O Mundo Ainda Nem Foi
Inventado
Vou ao Rio de Janeiro em junho na baixa
temporada, vou pelo rio Dois Rios, vou ao Rio de trem, voo ao Rio de braçada de
asa de avião, vou ao Rio de motocicleta, bicicleta, na garupa, de carona, pé ante
pé - era o que eu pensava naquela minha alucinação por partir, sair e sumir e
deixar.
Caí de tchibum!... no mar. A altura nem tinha
importância. Era uma sensação de estar no mar e no mundo e no centro da minha
história. Nem nada de cidade grande, capital, megalópole, etc e tal. Era mesmo a
pequena cidade do interior. Era assim que sentia saudade do mar sem ter visto o
mar. Sentia o mar como todo o mundo ali na cidadezinha sentia, o mar como um
céu azul sem nuvens em profundidades e ondas e praias de areias brancas e transatlânticos
e cardumes de tainhas e olhe lá.
Me preparei para mais um dia, aceitei
sem outra opção, achei que nem mais ia mesmo sair da farmácia, ou seja.
- Está fugindo de quem, Quiriquiri?
Estava falando para um cãozinho vadio,
na rua, cãozinho meu desconhecido. E ele me olhou com receio, com humildade, estendeu
a patinha com fome persistente, com humildade de pedinte. Passou por mim meio
que de lado, andando de lado, olhando de lado, e foi embora correndo fugindo de
qualquer jeito. Engraçado e ressabiado aquele cãozinho. Ele saiu de um lugar e foi
com toda fé para procurar outro ponto pela cidade pelo bairro pela rua. Como
sabia? Procurando sempre, era lógico, procurando o quê. Mas como sabia? E por
que saberia? Nascera sabendo, nascera procurando, nascera excluído enxotado.
Depois de muito tempo olhando a avenida
Timbira, deixei de pensar.
A árvore as árvores que corriam ao longo da rua, do outro
lado da rua, fila indiana, agora me chamaram a atenção. Nem sabia por quê. E me
chamaram a atenção pelo fato de serem simplesmente? Árvores do outro lado da
rua e de cabeleira vermelha, que já fora verde, seria branca depois de passar
pelo marrom. Elas se perfumavam e se enfeitavam nas estações, araribá-amarelo,
paracuuba-da-várzea, craveiro-da-terra, quaruba-branca, paxiubamirim... Se
perfumavam de cantos de pássaros. Se enfeitavam se protegiam de peles pelos
couros escamas roupas de cascas nas estações.
Às vezes sentia vontade de rir, eh eh
eh!... e ria das árvores. Outras vezes eu escutava, ih ih ih!... as árvores
rindo de mim. Casas moravam perto de árvores frutíferas.
Um rio Taquari de 20 milhões de litros,
uma cidade Aratiba de 20 milhões de pessoas, uma tribo gerém de 20 milhões de
anos, um sol de verão de 20 milhões de distâncias, um palácio da Alvorada de 20
milhões de dinheiros.
Era domingo de sol sol atômico sol
quente sol fornalha. Calor impenitente, impertinente. Eu queria trocar de
emprego, mas nem tinha ânimo, nem tinha formação, nem tinha para onde, nem
tinha opinião. Chegava me arrepiar! E precisava comprar uma viagem para
Caibaté, um carro para arrastar guria, uma moto, um apê. Uma boa menina merecia
um bom carro para passear esportivo conversível competitivo. Uma menina querida
merecia uma pizza com fim de semana onde ela gostaria de estar, São Jorge do
Patrocínio, Esteio, Barra Velha, Jaquirana, Maracajá...
Passamos, eu e Murundu, no bar do hotel Maués
ali junto do posto de gasolina estrada Buarque de Macedo. Uma coisa
abichornante. Um bar muito sem graça e cheio de marmanjos que tiveram como obrigação
sair correndo de casa. Nem mulher, nem mulher para repartir com os olhos, meu!
E o antro tinha uma música de forrobodó, uma tevê ligada na novela bíblica, uma
nuvem escura e pesada de fumaça de cigarro, uns tipos de catimbó, um ruído de
chiqueiro em noite de baile de corno, bêbados trocando ideias com pinguços e
cachaceiros, quase abraçados, trocando tapas nas costas e empurrões e
perdigotos e tatibitates. Mas nem respirei fundo, pois saí correndo acelerado e
fugindo sem olhar para trás. Pra tu vê, né, meu!
Se D se interessasse por esse seu
negócio aqui, ou mesmo pena por um humilde e pobre de mim, será que eu teria
tantas dúvidas?, me perguntei. Esperei e ninguém coisa alguma respondeu. Eu
mesmo respondi, pequeno e inútil e vazio como sempre e batendo no peito:
- Acho!
E minha paciência tinha limites. E minha
infância tinha passado. E Junara tinha ficado onde longe era uma vez capela São
Belin quem sabe até hoje. E minha esperança tinha horizontes de corcova e
oceanos de risco a lápis. E meus horizontes tinham cidades distantes e
promissoras depois dos montes, Santa Cruz do Sul, Joinville, Bauru, Itá, Três
Corações, Novo Hamburgo, Três Arroios...
Que é rastaquera?, então me perguntava.
Onde vivem os tais índios xirianás? Quem é jacumaíba?, então. Bando manhã de
queci-quecis alarido de ilha pra continente tarde de continente pra ilha, uma
vez.
O que devia fazer? Se as nuvens eram altas...
esponjosas... naves redondas... acima das antenas e dos corocoturis...
Posso falar as praças de Curitiba, as
ilhas do arquipélago de Marajó, os rios de Manaus, as pontes que ligam o Recife,
os museus da Inconfidência Mineira?
Havia noites que nem precisava dormir,
ou nem queria dormir, ou nem conseguia dormir antes das quatro e meia hora de
Brasília. Rolava na cama preocupado. Levantava para ver tevê e assistir
repetecos tesouros no fundo das Entradas e Bandeiras incêndios no canavial
fugas para os quilombos. Nem, nem precisava perder a calma. Procurava disfarçar
principalmente na rua na praça no ônibus na escola. E eu precisava saber de
tanta coisa... por que de vale do Anhangabaú... por que do rio Roncador... por
que dos malali... por que da avenida Presidente Vargas em toda cidade deste
país... por que o símbolo de Sergipe ave o sofrê...
Enigmática sorriso nos olhos claros as
árvores lhe falavam nem ouvia. Eu nem nada para ela nem talvez. Muito perita em
encantos e feitiços e tridimensional. Quando eu era menor queria muito ir a
Belém, do Pará. Depois esqueci.
Segunda-feira em mim, em farmácia, em
rua, em tudo, importado.
Fazia uma semana que nem via minha prima
Mucajaí. Ela sempre disposta e risonha e loira com grampo segurando o cabelo na
testa. Veio de onde veio já me sorrindo, dizendo, perguntando, querendo saber,
cumprimentando, a mão espalmada no peito como fazem as pessoas de sangue
acelerado:
- Como vai?! - sorriso de todos os
dentes, quantos.
- Caminhando. Às vezes flutuando.
- Domingo passado agora te vi embargando
no ônibus para...
- A gente a turma fomos em a Vila Flores
ver umas minas, não quer?! Tinha também festa de igreja e jogo de bola de
várzea.
- E tava bom? Quer dizer...
- Depois de tarde choveu a dá-com-pau, é.
Enigmática, um brilho de sol, linda e
sempre bonita, a flor de todo o dia, a flor do ano todo, a única desse lado do hemisfério.
E sorria para confundir. Surpreendente e esperta como uma flor de orquídea.
Inconfundível no orquidário, cor vermelha, vermelha com traços lilases, atraindo
besouros, beija-flores irisados, abelhas e zangões. Ela sim um condomínio
mimoso.
A noite cobriu o mundo mais uma vez, e
dessa vez. O sol descobriu o mundo pela mais outra vez, como a primeira vez.
- Está fugindo de quem, Jacarandá?
Acabara de falar umas coisas para umas formigas
em carreirinhas.
Elas estavam passando por ali, por dentro da farmácia. Que as
formigas dominarão o mundo. Desfilavam pelos rodapés. Intermináveis,
indestrutíveis, mutirões, multidões. Avenidas com soldados de prontidão, corpo
de bombeiros, para-médicos, indivíduos de apoio, lugar para descansar,
cemitério com pedrinhas brancas, estacionamento coberto guarita cancela,
supermercado amora-do-mato. Traziam levavam coisas pequenas e pesadas.
Conversavam uma língua de antenas elétricas vibráteis irritadas.
Tudo estava certo. Tudo estava avesso.
Pois adiantava ter planos? Me parecia que... Que nada de planos, meu!
O mistério estava me consumindo. Nem
queria mais aquele emprego. Parar de beber. Ia parar de beber. Parar de fumar.
A partir de hoje serei outro, jurei. Nem, a partir de segunda-feira do ano novo.
