmea e se nem fosse o nariz do velho. Tinha
um short muito apertado com v e isso eu nem notei. Apertado e cavado muito bem
legal e alucinante e isso me passou despercebido. A mocinha me perguntou,
pegando no meu dedo da mão esquerda:
-
A cuca de abacaxi que lhe agrada?
A
casa era arejadinha, azul-clarinha, casa que tinha mulheres em doses bonitas
caprichosas acintosas, etc. Olhei um bibelô sobre uma prateleira na estante.
Era um junqueiro-do-bico-reto pousado num galho, artístico, de louça importada
de Tunas do Paraná. Parecia ser um pássaro cantor bom interprete e gogó de ouro
de locutor de rádio FM. Mas principalmente era um pássaro azul e branco com
pintas pretas debaixo dos olhos.
Por
fim a Aguapeí. A mais novinha e sestrosa das gurias mulheres tradicionalistas.
Começou na mais velha, a do meio e por último a menorzinha com cabelo brilhante
frisado como da atriz. Mas todas estavam acima dos trinta quilos, se fosse o
caso. Ela, aquela última, nariz familiar conhecido patriarcal, me perguntou,
quase chorando de timidez e bondade e meiguice:
-
A cuca de caju que lhe agrada?
Eu
respondi que as cucas estavam ótimas e o chimarrão em ordem crescente de
perfeito à perfeição. O que eu nem falei, mas pensei, era que o jogo nem
terminava mais um gol para o time que já estava levando de três a zero. Mas eu
nunca mais ia pensar em futebol ou torcer para algum time de futebol. Aí, ia
rir de quem perdia tempo com futebol ou esportes pedestres de assistir na tevê.
E ia ocupar o tempo do futebol com pedalada na ciclovia no parque serra da
Capivara.
Quando
foi para o fim, meu... então, aí o jogo nem acabava. E as gurias rodeavam a
sala de visitas fazendo as diversas coisas e sem me olhar na cara. E as cucas,
muitas fatias, já tinham sido experimentadas e repetidas. E muito chimarrão.
Aí, meu... Aí começou a me dar um suador... um suor frio com orelhas quentes...
uma vontade de me repartir em oito nove vinte pedaços fatiados... dentro de mim
uma língua de fogo se revoltava comigo... e ululava.
Claro,
tentei me prender na cadeira com unhas e dentes. Quis pensar noutra coisa. E me
vinha uma dor terrível, meu!... Eu queria sumir numa mágica transparente. Nem
ouvia mais nada. Nem via mais nada. Nem podia me mexer. Me agarrei na poltrona
como um tamanduá-bandeira brabo raivoso em perigo. E a dor nem passava.
Respirava mal e suava frio de olhos bem abertos. Queria levantar do sofá e nem
tinha certeza. Pensava no pior numa ambulância num resgate urgente. O fogaréu
continuava e repassava voando baixo por dentro de mim. Nem tinha certeza se
podia dar dois passos. Me sentia arrasado esculhambado o primeiro a cair morto.
Eu devia me jogar pela janela como fazem os desenhos animados e cair na rua e
já sair andando correndo se transformando num ser total. Estava pegando fogo e
muito entupido de cuca e chimarrão...
Mais
um pouco... e subiu um som por dentro de mim... mais nada e explodi mesmo. Calcule.
Estourei pelas guerras atômicas todas que já poderiam ter acontecido e dali até
o fim dos milênios. E foi um vexame e um terremoto e um desaperto e um alívio.
O vexame foi maior. Nunca mais quis ver a família do seu Tatuí.
Aquilo que me aconteceu
foi um desastre e mais um pouco e mais nada. Aquilo foi um dia muito abichornante
e péssimo e horrível. Nem, nem aconteceu comigo nem com meu pior adversário.
Que fiasco, meu! Ainda hoje quero correr e nem consigo andar. Ainda hoje em dia
eu queria ter virado um ser lendário qualquer e me mandado de lá invisível. Ainda
hoje prefiro morrer e nem me lembrar.
