Nem Sempre Contudo
Foi Assim
Seja
como for, despencou a tarde em estardalhaço de quebra de brinquedo. A noite e seus
preciosos dentes de diamante brilhante. Também os mais entre os quais dos tais
luscos e fuscos e boitatás e fogos-fátuos.
-
Você já conhece Itabaiana? Já viu já esteve em Caculé, Pindaí?
Eu me
perguntava estava na farmácia Raiz-de-Sol, emprego garantido novo e atual.
Recolhido como um cão na sua corrente. No pequeno circuito fechado pela
corrente. O patrão no caixa e eu atendendo a clientela no balcão. A noite vinha
e com ela a coceira de notícias fresquinhas.
Levantei os
olhos, rodopiei no ar oito voltas, assustei, acordei, e como diria o tucano-de-bico-verde:
- Raaau!...
Enigmática...
apareceu bem ali de surpresa. Isso mesmo, um dia tinha que vir, nem?! Aparecia,
hein?!
Pois
Enigmática ginasta e macia nas suas curvas, lombas, esquinas, paletas e ancas.
Talvez fosse perna longa mágica. E olhos negros como a noite, e olhos verdes fundos
como a mata no amanhecer de sol diante do mundo do mundo.
Ela
chegou ali como se fosse uma paina pousando na superfície de um lago de um
remanso de rio. Então, muito quieta e calma e silenciosa e macia. Quando a vi...
Quando acordei... Custei a acreditar que realmente estava assim ali diante de
mim, frente a frente e sã e salva.
Tudo
é possível, pensei.
Pensei
até que fosse um aviso do além, do destino, do acaso, do jogo. Coisa feita para
mim em especial, coisa do meu sonho realizado. Ou nem? Seria uma coincidência?
Uma ilusão? Pois é. Isso tudo passava pela minha carapuça.
E-nigmática
chegou perto do balcão, se dirigindo a quem? A quem? Olhei pros lados. A mim, é
claro. Pelo de jaguatirica, olhar de corruíra, curvas de lambari na sanga. Um
bafo fresco lindo de chá de jurubeba-de-espinho. Eu respondi:
-
Oi! - disse, de olhos acesos na superfície, diante da surpresa.
Olhei
e olhei a boca dela falando e mastigando as palavras. É, eu estava ficando cada
dia mais zoológico. Um zoológico doméstico de puxar carroça.
E Enigmática
me pareceu um ser do ar, das águas, dos rios, dos matinhos, das borboletas, e
com asas nas costas, e cabelos arrastando pelo gramado, flutuando no ar. Como
eu nem sabia.
Me
virei nos quatro calcanhares de quadrúpede, e fui ver a receita, procurando
entre prateleiras. Me escondi e caí na risada. Eu estava nervoso e preocupado.
Que nervoso que me deu, cara!
Eu
devia nem estar ali e estava. Ou vice-versa. Como D disse uma vez: na hora
certa no lugar certo.
Mas
eu queria aparentar frieza e fortaleza e machadeza. Sim, eu procurei me acalmar.
Ninguém podia dizer que nem estava sob controle dos meus nervos e músculos. Estava
calmo e ouvindo perfeitamente. Enxergando muito bem. E caminhei com os pés
calçados nas patas. E nadei com os braços. E voei com as orelhas quentes. Ninguém
podia dizer que nem.
Mas
eu tinha um grilo. Tinha em mim que ela estava lá e me olhando e me observando
do balcão, me seguindo, me cuidando. E então, eu precisava fazer o quê? Fingir
que estava calmo. Estava absolutamente tranquilo controlado maduro devagar. E
se eu a olhasse e lhe desse um sorriso, até um ah, ah, ah?!... Seria melhor.
Mostraria que estava muito muito à vontade. Mostraria meus dentes brancos. E
também poderia confirmar se a minha intuição estava certa ou nem. Fui e me virei
e olhei. Assim, talvez? Mas nem, nem queria ter essa certeza, quem sabe fosse
já uma decepção. Nem olhei. Mantive a estudada calma e aquele olhar solene de
boi manso amarrado na sombra do ipê-peroba. Olhar de boi ou de burro ou de
carneiro ou de anta esperando seu dono. Eu queria ser osso duro de roer no meu
zoológico do dia a dia.
Enigmática...
sorria misteriosamente extraordinariamente extraoficialmente
extragalacticamente. Queria contorná-la com minhas mãos minhas mãos ou patas ou
asas queria muito contorná-la. Quem eu pedia isso.
Coloquei
o pedido na sacolinha de plástico e entreguei ao caixa. Enig-mática pagou, pegou
e partiu. Olha como foi! Sem me avisar. Sem trocar um olhar significativo um
cumprimento. Que oi, meu! Nem olhou para trás. Nem olhou, nem olhou. E eu,
minha querida? Nem olhou nada mais além dos próprios pés e nos seus passos. E
sumiu depois da porta. Então, vi o cão...
