Impressão das Coisas
Na minha rua passavam muitas gurias
que eu observava. Nunca passavam uma a uma e sim senhor sim senhoras duas a
duas três a três quatro a quatro etc. Quando passavam por mim nem me olhavam
riam muito e nem olhavam para trás. Elas tinham sempre uma piada, que eu nem
imaginava como podia ser, pra contar bem na hora que passavam. Umas usavam de
costume o rabo de cavalo e eu achava a melhor coisa do mundo que inventaram
para uma guria. Havia uma que parecia, todos diziam, uma pomba mocinha-branca,
quando se vestia toda de branco, elegante, viva, quase todos os dias. Cantava
as canções de sucesso da rádio e que se ouvia lá em casa. E outra, de shorts no
verão abrasador, que cobiçávamos as coxas cheias, as bergamotas maduras, os
olhos explícitos de caça e mais as infinitas possibilidades.
Segundo entendem discutem
diversificam os entendidos de diferentes crenças mundo cosmos universo D
matemática esperança segundo esses especialistas ocultistas achistas seria tudo
a mesma coisa e igual em cálculos de medidas e tanto fez como tanto faz tanto
fará.
Automaticamente despertavam as
manhãs e etc. Poucas nuvens brancas de chapéu. Horas de sol flama chama
labaredas. Uma árvore madura guajiçara sortuda paciente pacientemente ali no
meio-fio quase dentro da rua.
E naqueles dias, perto de anoitecer, depois de uma
tarde de sol quente, eram dias de olhar e eu olhava. Força de olhar.
Eram tão comuns os dias abertos os
bem-te-vis-gamela os coroados os pica-paus-amarelos os paturés o
beija-flor-safira as azulonas os pucuís-caboclos no mato à vista e sempre verde,
juazeiros, umbuzeiros, carnaubeiras, e guiruçus sobrevoando as flores e cuviara
pouco escondido e camufladas as esperanças-dos-pastos, araribás-amarelos,
mulungus, maniçobas-do-remanso, aroeira-vermelha, ingazeiras, caputunas, o
verão a bicicleta a bola as gurias. Acho que só me refiro às tardes de calor
mormaço e chuvas repentinas.
Que em certos dias vislumbrava me
iluminava reafirmava que teria de ir a Recife e Olinda, e isso era bom. E
depois a Belém e Marajó.
Um índio velho chapéu pantaneiro botas
cano longo bombachas guaiaca com cinto-cartucheira pala enrolado na garupa para
chuva e ou frio cavalo ruço-pampo pelegos encardidos no trotinho, “tro-pro-tro-pró!...”
desciam demanda do Prata bem cedo na manhã da alvorada. Pelo menos uma vez por
semana, “bueeenas!...” faça sol ou faça chuva. Dono de latifúndio em
pinheiros-do-paraná colônias alqueires hectares benfeitorias lá de dentro lá do
fundo lá de trás da capela São Pedro divisa com o município de Itatiba. Pouco
antes de escurecer, voltavam da cidade, cantando baixinho, o passo marcando a
ferradura, “po-to-po-tó!...” de repente meio desequilibrado na sela.
Cada guria tinha o seu lugar na roda
do jogo da peteca, onde guri nem entrava. E avoante estava querida e linda e
flutuante e apontando a blusinha sem mangas porque flutuava. Por qualquer lado
que se observasse.
Estávamos em expectativa na pequena rua
transversal subidinha de morrinho paralelepípedos sol de rachar disputando a
sombrinha de umas poucas piaçavas e bacabas-brancas. Aguardando a vez de
marchar o 7 de Setembro. Se ouviam os “tum-tum-tuns!...” dos tambores marcando
o pé no chão. A rua pintada de listas brancas. E eu tinha certeza: toda a
cidade estava. Principalmente quero dizer que praticamente era a primeira vez
que me via no meio de um evento.
Mas a minha rua era bem simples e
pacata. Nem era curiosa como as ruas com blocos de carnaval, feira livre,
mercadores ambulantes, circo, pracinha com balanço gangorra tobogã. Nenhum
homem ou mulher genial ou famoso apenas nascera ali. Nem que fosse um bandido
sem alma sem coração e vingativo. Nem mesmo um padre ou uma professora que dava
nome ao grupo escolar. Nem mesmo era uma rua calçada eletrificada aparelhada de
tevês a cores até o fim. Queria tanto que a rua Itália fosse arborizada dessas
árvores da Amazônia e em fila indiana gigantes formando túnel frutíferas na
época das frutas e floríferas na época da primavera e que perdem de folhas na
ventania e que desprendem de flores nos fins da estação. No seco era um sufoco
o levantar da poeira, e no molhado era a lama de galocha.
