Elã
Eu
estava... nem sabia onde. No meio de um povo? No interior de um fogo cruzado. Num
lugar reservado? No meio do mundo. Nem sabia. Para mim mesmo, continuava sendo
um lugar anônimo e incomum. E com quem? Também nem sabia. E pior, eu estava brigando
com um dinossauro um mapinguari. Um famigerado sem cara nem alma. Eu brigava
com um tipo louco qualquer um demônio um monstro um robô. Tipo briga de rato porco
cachorro graxaim e o diacho a quatro. Até o fim da terra e início do mar, até o
fim do mundo e início do universo. Logo, porém, o inimigo arrumou um sócio e eu
fiquei sozinho lutando contra três. Ah é, é?!
Foi
aí que eu corri. Os dois inimigos perpétuos atrás de mim e eu correndo como um
desesperado, e como um desgraçado, um perdido, e como um condenado. E eu corria
pela calçada de uma cidade grande estranha inimiga. Eles no meu encalço. Dois
contra um eu ia ser logo alcançado e esfolado e destroçado. A rua estava
povoada ou deserta? Nem fazia diferença. Nem me lembro. Nem vinha ao caso.
Uma hora me
cercaram e tive que lutar pela minha permanência entre nós. Vi a morte ou as
fraturas por todo meu corpo muito próximas da realidade, muito expostas à
realidade. E lutei contra os dois mundos imundos controversos. Quer dizer, naquela
horinha eu achei que lutava. No sonho eu lutava ou queria acordar. Me debatia
como um chiru índio velho de guerra que nem foge à peleia. E no sonho mesmo era
tudo muito próximo e violento e indesejável.
Me
safei dos dois amigos da onça e corri mais e mais campo afora. Andei pela linha
do trem me equilibrando no trilho. Aí, chegou o trem e pulei em cima do vagão.
Era uma maria-fumaça dessas que ainda existem nos caminhos de Espírito Santo para
turista ver. Subi no teto dos vagões de passageiros para me esconder melhor. Que
nada. Os caçadores de gente me descobriram me cercaram e vieram no meu encalço.
Sorte que eu era o mocinho o macanudo. Pelo menos isso me parecia. Azar que
isso nem era filme para cortar na hora h. Na ação me pareceu tão real! Conto
porque foi mesmo um sonho. Mas deixa estar.
E
os dois na minha perseguição na minha cola. Eu fugindo porque nem podia brigar
contra dois bandidos ao mesmo tempo. Como é que sabiam onde me escondia? Aí,
então, sobre o teto dos vagões de carga, com o trem andando, os dois inimigos figadais
me cercaram e ao mesmo tempo. O trem andando, a paisagem voando, de um lado um facínora,
do outro o outro capanga. E eu entre tudo aquilo sem saber o que fazer, sem
poder aproveitar a paisagem, desarmado, e um gaúcho a pé. Pular do comboio nem
era possível, nem me ocorreu, poderia me machucar gravemente ficar rengo pra
sempre ou até morrer de febre amarela, nem me lembrei de tentar pular nas águas
do rio Carreiro do rio Mambucaba. Enfrentar os dois guaxos nem dava conta.
Então? Que fazer, meu?!
Acho
que o sonho foi tão longo longe que acabei me desinteressando dele. Obrigado. E
nem me lembro da continuação se era uma série. Sei que ainda nem conheço o
sertão de Minas Gerais e Cuiabá e Gurupi e Sorriso e Esperantina...
*
**
A
cidade de Nova Prata tinha em 1990 os 18 mil inquilinos para os sicranos, 20
mil habitantes para os beltranos, 25 mil almas para os fulanos. Somando
dividindo por 3 total: 23 neopratenses, autóctones e ou adotados.
Eu
me perguntava naquela ocasião, me perguntava naquele dia, naquela hora, naquela
estação desta região serrana: a minha vontade está nesse mundo? O meu caminho
está nesse planeta? Pode ser Candiota, Hulha Negra, Aceguá, Rio Grande do
Norte?
Chegou
ali na farmácia um tipo de alcunha Tapiti. Disse que era pintor de retratos e
de paisagens.
-
Conhece alguém que queira pintar o retrato?
-
Eu nem.
Ele
queria pintar retratos e esse era seu ofício ou profissão. Disse que era
natural de Quixadá ou Maçambará ou Confins ou Belém de São Francisco... Mas que
viera ontem mesmo passando por Fagundes Varela e onde fundou um atelier.
Pintava retratos de corpo inteiro, pintava paisagens, naturezas mortas e o que
for.
Aí,
entrou a intrépida acelerada Pirapitinga. Ela veio comprar uns comprimidos para
a vovó, dona Catanduva. Solicitou o pedido, eu fui atender. Enquanto isso o
Tapiti pra ela:
-
Conhece alguém que queira pintar retrato ou uma paisagem predileta?
Pirapitinga,
dois bicos de seios apostando em o por vir e apontando debaixo da camiseta,
ficou em estado de choque estarrecida olhando assustada. Os olhos cada dia mais
claros. Mas ela já tinha mesmo cara de assustada. E ficou olhando o pintor como
se o cabra estivesse no horizonte. O pintor ficou admirando a guria. Ficaram
assim. Ela olhando o artista e pensando. Ele olhando a gostosa de corpo inteiro
e imaginando se imaginando e imaginando o que ele bem quisesse imaginar. Eu
cheguei no balcão com o remédio da avó. Pirapitinga quis saber melhor:
-
Oigalê!... Como é que é, como é que é?