O
cão estava ali o tempo todo? Talvez. E como foi que nem o tinha visto, como ninguém
o vira ou pressentira? Nem era estimação da famosa Enigmática, com certeza,
senão teria partido com ela. De quem seria esse bicho? Ninguém sentiu seu
cheiro e sua presença e seu olhar insistente. Que coisa estranha, meu! O guaipeca
me olhava de um jeito intrigante, entortando a cabeça engraçado. Procurava em
mim uma reação? Procurava em mim um irmão?
Era
um vira-lata vadio ou fantasma. E que ele queria ali parado? Me olhando. Me
olhava por quê? Me olhava por que eu o olhava, era isso? Enigmática fora e o cão
ficara, nem eram a mesma pessoa. Ficou aí numa pose de bibelô. Cão misterioso. Cão
gênio. Cão carnívoro.
Eu
ouvira falar de um lugar calor sol praia o ano todo o ano inteiro, novidades
também, qual seja, Camaçari, oh! Camaçari. E árvores frondosas performáticas
habilidosas plantadas durante a 3ª República.
-
Digo possuir um raro exemplar em minha bíblio particular.
Fui
até a porta da farmácia e expulsei o intruso a assombração. Aquilo me provocava
arrepios. Ele nem correu, nem latiu, nem xingou, nem vomitou. Foi até ali e
continuou me olhando. Nem parecia ter receio. Por que teria? Receio algum,
aliás. Andou até um tanto e parou e sentou como um bibelô. Sentou sobre a
cauda. Parecia tímido. Nem falara nada até aquele momento. Sempre olhando para
mim com olhar fixo, urgente, animal. Um olhar que incomodava. Um olhar
insistente e calmo. Um olhar de premonição. Um olhar de brilho verde garrafa.
Um olhar sem perguntas sem as tais e quais orelhas altas. Um olhar de semideus.
Me
despedi saí e disse, me resumindo:
- Azira, meu!
Voltei para meu
lugar no balcão da farmácia e cruzei os braços apoiei os cotovelos no tampo. O
cão parecia ter uma bronca comigo, seria? Um cão impressionante. Parecia querer
me hipnotizar. Um olhar de montanha escarpada, rochosa, alta além das nuvens.
Estaria com fome e sede? Teria alguma missão? E ainda por cima mostrando a
língua, babando.
Sem exagero
sem esperar o dia de São Nunca, eu poderia ir e viajar e conhecer o museu do
Ingá em Niterói, nem poderia?, me perguntei. A praia de Arembepe, também era
uma opção. A bela cidade litorânea do município de Barão do Triunfo, por
recomendação?
Me
lembrei de uma palhaçada que fizera uns meses atrás. E aquilo estava contando roendo
o meu encefalograma. Parecia ter uma relação correlação. A cada meia hora pensava
naquilo. Uma palhaçada que ali eu respondia como mó na consciência.
A
filha do vizinho viera lá em casa pedir uma xícara de azeite ou açúcar ou sal.
Eu estava sozinho. Aliás, o anhangá estava pousado no meu ombro esquerdo, escorado
atrás da minha orelha esquerda. Pois a menina veio e chegou e bateu na porta.
Fui atender e me deu um branco um ruído. Me bateu a estupidez, um som hipnótico,
tiiim!... Era a filha do vizinho e meu pouco cérebro apagou. Regulávamos em
idade, uns 15 para 16. Nunca tivemos intimidade. Sempre fui contido, sempre a
olhei e fiquei quieto, etc.
Ela bateu na
porta e naquele dia eu abri a porta. Nos encaramos e eu, tiiim!... perdi o chão.
Menina bonita, elegante, provocante, quente, ensolarada, gostosinha,
engraçadinha, verdinha, trinta quilos, decote abissal, short marca v e de
arrasar. Cabelo molhado do banho. O pessoal dizia que ela ia dar num mulherão
de passarela. Vê só se podia! E a família a levava na soga curta. Mas aí eu,
tiiim!... Me faça o favor! Um carneiro pensa, um capincho pensa, um jaburu
pensa, um jeju pensa? Eu pensava como um bode um béee!... E que desculpem as
comparações os bichos e os animais que só agem por estilo de conservação.
Eu
a convidei para entrar. Tentei uma conversa de colégio, de nem me lembro bem o
quê, de livros e livrarias, de Enem e vestibular, de provas de geografia e
ciências naturais. Até que ela riu um pouco, pouco descontraída. E tinha
brincos de odalisca. E queria ser dentista porque o importante nas pessoas era
o sorriso.
Ainda convidei
para entrar. Acho que estava quase confiando ou querendo confiar. Então, aquela
tonteira com ruído no início, tiiim!... Tentei acariciá-la. Ela saltou de lado.
Disparou, quase correu. Eu procurei amenizar:
-
Só quero pegar a sua mão, Cujubim!
-
Nem precisa. Olha, tou até tremendo.
Fui
buscar a xícara de farinha de trigo ou de milho ou de mandioca, sei lá. Ela me
olhava igual bicho preso pelo pescoço.
-
Olha que conto pro pai, hem!
