quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 13




Penso a Sabedoria dos Que Sabem

            Hoje eu sou assim, bom ou normal assim mesmo, bem diferente daquele então. Meu nome, meu prenome ou antenome, meu sobrenome, meu agnome, o apelido, os apelidos pouco ou nada vão ajudar. Obrigado.
            Chega um momento na história de cada um que... Por mais que nem se acredite em religião, religação... E você, eu e nós sentimos 100% que precisamos de proteção e de progressão e de ascensão. Aí, entra a superstição. Isso mesmo. Nem há mais a quem recorrer; nem se crê em mais nada; se pensa em tudo e no mais econômico. Primeiro em dinheiro depois intermediário em fêmeas de riso cristalino por derradeiro no mais econômico.
Antes prevalecia o dia 186° do ano e em uma altura temperamental dos 38ºC na sombra da canela-de-cheiro em o lugar chamado Nova Prata bairro São Cristóvão e que, olha, eu via!, se bem me lembro riscavam duas ou três nuvens de aviões de carreira.
            E era uma vez ainda no tempo do Cruzeiro, o que eu devia ter feito.
                                                                       ***
            Abri os trabalhos do dia 10h e 10min. Pura coincidência eu gosto dessas pequenas mas também um sol galáctico bonito. A patativa-do-sertão no galho do pé de tento-amarelo. Um sol globalizado e internacional. Dali onde eu estava até lá em São Sebastião da Bela Vista, Cromínia, Maiquinique, Holanda e as ilhas de Fernando de Noronha...
Fumando na janela. Manhã manhosa. Me perguntava entre os 16 e os 17? Ou esquecia e deixava pra lá? Nem, me perguntei:
            - Que significa significou o sonho de ontem à noite?
            Nem sei se posso começar do começo. Um sonho nem tem começo e gira caleidoscópio em torno de si. Sonhara com Amajari. E depois era Calçoene. Ao mesmo tempo parecia ser a Caroebe. Talvez fosse mesmo a Pacaraíma. Acho que era a Caracaraí. Que confusão. Os olhos de uma e outra se somavam ou se repartiam. Os cabelos, os risos, os gestos, as perguntas. Os risos eram confundíveis, vá lá. Escolhi pelo riso. Que que as meninas vieram fazer aqui?
            Acordei e nem entendia ainda aquele sonho. Que que elas todas tinham que vir aqui? Que vieram me dizer? Estavam ficando loucas? Me enlouquecer, era isso. As imagens das carinhas rodaram como em ciranda. Ao mesmo tempo que imagens bonitas, também malucas, travessas, displicentes, ainda tagarelas.
            Nem falar que eu pensava em... Vinte e cinco joaninhas voando forte alto puxando uma jamanta carregada de piscinas. Uma manada de joaninhas elétricas concentradas rebocando uma piscina olímpica, e cheia de água azul-clara.
            Nem sei interpretar sonhos ou pesadelos ou delírios. Por que todas as meninas me assaltaram num único sonho, no mesmo lugar, na mesma noite? Mas eu pensava em Acumã, Tataíra, que nem me telefonaram. Telefonei.
            Fui procurar... nha-nha-nhá! E tive um... quê? Um Não?! Muito Não e maiúsculo e sonoro e intransferível.
            Que estrago significava um Não, naquela altura, e dos bem grandes e simples e diretos e objetivos?!
            Claro que pensava em comprar um peixinho de aquário. Pensava em comprar um cachorrinho, tipo pequeno. Nem, nem podia pegar para criar um animal nativo e indomesticável. E pensando bem, meu!... Do começo ao fim nem era boa ideia ter animal de estimação. Mais sensato comprar veneno para ratos. Obrigado.
            Pacaraíma nem era nada. Talvez por aqueles dias e só por um dia ou dois. Pacaraíma era uma menina quieta, cabelos longos e lisos. Olhos grandes e morenos. Muito calma. Nem, nem era burra. Pacaraíma pensava que ia ser alguém na vida. O que queria dizer que pensava que ia ser feliz. Casaria e viveria como gente, como pensava. Como os outros tantos e tantas antes dela que fizeram o trilho a trilha e deram a forma e formularam.
            Mas Caracaraí era muito pálida. Desmaiara aquele dia com o sol forte na cabeça. O cabelo ondulado até os ombros nem lhe caíam mal. Magra, loira, e doce como um confeito. Eu casaria com a Caracaraí se ela fosse uma gatinha siamesa e eu me transformasse num gato-do-mato ou gavião-relógio e ela, miau! miau!... E aquele dia que desmaiou ela dissera ainda: “Olhei pra baixo e perdi o chão”. Coitadinha e tão branquinha com veias azuis, uma correntinha de ouro com cruz amarrada no pulso da asa oeste.
            A Amajari tinha uma bundinha de fazer inveja para as melhores modelos do mundo, as top ten. Um cabelo moreno e longo pra chuchu. Eu adorava ouvir o riso de Amajari. Taí, com Amajari eu teria casado casa filhos fim de semana jantar no clube preferido. Principalmente se ela tivesse muito mais peitos. E gostava de matemática e isso era outro bom sinal. Cheiro de um perfume de erva do campo, caeté-açu, suponho. Conseguia andar de braços cruzados, incrível. Só usava calça social e tinha uma ótima pose pernas longas abertas e de mãos nos bolsos, fantástica.
            Podia sair com Caroebe para o cinema? Podia ou nem podia? Vocês me permitiriam, nem iriam olhar com ciúmes? Claro que nem. Era mais alta que eu que todos nós. Nem olhem! Ia na frente com passos largos e rápidos, escolhia onde sentar, bem no meio do cinema Tembé. Comia pipocas nem se importava comigo atenta ao filme “As Longas Transas Do Careca” e pra lá dos 18.
