Lilás saiu do banho com
toalha enrolada no corpo e toalha enrolada em espiral na cabeça. O dedo
fura-bolo no ouvido. Que horas? Era cedo. Pássaros sabiás-laranjeiras e outras
aves cantavam sem parar na manhã de sol. Anunciando chuva.
A guria tinha uma cascata de
perguntas, mas era bom deixar para depois. Se
olhou no espelho, e se olhou na manhã. Acreditou e cantou e saiu cantando:
- Oi! Eu te amo, o meu dia. Você
sabe disso.
Ela foi até a janela.
Olhando toda vida. A manhã estava ali. A manhã se agitando procurando lugares
para pousar as cores os insetos as casas. É, todo o mundo respeitava respirava
a manhã.
Uma piúva em forma de escada
pastava o alto do céu, o sol a quilômetros, o vento invisível e calmo e sudeste,
ainda o azul sem nuvens, alguns morros com arvoredo, etc., pássaros dos
diversos em distintos assobios e gencianas-da-terra, sempre-vivas-da-serra,
açapuvas, guaximas, cururus, paratudos... Era isso o mundo? Estava ali assim o
começo da manhã no mundo.
Os verões e dezembros e
janeiros têm fama de bonitos, satisfeitos e tais e quais. E os pássaros acordam
mais cedo e tais e quais.
A menina saiu para comprar
qualquer coisa. E a rua estava inteira, rua Sataré, apreciável e quase deserta.
Que horas? Rua da Moeda. Era cedo assim? Pensou alto:
- Oi! Será tão cedo assim,
meu?! Onde está todo o mundo? As pessoas, hein?! Será surpresa de aniversário?
Quem aniversaria?
Um gavião-carijó riscava o
alto todo em azul do céu. Ia em direção ao sul, Porto Alegre do Tocantins,
Datas, Vereda...
Lilás continuou andando, vestia
uma bermuda desbotada tipo bem comum, olhando para os lados, olhando atrás de
si. A rua Sataré infinitamente reta, deserta, resplandecente, loja agência de
turismo convidando final de semana em Ubatuba. Canteiros com arvoretas
multicoloridas, primaveras, quaresmeiras, jurubebas, mimosas... As aves, os
pássaros e os passarinhos que tinham razão e a sorte. Eram alados, e voavam
desde pequenos e um pouco mais.
Entrou na padaria Caroá.
Tudo abandonado. Pegou de grátis picolé abacaxi-caju, saiu. Tudo solto no tempo
e no espaço. Carros no meio-fio esperando condução. E numa mistura de queixa,
surpresa e dúvida, ela desabafou:
- Oi! Que sossego e quietude
fora do comum, meu!
Chegou no parque do
Ibirapuera, ribeirão Arrudas. Um silêncio! Mas um silêncio de gente, silêncio
de automóveis, bem entendido. Pois de pios e cantos e gorjeios o parque estava
bem servido. E se ouviam bem-te-vis, tesoureiras, coleirinhas, quero-queros,
curutiés, baguaris, maritacas, e mais. A Lilás parou e suspirou e falou para si
mesma:
- Oi! Quede todas as pessoas
que deviam estar passeando no parque? Pergunto.
O parque enorme sem rastos de
bípedes e sem ninguém. O sol estava bom, mas fazia friozinho. Frio desabitado
frio sem ninguém. Um frio no interior, por caridade. E ela desatou à meia-voz:
- Oi! Que está acontecendo?
Eu só queria, nhe-nhe-nhê!... entender.
E Lilás presenciou as araras-de-barriga-amarela
em pares, em duplas, em dobros, em casais, duas a duas entrar para o coqueiral.
E os bem-te-vis-piratas em um, em dois, em quatro... aterrissar também no
guabijuzal. E as pombas-pararus não eram só uma não, eram cinco, seis, e
muitas, muitas, mas muitas mais, um bando, invadir o butiazal. As almas-de-gato
em grupinhos, em grupos, em algazarras, se jogar para dentro do pitangal. E
outros bandos e espécies de que-re-que-quês!... se pinchar para a mancha
verde-escura do jabuticabal. E muito mais ainda.
- Olha! Uma torre sem asas,
meu! - exclamou a guriazinha.
A menina estava no parque e
daí. Ainda bem! As árvores conversavam. Árvores, plantas, arbustos, vegetais
rasteiros, caponetes, matos, guaximbés. As árvores conversavam flu-flu!...
fru-fru!... O quê? Urupês escutando. Acutirembiús parasitando. As árvores
trocavam ideias verdes, fru-frus!... flu-flus!... Lilás se perguntou preocupada
ou não:
- Oi! Que dizem estas
árvores, meu?!
Depois ouviu uma ventania.
Veio a ventania. E a ventania levou, nas asas mornas do ar de verão, tudo para
lá, tudo mesmo para bem longe e bem distante e bem acomodado. O lugar das
aventuras para lá no horizonte.
Na base do chão de areia,
num caminho feito de areia, apareceu uma cadelinha do tipo salsicha. A cadela
sempre pronta na risadinha pronta. A cadelinha riu e continuou rindo. Pararam
as duas frente a frente:
- Ora! Você vem vindo lá da
tribo dos canamari? - acoou perguntou a cadelinha.
A menina quis saber melhor:
- Oi! Quede todas as pessoas
que estavam aqui? Quede o mundo de pessoas que não vejo? E quede a graça do
mundo sem as pessoas daqui?
A cadela se sentou na areia.
A língua pendente da boca cheia de dentes. As orelhas enormes. A cadela ainda
rindo. Olhar meio de lado. Com vontade de mentir? A menina insistiu:
- Oi! Me diga tudo, não me
esconda nada. Quede os meus semelhantes? Quede os bípedes que falam, galram,
cantam, gritam, uivam, cochicham, resmungam, riem? Onde está toda a gente as
pessoas os humanóides com ou sem seus automóveis?