-
Eu só estava brincando, se você quer saber.
E
depois, durante dias, aquela mó na consciência triturando o resto da minha
paciência. Desse modo. Desse tamanho. Essa a vaidade. Que fiasco, meu! Bati
três vezes na paracuuba mais próxima. Mas ainda havia tempo de contar, se ela, Cujubim,
quisesse.
Um
rio do Rio Grande do Norte e com sete letras: seria o Potenji? Tribo do Pará
com cinco letras: deve ser urupá ou guajá. Cidade litorânea de Santa Catarina
começando com c, deve ser Caetité. Rua de Campo Grande seria rua Visconde de
Pirajá?
Bem,
20 horas. Fechamos a farmácia. O dono morava no prédio. Eu tinha que andar uns
poucos quarteirões. Vesti o casaco, a touca, o cachecol, as luvas, um gole da
canha que levava num miniaturizado vidrinho de bolso mocozeado no bolso e fui. Fomos,
mãos nos bolsos, né! Caminhando devagar. Aqui e ali uns pindós impessoais. As
ruas cheias de sombras ornamentadas de árvores capoeira. Próprio para criar
fantasmas, planejar assaltos, tocaias, atentados aos bons costumes e etc. Ruas
sem luz pública, casinhas distantes da outra. Noite encoberta e temperatura
baixa de encarangar cusco.
Vinha
o inverno, partia o verão, vinha o verão, partia o inverno, vinha o verão. Estávamos
no inverno. O dia podia amanhecer com muita luz, o dia podia surgir fechado em garoa,
o dia nem aparecia atrás das nuvens, sol forte, o dia nublado, o dia nem
amanhecia perdido na cerração, cinco graus negativos, noite friorenta e úmida.
Enigmática
me voltava ao miolo mole. Cheiro de jurubeba-de-espinho? Ou cheiro de chá de
folha de laranjeira, camomila, cidrilha? Cheiro de quente, de corpo quente, corpo
quente de jaguatirica, jaguatirica pintada e grrrrrraaaau!... É, podia ser,
pensei. Nem, nem vinha ao caso. Bom esquecer. A pele dela com certeza era da
maciez do pêssego maduro. Da maciez da pitanga amarela. De uma pétala madura. As
pálpebras lindas dos olhos bonitos eram asas de borboletas verdes engraçadas.
Estava muito interessado.
Um
cão uivou ou acoou ou latiu escondido ali pela noite sem fim sem fundo nas
escuridões e etc. Escutei e nem entendi.
Queria
pensar na E-nig-mática. Que eu ganhava mais. Somente nela. Como se vestia, uma
calça apertada, uma blusa até o queixo, um gorro vermelho com pompom, lá nas
canelas um par de tênis com meiões. Assim mesmo. E assim mesmo toda embrulhada
para inverno.
Uma
lua, umas nuvens assustadoras, um vento gelado com o clássico vuuu!... Só faltavam
uns lobos-guarás para arrepiar a pele um tanto mais. Uma casa em ruínas com
lenda de assassino foragido. Um carro vindo na contramão luzes apagadas marcha
lenta uma ponte de madeira uma rua deserta envolvida nas sombras passando pela frente
de uma casa desabitada. Sabe que ali mataram o fulano de tal e foi pelas costas
com uma facada no peito?
Mas
por encanto, aquele dia eu só pensava em a Enigmatica. Era uma obsessão
cinematográfica. E unilateral, unipessoal, deixar bem claro.
Um
nitrido, ri-tu-tu!... dentro da noite. Que calafrio é esse, meu!, pensei. Dentro
da noite é brabo. E era sonoro. A noite gelada, ainda por cima. Seria o acaso
de eu estar no território perdido do dinhonhinho? E se o estranho estava
nervoso por alguma coisa que eu havia dito ou feito ou desfeito? Sabia lá eu?! Bem,
é o que se diz: os cães nem atacam ninguém pela frente, só pelas costas. A
menos que esse bicho fosse o Cão, está claro!, pensei.
Estava
naquele ponto estúpido que só via importância no mundo com a existência da E-nig-má-ti-ca.
Sem ela nada interessava, sem ela nada feito, sem ela nada satisfeito. Que o
mundo se explodisse, implodisse, acabasse em maremoto, em barranco. Fora da
Enigmática nem existia conversa. Fora dela nem existia paz. Fora dela nem
existia viagem passeio em Belém do Pará. Fora da Enigmática nem existia D.
Que
era aquilo? Ouvi outro grunhido prolongado, aiuuu!... Ouvi passos dentro das
sombras, perto de mim, cheeeepe! cheeeepe!... pela capoeira. Ou seria só o
vento?, vuuu!... Qualquer coisa eu estava pronto para correr. Qualquer coisa eu
sos ali mesmo e pronto. Meu coração vinha com o descompassado, tum! tum!
tum!...
Mais
um crocitar, nhauuu!... cada vez mais perto. Estava indo pro calabouço? Parecia
que estava indo ao encontro do cão dono do fogo. Outro casquinar, miuuur!...
