terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 21




O Mundo Ainda Nem Foi Inventado

Vou ao Rio de Janeiro em junho na baixa temporada, vou pelo rio Dois Rios, vou ao Rio de trem, voo ao Rio de braçada de asa de avião, vou ao Rio de motocicleta, bicicleta, na garupa, de carona, pé ante pé - era o que eu pensava naquela minha alucinação por partir, sair e sumir e deixar.
Caí de tchibum!... no mar. A altura nem tinha importância. Era uma sensação de estar no mar e no mundo e no centro da minha história. Nem nada de cidade grande, capital, megalópole, etc e tal. Era mesmo a pequena cidade do interior. Era assim que sentia saudade do mar sem ter visto o mar. Sentia o mar como todo o mundo ali na cidadezinha sentia, o mar como um céu azul sem nuvens em profundidades e ondas e praias de areias brancas e transatlânticos e cardumes de tainhas e olhe lá.
Me preparei para mais um dia, aceitei sem outra opção, achei que nem mais ia mesmo sair da farmácia, ou seja.
- Está fugindo de quem, Quiriquiri?
Estava falando para um cãozinho vadio, na rua, cãozinho meu desconhecido. E ele me olhou com receio, com humildade, estendeu a patinha com fome persistente, com humildade de pedinte. Passou por mim meio que de lado, andando de lado, olhando de lado, e foi embora correndo fugindo de qualquer jeito. Engraçado e ressabiado aquele cãozinho. Ele saiu de um lugar e foi com toda fé para procurar outro ponto pela cidade pelo bairro pela rua. Como sabia? Procurando sempre, era lógico, procurando o quê. Mas como sabia? E por que saberia? Nascera sabendo, nascera procurando, nascera excluído enxotado.
Depois de muito tempo olhando a avenida Timbira, deixei de pensar.
            A árvore as árvores que corriam ao longo da rua, do outro lado da rua, fila indiana, agora me chamaram a atenção. Nem sabia por quê. E me chamaram a atenção pelo fato de serem simplesmente? Árvores do outro lado da rua e de cabeleira vermelha, que já fora verde, seria branca depois de passar pelo marrom. Elas se perfumavam e se enfeitavam nas estações, araribá-amarelo, paracuuba-da-várzea, craveiro-da-terra, quaruba-branca, paxiubamirim... Se perfumavam de cantos de pássaros. Se enfeitavam se protegiam de peles pelos couros escamas roupas de cascas nas estações.
Às vezes sentia vontade de rir, eh eh eh!... e ria das árvores. Outras vezes eu escutava, ih ih ih!... as árvores rindo de mim. Casas moravam perto de árvores frutíferas.
Um rio Taquari de 20 milhões de litros, uma cidade Aratiba de 20 milhões de pessoas, uma tribo gerém de 20 milhões de anos, um sol de verão de 20 milhões de distâncias, um palácio da Alvorada de 20 milhões de dinheiros.
Era domingo de sol sol atômico sol quente sol fornalha. Calor impenitente, impertinente. Eu queria trocar de emprego, mas nem tinha ânimo, nem tinha formação, nem tinha para onde, nem tinha opinião. Chegava me arrepiar! E precisava comprar uma viagem para Caibaté, um carro para arrastar guria, uma moto, um apê. Uma boa menina merecia um bom carro para passear esportivo conversível competitivo. Uma menina querida merecia uma pizza com fim de semana onde ela gostaria de estar, São Jorge do Patrocínio, Esteio, Barra Velha, Jaquirana, Maracajá...
Passamos, eu e Murundu, no bar do hotel Maués ali junto do posto de gasolina estrada Buarque de Macedo. Uma coisa abichornante. Um bar muito sem graça e cheio de marmanjos que tiveram como obrigação sair correndo de casa. Nem mulher, nem mulher para repartir com os olhos, meu! E o antro tinha uma música de forrobodó, uma tevê ligada na novela bíblica, uma nuvem escura e pesada de fumaça de cigarro, uns tipos de catimbó, um ruído de chiqueiro em noite de baile de corno, bêbados trocando ideias com pinguços e cachaceiros, quase abraçados, trocando tapas nas costas e empurrões e perdigotos e tatibitates. Mas nem respirei fundo, pois saí correndo acelerado e fugindo sem olhar para trás. Pra tu vê, né, meu!
Se D se interessasse por esse seu negócio aqui, ou mesmo pena por um humilde e pobre de mim, será que eu teria tantas dúvidas?, me perguntei. Esperei e ninguém coisa alguma respondeu. Eu mesmo respondi, pequeno e inútil e vazio como sempre e batendo no peito:
- Acho!
E minha paciência tinha limites. E minha infância tinha passado. E Junara tinha ficado onde longe era uma vez capela São Belin quem sabe até hoje. E minha esperança tinha horizontes de corcova e oceanos de risco a lápis. E meus horizontes tinham cidades distantes e promissoras depois dos montes, Santa Cruz do Sul, Joinville, Bauru, Itá, Três Corações, Novo Hamburgo, Três Arroios...
Que é rastaquera?, então me perguntava. Onde vivem os tais índios xirianás? Quem é jacumaíba?, então. Bando manhã de queci-quecis alarido de ilha pra continente tarde de continente pra ilha, uma vez.
O que devia fazer? Se as nuvens eram altas... esponjosas... naves redondas... acima das antenas e dos corocoturis...
Posso falar as praças de Curitiba, as ilhas do arquipélago de Marajó, os rios de Manaus, as pontes que ligam o Recife, os museus da Inconfidência Mineira?
Havia noites que nem precisava dormir, ou nem queria dormir, ou nem conseguia dormir antes das quatro e meia hora de Brasília. Rolava na cama preocupado. Levantava para ver tevê e assistir repetecos tesouros no fundo das Entradas e Bandeiras incêndios no canavial fugas para os quilombos. Nem, nem precisava perder a calma. Procurava disfarçar principalmente na rua na praça no ônibus na escola. E eu precisava saber de tanta coisa... por que de vale do Anhangabaú... por que do rio Roncador... por que dos malali... por que da avenida Presidente Vargas em toda cidade deste país... por que o símbolo de Sergipe ave o sofrê...
Enigmática sorriso nos olhos claros as árvores lhe falavam nem ouvia. Eu nem nada para ela nem talvez. Muito perita em encantos e feitiços e tridimensional. Quando eu era menor queria muito ir a Belém, do Pará. Depois esqueci.
Segunda-feira em mim, em farmácia, em rua, em tudo, importado.
Fazia uma semana que nem via minha prima Mucajaí. Ela sempre disposta e risonha e loira com grampo segurando o cabelo na testa. Veio de onde veio já me sorrindo, dizendo, perguntando, querendo saber, cumprimentando, a mão espalmada no peito como fazem as pessoas de sangue acelerado:
- Como vai?! - sorriso de todos os dentes, quantos.
- Caminhando. Às vezes flutuando.
- Domingo passado agora te vi embargando no ônibus para...
- A gente a turma fomos em a Vila Flores ver umas minas, não quer?! Tinha também festa de igreja e jogo de bola de várzea.
- E tava bom? Quer dizer...
- Depois de tarde choveu a dá-com-pau, é.
Enigmática, um brilho de sol, linda e sempre bonita, a flor de todo o dia, a flor do ano todo, a única desse lado do hemisfério. E sorria para confundir. Surpreendente e esperta como uma flor de orquídea. Inconfundível no orquidário, cor vermelha, vermelha com traços lilases, atraindo besouros, beija-flores irisados, abelhas e zangões. Ela sim um condomínio mimoso.
A noite cobriu o mundo mais uma vez, e dessa vez. O sol descobriu o mundo pela mais outra vez, como a primeira vez.
- Está fugindo de quem, Jacarandá?
Acabara de falar umas coisas para umas formigas em carreirinhas. Elas estavam passando por ali, por dentro da farmácia. Que as formigas dominarão o mundo. Desfilavam pelos rodapés. Intermináveis, indestrutíveis, mutirões, multidões. Avenidas com soldados de prontidão, corpo de bombeiros, para-médicos, indivíduos de apoio, lugar para descansar, cemitério com pedrinhas brancas, estacionamento coberto guarita cancela, supermercado amora-do-mato. Traziam levavam coisas pequenas e pesadas. Conversavam uma língua de antenas elétricas vibráteis irritadas.
Tudo estava certo. Tudo estava avesso. Pois adiantava ter planos? Me parecia que... Que nada de planos, meu!
O mistério estava me consumindo. Nem queria mais aquele emprego. Parar de beber. Ia parar de beber. Parar de fumar. A partir de hoje serei outro, jurei. Nem, a partir de segunda-feira do ano novo.