            Caroebe ria como se estivesse se afogando. Eu já sabia das meninas pelo riso. Eu sei das mulheres pelo riso. O mais importante numa mina é o riso. Porque um dia eu pretendia contar, entre amigos amigas ou entre quatro paredes, muitas piadas e causos engraçados. E Caroebe ria pouco e afogada, o pescoço estufado. Caroebe tinha um nariz naturalmente pequeno e aquilo contava a favor. Sobre aquele nariz uns óculos pesados que sempre escorregavam. Coisa típica de Caroebe era ela endireitar, e ajeitar, e recolocar aqueles óculos de grau direitinho na lombada do nariz. Uns óculos lá dela que a intelectualizavam, cangalha montada no nariz também lá dela que a deixavam mais séria e adulta. Seu típico cacoete de empurrar os óculos nariz acima. Olhos esplendorosos esperançosos perplexos. E de um preto com brilho no fim do túnel.
            O filme? Os peitinhos de Caroebe cabiam na minha mão mal e mal. Tiroteio na agência bancária. Minha mão direita no seio direito dela. Caroebe resmungava manhosa. Tiroteio no meio da rua. Gente correndo. Bandidos correndo. Tentamos nos olhar em plena rua confusa fumaceira no escuro. Ela tinha uns olhos excitados. E pareciam muito acesos. Trocamos beijos na boca. Tiroteio na praça da Bandeira do lado do cine pela rua Presidente Vargas. Nos beijamos na boca como passarinhos apaixonados. Tiroteio na ponte do rio Retiro. O nosso céu, meu e dela, estava estrelado e a lua uivava para a BR-470. Tiroteio na cama na grama na areia. É, se era uma boa ideia, sim. Morria o mocinho e talvez a mocinha fosse fazer um suco de açaí. Os bandidos fugiam para os lados de Vila Flores e Cotiporã.
            Eu e Caroebe, mãos dadas, no filme, no cachorrão depois do cine:
            - Quer um cachorro-quente, um chope, um beijo a mais, um sorvete, um cedê novo?
            - Eh eh eh!...
            Nem falei?! E Caroebe riu o seu riso do jeito dela, desse jeito, eh eh eh!... Eu ainda estava me decidindo sobre o riso de Caroebe. Podia balançar a cabeça: nem; podia sacudir a cabeça: sim.
            Assim e só assim, por isso e só por isso, eu digo que na minha época disso aí, de jooovem, era impossível ou no mínimo raro ver alguém, contrário de hoje em dia esses guris e gurias, rir e falar ao mesmo tempo, tipo, “ah!... me chamo, ah!... fulano de tal, ah! ah!... e moro em algum, ah!... lugar, ah!...”. Nem, nem é assim. Nem sei como se faz. Talvez seja melhor assim, “ah!meah!... chaah!mo, ah! ah!... fuah!laah!no deah!... ahtalah!...” e assim por diante. É difícil até mesmo imitar como os e as de hoje, rir e falar ao mesmo tempo, comer e assobiar. É uma arte do tempo da moda da época de certas tendências de época hoje em dia. Na minha idade, como a deles de jooovem, isso nem era possível e cogitado e necessário.
            Por outro lado, ontem, nesse mesmo lugar, encontrei meu primo o Panhame. Sim, ele mesmo em pessoa e mais inchado ou inflado que boneco de pano de posto de gasolina. Ele me disse:
            - Estava em casa com a fulana de tal. Aí, lá pelas tantas a beltrana me ligou, tocou o telefone, atendi e era a beltrana. Começamos a falar à distância e coisa e tal. Ela jurando que tinha saudades e pensamentos em mim. Eu mantendo a conversa em banho maria em política de boa vizinhança no derretimento das geleiras na poluição da baía de Guanabara. Então, sei lá como, nem sei como, ela percebeu um choro que vinha pelo ar pelo telefone e que era o choro da fulana já que a fulana estava aos meus pés puxando a minha mão livre e soluçando que eu desligasse o telefone. Ouvindo esse choro, a beltrana começou a me questionar inquirir perguntar sem parar mais de me perguntar. Eu parei de uma vez com as questões dizendo: mas fazer o que beltrana? Por isso, ela beltrana de bate pronto e prontamente desligou, tuí! tuí! tuí!... na minha cara e taí.
            Disse isso mesmo o meu primo Panhame. Tem a minha idade e nem perdeu um fio de cabeço, apesar de pintá-lo de preto bem preto até mesmo muito preto tipo índio. Que aliás Panhame tinha comprado uma churrasqueira portátil e estava muito animado da sorte existencial lá dele.
            Nem alcancei o Mil-Réis. Saí entrei no Cruzeiro e fui passando estou passando de fases com o Cruzeiro Novo o Cruzado o Cruzado Novo o Real até agora.
            A tarde a tarde continuou saudável branca e azul inflamada exaltada e extravagante. Como eu gosto, e até a maioria prefere.
                                                                       ***
            Ontem, hoje, amanhã, vou lendo meu livro de cabeceira, autor goiano, o senhor Antônio de Alcântara Machado, o livro O Bugre do Chapéu de Anta, um clássico para o povo adolescente, e como nem havia lido na tenra idade, leio agora e agradeço e recomendo.
            Um dia, noite cheia de pingos de estrelas, Juparanã acusou e foram correndo de carro até o hospital. Lá chegando os procedimentos e tal.
            No outro dia um bebê muito assim assim e que logo ganhou o belo nome de Papari. Papari Maraponga Parangaba. Ele nem tinha dentes e era forte e gordo e corado e disposto e brasileirinho.
            Outra vez, uma noite como as outras, Juparanã acusou a barriga pesada e foram já correndo de auto até o São João Batista. Lá os procedimentos prontos na hora da chegada e tal.
