quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 4




Mais Muita Coisa Deixou de Acontecer nos Anos 70

            Acho que para lá já se vão uns 20 anos que nem pego em leituras de narrativas e recontos e porandubas. Dou preferência como sempre fiz às lendas dos iuberi, guanaré, cujigeneri, juma, galibi, etc. Nem sei por que recolho esse livro, ao acaso, “Os Ratos”, histórias que se passam junto à tribo dos cariai, reunidas pelo escritor já famoso Caldre e Fião. Um livro bom e ótimo, capa bonita e papel timbrado.
            Mas eu levava, no então, meus 16 anos, 15, 12, 21, ou seja, principalmente entre 18 e 19 anos de idade.
            Pois me contaram, certa altura dos meus 15 para 16, que o céu e a terra nasceram do vento. Nasceram um para a outra. Ajuda do vento sul, no caso, o minuano. Vento sempre desperto, e incerto, e impertinente, minuano.
E terra e céu estavam desde o princípio muito próximos, e próximos até demais. Assim convivendo diariamente acabaram se casando, uma vez. Com a união, nasceram todas as outras coisas que se vêem espalhadas entre a terra e o céu, e o que presta e o que nem presta.
Vento que soprava assim sopra ali na praça Senador Florêncio, Aceguá. 
            Uma outra oportunidade, mais tarde uma vez por causa de uma opinião entre eles, cada qual foi ver num lugar distante e isolado e diferente e a parte.
            O céu se afastou para o infinito e foi ver ao redor dos astros e estrelas, por trás da escuridão, por trás da claridade, por dentro do sem gravidade, no rumo do fim do mundo. A terra viajou para o centro da galáxia, olhou em volta, se agradou e resolveu ver ali mesmo, natureza agradável e meio-dia e meia-noite e meio ambiente.
            Ventos soltos que sopram aqui e ali sopravam também com preferência em a serra do Caverá e entre Osório e Arroio Grande.
            Somente muitos e muitos milênios depois o céu e a terra resolveram voltar a se falar e a se encontrar. No lusco-fusco. Se reconciliaram e repartiram o espaço de estrelas e cometas assim mesmo entre eles. Dessa reconciliação nasceu um menino, um deus que logo se tornaria o deus geral e totalitário.
            Os ventos soprando todo instante e a gente nem vê por ali por aqui até lá em Encruzilhada do Sul e o arroio Inhanduí.
            O nome dele? T-e-m-p-o, Tem-po, Tempo.
            Seus padrinhos foram: o sol que nasce diariamente no parque da Serra dos Órgãos e a lua que surge noturnamente no parque das Águas de São Lourenço.
Desde menino o deus Tempo Supremo viveu com a mãe na terra. Se alimentava de leite de cabras nativas de Rio de Contas, BA. Via numa zona da mata no meio do Nordeste onde existiam animais de pelo e pele e pena, plantas feitas de folhas flores frutos, homens de pedra, e mulheres de bronze.
Do mar soprava constante o vento carpinteiro-da-praia hoje já entrada por onde São José do Norte.
            Os homens de pedra mandavam, mas as mulheres de bronze eram em maior número. Já os bichos comiam plantas aéreas e ou aquáticas.
            O brilhante e fabuloso Tempo Superior teve uma infância difícil porque todos queriam matá-lo.
            Do país vizinho soprava sopra e vem o vento pampeiro, “vam’embora!...”, atropelando as missões jesuíticas de São Gabriel.