-
Eu sou pintor de retratos, pintor de paisagens, pintor de nus artísticos,
pintor de naturezas mortas, etc., e eu desenho e pinto o que for.
Pirapitinga
já queria saber mais:
-
Mas, bah!... Quanto custa?
-
Pechincha.
E
o andarengo Tapiti acertou pintar um nu da Pirapitinga. Olhou ela de cima pra
baixo de sul para o norte e imediatamente, com beiço para fora, sentenciou:
-
Guria mui prendada. Caso de começar amanhã mesmo. Claro que serve, hum!...
Contingentes
foram os ventos as nuvens. O rio passava contornando arrodeando. Das ordenações
vindas diretas abriram dias claros de sóis e outras nuvens pinceladas conforme.
Feixes de raios luzes em espectros de cores. As testemunhas foram muitas e as
comuns os pássaros árvores automóveis programas de televisão.
Todas
as tardes Tapiti chegava na casa da avó da Pirapitinga, enquanto a avó dormia a
sesta, e pintava o nu em pelo da Pirapitinga. Foram algumas tardes e tal. Eu
mesmo sapateava lá dentro da farmácia imaginando, olhando pela janela,
excogitando, escavando o chão feito um touro bravo, e tudo por medo, por ciúme,
por ansiedade, inveja, despeito, por nem sei mais quanto quê. Eu até respirava
de boca aberta igualmente um cusco esfalfado.
Depois
de duas semanas Tapiti terminou a pintura. Pirapitinga atendeu minha
curiosidade e trouxe a tela enrolada e enorme e retangular, corpo inteiro
topografia deitada sobre um divã. Desenrolou na minha frente com amplos
detalhes, demorados pormenores, cuidadas pintinhas espetaculares, carecendo
ainda de uma boa moldura. Um mapa do tesouro da montanha ao vale. O caminho das
índias ocidentais orientais. A lagoa Mirim preservada com a intacta mata
ciliar, etc., e “me vou embora para Pasárgada...”
Eu admirei a fantasia
dela e tal, falei, cuê-puxa!... estendida de corpo inteiro, muito cabelo
comprido, dois bicos de seios apostando no por vir da humanidade inteira. E ela
rebateu um grito de sapucai:
-
Quibibiu!... O que tou a fim de fazer eu vou e faço, e pronto.
Tá
certo!, pensei. Eu nem tinha nada com o peixe lá dela e seus pertences e a ilha
do Fogo e seus parabéns.
***
Íamos
para o fim do ano letivo. Nem sabia se tinha ânimo de passar de ano. Seria bom.
Mas seria bom muitas coisas, nem só passar de ano. E por falar em fim de ano, a
Enigmática estava num muito bom do alto astral. Ela nem podia deixar de dar
suas boas gargalhadas, mexidas de cabelo, badalos de rabo de cavalo. E dava
gosto mesmo olhar e chegar perto da alegria dela. E todos achavam muito
engraçado, agradável, interessante. Pessoa bonita famosa influente e o que mais
tudo de bom.
Eu
nem tinha Enigmática, queria Enigmática, nem nunca mais ia ver Enigmática. Mas ainda
Enigmática nem estava toda hora comigo e quase sempre longe distante isolada das
minhas mãos. Eu merecia Enig, mas ela bandana na cabeça tinha lá com ela diferentes
ideias e planejamentos.
E
ela ria de quê?, como sempre. Uma doce alegria de energia sincera.
O
rio o rio Pajeú se desdobrava corrente para que tudo saísse pontual conforme
contento.
***
Então, eu
estava ali no clube Imperatriz Leopoldina esperando as voltas do mundo, as
voltas do bobo, e que rumo seria esse ou aquele que me vou?, quando me aparece
a amiga Bicuíba-Cheirosa. E avoquei:
- Ei, guria! Vem
vamos tomar um chima!
De
pronto nos abraçamos com entusiasmo com estrondo e satisfação de longa data eterna
de espera. Grandes peitos que lhe davam uma caixa, meu! E falei pra ela a dois
centímetros dos meus lábios molhados de quentura e ternura e carinho e carícia
por carecer:
-
Conte seu vínculo profundo com o pago a querência o rincão, guria!
Vai
daí que Bicuíba-Cheirosa foi me contando, me revelando, e na língua dela, e os
braços dela altos fazendo mil voltas em torno dos empinados seios, e me dizendo
tudo que tinha se passado, listas ou relações, mangas curtas e axilas raspadas,
e o que ainda pretendia:
- D fez do
mundo uma história escrita nas estrelas. Um lugar como quase talvez brincadeira
de roda ciranda. Uma tábua de xadrez. E um sinal de fumaça com um escolhido prisma.
Bicuíba-Cheirosa
parecia uma chirua muito mudada de lá pra cá, de cá pra lá, daqui pra ali.
Parecia mais uma praticante de ioga que uma amada-amante, mais profetisa que
filósofa:
- E D criou a
Bicuíba-Cheirosa, a protagonista. Me escolheu a dedo. A protagonista
convencida. Se eu contar o triunfo que eu ultrapassei! A protagonista que, no
mesmo dia, ri e chora e murcha.
Logo em
seguida fez uma carinha de pureza extrema, um muxoxo, um biquinho retorcido
para o lado. E ela ainda me disse, segurando a minha mão, bom juízo, segurando
o meu ombro, o meu pulso, os meus dedos desta mão, segurando meu queixo, pronta
para ler minhas linhas da mão esquerda, bom senso, cofiando minha barba tão
rala que ela preferia as ralas:
- Eu sou uma
pessoa profunda.