Fui ao bar-lancheria-loja de quinquilharias do Barbatimão. A família toda lá dele queria aquilo tudo ele a esposa o filho como se fosse o ganha-pão. Eu queria ler o jornal, tomar um chimarrão bem cevado, falar de futebol, olhar as coisas passarem pela rua 15 de Novembro. Àquela hora da manhã nem tinha ninguém, apesar de que sempre apareciam uns vadios, desocupados, encostados, desempregados, aposentados, biscateiros, sujeitos da condicional com tornozeleira eletrônica. Assim-assim encontrei uns velhinhos jogando escova, um real à talha. Dividiam subdividiam como sempre os marupiara os calundu os mururu. Jogavam a manhã toda para perder um ou dois reais ou ganhar um ou dois reais, xingando muito, dizendo um para o outro os impropérios, os ralhos, os desaforos, as maldições o Carão o Coruripe o Japaratinga o Maragogi o Jenipapo o Camurupim. Bebiam um traguinho de losna de funcho de poejo ao butiá até aí pelas 11h e 45min.
Já decidia, então. Ia fumar lá fora na calçada, sentar na cadeira de plástico vermelha da fornecedora de cerveja, cada automóvel, cada figura, cada cão na calçada na rua.
- Está fugindo de quem, Jacumã?
Um caracol movediço na área de serviço ali de casa. Um bichinho muito miúdo e lento e gosmento. Como pode, né! Pequeno do seu jeito e levando a casa nas costas. Duas antenas, andar de lesma, deixando esteira, o peso nas costas. E ia nem se sabe por que ou para onde. E eu que queria navegar voar até as ilhas do Arvoredo, Búzios, Fiscal, Vitória, Santa Bárbara, hein, meu?!
Sonhei aquela noite que subia por uma parede sem o fim. O barranco nem parecia muito alto, mas também nem tinha fim nem começo. Eu ficava sempre subindo sem chegar a lugar. Olhava pra frente, olhava pra trás. Suava uma barbaridade. Me agarrava a uns cipós muito finos, raízes de capoeira, e escalava sem fim. Olhava pra baixo pra cima, pra cá pra acolá, pra setembro pra novembro. Mas nem conseguia completar o exercício. A coisa se repetia, petia, tia... Eu nem subia, nem conseguia concluir a descida. E sempre o susto de cair escorregar lá pra baixo.
Tive um professor que confessou uma vez com a gente em sala:
- É sempre isso, então. Eu decoro três significantes-significados por dia. É. Pego ali no dicionário aleatoriamente, macota, tecó, canjira. É bucha, seu!
Crescia no lugar dos braços umas asas a vontade de asar para qualquer lugar. Enchia inchava o de conhecer muitas praias do Ceará, andar de gaiola no rio Jari, subir a serra do Mar a pé e ficar lá em cima por uns dias e meses, nadar no rio Itaúnas, morar no bairro do Pina. Pensava até em ser um garimpeiro, jangadeiro, seringueiro, ermitão, um caiçara ou praiano. Seria alguém. Seria possível e viável morar numa caverna.
Veio um vento que abanou as folhas das árvores, flu-flu-flus!... cambuins, araçás-do-campo, ipês-roxos, leiteiras, paineiras, imbaúbas... Que quase nada depois, veio um vento que abalou as folhas das plantas, cambucis, angicos-do-campo, mangabeiras, lobeiras, tamaquarés-miúdos, bacuris...
Se eu tivesse nascido nos cabedais e sesmarias. Se eu tivesse nascido no berço de ouro e prata. Se eu tivesse acertado com a loteria quando tentava tentava. Se eu tivesse nascido no Centro de Curitiba, em Aracaju, em Maceió, em Fortaleza, em Palmas, em Barra do Rio Azul... Se eu tivesse nascido em Rio Branco em São Luís em Natal em Papagaios em Estrela do Sul... Se eu tivesse estudado como fez o filho do banqueiro. Se eu tivesse nascido sem a mania de sonhar e ficar pensando e só ficar imaginando fantasiando criando olhando a rua Carneiro Vilela passar.
Três palavrinhas para o nosso professor de redação: filáucia, onusto, jeru, cafanga.
- É, é bucha, meu!
***
Onde eu falei que se escuta esse silêncio que nem deixa dormir:
Na luminosidade e quentura do quase verão lá por outubro de 1989, se me lembro bem, se nem me engano, enquanto os relógios passavam e as horas ficavam, zizizios da cigarra, cochilar do bicho-preguiça, murmúrios do jequitibá, resmungos do murutizeiro, voejares das andorinhas muitas que já tinham invadido as casas com telhado de telhas de barro cozido:
- Ei! Escuta!
- Fale, guri!
Eu o reconhecia de por aí, nem me era estranho, um tipo que fazia vários ofícios e empreitadas e fretes e gambiarras, morava de aluguel em qual lugar, o Guarariba, carro popular alaranjado do ano tal e qual, falava rindo muito alto, às vezes vestido à gaúcha, original de uma dessas longínquas paróquias e comarcas e freguesias do pampa, um dia vi ele com a esposa uma bonitinha dois filhos menores em casalzinho, capinava hortas arrumava jardins podava as plantas, comprava e vendia muambas da fronteira, limpava chaminés e garagens, etc.
- Olha, seu. Nem tá a fim de colocar um adesivo do Zé Curimbatá? É pra vereador, nem sei se você já viu.
- Quem, eu?! No carro?
- É, seu. E tem uns 100 mango. Nem é nada mas são 100 conto, né?!
Pra falar sério e a verdade técnica-prática-científica fiquei mesmo pensando nos cem contos. Era e é aquela nota verdinha ou azulzinha? Com peixe piratinga ou ave sucuru ou cachorro janauíra? Eu pouco tinha contato com aquela notinha que podia me fazer falta uma hora ou outra belezinha e que voltava e ia rápida sempre a calhar.
- Cem pila, meu? Nem dá pra encher o tanque do carro. E o carro nem é meu, é da família.
- É melhor 100 pelego na mão que 100 000 bem-te-vis voando, em, que acha, seu?
- Onde vai mesmo o tal do adesivo? No vidro traseiro? A polícia deixa, nem vou levar multa por causa?
- Que nada, seu! Sem problemas. Isso eu te garanto.
Agora eu já pensava contando com os cem reais na mão e talvez um prejuízo na imagem do carro, lá adiante para com os amigos vizinhos parentes família, tantos assim. Se meter em politiquice, pelo fim ou pelo começo, é sempre uma roubada, pensei, e falei:
- Tenho que vê lá em casa, cara. Nem sei agora o que decidir.
- A gente se fala, então, camarada. Mas, ó... dê a preferência pro Zé Curimbatá, oquei? Faz o favor.
Fiz um gesto positivo concordando e tal e coisa, espionava a folha-de-bolo, xeretava a jacitara-de-espinho-grande, cantava o pintanguá-açu, fuxicava o teiú, adejava o besourinho-de-bico-vermelho, faziam os zunzuns muito as abelhas guarupus pelas bromélias suculentas orquídeas sumarentas de cores verde amarelo vermelho azul.
Poucos dias depois numa ensolarada manhã de sábado. Ali tomando um martelinho no boteco do Gueguê. Pois o Guarariba já me viu. E veio todo faceiro com chapéu de pantaneiro, dizendo:
- Ei! O amigo pensou o causo?
- Pá, nem sei, meu!
- Quantos votos você tem?
- Um voto eu te garanto. É isso. Pegar ou largar.
- Correto! Um no Zé pra vereador e outro no candidato a prefeito na chapa, oquei! São 100 mango, em! Choca aqui!
E o Guarariba me passou bem dobradinha a notinha azulzinha e tal. Apertamos as mãos. Peguei tateei botei logo no bolso. O Guarariba já foi colocar a figura do sorridente e bem penteado Zé Curimbatá “mais empregos e postos de saúde e creches...” em o vidro do carro. Podia servir até para espantar outros candidatos. Pronto. Falou:
- Forte abraço!
- Tá certo. É isso mesmo.
- Tchai!...
- Inté.
Dali a pouco jogou o time do meu coração e pude esticar a notinha e pagar umas cervejas pros amigos. Mas o time nem foi muito bem das pernas da cabeça e nem correspondeu, neres de pitibiriba.
***
Por bem, pois muito bem, eu tenho miríades de parentes e aderentes e tudo mais. Ou seja, prima Grupiara era incapaz de matar uma urutu.