            Quando cresceu suficiente, Tempo Super ficou forte como um touro selvagem, um touro xucro, um marruá, que se fez barão, visconde, depois elevado a conde, marquês e por fim nomeado duque e arquiduque. E podia muito bem se defender sozinho. Acordava cedo, dedo em riste, e ia para o banho frio entrava no banho de cachoeira ou menos na praia do Pernambuco. Assim, fez vários trabalhos entre os mais sérios da sua longa jornada: cronometrou o voo das borboletas-do-manacá, a corrida das lagartixas-das-dunas, aprimorou o grito agudo das cigarras, nhi-nhi-nhi-nhéeee!... mergulhou o nado das tartarugas-da-amazônia, temperou o frio da serra Gaúcha e Catarinense, ajustou o verão nas praias do Luz, de Juqueí, da Cal, do Portinho,  afundou a raiz das cerejeiras-do-paraná e cerejeiras-do-rio-grande, pintou as roxas flores da campainha-branca, separou os dias de chuva dos dias claros, contou os meses de outono dos meses da primavera, calculou o comprimento dos raios pelos barulhos dos trovões, mensurou a fúria dos furacões e dos tufões e dos tornados e das tempestades e dos vendavais, distribuiu rios, rio Saicã, rio Santa Maria, rio Ibirapuitã, arroio Tabatingaí, lagos, lagoas, lagoa Ibiraquera, ilhas, ilha do Batuta, mares, contou peixe por peixe, tambuatá, aruaná, piracanjuba, espalhou ave por ave, orquestrou e pincelou a música nas cores da paisagem, dimensionou as 3 e 4 dimensões.
            E se agigantou tanto tanto o Tempo Sucesso que, de um dia pro outro, já podia apoiar os pés nos planetas e desenhar a cabeça entre as estrelas. E também já se pendurou como um móbile, desses móbiles de porta de garagem, de entrada de varanda, de área de serviço em prédio de apartamentos, emitindo um ruído irresistível de metal, ri-ti-li!... ri-li-ti!...
            O vento que despenteia Alice sopra nos olhos de Ana Paula ergue a saia de Amanda empurra o rio de Maria Carolina que esta partira cinco décadas de São Martinho da Serra para Mato Castelhano:
            - Como teu nome?
            - Alice.
            - Podia ser sem dúvida Alice, como foi, mas também Camila ou Ana Paula ou Maria Carolina, né?!
            - Então.
            O Tempo Sustentável poderia muito bem e à vontade subir até o céu e conhecer seu verdadeiro pai. Poderia se quisesse ou se fosse necessário. O enorme Tempo Suspenso infalível decidiu sempre continuar com a mãe, aqui na terra. E ele protege a terra da morte certa.
            O Tempo Temperamental me empresta um lápis? Me empresta um rio? Empresta um casaco? Uma moça bonita para proteger o frio?
            Assim - sem precisar dizer -, o vento é avô (paterno ou materno?) do Tempo Sublime espetacular. 
***
            Me olhei me dirigi me espiei me pasmei me observei até os pés e até me estranhei... Quem eu estava?! Desconhecia as casas, os jardins das casas, as árvores da rua, li rua Marupiara em o bairro Coroados. As portas das casas eram muito gozadas mesmo, ah ah ah!... Ventava meio exagerado. Parecia querer chover. Nem, nem era uma manhã comum. O que eu conhecera dia antes nem estava naquele dia, é. Um cão gigantesco; um gato tipo siamês; uma corruíra empoleirada no palanque do portão. As árvores amarelas as árvores vermelhas as árvores brancas... menos as árvores verdes, umiri, caputuna, timbó-do-campo, cipó-jabutá, timboúva, jacarandá-antã... Os gramados das casas estavam, sim senhor, bem aparados. Nem havia ruídos no mundo inteiro. Nem escutava um som sequer. Tudo assim meio que desligado gelado encolhido internado contrariado filmado em câmara lenta, é.
            Tudo meio extraordinário ou ao contrário, hum! Anúncios em outras línguas, finlandês, libanês, chinês, baianês, mineirês... A laranjeira dera bergamotas. A pitangueira dera sete-capotes. A jabuticabeira carregada de butiás. A casa de madeira dera com a chaminé fumegante. As pessoas nas ruas, pessoas muito estranhas pro meu gosto, quietas até demais, umas com chapéu, outras com boné, outras com cabelos soltos até o meio das costas. O roteiro dos piom-pions. Outra coisa: aonde eu estava indo àquela hora? Eram duas horas da tarde total quatorze e bem longe de casa.