***
Quer saber?
Apareceu uma cor nova pelaí 10h e 10min e inédita exclusiva importante
explicativa que deram o nome de Enigmática.
O dia a dia
cheio de pássaros cheio de peixes cheio de automóveis cheio de
mandaçaias-do-chão conversando em sociedade e povoado de habitantes os mais
variados. E sol dourado que apareceu árvores na beira do rio Retiro.
Enigmática era
assim: ela simplesmente nem precisava de nada nem de ninguém. É mole?! Parecia
muito bem aquelas pessoas para as quais o céu abria chaves e colchetes e apontava
o dedo e dizia: você é o cara! No caso dela seria mesmo: você é a cara!
Ficamos
andando em volta da guria uns dias umas horas um mês até que enfim começou a
chover Enigmática.
E nem precisava
de nada e assim me impressionava e me deixava doente, retardado, rasteiro,
burro. Ela nem precisava de nada. Talvez de um pequeno espelhinho de vez em
quando. Talvez um espelho de corpo inteiro fosse melhor mesmo.
A
doce Enigmática bem uma palmeira carandá. Andava pelo meio das carteiras assim
muito calma, muito simples entre as coisas, virava de lado com câmara lenta, muito
comum entre as imortais, via tudo natural, ela mesma a endeusada.
Aonde
ela ia com aquela blusinha sem botão sem laço sem cinto cheia das florações.
Aonde ia com que com quem com aquele lápis preso ao cabelo. Aonde então com
aquele personagem literário de mãos às costas.
Um
lago de céu entre espelhos de miragens nuvens precipitadas de peixes comendo
folhas e dias de banho tépido sons nas pontas das asas.
O
rato-toró chegou na água do rio e o rio riu e as árvores fizeram coro e
acompanharam sorrindo.
E
por outro lado, ninguém precisava de mim. A minha esperança era burra e zurrava.
O
jeito, meu chapa, era fazer como os jabutis: botar a casa nas costas, tentar
andar e caminhar sem pensar em nada.
Fiquei
prisioneiro da paisagem e nem houve mais jeito.
***
Eu
já estava aceitando a sorte como vinha como tinha de ser e tal qual. A lua era
de pedra porque nem é.
Pois
logo vi que nem seria mais a mesma coisa. Eu já estava aceitando a noite de
sombras e mariposas e mosquitos a noite quente pegajosa mormacenta sufocante
longe de tudo. Olhava sem ver, olhava sem sair do lugar sem sair do chão.
Olhava, de uma certa sala no térreo, o pátio interno do colégio e tal.
O
sol radiar os pássaros planejar de manhã agitar conforme faziam bem sobrevoar a
lua. Chegavam a uma região diferente desconhecida descobriam o pé de caraipé-das-águas.
Assim
nasceu o tranquilo assim era o tranquilo satisfeito assim respirava o tranquilo
simpático assim caminhava a borboleta assim mergulhava o universo na imensidão.
No
máximo da altura o início do mapa das constelações estrelas constelares cores
brilhos que se moviam como olhos de curumins arteiros e ou jacarés entre as
plantas aquáticas.
E foi que vi a
Cumã de uma vez. Quando vi a Cumã pela primeira vez, quando ela começou a
aparecer no Centro Acadêmico Estudantil do Aparecida - CAEA -, já foi gosto meu
para todo lado e desde sempre. Ela do segundo ano 3, eu do segundo ano 4. O
mundo melhor e tinha jeito.
Aprendendo
melhorar aos poucos ia sabendo como chegar ao céu.
Nem acreditava
em deusas etês entes da mata pé-de-garrafa paranormais mas era dependente de
cabeça para baixo da Enig-mática.