Se estendeu na cama de setembro a setembro, cruzou as mãos sob a cabeça e ficou olhando o teto de madeirinhas em azul-clarinho. O fim do planeta nem seria para hoje, nem amanhã, pensou. O badejo-ferro atinge um comprimento de 90 cm. O peixe-porco atinge um comprimento de 90 cm. A curicaca-de-pescoço-branco põe 2 ovos e mantém 1 filhote por temporada. Leão e seu número 18, multiplicado por 4.
Parente abriu a janela e olhou lá embaixo a rua Abanheém, os carros e as gentes e os cães acompanhando um passo na frente. Ela devia estar pensando que as ruas desembocavam para todas as direções do mundo. Mas nem, leve engano. A partir daquele dia todos os rumos e sendas e betesgas e estradas e atalhos seguiriam para o norte, somente o Norte. Todas as gentes com pressa. E tudo estava dentro de uma lógica razoável, de um enigma esperado, de um mistério certo e reconhecido.
Cidade pequena, como a minha a tua, mas as pessoas nas calçadas passavam com seus cães de estimação, esses azuis, vermelhos, pretos, ansiosos, esgoelantes, resfolegantes. Os cães só pensam em comida. Os cães só pensam em farejar. Os cães e cachorros e guaipecas e jaguapevas acoam em latim. Os cães só pensam em agradar quem lhes dê o de-comer. É isso o que eles pensam e sem contar uns pros outros: os donos passeiam seus estimados e os estimados passeiam seus donos.
Mais alto prédio de Nova Prata, no sétimo andar do edifício Jamaxim, muito alto mesmo. O mar que nem via daqui desde o início do mundo. Açoita-cavalo serve para insetos e beija-flores. Aroeira-de-bugre arbusto para enfeitar calçada de rua. Abajerus para as abelhas guaraipos. Chapéus-de-couro para jardins de apartamentos ou casas ou saguões de hotéis modernos.   
Eu falei pessoas com pressa? Vá lá, vá lá! O sol no lado do céu. O dia quente. Ninguém nos galhos da embaúba. Dos paralelepípedos um ronco de carro, buzina, freada, arrancada, derrapada, guinada e músicas tocando de tudo.
Depois, Grupiara viu a noite interminável, internacional. Uma noite além de qualquer força, imensa vastidão, as estrelas parecendo pequenos vaga-lumes ou olhos de crianças arteiras ou jacarés na noite do barranco. Voltou para a cama e se atirou com tudo, pesada, de comprido, num sonho de tardes de domingo e abraços e beijos e sacolejos e murmúrios.
A rua Presidente João Goulart saía para o norte, eram oito faixas paralelas com canteiro no meio e os renques das árvores da direita da esquerda, seringueiras-tambaquis, tauaris-do-campo, pitumbas, mututis-da-várzea, gerânios-brasileiros, mamas-de-cadela... A lua de prata como desenho de criança, os cabelos molhados, sorriso de cratera a cratera, queixo bem perto do nariz. As nuvens escondendo a lua aqui e ali. O arvoredo espanando a rua a lua aqui e ali. O mar estrelado mais infinito impossível, como um sonho, como uma viagem, como um ocidente, mas um infinito só de ida.
Todos os caminhos da cidade eram no rumo norte-norte. Todos com superioridade, necessidade, falando alto, apontando o futuro e fazendo continência com dois dedos. Placas diferentes se juntavam no mesmo corredor, Espumoso, Arvorezinha, Soledade...
Grupiara nem mataria um bandeirinha-de-rabo-amarelo de aquário. Planta caá serve para sabiás-laranjas e pombas-rolas e anus-pretos e jandaias... O próximo do mundo nem D sabia. A noite furada de estrelas, infinita, são João. Logo logo um vermelho e logo um alaranjado e ainda bem logo um amarelo matinal, uma algazarra de corruíras, arirambas, araguaris, almas-de-gato, encontros, japacanins...
Todo mundo já teve ou pensou ter um bicho de estimação, mico, peixe, sapo, borboleta, gafanhoto, aranha, cachorrinho-d’água, escaravelho...
- Olha, cara! Nem é legal prender passarinho. Fique você sabendo - foi a Grupiara que me disse.
- Mas este é australiano. Importado nem conta. Vai sabê!
- Onde se viu prender o desinfeliz o pobre e o coitado.
- Se eu soltar ele morre de fome, morre devorado, morre de frio, morre de solidão, morre de vergonha, morre de tudo, morre de qualquer coisa, morre de qualquer jeito.
- Só nem pesa é a tua consciência, em?!
- Por causa do passarinho? Aí nem, né!
- Você nem tem educação. Que belo exemplo vai dar ao seu futuro filho ou sobrinho. Pelo menos deveria ter educação ecológica!
- Quem sabe ele vá até estudar ornitologia!
- Taí! Vai te odiar.
Prima Grupiara sentiu suave bem-estar. Olhos imprecisos até nas cores. A guabirobeira serve para pássaros e peixes de rio. O araçá-congonha sustenta as pirapetingas e as aratingas-de-testa-azul e os avá-guarani, indistintamente. Ilha de pedra vulcânica no meio do oceano onde ali uma andorinha-do-mar vai e vem de roçar o bico 1 vez no ano, o imponderável. Podia o mundo vir abaixo numa enxurrada. Todos se encaminhavam para o norte e ora pensando para fora ora pensando para dentro. Todos com aurora, com bocejo, comendo bebendo bolachinha salgada suco de abacaxi na caixinha.
Pronto, lá foi o dia. Pronto, lá chegou a noite. O ar frio veio do mar sideral junto com a noite. O quarto no escuro, janela aberta na noite com cheiro de mar. O mar que os olhos compridos buscaram ali.
Era possível dormir como uma pedra. Prima orgulhosa como as gatas, as felinas, as ariranhas, as caxinguelês, as graxains... Selvagem como as onças-pardas em geral. Esperta como as pássaras pintassilgos em geral. Perfumada como as cunhantãs caiapó-aucre elegantes imponentes.  
Um favor tranquilo e suave e gostoso. Nem seria capaz de matar nem mesmo uma formiga-de-ferrão. Em vez de fazer coisas, olhou, pensou, e planejou. Já era noite e o mar estava no escuro. Pensou, ficou pensando sem pensar em nada, e nem terminou nem o pensamento. O mar ali respirava em silêncio, em infinito, em profundo, em tudo, em mudo. Vinha e deixava em nuvem um nevoeiro uma cerração uma bruma uma neblina.
Os dias iam sendo descartados. A tarde sem vento. O mar ali, e lá o sol. Embaixo os carros, os cães com seus donos, as pessoas em procissão interministerial. As pessoas procuravam. Tinham certeza da viagem. Jacaré vai medir 5 m. Sucuri 9 m, no máximo. Era fácil dizer e difícil fazer o quê? A maior ponte do mundo liga coisa alguma a lugar nenhum.
Parente próxima respirou fundo o ar da tarde. O infinito em ondas monótonas. Sentiu um calor, e depois sentiu foi um tremor subindo pelas pernas. Os gatos são quietos, discretos, azedos, desconfiados, espertos, brigam com os adversários nas noites de lua, gesticulam com dengo, dormem quando querem, soltam pelos no tapete, arranham os estofados, brincam de brigar, sobem no muro e dizem amiiiiim!... Quem quer gato de estimação já tem em si muita paciência. Os cães desfilam como acompanhantes de senhoras e senhores aposentados. Olham o dono como apaixonados, mas são apenas esclarecidos pedintes. Os cavalos de raça soltos no potreiro esfregam as costelas no coqueiro-aracuri. Os casacas-de-couro-da-lama gritam nos poleiros dos palanques de cerca. Tudo apetecia coisa do outro mundo.
Gente houve que já evoluíra do filhote de estimação para o filho, a filha, uns adotados. Mas sempre depois, pouco a pouco mais tarde, foram aprendendo que nem era uma salvação. E revoltaram com filho e bicho de estimação. Na verdade um mistério da reencarnação? Os pais vão ao zoológico de bichos abandonados para adotar filho pros filhotes. Coelho é o 15. Cabrito é o 23.
A primeira vez que Grupiara montara a cavalo no parque Marinha do Brasil. No mesmo dia havia uma cadelinha que levava a vovó toda manhã para passear na pela calçada da rua Dom Pedro II. A vovó pintara o cabelo de verde. A guaipequinha tinha lacinho rosa no topete. A tarde depois perto da noite ainda iluminou o topo dos grandes prédios com cisternas.
E Grupiara nunca foi contra a revolução do grande norte, e nem poderia. Todos iam com firmeza e capricho e pensamento vagaroso. Há donas e donos que só gostam de cães. Se excitam uma barbaridade quando lambidos, quando reconhecidos, quando latidos, quando balançados. Parecem compreender os latidos e respondem com latidos, com perguntas, com respostas, com abraços no colo apertando ao coração.