            O bebê interessante e de olhinhos fechados ganhou logo o nome sugestivo de Papeba e tinha uns olhos fechados e uma carinha bonita e um sono tranquilo e tal.
            Então, quando muito dois anos depois do último, dois anos mais tarde, novo aviso e correria para o hospital para mais um procedimento normal parto normal tudo bem e tal. Dona Juparanã era boa parideira.
            E apareceu para o mundo todo enrugadinho e tranquilo e vermelhinho e de olhinhos fechados enrolado em panos quentes o bebe de nome Papebinha. Era uma menininha que seria o fim da fila e a fábrica fechou e pronto. Satisfeitos.
                                                                       ***
            Há coisas que se senta se desliga a tevê se fecha a janela se olha em volta para dizer e nem se diz.
Aiacá foi a nossa estrela, tamanha como um sol, e um riso fácil, que tínhamos certeza teria um futuro social intenso. Ela abraçava todo mundo. E sem mentiras. Desde sempre e nunca sentiu vergonha do corpo gostosa que era e que tinha.
            Eu era para ser jogador de futebol, ou de futsal. Vá lá, de tria! Nem muito mais tarde, os trabalhos de arigó me ensinaram como construir o mundo desde o tijolo por tijolo. Para o espaço com as histórias de tesouros enterrados, ilhas perdidas nos afluentes do rio Amazonas, lagos do litoral gaúcho por onde existem as melhores praias. Estou assim até agora. E ainda quero dizer que quem escreve por linhas tortas são as luzes pisca-piscas das estrelas.
            Desde sempre me acostumei a ser um anônimo e um inútil. A palavra é... fracasso. Nem foi fácil, mas aprendi e rigorosamente. Nem nasci para ser e acontecer como aqueles aquelas que D aponta o dedo. São raros raras os que D aponta o dedo e eu me perco na multidão de segunda de manhã.
Quando Aiacá tinha, e teve, aquelas pernas... ah, que coisa muito bonita, bonita para sempre! Bem, aí o verão estava chegando com seu calor insuportável, com sua chuva de tardinha, com suas manhãs de pássaros tagarelas, corruíras, almas-de-gato, saudades-de-asa-cinza, tesoureiras, gurundis-azuis, tauás, curutiés...
            As árvores estavam por toda parte e eu olhava as árvores, batiputás, guamirins, araçás-do-mato, flores-de-carnaval, coités, quebra-machados, coiranas-brancas, couves-do-mato, árvores-do-papel... Quem nem gostaria ser uma árvore? As árvores verdes amarelas vermelhas frondosas copadas braços abertos folhas largas ao vento. Quem nem gostaria de ser pássaro árvore gente inseto bicho gente jabiru ave símbolo do MS, ir e vir durante os milênios, em?
E há uma rua na cidade, de alto a baixo, plantada de jacarandás-baraúnas com flores lilases na época certa. E o vento joga essas lilases nas calçadas todos os dias da Borges de Medeiros. E a chuva de ontem as jogou nas calçadas. Lilases com cheiro de lilases pisadas. A rua como um passeio lilás, original e exótico.
            Os insetos nem sabem quanto viverão. Nem sabem que deixarão e aparecerão em outro planeta. As bromélias nem sabem de sua brevíssima beleza de um dia. Que a boa e belíssima só tem uma chance de atrair o beija-flor-brilho-de-fogo.
            Quanta guria cuidando de lojinha de roupas prontas onde nem entra ninguém ninguém para comprar. Vão tirar definitivamente o chafariz que funcionava uma vez ali na praça da Bandeira, vão tirar, vão tirar, se já nem tiraram.
            A querida Aiacá queria, porque queria, queria dar pra gente naquela altura do campeonato. Queria começar sua carreira muito cedo e pra todo mundo. Ela fazia de tudo pra dar. E nós éramos tão doidos por ela que estragávamos tudo. Afobados e ciumentos e ingênuos. Ninguém queria que o outro fosse o primeiro, e acabava que todos saíam perdendo. Nós queríamos todos de uma vez. Era pra Aiacá escolher. Ela teria escolhido se nós tivéssemos deixado de lado o empurra-empurra. Nós estragávamos tudo sempre. Aiacá das pernas de fora, bem torneadas, de short sem calcinha, do v explícito, do tomara que caia sem sutiã com biquinho apontando forte duro. Aiacá, Aiacá que perigo, que fruta madura e que gana de te comer!
            Quem éramos nós? Quem éramos nós três? Eu, o primo Mbéru e o Urupê. Aqui eu paro e olho a nossa idade tenra e verde e otária. É cansativo lembrar o que se perdeu, o que poderia ter sido e nem foi. E tento tento mesmo assim ficar com as saudades boas do bem bom. Bem-te-vis são do sol: em tupi: pitauá ou pitauaã. Aiacá era o próprio sol, oncinha-parda, jaguatirica, nhau! nhau!...
            Aiacá queria, nhau! nhau!... porque queria, porque sim, brincar no meio de nós e isso nos entontecia, jogava pelada no campinho, quando tinha a bola todos iam em cima. Ah, tonteava a gente! Como era difícil segurar as ideias perto dela! Tive de odiá-la. Muitos a odiaram, naquela altura. Era a única saída para uma saúde mental ao menos razoável. Também, na hora h, nem deu pra comê-la. E que pena. Coitados todos nós três, dia e noite. O mais idiota dos três nem fui eu foi o Urupê.
            - Que tá olhando, Aiacá?
            - Nada.
            - Você tá olhando aqui, Aiacá!
            - Mentira sua.
            - Olha que eu te mostro!
            - Duvido.
            - Duvida?
            - Du-vi-deodó!
            - Ah é! Então toma!...