Fui ao bar-lancheria-loja de quinquilharias
do Barbatimão. A família toda lá dele queria aquilo tudo ele a esposa o filho como
se fosse o ganha-pão. Eu queria ler o jornal, tomar um chimarrão bem cevado,
falar de futebol, olhar as coisas passarem pela rua 15 de Novembro. Àquela hora
da manhã nem tinha ninguém, apesar de que sempre apareciam uns vadios,
desocupados, encostados, desempregados, aposentados, biscateiros, sujeitos da
condicional com tornozeleira eletrônica. Assim-assim encontrei uns velhinhos
jogando escova, um real à talha. Dividiam subdividiam como sempre os marupiara
os calundu os mururu. Jogavam a manhã toda para perder um ou dois reais ou
ganhar um ou dois reais, xingando muito, dizendo um para o outro os impropérios,
os ralhos, os desaforos, as maldições o Carão o Coruripe o Japaratinga o
Maragogi o Jenipapo o Camurupim. Bebiam um traguinho de losna de funcho de
poejo ao butiá até aí pelas 11h e 45min.
Já decidia, então. Ia fumar lá fora na
calçada, sentar na cadeira de plástico vermelha da fornecedora de cerveja, cada
automóvel, cada figura, cada cão na calçada na rua.
- Está fugindo de quem, Jacumã?
Um caracol movediço na área de serviço ali
de casa. Um bichinho muito miúdo e lento e gosmento. Como pode, né! Pequeno do
seu jeito e levando a casa nas costas. Duas antenas, andar de lesma, deixando
esteira, o peso nas costas. E ia nem se sabe por que ou para onde. E eu que
queria navegar voar até as ilhas do Arvoredo, Búzios, Fiscal, Vitória, Santa
Bárbara, hein, meu?!
Sonhei aquela noite que subia por uma
parede sem o fim. O barranco nem parecia muito alto, mas também nem tinha fim
nem começo. Eu ficava sempre subindo sem chegar a lugar. Olhava pra frente,
olhava pra trás. Suava uma barbaridade. Me agarrava a uns cipós muito finos,
raízes de capoeira, e escalava sem fim. Olhava pra baixo pra cima, pra cá pra
acolá, pra setembro pra novembro. Mas nem conseguia completar o exercício. A
coisa se repetia, petia, tia... Eu nem subia, nem conseguia concluir a descida.
E sempre o susto de cair escorregar lá pra baixo.
Tive um professor que confessou uma vez com a gente em
sala:
- É sempre isso, então. Eu decoro três significantes-significados
por dia. É. Pego ali no dicionário aleatoriamente, macota, tecó, canjira. É
bucha, seu!
Crescia no lugar dos braços umas asas a
vontade de asar para qualquer lugar. Enchia inchava o de conhecer muitas praias
do Ceará, andar de gaiola no rio Jari, subir a serra do Mar a pé e ficar lá em
cima por uns dias e meses, nadar no rio Itaúnas, morar no bairro do Pina. Pensava
até em ser um garimpeiro, jangadeiro, seringueiro, ermitão, um caiçara ou
praiano. Seria alguém. Seria possível e viável morar numa caverna.
Veio um vento que abanou as folhas das
árvores, flu-flu-flus!... cambuins, araçás-do-campo, ipês-roxos, leiteiras,
paineiras, imbaúbas... Que quase nada depois, veio um vento que abalou as
folhas das plantas, cambucis, angicos-do-campo, mangabeiras, lobeiras,
tamaquarés-miúdos, bacuris...
Se eu tivesse nascido nos cabedais e
sesmarias. Se eu tivesse nascido no berço de ouro e prata. Se eu tivesse
acertado com a loteria quando tentava tentava. Se eu tivesse nascido no Centro
de Curitiba, em Aracaju, em Maceió, em Fortaleza, em Palmas, em Barra do Rio
Azul... Se eu tivesse nascido em Rio Branco em São Luís em Natal em Papagaios em
Estrela do Sul... Se eu tivesse estudado como fez o filho do banqueiro. Se eu
tivesse nascido sem a mania de sonhar e ficar pensando e só ficar imaginando
fantasiando criando olhando a rua Carneiro Vilela passar.
Três palavrinhas para o nosso professor
de redação: filáucia, onusto, jeru, cafanga.
- É, é bucha, meu!
***
Onde eu falei que se escuta esse
silêncio que nem deixa dormir:
Na luminosidade e quentura do quase
verão lá por outubro de 1989, se me lembro bem, se nem me engano, enquanto os
relógios passavam e as horas ficavam, zizizios da cigarra, cochilar do
bicho-preguiça, murmúrios do jequitibá, resmungos do murutizeiro, voejares das
andorinhas muitas que já tinham invadido as casas com telhado de telhas de
barro cozido:
- Ei! Escuta!
- Fale, guri!
Eu o reconhecia de por aí, nem me era
estranho, um tipo que fazia vários ofícios e empreitadas e fretes e gambiarras,
morava de aluguel em qual lugar, o Guarariba, carro popular alaranjado do ano
tal e qual, falava rindo muito alto, às vezes vestido à gaúcha, original de uma
dessas longínquas paróquias e comarcas e freguesias do pampa, um dia vi ele com
a esposa uma bonitinha dois filhos menores em casalzinho, capinava hortas
arrumava jardins podava as plantas, comprava e vendia muambas da fronteira,
limpava chaminés e garagens, etc.
- Olha, seu. Nem tá a fim de colocar um
adesivo do Zé Curimbatá? É pra vereador, nem sei se você já viu.
- Quem, eu?! No carro?
- É, seu. E tem uns 100 mango. Nem é
nada mas são 100 conto, né?!
Pra falar sério e a verdade técnica-prática-científica
fiquei mesmo pensando nos cem contos. Era e é aquela nota verdinha ou azulzinha?
Com peixe piratinga ou ave sucuru ou cachorro janauíra? Eu pouco tinha contato
com aquela notinha que podia me fazer falta uma hora ou outra belezinha e que voltava
e ia rápida sempre a calhar.
- Cem pila, meu? Nem dá pra encher o
tanque do carro. E o carro nem é meu, é da família.
- É melhor 100 pelego na mão que 100 000
bem-te-vis voando, em, que acha, seu?
- Onde vai mesmo o tal do adesivo? No
vidro traseiro? A polícia deixa, nem vou levar multa por causa?
- Que nada, seu! Sem problemas. Isso eu
te garanto.
Agora eu já pensava contando com os cem
reais na mão e talvez um prejuízo na imagem do carro, lá adiante para com os
amigos vizinhos parentes família, tantos assim. Se meter em politiquice, pelo
fim ou pelo começo, é sempre uma roubada, pensei, e falei:
- Tenho que vê lá em casa, cara. Nem sei
agora o que decidir.
- A gente se fala, então, camarada. Mas,
ó... dê a preferência pro Zé Curimbatá, oquei? Faz o favor.
Fiz um gesto positivo concordando e tal
e coisa, espionava a folha-de-bolo, xeretava a jacitara-de-espinho-grande, cantava
o pintanguá-açu, fuxicava o teiú, adejava o besourinho-de-bico-vermelho, faziam
os zunzuns muito as abelhas guarupus pelas bromélias suculentas orquídeas
sumarentas de cores verde amarelo vermelho azul.
Poucos dias depois numa ensolarada manhã
de sábado. Ali tomando um martelinho no boteco do Gueguê. Pois o Guarariba já
me viu. E veio todo faceiro com chapéu de pantaneiro, dizendo:
- Ei! O amigo pensou o causo?
- Pá, nem sei, meu!
- Quantos votos você tem?
- Um voto eu te garanto. É isso. Pegar
ou largar.
- Correto! Um no Zé pra vereador e outro
no candidato a prefeito na chapa, oquei! São 100 mango, em! Choca aqui!
E o Guarariba me passou bem dobradinha a
notinha azulzinha e tal. Apertamos as mãos. Peguei tateei botei logo no bolso.
O Guarariba já foi colocar a figura do sorridente e bem penteado Zé Curimbatá “mais
empregos e postos de saúde e creches...” em o vidro do carro. Podia servir até
para espantar outros candidatos. Pronto. Falou:
- Forte abraço!
- Tá certo. É isso mesmo.
- Tchai!...
- Inté.
Dali a pouco jogou o time do meu coração
e pude esticar a notinha e pagar umas cervejas pros amigos. Mas o time nem foi
muito bem das pernas da cabeça e nem correspondeu, neres de pitibiriba.
***
Por bem, pois muito bem, eu tenho miríades
de parentes e aderentes e tudo mais. Ou seja, prima Grupiara era incapaz de
matar uma urutu.
Se estendeu na cama de setembro a
setembro, cruzou as mãos sob a cabeça e ficou olhando o teto de madeirinhas em azul-clarinho.