Ela se olhou no espelho do quarto e se viu como um manequim na vitrina. Parcialmente nublado com períodos de nublado. Ventos, de leste para o norte. Todos tinham a mesma vertigem. Consumidores satisfeitos do mar infinito, da praia com piscinas naturais em meio aos corais.
Grupiara, ao nascer (ninguém conheceu uma Grupiara melhor mais importante), teve lá um seu pequeno brinquedo que respondia por, blim! blim!... Depois, Grupiara ganhou uma boneca de pano chamada Mututi. Mututi foi raptada da corda do varal numa tarde de vendaval. Mais tarde Grupiara foi apresentada a um pequinês de olheiras enormes e focinho úmido chamado Tajá. Tajá se afogou na banheira de espuma. Ainda, Grupiara ganhou um fila chamado Japá que a arrastava nos passeios ao Horto no norte da cidade. Evolução mesmo Grupiara sentiu quando comprou um caro zero chamado Coirana e que pesava várias toneladas. Grupiara se sentiu melhor quando pôde escolher namorados: Louro-Pimenta esfregou as costas de Grupiara e pronto, a conquistou; Louro-da-Várzea quase casou com a melhor amiga de Grupiara (a ruiva Itambé) e se foi se foram para Bagé; Louro-de-Mato-Grosso era professor de matemática quântica, nas aulas que Grupiara dormia, e explicava muito e olhava com seus olhos grandes seu sorriso de canto de boca; Louro-Precioso nem ligava a mínima para Gupiara e o seu telefone sempre dava ocupado; Louro-Tamanco chupava os dedos dos pés de Guapiara e beijava beijos úmidos respingados. Grupiara colecionou um número razoável de namorados e namoradinhos e amigas, inclusive um paraense chamado Louro-do-Igapó que queria levá-la para a Amazônia Legal e ensiná-la a comer caça e pesca no biaribi. Crupiara casou com Louro-Preto, que este lia poesia nos dias de chuva e pintava telas surrealistas no sótão do casarão do avô dele nos dias claros. Evolução de Gupiara nessa altura era conhecer os rios Purus, Negro e Solimões. Então, sim, os filhos de Grupiara: Argirita e Capim Branco. Grupiara reparou em volta, pensou, pensou, casou outra vez, pela segunda vez foi com Louro-Puxuri, que tinha um jatinho para levá-la a qualquer parte do mundo em poucas horas almoçar em Belo Horizonte e assistir filme na sessão das 18h em Guarulhos. Grupiara e Louro-Puxuri tiveram dois filhos: Crisolita e Belo Oriente. Argirita ficou com o carro da mãe e engravidou aos 16 do filho do deputado Nanauí Filho. Capim Branco com a conta bancária da mãe se mudou para a praia de Canoa Quebrada vender suco natural de açaí. Um apartamento em Blumenau todo pago para Crisolita. Belo Oriente, depois de estudar odontologia e largar, estudar engenharia civil e largar, filosofia e largar, entrou para uma escola de samba lá em Uruguaiana - Sociedade Império do Tanatau - e casou com Araçaí a filha mais velha do rei Momo. Macacos sobrevivem por volta dos 20 anos, dependendo sempre basicamente da espécie. Grupiara comprou uma poodle hiper sensitiva de nome Uca, cor original branca. Gupiara e Uca passeavam na calçada da rua Laba-Laba todas as manhãs. Gaviões-azuis vivem em torno de 16 anos em as altas florestas. Minha prima pintou os cabelos de verde esmeralda. E seguia Uca sem coleira que ia pra cá pra lá desinibida cheirando coisas esparsas. Época recente, Grupiara pintou os cabelos de vermelho com manchas azuis e total: arara-vermelha-grande.
Sempre Grupiara estava recostada à parede do quarto olhando o rio infinito, se rio houvesse. Um cãozinho de estimação, tipo salsicha, pode ser a coisa mais linda e inútil que já se inventou. Um cãozinho cor caramelo-queimado, orelhas grandes, focinho catarrento e olhar sem norte. Todos iam bem arrumados. Nome do cãozinho? Nome de índio: Tapuio. Ipê-amarelo chega os 1000 kg/m³ e olho-de-boi chega os 700 kg/m³ e guajará-branco quase nem supera os 550 kg/m³. Tapuio gostava de andar na calçada pelos finais de tarde, farejar como louco, depois parar na praça da Bandeira para comer grama e morder pedaços de frutas jogadas fora. A árvore (uma umbu centenária) no meio da praça erguendo o céu, esbarrando no sol, sacudindo as luas de dezembro a dezembro. Durante o tempo todo o vento e uma ou outra vez a chuva. Canto de passarinhos e pessoas e automóveis e farmácias com balança na entrada. A árvore umbu cheia de lâmpadas coloridas, acendendo a lua e a estrela guia. Os autos seguiam as vontades dos donos para o norte. Todos iam com frieza e magreza e esperteza. Tapuio dormia melhor no quarto, fechava os olhos quando lhe acariciavam a cabeça, rolava cosquento, mostrava a barriga, balançava insistentemente a cauda, parecia amar, parecia feliz com uma bolinha de tênis, parecia nem aí, parecia só pensar em lamber o chão.
Um peso de cem quilos no estômago e a prima olhou para os lados. A janela aberta de vidros corrediços. No fundo o azul do céu, irresistível, irreversível, mar comprido, mar promissor. Um azul magnífico, anil, hino nacional. Um azul imaculado, rápido, barato e com todo o tempo classe clássico classificado. Nada mais de importante acontecia, a não ser a corrida do sucesso para o norte. Todos iam com alergia controlada autoridade mascotes pacotes debaixo do braço.
O ar da noite a confortou confortou. Sentiu sono e quis dormir, muito sono, e dormir, só isso. O cãozinho vinha do passado se enroscar nos seus pés. O mar verde já era de azul. O mar sem fim e o dia a se arrastar até o fim do fim do mundo. Emanciparam a cidade de Aparecida de Goiânia, tirada de Goiânia.
Tantos são os bichos perdidos nas casas! O primeiro galo da manhã. O gatinho no pires com leite. O cão balançando a cauda olhando de lado esperançoso por um petisco. Muitas vozes e roncos e assobios de passarinhos. Casca-de-anta frutifica de outubro a novembro. Caeté-mirim frutifica de janeiro a março. O teto branco do quarto. Ela olhou a rua Érico Veríssimo, onde os índios abaré e os embaiá e os macamecra subiam transitavam solicitando melhores respeitos dos latifundiários. Os automóveis e ônibus para o norte. Todos iam com verdade e controle. Tempo voluntarioso. O arco-íris acrescentou uma nota de prisma ao céu. A tênebra engolia tudo, os carros guardavam seus donos, a rua escoava o trânsito, o imantado o magnetizado norte. Todos iam com ferocidade, velocidade. Prima sentia o coração como se fosse o sino-gravação da igreja. Longa e longa espera por quê.
Aquela minha prima Grupiara nem mataria um papa-moscas-de-topete-marrom. A rua seguia favorável e infalível e infatigável toda para o norte, ou seja, estrada linha 15 de Novembro capela Nossa Senhora do Carmo e funduras. Todos iam com parcimônia, relógio de pulso, roupa social ou fragmentada, escutando sintonizados o jogo do time meu no rádio de pilha. Demorava tanto, era noite constelada. O mar lambia, relambia deliciado a areia da praia infinita planetas e estrelas por descobrir. Tantos andares, quantos metros, uns poucos segundos de queda. As perguntas perdidas no espaço escuro devorador trevoso. Beija-flor sobrevive entre 5 e 8 anos ou até espécies de 16 anos. O 6 é boi. O 4 é avestruz. No fundo do poço a rua Sinimbu conduz todos os autos e todos os carros com seus donos rumo ao nada, rumo ao impossível, rumo à estação de antemão combinada, rumo ao local desabitado.
Então, ela se ergueu, se ergueu sem pressa. Tentou dançar agitando só os braços. Contou os passos pelo quarto. Andou em linha reta, linha reta. Engraçado, pois contou os passos pelo quarto. Os objetos no cômodo. A esperança nem iria mais voltar, pensou.  Mas a janela aberta bem próxima aguardava como um pulo, como um calmante, como uma tevê, como uma viagem pelo sul da Bahia, Ubaitaba, Itajuípe, Una, Ilhéus, Itabuna... Era tudo como se fora do outro mundo. Um outro planeta de outra galáxia querendo entrar pela sua cabeça. O relógio cronometrando apenas um grilo escondido.