Puxei
do bolso do casaco a garrafa de canha. Tomei bons goles. Tomei mais uns. A
droga da bebida esquentava. Era horrível, esfolava a garganta, matava os
bichos, esquentava, anestesiava, tudo isso. Parecia que fazia bem e dava
coragem. Estava no meio da noite, ou seja, do nada. Eu mais meus olhos os que
suavam. Minha alma tinha o vazio o vácuo cibernético. Meus ossos se chocavam lá
entre eles mesmos e sem controle.
Se
eu sair desta sozinho eu prometo que serei uma pessoa mais tolerante com meu
próximo, pensei, decidi, me comprometi, prometi, jurei.
O
vento mexeu com folhas nas árvores, as folhas resmungaram coisas que nem saberia
repetir. Estava sem memória. Sem tempo. Sem pátria ou mátria. Uma vez quando
Tupã nem era natural daqui, quando os rios eram córregos chinfrins, quando as
árvores eram brancas nas copas, quando as montanhas eram de horizontes azuis,
quando padre Diogo Antônio Feijó era Regente do Império do B...
O
garrido estava muito perto mesmo, tauuu!... Se eu tivesse de correr correria agora
e para lá? Ei!, de repente nem enxerguei mais nada. A noite estava muito escura
e fiquei preso no limbo. Só tateando o nada, meu! Olhei em volta e nem encontrei
uma saída. Olhei meus pés, cadê meus pés?! Nem vi mais nada de nada. O rangido
parecia vir do chão, debaixo dos meus pés, miiiuuu!... E aí, meu?!
Que
fazer numa hora dessas? Pedir sos? Uma ideia.
O
vento soprava o seu soprar de frio noturno. Os morcegos ou corujas ou urutaus criticavam,
ruuu!... gorgolavam, gla-glauuu!... ali e mais perto, mais longe. Mais uma vez
a noite me pareceu do outro mundo. A escuridão como um mar, um lago, um aquário
onde estava afogado, preso, abandonado, ilhado, rodando, atolado até o pescoço.
A noite do outro lado.
Tomei
outros goles. Escutei passos, leeeque! leeeque!... Alguém me espreitava. Alguém
algo se aproximando. Um bicho que vinha no meu rasto? Coisa fantástica? O meu
último dia de noite. Morrer encurralado como um mocó.
E
de súbito, do nada mesmo, alguém passou a meio passo de mim a meio palmo de mim
e falou, disse pra mim?, disse que eu ouvi:
-
Boa noite!
As
nuvens pesadas e baixas mexiam com a treva. Noite mexida. O vento parecia
empurrar tudo para o fim dos tempos e dos planetas e das nebulosas.
Enquanto
isso, conversei comigo mesmo. Outra ideia.
Para
falar a verdade, pensei até no meu tempo aqui entre as gentes na terra. O meu
tempo reservado aqui na terra, etc. Eu pensei como um burro. Eu achei que o
lugar nem, esse nosso lugar, nem levava a nenhum lugar. Esse lugar e nada era a
mesma coisa. Eu achei.
Olhei
para o lado que vem a chuva, 20h22min.
Eu
acho, nem deixo nunca de achar, achei antes de hoje, nem termino de achar, embora
nunca tenha realmente encontrado alguma coisa, acho e etc. Continuo conversando
comigo mesmo. Ainda as ideias.
Até
hoje ainda nem sei quem era a figura se foi se existiu que me cumprimentou se
me cumprimentou no meio daquele escurão. E me arrepio de pavor gelado: boa
noite!
***
Aqui
nem tem rua de Cima, rua de Baixo, rua da Direita, rua da Araucária, rua da
Matriz, rua do Ouvidor, beco Anambé, praça do Enforcado. A cidade ainda é
novinha, já adiantado um quarto do século XX. Aqui nem vieram desfilar com seus
narizes dignos muito dignos a princesa Isabel e seu marido o marechal conde
d’EU.
Uirá,
com tudo acontecendo, a cabeça noutro planeta, as pessoas falando sem parar,
etc., ela nem sabia o que fazer. Ensinaram pra ela, então, que deveria tirar
umas férias longe de tudo e de todos.
-
Em que província você quer ir espairecer, hein, Uirá?
Uirá
nem sabia de nada. Nem sabia que isso seria possível. Mas pensou num lugar
longe de tudo e de todos. Araxá, a cidade onde o sol nasce primeiro. São José
do Norte, a cidade onde as águas se encontram. Conceição do Coité, a cidade bem
mais em conta ao norte. E que tal Boa Vista do Cadeado. Escolheu:
-
Eu quero ir para as praias de Torres. Lá me aparecem uns lugares bons e lindos
e oceânicos. Lá já aportou D. Pedro I nos outros bons tempos idos e antigos.
A
viagem foi marcada pelo mais absoluto sigilo segredo silêncio. E ainda lhe
ofereceram boas opções:
-
Assim, praia Morro dos Conventos, Araranguá! Tem certeza que nem quer Itapira?