            Me lembro também o que me dissera o amigo Gandu. Ele tomou santo-daime junto com uns amigos lá dele em Canoas, foi Esteio, Viamão, Triunfo. Pois, no outro dia saiu para o trabalho e... parou numa esquina sem saber por que, sem saber para onde, sem saber onde, sem pensar nada, sem tirar as mãos dos bolsos, sem dizer uma palavra. Simplesmente parou numa esquina e parou tudo. Nem tinha nem ideia de atravessar a rua ou voltar para casa. Como um ipecutauá diante das grades da gaiola. Esperou ali horas ou dias ou semana. Havia desligado. Havia se exilado ou se isolado ou se imortalizado. Estátua do famoso personagem de praça o tal visconde do Rio Branco, braço erguido mão apontando o horizonte, assim, algo parecido.
            Voltando. Reparei para onde estava indo. Sei lá! O sol branco branco. As poucas nuvens... hum! vamos dizer, nuvens amarelas. Nem havia o tempo cronológico digital analógico. Placas de carros, Ouro Verde, Passo do Sobrado, São José dos Campos, Ubatuba, Guarujá... O espaço me era estrangeiro, jupiteriano, marciano... Entrei por acaso naquela loja e parei no balcão. O árabe me perguntou:
            - Nhe-nhe-nhém?!
            O que ele dizia? O que eu entendia? Bem, o tailandês me serviu um copo de líquido esverdeado e eu aproveitei. Num trago só, nervoso. Nem demorou e meu pensamento se espertou de zero a cem. Caso repentino. Os dedos da mão nem queriam se fechar tensos nervosos afastados empedrados.
            Era assim. Meus pensamentos saíram pelos ouvidos como bolhas de sabão. Minhas ideias escaparam pelos buracos do nariz como bolhas de sabão. E minhas interpretações iam boiando no espaço, iam flutuando, iam subindo como bolhas de sabão irisadas.
            Lá fora o vento borbulhava, a chuva borbulhava, os pássaros borbulhavam, pipiras, cancãs, tanguruparás, tamatiás, sanãs-carijós... as árvores borbulhavam. Quem era que borbulhava mais, quem era que borbulhava menos?   
O que afinal estava acontecendo? Um eclipse lunar, hein?!
***
Dia sete de setembro, eu com 10, 11 anos. Foguetório, pou! pou! pou!... espantando pássaros e cães e nuvens. Foguetes e os tum-tum-tuns!... do tambor.
Esperamos duas horas no sol da rua Júlio de Castilhos transversal a nossa vez de entrar na avenida Presidente Vargas. O desfile era de todas as escolas da cidade e outras entidades, hospital São João Batista, Apae, CTGs, Brigada Militar, Corpo de Bombeiros, algumas empresas e fábricas e lojas e times de futsal.
O sol brilhava atirava raios dardos para todos os lados com uma ideia: bando esperto de pipiras-pretas topou. Assim mesmo o sanhaçu-cinzento. Acompanhei sem querer as duas gurias mais amigas:
- De onde você veio, Mairá? - era a Lilás que perguntava.
- De Eldorado do Sul e vamos ano que vem para Campos do Jordão, nos disse confirmando meu pai, é - resposta da Mairá.
- De onde você é, Mairá?
- De Arapongas e minha mãe de Santo Ângelo, meu pai de Vila Flores, e meus irmãos o Juciri original de Alto Paraíso de Goiás, a Junara de Bela Vista de Goiás, é.
            Quando entramos para bater pé meu coração subiu nos ouvidos. Seguindo a marca da cal. Em volta, atrás da corda, tanta gente olhando que eu me senti envergonhado e cabisbaixo e inútil. A banda municipal dava o tom da marcha lá na altura da praça da Bandeira num estrado diante da casinha das autoridades. E havia palmas e gritos e vivas e risos e fotos e foguetes, pou! pou! pou!...
            Eu ficava de olho no meu companheiro da esquerda e do da frente para nem embolar. De ouvido nos tum-tum-tuns!... da marcha. E fomos indo avenida abaixo. Eu nem errava o passo, mas tinha que prestar muita atenção para nem tropeçar. Nem conseguia fazer tudo ao mesmo tempo: olhar para o povo, olhar para meus companheiros de pelotão, olhar onde pisar e bater o pé, fizemos alto bem em frente do palanque oficial.