O desenho desenho do retângulo. O sol forte, o céu de aço, os prédios parados, as casas paradas, as árvores almoçando agora mais tarde. Os insetos nem se mexiam. Os carros seguiam o de sempre. Os cães guiavam seus donos e donas. Sete-capotes faz a floração em outubro a novembro. Sombra-de-touro faz a floração em maio a julho. Arco-de-pipa-miúdo amadurece em agosto a dezembro. O céu sem motivos, um azul sem nuvens, um deserto calmo meigo sorvete de pitangas. Nem andorinhas, nem aviões, nem helicópteros, nem dirigíveis, nem estações espaciais vazias de astronautas. Nem barcos a vela. Muita, muita luz e óculos escuros. Os buzinaços nem confundiam o amplo silêncio ouro daquele dia também límpido. Se debruçou na moldura da janela, da janela. Os prédios povoavam o Centro da cidadezinha. Lá embaixo um precipício sem volta.
A noite chegou em vão. Noite carregada de estrelas e buzinas e figuras de linguagem. A circulação para o norte. Todos iam com preguiça, mãos nos bolsos, tentando pensar outra coisa. Nomes das coisas, e as coisas no mundo. O tempo apagava os rastros. O giro vazio, prato, tonto da lua na vidraça do céu. Cosmos infinito parecia adormecido, mar interior. O fundo do abismo fascinava, puxava os habitantes dos apartamentos, dos pombais. Anta, 20 anos de longevidade. Abelha, 8 meses de longevidade. O quarto se comprimia em sombras. Como uma caverna, como um casulo, como uma morada de pombos. Como uma gruta com goteiras. Longos braços debruçados na janela. O imenso oceano escuro falava enigmas no escuro. O tempo com seu peso de silêncio. Quer mais? A força que puxava para o abismo. Nada de perguntas. Principalmente, nada de respostas para as mesmas perguntas.
A chuva conseguiu entrar pela janela. Ótimo. Anoiteceu rápido. Os carros na chuva, desfilando de trenzinho, fugindo para o norte. Todos iam com barulho e piloto particular e lanternas acesas, magníficos, despertos. Prima andou pelo quarto nua de mãos nos bolsos. Os cães molhados com cheiro de cachorro molhado. A chuva nem perturbava. Se encostou na parede, na parede. Somente bichos vadios saem na chuva para se molhar, desorientados. Todos iam com vergonha e humildade. Chovia muito na noite e era pouco. Um cão perdido na noite só tem frio, tem frio. A rainha formiga vive 15 anos, em cativeiro, escrava, refém super protegida. Grupiara nunca soube se queria ou se nem queria. Sentiu também que nem havia vagas. A chuva ainda chicoteava a claridade dos postes. Recebia as gotas de chuva na cara. Os carros mais irritados, mais ríspidos, mais buzinantes. O mar perdido, esquecido na imensidão escuridão.
Que o mundo inteiro ia para o norte. Todos iam com decisão, perguntas em série, contas a pagar, cônscios do hoje dia 8 de maio de 1997. Também iam com presunção badalada. Que coisa, que coisa!
O dia amanheceu sob o sol forte, se requentando, se enxugando ao sol. Umas nuvens escuras pintando o mar, espreitando, lá pelos lados de Nova Bassano e André da Rocha. O tráfego comum de carrinhos de bebê e donos com seus animais de estimação segue pela calçada da rua Prudente de Moraes. O mundo nem acabaria sem um bom aviso prévio. Madeira pintada dura de 13 a 15 anos. Plástico dura 100 a 120 anos. Vidro dura indeterminado. Lixo radioativo dura 260 000 a 300 000 anos. Numa terra onde tudo que se planta. Num país de pindorama.
Volto a dizer, Grupiara sentou na cama. Nem escutava o rádio. Se acomodou a olhar os pés, procurar o grilo cantor. Todos os viventes e nem sobreviventes num sono especial. Parcialmente nublado a nublado com pancadas de chuva e trovoadas em áreas isoladas do Estado. Ventos com rajadas oeste a norte. Já se passaram 50 milhões de anos desde que as baleias invadiram os oceanos. Animais quase gente esses humanos, bichos quase humanos esses animais de estimação. As coisas, essas coisas, acontecem todos os dias. Idades limitadas, idades variadas. Justiça nem tarda, nem falha, nem tem hora, seja feita a vossa vontade aqui e no céu. Embora seja uma opinião que toda gente tem... Cada um tem tem mesmo a sua rua. Uma montanha já comemorou 5 bi de anos. A prima querida nem matava nem mesmo uma tatajuba-de-espinho. O quero-quero guincha, o cavalo relincha, o burro orneja, o macaco assobia, a onça-parda ulula, o homem sussurra, a mulher ri. Papagaio dura 80 anos. Formiga dura 20 dias. Todo bicho de estimação se parece com seu dono: no sorriso no andar no olhar no fazer xixi em o tronco da árvore no afrontar no cheirar o próximo. Dono ou dona de estimação e bicho predileto se merecem.
De pequena ela viu os vizinhos com um papagaio que só falava: bom dia!... bom dia!... Lembrou que o papagaio era fêmea e se chamava Ataleia. Encrespava o pescoço, gritava esganiçado, bramava, comia melancia, beliscava pinhão, dizia: bom dia!... E se chamava Ataleia. Ataleia passeava na cozinha, sobre a mesa da cozinha, no encosto das cadeiras da cozinha, no parapeito da janela da cozinha. Treinavam Ataleia para Ataleia subir no dedo andar no ombro em pose de papagaio de pirata. Treinavam para que a emplumada Ataleia falasse: Ataleia!... A papagaia nem aprendia, nem aprendia. Se irritava, ficava arara, isso sim. De vez em quando berrava estridente chamando por namorados. E Ataleia nem tinha licença para voar dirigir carro pedalar na calçada. Ataleia nem gostava de bichos e visitas em geral.
O quarto tranquilamente em penumbra astral, espacial, abissal. Os raros aviões trovejavam na noite, piscavam luzes amarelas ou vermelhas, rumo do norte. Todos iam com saudade, autopiedade, moedas de troco no bolso para a máquina de café quente. Escurecera e esfriara. De repente caiu aquela chuvisquinha sem surpresa, peneirada. As luzes dos carros ficaram mais brilhantes, mais amarelas, mais vermelhas, mais riscadas. Os bons diamantes nem se trincavam mutuamente. Ela já sabia que tudo mente ilude engana. Podia se sentar na cama ou se debruçar à janela. Sentiu outro frio. Na feira livre as frutas se parecem com bichinhos empalhados. Banca de venda de laranjas, abacaxis, jabuticabas, castanhas-do-pará, cenouras, sementes de caxuá-branca, coquinhos da palmeira guacuri, mudinhas de açucena-do-mato. Todos dos dias úteis. Uma coisa sem pá nem picareta. O enigma será decifrado quando menos.
As horas lentamente contadas pelo grilo escondido aqui, ali, debaixo do criado-mudo. Multiplicada a liberdade de acesso. A ordem da natureza, o processo da natureza, a inteligência da natureza, a sofisticação, a beleza, a natureza da natureza. O que se via era puro mundo. A cupiúba até 40 m. A guaricanga-de-folha-larga até 5 m. O macucu-de-paca até 25 m. O biribá até 20 m. A administração de D? O cão e a dona brincavam excitados, ela jogava o porrete, ele corria buscar, ela latia, ele ria com língua pendente babando olhos marrom-claros.
Deitou de comprido na cama, na esteira, 27°C vento NE a 16 km/h umidade de 51%, as mãos cruzadas sobre o ventre, como se tivesse sido mordida e sugada por um chupa-cabra. Treinou prender a respiração como as atrizes fazem nas cenas finais. Como se estivesse numa roupa de madeira. Como se estivesse sendo velada numa gaveta feita de madeira bem polida e bem pintada de verniz. O cheiro de flores murchas, o cheiro de velas acesas, o cheiro de vozes conhecidas, o escuro, o café, a caninha, o cheiro de grilo cicilante.
O dia chegou clareando pela janela aberta e parecia sempre o mesmo dia sábado às 09:12. Algo estranho forte atraía como um ímã os carros para o norteamento norteamente. Todos iam com instinto renovado, certeza, carnês de prestações quitadas, livro de bolso na sacola ou no porta-luvas. Os cães arrastavam seus donos donas até uma árvore. Mas esta cidadezinha nem oferecia trem, nem metrô, nem porto aeródromo aeroporto discoporto. E olha que tinha passageiros! E nem era qualquer lugar. Talvez nem fosse para entender mesmo. Pitangueira de flores solitárias, brancas, hermafroditas, tetrâmeras. Cerejeira-do-paraná de folhas simples, opostas, oblongas, de cor verde-escuras, brilhantes. Tanta coisa que nem se entendia, nem se atendia. Manhã de ar agradável e invisível. Carros passando para o norte. Todos iam com dinamismo, nacionalismo e outros ismos. O sol pontual. Nem havia nada mais normal e anormal e paranormal que o normal. Nem havia nada melhor que o sol pontual. Nem havia o que fazer. A rua Aricapu com muito pouco movimento. Ora, 120 ovos por tartaruga, 1 filhote chega a fase adulta a cada 500 filhotes mortos por predadores e acidentes de percurso. Suspenso no todo alto teto o sol circular climático. Em 12:01 já nos 32°C. O calor entrou pela tarde fazendo todos se abanar.