Tardes ansim
em os dezembros dos verões sempre muito quentes e o olhar parado árvores na
sombra, manga-do-mato, guarabu, corticeira-do-campo, alfavaca-de-cobra... mate
sentado na cadeira de balanço na área. A pressão que o mundo se tornava para
adquiri-lo, Uauá, Sítio do Mato, Ipueira...
-
Continue, guria. Estou ouvindo. Estou gostando.
- Sério?! É
que no limite entre esse nosso mundo decorado de amarelo e de vermelho e de
verde, está o outro, está o mundo espacial da luz e da nuvem e da lua; está o
mundo dos puros e das purezas. Os anjos e anjas que viajam de estrela em
estrela a bordo de estrela cadente. Os puros que são mensageiros de religião,
re-ligação.
Fomos
sentar numa mesinha plástica perto da piscina, entre nós e a piscina uns
janelões abertos, o barulho dos mergulhos, o burburinho das conversas, os risos
depois das piadas moleques, música ambiente, uma porção de outros ruídos e nós
dois ali se olhando nos olhos e trocando conversas e apertos. O corpo dela tão
giz, cara! Quantos banhistas saíam pingando da piscina e se recolhiam à sombra
dos caramanchões cobertos de ramada ou quincha. Ela mesma olho vivo e com suas
ideias extraterrestres:
- Mas no
início, antes do espírito santo, D se comunicou com o primeiro casal de humanos
através de dois barbantinhos esticados. Num amarrou uma banana e noutro um
planeta. O casal se deparou com esse enigma, esse dilema, cheirou, tocou, pensou
e pensou, passou a língua, balançou, trocou um olhar enamorado. O casal sabia,
por apegada intuição, que era jogo de independência ou morte. E conversaram por
horas e dias e semanas. De mãos dadas se dirigiram ao centro do universo do
problema e pararam em frente do portal e escolheram... a banana.
“Sou a
protagonista, mato um boi, choro agarrada aos pilares e pilastras e paredes nas
noites de tempestade, faço promessa aos santos prediletos, tenho pavor de
vacina, tenho um time de futebol. Na época que aguardava meu quinto irmão, nem
aceitava colo de estranhos, tinha pesadelos no escuro, acreditava em anjos
anjas e juruparis. O tempo e o vento contavam cinco ou seis revoluções
intestinas, a lua fazia poças na água parada da chuva e rolava uma chupeta ou
mamadeira com leite morno. A escuridão era uma velha senhora de longos palas e
ponchos e saias e vestidos e mantas e mantilhas.
“Meus
primeiros heróis - já toda protagonista tem seus heróis ou heroínas, os mitos,
as lendas - foram avó e avô paternos. Avó adorava mentir a respeito do clima, e
só caminhava arrastando, estalando, plete!... e plete!... as chinelas pretas de
couro cru fechadas na frente. Avô aproveitava o pequeno espaço sem o dente de
baixo para cuspir com estilo. Tomavam o chimarrão quente depois das 11h e 12min
e das 17h e 18min. Isso no inverno ou no verão, dia comercial ou feriado,
enlutado ou nem. De manhã cedo se exercitavam pela área olhando o sol nascer, a
algazarra dos espaços assobiantes, japu-verde, arapapá, supi, sabiá-laranjeira,
teque-teque... o pinheiral do outro lado da estrada vicinal. O Tanatau seguia
farejando as chinelas do velho ou da velha, acoava na capoeira, corria atrás
dos autos. A terra era dos gigantes. Eu uma figurinha do tamanho de um inseto
uma formiguinha uma iraxim.”
Pedimos uma
cerveja ou um chope de colarinho. Nem sabia que ela tinha feito faculdade de
geologia na UFSM. Pela janelona aberta víamos o gramado, as árvores se mexendo,
bucarés, ouricuris, jenipapeiros, buritis, pitombeiras, tinhorões, arubatãs... a
luz do sol nas crinas altas das copas, os passarinhos passando, andorinhas trissando
em preto e branco ou azul e branco, pios, trilos e gorjeios espalhados porque
bem distribuídos. A frase dela coleou no espaço aberto do dia propício, um dos
melhores dias dos meus tempos, ruídos de buzinas tráfego na rua Manoel Viana, faro
fino, algazarra dos piscineiros:
- Cada dia sou
diferente. É o que te digo. É o que me consta. Mas, também, um tempo, minha mãe
comprou um desses quadros de anjo da guarda. Era uma figura de saiote até os
pés, duas asas muito altas de jaburu ou beija-flor ou carnaval, feito de cores
de água e de céu e aí fiquei sabendo: parecia com mulher divina. Estendia os
braços alados colocando as mãos de penas sobre as cabecinhas das crianças. A
gurizadinha brincava despreocupadamente junto à fonte e ao abismo. A mulher-ave,
um ser perfeitamente translúcido, sonhada e ideal na paisagem tranquila.
“Comecei a
fugir de casa nos desenhos animados e nos desenhos de gibi e nos desenhos de
caderno escolar. Juntar coleção de papel de bala, olhar da janela, comer
bergamota quando era época de bergamotas, abraçar e beijar as bonecas como as
atrizes com os atores nas novelas. Dava nome às coisas. Conversava com árvores.