A cadela, depois desse discurso,
passou a língua nos beiços, engoliu a saliva, tossiu de leve e disse, acoando:
- Ora! Você não viu nos
jornais da tevê de ontem e de anteontem e de trasantontem?
- Oi! Que que havia de
interessante ou especial para se ver nos telejornais de ontem? Alguma coisa
importada e inédita e exótica? Ou algo extraordinário?
- Ora! As pessoas foram
todas ao jogo de futebol, nhe-nhe-nhé!... É o tal clássico da cidade.
Imperdoável, imperdível, impossível. Felomenal. Tá todo o mundo lá e uns
quebrados. Uma febre da razão da paixão. Uma dor de dente. Uma dor de cabeça.
- Oi! Mas por que não fiquei
sabendo? Onde estava com a cabeça que nunca fiquei sabendo?!
- Ora! São várias vantagens
que você leva. Não passará pela dor de dente, primeira vantagem. Segunda vantagem,
não passará pela dor de cabeça. Terceira e última vantagem, se é que me
entende, não passará pela febre da razão da paixão. Tem mais, mas guardo pra
mim. Obrigada.
A cadela se ergueu de onde
estava sentada e foi para o meio da capoeira alta, chá-mineiro, capim-navalha,
vassourinha-doce, macega, sapê, sensitiva... Procurava mesmo um lugarzinho fofo
e macio macio. Daí, fez um ninho e se deitou. Lilás só olhando, concordando com
tudo, apreciando, e praticamente.
***
O dia era da semana a
quinta-feira, rival da sexta-feira que viria e rival também da quarta-feira que
já fora.
Se passaram duas horas e meia e os tique-taques. Ninguém viu as horas.
Lilás se sentou no chão e deu um prazo. A cadela ia dar cria de cinco novos
habitantes deste planeta. Um de cada vez, aos poucos, com calma. E os partos se
sucederam.
Um lugar ótimo e satisfeito
para começar uma aventura.
E a cadela foi parindo os
cinco filhotinhos, um a um, um em seguida do outro, etc., contando nos dedos.
Cada vez que um caía da barriga, a mãe olhava o novo freguês deste mundo e o
lambia. O pequenino ou a pequerrucha caía na grama, cego, pelado e chorando
chorava. Todos eles, um após o outro, um a um, cada qual a seu tempo. Muito
cegos e frágeis e tontos. Pareciam bananas descascadas e se mexendo. Até que a
fábrica parou de enviar clientes e freguesas ao mundo. Aí, a cadela descansou
no sexto dia.
Era assim mesmo a história.
Era sempre assim, uma vez. A cadela paria filhotes por aí, os filhotes estavam
já no mundo e o pai nem as caras nem na foto. Era essa assim a vida de cachorro
vira-lata. E Lilás, sinceramente, não sabia onde pôr as mãos não sabia o que
dizer não queria perguntar acreditava em D.
Pronto, a cadela acabou se
levantando do ninho improvisado. Procurou coçar uns micuins atrás da orelha.
Contou e recontou os filhotes. Isso mesmo, eram cinco. Depois, falando ou
latindo baixinho para não acordar a turminha, foi explicando para a menina. E
Lilás foi ouvindo a explicação:
- Ora!, o número um dos meus
filhotes eu vou doar para o seu Totonho das Lebres, e que mora em Santo Antônio
do Itambé. Ora!, o segundo filhote eu vou entregar à moça Maria Tiguera, e que
mora com os pais e irmãos em Tuiuti. Ora!, o seguinte eu mesma vou recomendar à
dona Sofia Ingazeira Naraguagê, e que habita uma choupana muito bonita em
Iracema no Estado do Tocantins. Ora!, o quarto vai ser destinado ao senhorito
Mário Martinho Murta Mapoão, um marinheiro e que viaja pelos sete mares a bordo
de uma fragata chamada Marabá. Ora!, finalmente, o caçula foi prometido à
menina Lilás, guria essa que passeia pelo parque e aqui presente.
Depois de parir tantos
brotinhos de cachorrinhos ou cachorrinhas e explicar os seus destinos, a cadela
se sentiu zonza e desmaiou. Que é desmaio? Desmaiou caindo deitada e
desacordada no capim-gordo verde e macio. Desmaiou caindo com todo peso. A
cadela foi fechando os olhos devagarzinho, fechou um primeiro, foi fechando o
outro devagarzinho e em câmera lenta, fechou o segundo. Fechando os olhos, a
boca, repousando de mansinho, baixando as quatro patinhas mais a cauda em
câmera lenta. Pronto, desmaiou com tudo. Como se o mundo não existisse mais ou
fosse esquecido, amém.
Outras coisas aconteciam
pelo planeta afora em volta longe muito distante em mil e um lugares. As camoatins
trabalhavam acarás-pretos nadavam algodões-do-brejo rebentavam araputangas
cresciam jenipapeiros floriam lava-pés partiam e chegavam os bichos-preguiças
ou aís escalavam a embaúva. Mas também ali era o mundo, ainda bem.
Lilás tentou alguma coisa de
emergência. Olhou para todos os lados e só tinha ela ali. Ninguém do outro lado
do telefone celular. E abanou vento, abanou vento, depois correu procurar água.
E o cachorrinho prometido foi correndo atrás dela e farejando o rasto e
procurando coisas possíveis.