Éramos, ali no
CAEA, um punhado de alunos inutilizando uma sala para discutir política
estudantil, bater um papo sobre tudo e nada, fumar maconha escondido, promover
uma festinha, falar contra e a favor mais outras esquisitices. Sempre os
mesmos, sempre os poucos, sempre as ovelhas desgarradas desconectadas. Já nem
nos olhávamos na cara. E aí um dia Cumã veio sorrindo apareceu naquela noite de
calor cabelos cacheados até os ombros e sentou no sofá junto da janela tudo bem
tudo zen:
- Aqui que é a
casa dos pajés?
Nesse tempo o
rio começou a se mexer e a se mover e fluir e descer a montanha contínuo
corrente iniciando longo incontido triunfo viajante.
Assim,
após esse primeiro contato imediato de terceiro grau, Cumã se tornou sempre
mais uma nossa companhia. Nunca a vi chegar sem sorrisos cabelos soltos ou
presos em rabo de cavalo. Olhei muito a ela por isso. O sorriso era a sua
marca, o riso, a gargalhada bem condicionada com timbre exato. Melhorou tudo em volta. Toda alegria
tinha ela aquele bom sorriso juvenil nos dentes parecidos.
-
E a lua e a lua os transformou em grilos.
Eu
e ela fomos nos aproximando meio sem querer eu querendo mais. Sentávamos ali e
trocávamos ideias com filmes, cedês, os amigos comuns, os professores comuns e
até os livros que nem líamos ou que desfolhávamos até a página 30 e re-co-men-dávamos.
Assuntos nem faltavam pois ela era sem ponto final. E eu caminhava mais
devagar, passei a caminhar mais macio e perto dela e empurrando o ombro dela.
-
E de longe habitavam um lugar longínquo pra lá de Orós e a serra do Roncador.
Lembro que um
belo dia ela me beijou ao chegar me beijou, léeepete!... Fiquei sem jeito fora
de órbita e talvez até vermelho como o brasil. Foi surpresa foi. Um beijo de
cumprimentos com as duas mãos segurando meu rosto e depois alisando meu cabelo
liso. Os outros colegas por ali nem me falaram nada, nem viram, ninguém disse
nada disso ou daquilo: olha, estão namorando! Estão de alguma coisa! Ninguém me
indagou isso: tá tchibum?! E se alguém falassem eu nem saberia responder eu nem
ouviria. E quando ela vinha sorrindo e sorria junto com todos nós, o que
modificaria dali pra frente, e quando ela ia a bunda era bonita que só vendo.
- Embora o rio
a estrada durante o tempo o espaço fosse me adiantar adiantar...
Cumã
era muito generosa. Eu precisava encontrar alguém assim e urgente. Era muita estrada
para percorrer a pé mas compensava a Enigmática. Uma noite que usava aquele
chapéu pequeno de feltro, tá!, com fita marrom, tá!, segurando uma pena de
gavioa ou de coruja-carijó, tá!, essa noite ela perguntou me olhando bem dentro
dos meus olhos brilhantes de nem poder mais piscar:
-
Que canções você tá curtindo hoje em dia?
E
mais outra pergunta difícil:
-
Você curte ir comigo no fim de semana de Gramado e Canela?
E
uma outra vez me assustou com essa:
-
Você tem olhos doces, cara!
Para
começar amanhã de manhã como sair do mundo e entrar no dia, era assustador. Que
lhe tocou de herança um terreno largo uma casa ampla mobiliada em ótimo ponto
num perfeito logradouro do Centro da cidade.
Sorrindo,
então. Ela se chegou mais perto, me olhou no fundo com interesse. Tinha os
lábios pintados de café. Os olhos dela sempre foram os castanhos e os meus.
Senti vontade de beijá-la e de mordê-la e querer entrar naquela boa alma. A
história de se ver dentro dos olhos dela. Os olhos castanhos eram bonitos e
perfumados. A dona no conjunto muito também.