            Depois foi melhor ainda porque a gente terminou o nosso desfile e voltamos pelas margens para ver os outros passar. Eeeera melhor! Um auto dos trilheiros estava escrito: “Se atola!” O outro quadrúpede estava escrito, todo embarrado: “Eu amo esta terra.” O terceiro se lia: “Quanto mais lama melhor.” O prefeito e etc lá debaixo do toldo sentados e aplaudindo e dando risadas. Uma mulher lia narrando. Um som cívico preenchia o ar por dentro dos tum-tum-tuns!... do tambor.
                                                                       ***
            Respirei fundo, uh!... estava voo.
            Levantei, me ergui, olhei o espelho, procurei um cigarro, nem havia cigarro, blasfemei, esbarrei numa cadeira, por que cadeira se eu nem pensei em cadeira?
            As ideias me fugiam, deslizavam no sabão, caíam, tombavam, esfumaçavam, se ofuscavam, retardavam, nublavam. Preparei café, tomei café, procurei um cigarro, nem tínhamos cigarro, apertei os lábios, mordi os dentes.
            Estava sentado ali naqueles degraus. Esperava uma ideia chegar de... Jaguarão, de Inhacorá, de Coqueiro Baixo, de Ilhabela, de Congo... Queria acordar e me desparafusar e me largar. Emergir da onda, sair da casca, lagartear ao sol. É milagre ou quer mais?!
            Fui buscar um negócio pra mim comigo mesmo. Me dirigi para os lados do bairro Sagrada Família. Procurava meu diagnóstico pelas ruas entretecidas da cidade. Volume no pagode. Entrei no beco do Quiara... e achava natural que fossem nove horas da noite. Era um lugar famoso, falado, especial, respeitado e tal. Um lugar com a rua sem saída. Fui ali porque precisava, me enervava, necessitava, suplicava, suava frio.
            Lá estava a pocilga, a bodega, o bolicho. Lugar encardido, só dava boiobi casca grossa, boiúna fora da lei, jagunço presumido. Estacionei. Pretendia sair logo. Se roubarem o carro da família só preciso blasfemar, pensei.
            Fui rumo do boteco Tocandira. Caminhei em linha reta, sem olhar ninguém. Os ratos coró me olhavam, eu sabia. Eles sabiam que eu nem era dali e sabiam por que estava ali. Entrei na caverna do tamanduá-bandeira do gavião-puva do jaguacinim do graxaim, tudo junto. Procurei me colocar meio de lado no balcão. Achei um pouso. Dei uma discreta farejada no ambiente. Procurei e nem encontrei. Os ratos boiadeiros também disfarçavam a curiosidade. A sorte era difícil, baixa, perigosa, estúpida, diferente, uma droga.
            Um capincho me segurou pelo ombro, bafo de jacu-queixada, bafo de onça, bafo de porco-espinho, bafo de gambá, bafo de capeta, bafo de sarjeta, bafo de cachaceiro drogado:
            - Papai Noel existe, beu irpão?!
            Dito isso ele se riu, ih ih ih!... e saiu. Eu escutei, nem piei. Me fingi de sapato do saci. Escutei, escutei e nem falei, nem falei nada. Nem lembro mais o que pensei, se pensei, mas bufei. Achei que nem devia nem pensar, era melhor. É, era melhor. Nem abri o bico. Parabéns pra mim, que ainda nem levara garrafada, pedrada, tacada, pontaço.
            Para esperar melhor, fui até uma mesa de sinuca. Olhei o jogo. Quatro capinchos jogando, bebendo, fumando, blasfemando, rindo, debochando. Riam pouco, era verdade. Olhei de braços cruzados e as costas na parede de tijolos à vista. Uma moça loira peitos bombados oferecia cerveja espumosa no cartaz. Mas olhei para o jogo na mesa, nem olhei para a cara dos cramulhãos.