Ela Grupiara ficou olhando. Uma escuridão sem chão. O fim da estrada, o começo do infinito, a assombração do nada. Coragem para pular. Para pular nem precisava de reis de estatísticas de apostilas de remédios de amigos de datas de procissões. Olhava para baixo, esperando. Se sentia diferente. Galo é 24. Urso é 22. O silêncio consumia o buzinaço na rua. Nem mataria nem mesmo uma jandaíra-preta. Nada estava para entender. Cada coisa tão absurda, né, meu! O que que se sabe, no final? Mero, um peixe marinho, carne melhor, nem pode ser vendida fresca, vem salgada ao mercado, sem ossos, adora raia santa, viva, de cor pardo-amarelada. Bastaria a pessoa viajar um instantinho no ar, deslizar no abismo, e pronto. Ao chegar estaria tudo arrumado, haveria o aparato, haveria o sem engano e sentaria suavemente no banco da praça da Bandeira praça da Alfândega praça Tiradentes praça dos Três Poderes. Em trajes brancos e comuns e folgados, com correntinha de ouro no pescoço, relógio de pulso, cartão de crédito válido até 2001. O araticum-pitaiá até 20 m. O beberu até 30 m. A maúba até 25 m. De fato tudo começou com protozoários esporozoários. Se apoiou no parapeito da janela e como um atleta que se apoia para largar os 100 metros rasos. Imaginou uma espaçonave veloz gigante viajando invisível sem começo sem fim, disco voador oco escuro como uma bala perdida sem ventar indestrutível afora adentro.
Os animais de agrado olham seus donos com apego, com apego, com curiosidade, com fome, com sede, com frio. Os cães de interior têm apego aos donos, os gatos não, os passarinhos nunca, os besouros nem sonham. Às vezes o cão doméstico faz as vezes de dono ou dona e chama a atenção do bípede. Um letrado casado, 3 filhos, tinha um pastor alemão chamado Clavaral. Tinha ou tem, já nem sei. O sentimento sabe empurrar as coisas. O cão Clavaral só comia bife de boi a cavalo. Clavaral nem era um cão ensinado. O dono de Clavaral gostava de Clavaral como se fosse um dos filhos que fez com a primeira esposa. E Clavaral, mesmo preguiçoso ou desatento, gostava mais do dono que de si mesmo. Clavaral era um pastor alemão íntimo da família que gostava também dos vizinhos bípedes. As coisas nem são o que se quer o que se procura, mas o que acontece. Aquilo que almejamos, nem vale. Prolifera o que acontece de supetão. Um lagarto cruzeiro do sul, o único estauricossauro encontrado em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, mora e descansa os ossos mui antigos hoje em dia numa famosa universidade do norte alienígena, longe longe dos pampas do sul aborígene: carnívoro, 2 m, 30 kg, 210 milhões de anos. E poderá haver coisa mais sensacional que o norte do norte? Todos iam com suspensão com assobios com bolsas a tiracolo com bandana no estilo. O homem chora ao se desfazer do primeiro automóvel. Acontece aconteceu que o homem foi feito do nada. A esperança é tão grande quando vemos o mundo saído do nada. Forquilhinha com seus 9 mil habitantes. Itabira com seus 50 mil habitantes. Ielmo Marinho com seus 37 mil habitantes. A esperança até hoje nada no mar com o céu refletido azul ou verde.
Lembrou Grupiara que certa vez num zoológico, crianças e pais irrequietos, todos olhavam macacos-pregos, jabutis, periquitos-da-caatinga, carcarás, emas e seus filhotes. As aves restavam ali ilhadas. Os macacos-pregos comiam sem pressa as goiabas-do-mato e bananas e maturis e mamões. Um gavião-de-penacho, uns quatro deles, com cara de feroz e impiedoso, piava e estrilava sem ter o que fazer, depois jogava com a cabeça para trás, como se fosse se suicidar, e gargalhava histérico. Um pequenino lago com saracuras, seriemas, tuiuiús, ratões-do-banhado, repuxos de água. Os bichos ali nem davam importância às pessoas. Olhavam se olhavam os eretos sem interesse. Povo alfabetizado e com roupas coloridas, óculos de grau, mãos nos bolsos braços cruzados roendo unhas. Imensas gaiolas debaixo de árvores frondosas, jambeiros-bravos, painas-do-arpoador, iricuranas, tamanqueiras... Tigre é 1. Peru é 2. O galo canta na madrugada, e depois outros em escada rolante. Festas de fim de ano matam o gado, porcos em postas, galinhas em panelaços, bois em mantas, dourados em filés. Os humanos comem animais e bichos de todo jeito. A pressa e a dinâmica do ritmo. Os humanos comem tudo que respira ou respirava. As 30 mil andorinhas engolem exterminam 2 milhões de insetos, diariamente, 60 a 80 cada uma: estudo da UFSC e principalmente das cabeças pesquisantes dos alunos da turma, uns parabéns!, do professor Igaci Tamarana.
Nem havia nada escrito sobre o que se podia fazer, Grupiara? Era tarde, tão tarde. Cochilou de janela aberta e escancarada. A rua parecia trilha de formigas num trânsito interminável e ocidental onde as gentes e autos iam rumo do norte. Todos iam com acompanhamento, com estepe, com bagagem, com água mineral, com jornal da manhã, creme suave para passar nas mãos e deixar um cheirinho agradável macio. Estrelas buscavam os lugares do vácuo. Como uma lagartixa, ela se encostou na parede, olhou o céu, olhou o mar desinibido. Parar isso tudo nem se podia. Umas vezes parecia que sim, em outras já achava que nem. Os gatos já passam por bruxos, magos, deuses, heróis, rabugentos, melhores felinos. Bom se todos fossem feitos de pedra. E se ela fosse curiango voaria janela afora sem pensar sem sentir, apenas de braços abertos, joão-de-barro, quijuba, barulhento, tchintchorrintcho, sabiá-da-mata, assobiador... Mas um pássaro tem menos tempo que uma mulher. Ovelha é 10. Cervo é 5. O tempo nem acaba nem começa nem anda nem desanda. Cearadáctilo, 66 milhões de anos, 25 kg, 5.5 m de asas abertas, carnívoro apreciador da fauna marinha, lagarto voador ou dente do Ceará, foi encontrado no Ceará, que os do norte alienígena chamaram de paraíso dos pterossauros. Palmas e vivas!, pois hoje ele revive ainda seus ossos expostos num museu do norte alienígena distante distante do museu aborígene onde podia e devia ser estudado. As pessoas absolutamente se sentem atraídas pela desossação e descoloração e descontinuação do abismo. Vão com tudo sempre para sei lá onde desde que haja buraco poço perau caverna sumidouro barroca precipício atolador. 
Olhou o mar dentro dos olhos. O mar de sempre. O mar do nunca, do nada, do fundo perene pedreira. Os periquitos-maracanãs chamam a atenção, espigaitados, mesmo daqueles que nem costumam perder tempo com bichos de nenhuma utilidade.  Olhava o mar havia assim já vários anos. Uma barbaridade. As aves, em bando v, voltando para o norte. Todos iam com certeza, com espreguiçadeira no capô do carro, com banho tomado, com camisa esporte, com último salário na conta. O mar pareceu verde, talvez azul, quem sabe as algas. Continuavam os homens com jaguapocas na guia, continuava o mundo. De um jeito ou de outro, o mar lambia a areia, e se exercitava muito, ondas indomáveis, parecia querer seguir com a procissão, seguir eternamente. Veado é 7. Porco é 13. O mar então é mais ou menos que nem um ímã.
Quando a hora de Grupiara fosse chegar, chegaria, eu aviso. Era mesmo um pau de arrasto morro abaixo. A noite nem silenciosa com as buzinas na corrente sanguínea da rua Corumbá de Goiás. Uma mãe tinha um filho e uma árvore. A árvore no quintal da casa era a canela-sassafrás. A mãe abraçava o filho abraçava a árvore todas as manhãs chuva ou sol frio ou calor. Morro da Fumaça com seus 5.6 mil habitantes. Guararapes com seus 60 mil habitantes. Passa Quatro com seus 32 mil habitantes. O pajé Tiju da tribo pirarrã sabia, a mãe sabia, a vizinhança sabia dos poderes da canela-sassafrás. A mãe, dissera:
- Então, a vizinha quer uma casquinha da minha canela-sassafrás? Por enquanto.