-
A lenda do pajé Urutau dos paiaguá. O índio era um era ele e quantos ele queria
ser podendo se multiplicar em mil e oitocentos como um enxame de muriçocas um
enxame de mandaguaris. Ficava o que quisesse ser. Pajé se divertia conforme se
virava cutia capivara árvore. Podia ser árvore e sonhar como árvore. E como
quisesse era quati era planta era curupira. Habitava todos os animais e via e
andava e ouvia por eles em conjunto e separado.
“O
pajé traçou um plano em linha reta no planalto pulou a montanha entrou pela
floresta molhou os pés no riacho varou a cachoeira luminosa entrou na gruta
secreta o corpo mais leve livre até até até a uma cidade dos ancestrais até até
até muitos dias de viagem até até até o fundo sagrado da caverna.
“O
Urutau dos paiaguá era ele mesmo ali uma árvore das árvores em meio às árvores
caminhando pra cá pra lá.
“Pajé
que entendia as vozes entendidas e sábias e ocultas dos bichos das árvores das
nuvens.
“O
grande pajé dos paiaguá saiu pela mata densa perguntando o nome dos bichos em
primeiro lugar e o nome das árvores dos insetos dos entes o nome disso e
daquilo: como é teu nome?
“Depois,
como por descuido, pisou em falso no buraco caiu lá dentro no oco do poço. E
ficou lá dentro preso e berrando por dias e noites. De dentro do buraco ele via
o céu as nuvens e berrava e guinchava. E comia raízes e folhas com terra e voos
de pássaros que voavam para longe. E já esquecia nem contava mais os longos
dias e noites de prisão.
“E
Urutau pajé invocou os ventos as nuvens as chuvas as árvores frutíferas até até
até alagar o buraco do poço.
“Pajé
virou árvore e do feitio das árvores que falam folhas no vento e nas águas da
chuva. As mesmas árvores que carregavam as chaves dos enigmas.”
Certa
noite, sempre à noite, se conversou políticas estudantis e filmes e cedês
durante horas. Me sentia bem ali assim. Olhava para todos e nem me acreditava
ali no meio da turma. Se eles me viam era porque logo existo.
E nessa mesma
noite das 22h e 22min ela me convidou para acompanhá-la até o ponto de ônibus.
Caminhamos lado a lado como par de araras-spixi. Nos sentamos no chão à espera
do bus coletivo.
A lua passava
na rua sem atropelos sem buzinaços os conhecidos amigos colegas já estavam em
casa jantando. As estrelas fugiam com o vento. As árvores conversavam os papos
dos matagais. Se ouvia o mar murmurando na concha junto do ouvido. Quem queria
falar alguma coisa mas nem disse nada.
Quando eu era
trem carregava vagões com minério de ferro. Quando era barco descia e subia e
aportava em cima do rio das Antas nas cidades da beira do rio, Contagem,
Pariquera-Açu, Arroio Trinta, Jardim...
Cumã sempre
muito querida, cheirosa, insinuante. Assunto com ela mesma nem faltava. Eu
queria todas as horas junto dela. Cumã me falava desse lado, as suas palavras
me entrando no cérebro por esse ouvido aqui. Bebia cada palavra sua cada deixa
cada riso cada um dos gestos extravasados cada um de nós. O decote da blusa o
pernil os quadris estreitos a pele sardenta o cabelo indígena aramuru nem longo.
Num de repente me abraçou como superamiga. Bem perto do ouvido, seu sopro
morno, seu hálito de pitanga e me disse me perguntou.
-
Tem um cigarro pra mim, Querido?
Há
pessoas que dizem isso, “querido!”, como gostam de usar vírgulas. Cumã seria
assim uma dessas? Na hora pensei que nem. Seu braço me puxava, seu braço
tentando rodear meu ombro, e às vezes a mão esfregando as minhas costas
contando os ossinhos da coluna. Outra pergunta ali na parada de ônibus escolar,
talvez nem na mesma noite e mesma dimensão:
-
Você já conhece Torres, Capão da Canoa, Cassino, Tramandaí ou outra frase que
fosse?