Devaneava com a princesa Isabel. Nem
com a sua pessoa. Com seu governo, de Regência. E tinha sido legal a paisagem.
Era o Rio de Janeiro com bondes puxados por burros e nem o metrô, o Pão de
Açúcar sem o teleférico, o Largo do Boticário passando uma pequena ponte sobre o
rio Carioca, Copacabana ficava muito longe meio deserta esquecida nos dias
úteis raro a gente ir até lá. Pois o céu visto na lagoa estava ótimo prático
doce aves plantas ciliares, fedegoso-grande, vassourinha, camará-açu, borragem,
anajá-mirim, trapoeraba-vermelha... Porque o céu visto na lagoa Rodrigo de
Freitas era de vidro azul-azul e até se podia mergulhar.
A tarde quente era de carnaval no
Salão São Cristóvão, as músicas marchinhas na vitrola, “Alá lá ôooh oh oh oh!,
mas que calô oh oh oh!... estava atravessando o deserto do Saara... quando o
sol... queimou a minha cara.. Alá lá ôooh oh oh oh!...” olhei pro lado... era
ela de pomba-de-santa-cruz, “mã mã mã mãe eu quero mamá... me dá a chupeta, me
dá a chupeta pro bebe não choráaaa.... mã mã mã mãe eu quero...” a tarde o
trenzinho de mãos nos ombros o dia as gurias de brilhantina grudada na pele
suada as horas os confetes e serpentinas e balões as gatas e aviões e minas
tudo voava rápido demais e melhor, “cidade... maravilhosa... cheia... de
encantos mil... cidade...” e ela mesmo nem me reconhecia na minha fantasia de
índio trumai cocar apito urucum jenipapo e “uh-ooô! uh-ooô!...”
Tivemos um vizinho de quarteirão que
amanheceu difundindo buraco. Começou o buraco durante o dia abria o buracão
torcendo para nem vir chuva e fez o fundo depois encheu de água fez açude e
semeou peixes exóticos de outros lugares do país. Com isso aí, virou a
pesqueira do seu Zeca Macaná. Vinha gente e bichos e aves que vinham de Minas
Gerais e Maceió e Guapimirim e Tambaú e Aratuipé e Santa Rosa de Viterbo e Cabo
Frio e São Domingos... para ver e pescar no pesque-e-pague.
A arte de pensar sem risos. Força de
mim. Eu queria ser muitas coisas com a certa idade daqueles tempos 23 a 28 de
novembro de 1984 por aí. Eu queria ser... ah! deixa pra lá.
Fiquei espremido entre dois cais o
mundo dos outros e o mundo das gurias. No mundo dos outros eu queria ser
jogador de futebol e jogar no meu time ser convocado para a Seleção. No mundo
das gurias eu queria passear no parque de Vila Velha pedalar lado a lado de
bicicleta 21 marchas no parque Aparados da Serra com a guria de branco
pomba-do-ar.
Essa coisa de lembrança é como uma
bola de neve. Só vi neve uma vez na história, foi em 65 com poucos anos de idade,
uns dois dedos ou nem isso de neve. A bola rola e vai enchendo de coisas
incorporando aumentando rolando adquirindo mais e mais caraminholas neves nomes
coisas. Força de rolar. Um baita pinheiro bem no meio do potreiro branco todo
de branco na manhã, “Vamos lá vê se caiu pinhão?!”
Um piá vinha todos os fins de tarde,
lá do outro lado do nosso bairro São Cristóvão, para apanhar as vacas no pasto
no capim-rabo-de-gato. Ele fazia sinal de positivo sorrindo, segurava uma corda
e nem parava para ver o que a gente estava fazendo. Eram três as vacas preta
malhada avermelhada. Passava correndo, sempre atrás duma bola invisível ou
imaginária e aérea, chutando o ar, cabeceando as nuvens, aparando um cruzamento
com o peito, gritando gol e socando o ar comemorando como se fosse um craque fazendo
gol em Copa do mundo.
Inexplicavelmente o sol a chuva as
árvores. Aguardar o sol a chuva as árvores, baga-de-tucano, camboatã-branco,
tamatarana, ituá-açu... Contar com o sol a chuva as árvores. As ipus fazendo
casa no barranco. Força de esperar aguardar ter paciência antes de entrar no
palco.