Eu tinha alguma coisa com árvores. Queria viajar de trem. Um mundo cheio de
piscinas olímpicas e sol e laranjas e guerras de carrapicho. Fui protagonista
com a bicicleta, corri na chuva, caí da bíci. Conversava com os sonhos.
Conversava comigo mesma. Conversava com as árvores. Conversava com as plantas,
tamatarana, flechilha, carqueja-amargosa, quina-cruzeiro... Eu queria entender
de ouvir as verduras.
“Há
Protagonistas e protagonistas. Eu via o mundo. Procurava minha identidade,
batia a cabeça procurando, tentando alternativas. Uma viagem de gaiola pelo rio
Madeira ninguém paga.”
Estava me
sentindo giz ali ouvindo Bicuíba-Cheirosa falando e tentado alçar voo agitando
as asas arpejando. Nem sei se contava tudo de verdade. A moldura da janela, a
natureza verde em pleno dia, andorinhas em guerra de mentira no céu, curiós,
pararis, anus-pretos... risos da galera na piscina, a música na desarmonia das
vozes:
- Eu falei a
protagonista eu esta pessoa mesma aqui presente. Tirei meus olhos das nuvens e
descobri: estava no mundo. A protagonista estava no mundo. Mas nunca fiz parte
da elite. Mas então nem nasci para mandar no mundo. E em que mundo vim parar.
“E para você
ter certeza eu te conto. Fui caminhando assinzinha, peguei o trem na estação
Xambioá, ninguém me dizendo nada de novo a respeito de seres de óvnis, o quadro
alado na parede do meu quarto, etc., importante que as ruas são presenças
assíduas nos poemas de Mário Quintana. O poeta andava pelas ruas de Porto
Alegre, Sergipe, Brasil...
“A
protagonista fugiu da casa sitiada. Por tempos andou na floresta, nas tocas das
onças-pintadas, passou frio e calor, o isolamento nas noites de uivos, dançou
xotes e polcas e fandangos e havaneiras nos bochinchos de galpão. Quando deixou
o labirinto da floresta, deparou com o vasto agreste de pedras, mandacarus, xiquexiques-do-sertão,
canudos-de-purga, juazeiros... miragens, caminhos cruzados. Durante dias e
noites varou tempestades de poeira. Por fim encontrou uma birosca um boliche de
beira-estrada e contou sua história entre um trago e outro gole aos guascas
queras gaudérios calaveiras e chinas.”
Ali pelo clube
nem soprava vento que os umbuzeiros já nem soubessem. Tinha uma brisa ocasional
incidental e a preceito. Outros grupos humanos se formavam aqui e ali espontaneamente.
A voz do vento, o sopro de cada palavra, cada cor, cada ritmo e a frase um feixe
de modelos na moda em plena passarela tapete vermelho:
- Que me
tocava fazer? Quando avó morreu, também avô morreu. O casarão que nem seria
mais o mesmo. Os quadros da sala de visitas se dispersaram. Venderam as
árvores, o jardim com aquelas flores esquisitas, os tico-ticos, os
canários-da-terra, as arribações, os anambés-raio-de-sol... e que vinham se
divertir no pó vermelho entre os canteiros rodeados de tijolos ou telhas ou
pedras.
“A
protagonista procurava paisagens. Nessas horas que eu ficava por um triz como de
vez em quando. Eu que maior parte ficava chateada como sempre. Mas, daí a
pouco, a protagonista ficava quieta como nunca. Nem chá de camomila nem
limonada nem açaí me prefiro mesmo o café.”
O vento soprou
um bafo quente passando rápido pelos janelões corridos. Algumas músicas
pairavam no ar com muito custo. Gurias andavam de biquíni tão na moda, tão na
moda, que nem eram mais os biquínis do verão do ano passado. A frase espaçonave
e brilhando ao sol e ricocheteando nas lajes e ladrilhos e potes de aráquis:
- Mas para que
me afobar, né?! O mundo pode ter anjos e anjas. O mundo carece dos guaxi, dos
juruna, dos mápanai... Seria correto se porfiassem também os pacus, dourados,
surubins...
“Mãe esperava
meu sexto irmão, uma guria bonita que só vendo. Eu muitos bisonhos e
pouquíssimo poder. Entrei para a escola o colégio 11 de Agosto e lá conheci a
Juçara, a Ariramba, a Cutipuruí, a Paranaí, o Ariquém, o Paxaú, o Timbatu...
Acho que me apaixonei por Ariquém, natural de Bom Jesus da Lapa. Mas elas e eles
nem davam bola para mim. Ariquém tinha uns olhos garços, e bastava. Ah!, e
sardas no nariz, e nas faces, e nas orelhas. Minhas amigas sempre foram as
primeiras alunas em matemática. E hoje o senhor Ariquém Massapé parece que é um
tuxaua pai de família, trabalhador da loja de tecidos Nhupicanga, casado com a
mesma mulher a Guariúba que pintou os cabelos de verde, sustentam ainda os dois
filhos maiores a Ruana e o Ruão, uma cadelinha a Jacina que levam para passear
em roda das ruas do aeródromo todo santo dia sem falta senão ela chora aí pelas
bem cedo 05h e 05min.”