O fim do planeta nem seria para hoje, nem amanhã, pensou. O badejo-ferro atinge
um comprimento de 90 cm. O peixe-porco atinge um comprimento de 90 cm. A
curicaca-de-pescoço-branco põe 2 ovos e mantém 1 filhote por temporada. Leão e
seu número 18, multiplicado por 4.
Parente abriu a janela e olhou lá
embaixo a rua Abanheém, os carros e as gentes e os cães acompanhando um passo
na frente. Ela devia estar pensando que as ruas desembocavam para todas as
direções do mundo. Mas nem, leve engano. A partir daquele dia todos os rumos e
sendas e betesgas e estradas e atalhos seguiriam para o norte, somente o Norte.
Todas as gentes com pressa. E tudo estava dentro de uma lógica razoável, de um
enigma esperado, de um mistério certo e reconhecido.
Cidade pequena, como a minha a tua, mas
as pessoas nas calçadas passavam com seus cães de estimação, esses azuis,
vermelhos, pretos, ansiosos, esgoelantes, resfolegantes. Os cães só pensam em comida. Os cães só
pensam em farejar. Os
cães e cachorros e guaipecas e jaguapevas acoam em latim. Os cães só pensam
em agradar quem lhes dê o de-comer. É isso o que eles pensam e sem contar uns
pros outros: os donos passeiam seus estimados e os estimados passeiam seus
donos.
Mais alto prédio de Nova Prata, no
sétimo andar do edifício Jamaxim, muito alto mesmo. O mar que nem via daqui
desde o início do mundo. Açoita-cavalo serve para insetos e beija-flores.
Aroeira-de-bugre arbusto para enfeitar calçada de rua. Abajerus para as abelhas
guaraipos. Chapéus-de-couro para jardins de apartamentos ou casas ou saguões de
hotéis modernos.
Eu falei pessoas com pressa? Vá lá, vá
lá! O sol no lado do céu. O dia quente. Ninguém nos galhos da embaúba. Dos
paralelepípedos um ronco de carro, buzina, freada, arrancada, derrapada,
guinada e músicas tocando de tudo.
Depois, Grupiara viu a noite
interminável, internacional. Uma noite além de qualquer força, imensa vastidão,
as estrelas parecendo pequenos vaga-lumes ou olhos de crianças arteiras ou
jacarés na noite do barranco. Voltou para a cama e se atirou com tudo, pesada,
de comprido, num sonho de tardes de domingo e abraços e beijos e sacolejos e
murmúrios.
A rua Presidente João Goulart saía para
o norte, eram oito faixas paralelas com canteiro no meio e os renques das
árvores da direita da esquerda, seringueiras-tambaquis, tauaris-do-campo,
pitumbas, mututis-da-várzea, gerânios-brasileiros, mamas-de-cadela... A lua de
prata como desenho de criança, os cabelos molhados, sorriso de cratera a
cratera, queixo bem perto do nariz. As nuvens escondendo a lua aqui e ali. O
arvoredo espanando a rua a lua aqui e ali. O mar estrelado mais infinito
impossível, como um sonho, como uma viagem, como um ocidente, mas um infinito
só de ida.
Todos os caminhos da cidade eram no rumo
norte-norte. Todos com superioridade, necessidade, falando alto, apontando o
futuro e fazendo continência com dois dedos. Placas diferentes se juntavam no
mesmo corredor, Espumoso, Arvorezinha, Soledade...
Grupiara nem mataria um
bandeirinha-de-rabo-amarelo de aquário. Planta caá serve para sabiás-laranjas e
pombas-rolas e anus-pretos e jandaias... O próximo do mundo nem D sabia. A
noite furada de estrelas, infinita, são João. Logo logo um vermelho e logo um
alaranjado e ainda bem logo um amarelo matinal, uma algazarra de corruíras,
arirambas, araguaris, almas-de-gato, encontros, japacanins...
Todo mundo já teve ou pensou ter um
bicho de estimação, mico, peixe, sapo, borboleta, gafanhoto, aranha, cachorrinho-d’água,
escaravelho...
- Olha, cara! Nem é legal prender
passarinho. Fique você sabendo - foi a Grupiara que me disse.
- Mas este é australiano. Importado nem
conta. Vai sabê!
- Onde se viu prender o desinfeliz o pobre
e o coitado.
- Se eu soltar ele morre de fome, morre
devorado, morre de frio, morre de solidão, morre de vergonha, morre de tudo,
morre de qualquer coisa, morre de qualquer jeito.
- Só nem
pesa é a tua consciência, em?!
- Por
causa do passarinho? Aí nem, né!
- Você nem tem educação. Que belo
exemplo vai dar ao seu futuro filho ou sobrinho. Pelo menos deveria ter
educação ecológica!
- Quem sabe ele vá até estudar ornitologia!
- Taí! Vai te odiar.
Prima Grupiara sentiu suave bem-estar. Olhos
imprecisos até nas cores. A guabirobeira serve para pássaros e peixes de rio. O
araçá-congonha sustenta as pirapetingas e as aratingas-de-testa-azul e os
avá-guarani, indistintamente. Ilha de pedra vulcânica no meio do oceano onde
ali uma andorinha-do-mar vai e vem de roçar o bico 1 vez no ano, o
imponderável. Podia o mundo vir abaixo numa enxurrada. Todos se encaminhavam
para o norte e ora pensando para fora ora pensando para dentro. Todos com
aurora, com bocejo, comendo bebendo bolachinha salgada suco de abacaxi na
caixinha.
Pronto, lá foi o dia. Pronto, lá chegou
a noite. O ar frio veio do mar sideral junto com a noite. O quarto no escuro,
janela aberta na noite com cheiro de mar. O mar que os olhos compridos buscaram
ali.
Era possível dormir como uma pedra.
Prima orgulhosa como as gatas, as felinas, as ariranhas, as caxinguelês, as
graxains... Selvagem como as onças-pardas em geral. Esperta como
as pássaras pintassilgos em geral. Perfumada como as cunhantãs caiapó-aucre
elegantes imponentes.
Um favor tranquilo e suave e gostoso. Nem
seria capaz de matar nem mesmo uma formiga-de-ferrão. Em vez de fazer coisas,
olhou, pensou, e planejou. Já era noite e o mar estava no escuro. Pensou, ficou
pensando sem pensar em nada, e nem terminou nem o pensamento. O mar ali
respirava em silêncio, em infinito, em profundo, em tudo, em mudo. Vinha e
deixava em nuvem um nevoeiro uma cerração uma bruma uma neblina.
Os dias iam sendo descartados. A tarde
sem vento. O mar ali, e lá o sol. Embaixo os carros, os cães com seus donos, as
pessoas em procissão interministerial. As pessoas procuravam. Tinham certeza da
viagem. Jacaré vai medir 5 m. Sucuri 9 m, no máximo. Era fácil dizer e difícil
fazer o quê? A maior ponte do mundo liga coisa alguma a lugar nenhum.
Parente próxima respirou fundo o ar da
tarde. O infinito em ondas monótonas. Sentiu um calor, e depois sentiu foi um
tremor subindo pelas pernas. Os gatos são quietos, discretos, azedos,
desconfiados, espertos, brigam com os adversários nas noites de lua, gesticulam
com dengo, dormem quando querem, soltam pelos no tapete, arranham os estofados,
brincam de brigar, sobem no muro e dizem amiiiiim!... Quem quer gato de
estimação já tem em si muita paciência. Os cães desfilam como acompanhantes de
senhoras e senhores aposentados. Olham o dono como apaixonados, mas são apenas esclarecidos
pedintes. Os cavalos de raça soltos no potreiro esfregam as costelas no
coqueiro-aracuri. Os casacas-de-couro-da-lama gritam nos poleiros dos palanques
de cerca. Tudo apetecia coisa do outro mundo.
Gente houve que já evoluíra do filhote
de estimação para o filho, a filha, uns adotados. Mas sempre depois, pouco a
pouco mais tarde, foram aprendendo que nem era uma salvação. E revoltaram com
filho e bicho de estimação. Na verdade um mistério da reencarnação? Os pais vão
ao zoológico de bichos abandonados para adotar filho pros filhotes. Coelho é o
15. Cabrito é o 23.
A primeira vez que Grupiara montara a
cavalo no parque Marinha do Brasil. No mesmo dia havia uma cadelinha que levava
a vovó toda manhã para passear na pela calçada da rua Dom Pedro II. A vovó
pintara o cabelo de verde. A guaipequinha tinha lacinho rosa no topete. A tarde
depois perto da noite ainda iluminou o topo dos grandes prédios com cisternas.
E Grupiara nunca foi contra a revolução
do grande norte, e nem poderia. Todos iam com firmeza e capricho e pensamento
vagaroso. Há donas e donos que só gostam de cães. Se excitam uma barbaridade
quando lambidos, quando reconhecidos, quando latidos, quando balançados.
Parecem compreender os latidos e respondem com latidos, com perguntas, com
respostas, com abraços no colo apertando ao coração.