E o jaguarinha a seguiu como
um cachorrinho. Era bonito. Será por que que o bichinho a seguia simplesmente e
sem palavras? Ninguém o havia chamado. Como pode? Um mistério. E a Lilás parou
para pensar. O jaguarinha também parou, olhou, rindo com aquele riso sempre pronto
que todos os cães têm na hora que querem ser amigos e sociáveis. Descobrindo as
coisas do mundo. Lilás falou assim para o atrasadinho:
- Oi! Vai me seguindo, é?
O cachorrinho sentou e
continuou rindo. Talvez tenha nascido para seguir as pessoas, e rir para as
pessoas. Talvez ainda não soubesse falar, ou seja, latir, ladrar. E já se sabia
um ser doméstico. Atendendo um simples estalar de dedos. Lilás, plique!...
tentou:
- Oi! Então, como tu te
chamas, meu?!
Aí, o coisinha tão bonitinha
olhou de lado e resolveu balbuciar:
- Nhau-nhau-nhau!...
Lilás, essa sim, olha!, foi
e confessou:
- Oi! Olha, não entendi
nada.
Lilás levou a mão ao próprio
queixo, pensando. Cuidado, gênio matutando! E logo a menina devolveu a parada,
deste modo:
- Oi! Vou te batizar,
carinha. A partir de agora você se chamará... Avião. Gostou? Hein, gostou?! Avião
é legal, não?! Eu mesmo gostei que até queria esse nome pra mim, e ocê?!
O petezinho acoou assim:
- Nhau-nhau-nhau!...
Lilás pensou alto consigo
mesma e só para si:
- Oi! Acho que ainda é muito
miúdo pra saber falar e ter ideias, é!
Lilás deixou assim e foi em
frente, continuou o caminhar. O baixinho, agora chamado Avião, a seguiu com curiosidade
e alegria. Ele não entendia de caminhos e destinos, mas entendia de cheiros e
paladares e companhias. E os dois continuaram rumo de um pouco de água para a
cadela desmaiada.
Seguiram um atalho entre
dois capões de mato. Eram árvores que plantadas cresciam e importantes tanto
quanto essas caxicaém, cipó-violeta, manacá-da-serra, lisianto, mogno, aroeira-de-bugre,
taioba, coco-amargoso... Alguns casacas-de-couro-amarelo entre palmeiras de
pindoba, tirirerê!... tirireri!...
Foram um pouco mais para lá,
um tanto mais longe que o previsto, e encontraram foi mesmo um rio. E bota rio
nisso! Foi uma descoberta fabulosa. Era o rio mais... maior que já se viu ou se
ouviu falar. Foi uma descoberta embaraçosa. Um rio o rio e que interrompia
paisagem.
Lilás agora, ali ali, tinha
muitas perguntas. E era mesmo hora das perguntas. Um rio de perguntas. Um rasto
de rio. E a menina se voltou para o Avião, falando e perguntando:
- Oi! Quem sabe o que é o
que é o rio?
Pararam Lilás e Avião ali na
beira da praia, na areia da prainha. As ondinhas vinham recuando até ali,
chegavam e iam, voltavam e retornavam, saíam e entravam, sempre rindo em
círculos soltos. Lilás olhava o espetáculo. Um rio acostumado. Parecia que
nunca tinham visto antes um rio ou tanta água. Parecia? Avião olhava dava dois
passos e retrocedia. Não só parecia como era fato: nunca tinham ouvido falar
daquele rio tão cheio de água doce. Rio mexido. E o rio tão grande era tal e
qual cobra criada boiúna se arrastando.
- Oi! Sabe, Avião! Acho que
tem presente esperando por nós ali na prateleira, é!
Depois de uns minutos a
menina encabulou, ou seja, não sabia o que fazer com aquele baita rio. E não
sabia mais o que perguntar. Não sabia o nome do rio. Podia ser o rio Jauru. Não
sabia se havia peixes na água, piraputangas, piavas, piranhas-doces, mandis,
pirás-tamanduás, etc. Não sabia por que o rio estava ali, a sua frente, a sua
espera, todo para ela, se oferecendo, disponível, canalizado, largado. Não
sabia se o rio sabia assobiar. Não sabia das aves de rio, pernilongo, anhuma,
martim-pescador-da-mata, socó, camixi, narceja... Não sabia bem certo se o rio
sabia molhar. Ora, faça o favor!
Passou pelo centro do rio um
arquipélago multiplicado carregadinho de muitas ilhas tipo camalote periantã
matupá... Desciam o rio junto com a correnteza. Umas duas ou três verdes de
arbustos tortos, três ou quatro só de rochas, quatro ou seis com animais
domesticados pastando bovinamente, seis ou sete ou oito muito rasas com roças
de arroz milho amendoim. Algumas aves acompanhavam, pelo alto, essas ilhas. E
eram mesmo ilhas flutuantes sem placa. Uma massa um peso de plantinhas
aquáticas seguiam enroscadas aguapés piris canaranas saras... No inverno subiam
o rio até a nascente, no verão retornavam com o rio até a foz. E isso não
acabava nunca.
- Que dia é hoje?
Lilás e Avião ainda estavam
ali fazendo um favor no panorama. Lilás era muito sossegada, desempregada, dez
anos, cabelos ao vento, etc., e precisava aprender a nadar. Já estava na hora.
E o dia chegara. O dia era aquele mesmo:
dia de sol, sol ou chuva casamento da coruja caburé-do-sol.
É, Lilás estava ali. Ela
estava ali, sem dúvida. Diante dos olhos da menina o rio espetacular,
sensacional, inimaginável.
- Oi!, meu. O cara que
inventou o rio... é genial!
Pertinho, pertinho mesmo
dali, havia um salgueiro-do-rio debruçado na beira do rio. As pontas dos seus
ramos beliscavam a superfície da água. Uma árvore muito bonita e chorona. A
menina olhou a árvore, olhou o rio e teve a seguinte ideia: subir na árvore
para brincar. E assim, correu para a árvore já correndo de braços abertos. Avião
se lançou atrás e sem cerimônia, sem pensar duas vezes. A menina alertou o Avião:
- Oi! Não, talvez você nem
consiga subir e pode até cair, meu!