Uma
vez na altura do ginásio coberto ficamos uns minutos com cidades famosas e
inspirativas, Guarani das Missões, Poço das Antas, Santa Clara do Sul, Humaitá:
-
Você tem Três Cachoeiras na pele, Cumã!
Hoje
mesmo dou a volta e me encontro me abraço me lembro do meu nome e dou muita
risada com tapinhas nas minhas costas. Me lembro de mim e o nome de cada coisa
cruzo os braços amigável sim senhor. Sou a chegada do lugar que parti e que
brilha lá dentro do tempo e me enche de mim mesmo.
Quando
ficava muito muito bonita era assim, então, rindo com o brilho nos olhos e o gosto
estampado na cara de pintinhas de sarda. Era uma nuvem era uma flor era uma
chuva de verão uma coleirinha na chuva. Os olhos dela brilhavam e eu me achava
sem esperança que nem a merecia que nem a alcançaria.
-
Pronto, o ônibus. Então, me beije de hoje para até amanhã.
Subia
no ônibus e nem esquecia de acenar com até logo, atirando beijo, fazendo careta.
E sorria sempre. Aí sim, uma parte de mim já partia com ela e a outra morria
ali mesmo. A noite toda, o dia seguinte até a noite, e por dois e três dias, e
por uma semana e meia, dois meses e mais, sentia falta e sede e fome. Fui feroz
para resistir:
-
Onde você mora mesmo, Cumã?
-
Becedefe...
-
Quê?!...
-
Hum... Na capela Santa Catarina.
-
Ah! Tudo bem.
Os
meus olhos preparavam fogueiras no universo, as estrelas estavam paradas, as
constelações andavam muito devagarzinho e de lado. Quando embarquei nesse barco
alado lunático por esse trajeto sempre alto sobre as florestas sistemáticas
racionais.
Na
ocasião toda a galera na lancheria do colégio quando Cumã chegou e me viu.
Bastou me ver e veio correndo para cima de mim. Me agarrou e foi tascando
beijos muitos, múltiplos. As figuras em nossa volta olharam tudo, será? Meus
cabelos castanhos despenteados... Fazia o quê, uma semana, três dias, que nem
nos víamos? Parecia mas nem era desse planeta. Ela era mesmo feliz em me ver.
Então, eu nem dava mais conta de mim. Eu nem sabia como andar. Eu tinha
covardia de andar e tropeçar em mim mesmo. E Cumã me pegou pela mão, um apoio,
um cão-guia:
-
Vem comigo até a biblioteca. Vou emprestar um livro.
Eu
lhe devia alguma coisa. Como recompensá-la? Sentia que nada mais me importava,
nem a Enigmática. Nem o mundo.
-
Nem quer um lanche, um suco, hein, Cumã?
Cumã
pegou minha mão até a biblioteca. Tudo de bom. Nem conseguia pensar normal e
tudo parecia andar nas nuvens atravessar a rua sem olhar para os lados. Meu
cérebro estava ficando muito oxigenado e nem reconhecia mais ninguém. Saímos no
pátio interno e subimos a rampa em meia volta para a sala da bíblio. Ali era o
centro do universo e eu estava no olho do furacão. Ela ficava aborrecida com o
desleixo dos leitores sobre os livros dos seus escritores favoritos:
-
Veja este. Nem é demais? Como pode? Nem sei por que existe gente assim. Todo
marcado anotações desenhado sublinhado borrado, né!, os caros livros da bíblio.
Cumã
era de pequenos peitos e sorrisos à vontade. As sardas compensavam. Tínhamos
uma alegria de procurar coisas nos bolsos. Quando sorria, quando ria, me
derrotava. Já a tinha visto com prendedor no cabelo, assim de um lado, um
grampo de plástico cor verde coisa de despojada. Ou os cabelos caindo nos olhos
coisa de despreocupada. Quando vinha de bandana eu gostava muito mais. Os
bolsos tinham identidade cartão de ônibus vinte e cinco reais fora as moedas. Nunca
lhe falei, mas eu gostava mais da bandana patriota num dia de chuva com muito vento.