            Um capincho me segurou o cotovelo. Olhei o quatimundé surpreendido e ele fedia a bosta de cachorro-do-mato-vinagre. Fedia como um cachorro mesmo, tinha uma cara de jacaré-de-papo-amarelo, tinha uns olhos de jararaca-cruzeira, nem tinha um pescoço de sapo-ferreiro. E ainda vomitou:
            - Qual tua posição sexual preferida, beu irpão?!
            Gelei. Continuei gelado gelando. O capincho, dito isso aí, saiu fora sem terminar de rir, ih ih ih!... Me arrepiei. Me arrependi. Nem devia estar ali, essa era outra boa verdade. Mas estava. E olhei tudo com receio do tipo de viés. Estava cumprindo meu livre arbítrio. Tava numa sinuca de bico. Me sentia um pato-do-mato. Um burro pintado de verde com cincerro novo. Um rato-da-taquara que caíra na ratoeira. E como dizia o cotovelo pro ombro: bem feito!
            O meu negócio estava demorando, nem saía, aguardava. Segurei as pontas. Pensava noutra coisa para me distrair. O quê, por exemplo, férias na praia do Saco da Ribeira?, na praia do Curral?, na praia da Guaiúba? Já estava na dúvida se devia sair correndo. Que fiasco, meu! Que dia lascado, orra! Se eu sair dessa eu juro que amanhã mesmo procuro um emprego com trabalho, pensei!
            Então, dos quatro jogadores restou apenas um. Nem acreditei. O focinho de suíno me convidou para jogar. Nem queria, mas aceitei. Ora, o aruá-do-mato apontou pra mim, vou me recusar?! Vou fazer camaradagem, pensei. Opa!
            Começou o do focinho de tomada. O cateto era ruim mesmo. Muito ruim e estava bêbado. E eu nem podia ganhar dele. Ele quis fazer valer uma cerveja. Eu nem queria, mas aceitei. Tentei errar o máximo possível. Que vexame! Bebemos uma cerveja. O perdedor pagava a cerveja ou o ganhador morria? Ganhei a partida, mesmo sem querer. Mas nem ri, fiquei sério, na minha, bebendo pouco. O porco-do-mato bebia pra caramba, cuspia pra caramba. O cateto era nervoso, ainda por cima. E o cateto era muito ruim nesse jogo. O cateto era meio louco. Ganhei novamente e nem ri, fiquei chateado, fechado. O ronca-ronca era daqueles que perdia uma apostava duas perdia duas apostava três. Eu estava lascado. Devia perder, mas nem conseguia. O catete resfolegava de babar. Impossível perder para aquele bêbado doido. Além de ruim no jogo o cateto estava bêbado como uma porca. Como uma vaca. Como uma anta. E desculpe ofender a espécie da cutia.
            Descansei o taco um segundo ao lado da mesa, fiquei escorado nele. Um capincho veio pelo meu ombro esquerdo e soprou esta no meu ouvido esquerdo e assustado:
            - Aqui, este lugar, é reduto do Esporte Clube Opaia, beu irpão!
            Dito isso, saiu fora se rindo todo como um biguá, ih ih ih!... Eu? Gelei. As peças do jogo, na mesa, corriam se esbatendo pra cá e pra lá. Minha vez. Joguei. Uta! Estava morrendo de assustado. Errei todas as tacadas que podia, mas o cachorro louco do meu adversário nem conseguia me ganhar. Vou morrer esfaqueado, vou morrer à tacadas, pensei, pensava. Errei outras vezes. O cateto errava todas. O jogo nem acabava. Estava frito. O tateto me olhava com olho de bagre, falava babando, com olho de boi assassino, com olho de cachorro loco. Ou de cachorro louco, tanto faz. Desculpe ao cachorro. Vai acontecer uma porcaria comigo, vão me jogar no lixo, vão me apagar com trinta tiros, vão me jogar do perau, vão me quebrar as pernas, vão me colocar no micro-ondas, pensei, eu pensava. Nem estava valendo a cera do meu ouvido.