Ela se olhou no espelho do quarto e se
viu como um manequim na vitrina. Parcialmente nublado com períodos de nublado.
Ventos, de leste para o norte. Todos tinham a mesma vertigem. Consumidores
satisfeitos do mar infinito, da praia com piscinas naturais em meio aos corais.
Grupiara, ao nascer (ninguém conheceu
uma Grupiara melhor mais importante), teve lá um seu pequeno brinquedo que
respondia por, blim! blim!... Depois, Grupiara ganhou uma boneca de pano
chamada Mututi. Mututi foi raptada da corda do varal numa tarde de vendaval.
Mais tarde Grupiara foi apresentada a um pequinês de olheiras enormes e focinho
úmido chamado Tajá. Tajá se afogou na banheira de espuma. Ainda, Grupiara
ganhou um fila chamado Japá que a arrastava nos passeios ao Horto no norte da
cidade. Evolução mesmo Grupiara sentiu quando comprou um caro zero chamado
Coirana e que pesava várias toneladas. Grupiara se sentiu melhor quando pôde
escolher namorados: Louro-Pimenta esfregou as costas de Grupiara e pronto, a conquistou;
Louro-da-Várzea quase casou com a melhor amiga de Grupiara (a ruiva Itambé) e
se foi se foram para Bagé; Louro-de-Mato-Grosso era professor de matemática
quântica, nas aulas que Grupiara dormia, e explicava muito e olhava com seus
olhos grandes seu sorriso de canto de boca; Louro-Precioso nem ligava a mínima para
Gupiara e o seu telefone sempre dava ocupado; Louro-Tamanco chupava os dedos
dos pés de Guapiara e beijava beijos úmidos respingados. Grupiara colecionou um
número razoável de namorados e namoradinhos e amigas, inclusive um paraense
chamado Louro-do-Igapó que queria levá-la para a Amazônia Legal e ensiná-la a
comer caça e pesca no biaribi. Crupiara casou com Louro-Preto, que este lia
poesia nos dias de chuva e pintava telas surrealistas no sótão do casarão do
avô dele nos dias claros. Evolução de Gupiara nessa altura era conhecer os rios
Purus, Negro e Solimões. Então, sim, os filhos de Grupiara: Argirita e Capim
Branco. Grupiara reparou em volta, pensou, pensou, casou outra vez, pela
segunda vez foi com Louro-Puxuri, que tinha um jatinho para levá-la a qualquer
parte do mundo em poucas horas almoçar em Belo Horizonte e assistir filme na
sessão das 18h em Guarulhos. Grupiara e Louro-Puxuri tiveram dois filhos:
Crisolita e Belo Oriente. Argirita ficou com o carro da mãe e engravidou aos 16
do filho do deputado Nanauí Filho. Capim Branco com a conta bancária da mãe se
mudou para a praia de Canoa Quebrada vender suco natural de açaí. Um apartamento
em Blumenau todo pago para Crisolita. Belo Oriente, depois de estudar odontologia
e largar, estudar engenharia civil e largar, filosofia e largar, entrou para
uma escola de samba lá em Uruguaiana - Sociedade Império do Tanatau - e casou
com Araçaí a filha mais velha do rei Momo. Macacos sobrevivem por volta dos 20
anos, dependendo sempre basicamente da espécie. Grupiara comprou uma poodle
hiper sensitiva de nome Uca, cor original branca. Gupiara e Uca passeavam na
calçada da rua Laba-Laba todas as manhãs. Gaviões-azuis vivem em torno de 16
anos em as altas florestas. Minha prima pintou os cabelos de verde esmeralda. E
seguia Uca sem coleira que ia pra cá pra lá desinibida cheirando coisas
esparsas. Época recente, Grupiara pintou os cabelos de vermelho com manchas
azuis e total: arara-vermelha-grande.
Sempre Grupiara estava recostada à
parede do quarto olhando o rio infinito, se rio houvesse. Um cãozinho de
estimação, tipo salsicha, pode ser a coisa mais linda e inútil que já se inventou.
Um cãozinho cor caramelo-queimado, orelhas grandes, focinho catarrento e olhar
sem norte. Todos iam bem arrumados. Nome do cãozinho? Nome de índio: Tapuio.
Ipê-amarelo chega os 1000 kg/m³ e olho-de-boi chega os 700 kg/m³ e guajará-branco
quase nem supera os 550 kg/m³. Tapuio gostava de andar na calçada pelos finais
de tarde, farejar como louco, depois parar na praça da Bandeira para comer
grama e morder pedaços de frutas jogadas fora. A árvore (uma umbu centenária)
no meio da praça erguendo o céu, esbarrando no sol, sacudindo as luas de
dezembro a dezembro. Durante o tempo todo o vento e uma ou outra vez a chuva.
Canto de passarinhos e pessoas e automóveis e farmácias com balança na entrada.
A árvore umbu cheia de lâmpadas coloridas, acendendo a lua e a estrela guia. Os
autos seguiam as vontades dos donos para o norte. Todos iam com frieza e magreza
e esperteza. Tapuio dormia melhor no quarto, fechava os olhos quando lhe
acariciavam a cabeça, rolava cosquento, mostrava a barriga, balançava
insistentemente a cauda, parecia amar, parecia feliz com uma bolinha de tênis,
parecia nem aí, parecia só pensar em lamber o chão.
Um peso de cem quilos no estômago e a prima
olhou para os lados. A janela aberta de vidros corrediços. No fundo o azul do
céu, irresistível, irreversível, mar comprido, mar promissor. Um azul
magnífico, anil, hino nacional. Um azul imaculado, rápido, barato e com todo o
tempo classe clássico classificado. Nada mais de importante acontecia, a não
ser a corrida do sucesso para o norte. Todos iam com alergia controlada autoridade
mascotes pacotes debaixo do braço.
O ar da noite a confortou confortou.
Sentiu sono e quis dormir, muito sono, e dormir, só isso. O cãozinho vinha do
passado se enroscar nos seus pés. O mar verde já era de azul. O mar sem fim e o
dia a se arrastar até o fim do fim do mundo. Emanciparam a cidade de Aparecida
de Goiânia, tirada de Goiânia.
Tantos são os bichos perdidos nas casas!
O primeiro galo da manhã. O gatinho no pires com leite. O cão balançando a
cauda olhando de lado esperançoso por um petisco. Muitas vozes e roncos e
assobios de passarinhos. Casca-de-anta frutifica de outubro a novembro. Caeté-mirim
frutifica de janeiro a março. O teto branco do quarto. Ela olhou a rua Érico
Veríssimo, onde os índios abaré e os embaiá e os macamecra subiam transitavam solicitando
melhores respeitos dos latifundiários. Os automóveis e ônibus para o norte.
Todos iam com verdade e controle. Tempo voluntarioso. O arco-íris acrescentou
uma nota de prisma ao céu. A tênebra engolia tudo, os carros guardavam seus
donos, a rua escoava o trânsito, o imantado o magnetizado norte. Todos iam com
ferocidade, velocidade. Prima sentia o coração como se fosse o sino-gravação da
igreja. Longa e longa espera por quê.
Aquela minha prima Grupiara nem mataria
um papa-moscas-de-topete-marrom. A rua seguia favorável e infalível e
infatigável toda para o norte, ou seja, estrada linha 15 de Novembro capela
Nossa Senhora do Carmo e funduras. Todos iam com parcimônia, relógio de pulso,
roupa social ou fragmentada, escutando sintonizados o jogo do time meu no rádio
de pilha. Demorava tanto, era noite constelada. O mar lambia, relambia
deliciado a areia da praia infinita planetas e estrelas por descobrir. Tantos
andares, quantos metros, uns poucos segundos de queda. As perguntas perdidas no
espaço escuro devorador trevoso. Beija-flor sobrevive entre 5 e 8 anos ou até espécies
de 16 anos. O 6 é boi. O 4 é avestruz. No fundo do poço a rua Sinimbu conduz
todos os autos e todos os carros com seus donos rumo ao nada, rumo ao
impossível, rumo à estação de antemão combinada, rumo ao local desabitado.
Então, ela se ergueu, se ergueu sem
pressa. Tentou dançar agitando só os braços. Contou os passos pelo quarto.
Andou em linha reta, linha reta. Engraçado, pois contou os passos pelo quarto.
Os objetos no cômodo. A esperança nem iria mais voltar, pensou. Mas a janela aberta bem próxima aguardava
como um pulo, como um calmante, como uma tevê, como uma viagem pelo sul da
Bahia, Ubaitaba, Itajuípe, Una, Ilhéus, Itabuna... Era tudo como se fora do
outro mundo. Um outro planeta de outra galáxia querendo entrar pela sua cabeça.
O relógio cronometrando apenas um grilo escondido.