O
calor do sol esquentava as pedras e eu nem sabia o que era isso.
No
meio da praça uma árvore mandapuçá como estátua de general como busto de
presidente como monumento ao herói como placa comemorativa do centenário.
Eu
tinha segredos de gostar muito de Cumã. E Cumã acho que bem menos. Ela tinha um
charme de soprar as mechas de cabelos que caíam nos olhos. Pintou no papo
aquele livro de indianos e as posições das mil e uma noites dos budas pelados:
-
Já experimentei todas. Algumas valem mais a pena.
Isso
que ela disse e me caiu a ficha. Se ela reparasse em mim ali na horinha, então,
teria visto como fiquei disfarçando. Engoli seco e fui disfarçando, me cuidando
para bem disfarçar, me posicionando para disfarçar. E estiquei aquele sorriso
reto seco descolorido sem água sem hálito sem língua.
Aquela
foi a primeira frustração. Ela me passou a perna bonitinho. Se Cumã contava e
falava com todas as letras, assim na boa, assim na minha cara, certo nem se
importava com o que eu pensava ou deixasse de pensar dela.
-
Agora eu quero aquele sanduíche que você me prometeu - convite dela para trocar
de ambiente.
Eu
era pássaro que na árvore longa da manhã clara mergulhou no vidro do meio das
águas. Então, eu nadei junto da areia mergulhado do fundo e me vi peixe
esverdeado dentro do céu. Tudo que a humanidade já sabia. Tudo que eu queria.
Nem
a evitei, nem mais a visitei, mas já nem a via com os mesmos olhos dentro dos seus
olhos. Era, e penso hoje que era no sentido do já passou, eu era mesmo babaca,
com certeza um otário. Como trocar Enigmática por guria tão rasa misturada
multinacional?
O
que fazer? Pegar ou largar? Nem dá pra escolher muito, nem é? Aquela horinha
que me veio a dúvida. Nem sabia mais nada. Até onde aquilo ia chegar? E fora
embora o deslumbramento. Comecei a agir com mais cerimônia. Sem aquele ar tonto
de antes. Mais confuso. E cheio de preconceito. E cheio de nacionalismos.
Cidade
com nomes lá dentro floresta com nomes de árvores lá dentro.
Uma
noite ali sentados lado a lado no sofá do CAEA, Cumã me aplicou uma chave de
pernas que num mau jeito acabei por reclamar. Ela mesma disse, jeito dela
falando e rindo ao mesmo tempo e me olhando nos olhos:
-
Como é, ah ah ah?! E você, ah ah ah!... me quer eu vejo e nem, ah ah ah!... se
sai nem com o peso, ah ah ah!... das minhas coxas?
Cumã
nem parou de rir e de me olhar e rir. Ela só fazia rir e ria muito querida e
ria muito bem falando rindo as palavras deslizantes no riso. Nem sei até onde
ia então seu pensamento seu pensamento. Ninguém ria tão bem como ela. Enquanto
isso, eu ficava mesmo mais frustrado. Nada eu dizia, nem abria a boca para
confessar minhas superstições. Eu tinha ela no sul no oeste no norte em todos
os lugares e direções.
Uma
vez no intervalo de aula, muitas conversas pelos corredores, papos sobre tudo e
nada... pimba!, e gol contra de fora da área. Alguém comentou que vira a Cumã
no sábado no maior trago, no maior pileque, e sozinha, e azarando até o dono (o
cara era casado) lá da boate Corrupião. Somando o meu silêncio, esta era a
segunda ou terceira frustração. E o que fazer e nem desfazer? Era da minha
conta da minha alçada? Que decepção paquidérmica, meu!