Urupema é bom, hein?! Tem Belterra, Itajibá, Carmópolis, Santanópolis,
Paranaguá! Temos ainda uma boa estada na aldeia dos arecuna, quem sabe! O parna
das Emas!
Assim,
Uirá foi para as praias de Torres passar uma ou duas ou três semanas, conforme.
A mãe acompanhou, meio de longe, quase nem saindo do hotelzinho, sol muito
forte, dor nas cadeiras, pernas cansadas, a idade, subir e descer estradinhas
de areia solta.
Uirá
andou ruas da cidade no centro, praça Conde de Porto Alegre, andou vitrines,
andou satisfeita, andou flertando. Uma vez tentou trocar de nome. Queria se
chamar Juranda, viu na placa de um auto. Os lábios de batom café, as unhas de
verde e o cabelo de loira. Falava com o mar e queria saber o que ele pensava.
-
Se existe um tipo de pessoa que muito mais me agrada, é o tipo que trabalha
trabalha oito horas todo santo dia e sem reclamar. Eu aprovo e comprovo e
admiro e admito esse tipo de ser humano. Estou satisfeita.
Ela
chegou mesmo até a pisar as espumas do mar na areia da praia da Cal, e voltou
correndo, foi até o mar molhar os tornozelos e voltou correndo. Uma margarida
de corola amarela e pétalas brancas desenhava um enfeite preso à orelha. Chegou
a ir até o mar molhar os pulsos, voltou rindo, rindo. Foi até uma certa altura
pela cintura e cheirou o mar, mas saiu apressada por quê. Parou na areia. O mar
vinha rasteiro e calmo beijar seus pés. Nem demorou muito, se decidiu, foi de
encontro a uma onda, braços abertos, abraçar o mundo, e mergulhou. Emergiu
nadando como borboleta subindo e descendo com a onda. Nadou pra lá e pra cá
paralela à orla. Chegava um momento, parava pra boiar. O mar gorgolava no seu
natural. O sal e o sol na cara tinha de fechar os olhos. O balanço estava como
de um sonho na cama, ou rede de deitar na área.
Subiu
a duna da praia da Guarita rumo à casa de pedra abandonada, em ruínas, sem dono
ou sem para-raios. Chegou no alto da duna, as pernas molengas. Mão em pala pra
reparar o mar e o céu, tudo azul, todo sol e vento. Renda de espuma
ziguezagueava até a areia. Ondas macias com sons do fundo do oceano. Nem era
bonito, nem era exótico, era lindo. Algo assim muito incomum e parapsicológico
e paradidático e paraquedista. Era bom olhar, e ela olhava. O mar a areia as
nuvens raras que se mexiam. Aves marinhas bicavam o mar e pousavam no penhasco,
gaivotas atobás albatrozes andorinhas-do-mar. O mar insistia toda vida em bater
nos rochedos. O canto do mar. O mar estava calmo e se mexendo. Confundido com o
azul do céu mais Atlântico ainda.
Sabia
que o vento e o mar sempre foram dupla poderosa, coisas difíceis de agradar. Os
deuses que os movem acordam pela manhã nos humores. Bastam umas nuvens pesadas
e empurram tudo que estiver pela frente. O vento berra como fera, e o mar quer teimar
em desobstruir os rochedos da costa. O vento casado com a chuva, a chuva aumentando
o poder da tempestade da procela. Um maremoto parece então querer destruir até
a casa de pedra abandona. E pela manhã seguinte tudo bem, tudo fingindo que nem
fora nada.
A
iemanjá a Uirá caminhou pela areia quente brilhante, se interessou, se agachou,
caminhou, olhou, beliscou conchinhas trazidas pela água salgada, o mar no som
da concha. Nem eram bonitas. Nem eram nem feias. Nem eram novidades. Nem eram
coisas. Eram conchinhas deixadas pelo desejo do mar. Umas conchinhas grandes,
outras pequenas, ainda mais quebradas ou derretidas. Passavam transatlânticos
de Itajaí para Rio Grande.
A moça caminhou
na ponta dos pés de ponta a ponta sempre interessada em conchinhas, corais,
caranguejos, ossos de baleia, garrafas com sos. Recolheu o que pôde carregar.
Ela era muito pobre de conchinhas e cia. Nem resistiu e nem sossegou e nem
respeitou quando viu as coisas ali perdidas, sobrando, esquecidas, atiradas, naufragadas,
deixadas. Uma vez pensou em devolvê-las ao mar. A moça espalhou as conchinhas
onde quis, na casa de pedra abandonada, ilhada, pela trilha até a casa em
ruínas. Se enfeitou com conchinhas algas peixes igual a Iemanjá da estampa.