Em o meio-dia, voltando da escola Onze
de Agosto, passava uma turma uma porção de guris e outras gurias. Isso
provocava a ira incontida dos cães de quintal. O Avião, cachorro fila do avô, punha
os pés na grade da área e acoava grosso rouco forte ameaçador, “rau! rau! rau!...”
ou seja, como Emília Moncorvo B. M., traduzido, “Mas isto, mais que isto, pois
não?!” Parte da turma se sentava conversava ria o mais saliente escolhia ao
acaso o pátio aberto de uma casa e na sombra da árvore para jogar bolinhas de
gude trocar marcas de maços de cigarros papel de balas figurinhas de álbum de
jogadores de futebol tampinhas de garrafa às vezes surripiando bergamotas ou
butiás ou jabuticabas ou uvas verdes.
Se tinha uma pitangueira alta muito
antiga frondosa senhora dos seus 40 em pé frondosa atlética esperançosa etc
automaticamente ali sua sorte junto da casa da dona Juçara Caruá? Força de
árvore! Ali as formigas-de-novato tinham muito trabalho e competência e
paciência. Ali se passara o caso do resvalado Jô Maniva. Tinha uma época de
cigarras. E as abelhas jataís nem apareciam ou neeem meee leeembro maaais.
Uma carroça puxada por 2 bois lentos
e pesados tri parceria chegavam da roça ou de volta do moinho. O condutor seu
Maritaca Iurumi, pai de nove filhos cinco netos dois bisnetos, trovejava e dava
ordens:
- Anda, Calango! Te ajeita, Urutau!
Levavam um tempo... Subiam o morro na estrada de terra
vermelha um capão de trocentas araucárias sobranceiras onde catávamos pinhão no
inverno rumo capela Três Mártires lá adiante naquela lentidão o cusco Tição sempre
na frente do lado atrás acompanhando língua de amostra a lenta e rangenta subida
sob o sol de caderno escolar.
À noitinha a gurizada ia pra frente
das casas brincar de qualquer coisa. A tevê nem tinha seriado àquela hora. Se
ouviam os gritos de alegria das gurias que era melhor, a bola era melhor, confusão
das andorinhas trissando a partir dos telhados era melhor, a bicicleta e as
gurias eram melhores, etc. As gurias vinham também jogar vôlei, pular corda,
pular sapata, jogar caçador. Se toucavam entre elas mesmas, umas com cabelo
liso e longo, outras com cabelo caracolado e longo, outras mais com tiara e
plique-plaques. Mas tinha uma que era sempre mais engraçada bem diferente pouco
aparecia fita no cabelo e vestida de branco pomba-de-espelho dos pés à cabeça.
Eu nem só olhava tudo de verdade de cor
e salteado. Fazia perguntas que eu mesmo respondia em voz baixa. Fiquei
irresponsável com as gurias. Eu nem queria ser mas era muito maroto.
Depois existia a prainha o lajedo as
águas turvas. A praia e o lugar onde rolávamos a bola. Era lógico. E era um
lugar meio inclinado para o rio Retiro onde as marolinhas vinham babar. O riacho
entrava no nosso campinho. E a bola rolava com as ondinhas, etc.
Sempre os domingos de tarde matinê o
cinema o centro do Prata à procura do melhor lugar junto das gurias os doces
puxa-puxas as terras do fim do mundo as gurias de sentar junto no escurinho o
mundo das galáxias em espiral o canal 100 “noventa milhões em ação... pra
frente Brasil... do meu futebol...” nem havia morcegos nem baratas mas tinham
as Amazônias dos índios itatim quase ou semiextintos se escondendo da câmera
atrás da árvore os elefantes da Índia enfeitados para o desfile dos deuses nem
havia mosquitos nem pulgas mas existiam os amassos e na saída secar a guria que
sentou perto “para onde a gente vai?” pergunta a turma do cachorrão comer
cachorro-quente e guaraná dar voltas e voltas na praça da Bandeira sorvetes de
três bolas e gurias as árvores enfeitadas para natal paxiúba mocitaíba
bacupari-de-capoeira tamaguari... o palco para carnaval de blocos e queríamos
um bloco “Amigos da Sofia” com a
pomba-de-bando ficando como nossa porta-estandarte bandeira vermelha-azul e
carreata no fim do campeonato regional.
Um dia ela me perguntou se eu tinha mesmo
olhos cor do mar. E eu nem entendi. E ela nem estava toda de branco como a
pomba-asa-branca mas de verde e outras cores e bem falante e bem assim:
- Você tem olhos verdes?! Que barato,
meu!
Cabelos soltos ou livres. Eu achava,
olhando para ela, que o mundo ia acontecer. E que o mundo tinha de acontecer. E
que ela mesma nascera para ser o mundo inteiro. Ela incrível nem era normal. Era
o meu interior. Força de guria. E ela perguntava e respondia para mim mesmo:
Um tempo pra estranhar tudo isso.
Nem vou mais voltar para trasantontem. Força de labirinto. Em vez de pegar uma
condução própria ou de aluguel, vou a pé.
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