            - Hummmmm!... Nem tô olhando.
            Às vezes eu me convenço que para ter boas lembranças é preciso esperar, ter paciência, ter idade, ter humildade, ter mais ouvidos, falar pouco, ter muita sorte. É, é o certo. Mas o que são boas relembranças? E por que aturar tanta paciência longe de Aiacá? Aiacá subia em pé de guabiroba para comer guabiroba.
            A tarde está cheia de responsabilidades naturais. As andorinhas, somente, e em desassossego insistente, passam raspando meus ouvidos debruçados aqui na janela. Somente andorinhas agitadas. A tarde gostosa de sombra na rede. Ninguém trabalha nada pelo mundo. Nem se pensa em nada. Somente a tarde indo. As andorinhas arriscando o voo em asas audaciosas. Aturam andorinhas em Belém, em Palhoça, em Gravatá, em Congonhal, em Paracambi...
            Quando Aiacá nem gostava da gente, ela mostrava a língua, hummmmm!... Vivíamos pra querer impressioná-la. Menina fácil e ao mesmo tempo lisa. Muito melhor que nossas irmãs, primas, outras vizinhas. Da mesma idade de todos nós, gostava mais de brincar de médico que todas as outras juntas e somadas. E a natureza lhe dera dotes, prendas, generosidades irresistíveis, generosidades cobiçáveis, bergamotas temporãs.
            - Aaaai!... Nem me aperta que dói!
Aiacá desde cedo cedo já sabia pra que servia ter corpo de flor apetitosa. Aiacá, a disputada, a perseguida. Ela gostava de se fazer. Aiacá que corria atrás quando molestada de brincadeirinhas. Mas tudo que conseguia era mais mais brincadeiras. Aiacá que baforava como chaleira na chapa vermelha. E da roupa colada. Tudo que vestia agradava aos olhos. Tudo que vestia parecia mais bonita. Tudo que vestia dava certo. No verão era uma fruta roubada, no inverno uma luva quentinha.
            Prefiro ler histórias na internet, ver documentários na tevê. Para estar onde nunca poderei comparecer. Para passear nas cidades que nunca estarei, Salgueiro, Bauru, Nazaré, Resende, Cafarnaum, Pouso Alegre, Osasco... Para caminhar na Estrada do Ouro acompanhando a tropa de muares até Diamantina, rio Atibaia. Para chegar na ilha de Upaon-Açu. Para curtir a geografia e a cronologia da História do Brasil Colônia. E até dá saudades do tempo que nem existi nem sei, entende?!
            Éramos todos criançolas, e incompetentes para comer a doce doce Aiacá. Ela queria, e a gente nem merecia por pura bobice. Ela precisava, e a gente D nem escreveu nem permitiu. A gente sonhava e a oportunidade nem deixava. Naquela inocência nem comíamos ninguém. Aiacá olhando como éramos de dar pena. Ninguém comia naquela idade. Somente ficou um desejo frustrado. Adeus tchau até nunca mais, Aiacá!
            Gosto quando chove. Fico olhando da janela. Imagino os índios coroado, ali pelo rio da Prata, ali pelo bairro Rio Branco também conhecido como Maragata, num dia como de hoje, chovendo firme, nem tendo onde ir, talvez antes da idade de Cabral, antes dos gringos chegarem. Como seria? Devia ter uma caverna, e eles corriam para a caverna. Começa a chover já corro para o computa.
            A chuva gostosa desaba sobre o mundo. As formigas de asas, então, ficam excitadas. E com a chuva ou sem a chuva mesmo, voam apetitosas e sedentas para a tarde do acasalamento, para o céu dos relâmpagos, para o papo das andorinhas, sabiás-laranjeiras, chupins, inhambus-de-perna-vermelha, anus-do-brejo, tchintchorrintchos, beija-flores-preto-e-branco.
            Quando nós os humanos morremos, pronto, nada acontece e viramos árvores. Lá chegando quando for o caso, escolhemos a espécie de árvore num catálogo que existe nos escaninhos das nuvens. Quando as crianças morrem, viram flores tipo orquídea. Elas escolhem a espécie de orquídea numa lista que existe nas nuvens. Quando os adultos morrem, viram plantas terrestres ou aquáticas. Eles escolhem a espécie de planta numa relação que existe nas nuvens. Quando os avós morrem, viram pedras preciosas. Eles escolhem o que querem, geralmente uma pedra típica do lugar da nuvem onde existiram e morreram.
            Então, Aiacá deu um salto. Fazia já uma cara que nem a via mais. Somente de longe, em tempo, um oi! e nada além disso. O turno escolar nos separara. Amigos e amigas meus outros e outras. Ela outros e outras amigos. Eu fui passando de ano ela nem, eu fui ficando ela indo e se mandando. E quando nos reencontramos de novo eu e ela já éramos adolescentes. Já pela altura dos 15, 16. Nos encontramos no ensino médio, nos pechamos ali numa esquina de um corredor do NSAparecida. Convidei-a para o cinema da 8h mas ela nem podia nem podia de jeito nenhum prova de português e muitas faltas na chamada da profe que pegava no pé.
Coisas de coincidência. O destino sabe explicar melhor. No mesmo andar, sala em frente uma da outra. E Aiacá estava ali. Parecíamos dois estranhos. Ainda vizinhos, mesmo bairro, mas distantes. Eu tinha a minha pergunta só comigo, íntima, secreta, que nem queria calar: Aiacá, quem é que tá te alisando?
            Aiacá conciliava convivia ajuntada com um cara que a vinha buscar todo final de aula, ali pelas 22h e 30min. Nem o conhecia. E eu nem tinha nada com o peixe. Nem me pertencia. Eu tinha talvez uma pequena teima, uma curiosidade, e assim mesmo pouca. Um dia Aiacá comentou no corredor com outra colega:
            - Os homens gostam de mulheres peitudas. Isso sem dúvida. Pra ter o que apalpar. E eu gosto de homens que apalpam.