Mas
então era confidencial. De qualquer maneira que se olhasse, isso nem vinha ao
caso. Já encontrara coisas raras ou inusitadas jogadas na areia pelo mar. Uma
manhã encontrou uma estrela-do-mar. Toda vermelhinha toda pontas toda empedrada
e menor que uma estrela-do-mar. Um dente de tubarão. Só podia ser de tubarão ou
cação. Uma garrafa de vinho vazia ou lâmpada de azeite mágica. Uma louça de
cozinha lá de Atlântida ou de Costa do Marfim ou de Itacaré. Uma baleia
encalhada. O cetáceo finou se debatendo por três dias e três noites. Pediu sos
e rabanou um absurdo um escândalo um vexame um fiasco. As aves do penhasco só
esperaram o último minuto pra se pincharem em cima como urubus ou quiriquiris
ou tucanos-pacova.
Nas
asas das preciosas instruções instruções franziu a testa guajuvira-da-baía
sacudida com o vento caíram os óculos sim senhor! sim senhor! a mão tremente
junto da quirica ninho de abelhas em forma de balão pendendo do galho fora de
si olhar fino no horizonte sucumbiu e desmaiou. O rosto se iluminou se iluminou
e um sorriso campeão nos lábios secos e cantarolou:
-
Até a péee... nóoos ireeemos...
Mas o que a
moça queria encontrar e nunca encontrou era uma garrafa com carta-mensagem do
outro lado do Atlântico ou de um transatlântico espetacular ou ainda de um
navio rebentado durante borrasca. A moça achava que saber uma história alheia
de gente estrangeira seria de muita importância para sua própria autoestima autossuficiência
autocorrespondência automóvel.
Uirá
vagava pela casa de pedra abandonada. Toda pedra, pedra após pedra, pedregulho,
tantas paredes empilhadas, como uma gruta dos tempos indígenas. Com saudades de
estalactites e estalagmites. Toda como uma fortaleza exposta aos quatro ventos
e à chuva. Quando ventava frio nem havia para onde se esconder. No começo de
sua construção a casa de pedra tinha tudo para ser um hotel, mas em ruínas
restou mesmo como uma ponte ou trampolim. O porão sempre úmido, e em épocas de
chuvas fortes todo alagado. As aberturas de portas e janelas sem proteção
alguma sem teto. Nenhuma mobília. O mato rasteiro invadira, e os bichinhos esquivos
e olhudos tomaram conta dos buracos e frinchas e frestas e rachaduras. O vento
andava muito à vontade pelas dez ou doze partes. E se via de longe o monumento
ao desperdício.
Ela
tinha um cômodo preferido, que usava para dormir à hora da sesta ou descansar
do sol forte. Andava pelas partes da casa só para espairecer só para variar. De
uma janela cuidava do mar, do mar cantando sua canção de força e azul. Por essa
mesma chegava e invadia o melhor do vento sul. Da outra janela e da outra
cuidava com mais um pedaço de mar e das rochas subindo a encosta. Da maioria
das janelas abertas no ar se via o mar. Ou o céu azul de dia e por certo de
noite. De outras e outras olhava a vegetação persistente que nascia e crescia
com dificuldades entre a areia e o pedregulho os mandacarus as árvores-de-coral.
Para lá, mais longe, o horizonte das montanhas, o interior do continente.
Apoiava os cotovelos no parapeito no paraíso. Sentava ioga nas janelas, também.
Andava pelos corredores com calma, com as mãos nas costas igual monge ou irmã
de caridade. A casa arruinada era um lugar e pronto. Deitava na rede e relaxava.
Embalada pelo vento que, antes de a embalar, percorria os cômodos, vinha do
azul, chegava de longe longe. A casa de pedras era refém do vento. A casa
construída de pedras grandes que dois homens braçudos nem podiam carregar.
Encostada na janela e olhos de mar.
Lá
vem um barco será que vai pra onde e se D quiser? Deve passar rapidinho e ir e
voltar entre São José do Norte e Laguna, pensou.
Tentou
povoar a casa com andorinhas-do-mar. A casa de pedras abandonada e em ruínas só
podia ter sofrido uma maldição. Houve um erro qualquer em algum lugar de
alguém. Talvez o mar ou o vento nem quisessem aquela construção ali. O vento de
repente pouco se importava, mas as dunas... Ah! as dunas nem se sabia o quanto
detestavam aquela ou outras construções.
Ela ocupava a
casa de pedras como um morcego ocupa uma caverna. Nem poucas vezes por dia ela
corria as peças da casa. Parava numa abertura de janela e olhava o quadro no
ar: um naco de mar, umas pedras e gaivotas no costão, umas aves trabalhando na
colheita de peixes em voos suicidas. Mudava de quadro quando queria. Podia
deitar no parapeito da abertura, fechava os olhos e escutava o que fosse. O
vento passava muito muito pacientemente. O sol era mais frequente e azul. O
vento muito rente muito rente. E o vento e a chuva vinham lá de vez em quando,
uma vez ou outra, e nos seus diferentes agasalhos.
No bojo do
alto-mar o agito nem era menor ou menos importante. Uns petroleiros carregados
de guindastes amarelos e plataformas. Uns navios de porte grande lotados de caixas
de aço coloridas empilhadas. Armas de guerra partindo para a patrulha. Eram
aviões sobrevoando.