- Sim. A canela é indicada contra a gota. Faça desconto e obséquio.
- Só isso, vizinha? Por hora.
- Claro que nem. Seu filho é um preguiçoso. Nem se vê e nem se viu igual ou pior?
A mãe, falara:
- Com o que a vizinha quer um talho da minha canela-sassafrás, então? Por dia.
- Pois é. A canela é indicada contra o reumatismo. É o que dizem. É o que nem negam.
- Assim seja, vizinha. Por hoje.
- Ah, tem outra. Seu filho nem vai bem na escola nem trabalha. É um usufruto.
A mãe, debatera:
- Por que a vizinha precisa então de uma farinha da minha canela-sassafrás, hein? Por tudo.
- Ora, a canela serve para curar da sífilis. Sacode a poeira, mauê-mauê, e dá a volta por cima.
- Com que, então. Olha, essa eu nem sabia. Todo dia é dia de aprender e coisas novas e boas. Por D.
- Pois, a bem da verdade, e verdade que seja dita na cara a cara, seu filho é transviado. Nem tenho papas na língua.
A mãe, conversara:
- A vizinha vem buscar da minha canela-sassafrás. Quer muito quer um naco de seiva? Por favor.
- Venho e digo mais, sua canela mede 25 m e frutifica de abril a junho. Conforme a região, de junho a dezembro. Os índios quiriri fazem até canoas mui velozes. Os índios jaicó fazem tacapes mui zuinadores.
- Eu sei. Por isso mesmo. Por esporte.
- Mas fique sabendo que seu filho é um come-dorme e de primeira. O tal e qual lesco-lesco nem passa perto do gajo.
A mãe, murmurara:
- Que que trouxe a vizinha aqui perto da matéria-prima da minha canela-sassafrás, afinal? Você repara em tudo, nem é? Por baixo.
- Sua canela de estimação a qual aponta suas flores de dezembro a fevereiro. Conforme a região, de agosto a setembro. A índia Pariparoba dos jamamadi gosta e costuma usar no cabelo.
- Então, nem está certo? Está concorde. E bato no peito. Por cima.
- Será que seu filho terá mesmo dinheiro para morar em Recife ou Olinda? Acho que nem precisa me responder. Eu conto outra.
A mãe, discutira:
- Nem sei por que a vizinha quer e precisa tanto da polpa da minha canela-sassafrás, então?! Por dinheiro.
- São as dermatoses, são as intoxicações metálicas. Procuro pesar antes de acontecer tal e qual coisa.
- Melhor que remédio de farmácia. Melhor que garrafada. Por tudo.
- Com isso o que, então, seu filho nem leva nada a sério, falei! E ainda por dita bebe destilados e fuma da erva daninha. Tô avisando apontando e nem cobro nada.
Bateu no peito Grupiara e disse consigo: é comigo o negócio! Os desassossegos se prolongavam para sempre em calafrios, em arrepios intermitentes. Depois do fim do mundo sobrarão as formigas, sobrarão as baratas voadoras, as estátuas de bronze, os pneus de toda espécie. Nem matava nem mesmo uma codorna-mineira. Burro é 14. Pomba é 19. Um dia o sol também cairá. Como as taiobas os ingás-doces as canas-bravas os capins-flechas... o sol penderá para o norte. Todos iam com vontade de olhar para trás mas resistiam nem olhavam. O trem lotado como sardinhas em lata, rumo do futuro. Todos iam com o pensamento da frase redonda. Os demagogos os nacionalistas os populistas os entreguistas os fisiologistas. O bacurau-tesoura até 40 cm. O tié-galo até 15.5 cm. Pterossauro entre 225 milhões e 65 milhões de anos. Caminhou pelo quarto, zonza, esquecida, as mãos às costas, os cabelos farinhando ao vento. Fechou os olhos - que goupias cheirem flores novas abertas gostosas -, a cabeça rodou tontinha.
Grupiara nem tinha como sair do quarto. O sol nem tem falhas. O mar independente. A tevê no chuvisco. A prima adorava jogar no bicho e escolhia o bicho do dia. E olhar os bichos do zodíaco. E seus animais favoritos. Tentou abraçar a parede, assim como as lagartixas também conseguem. E olhou lá fora, pela janela quadrada. O jogo de cartas marcadas. O lado mais fraco dessa corda que estava para arrebentar. Número 3 é cachorro. Número 8 é cavalo. Número 9 é gato. Muita gente fina gosta de hípica e cavalos crioulos e cães de raça e bois zebus e pássaros curiós. Na memória a papagaia dos vizinhos só fazia repetir: bom dia!... bom dia!... A rua imantada, puxava sempre para o mundo da chegada. Então, a cidade já sem um mínimo de segredo. Peixes de aquário com luzes internas, fosforescentes. Nunca se está pronto. Que bicho dará no bicho?
De parcialmente nublado a nublado. Possibilidade de nevoeiro ao amanhecer e névoa úmida ou seca no decorrer do dia. Temperatura em baixa. Todos lá íamos nós para o mesmo norte. Todos iam na frente e sempre, uns cantando outros dançando, mais cantando poucos dançando. A mulher apresentou, cheia de alegria e longos cabelos lisos e unhas das mãos compridas e pintadas, a sofisticada cachorrinha para as madames conhecidas suas amigas de hípica. Era um tipo malhado de estirpe de dálmata fêmea. Muito tímida, esguia, 6 meses, comportada, quase nem latia, limpa, limpíssima, entendia de turco de camaronês de tailandês uns olhos azuis suaves e deliciosos e contemporâneos. Dálmata de nome Carbonita e tão jovem que nem sabia que havia mundo e outras coisas como outros cães cadelas patos preás tatus-bolas jundiás caranguejos mamas-de-porca macucos. A mulher disse que fazia esforço para fazê-la latir, acoar, ladrar, ganir. A cadela lambia os queixos das comadres, madames, senhoras, senhoritas com penteados caros e tiaras brilhantes mais caras ainda. As comadres chamavam a cadela de “Menina”. As senhoras tinham bolsas de couro fantasia de bichos fantasia em extinção. As primeiras amigas beijavam a cadela na boca. Outra comadre acariciava a cadela nas ancas, e a cadela se encolhia, confundida, talvez com receio de ser violentada. Cadela inocente, fácil, educada, lambia o batom nos lábios das amigas, fazia cocô na hora certa na suíte própria particular toda pintada em azul-claro. Um vira-lata que passou ali, sem percebê-la, sem cheirá-la, sem pretensões, e ela já se interessou, farejou, esbugalhou. Mas nem latiu, e o vira-lata se foi quando sempre cheirando os pés de sapatos pretos dos ministros senadores executivos. A mulher abraçou a cadela, trouxe-a para o colo, e a beijou na boca todas às vezes e balançou, nhã-nhã-nhã!... A cachorra lambeu o rosto da mulher, rabo entre as pernas porque as comadres lhe acariciavam as ancas, a barriga, as costas, debaixo do rabo, as pernas, coisa muito sensual:
- Que princesa linda da madrinha!
Na tarde a brisa então entrava pela abertura lateral, 23°C vento SE a 3 km\h umidade de 70%, o sol brilhava, reverberando no metal dos carros na rua Clarice Lispector. Pessoas a pé na calçada os carros para o norte os raios uv. Todos iam com esportividade, com bermudas e sem camisa, com sandálias de couro ou borracha, com boné do time escolhido lá na tenra infância vendo o pai torcer. Ela olhou apertando os olhos. Lembrou aquela vez no zoológico, fora conhecer o zoológico de Sapucaia do Sul, e depois nunca mais. Percebera que os felinos a olhavam com atenção e interesse gastronômico, interesse felino, interesse demorado, interesse quieto e atento, que diziam volta e meia lá entre eles, cachinando: vou papá-la. E cla-cla-clá!... com as orelhas. Os predadores farejam que humanos são de carne e osso comestíveis sangue quente e suor frio delicioso. Cheiram e escutam e morrem de apetite o correr do sangue, a comida caminhando por perto, a carne acesa falando besteira a papa arriscando bem ali por perto só a gradezinha pelo lado de fora tirando fotos. E só esperam o dia do prazer esperneando na hora h. Babam e choram sentindo o cheiro do sangue nadando em açúcar. Passam a língua pelos beiços gulosos, suspirosos, imaginosos, babosos, peludos. Uns até se sentem mal, passam mal e urram, sempre de água na boca, bramam, esgravatam o chão, batem os dentes em febre, e se atiram com tudo nas grades. Jogos dos bichos: 20 é elefante, 21 é girafa, 25 é águia ou harpia.