            Meio que de longe reparei nos peitos de Aiacá. É, estavam dos grandes, apetitosos, oferecidos, tentadores, contemporâneos, dupla de área em caixa alta. Com certeza muito apalpados e chupados e brincados e brincantes.
Teve outro dia, num intervalo de aula, e ali pela área da lancheria do colégio, quando eu tive a tonteira, tiiiim!... e empurrei sem querer. Ora, pra quê, meu! Aiacá estrilou com olhar cego de cobra cascavel. Mas se fosse em outros tempos (nem tantos assim passados), hein?!, ela até que saía rindo. Nem se lembrava dos passados tempos? Que nada. Cada tempo com seu tempo e o tempo com sua eternidade. Otário é um ser humano burro; burro é um tipo que pode ter muitas idades ao mesmo tempo!
            Paro de pensar em Aiacá lá no meu passado. Vou à feira livre ali embaixo na rua Pinheiro Machado. Uma confusão agradável. Como vai o abacaxi? E a couve-flor? O senhor caju? Alface! Amendoim torrado? A garapa, o tão falado e conhecido caldo de cana.  Quem te viu e quem te vê. E as frutinhas do mato, sabores mais descontraídos, sem responsabilidades urgentes, gostam de festas? Como está o clima em São Paulo, o Estado, dona melancia? As jabuticabas todas sestrosas. A castanha-do-pará com cara de índio bacuém pintado pra festa. As flores airosas, frescas e leves, vestidas com cores tropicais de amarelo, vermelho, lilás, azul e sempre cheirosas, divertidas, exibidas em cabelos ao vento. Os cactos com cara cheia de espinhos. Os xique-xiques do país das caatingas. Foi uma hora que passei andando ali pela feira, pouco mais, e de muita gargalhada que eu gargalhei. Tinha que comer beiju com garapa.
            Aiacá sempre quase vinha com blusas com botões soltos no decote. Corpo flexível. Avantajado de pomba-rola. Eu parava para ver melhor. Parava e olhava e sonhava e somava e multiplicava. Ela confessava que nem tinha tempo de estudar e nem nos fins de semana.
O vento conta as folhas verdes do umbu lá fora, aqueles passarinhos chamados bem-te-vis-do-bico-largo. A senhora bem-te-vi pode ser nomeada agora: é a siririca. O dia solto de sol. Bichos andam pelo ambiente. No alto, pra lá, bando de papa-cacaus. Os outros bichos andam de automóvel.
Portanto eu via que era o astro sol e eu ficava olhando horas o sol de fevereiro pro lado a manhã a minha banda da asa leste o radioso.
            Guria Aiacá passava pra trás pela gente ali nos corredores do colégio ainda com aquele rebolado dela. Cresceu também na bunda. Ela nem precisava mais olhar para trás e rir, já sabia que todos ficavam olhando. Conversávamos sobre futebol e grenal e olhavamos para Aiacá.
            Devo acreditar que Aiacá vivia cheia de casos amorosos. Uma vez me contaram que Aiacá viu um cara na rua 7 de Setembro e correu atrás como uma onça famélica. Talvez ela fosse histérica ou mentecapta ou ninfomaníaca. Iara é uma lenda fluvial, e embarcável e navegável.
            Uma tarde agradável de sol firme. Vento escasso. Canários-da-terra descem do céu para tomar sorvetes de pitangas. Continua a hora da tarde, que maravilha. Passa a rua Itália em frente de casa. Cinco seis meninas jogam vôlei na calçada e a bola às vezes foge para o meio da rua. Riem muito e falam alto. O que conversam nem faz a menor diferença, e nem faz o menor sentido. Conversam coisas de libélulas. Somente D pode, de uma hora para outra, sair por aí e inventar essas gurias com suas ideias e risos e xingamentos divertidos. A tarde se cozinha em banho de maria. Jogam insistentemente na calçada como se o mundo nem fosse feito de tempo. Nem dão bola pra ninguém que passa. Gritam quando passa um carro que buzina. Estão gostando de pegar no pé de uma tal de Alícia. Deve de ser a mais bonita e simpática e de cabelos encaracolados longos ruivos.
            Sem saber o nome da espécie que os humanos lhes deram, casal de tico-ticos brinca de se pegar dentro daquela caputuna, em plena hora de trabalho na fábrica ou no lar doméstico dos homo sapiens.
Aiacá parou de estudar, casou e foi morar em Porto Alegre, bairro da Azenha. Não vi nada e fiquei sabendo bem mais tarde, duas semanas depois. E daí?! E o queco?! Odisseia palavra é viagem com aventuras.
            O céu está calmo. Vejo isso. O vento nem incomoda os cabelos das gurias que passam, que vão e vêm. Este mês tem nome de novembro. Nem me importo com quem trabalha ou deixa de trabalhar. Aquela guria que passa, cabelos presos com rabo de cavalo, sapato verde salto alto, calça de azul-claro, segurando um bocejo com a mão como quem segura a bolsa verde de plástico. O céu estacionado no azul sem vento. O sol colorindo tudo. A guria da bolsa verde de plástico, logo ali, virou a esquina Itália com Visconde de Inhaúma.
Ainda em fila indiana na calçada aquelas árvores com flores lilases. Me dá na telha da vontade sair e comer um pastel de queijo com chope colarinho. Nem é fácil: esse tempo esfregando o mundo. Granizo é chuva congelada.
            Aiacá visitou os parentes nas férias e apareceu grávida, e surgiu com um bebê, e com mais um, total de duas meninas, Acampitá e Capitá, isso no espaço rápido e confuso de três anos. Em três anos acontecem muitas coisas, mas quando se vê, já foram.