Compenetrado
com a paisagem, bebericando meu chope no ponto, eu via o mundo lá fora
trepidando, trepidando absurdo, talvez giz a seu modo, embora agitado, tocado
por magia de gurias com biquínis verdes, amarelos, outras cores misturadas
combinadas. A frase rindo solta, a boca de Bicuíba-Cheirosa, cabelos molhados
das gurias na calçada pegando fogo a ressolana corpos verdes e tenros:
- Sempre
gostei de me ter azul. O contraste da pele bronzeada com o azul-turquesa é
proveitoso.
“Pois eu gosto
de anjos, e nem me desculpem, e nem me arrependo. Anjos ou curumins arteiros, peixes
feitos de luzes de cores, etês com asas de pato-de-crista ou gavião-de-penacho
ou marreca-cabocla. Uns acham que é mentira. Há beleza e leveza nos sonhos, nas
mentiras, nas alegorias de passarela e carnaval.
“Uma manhã,
aquela manhã de camisa manga curta, que podia ser aquela mesma manhã, ou a
minha com a sua manhã misturadas, fui à biblioteca. Logo me vi invadida de
livros por todos os alados. Muralhas de livros de diversos países e pessoas e
bichos. Tudo cheirando a livros presos em os pombais, nos currais, nos calojis.
Comecei ali a perceber que nem ia poder dar conta de todos. Um fim de mundo e
me abracei. Gostei dos rios das montanhas das capitais das baleias dos animais
pré-históricos da invenção do avião da origem do guarda-chuva das cavernas de
inscrições rupestres no Piauí dos índios da tribo guanaré com vincha no cabelo
mais a pena de nhandu. Perdida desassossegada e meia nos rios das figuras das
viagens das expedições pioneiras.
“A
protagonista acordava dias bons e outros nem tanto. A descoberta do ouro das
pedras preciosas mandava escrever no caderno mil e quinhentos século dezesseis
vezes a mesma frase, até acordar. Um vizinho me convidou para subirmos no alto
da guabirobeira, baraúna, copiúva. A folhagem fechava tudo e beijos, beijos
longos, pedagogia de abraços, apertos, cócegas, arrepios, longe dos olhos
gerais.”
Eu mesmo senti
uma ansiedade de tocar os dedos da mão da amiga Bicuíba-Cheirosa. Mas nem
toquei, mas esperei. Aguardei com economia de gestos. Os raios de sol se
infiltravam pela janela aberta, o riso dos passarinhos, o vento perdendo as
borboletas sobre as flores de um canteiro, e a frase do dia, os sons que eu
via, os sons que escapuliam, a frase manhãzinha da tarde:
- Todas as
mulheres são anjos. Todo anjo é anja. Toda cunhantã gosta de viajar. Dizem que
da lua se vê a cicatriz ziguezagueante da serra do Rastro ou a BR-101. Horas e
dias, meses e anos, séculos sem tréguas, os homens e as mulheres e as crianças,
os povos, milhares de famílias, gerações, quantos nomes escritos a carvão, cafuzos
e caboclos e mulatas, deixaram seus sonhos sob as pedras da ponte Rio-Niterói.
Sei que pedra a pedra, de mão em mão, as caçambas os carrinhos de mão as
picaretas e as pás de terra, os longos invernos e os tórridos verões, ajardinaram
o Anhangabaú o viaduto do Chá. A capital federal aberta à visitação parece uma
obra de arte. Uma obra muito, muito anônima como se fosse a própria floresta ou
uma montanha ou uma catedral.
Como porque a
tarde macia, que o sol ia puxando tranquilo para si, e as cores mais ou menos,
quando muito até emudecer. A janela aberta negociava o dia passarinho, duas
nuvens se trocando no poente, vá lá que sejam cinco da tarde e a frase pronta e
acabada, a frase escalada, a frase assim distribuída aos convidados:
- Conversar
com os rios as almas espíritos entes fantasmas? Ando pelas ruas da cidade
conversando com vira-latas, com árvores, comigo mesma. Até que ponto o poeta
acreditou nas suas ruas do Portinho? Certa altura fugi de casa. Parecia ser
para sempre, mas sem volta, mas sem saída. A protagonista conheceu alguns
caras, nem tantos, e que vivem na imaginação, monarcas e maturangos. Caras
magníficos caras necessários caras no momento certo escolhidos ocasionais baio
alazão zaino tordilho azulega mas nem necessariamente nessa ordem. Quantos pilungos
redomões tambeiros uma protagonista deve ter acontecer hoje em dia? Amei os
meus caras até onde eles puderam. Até onde puderam comigo e vice-versa.
“E aqui estou marcada
por jagunço cangaceiro. E a protagonista só podia contar comigo mesma. Talvez
esteja me repetindo. Fui procurar trabalho, me concentrei e até que o futuro
pesou na consciência. Fiquei chocando meus próprios ovos. Os planos mudaram
como mudou a viagem mudando o itinerário. Aprender a paciência. Um monge chinês
sabe a ciência da paciência e eu queria ser muitos monges hibernando no
templo-palácio de pedras diante da montanha. Todo santo dia aprender a ouvir; a
paciência exemplar dos santos do dia. A ave símbolo do Pará o
pavãozinho-do-pará. E os sacrifícios antes e só depois os milagres. A
protagonista já já urgente no seu mundo padrão. Tenho vários irmãos e todos
espalhados pelaí. Nem sei como.