            Estava assim, taco assentado no chão, escorado no taco, esperando minha vez de nem jogar, quando, pelo ombro esquerdo - pelo ombro é sempre perigoso -, uma voz apareceu:
            - E daí, chapa, beu irpão! Me chamou? Qual o lanche?
            Eu quase pulei de alegria. Quase berrei. Soltei aquele taco e ninguém disse nada. Chegava o tipo que era o dono do pedaço, o que vendia, que controlava, que matava e mandava queimar no micro-ondas. Fomos até o carro negociar. Ele disse:
            - Que foi, beu irpão! O de sempre ou mais?
            - Nem, bem menos.
            - Quê? Sai, fora, beu irpão! Que pobreza, beu! Tava no bom do sono dos justos apóstolos, beu! Que unha de fome, beu! Qué um crédito, beu irpão?
            Justifiquei, justifiquei e murmurei desolado:
            - Então. Pouca grana, recurso mixa, camarada.
            Negociamos a mercadoria. Cumprimentos. E eu saí, ufa! Saí mesmo, e correndo. Mas devagar e sempre. Ninguém mexera no carro? Duvidava. Duvide-o-dó. Duvidava que mexessem com o freguês.
            Fui me pensando... Pensava baixo. Dirigindo ruas. Uma correnteza naquela rua Borges de Medeiros e outra rua mais outra. Peguei correnteza braba nas ruas centrais, fui naquela Carlos Barbosa, fui rodando, rádio no sertanejo universitário. Pensava e sonhava. Fantasiava. Parei o carro, fechei bem os vidros, botei uma pedra no céu da boca, apertei um bagulho, dormi. Achava que pensava, sonhava, fantasiava e me assistia como se fosse no cinema.
            Olhei ali, olhei ali e pensei isso: se voo, vou seguindo a sorte até apodrecer; se morto, vou seguindo para o limbo até ressuscitar até reencarnar até retornar num jacarandá-pitanga, por ex.; e ou como salvar o mar, o mar Morto.
            Estiquei e dormi. Nem, cochilei. Acordei no seio da floresta Amazônica. Deitado num aguapé-do-amazonas? Nem, nem era possível dormir. Liguei o carro, parti, rodei, procurei ruas sem correnteza a Pinheiro Machado, caí nas maiores correntezas a Antônio Prado, deslizei... quê?, êpa! Peraí, meu! E gritei pra mim mesmo, àquela hora da matina:
            - Mas é a guria em figura, tchê!
            Era ela? E me vinha até o labirinto um zunido... zunido, piiiiim!... E eu ainda pensei em suspirar e bufei. Nem podia crer, meu! Era ela, sim! Era a Enigmática! Ali, olha! Sacola a tiracolo, cabelos lisos soltos condicionados, mãos nos bolsos da calça apertada, com pouco sal, com pouco doce, sem glúten, caminhando na calçada da rua Flores da Cunha, ah ah ah!...
            Reduzi a marcha e a acompanhei. Ela na calçada, a pé; e eu no carro, andando na lenta. Ela nem me via, nem me reconhecia, nem olhava, nem queria me olhar, nem me dava bola. Eu sabia quem ela era (mais ou menos), ela nem fazia ideia quem era o bobo.
            Eu tava vendo fantasma, fiquei surdo, mas ainda bem. Era ela, a Enigmática. Bufei. E nem me acomodei, nem me conformei, já me descabelei, me escandalizei. Ela, sim, a guria, a Enigmática, a fruta real, legal, completa, em forma, toda boa por fora na casca tenra.
            Buzinei, e nada. Chamei, e nada. A Enigmática era uma guria sem cauda. Mas ali estava a guria e precisando urgente de uma cauda. Necessitando de uma cauda enorme, cauda de jacaroa. Se movimentava como uma marreca-asa-branca. Rebolava. E como um presente de aniversário. Um presente sem cauda. Por que sem cauda com cauda?, nem entendi.
            Na esquina da 24 de Outubro com a Protásio Alves, àquela hora, pronto!, a Enigmática dobrou pra lá, na contramão da correnteza, mão contrária a minha. Precisava pensar rápido. Pensei o quê: deixo o carro? Corro atrás como um idiota? Nunca mais a verei?