O mar atemporal deitado em berço esplêndido. Fazia muito calor, e ela suava na pele morena. O mar profundo nem estava para peixes. Uns eram mais conhecidos que outros: peixe-elétrico, peixe-espada, peixe-boi ou guaraguá, com cabeça de terneiro e cauda de abanador, espessa camada de torresminho, pasta na beira do rio e atinge 2 e mesmo 3 metros ou 2 mil quilos. Aviões da força aérea brasileira faziam manobras e já iam na frente. Agora estavam ainda os comerciais das refeições servidas a bordo. Os tingongos-do-campo ornamentavam a cidade, madeira leve e clara usada em canoas, aeromodelos, tamancos, gamelas, aliviam inchações, flores solitárias de cor rosa forte até quase branca. A lua navegava em oposição ao surpreendente e inconstante urano.
Era uma manhã de ontem anteontem trasantontem, total: Grupiara. Os gatos tinham preguiça de caminhar na procissão para o norte. Todos iam com boné na cabeça pala grande tapando aparando a luz. Papagaios, ou tais bicos-redondos, são muito próximos dos macacos. São tipos que imitam o homem, tiram lições do ar livre ou do cativeiro, sentem afeição e são dedicados, sentem ódio e são rancorosos. São belos no ar e desajeitados no andar em terra. Andam de pernas secas abertas como patos e nem são patos marrecos gansos, são papagaios. À noite a prima perdeu o sono. Nada nada poderá ser adiado do dia certo aprazado e da hora marcada. O fundo do mar tem petróleo, tem pré-sal, tem peixe cego. Maravilhas com seus 3.8 mil habitantes. Paraopeba com seus 18 mil habitantes. Lá muito na frente o pavor será grande e de tudo dar em nada. Por que ir tão longe? Plantando para sobreviver e enganar o tempo. Ventos, leste a norte fracos a moderados. A papagaia falava: bom dia!... bom dia!... E tinha asas de libélula. O gaturamo dura até 13 anos. O café-do-mato até 6 m. Marte, seu regente, inspirado por netuno, fazia sua freguesa impulsionar e se atirar e se abrir às intimidades. Quando e onde. O de sempre.
Era uma boa moça? Os sabiás-laranjas se apressam em fazer os ninhos, os ninhos. O azul olhar do mar azul-verde. Os gatos mantêm a paciência da preguiça, do miado, do felino, do pelo brilhante. O grilo dormia atrás do quadro das torres de Torres na parede. Eram poucas as aves que se arriscavam a chegar tão alto, até a janela. O 16 é macaco. O 17 é tatu. O 12 é camelo. Como desleixar tudo e continuar negociando, e perder um pouco de tudo e deixar de ir a Roca Sales, Chapadão do Lageado, Campina do Simão, Santa Maria de Jetibá, Baixo Guandu... Com os cabelos verdes tinha ela o encanto ingênuo de Nossa Senhora Aparecida. Tapiretê como os índios aracadaini chamam a tímida anta.
Manhã cedo de típica primavera a rua João Pessoa continuava no trânsito engarrafado. As pessoas saíam arrastadas para o trote com o cão de estimação. Cães reconhecem cães, e se detestam recíproca e mutuamente. O céu azul metálico, pleonástico. O mar podia tudo e muitos peixes, peixe-gato, peixe-lenha, peixe-lua, peixe-martelo, peixe-folha, peixe-agulha, peixe-morcego, peixe-voador... e tudo que era peixe. As mulheres eram presas fáceis no meio da procissão para o norte. As jataís zuindam. Todas iam com doçura, com dengo, com salto alto, com perfume de aroma, com cintura apertada, com canções novas na mente. Os jatobás-do-campo frufruam. No meio da multidão e do tumulto, as mulheres eram a caça mais cobiçada mais macia mais estética. Os nhapis trinam. As mulheres se enfeitavam de loiras de rastafári de turbante. Os anus-da-serra assobiam. As solteiras vibravam uivavam erguiam os braços acima da cabeça. Os periquitos-reis bradejam. As gurias emprenhavam. Os tietês solfejam. As senhoras sentiam o maior orgulho nisso: povoar o vazio, sobreviver ao nada, continuar o porvir da espécie, multiplicar por multiplicar.
Da sua janela predileta, Gupiara contemplou a nuvem caravela. Talvez o futuro tenha de ser povoado de bichos que falam, e homens que calam. Catuaba-do-mato é bom para fortificar. Quebra-pedra é bom para rins e bexiga. Sapupira-amarela serve bem para fabricar barcos e navios. Já os peritos e espertos faziam parte do jogo. Para que isso. Por quem isso. O que fazer de tudo isso. Prédio com 5 andares. Casa com 12 janelas. Caminhão carreta com 23 pneus. Ela nem reconhecia a cidade, as ruas, os bichos do jogo. Todos para o mundo do nem chove nem molha. Todos iam com unhas azuis e cabelos ao vento, uns nem com roupas quentes. Brancos como os olhos cegos de luz.
Ela finalmente Grupiara estava fraca, fraca. As ideias muito próximas umas das outras. As ideias muito quentes e ruidosas. A cabeça com dor de quebra-cabeça de peça perdida. Os olhos soçobrando. Era assim que o mundo acabava? E escorregou da parede. E bateu com tudo na árvore. E suou frio nas palmas das mãos e nas solas dos pés. E a boca cerrou fortemente rangendo os dentes. Foi caindo caindo como um saco vazio raspando escadaria abaixo. Nem se tem certeza, mas é assim que o mundo acaba. O rosto dela já petrificado. Envelhecera 2 anos em 1 minuto. Nem conseguiria fazer tudo de novo, se preciso fosse. Os 80 km quadrados da reserva dos nhandeva. Os 200 km quadrados do território dos ticuna. Os 230 km quadrados da área nativa dos macu-camã. Os 188 km quadrados do parque protegido dos caxinauá. E grunhiu para si mesma no último andar do prédio de janela para o mar silencioso hospitaleiro:
- Se ele me perdoar, e eu o perdôo; se ele me quiser de volta, e eu o quero, volto pra ele ainda hoje agora mesmo já neste instante, e amem!
***
Faz um tempo enorme que nem pego o livro o meu livro predileto momentâneo para ler. Fico sempre na tevê, ou gibi, ou revista de futebol com mulher nua na página central do meio. Faz tempo que nem passo da página vinte do Marafa de Cruz e Sousa, peripécias façanhas estratagemas proezas assombramentos tretas sagacidades.
E é daí mesmo quando me vem assim essa lambança boa. Inauguração do aeródromo do Prata. Centenas de aviões, teco-tecos e bimotores, muita gente e muito motor rugindo e muita poeira no ar. Todo um dia. Um dia de céu aberto e vento enrolado, vento descabelado, vento levantado em poeira vermelha.
E tudo festa e festivo e festival aéreo. As pessoas invadiram o campo da aviação. Parecia que meia cidade, crianças, velhos, moças, cachorros, estava bem perto de grande multidão.
Tinham hasteado as bandeiras, cantado o hino, gritado vivas, aplaudido. E alguém sempre discursou naquela hora. Talvez nem me lembro mais de nenhum político. Cachorros assustados fugiam para as plantações de barba-de-bode. Alguém discursou coisas que nem tinha o que dizer. Pessoal vivou um espetáculo muito bom de paraquedistas que ora flutuavam ora aterravam.
Uns caras tentavam sempre erguer os teco-tecos pela cauda. E todos olhavam e davam risada. Alguns aviões aterrissando e outros subindo com barulho ensurdecedor poeira levantando na força do motor. Muitos rugindo como animais pré-históricos.
O bocó do Cabixi tentou puxar a cauda do teco-teco e nem conseguiu. Os amigos bocós foram tentar ajudá-lo. E acharam tudo engraçado e deliraram.
Os pilotos os caras pareciam do outro mundo, um lugar superior, umas pessoas superiores e inéditas de Canoas, de Fortunas de Minas e Bandeirantes e Gaspar e Três Coroas e Capivari do Sul... Conquistadores de meninas e garotas e moças com cabelos cacheados ao vento sorrindo sempre.
Eu tinha pouca muita coisa de iludir. Uns seis ou sete de minha ilusão. Tinha disposição para subir em árvores e derrubar pinhas. Nem fazia nada no reino da minha história pacata pacata. Duas janelas verde-claras abertas espreitando para o próximo capítulo.


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