O vira-latinha latiu
qualquer coisa assim, lá na língua dos cães:
- Nhau-nhau-nhau!...
O tal esse nhau-nhau-nhau!...
queria dizer? Só os cães do céu e as iaras do rio para entender a língua que
ele acoou. Paciência e era assim mesmo e tudo bem.
E o fato foi que a menina se entusiasmou tanto
que pegou, na corrida, e subiu na árvore e se acomodou lá no galho. Os galhos
que debruçavam sobre o rio. E a menina gostou e começou a ficar mais alegre e a
gritar e rir. Perigava até quebrar o galho e no meio da euforia. Aí, então, o Avião...
aconteceu foi uma coisa incomum. O Avião correu e subiu na árvore, indo pular
nos braços da Lilás. E assim os dois brincaram ali com alegria de brincar no
alto de árvore. Tão bom se balançar sobre o rio! E era mesmo uma brincadeira de
muito proveito do ser ou não ser.
E uma coisa ou duas a menina
aprendeu durante aqueles momentos. Até foi falando para o cão:
- Oi! Já percebeu, Avião?
O baixinho rebateu as
orelhas no ar, olhando fixo para ela e latiu:
- Nhau-nhau-nhau!...
Aí, não se sabe se disse sim
ou não. Todo caso podia ser sim e não. E Lilás, sendo sim ou não, continuou
pregando:
- Oi! Já percebeu, seu Avião,
que o rio não para pra nada?
A menina fez uma pausa,
ficou em silêncio, só para impressionar e ver no que ia dar esse ar de novidade.
Depois prosseguiu:
- Oi! Ahã!... É, o rio não para
um minuto. E o rio corre, parece o mesmo rio, mas não é. E não é mesmo o mesmo
rio sempre, é. O rio estica e nunca arrebenta. Pacificamente enxuga a montanha.
As águas continuam sempre rolando que é uma beleza e nunca que nunca acabam. De
onde vem tanto rio, meu?!
Então, se ouviu bilhões de
zunidos, zumbidos... zzzzzzu!... bzzzzz!... trzzzz!... E era fabulosa nuvem de
mosquitos. Muitos borrachudos. Uma nuvem escura e enorme. Muitos pernilongos.
Eram bilhões ou mais. O céu parecia acabar devido o tamanho do ruído. Curiango
abriu a boca. Passavam nuvens de insetos sobre o rio e sem pressa. Uns trilhões
deles e crescendo e aumentando e zumbindo. Acompanhando o rio na descida ou na
subida. Até que demoraram a passar. E demoraram com zunidos decorados. Depois, impacientemente,
foram se sumindo se resumindo.
Naquela hora os dois macacos-guigós,
podemos dizer, resolveram pular da árvore. Subir em árvore era melhor e mais
fácil que descer. Os acidentes acontecem na descida. E os dois desceram com
muita atenção, no mínimo.
***
Pararam na praia como estátuas
de latão. Lilás olhando o rio. O cão obedecendo sua chefa e olhando a menina
que continuava a olhar o rio. A menina tinha certeza que o rio era o seu logotipo.
Lilás suspirou e destravou:
- Oi! Avião, você sabe que
eu preciso aprender a nadar? E é agora nesta hora e já?!
O Avião pareceu entender:
- Nhau-nhau-nhau!...
Assim, Lilás deu um dois
cinco passos e foi chegando até o rio. Ali era ainda rasinho. Molhou as canelas
e riu cheia de cócegas e ansiedades, tipo assim:
- Oi! Ah ah ah!... que delícia,
Avião! Ei, Avião! Vem tamém, meu!
O cão Avião latiu, saltitou,
sapateou, quicou, latiu, balançou a cauda, e latiu na sua língua estrangeira:
- Nhau-nhau-nhau!...
A menina insistia com o
bebezinho o peticinho:
- Oi! Vem de uma vez, meu!
E, como é costume e natural,
todo cão obedece seu chefe ou patrão ou dona. No caso Avião obedeceu Lilás e
foi para a água. E a menina descobriu rapidinho que o Avião já sabia... já
sabia?! É, o cãozinho já sabia nadar. E nadava muito. E nadou cachorrinho. E
nadou muito bem com o focinho de fora com estilo.
- Oi! Que surpresa, meu!
E para a menina foi um achado. Nunca que a menina podia pensar ou
imaginar ou saber que seu cãozinho já nascera sabendo nadar. Era demais para a cabeça
da guria, faz favor! E agora uma coisa: e daí?! A Lilás teve de dizer com cinco
letras cinco pontas:
- Oi! Como foi que você
aprendeu tão depressa, A-vi-ão?! Você nasceu sabendo, A-vi-ão?! Você aprendeu
sem saber, A-vi-ão?!
É, a menina estava passada
de assombrada. E Avião deu umas nadadas para lá e para cá, provocando. E rindo
seu riso pronto. Talvez só para se exibir. Pelo sim ou pelo não, a menina
estava de queixo caído e frustrada e de braços caídos. Como um bebezinho cão
podia saber e ela não?!
Lilás, assim ludibriada,
saiu da água e foi se sentar na areia. Precisava pensar. Aí, a menina se
sentou, apoiou os cotovelos nos joelhos, as mãos segurando o queixo, o olhar
meio perdido sobre o rio. Pensou, mas pensou com raras ideias. Pensou com folga
entre uma ideia e outra.