            Ela seguiu e nem mais olhou para trás. Isso era sorte ou azar? Ainda suspirei e bufei. Isso era azar, eu sabia, bem sei, pensei: haverá uma próxima vez, vá lá!
            Sim, uvas verdes e ásperas. Sim, uvas da próxima vez. Enig tinha dezesseis aninhos. Dezesseis era demais pra mim? Nem, dezesseis nem era demais ou de menos pra ninguém. A correnteza contrária nem me permitia segui-la, ainda bem.
            E fiquei olhando ela indo embora, fiquei olhando para E-nigmática, olhando sem som, olhando até o horizonte a figura dela com o fundo da praça Pinto Bandeira, olhando aqueles cabelos balançando, olhando a água escorrer por entre os dedos, olhando infinitamente.
            A noite chegou e eu estava ali. Estava parado mesmo. Preso dentro de mim mesmo, e amarrado, no mesmo lugar. Nem conseguia ligar o carro. Ou nem conseguia me decidir sair dali. A mesma esquina que ela me deixou. Pequena sambaíba vestida com esmero. Entardecer maio bairro Santa Cruz céu azul com frisos amarelos. É, a Enig-mática me deixou, escafedeu-se, senti. E a noite, macia noite, desceu outra vez num manto escuro e normal. O tal ibijaú-guaçu piou de onde estava. Voltei para casa. E daí?!
            Voltei para casa. Li história da ilha de Santa Catarina, em quadrinhos. Decidi. Decidi, isso sim, sozinho isso aqui: amanhã vou comprar e adquirir uma gatinha pequinês, ou um cãozinho siamês. Para presentear. Pra presente.
                                                                       ***
            Iaciara era de um metro e sessenta, sessenta e dois, sessenta e quatro. Muito branca, muito loira, muito bonita, muito simpática, muito boa. Muito bonita e muito boa, principalmente da cintura para baixo. Todos nós elogiávamos as pernas de Iaciara. Nós achávamos.
            - Ó só as coxas da guria, meu!
            Um dia nos apareceu de bermuda... pernas brancas e bermudas brancas. Fomos fazer um trabalho de colégio e tal. Eu e a Iaciara e o Mucurici e a Sooretama. Um sábado de manhã, biblioteca da Casa da Cultura João da Cruz e Sousa, ali subindo a rua Marau. Iaciara linda esfuziante alegria e carinhosa. Um dia claro e muito de verão (como distante paradisíaca a praia de Itamambuca). Um dia redondo e a gente ia rindo e rolando de rir.
            Eu sentei do lado dela Iaciara no banco de madeira envernizado. Encostei minha coxa na coxa dela. Os pelinhos loirinhos das pernocas dela, meu! Umas duas horas, hora e meia, uma hora. Mais de uma hora.
            Dever escolar tema pesquisa dos índios, acho que era com os jaru ou os majubim ou os cuchiguara ou os sanamaicã, talvez todas as tribos em função de. Pela janela o vento oeste rebatia as plantas, o bem-te-vizinho-de-asa-ferrugínea cantando com loucura, passou uma borboleta amarela, passou mais de uma, passou mais nada.
            Depois daquele ano nunca mais vi Iaciara. Lembro nem da cara dela nem dos cabelos dela nem do pescoço dela nem dos seios dela nem do riso dela. Nem lembro mesmo das pernas dela.
            Eu nem sei onde anda Iaciara com suas pernas lisas e aventuras.        
***
Dias de inverno. São meses. Eu olhei o inverno por trás da janela envidraçada. Era o que era. Estava mesmo muito frio. E nem era que procura ser figura de linguagem.
            Os pés, as mãos, o nariz, o pescoço, me doíam as costas de tanto ficar deitado na cama sob as cobertas insuficientes. Apareceu uma dor na cabeça. Nem tinha saudade nenhuma de nada.
            Como fazia tanto frio, como? Respirei no vidro e embaciei tudo. Desenhei uma figura celular doida e fria. Desenhei um barco a vela doido e inútil. Desenhei dois olhos cegos e frios. Desenhei traços e pontos, traços e reticências, retas e círculos, geometrias do alfabeto árabe e russo.