Pela abertura
eu acompanhei um avião teco-teco roendo contornando o perímetro urbano. Era
realmente uma tarde de verão patrocinada pelo céu bonito límpido. A frase que
veio e que pousou que repercutiu:
- Você já viu
essa, meu querido navio de velas enfunadas?! Um reino foi invadido pelo
exército bagual. Muita gente morreu na escaramuça e dos dois lados. Muita gente
morreu defendendo a pátria e a roça de batatas. E a família imperial foi
julgada culpada ali mesmo no meio da praça Oswaldo Cruz, diante de todos, no
marco zero, no pelourinho. O puava vencedor republicano queria ridicularizar dobrar
o corincho do imperador e sua prole. Por isso o deixaram nu e o insultaram. Mas,
me contaram, o imperador nem chorou. E pegaram a imperatriz e fizeram a mesma
desfeita e outras patifarias vilezas. Mas o imperador nem chorou. Por isso
pegaram as duas princesinhas e as deixaram nuas e as insultaram com risos deboches
e dedos em riste. Mas o imperador nem chorou. Por isso por desfastio pegaram a
escrava mais velha mais cansada e frágil e louca do palácio Imperial de
Petrópolis e a deixaram nua e a insultaram cuspindo na cara. Mas aí o imperador
chorou.”
Nós dois
estávamos gostando daquele dia, daquele hoje suave, daquele ambiente de piscina
coletiva brincante berrante, etc. Bicuíba-Cheirosa me contando passagens da
Bíblia e que eu nunca jamais em tempo algum saberia ler. As janelas para a
tarde de sol que já ia tombando, a frase dando voltas lá por fora como um
pássaro procurando o melhor lugar, o poleiro de sempre na árvore de sempre, o
lugar na mesinha do bar:
- Será que a
gente vai e volta muito? Para que que serve reencarnar, por exemplo? A
protagonista tem seus limites, cansa, olha para trás com saudade, e quem olha
para trás volta. Basta estar aqui na tarde festiva? Cada um crê no que quer. É
melhor deixar pra lá.
Mandei vir dois
outros chopes e estalados de frio. Tinha conhecidos em Serra do Ramalho que
sempre todas as férias me insistiam que fosse uns oito dias por lá. Eu gostava
da hora assim na beira da piscina, de frente para minha mina, ouvir ela falar,
o vento empurrando a frase com moderação, olhos negros como seus olhos como
seus cabelos negros se sacudindo contribuindo para os reflexos dançarinos:
- Derrotada, a
protagonista nem é mais protagonista, é uma fracassada. Nenhuma desculpa
aliviará a vergonha de perder. A protagonista é uma protagonista qualquer. E
nunca se aprende a perder. E sempre se perde. A protagonista está próxima do
nada. Cada vez que se perde se perde mais. Nem há tempo a perder a ganhar a
protagonizar.
Umas gurias
passaram desfilando pernas que só vendo. Tinha uma guria principal com um
calção verde muito sensual e meu olhar acompanhativo. Pela janela aberta meio
que brilhava o ar dos morros em contorno da cidade. A logística de cada cidadão
me comovia. Morros selvagens de arvoredo e tocas de esconderijos para
mãos-peladas, jurumins, bacuraus-cauda-barrada...
- A
protagonista gosta de sair de férias, sozinha, sem máquina fotográfica. Os
rapazes olham mais. Que dias foram que eu estava em Foz do Iguaçu, Ceará.
Quantas vezes
olhei em volta, e o gole de chope, quantas as mesmas olhadas que admirei o
pescocinho lindo com a correntinha de ouro e crucifixo em o vale do paraíso. Em
toda parte gente procurando gente e os murmúrios e os sussurros e os cicios e
os cochichos. A frase se arrumando, escorrendo pela hora do ambiente, pensando
como frase e pronto, em trote de pingo manso no rumo de casa:
- O auto fechado
surgiu na quebrada da rua deserta, mas faiscando de sol. Escutei seu ronco
determinado dominador de motor. A protagonista tinha dó de si. Nem lembrei se
era crente. O carro estacionou com ruído terminado em, rrrrraaah!.. Então,
espere!, a poeira baixou, o carro esperou, o carro nem abriu a porta, o cara do
carro nem apareceu, o vidro fumê do carro impediu que eu visse o interior, o
carro esperou a encomenda se dignar e chegar ela mesma pelos seus próprios
passos até o alçapão.
“A protagonista
sentiu a casa trepidar. Caiu poeira do teto. O chão afundou balançou
desequilibrou, meio molenga como as ondas de mar ao navegar. O Tanatau latiu assustado
recolhido debaixo da mesa. As velas se apagaram, as flores murcharam, os
cristais trincaram e nas paredes as rachaduras correram em ziguezagues. Os
encapuzados ergueram carregaram no ombro e levaram com o pacote.
“E digo mais,
a protagonista sentiu teias de aranha na ponta dos dedos nos buracos das
narinas nas pálpebras. Vultos parentes comendo bolo e tomando café aparentemente
praticamente conformados. A sensação de formigamento se alastrando pelo corpo.
O pensamento nem ia a lugar algum.
“Então, os
matungos puxaram o carro que foi andando em câmera lenta entre as alas de ipês-amarelos
e ipês-roxos e jacarandás-cabiúnas e tapirás-caienas, juquis-de-cerca,
espinhos-de-cristo...
“A rua D.
Pedro II terminou em portão de ferro pintado de cal branca. Capelinhas de pedra
basalto polidas e lustradas de um verniz. Crianças correndo de pega-pega
esconde-esconde empurra-empurra... Cruzes de mãos espalmadas para o alto ideia
de assalto ideia de terror a gaveta o buraco.