Tudo isso foi interrompido,
tudo isso foi por águas abaixo, por quê... porque surgiu assim, do nada,
aparecendo de supetão, uma atropelada de garotos e de garotas. Apareceram
garotos nem se sabe de onde. Vieram todos chegando na corrida. A menina já
fazia um tempo que nem via esses seres humanos por aí. E todos correndo para o
rio. Lilás e Avião ficaram de banda, na deles, só observando a avalanche. Vieram
tirando as roupas e chinelos e bonés e tagarelando como bando de periquitos-verdes:
- Eia!... Eia!...
- Carancho, caracará,
carcará!...
- E daí?! Tô fora! Fui!...
- Coepucha!...
- Itapanhoacanga!...
- Chiiii!... qua-qua-quá!...
- Jacarepaguá!... Jacareacanga!...
E todos se atiraram de
pronto na água do rio... tchibum!... espirrando para todos os lados e se divertindo.
E muitos meninos, todos sem camisa, e uma que outra menina de camisetinha sem
manga, descalços, aos gritos e esbarrões. E nadavam com tudo: alegria,
brincadeira, gritaiada, pressa, empurrões, biquinhos, cangapés e trampolins.
Sem pedir declarada licença ao senhor rio dos Sinos ou rio Juruena ou rio
Paraitinga ou rio Içá ou rio da Prata ou rio Coxim...
Os dois, Lilás e Avião
ficaram ali do lado. Observando. Para falar como era a causa toda, Lilás ficou
olhando, cuidando de braços cruzados os carinhas que sabiam nadar muito bem. E
sabiam mesmo. Se eles faziam, ela também podia fazer.
E a turma não parava de
gralhar. Pareciam curicacas em festa. E eram mesmo uma tropa de papagaios-do-mangue:
- Sabia que o sabiá sabia zapiá?!
- Biguá, jundiá, guará, tauá,
moiá!
- Paralelepipóide!
- Bambuzal, bambual, bamburral!
- Maranduba, poranduba!
- Soldado, cabo, sargento,
tenente, capitão, coronel!
- Aiiií, chimango!
- Mas bah, tupinambá!
A turma ficou brincando ali
como nunca. Parecia que o tempo era todo deles e não teria fim. Ou até
gostariam de depenar o rio? Lilás e Avião sentaram para não cansar e foram
colocados fora do filme. Pois a turma ainda brincou muito e cabriolou,
cambaleou, rodopiou, caracolou, parafusou. E mergulharam, e fizeram trampolins,
e subiram nos galhos do salgueiro-do-rio, e se pincharam, e buscaram pedrinhas
no fundo, e se espirraram água, e boiaram, e nadaram de costas. Ave de rapina
tauató-pintado crocitava espantado desde o céu. As risadas estrepitosas. Mergulhavam
um dois três cinco metros. Fazendo fosquinhas. Brincaram até cansar e mais
algumas horas.
Lilás olhava com os olhos, com as mãos, com os pés, com os dedos
desenhando na areia, e com o corpo todo. Após uns vinte dias e uns quebrados, os
piás foram indo e saindo até que foram embora.
- Dizem que, nem confio de certeza, na época de Pedro Álvares Cabral a
descoberta do Brasil nem tinha avião nem tinha celular, é.
Tudo estava bem claro, inclusive o dia. Os ouvidos acostumados
compreendiam assobios de joão-de-barro, curruiruçu, arrelia, cauanã,
arirambinha, arribações, pica-pau-do-campo, chorró-boi, corixo...
Daí, apareceu sobre o rio
uma expedição náutica. Chegavam muitos navios. Eram muitos. Uns vinham com
motores, outros com remos, ainda mais com velas sopradas pelo vento. Uns barcos
de papel. Outros de madeira e pintados. Mais outros de aço e apitando. Barcos a
vapor. Embarcações sem nome com nomes próprios tipo, Canguaretama, Arapuá, Baía
Formosa, Guaxi, Jacumã, Brumado, Nova Lima... Navios que eram montanhas e
pareciam montanhas flutuantes pilotadas por deuses por gigantes, caravelas,
galeões, sumacas, transatlânticos, jangadas, cruzadores, igás, pirogas,
lanchas, igarités... Foram passando lentamente derrapantemente. Eram tantos que
não contavam. Há gosto para tudo. Continuavam passando e navegando. Hoje descendo
o rio aproveitando a correnteza. O vento também. Cansaram a beleza de quem viu
e reparou. Demoraram, mas já foram. Demorô!
Mas logo a dúvida. Lilás percebeu
o impacto de um problema, um problema: como aprender a nadar?? Toda a galera dos
piás já sabia, ela não sabia. Até o Avião entendia de nadar, e ela nada nada de
nadar. Então, aí estava o problema e a questão tão frustrante.
A menina resolveu qualquer
coisa e chegou até o rio. Foi ensopar as canelas e parou. Avião parou na areia,
achava ele que nem precisava mais se molhar. Lilás pensou por si mesma. Pensou
como iria fazer para nadar até a praia de Torres ou até o parque Campo de
Santana ou mais um pouco até a África. E como aprenderia a nadar e a nadar sozinha?
Observara os garotos e as garotas da turma dos piás e já queria ser como eles e
imitá-los muito bem. Nadaria algumas braçadas e pernadas? Só vendo!
- Seria bom ser um peixe do
tipo que nada feito o xué o canivete o acari o curimbatá.
E a Lilás ficou olhando o
rio esperando convite. Lilás olhou Avião e este falou latindo já meio sem
paciência:
- Nhau-nhau-nhau!...
Avião incentivava a menina
ou atrapalhava? Avião incentivava a menina, é. E a menina precisava mais que
coragem que valentia. Aí, se arriscou mesmo assim. Era uma questão de vaidade. Tirou
a sandália deu um nó no cabelo. Olhou para os lados, se concentrou em não se
sabe o quê, o rio ali todo total, respirou fundo uma duas três vezes e se
pinchou na água do rio... que podia ser o rio Corrente, o rio Sabia, o rio
Pinheiros...