O desenho desenho do retângulo. O sol
forte, o céu de aço, os prédios parados, as casas paradas, as árvores almoçando
agora mais tarde. Os insetos nem se mexiam. Os carros seguiam o de sempre. Os
cães guiavam seus donos e donas. Sete-capotes faz a floração em outubro a
novembro. Sombra-de-touro faz a floração em maio a julho. Arco-de-pipa-miúdo
amadurece em agosto a dezembro. O céu sem motivos, um azul sem nuvens, um
deserto calmo meigo sorvete de pitangas. Nem andorinhas, nem aviões, nem
helicópteros, nem dirigíveis, nem estações espaciais vazias de astronautas. Nem
barcos a vela. Muita, muita luz e óculos escuros. Os buzinaços nem confundiam o
amplo silêncio ouro daquele dia também límpido. Se debruçou na moldura da
janela, da janela. Os prédios povoavam o Centro da cidadezinha. Lá embaixo um
precipício sem volta.
A noite chegou em vão. Noite carregada de
estrelas e buzinas e figuras de linguagem. A circulação para o norte. Todos iam
com preguiça, mãos nos bolsos, tentando pensar outra coisa. Nomes das coisas, e
as coisas no mundo. O tempo apagava os rastros. O giro vazio, prato, tonto da
lua na vidraça do céu. Cosmos infinito parecia adormecido, mar interior. O
fundo do abismo fascinava, puxava os habitantes dos apartamentos, dos pombais. Anta,
20 anos de longevidade. Abelha, 8 meses de longevidade. O quarto se comprimia em sombras. Como uma
caverna, como um casulo, como uma morada de pombos. Como uma gruta com
goteiras. Longos braços debruçados na janela. O imenso oceano escuro falava
enigmas no escuro. O tempo com seu peso de silêncio. Quer mais? A força que
puxava para o abismo. Nada de perguntas. Principalmente, nada de respostas para
as mesmas perguntas.
A chuva conseguiu entrar pela janela.
Ótimo. Anoiteceu rápido. Os carros na chuva, desfilando de trenzinho, fugindo
para o norte. Todos iam com barulho e piloto particular e lanternas acesas,
magníficos, despertos. Prima andou pelo quarto nua de mãos nos bolsos. Os cães
molhados com cheiro de cachorro molhado. A chuva nem perturbava. Se encostou na
parede, na parede. Somente bichos vadios saem na chuva para se molhar,
desorientados. Todos iam com vergonha e humildade. Chovia muito na noite e era
pouco. Um cão perdido na noite só tem frio, tem frio. A rainha formiga vive 15
anos, em cativeiro, escrava, refém super protegida. Grupiara nunca soube se
queria ou se nem queria. Sentiu também que nem havia vagas. A chuva ainda
chicoteava a claridade dos postes. Recebia as gotas de chuva na cara. Os carros
mais irritados, mais ríspidos, mais buzinantes. O mar perdido, esquecido na imensidão
escuridão.
Que o mundo inteiro ia para o norte.
Todos iam com decisão, perguntas em série, contas a pagar, cônscios do hoje dia
8 de maio de 1997. Também iam com presunção badalada. Que coisa, que coisa!
O dia amanheceu sob o sol forte, se
requentando, se enxugando ao sol. Umas nuvens escuras pintando o mar,
espreitando, lá pelos lados de Nova Bassano e André da Rocha. O tráfego comum
de carrinhos de bebê e donos com seus animais de estimação segue pela calçada
da rua Prudente de Moraes. O mundo nem acabaria sem um bom aviso prévio. Madeira
pintada dura de 13 a 15 anos. Plástico dura 100 a 120 anos. Vidro dura indeterminado.
Lixo radioativo dura 260 000 a 300 000 anos. Numa terra onde tudo que se
planta. Num país de pindorama.
Volto a dizer, Grupiara sentou na cama. Nem
escutava o rádio. Se acomodou a olhar os pés, procurar o grilo cantor. Todos os
viventes e nem sobreviventes num sono especial. Parcialmente nublado a nublado
com pancadas de chuva e trovoadas em áreas isoladas do Estado. Ventos com
rajadas oeste a norte. Já se passaram 50 milhões de anos desde que as baleias
invadiram os oceanos. Animais quase gente esses humanos, bichos quase humanos
esses animais de estimação. As coisas, essas coisas, acontecem todos os dias.
Idades limitadas, idades variadas. Justiça nem tarda, nem falha, nem tem hora,
seja feita a vossa vontade aqui e no céu. Embora seja uma opinião que toda
gente tem... Cada um tem tem mesmo a sua rua. Uma montanha já comemorou 5 bi de
anos. A prima querida nem matava nem mesmo uma tatajuba-de-espinho. O
quero-quero guincha, o cavalo relincha, o burro orneja, o macaco assobia, a
onça-parda ulula, o homem sussurra, a mulher ri. Papagaio dura 80 anos. Formiga
dura 20 dias. Todo bicho de estimação se parece com seu dono: no sorriso no
andar no olhar no fazer xixi em o tronco da árvore no afrontar no cheirar o
próximo. Dono ou dona de estimação e bicho predileto se merecem.
De pequena ela viu os vizinhos com um papagaio
que só falava: bom dia!... bom dia!... Lembrou que o papagaio era fêmea e se
chamava Ataleia. Encrespava o pescoço, gritava esganiçado, bramava, comia
melancia, beliscava pinhão, dizia: bom dia!... E se chamava Ataleia. Ataleia
passeava na cozinha, sobre a mesa da cozinha, no encosto das cadeiras da
cozinha, no parapeito da janela da cozinha. Treinavam Ataleia para Ataleia
subir no dedo andar no ombro em pose de papagaio de pirata. Treinavam para que
a emplumada Ataleia falasse: Ataleia!... A papagaia nem aprendia, nem aprendia.
Se irritava, ficava arara, isso sim. De vez em quando berrava estridente
chamando por namorados. E Ataleia nem tinha licença para voar dirigir carro
pedalar na calçada. Ataleia nem gostava de bichos e visitas em geral.
O quarto tranquilamente em penumbra astral,
espacial, abissal. Os raros aviões trovejavam na noite, piscavam luzes amarelas
ou vermelhas, rumo do norte. Todos iam com saudade, autopiedade, moedas de
troco no bolso para a máquina de café quente. Escurecera e esfriara. De repente
caiu aquela chuvisquinha sem surpresa, peneirada. As luzes dos carros ficaram
mais brilhantes, mais amarelas, mais vermelhas, mais riscadas. Os bons
diamantes nem se trincavam mutuamente. Ela já sabia que tudo mente ilude engana.
Podia se sentar na cama ou se debruçar à janela. Sentiu outro frio. Na feira
livre as frutas se parecem com bichinhos empalhados. Banca de venda de
laranjas, abacaxis, jabuticabas, castanhas-do-pará, cenouras, sementes de
caxuá-branca, coquinhos da palmeira guacuri, mudinhas de açucena-do-mato. Todos
dos dias úteis. Uma coisa sem pá nem picareta. O enigma será decifrado quando
menos.
As horas lentamente contadas pelo grilo
escondido aqui, ali, debaixo do criado-mudo. Multiplicada a liberdade de
acesso. A ordem da natureza, o processo da natureza, a inteligência da
natureza, a sofisticação, a beleza, a natureza da natureza. O que se via era puro
mundo. A cupiúba até 40 m. A guaricanga-de-folha-larga até 5 m. O
macucu-de-paca até 25 m. O biribá até 20 m. A administração de D? O cão e a
dona brincavam excitados, ela jogava o porrete, ele corria buscar, ela latia,
ele ria com língua pendente babando olhos marrom-claros.
Deitou de comprido na cama, na esteira, 27°C
vento NE a 16 km/h umidade de 51%, as mãos cruzadas sobre o ventre, como se
tivesse sido mordida e sugada por um chupa-cabra. Treinou prender a respiração
como as atrizes fazem nas cenas finais. Como se estivesse numa roupa de
madeira. Como se estivesse sendo velada numa gaveta feita de madeira bem polida
e bem pintada de verniz. O cheiro de flores murchas, o cheiro de velas acesas,
o cheiro de vozes conhecidas, o escuro, o café, a caninha, o cheiro de grilo
cicilante.
O dia chegou clareando pela janela
aberta e parecia sempre o mesmo dia sábado às 09:12. Algo estranho forte atraía
como um ímã os carros para o norteamento norteamente. Todos iam com instinto
renovado, certeza, carnês de prestações quitadas, livro de bolso na sacola ou
no porta-luvas. Os cães arrastavam seus donos donas até uma árvore. Mas esta cidadezinha
nem oferecia trem, nem metrô, nem porto aeródromo aeroporto discoporto. E olha
que tinha passageiros! E nem era qualquer lugar. Talvez nem fosse para entender
mesmo. Pitangueira de flores solitárias, brancas, hermafroditas, tetrâmeras.