“O tempo
passou, e passou tão rápido que apenas ensaiou. E eu vi a protagonista passando
por mim. E que tinha ficava grilada de sublimar em privada pública. Os cães são
de raça mas perguntam a mesma coisa. Ela que nem nunca aprendera tocar soubera
cantar.”
Algumas
árvores alguns passarinhos transvoavam ali pelo ar lá fora na tarde que diluía.
Era tão tudo agradável que me senti por um triz. As janelas abertas, e a frase
anunciando viagens para a Manaus, o Pernambuco, o Brasil:
- A
protagonista desossada fantasma. Subi a escalada do espírito, deixei o resto
para trás, saí do resto. Subi e fui embora, total: me separei. E nem restou
mais nada mesmo. Bem ou mal que olhei para trás, acintosamente.
“E, pronto, o
meu anjo ou anja era eu mesma. O meu espaço acabara. E que o tempo eternizara. E
a consciência sem memória era aquilo mesmo e muito bonita. Nada mais me pesava,
estava assinzinha, estava ali, estava por ali, estou zanzando. O meu ser de
asas era eu completamente eugênias vapor. Uma fumacinha ao vento, chama sem
calor, sem sal, sem som. Quem dera o azul.
“A sorte da
protagonista, então, era leve, menos que vapor. Já quase chegava. Ah!, nem
queria me esquecer que um dia queria conhecer a Amazônia. E a protagonista, um mito,
sua memória, ficava assim. Até porque, quando se vai, nem se pode fazer mais
nada. E voltar na pele de uma planta que pode ser a minha escolha a
hortelã-do-campo...”
Sendo
tudo dito, tudo isso mesmo, a amiga Bicuíba-Cheirosa pegou da bolsa pendurada
no encosto da cadeira e foi embora. Antes me revolucionou com uns beijos
alegres enérgicos babosos descabelados bem perto da boca. Juntamos as mãos e
fomos andando um bom pedaço até o estacionamento entre árvores,
ingás-ferraduras, mapatis, dormideiras... E me apertou as bochechas como quem
diz ou desdiz ou atriz.
***
O
astro recém-criado recém-amanhecido recém-dourado com o vento recém-chegado
recém-soprado e as árvores recém-achadas recém-descobertas com o rio
recém-formado recém-brotado todos juntos uniram as mãos e matricularam a
recém-amada a recém-nomeada... Enigmática.
E eu queria
estar em outro lugar e a toda hora. Da farmácia eu olhava umas imagens, uns
filmes na tevê, documentários de Goiás, Mato Grosso do Sul, Chorrochó, rio
Verde Grande, e me perguntava: será que eu poderia viver melhor em Vitória,
Espírito Santo? E se eu fosse morar em Maceió, Paraíba? E se eu pedisse emprego
num transatlântico costeando o litoral brasileiro, entrando pelo rio Trombetas,
subindo o rio Pirapetinga? E se eu morasse
na ilha do Bananal? E se eu conhecesse os índios jarawara e aprendesse a comer
pati moqueado? E se eu fosse guia turístico em Marajó? E se eu pedalasse até
Teresina, no Pará? E se eu tivesse nascido em Arujá? E se fosse o filho
predileto de Rio Branco, Roraima. E se merecesse Centralina e Aimores e Canudos
no Mato Grosso do Sul.
Sem
o que fazer e o que inventar, parabéns pra mim!, fui até ali e olhei a rua
Itália, com esquina da Candiru, a rua pouco movimentada as árvores andando em
fila, bicos calados, verdes, árvores, aroeira-vermelha, cambará-de-meia-légua,
salgueiro-do-mato, caixeta, canafístola... os pássaros ao léu atingindo o céu
de amarelos, total: céu limpo chuva talvez no cair da tarde e eu nada eulalia.
***
A
grande minha eleitora Cotia mandou um recado decoroso delicioso deleitoso
desditoso pomposo:
(Meu
amigo e coisa e tal, vou te presumir: meu horóscopo de hoje me disse isso, vá
lá: “Escorpiana: precisa explicação? Quer explicação, hein!, escorpiana?
Explicações no romance? Está precisando e querendo e buscando uns carinhos e
amassos e apertões e nem estão lhe dando a mínima? E nem se trata ou nem se
quer mudanças superficiais, nem é mesmo? Se trata sim de mudanças que mexam com
bases emocionais profundas, profissionais, essenciais, salariais, abissais.
Considere, minha amiga, a possibilidade de mudar mesmo e muito de assunto de
conversa de categoria. Mudar ideias, mudar as cores, mudar de ares, mudar de galáxia,
mudar o ritmo musical do vizinho, se você quiser. Aquela que está no escuro (escorpiana),
está perdida da luz. Sabia? Pare e pense nade até a margem e respire fundo,
sim!”
Bem,
meu bem e meu amigo, isso foi meu horóscopo que falou e disse. Agora o que eu
acho... O que eu acho segue a seguir: em outras palavras, acho que você nem
veio ao mundo para me dar segurança ou ser a minha outra metade. Você é
imaturo, meu amigo. Você é uma criança grande. Você é milimétrico - com as
devidas raras exceções. Nem deve mais me procurar. Nem leve a mal, nem leve pra
esse lado ou o outro lado, mas... adeus. Estou sincera e a sinceridade dói, mas
nem mata nem montanha. É melhor assim, antes que a gente se complique ainda
mais, nem é? Procure a sua turma a sua santa a sua mina. Nem, nem leve a mal
mesmo, adeus e antes que a morte nos separe porque o amém é para todos, fui!)