Fiquei
na minha, e bem quieto, me fingindo de árvore que dava sombra que embora batia
o vento nem caíam as folhas. Fingia que nada era comigo. Ninguém dos colegas de
turma sabia ler pensamentos. Então, se eu ficasse e continuasse de boca fechada
jamais saberiam de mim. Eles nem sabiam de nada. E só comentaram porque Cumã
frequentava o CAEA.
Mas
eu quis já naquela horinha nem me dar mais outra chance. A partir desse ponto
eu seria mais cínico que um escorpião esperando a noite debaixo de uma pedra. E
iria tirar Cumã do meu raciocínio do meu caderninho. Faria de tudo para perdê-la.
Claro, nem conseguiria e levaria tempos tentando em vão.
A
árvore alta sobranceira subiu até até até muita altura até onde ninguém até
hoje chegou.
O
sol ampliando amplificando panoramicamente a paisagem. As aves mergulhando nas
árvores nos lagos em voos agulha vindos do céu. Os bichos os insetos pescando
pacientemente na planura das águas dos rios animados. Os rios murmurantes
descendentes entre as pedras entre as nuvens. E tudo de volta útil no outro
dia.
A
partir daí começou a ficar mais difícil e eu perder o resto do clima noturno,
vamos dizer. Nem procurava encontrá-la “por acaso” como fazia antes. Entrei a brincar
a chegar atrasado sair antes. Quando a gente se via eu nem lembrava de devolver
o livro que me recomendara. Eu fazia questão de deixá-la falando sozinha e de
bocejar e apontar que o presidente ia viajar para Lima na Venezuela. Vezes eu
até saía fora, me fazendo de preocupado com outras coisas mais importantes
urgentes necessárias como as compras do mercado e a roupa para pegar na
lavanderia. E saía mesmo, batia no peito depois e dizia comigo mesmo: você é
feroz, você é brabo, você é dos meus! Isso mesmo: faz ela sentir que você nem é
daqui nem é qualquer figurinha fácil, meu!
Procurava
me concentrar em Enigmática, E-nig-mática. Queria apagar mesmo a Cumã. Sentia em
mim mesmo uma falta tão grande de humildade pés no chão peregrinação frei
Galvão santa Paulina madre Teresa de Calcutá santa Clara de Assis São Francisco
de Assis Santo Antônio. Eu precisava de Cumã ou de uma outra garota qualquer
para esnobar a Cumã.
Quando
o mundo assim aqui e ali era feito de aves rios pássaros árvores frutíferas
onde comiam muitas aves de todos os calibres.
O
sol entardecer o astro ele mesmo nem mais tinha. Nem havia música.
Já
nessa altura ela vinha ali no CAEA e nem tinha mais graça nenhuma. Perdi a
graça de esperá-la, de vê-la, de tentá-la, de tateá-la. Quer saber, cansei lá
do sorriso dela, do riso dela, dos lábios tentadores, do riso no meio das palavras
deslizantes, das sardas no nariz e em todo o corpo. Nem pensei mais antecipando
pauta nenhuma assunto nenhum.
E
quando tudo ia assim seco e sem alma, sem nada, eis que, bem, Cumã chegou e me
veio dizer, me convidando, oferecendo:
-
Oh, te arrumei um emprego, táis a fim? Você nem disse que queria se livrar da
tal farmácia? Então?!
Aí,
Cumã dito e feito, me apresentou ao emprego. Tive que agradecer. Foi assim. No
outro dia ela mesma me levou, me elogiou na frente dos novos chefes, saí
empregado, saímos abraçados, lhe beijei a mão e fomos até a parada pegar o
latão.
O
rio nascera no dia de sol do dia rio Verdão. O sol abriu cedo o dia no mato e
chegou no rio povoados da beira do mar chegou cedo nas cidades Porto Nacional.
Mais
uma semana após, Cumã veio me esperar no novo emprego, em plena tarde, uma
novidade, minha alegria tremenda e me convidou para um pastel com suco ou
melhor uma cerveja com pizza de queijo. Gostei do convite e a beijei na boca. E
minha alma se mexeu, porque estava viva a minha alma. Se fosse dia tinha sol,
se era noite tinha lua no céu.