            Os cotovelos no parapeito da janela, olho a rua Itália, olho toda a cidade, olho o mundo inteiro e para meu umbigo. Eu podia estar em qualquer lugar. Eu podia estar montando um lar tijolo por tijolo com olho no futuro. Eu podia estar negociando territórios com o governo federal em Brasília sendo eu um legítimo crixaná ou ofaié-xavante. 
            Aiacá se separou e voltou para a casa da mãe dela, minhas vizinhas. Trouxe as duas filhas novas, Acampitá e Capitá. Nem vão à escola, ainda. Duas menininhas de cabelos negros e enormes. Aiacá tinha uns peitões de chutar o balde. As duas menininhas eram duas garotinhas engraçadas e sempre brincando juntas. Um dia se arrependeriam de ser simpáticas e, então, seriam exibidas como a mãe. Um dia elegerão o espelho. Um dia alegarão livre arbítrio. Aiacá cada vez mais parecida com sua mãe lá dela, ou um auto atolado.
            E há cidades que me chamam para passear como Coronel Pilar, Fortaleza dos Valos, Morrinhos do Sul, Ubiretama, Alto Feliz, Cariacica. Quando eu morrer e voltar, quero voltar e morar numa dessas cidades e trabalhar de vendedor de legumes de porta em porta.
            Em casa da mãe, solteira outra vez, sem o que fazer, então, acendeu novamente a chama voluptuosa dos bailes e baladas e festas em o corpo carnudo de Aiacá. Era época dos ritmos paraenses e a seleção ganhava mais uma Copa.
            Os tiribaís vivem lá nos matos e capões, os coleirinhas ficam se balançando pelos carajurus, os pintassilgos são mais rápidos e ariscos e arteiros, as andorinhas pousam nos telhados e fios de tensão, as tesoureiras nos galhos mais altos dos guamirins, as curicacas acordam às 5h e 12min - como exemplos.
            Aiacá comprou um carro usado, colocou as filhas na escola 11 de Agosto. O ônibus escolar pegava e trazia todos os dias. Achei de ver e reparei, tempo de sobra, a mais velha das duas subia e saltava por último, mochilas abarrotadas nas costas.
É impossível equilibrar o mundo sem as árvores e os passarinhos e as pedras e os rios e os morros e as praias e um jogo de futebol na tevê no sábado de noite cerveja com os amigos e os papos sobre o nada.
            Choviam três dias e noites que o céu já chovia seus pecados sem parar. Era de domingo, umas 10h, quando as torneiras das nuvens pararam de jorrar. Depois, no mesmo instante, um vento lá por cima varreu para debaixo do tapete os restos de nuvens que restavam. Somente assim o sol se dignou aparecer, lá pelas 14h e 20min. Com menos de meio período, e sem hora extra, bateu ponto, caiu e foi embora. Gosto dos dias de chuva, quero morrer num dia de sol e enterrado num sábado às 11h.
            Aiacá arrumou um emprego com um dos irmãos, o caçula. O mais velho nem queria saber dela. Aiacá pegou suas coisas, suas duas fofinhas e alugou um pequeno apartamento ali perto do presídio estadual ainda no bairro São Cristóvão avenida Presidente Vargas.
            Que temos hoje? Um dia com promessa de dia. Um dia com ideia de jabuticaba ali por janeiro ou fevereiro. O matinho ali perto do aeródromo tinha um pé de jabuticaba. Mas a dona do matinho era viúva e tinha um cão grande e feroz chamado Bugre.
            Num desses finais de ano, Aiacá deixou as menininhas com a avó. Aiacá pegou e foi para a capital. Ainda conhecia muita gente por lá.
            - Vou resolver uns negócios e umas coisas pendentes. Volto em dois dias.
            - Que negócio, fia? Onde ocê vai ficá, fia?
            - Ah!, uns negócios de ofertas de possíveis empregos que podem melhorar a minha vida e das meninas. Tenho amigas.
            Aiacá durou uma semana pela capital. Telefonava todo dia e falava com a mãe, com a menina Acampitá e com a menina Capitá. E somente voltou muito triste, decepcionada, frustrada, machucada, desiludida, sem paciência para explicar pessoalmente direitinho as coisas:
            - Bem, mãe, é difícil dizer e até uma surpresa para você... mas... mas eu fui mesmo sequestrada e estuprada e violentada.
            - O quêee, fia?!
            - Sim, sequestrada, raptada, roubada, arrastada na lama. Me botaram um revolvão na cara, me taparam a boca, me vedaram os olhos, me deram um soco na cabeça. Eram pelo menos uns oito ou nove vadios.
            - ???
            - E como nem tinha nada de valor para dar...
            - ???
            - Me pegaram à força e me estupraram e me usaram de todas as maneiras. Diversos deles. Muitos deles e dias e noites que eu perdi a conta. Nem sei por que me deixaram pra contar história, mãe.
            - Mas e a polícia, fia!...
            - Nem consegui vê direito os caras. Aliás, pelo cheiro deviam ser uns nove ou dez. Mas o cara que mais me fez sentir nojo foi um chinês, com olhos de índio da fronteira. Tinha um jeito de chinês ou aborígene.
            - Meeeu Jesus!! E a polícia, fia?
            - Falei com a polícia depois, fiz queixa, respondi todas as perguntas, me interrogaram, fiz o que era pra ser feito. Fiz corpo de delito, fui no pronto socorro, fiz o maior escândalo, chamei a imprensa.
            - Mas...
            - Esse chinês é casado. O cara que me estuprou, o principal, é casado, e bem casado. Vai tê que pagá pensão, se for o caso!