Uirá olhava a
lagartixa na parede. Como olhar o bichinho verde, magrelo, de cabeça para
baixo. Se a lagartixa quisesse, quando quisesse, podia entrar por uma dessas
frestas e sumir. Uma aranha fazendo teia. À noite esses droguinhas caçavam
muito. Uirá já acordara da sesta com eles investigando seu corpo quente. Para a
lagartixa e para a aranha ela era um bom prato e mas enorme. Uirá e a lagartixa
e a aranha nem foram apresentadas. Só se olhavam meio mal e mal. Uirá sabia da
presença daqueles droguinhas. Os droguinhas paravam o que estavam fazendo e
olhavam quem os olhava. Fácil saber o que pensavam. Cada um seguia seu por que
da sorte do jeito do rio que foi posto ali no mundo. Uma lagartixa ganhava o
dia quando alcançava outro droguinha abaixo da sua cadeia alimentar. A aranha
sabia que a eternidade se manteria quando alcançasse também seu droguinha
comestível. Aquelas pedras nuas da casa abandonada e em ruínas escondiam muitos
droguinhas. Quantas vezes passarinhos mesmo paravam no peitoril para olhar. Os
droguinhas com certeza nem sabiam que a casa em ruínas era diferente das pedras
do costão. Uirá nem se relacionava com esses insetos e, de vez em quando, ouvia
canções vindo dos buraquinhos na parede.
Os droguinhas nem eram feios e nem nada.
Pois
Uirá sabia talvez que aquelas árvores ou arbustos à beira-mar sempre seriam
pequenas e tortas ou rasteiras. Ervas pequenas e espinhentas podadas pelo
vento. Umas ervas subiam e desciam as dunas se arrastando tentando agarrar a
areia. Uirá parava na trilha para olhar os tortos ingás-de-flor-vermelha. Uma
ou outra erva dava sua flor por aí, solitária, novidade. Ela parava para olhar
os tortos arbustos e até esticava a mão para tocar uma folhinha, a casca do
tronco, o espinho desenvolvido. Eram plantinhas sem passarinhos ou bichinhos
quaisquer. Uma erva rastejante, sem nome, dava uma flor amarela certa época do
ano. As aves do mar também nem precisavam daquelas plantinhas. As aves faziam
ninhos de pedras nas pedras.
Decidiu
várias vezes durante os dias contar as folhas do arbusto. E da erva agarradeira
contar as pétalas da flor amarela. O que seria então o amarelo? Que tamanho e
textura e que comprido? O sol era amarelo e sorria. Olhando bem, quando bem o
chão aqui e ali, Uirá reparava e descobria outras flores selvagens. Que nem aguentavam
muito por causa do calor. Contava as pétalas uma duas três oito dez. As flores
cantavam o que gostavam de se mostrar logo pela manhã. E rios de formigas-de-ferrão
e bandidas entre as pedras. As formigas sempre encontravam o que fazer.
A
moça catava coisas pelo lugar. Tudo que brilhava era novo. Penas de aves,
principalmente evidentemente praticamente marinhas. Colecionou tantas que uma
vez pensou em sair de cocar e de índia pataxó ou com os tais enfeites ararás.
As peninhas nem eram coloridas, uma pena. Encontrou aquelas pedrinhas
torneadinhas, caprichadas, para jogar cinco-marias. Levava horas jogando e se
desafiando. E droguinhas de borboletas raras saindo pelo ar. Os guajás
cautelosos subindo se escondendo no buraco. O cheiro de mar no ar livre.
Uma
duas caravanas de férias no mar. A praia estava boa o sol quente o vento
tranquilo. Acho que são de Antônio João. A bola correndo no jogo da gurizada. O
pessoal de Mata gosta de praia como eu como nós, pensou.
Então
sim, Uirá subiu as perigosas penedias, trepou bem no topo, e criar por lá os
horizontes, fazer o quê. As aves se escandalizaram. Passavam velozes muito rente
da sua cabeça, greeei!... Mas tinha navio tinha ilha tinha uma curva tinha uma
curva.
Aí, num
momento de sossego, ela se sentou na pedra para olhar o mar. Ali o vento
cantava de outro jeito. O vento cantava mais oxigenado, azulado, mais à
vontade. As aves de tipos marinhos variados cuidavam se perguntando que que
aquela veio fazer ali no tão alto. Foi quando Uirá se lembrou que gostava de
ovinhos de páscoa. Eram muitos ninhos ali. O vento cantava mais forte um,
vuuu!... Ela pôs a mão e as aves gritaram de horror, chamando por socorro, por
sos. Da mão em garra foram os ovos direto para o papo. Uma colheita com seus
riscos pois podia tropeçar cair do penhasco.
Uirá ainda
espiou o mar, aquele lençol azul com renda aqui e ali. Viu também a casa de
pedras como uma caixinha de fósforos jogada. De cima a casa parecia mais como
uma tapera depois do abandono. A moça riu vez que vez porque as aves eram muito
engraçadas, com comportamentos no mínimo inusitados, insólitos, agressivos,
rasantes, estridentes, piiireeéu!...