Cerejeira-do-paraná de folhas simples, opostas, oblongas, de cor verde-escuras,
brilhantes. Tanta coisa que nem se entendia, nem se atendia. Manhã de ar
agradável e invisível. Carros passando para o norte. Todos iam com dinamismo, nacionalismo
e outros ismos. O sol pontual. Nem havia nada mais normal e anormal e
paranormal que o normal. Nem havia nada melhor que o sol pontual. Nem havia o
que fazer. A rua Aricapu com muito pouco movimento. Ora, 120 ovos por
tartaruga, 1 filhote chega a fase adulta a cada 500 filhotes mortos por
predadores e acidentes de percurso. Suspenso no todo alto teto o sol circular
climático. Em 12:01 já nos 32°C. O calor entrou pela tarde fazendo todos se
abanar.
Ela Grupiara ficou olhando. Uma
escuridão sem chão. O fim da estrada, o começo do infinito, a assombração do
nada. Coragem para pular. Para pular nem precisava de reis de estatísticas de
apostilas de remédios de amigos de datas de procissões. Olhava para baixo,
esperando. Se sentia diferente. Galo é 24. Urso é 22. O silêncio consumia o
buzinaço na rua. Nem mataria nem mesmo uma jandaíra-preta. Nada estava para
entender. Cada coisa tão absurda, né, meu! O que que se sabe, no final? Mero,
um peixe marinho, carne melhor, nem pode ser vendida fresca, vem salgada ao
mercado, sem ossos, adora raia santa, viva, de cor pardo-amarelada. Bastaria a
pessoa viajar um instantinho no ar, deslizar no abismo, e pronto. Ao chegar
estaria tudo arrumado, haveria o aparato, haveria o sem engano e sentaria
suavemente no banco da praça da Bandeira praça da Alfândega praça Tiradentes
praça dos Três Poderes. Em trajes brancos e comuns e folgados, com correntinha
de ouro no pescoço, relógio de pulso, cartão de crédito válido até 2001. O
araticum-pitaiá até 20 m. O beberu até 30 m. A maúba até 25 m. De fato tudo começou
com protozoários esporozoários. Se apoiou no parapeito da janela e como um
atleta que se apoia para largar os 100 metros rasos. Imaginou uma espaçonave
veloz gigante viajando invisível sem começo sem fim, disco voador oco escuro como
uma bala perdida sem ventar indestrutível afora adentro.
Os animais de agrado olham seus donos
com apego, com apego, com curiosidade, com fome, com sede, com frio. Os cães de
interior têm apego aos donos, os gatos não, os passarinhos nunca, os besouros nem
sonham. Às vezes o cão doméstico faz as vezes de dono ou dona e chama a atenção
do bípede. Um letrado casado, 3 filhos, tinha um pastor alemão chamado
Clavaral. Tinha ou tem, já nem sei. O sentimento sabe empurrar as coisas. O cão
Clavaral só comia bife de boi a cavalo. Clavaral nem era um cão ensinado. O
dono de Clavaral gostava de Clavaral como se fosse um dos filhos que fez com a primeira
esposa. E Clavaral, mesmo preguiçoso ou desatento, gostava mais do dono que de
si mesmo. Clavaral era um pastor alemão íntimo da família que gostava também
dos vizinhos bípedes. As coisas nem são o que se quer o que se procura, mas o
que acontece. Aquilo que almejamos, nem vale. Prolifera o que acontece de
supetão. Um lagarto cruzeiro do sul, o único estauricossauro encontrado em Santa Maria , no Rio
Grande do Sul, mora e descansa os ossos mui antigos hoje em dia numa famosa
universidade do norte alienígena, longe longe dos pampas do sul aborígene:
carnívoro, 2 m, 30 kg, 210 milhões de anos. E poderá haver coisa mais
sensacional que o norte do norte? Todos iam com suspensão com assobios com
bolsas a tiracolo com bandana no estilo. O homem chora ao se desfazer do primeiro
automóvel. Acontece aconteceu que o homem foi feito do nada. A esperança é tão
grande quando vemos o mundo saído do nada. Forquilhinha com seus 9 mil
habitantes. Itabira com seus 50 mil habitantes. Ielmo Marinho com seus 37 mil
habitantes. A esperança até hoje nada no mar com o céu refletido azul ou verde.
Lembrou Grupiara que certa vez num
zoológico, crianças e pais irrequietos, todos olhavam macacos-pregos, jabutis, periquitos-da-caatinga,
carcarás, emas e seus filhotes. As aves restavam ali ilhadas. Os macacos-pregos
comiam sem pressa as goiabas-do-mato e bananas e maturis e mamões. Um
gavião-de-penacho, uns quatro deles, com cara de feroz e impiedoso, piava e estrilava
sem ter o que fazer, depois jogava com a cabeça para trás, como se fosse se
suicidar, e gargalhava histérico. Um pequenino lago com saracuras, seriemas, tuiuiús,
ratões-do-banhado, repuxos de água. Os bichos ali nem davam importância às
pessoas. Olhavam se olhavam os eretos sem interesse. Povo alfabetizado e com
roupas coloridas, óculos de grau, mãos nos bolsos braços cruzados roendo unhas.
Imensas gaiolas debaixo de árvores frondosas, jambeiros-bravos, painas-do-arpoador,
iricuranas, tamanqueiras... Tigre é 1. Peru é 2. O galo canta na madrugada, e
depois outros em escada rolante. Festas de fim de ano matam o gado, porcos em
postas, galinhas em panelaços, bois em mantas, dourados em filés. Os humanos
comem animais e bichos de todo jeito. A pressa e a dinâmica do ritmo. Os
humanos comem tudo que respira ou respirava. As 30 mil andorinhas engolem
exterminam 2 milhões de insetos, diariamente, 60 a 80 cada uma: estudo da
UFSC e principalmente das cabeças pesquisantes dos alunos da turma, uns
parabéns!, do professor Igaci Tamarana.
Nem havia nada escrito sobre o que se
podia fazer, Grupiara? Era tarde, tão tarde. Cochilou de janela aberta e
escancarada. A rua parecia trilha de formigas num trânsito interminável e ocidental
onde as gentes e autos iam rumo do norte. Todos iam com acompanhamento, com
estepe, com bagagem, com água mineral, com jornal da manhã, creme suave para passar
nas mãos e deixar um cheirinho agradável macio. Estrelas buscavam os lugares do
vácuo. Como uma lagartixa, ela se encostou na parede, olhou o céu, olhou o mar desinibido.
Parar isso tudo nem se podia. Umas vezes parecia que sim, em outras já achava
que nem. Os gatos já passam por bruxos, magos, deuses, heróis, rabugentos, melhores
felinos. Bom se todos fossem feitos de pedra. E se ela fosse curiango voaria
janela afora sem pensar sem sentir, apenas de braços abertos, joão-de-barro,
quijuba, barulhento, tchintchorrintcho, sabiá-da-mata, assobiador... Mas um
pássaro tem menos tempo que uma mulher. Ovelha é 10. Cervo é 5. O tempo nem
acaba nem começa nem anda nem desanda. Cearadáctilo, 66 milhões de anos, 25 kg,
5.5 m de asas abertas, carnívoro apreciador da fauna marinha, lagarto voador ou
dente do Ceará, foi encontrado no Ceará, que os do norte alienígena chamaram de
paraíso dos pterossauros. Palmas e vivas!, pois hoje ele revive ainda seus
ossos expostos num museu do norte alienígena distante distante do museu
aborígene onde podia e devia ser estudado. As pessoas absolutamente se sentem
atraídas pela desossação e descoloração e descontinuação do abismo. Vão com
tudo sempre para sei lá onde desde que haja buraco poço perau caverna sumidouro
barroca precipício atolador.
Olhou o mar dentro dos olhos. O mar de
sempre. O mar do nunca, do nada, do fundo perene pedreira. Os
periquitos-maracanãs chamam a atenção, espigaitados, mesmo daqueles que nem
costumam perder tempo com bichos de nenhuma utilidade. Olhava o mar havia assim já vários anos. Uma
barbaridade. As aves, em bando v, voltando para o norte. Todos iam com certeza,
com espreguiçadeira no capô do carro, com banho tomado, com camisa esporte, com
último salário na conta. O mar pareceu verde, talvez azul, quem sabe as algas.
Continuavam os homens com jaguapocas na guia, continuava o mundo. De um jeito
ou de outro, o mar lambia a areia, e se exercitava muito, ondas indomáveis, parecia
querer seguir com a procissão, seguir eternamente. Veado é 7. Porco é 13. O mar
então é mais ou menos que nem um ímã.
Quando a hora de Grupiara fosse chegar,
chegaria, eu aviso. Era mesmo um pau de arrasto morro abaixo. A noite nem
silenciosa com as buzinas na corrente sanguínea da rua Corumbá de Goiás. Uma
mãe tinha um filho e uma árvore. A árvore no quintal da casa era a
canela-sassafrás. A mãe abraçava o filho abraçava a árvore todas as manhãs
chuva ou sol frio ou calor. Morro da Fumaça com seus 5.6 mil habitantes.