Com
as tais poucas palavras, assim mesmo, sem explicar muito bem, Cotia me mandou
passear. Foi? E eu merecia? Me perguntei
ainda e achei que todos naquela hora, na mesma situação, fariam se perguntar também:
o que foi que eu fiz, meu?! Ah, nem falá! Telefonei:
-
A princesa... Cotia está?
-
Nem. E nem sei praticamente se ela saiu ou se nem saiu pois nem voltou.
-
Hum...
-
...
-
Tá bom. Eu telefono mais cedo ou mais tarde, certo?
Era
um domingo de tarde e eu preferi esperar sentado. Depois fui lavar o carro da
família na frente da garagem e ouvir sempre ouvindo música do musical da rádio
local com os sucessos da parada sertaneja. À noite, telefonei novamente. A
mesma voz neutra adoçada de sucos naturais ao telefone, a mãe de Cotia:
-
A Cotia se encontra, por obséquio, dona Itajuba?
-
Está no banho. Entrou agora mesmo. E ela demora um século por quê...
-
Hum...
-
...
-
Tudo bem. Nem tem nada, nem. Eu tento daqui a pouco ou depois ali pelas 9, tá?!
Uma
hora depois, uma hora e meia depois. E como fora difícil ficar preocupado sentado
todo aquele tempo. O canal dos repetecos o canal das reprises o canal dos
documentários os tais e quais amauaca vendendo cestos de taquara na rua da
cidade e comprando sorvetes e picolés. Meia hora depois, insisti:
-
A Cotia?
-
Ah!, dormir. Saber como ser, né?! Amanhã cedo colégio. Difícil acordar hora
noite. Quinto sono. Sonhar anjos voador.
-
Hum...
-
...
-
Fica pra... adiar. Fica amanhã, q sabe, né?!
E
só assim nem me convenci de uma realidade amarga e clara e estranha. E só
depois desse ponto que nem resolvi pensar melhor para nem entender melhor. Era
o fora. Passagem de ida.
Sempre
achei que o sonho compensa melhor que a realidade. O que aconteceu entre mim e Cotia
provava isso mesmo. E é bom sonhar. Mas eu queria mesmo era viajar. Quem sabe
viajava para Macapá, capital do Acre?, pensei. Viajar para Alpinópolis, hein?!
Visitar Verdelândia, né?! Vai ser giz assim lá em Cacequi, cara!
Foi
mesmo por um dia daqueles que conheci duas turistas paraenses. A Mucuri,
cabelos lisos até os ombros, me fizeram sanduíche, e a Ururaí, cabelos crespos
até os ombros. Vieram muitos em bando conhecer a região daqui dos parreirais, dos
invernos rigorosos, das araucárias, dos pampas, etc. Vieram em famílias clãs
parentadas com os ônibus lotados e tal. As duas lindinhas me conversaram,
falaram sobre o Pará, sobre Belém. A Ururaí descansou a mão no meu ombro, me
olhou de cara boa e perguntou:
-
A maioria de vocês aqui tem esse olho claro, é mesmo?
Então
a Mucuri me empurrou um passo pro lado e me falou dentro do meu ouvido esquerdo
labirinto o mais confuso o mais barulho do mar e soprou:
-
No alto inverno de vento frio e geada vocês dormem de pelegos na frente da
lareira, nem é?!
E me disseram
mais ainda que tem uma praça lá em Belém que está cheia de castanheiras-do-pará
e espalham muita sombra e vendedores de coco verde. E no subsolo da praça aparecem
diversos túneis e grutas e degraus onde se esconde a boiúna. Ou onde se refugiavam
escravos do tempo da colônia. Ou por onde os padres jesuítas arrastavam seus
tesouros, percorrendo várias igrejas que moram ali pelo centro da cidade até
alcançarem o porto que está mais lá longe. Olha essa! só pensei, acho que vou conhecer
muito tempo lá em Belém do Pará.
***
Acordei
no meio da escuridão do meu quarto. Sonhei que me perseguiam pelo sem fim de
ruas da cidade tumultuada. Um bando de coisas ruins. Depois um bando de cães
ferozes. Acordei sem vontade de acreditar na hu-ma-ni-da-de.
Eu
quero entender de árvores e suas paisagens, pensei.
Acordei
bufando no meio da noite. A casa em tenebroso silêncio. O silêncio da escuridão
da caverna do túnel do presídio do corredor de hospital.
Que
horas? Olhei o relógio: três e trinta. Mesma coisa que duas e trinta, quatro e
trinta, cinco e trinta. Por que nem sete e trinta de uma vez?
Eu
fugia sem ter para onde fugir. Sem saída sem remédio sem defesa sem chegada. Me
escondia num buraco e eles me achavam, corria tudo que podia e eles me
alcançavam, me caçavam, brigava com unhas e dentes e eles me quebravam todo.
Uta! que combate.
Vento
ou rio ou guria me levou julgou pesou esperou e me trouxe.
Esperei
o dia surgir com toda luz, a certeza do calor, a sensação dos objetos comuns presentes.
Esperei o cantar dos pássaros, o fru-fru das árvores, esperei o ruído dos
carros, o transtorno da rua movimentada, a padaria vendendo na hora pão feito ali
agora bem quentinho.
De
olhos abertos contei muito e acordei com o sol batendo na janela da paisagem em
as cores aquarelas responsáveis.
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