Foi a luta começar. Ela mais pesada que o rio.
E a luta era uma luta, faz favor! Lilás e a água do rio lutaram com muita
pressa. Pedalaram de lados opostos. E se via muito bem que a menina não era do
rio, não nascera para o rio, não era surubim-lima, jaraqui, matrinxã, jaú,
piraíba, etc., por exemplo. Ora, quem é do rio? Os peixes são do rio e já
nascem nadando. Os carás ou acarás, os jundiás, os trairás, os biguás, os
gravatás ou caraguatás, as lalás, os tralalás, os cururás, os butiás, os
tracajás, as preás, os jabás, as igás, os crachás...
Lilás saiu da água ensopada
até a raiz dos cabelos. O rio continuava correndo e parecia sério. O tempo
também. O vento alisando a superfície do rio e etc. A guria parou para secar ao
sol. E o rio era curioso e provocava curiosidade. Lilás para Avião, e no seu
jeito de falar baixinho:
- Oi! Vamos embora do rio?
Amanhã a gente retorna pra terminar de nadar e aprender a nadar.
Não era possível aprender a nadar
tudo num rio. O rio era maior. O rio conhecia mais. O rio tinha árvores
ciliares, mapixi, paricá-de-esponjas, sapirangui, crista-de-mutum,
cairuçu-do-brejo, buritirana, cambará... O rio era pari e cacuri para os não
associados. O rio tinha irerê, arapaçu, garça-cinza, carqueja-de-bico-manchado,
socó, tapiretê...
Avião respirou, ligou, obedeceu,
seguiu a menina. Um arco-da-chuva bebia água do rio e puxava água do rio para
abastecer os raios do sol.
- Oi! Gosto do rio.
Entre o céu e o rio havia
muito espaço. Além do próprio profundo do rio. Quem era este rio que ninguém
falava dele? O rio de uma ponta a outra ponta do rio. Todos os rios se parecem,
rio das Velhas, rio Jangada, rio Capivari, rio Nhamundá, rio Japurá, etc.
Desta margem onde Lilás e Avião
estavam, nascia o famoso sol; do outro lado, o sol maioral pousava. Sol sempre
nascia e sempre pousava. Sol parecido com quê. Sol rio de cá e sol rio de lá.
Carandás fazendo favor fazendo
favor. Canafístulas sorrisos floreando florindo florescendo. Um vento brincando
alto na copa das maparajubas. Uns sons de leve levinhos levíssimos e verdes,
quirirus, japuíras, cicas, arapongas...
O casalzinho ainda olhou e
viu um hidroavião fazer manobras e tais, fez que deu volta, se preparou para o
pouso no rio, foi baixando, rente à água mesmo, igual fazem os tuiuiús, e
pousou no remanso do rio espirrando água e ruído para todos os lados. Acabou
mesmo por quebrar o espelho do céu.
- Oi! O rio tem irmão, irmãs,
tios, avós... competentes?
Antes do rio em um dia
qualquer fazer enchente e entrar pela cidade, invadindo ruas e bairros e casas
e residências e garagens e lares, antes muito bem disso, chegou a hora da
menina e do cãozinho voltar para casa.
Na volta pelos ziguezagues
dos caminhos, os dois encontraram um saruê. Foi Lilás para o bicho:
- Aonde vai parar esse rio?
- Em lugares escolhidos
sorteados premiados conquistados paradisíacos.
- Quais, então?
- Muitos lugares cômodos com
esses nomes próprios de cidade, Matutina, Iporã do Oeste, Taquara, Serrana, Lagoa
Real, Caetité, fortaleza do Príncipe da Beira, praça Brigadeiro Sampaio, bairro
Santo Antônio na capital Recife...
Ainda andando pelas trilhas
e trilhos e travessões, Lilás e Avião encontraram um índio dos urupá com chapéu
de palha de tucum. Lilás para o pajé:
- Aonde vai parar esse rio?
- Hum! Em muitos lugares no
tempo e no espaço. Além do quê.
- Quais, posso saber?
- Hum! Em Pati do Alferes,
Sertãozinho, Raposos, Nova Bandeirante, Vargem Bonita, Rio dos Índios, parque
Piqueri, serra da Piedade, etc.
- E lá tem sorvete de abio?
- Tem sol, tem bocaiúva, tem
panapaná, tem aranquã, tem jaguatirica, tem açucena-d’água, tem tipiti, tem
tucuru, etc., tudo o que você quiser.
Falando nisso, Lilás e
cãozinho continuaram pelo carreiro. Por hoje, a menina e o Avião se encontraram
com um pé bem dos grandes de cabiúna-do-campo. A Lilás foi para sempre
perguntando:
- Aonde vai aonde acaba esse
rio?
- Vai por aí olhar o mundo as
constelações e os arredores.
- Quais esses mundos e
profundos?
- Os nomes de tais e quais
que se ouvem e que se falam, Aripuanã, Resende, Nonoai, Maetinga, largo do
Machado, Abaeté, Ribeirão dos Índios, Passagem das Pedras em Sousa na Paraíba, etc.
- E lá tem dia feriado dia
santo dia Sete de Setembro com café da manhã na janela da rua?
- Antes tarde do que nunca,
uma vez.
De volta e pelas estradinhas
do parque, a menina e seu ótimo amigo viram encontraram uma moça tocando piano
debaixo de um jacarandá florido. Parecia um cartão-postal. E mais ajuntamento
de pessoas tirando autorretratos... Muita gente ao redor olhando e ouvindo. De
onde surgiram multidão e povo? Lilás era sócia das perguntas e se perguntou. Concerto
para piano. O mundo se povoava de novo. É, as pessoas da cidade estavam de
volta para ver uma moça tocar piano. E todos adoravam? E todos pareciam
apreciar muito. A moça de óculos escuros. E como acabou o futebol do clássico?