            Isso foi antes do tsunami lá no exterior estrangeiro país do outro lado do mundo, etc. Nem só tsunami, mas terremoto maremoto. Numa sequência absurda. No cinema nacional nem me lembro quem aprontava de atriz bonita e gostosa.
            Estou contente hoje. Até isso se pode. E pode ser por pouco tempo, sei. É pouco e devemos agradecer muito muito. Só tenho receio de nem ser eterno. Fala sério!
Quando Aiacá ainda tinha muita lenha ainda pra queimar. Tinha mais uma filha ultimamente. Após Acampitá e Capitá, veio Campina. Retornou do apê para junto da mãe. As meninas menores precisavam muito da avó. Aiacá tava ficando cada vez mais a cara da mãe 28 anos rodados cara de auto atolado peitos grandes cabelos pintados de moreno como nunca foram.
            Reparo a rua de sempre, a rua Itália, e vejo muitos caminhantes em exercícios matinais, muitos cães com seus cachorros pela guia. A tarde no fim do dia já está sonhando com uma boa pancada de chuva chuva. No quintal da vizinhança muitas almas-de-gato vêm comer frutas da estação.
            Aiacá brigou discutiu com a filha mais velha, a Acampitá, tevê ligada no programa de auditório entrevistando uma atriz performática, avó escutando sem tomar partido:
            - Onde você ficou até essa hora da madrugada?
            - Ora, com o Urucungo, mãaae! Não tritura! Que saaaco!
            - E por que nem me telefonou ou veio pra casa na hora que combinamos?
            - Ora, o que que tem de mais?!
            - Tem que eu ainda te mando! Se eu digo tal hora é tal hora e pronto!
            - Vou morar com o pai, quer saber!
            - Agora até pode ser tarde para saber!
            - Aposto que o pai me deixa namorar até mais tarde!
            - Esquece seu pai! Enquanto for de menor vai viver o que te digo pra viver!
            Amanhece hoje e centenas de vezes. O sol veio comer verde da montanha conhecida da cidade. Os insetos voam sem revolta; têm que começar tudo de novo. Milhares de vezes hoje amanhece tudo outra vez. Nem há montanhas, são os morros. Os lírios-verdes, as catingas-de-formiga, os cardos-ananás e as couves-da-água perto do tanque.
            Aiacá era professora particular de italiano e massagista nos fins de semana ali no hotel Tupinambá.
O céu azul contando as árvores de amarelo de verde de azul de lilás. Quando vou a pé para o Centro desço pela avenida Cândido Godói e volto de ônibus subimos pela Placidina de Araújo. Sempre olho a casa onde morou minha prima e brincávamos na calçada da varanda a Cabixi.
            Aiacá toma banho de sol atrás no gramadinho do pátio onde também se estendem as roupas. O namorado de 5 ou 6 anos mais novo, na sombra do mututi, toma chimarrão e come cuca. As filhas por aí telefona assiste tevê na sala faz um suco de abacaxi com muito gelo.
                                                                       ***
            As horas passaram dias após dias dois meses se passaram. O homem nem foi à lua e nem pisou em marte.    
            Um som na garagem do mano Inhambu. Entre amigos e vizinhos. A música era de assustar cachorro grande. Tirando a música, o resto era bom. Tirando os guris, o resto era ótimo. E caiu muita mulher e muita soda limonada e muita cerveja gelada e aquelas coisas psicodélicas e muita mina esquisita muita menina de cabelo esvoaçante.
            Depois havia bebidas vermelhas bebidas amarelas transparentes pretas bebidas azuis. Todas com gelo, gelo ou limão. Cerveja de latinha, no copo, no canudinho. Luzes estroboscópicas. A guria com cabelos tapando os olhos e chapéu de seresteiro.
            Às vezes eu flagrava um cara e outro e reparava que o tipo ou os tipos olhavam a bunda da minha Caroebe. Olhavam a minha gatinha de baixo para cima e de cima para baixo. E olhando passavam a língua nos lábios. E assoviavam canções quando olhavam bem fixo. Aí, então, Caroebe me parecia mais bonita que já era. Eu a abraçava e a beijava na testa no cabelo no pescoço no cotovelo. Beijava e abraçava com força na boca.
            Caroebe de corpo interessante. Corpo quente e macio. Sexo de pegar fogo, botar fogo, incendiar o mato. Eu adorava tanto Caroebe que tinha ganas de apertar, abraçar, estapear, os tais testosteronas, e o tempo todo. Sentia formigamento subindo pelas minhas pernas ou descendo pela espinha. Uma corrente elétrica positiva ou negativa, nem sei nada de física nuclear. Aí, bateu os nervos. E apontei. Apontei para a mina que estava agarrada comigo, no caso ainda Caroebe. O sopro dela no meu ouvido, meu!... Estava tão no pileque que prometi mordê-la em toda a extensão. E já fui mordendo e lambendo a orelha.
            Então, uma que outra vez, reparei que os caras ficavam secando e de olho e sem tirar os óios da minha pequena e tongalante Caroebe. Pensei com certeza que Caroebe estava mais e cada vez mais bonita e boa e gostosa e linda e aconchegante. E as coisas etílicas e coloridas e adernadas e rodantes e à deriva.
            Caroebe me perguntou numas indagações pegajosas gordurosas:
            - Como? O que foi? Está sentindo alguma coisa?
            - Bagagem.
            - Bobagem?
            - B-bondade sua!
            Parecia tudo bom tudo claro tudo plano. Nem havia lugar para sentar. Na nossa frente um cara levou um soco nas fuças e escorregou para dentro do bolo dos dançarinos e se esparramou no assoalho e aterrissou junto da porta do banheiro. Abriu uma clareira exatamente ali. A música nem parou. A música devia parar o som? Meu mano devia mandar parar tudo. O que levou o soco, além de sangrar na boca, ainda estava se decidindo caso se levantava ou nem. Acordou?