Às
vezes nem apareciam nuvens para a chuva do fim de tarde. Ela via lá fora o sol
derreter tudo. Dias e dias sem vento. Nada piava. As aves marinhas no alto do
penhasco se abanavam com o leque de asas. Nem mesmo trilhas de formigas-cortadeiras
e bandidas. Ela nem queria paisagem de olhos ardentes. As pedras pediam água.
Toda a vegetação pendia entregue. O meio-dia gritava um urro, uuuh!... de
fervura, de fritura, de brilho insuportável nos olhos. Baleia-de-corcova
mostrando a cauda ensinando filhote a nadar amamentando.
Uirá
reparou um dia que um cão vira-lata veio querendo pedir arrego, ser bicho de
estimação. A moça mandou-o embora. O cão nem entendeu. Ela repetiu muitas vezes
que nem o queria. O cão ia e parava, ia e reparava, ia e olhava querendo
voltar. Sem amizade. A guria jogou uma pedra nas costelas do cão. Ansim sim o bichinho
rosnou se convenceu.
E
o que fazer e esqueceu o que fazer.
Não
obstante, nuvens em forma de bicho, instruções instruções!, ananases-de-agulha,
favas-de-besouro, pixiricas, mio-mios... nessa época do ano, saudade da
quirica, seguiu as instruções contadas uma por uma nos dedos e desmaiou.
Ela estudava
as rotas das formigas-correição e bandidas, mas só por acaso. As formigas as
primeiras a deixar o céu, as últimas a abandonar a terra. As formigas-brasa batiam
chocalho, bre-bri-bri!... e faziam arrastões nos ninhos das aves marinhas, no
alto dos rochedos. Então, as bandidas em bando, milhares delas quem sabe
milhões, caçavam filhotinhos vivos de atobás-pardos e os devoravam em minutos.
***
Tinha
um baile logo ali na linha General Osório, capela Santo Isidoro. Eu mereço!,
pensei. A turma resolveu, nós fomos, eu fui. Um baile num casarão antigo de
madeira e coberto de zinco. Um lugar bucólico com joões-tiriris piando no
capoeirão e no meio das árvores içarandubas jacarandás-caviúnas ouricuris
juremas-pretas guaranhéns-do-campo perobeiras... perfeitamente uma floresta
tipo reserva Tapajós-Arapiuns.
E
eu estava dançando com a Caxangá. Uma vizinha minha recente também perdida por
aí e encontrada. Eu já a tinha visto duas ou três vezes pela rua Itália
naquelas últimas semanas. Vira ela de longe e olhava e ela me olhava nos
olhávamos. E então, a guria estava no baile e eu aproveitei. Convidei. Ela
respondeu, garota ma-ravilhosa:
-
Demorô!
E
dançamos os vanerões que pintaram, uns vanerões que até hoje eu duvido, que
hoje já esqueci.
Uma
altura do baile eu pedi licença e falei para Caxangá:
-
Vou lá buscar umas bebidas e já volto rapidinho! Me espere aqui sentada, né!
E
desci, dito e feito, cheguei no banheiro, estava alagado, fui respirar um ar
puro, caminhei um pouco lá fora, ventilei, fumei, resfriei a cabeça no sossego.
Na volta logo
na sequência encontrei um camarada, até puxei uma conversa porque já reconhecia
a figura, etc., era um vizinho novo, fazia uns dois ou três dias que já o
conhecia, já tinha falado com ele uma vez no futebol, era o tal do Juá.
E
tive de contar a minha conquista dentro da minha empolgação e contei. Nem sei o
porquê da minha emoção de contar e fui contar logo pro primeiro que apareceu.
Mas contei a minha ideia e meu sucesso e meus planos daí para o fim da noite e
tudo em cinco minutos:
-
Cara! Estou com uma gatinha, meu! Vou me dar bem, tu vai vê, meu!
E
prometi pro carinha ali feito meu ouvinte da euforia, jurei:
-
Vou derrubar a guria, meu! Quer apostar o quê?!
E
voltamos para o baile. Eu parei no balcão para comprar as bebidas. Queria
chegar junto novamente da gata e já ir oferecendo qualquer coisa. Pensei isso e
achei uma ótima ideia comprar uma cerveja de pasteizinhos fritos na hora.
Subi
a escada para o primeiro andar e o fervo continuava levantando poeira. Dei uma
olhada procurando Caxangá... Ih, meu! A guria já estava dançando com outro tipo.
Essa nem! Sacanagem!, pensei. Por que Caxangá nem me esperou, meu?! E murchei
na hora e decepcionado. Me caiu o facão, como diz o gaúcho.
Frustrei
e tive de me conformar e me sentar na cadeira junto a uma mesinha e beber solito.
Nem queria acreditar que a Caxangá tinha me feito essa palhaçada. E era
possível.
Mais
tarde outro dia outro lugar vim a saber que a Caxangá era irmã do Juá e
vice-versa.
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