E conversamos quer
saber sobre cidades interessantes como Capivari do Sul, Balneário Pinhal,
Piratini, Ibitunane, Alto Araguaia, Brasileia... Estava era tudo ótimo, e a
cada troca de olhar profundo me sentia mais e mais confuso. Tudo estava já um
jogo muito bom de se jogar e esperar o tempo nem passar. E parecia que o mundo
nem tinha mais limite a partir dali. Mas também o mundo nem precisava mais dele
se fosse o caso por mim.
-
Você me ama? - ela me presenteou.
E
de repente para agradar ao máximo Cumã virei eu mesmo sorvete preferido dela de
pitanga de chocolate de abacaxi um pássaro tranquilo um bico-de-milho um tênis
novo uma viagem pelo país até até até a região dos pãi-taviterã e eu podia ser eu
mesmo natural e era o que ela preferia que mais queria ali na hora agá.
Aí
eu me lembrei que era um idiota na pele de um ator de feira livre. Me fiz de
surdo e de desentendido e me mexi na cadeira no meio do bar. Nem me emocionei,
pra falar a verdade. Por que a pergunta aqui no recinto do bar-lancheria
Guaxixim? Agora e nesta hora e à queima roupa? Estaria me testando? Tudo bem, peraí,
tudo bem, vamos respirar. Era bonita, era guria, tinha o direito de perguntar e
eu escutara. A tarde, o pastel de queijo com cerveja, a noite acomodada, o
clima, o mundo, ela tinha o direito de querer saber e a gente até acha graça.
Que coisa! Quem diria! Eu pensei: esta a dúvida dela? Aquela a dúvida dela? E a
minha dúvida onde é que fica, hein?!
Fui
até o banheiro passei uma água fria no rosto nem me reconheci a primeira coisa
um banho ao amanhecer.
Mas só a
pergunta nem explicava muita coisa, pensando bem. Nem significava que ela
queira saber se eu a amava para daí dizer que me amava. Cumã só queria uma
confissão e ponto? Nada do que eu dissesse mudaria nosso destino de perdidos o
meu destino de perdido meu destino de desconfiado? Pensei em negacear e
negaceei. Pensei em regatear e regateei. Nem fui trouxa. Falei nada. Nem
respondi. Pensei em sair pela tangente e tangenciei. Olhei para ela com o olhar
de um escorpião cínico, escorpião desses que cuidam da sua toca na pedra e
pronto. E pedi um tempo para ir ao banheiro. Saí pela esquerda como um
passageiro apressado de trem partindo.
Os pássaros
voejavam em minha volta como andorinhas como quero-queros nervosos como tuiuiús
mais pesados que o ar e tentavam me acertar com as suas garras nas asas e
cantavam e piavam e grasnavam ensurdecedoramente. A hora estava fazia muito
calor nas minhas orelhas.
E subia um som
de mundos e fundos e que subia com o sol um astro pegando fogo e que vinha de
dentro dele mesmo da terra.
Voltei,
e a encontrei no mesmo lugar, e entrei com outro assunto, e continuamos com
mais uma cerveja e sem nos pegar as mãos. Ela nem voltou mais nem insistiu mais.
Nunca que Cumã saberia se eu gostava dela ou nem gostava. E aí, fomos por
conversas e ela me contou outras coisas que já nem eram segredos. Ela sempre
tinha a última palavra e a última pergunta e o último beijo molhado e o último
suspiro e a bala de castanha-de-caju da misericórdia:
-
Estou pensando em ir já para o Maranhão São Luís Imperatriz São José de
Ribamar... Meu ex quer me levar para Guimarães e um dia desses disse que vem me
buscar e eu vou. Acho que de repente até me caso com ele abraço a causa visto a
camisa e fico por lá.
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