E as perguntas saíam sem querer da mente da menina. As perguntas que provocam.
- Oi! E como é aconchegante,
não vê?!
A moça vestida de roupas
brancas e leves e soltas parecia uma pomba da paz. E era preciso ouvir dizer
que tocava muito bem o teclado. Tocava um bom teclado. Tocava um teclado, meu!
Tocava o teclado como um pássaro canta como um cangoá nada como um sauá pula de
galho em galho.
E todos que estavam ali
apreciando a tecladista descobriam uma grande e perfeita tecladista. Tocando
muito bem o teclado. E todos estavam gostando e adorando. A moça da paz tocava
um teclado de encantar de aumentar. O pé batia o ritmo no chão, o espírito se
ausentava para a distante de longe a formosa Areia Branca, por exemplo.
A menina e o cão também
pararam para ouvir. A tecladista era nota dez no inventar sons e acordes e recordes.
Todos sentiam isso também e tão bem mesmo. A pianista da paz tocava divertido
com as asas no lugar das mãos. E não errava. Uma loucura de teclado! Olhava e
apertava as teclas de cor e com total confiança, os cabelos gigantados, eletrizados,
frondosos, desfraldados, um sorriso oceano Atlântico quase permanente.
- Que teclado, hein?!, meu!
E todos queriam falar e
elogiar ao mesmo tempo. Quando a moça da paz terminou a apresentação foi um
aplaudimento, um elogiamento, um assobiamento e um fotografamento que não tinham
fim. Tudo com muitos fleches e selfies e muitas palavras e risos e gestos de
vivamento:
- Que teclado divino!
- É, eu não disse que ela
era a Cara?!
- Eu sou muito seu fã!
- Vou pedir autógrafos pra
mim, meus filhos, tias, netos!...
- É, ela foi sempre e é demais!
- Conheço ela e a família
dela!
- Toca teclado
fan-tas-ti-ca-men-te!
- Ah, como toca teclado!
- Uma Villa-Lobos de vestido
vaporoso!
- Só podia ser gente da
minha terra, São Bento do Sul!
E o povo rodeou a
tecladista. A própria Lilás entrou na fila a fim de cumprimentar a artista.
Quando chegou a vez da menina... ao estender a mão... a menina aí percebeu que
pegava a pontinha dos dedos da asa da moça da paz. No mínimo era diferente.
Depois de diferente era já surpreendente e mágico. E assim por diante. Até a
menina achar que ficou mesmo toda vermelha pelo susto e pela surpresa e pela
falta de referência. Mas tudo bem.
- Você me parece flor de
ipê-roxo - disse a tecladista, admirando Lilás com a cor lilás.
- Eu queria tocar teclado
como você. E fazer ondas de cores no céu fazer letras voar pelo ar, etc. E
viver como uma artista que você é - a Lilás teve como resposta.
- O que me importa e me faz
importante são os sons das coisas dos bichos das plantas - respondeu a moça do
teclado.
Por isso que a menina olhou
para o céu da tarde já caindo, tarde de bronze e partindo. Muitos sabiás. Um
bando de sabiás subindo do céu e entrando nas matas do parque. Um grupo deles,
sabiá-cinzento, sabiá-coleira, sabiá-da-campina, sabiá-da-capoeira, sabiá-da-mata,
sabiá-da-praia, sabiá-do-banhado... Ótimo, e parecia não ter fim. E não tinha
mesmo. Uma nuvem cobrindo a tarde. Até que era bonito. Cantos variados e finos
e afinados. Tanto sabiá só podia dar em muita chuva, sabiá-do-campo,
sabiá-ferreiro, sabiá-guaçu, sabiá-pimenta, sabiá-preto, sabiá-da-restinga,
sabiá-da-serra, sabiá-da-barriga-vermelha... E tinha mais. Um encontro de
sabiás. Algo curioso. Coisa rara e importante. Uma sorte de sabiás,
sabiá-do-brejo, sabiá-do-piri, sabiá-gongá, sabiá-pardo, sabiá-piranga... O país
dos sabiás, o mundo sabiá, os deuses eram sabiás. E pousaram nuns coqueiros-ariris
carregados de coquinhos. Não faltava nenhum. De certo talvez pernoitariam ali. Não
faltava mais nada. Muito sabiá sabido que sabia assobiá, pirerori-perirorê!...
pererori-pirirorê!...
Aí, Lilás quis abraçar a moça
divina e lhe dar os parabéns. Tinha toda a oportunidade para abraçar a
tecladista. E abraçou mesmo. Então, outra coisa esquisita. O abraço da moça da
paz era muito leve leve e cheio de cabelos longos lisos de panos brancos e
penas de saiotes enduapes. Um abraço de asas. Mais uma pura falta de prática da
menina.
- Oi! Onde você estava que
nunca te vi?
- Eu sou conterrânea. Mas já
toquei em diferentes paragens, desde garagens até barragens, Araricá,
Sapiranga, São Pedro de Alcântara, Panambi, Apiacás, São João do Rio do Peixe,
Juquiá...
E o que importava era que a tecladista
da paz tocava um teclado bárbaro. Era o que bastava. A moça ria sempre e ria
sempre com vontade e ria como se fosse um passarinho sempre cantando. Rir era a
ciência da risologia dela. A tecladista falou com a Lilás:
- Meu nome é Sabiaúna, e o
seu? Ah, o cãozinho está contigo, é? Que criatura de Deus ou Tupã! Vamos sair
para tomar um sorvete de pitangas? Pode ser um suco de açaí, eu gosto. Um suco
de abacaxi cai bem nessa hora do dia de verão. Vamos caminhando e passeando.