Guararapes com seus 60 mil habitantes. Passa Quatro com seus 32 mil habitantes.
O pajé Tiju da tribo pirarrã sabia, a mãe sabia, a vizinhança sabia dos poderes
da canela-sassafrás. A mãe, dissera:
- Então, a vizinha quer uma casquinha da
minha canela-sassafrás? Por enquanto.
- Sim. A canela é indicada contra a
gota. Faça desconto e obséquio.
- Só isso, vizinha? Por hora.
- Claro que nem. Seu filho é um preguiçoso.
Nem se vê e nem se viu igual ou pior?
A mãe, falara:
- Com o que a vizinha quer um talho da
minha canela-sassafrás, então? Por dia.
- Pois é. A canela é indicada contra o
reumatismo. É o que dizem. É o que nem negam.
- Assim seja, vizinha. Por hoje.
- Ah, tem outra. Seu filho nem vai bem
na escola nem trabalha. É um usufruto.
A mãe, debatera:
- Por que a vizinha precisa então de uma
farinha da minha canela-sassafrás, hein? Por tudo.
- Ora, a canela serve para curar da
sífilis. Sacode a poeira, mauê-mauê, e dá a volta por cima.
- Com que, então. Olha, essa eu nem
sabia. Todo dia é dia de aprender e coisas novas e boas. Por D.
- Pois, a bem da verdade, e verdade que
seja dita na cara a cara, seu filho é transviado. Nem tenho papas na língua.
A mãe, conversara:
- A vizinha vem buscar da minha
canela-sassafrás. Quer muito quer um naco de seiva? Por favor.
- Venho e digo mais, sua canela mede 25 m
e frutifica de abril a junho. Conforme a região, de junho a dezembro. Os índios
quiriri fazem até canoas mui velozes. Os índios jaicó fazem tacapes mui
zuinadores.
- Eu sei. Por isso mesmo. Por esporte.
- Mas fique sabendo que seu filho é um
come-dorme e de primeira. O tal e qual lesco-lesco nem passa perto do gajo.
A mãe, murmurara:
- Que que trouxe a vizinha aqui perto da
matéria-prima da minha canela-sassafrás, afinal? Você repara em tudo, nem é?
Por baixo.
- Sua canela de estimação a qual aponta
suas flores de dezembro a fevereiro. Conforme a região, de agosto a setembro. A
índia Pariparoba dos jamamadi gosta e costuma usar no cabelo.
- Então, nem está certo? Está concorde.
E bato no peito. Por cima.
- Será que seu filho terá mesmo dinheiro
para morar em Recife ou Olinda? Acho que nem precisa me responder. Eu conto
outra.
A mãe, discutira:
- Nem sei por que a vizinha quer e
precisa tanto da polpa da minha canela-sassafrás, então?! Por dinheiro.
- São as dermatoses, são as intoxicações
metálicas. Procuro pesar antes de acontecer tal e qual coisa.
- Melhor que remédio de farmácia. Melhor
que garrafada. Por tudo.
- Com isso o que, então, seu filho nem
leva nada a sério, falei! E ainda por dita bebe destilados e fuma da erva
daninha. Tô avisando apontando e nem cobro nada.
Bateu no peito Grupiara e disse consigo:
é comigo o negócio! Os desassossegos se prolongavam para sempre em calafrios,
em arrepios intermitentes. Depois do fim do mundo sobrarão as formigas,
sobrarão as baratas voadoras, as estátuas de bronze, os pneus de toda espécie.
Nem matava nem mesmo uma codorna-mineira. Burro é 14. Pomba é 19. Um dia o sol
também cairá. Como as taiobas os ingás-doces as canas-bravas os capins-flechas...
o sol penderá para o norte. Todos iam com vontade de olhar para trás mas
resistiam nem olhavam. O trem lotado como sardinhas em lata, rumo do futuro.
Todos iam com o pensamento da frase redonda. Os demagogos os nacionalistas os
populistas os entreguistas os fisiologistas. O bacurau-tesoura até 40 cm. O
tié-galo até 15.5 cm. Pterossauro entre 225 milhões e 65 milhões de anos.
Caminhou pelo quarto, zonza, esquecida, as mãos às costas, os cabelos
farinhando ao vento. Fechou os olhos - que goupias cheirem flores novas abertas
gostosas -, a cabeça rodou tontinha.
Grupiara nem tinha como sair do quarto.
O sol nem tem falhas. O mar independente. A tevê no chuvisco. A prima adorava jogar
no bicho e escolhia o bicho do dia. E olhar os bichos do zodíaco. E seus
animais favoritos. Tentou abraçar a parede, assim como as lagartixas também conseguem.
E olhou lá fora, pela janela quadrada. O jogo de cartas marcadas. O lado mais
fraco dessa corda que estava para arrebentar. Número 3 é cachorro. Número 8 é
cavalo. Número 9 é gato. Muita gente fina gosta de hípica e cavalos crioulos e
cães de raça e bois zebus e pássaros curiós. Na memória a papagaia dos vizinhos
só fazia repetir: bom dia!... bom dia!... A rua imantada, puxava sempre para o
mundo da chegada. Então, a cidade já sem um mínimo de segredo. Peixes de
aquário com luzes internas, fosforescentes. Nunca se está pronto. Que bicho
dará no bicho?
De parcialmente nublado a nublado.
Possibilidade de nevoeiro ao amanhecer e névoa úmida ou seca no decorrer do
dia. Temperatura em
baixa. Todos lá íamos nós para o mesmo norte. Todos iam na
frente e sempre, uns cantando outros dançando, mais cantando poucos dançando. A
mulher apresentou, cheia de alegria e longos cabelos lisos e unhas das mãos
compridas e pintadas, a sofisticada cachorrinha para as madames conhecidas suas
amigas de hípica. Era um tipo malhado de estirpe de dálmata fêmea. Muito
tímida, esguia, 6 meses, comportada, quase nem latia, limpa, limpíssima,
entendia de turco de camaronês de tailandês uns olhos azuis suaves e deliciosos
e contemporâneos. Dálmata de nome Carbonita e tão jovem que nem sabia que havia
mundo e outras coisas como outros cães cadelas patos preás tatus-bolas jundiás caranguejos
mamas-de-porca macucos. A mulher disse que fazia esforço para fazê-la latir,
acoar, ladrar, ganir. A cadela lambia os queixos das comadres, madames,
senhoras, senhoritas com penteados caros e tiaras brilhantes mais caras ainda.
As comadres chamavam a cadela de “Menina”. As senhoras tinham bolsas de couro
fantasia de bichos fantasia em extinção. As primeiras amigas beijavam a cadela
na boca. Outra comadre acariciava a cadela nas ancas, e a cadela se encolhia,
confundida, talvez com receio de ser violentada. Cadela inocente, fácil,
educada, lambia o batom nos lábios das amigas, fazia cocô na hora certa na
suíte própria particular toda pintada em azul-claro. Um vira-lata que passou
ali, sem percebê-la, sem cheirá-la, sem pretensões, e ela já se interessou,
farejou, esbugalhou. Mas nem latiu, e o vira-lata se foi quando sempre
cheirando os pés de sapatos pretos dos ministros senadores executivos. A mulher
abraçou a cadela, trouxe-a para o colo, e a beijou na boca todas às vezes e
balançou, nhã-nhã-nhã!... A cachorra lambeu o rosto da mulher, rabo entre as
pernas porque as comadres lhe acariciavam as ancas, a barriga, as costas,
debaixo do rabo, as pernas, coisa muito sensual:
- Que princesa linda da madrinha!
Na tarde a brisa então entrava pela abertura
lateral, 23°C vento SE a 3 km\h umidade de 70%, o sol brilhava, reverberando no
metal dos carros na rua Clarice Lispector. Pessoas a pé na calçada os carros
para o norte os raios uv. Todos iam com esportividade, com bermudas e sem
camisa, com sandálias de couro ou borracha, com boné do time escolhido lá na
tenra infância vendo o pai torcer. Ela olhou apertando os olhos. Lembrou aquela
vez no zoológico, fora conhecer o zoológico de Sapucaia do Sul, e depois nunca
mais. Percebera que os felinos a olhavam com atenção e interesse gastronômico,
interesse felino, interesse demorado, interesse quieto e atento, que diziam
volta e meia lá entre eles, cachinando: vou papá-la. E cla-cla-clá!... com as
orelhas. Os predadores farejam que humanos são de carne e osso comestíveis
sangue quente e suor frio delicioso. Cheiram e escutam e morrem de apetite o
correr do sangue, a comida caminhando por perto, a carne acesa falando besteira
a papa arriscando bem ali por perto só a gradezinha pelo lado de fora tirando
fotos. E só esperam o dia do prazer esperneando na hora h. Babam e choram
sentindo o cheiro do sangue nadando em açúcar. Passam a língua pelos beiços
gulosos, suspirosos, imaginosos, babosos, peludos. Uns até se sentem mal,
passam mal e urram, sempre de água na boca, bramam, esgravatam o chão, batem os
dentes em febre, e se atiram com tudo nas grades. Jogos dos bichos: 20 é
elefante, 21 é girafa, 25 é águia ou harpia.