            Olhei lá fora, briiiii!... e um touro correndo atrás de um guaipeca, morro abaixo. Reparei e atrás de um touro correndo dois guaipecas, morro acima.
            Estava frio, nem estava nada agradável, estava frio...
            Nem havia cor na atmosfera, nem havia música, nem havia aves de azul. Apenas aquele vento áspero, cortante. E o branco vidrado da geada. Tudo em branco tímido, congelado, glacial ou polar.
            - Acho que vou acender a lareira. Acho, nem sei.
            Parou no alto do morrinho uma carrocinha de abóboras, morangas, melancias, laranjas, abacaxis. Frutas rotundas. E as abóboras rolaram, e as morangas, e as melancias, e as laranjas.
            Olhei uma coisa, bati os dentes sem querer, olhei outra coisa, virei um picolé, as orelhas sentindo, os lábios rachados, os olhos secos.
            Um caminhão bitrem sujo de barro vinha pela estrada da linha Severino Ribeiro capela Santa Terezinha. Ele vinha se esgueirando como jacuraru torto e gordo e embarrado. Apontou no morrinho e já descia. Tinha dois ou mais olhos de vidro que olhavam vidrado como olhos gelados de cego. O caminhão chegou perto nem me viu aqui na janela, nem olhou pro meu lado, rodou e passou.
            - Vou ver um fogo no fogão. É, acho que devo.
            O vento vinha que vinha brincando com o ar. Cortando o que podia. Chegava se arrastando desde o extremo sul, Atibaia, Pinhão, Capão Bonito do Sul, Salto do Jacuí... Parecia eterno e mensageiro e minuano.
***
Nem sei por que me tocam esses sonhos.
            Existia perto de casa, então, uma serraria muito agitada. Tinha uma fornalha com alta chaminé de tijolos à vista que queimava serragem e quando isso acontecia o bicho fumegava dia e noite, uma fumaça branca mais ou menos, e durava dias e o fim de semana todo.
            Hoje em dia está tudo parado e abandonado e arruinado. O grande forno está desativado e a chaminé virou peça de suicídio. Do lado de fora uma trepadeira guaimbé cresceu, cresce e flori tranquilamente. Num pé de guarapicica encostado uma casinha de joão-de-barro no alto com a porta aberta para leste.
            No sonho, nem me lembro bem, eu fui até lá para pular sobre a serragem que havia no fundo do poço da fornalha. Era possível pois tudo estava deserto e abandonado e desleixado. Uma escada de grade de ferro subia por fora. O tempo era de ontem, mas o guri de sempre.
            Já estava lá dentro pulando e gritando e pulava lá de cima. Pulava lá de cima para o fundo amaciado de serragem ou maravalha (às vezes parecia brita, cascalho). Até cansar da brincadeira.
            Descansei acomodado, talvez sentado num tijolo saliente qualquer por dentro do forno. Nós chamávamos a fornalha carijo ou chaminé. Foi quando apareceu uma borboleta dessas de imensas asas brancas toda de branco como um fiapo de nuvem branca como um lenço branco, sei lá.
            A borboleta entrou pelo alto do forno e brincou de flutuar e de voar e de borboletear. Flutuava e ia descendo como uma folha sem peso. Muito devagarzinho. E a ave pomba asa-branca parecia gostar muito da brincadeira. Pairava no ar suspensa como pluma, como paina, sem bater as asas de seda, navegando como pequena asa-delta, parapente. Equilibrada como pandorga suspensa no ar fechado do forno.
            De repente às vezes a borboleta-folha volteava a asa e descia um tantinho, encolhia a outra asa e descia mais um tantinho para a direita. E boiava no ar assim de mansinho. Muito engraçado. Flutuava. Flutuante.  
            Pois eu olhava e olhava em silêncio tudo aquilo, tudo engraçado, tudo novidade e continuava olhando... aguardando novidades desde o começo do mundo... até apagar tudo pelo estrondo 05:50 no despertar da matinada.
                                                                      
  

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