Vamos até a padaria ver um misto-quente com suco de pequi? Gosta de música? Eu
adoro teclado. Nasci para os teclados. Os teclados sorriem para mim, obrigada!
Vocês apreciam teclado?
Sabiaúna tocava mesmo um excelente teclado. E
Lilás a admirava por isso. O Avião a olhava por isso. E a Sabiaúna por ter asas
no lugar de braços e mãos causava uma certa surpresa causava uma certa sensação
de raridade. Mas a moça da paz continuava muito bem no teclado. Respirava
teclado. Não era para qualquer uma tocar teclado nas asas brancas da paz.
Lilás tinha uma cascata de
perguntas. A menina era a mania das perguntas. Lilás perguntou:
- Oi, Sabiaúna! Posso fazer
várias perguntas como se fosse interrogatório?
- Então, bode... quer dizer,
pode.
Assim, Lilás e Avião
conversaram muito com a anjo Sabiaúna. Às vezes as perguntas são bem vindas e
dizem muito. E assim se descobrem muitas coisas, como um detetive sabe fazer.
Isso era bom e era ruim de uma vez só e ao mesmo tempo.
- Oi! Você sabe onde eu
encontro bergamotas nessa altura do verão? - foi a menina Lilás.
- No país das bergamotas. Na
festa da bergamota em Piumhi - respondeu a moça branca.
- E se eu quiser aprender a
nadar, para onde iria? É para onde vai o rio?
- Justamente para a aldeia
dos pucobié-gavião e à beira do rio Paraibuna. Lá é tudo natural. Têm árvores
na beira do rio. Tem rio nos peixes, e têm peixes no rio. Tem rio que tem ilhas
flutuantes na cheia, tem rio que tem coroas de areia na seca.
- Oi! E posso levar o Avião?
- Nhau-nhau-nhau!...
- E bode... pode sim. Todo
mundo gosta de cachorro e acha engraçado.
Sabiaúna tocava um teclado!
Coisa muito dos altos céus e o firmamento. Se pensa o quê?! E tocar teclado não
era fácil nem rápido nem assim. Sabiaúna de olhos castanhos de mel ou sol. Tocava
teclado oito horas por dia. E a moça era muito celeste e mestre no teclado,
meu! Tocar bem era um dom uma cor uma sensação de alívio.
- Oi! Suas mãos são as asas
dos passarinhos, talvez?
A moça olhou para os dedos
para as pontas das asas.
- É isso. Eles já sabem
tocar de cor e decorado e salteado.
Para o agora, Lilás e Avião pretenderam
voltar para casa para casa. Avião ia conhecer o seu lar. A tarde já ia entrando
pela noite. Avião caminhava do lado da menina, andava na frente, olhava para a
menina, andava no lado, olhava para cima buscando a menina, ficava para trás
farejando à toa e já corria na frente, olhando sempre cuidando da menina. O
mais das vezes iam lado a lado. O dia com a noite faziam a mistura da
sociedade. O cão parecia confiante e principalmente amigado, obrigado.
Uma foice de lua abraçada a
uma bolha de sabão. Era. Aquela a lua no céu. Verão, janeiro, aí pelas sete
horas, rua Marquês de Olinda. Faça o favor!
- Onde vivem aqueles seres
distantes cheios de si completos formados tomados de luz calor sol incêndio silêncio:
os deuses as deusas?
Um céu de pontos de luz
tremeluzindo. A noite entrando debaixo do cobertor escuro. Astros e estrelas se
descobrindo. Desenhos de constelações, Escorpião, Cruzeiro do Sul, Centauro. A
lua já bem disposta. Ursa Maior? Não se sabe. Estrela da tarde, Vênus. Estrada de
pingos de leite. Milhões de vaga-lumes espaciais. Fogueirinhas de São João. Gatos
maracajás de olhos acesos. Janelinhas abertas do céu. Jacarés no meio dos
aguapés. Uma reunião de estrelas e planetas além do universo.
Lilás, no caso da menina
ela, a idade ainda não havia chegado. Querer ser astronauta ela aguardava. Pretender
ser artista do teclado ela adorava. Querer ser esportista nadadora olímpica ela
praticava. Morar na aldeia com os índios potiguar ela sonhava. Almejar navegar
todo o rio Jutaí ela estudava. Visitar as praias de Aracruz e os morros de
Taquaraçu de Minas ela planejava.
A menina Lilás ia pensando o
dia. Banzando, se for o caso. Ela mesma e o Avião, seu amigo e sócio. A cidade que
ficara deserta durante o jogo clássico agora se repovoava. Pronto, o rio passava
em frente à cidade. O rio tudo aquilo e parecido com o destino. Que o rio nasce
não se sabe onde e por quê, e vai para não se vê nem por quê. Onde nadavam os
meninos que sabiam nadar muito bem. E Avião já sabia nadar e que ela
aprenderia. A gloriosa moça do teclado que deu uma palhinha no parque e todo o
mundo adorou.
Assim e então chegou o verão
e pronto assunto em aberto.
E Lilás era ela. Vivia num
país onde existiam coisas do tipo, irapuãs, tacacas, ajapás, preás, taiocas, gabirobas,
anhumas, cancãs, uapuçás e araticuns-do-campo. Toda ela e completamente ela, a
Lilás, e bem dona de si mesma, e para sempre. Assim era que é.
Antes porém de voltar para a
sua casa, Lilás e cãozinho passaram na casa da avó D. Clara Camarão e ver de
comer e se fartar e se lembrou e se lembrou de comer o sagu com musse de
chocolate.
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