Acordou e quando regressou voou para os peitos do seu agressor. Os dois brigantes se abraçaram tremendamente ou ferozmente ou animalescamente ou emocionalmente. E rolaram, rolaram, dançaram, dançaram abraçados.
Logo se apresentaram e chegaram os meninos do time de um e do time do outro. Umas meninas de um ou de outro time gritaram para o ar. Então, era uma briga generalizada. Até bonita de se ver, um pouco de longe e afastado e protegido pelo largo pilar lateral. A música o som o auê a bagunça nem pararam.
Meu mano Inhambu devia mandar parar. Por que parar? Nem é preciso dizer que as meninas acharam toda aquela briga um absurdo. Algumas poucas nem, vá lá! Elas nem falavam também coisa com coisa, mas gritavam a plenos pulmões. E assim havia ainda as que riam, as que olhavam com nojo, as que gritavam como eu disse, e as que choravam de pena, as que subiam nas mesas e pulavam contentes, as que macaqueavam nas cadeiras para nem embaraçarem os longos cabelos. Voavam copos e latinhas, até aí tudo normal. Um minuto e começou a voar cadeiras e mesas, aí nem, né, gente! Mais uma ou outra cadeira e uma mesa com quatro penas. O baruio nem parou.
Meu mano Inhambu nem mandou parar. Se a música parasse seria pior; onde vamos parar, não é?! Naquela horinha exata, eu olhei o ventilador do teto rodando muito sem parar. Tudo parecia um filme de quinta. A música nem parou por quê? Se ouviram palavras doces palavras abençoadas palavras cruzadas novas em idiomas secretos e sagrados e exóticos.
            Chegou a polícia, os home da doze, os caras da lei. Dois, três e até quatro fortes brigadianos. O chefe do quarteto, talvez sargento, parou aí mesmo de pernas abertas. Os quatro peemes pararam e olharam os meninos se comendo no pau e as meninas roendo as unhas e estalando os dedos excitadas. O chefe, ou sargento, talvez tenente, puxou o revólver e deu um tiro para as estrelas de papel. Nem derrubou nenhuma estrela ou pedaço de lua nova. Meu mano Inhambu se assustou. A banda parou de tocar aquela zoeira de barulho e ruído sempre a mesma coisa.
            A noite ainda estava parada no mesmo lugar, talvez nem exatamente no mesmo andar. Levei Caroebe até a frente da casa dela. Ainda ficamos no carro. O som do rádio bem baixinho. Fomos num beijo e noutro e tal. Um beijo mais longo. Me lembro que ainda beijei os olhos. Uns arretos. Um beijo mais longe. Desceu um disco voador da galáxia e iluminou muito muito tudo o carro o mundo.
            Caroebe me perguntou várias indagações tipo olhos na lata:
            - Como? O que foi? Está sentindo alguma coisa? Quer que eu faça uma massagem nas têmporas?
            - Bagagem.
            - Bobagem?
            - B-bondade sua!
            Depois do diálogo maduro... Eu ouvi, Caroebe ouviu, resfoleguei, resfolegou, tateei, tateou, degustei, degustou, vi, viu e tudo de novo e mais um pouco. Limpava enxugava o queixo com as mãos e as mãos na barra da calça.
            Quando cheguei em casa pensei em Enigmática. Seria o caso de amar Enigmática melhor que Caroebe, por exemplo? Ou seria o caso que precisava apenas das coisas que nem tinha? Ou de deixar que as coisas seguissem seus próprios caminhos fracassados? E tinha pena de mim, teria pena de mim, se por desventura perdesse Enigmática.
            Encostei a cabeça no travesseiro e tonteei. Estava zonzo. Sim, era verdade. Estava flutuando ou boiando no azeite. Nem sei se era bom. A tonteira me levou para o ar, para o fundo do mar, talvez para as praias paradisíacas do Espírito Santo, para o fundo da lagoa Caiúva. E me senti flutuando mesmo, mergulhando fundo, já disse. Flutuei como paina. Que ma-ra-vi-lha!
            E Enigmática me surgiu sempre e inesperadamente e bem na minha frente nem sei de onde. Veio sempre bem e quem sabe da música do cheiro do sossego de Veranópolis de Piancó de Hidrolândia de Coité do Noia... 
E flutuei como sempre sonhara flutuar ou mergulhar. Sem vento, sem correnteza. Como astronauta, como mergulhador. Batendo asas e barbatanas como um pássaro ou um peixe em câmara lenta. Ou nadando como nadador profissional em câmara lenta. Um perfume? Vários perfumes. Cheiro de café quente. Música? Nem, chega de zoeira. Eram pipilos, trinados, pios, sibilos, blu-blu-blus!... Cantos dos variados passarinhos. Que ma-ra-vi-lha!
E continuei a escalada, a descida ao fundo. Uma escada de cordas para o céu. Nem sei pra onde me levavam os pulmões. Ia sendo levado. E a pluma continuou aérea e navegando no doce mar azul. Eu era a pluma, e eu era eu no ar todo de claro azul. O ar era azul e doce, o mar era azul e aconchegante e oleoso. O voo era morno e suave e leve. Lento lento leve para poder dormir. Que ma-ra-vi-lha!
Abri os olhos. O céu ainda me esperava. O céu nem se importou. Tudo leve e azul. Que ma-ra-va-lha!
Pensei um nome de menina: Inhuma... Depois: Sussuapara... Ainda outro: Jurumenha... E os rostos se confundiram. Os rostos e os risos de todas elas. Que ma-ra-vi-lha!
Enigmática me esvaziava o ar... A Enigmática bebia a água do meu mar. Eu estourei como um balão de fim de festa, estaaafa!...


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