O mar atemporal deitado em berço
esplêndido. Fazia muito calor, e ela suava na pele morena. O mar profundo nem
estava para peixes. Uns eram mais conhecidos que outros: peixe-elétrico,
peixe-espada, peixe-boi ou guaraguá, com cabeça de terneiro e cauda de
abanador, espessa camada de torresminho, pasta na beira do rio e atinge 2 e
mesmo 3 metros
ou 2 mil quilos. Aviões da força aérea brasileira faziam manobras e já iam na
frente. Agora estavam ainda os comerciais das refeições servidas a bordo. Os
tingongos-do-campo ornamentavam a cidade, madeira leve e clara usada em canoas,
aeromodelos, tamancos, gamelas, aliviam inchações, flores solitárias de cor
rosa forte até quase branca. A lua navegava em oposição ao surpreendente e inconstante
urano.
Era uma manhã de ontem anteontem
trasantontem, total: Grupiara. Os gatos tinham preguiça de caminhar na
procissão para o norte. Todos iam com boné na cabeça pala grande tapando
aparando a luz. Papagaios, ou tais bicos-redondos, são muito próximos dos
macacos. São tipos que imitam o homem, tiram lições do ar livre ou do
cativeiro, sentem afeição e são dedicados, sentem ódio e são rancorosos. São
belos no ar e desajeitados no andar em terra. Andam de pernas secas abertas
como patos e nem são patos marrecos gansos, são papagaios. À noite a prima
perdeu o sono. Nada nada poderá ser adiado do dia certo aprazado e da hora
marcada. O fundo do mar tem petróleo, tem pré-sal, tem peixe cego. Maravilhas
com seus 3.8 mil habitantes. Paraopeba com seus 18 mil habitantes. Lá muito na
frente o pavor será grande e de tudo dar em nada. Por que ir tão
longe? Plantando para sobreviver e enganar o tempo. Ventos, leste a norte
fracos a moderados. A papagaia falava: bom dia!... bom dia!... E tinha asas de libélula.
O gaturamo dura até 13 anos. O café-do-mato até 6 m. Marte, seu regente,
inspirado por netuno, fazia sua freguesa impulsionar e se atirar e se abrir às
intimidades. Quando e onde. O de sempre.
Era uma boa moça? Os sabiás-laranjas se
apressam em fazer os ninhos, os ninhos. O azul olhar do mar azul-verde. Os
gatos mantêm a paciência da preguiça, do miado, do felino, do pelo brilhante. O
grilo dormia atrás do quadro das torres de Torres na parede. Eram poucas as
aves que se arriscavam a chegar tão alto, até a janela. O 16 é macaco. O 17 é
tatu. O 12 é camelo. Como desleixar tudo e continuar negociando, e perder um
pouco de tudo e deixar de ir a Roca Sales, Chapadão do Lageado, Campina do
Simão, Santa Maria de Jetibá, Baixo Guandu... Com os cabelos verdes tinha ela o
encanto ingênuo de Nossa Senhora Aparecida. Tapiretê como os índios aracadaini
chamam a tímida anta.
Manhã cedo de típica primavera a rua João
Pessoa continuava no trânsito engarrafado. As pessoas saíam arrastadas para o
trote com o cão de estimação. Cães reconhecem cães, e se detestam recíproca e
mutuamente. O céu azul metálico, pleonástico. O mar podia tudo e muitos peixes,
peixe-gato, peixe-lenha, peixe-lua, peixe-martelo, peixe-folha, peixe-agulha,
peixe-morcego, peixe-voador... e tudo que era peixe. As mulheres eram presas
fáceis no meio da procissão para o norte. As jataís zuindam. Todas iam com
doçura, com dengo, com salto alto, com perfume de aroma, com cintura apertada,
com canções novas na mente. Os jatobás-do-campo frufruam. No meio da multidão e
do tumulto, as mulheres eram a caça mais cobiçada mais macia mais estética. Os
nhapis trinam. As mulheres se enfeitavam de loiras de rastafári de turbante. Os
anus-da-serra assobiam. As solteiras vibravam uivavam erguiam os braços acima
da cabeça. Os periquitos-reis bradejam. As gurias emprenhavam. Os tietês
solfejam. As senhoras sentiam o maior orgulho nisso: povoar o vazio, sobreviver
ao nada, continuar o porvir da espécie, multiplicar por multiplicar.
Da sua janela predileta, Gupiara
contemplou a nuvem caravela. Talvez o futuro tenha de ser povoado de bichos que
falam, e homens que calam. Catuaba-do-mato é bom para fortificar. Quebra-pedra
é bom para rins e bexiga. Sapupira-amarela serve bem para fabricar barcos e
navios. Já os peritos e espertos faziam parte do jogo. Para que isso. Por quem
isso. O que fazer de tudo isso. Prédio com 5 andares. Casa com 12 janelas.
Caminhão carreta com 23 pneus. Ela nem reconhecia a cidade, as ruas, os bichos
do jogo. Todos para o mundo do nem chove nem molha. Todos iam com unhas azuis e
cabelos ao vento, uns nem com roupas quentes. Brancos como os olhos cegos de
luz.
Ela finalmente Grupiara estava fraca,
fraca. As ideias muito próximas umas das outras. As ideias muito quentes e
ruidosas. A cabeça com dor de quebra-cabeça de peça perdida. Os olhos soçobrando.
Era assim que o mundo acabava? E escorregou da parede. E bateu com tudo na
árvore. E suou frio nas palmas das mãos e nas solas dos pés. E a boca cerrou
fortemente rangendo os dentes. Foi caindo caindo como um saco vazio raspando escadaria
abaixo. Nem se tem certeza, mas é assim que o mundo acaba. O rosto dela já
petrificado. Envelhecera 2 anos em 1 minuto. Nem conseguiria fazer tudo de
novo, se preciso fosse. Os 80 km quadrados da reserva dos nhandeva. Os 200 km
quadrados do território dos ticuna. Os 230 km quadrados da área nativa dos
macu-camã. Os 188 km quadrados do parque protegido dos caxinauá. E grunhiu para
si mesma no último andar do prédio de janela para o mar silencioso hospitaleiro:
- Se ele me perdoar, e eu o perdôo; se
ele me quiser de volta, e eu o quero, volto pra ele ainda hoje agora mesmo já
neste instante, e amem!
***
Faz um tempo enorme que nem pego
o livro o meu livro predileto momentâneo para ler. Fico sempre na tevê, ou gibi,
ou revista de futebol com mulher nua na página central do meio. Faz tempo que nem
passo da página vinte do Marafa de Cruz e Sousa, peripécias façanhas estratagemas
proezas assombramentos tretas sagacidades.
E é daí mesmo quando me vem
assim essa lambança boa. Inauguração do aeródromo do Prata. Centenas de aviões,
teco-tecos e bimotores, muita gente e muito motor rugindo e muita poeira no ar.
Todo um dia. Um dia de céu aberto e vento enrolado, vento descabelado, vento
levantado em poeira vermelha.
E tudo festa e festivo e
festival aéreo. As pessoas invadiram o campo da aviação. Parecia que meia
cidade, crianças, velhos, moças, cachorros, estava bem perto de grande multidão.
Tinham hasteado as bandeiras,
cantado o hino, gritado vivas, aplaudido. E alguém sempre discursou naquela
hora. Talvez nem me lembro mais de nenhum político. Cachorros assustados fugiam
para as plantações de barba-de-bode. Alguém discursou coisas que nem tinha o
que dizer. Pessoal vivou um espetáculo muito bom de paraquedistas que ora
flutuavam ora aterravam.
Uns caras tentavam sempre erguer
os teco-tecos pela cauda. E todos olhavam e davam risada. Alguns aviões
aterrissando e outros subindo com barulho ensurdecedor poeira levantando na
força do motor. Muitos rugindo como animais pré-históricos.
O bocó do Cabixi tentou puxar a
cauda do teco-teco e nem conseguiu. Os amigos bocós foram tentar ajudá-lo. E
acharam tudo engraçado e deliraram.
Os pilotos os caras pareciam do
outro mundo, um lugar superior, umas pessoas superiores e inéditas de Canoas,
de Fortunas de Minas e Bandeirantes e Gaspar e Três Coroas e Capivari do Sul...
Conquistadores de meninas e garotas e moças com cabelos cacheados ao vento
sorrindo sempre.
Eu tinha pouca muita coisa de
iludir. Uns seis ou sete de minha ilusão. Tinha disposição para subir em
árvores e derrubar pinhas. Nem fazia nada no reino da minha história pacata
pacata. Duas janelas verde-claras abertas espreitando para o próximo capítulo.
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