quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 8




Urupemba e os Muitos Namorados Que Passaram

            Um sonho rápido inconcluso bobo. Estaciono meu auto verde assim ainda na subida do morro. Apeio e vou falar com a guria. Estamos conversando e tal quando de repente vem um maluco numa caminhonete azul e branca e bate em cheio no meu carro. A chateação me desequilibra. Aí, vou falar com o barbeiro. Aquela coisa de bate-boca. O carona nem fala nada olha tudo nem diz nada às vezes sorri parece se rir parece nem levar a sério. Chego num acordo com o motorista desastrado.
Acho que chegamos porque, daí para diante, nem lembro de mais nada... talvez... um bando de lebres aos pulos correndo no campo coberto de tufos de capim-membeca mas... lebres já nem estão extintas?!, e nem existem mais?!
                                                                       ***
            Parou um micro-ônibus vermelho e branco na quina da Guticraque com a Antônio Prado e começou a despejar gaiolas de pássaros domésticos gatos siameses e cachorros pequineses. Estavam os gatos persas peludões quietões bonachões; um cãozinho chiuaua muito pequenino, marronzinho, orelhas esticadas bem esticadas para o alto, esperto, olhos graúdos; os pássaros australianos cacatuas calopsitas nem paravam de gritar estrilar implorando.
            O homem dos bichos exóticos cruzou os braços, cigarro no canto da boca, esperava o quê.
                                                                       ***
            O cãozinho de minha irmã Embaúba, o Mar - por ter o olho azul igual do mar -, queria porque queria brincar comigo. Me jogava um graveto e ficava me olhando esperando ansioso, latia me atiçando, como se eu devesse correr e buscar e trazer, etc. E eu brinquei com ele, pronto. Minha irmã o acostumou mal. Minha irmã Embaúba era loura, um louro alemão, quando, às vezes, até usava o cabelo em duas tranças perigosas perigosas. Era ou nem era?
            - Nem, nem entendi - latiu OMar.
                                                                       ***
            Nem ia a cemitério, nem ia a circo, nem ia à festa de igreja, nem assistir jogo de futebol na tevê do bar do seu Taria. Ali no bairro São Cristóvão nem apareciam os tais e quais circos mambembes parquinhos de roda gigante carrossel carro-choque e nem mesmo pela cidadezinha nem arredores. Nem ia também ao campo treinar com os marmanjões do Clube Esportivo Tatu.
Eu ia mesmo era conhecer uma horta plantação de melancias, jerimuns, batatas-doces, amendoins... Conhecia os produtos, mas ainda nem vira uma plantação desses produtos de feira livre, etc., em larga escala, nem explicações e ciências a respeito.
Melancias lisas e estriadas, alongadas e redondas, mais escuras e menos escuras. Percorremos em seis amigos as terras do seu Jaru Seridó, pros lados da capela de Gramadinho linha Silva Jardim. Caminhamos para lá e contornamos até um galpão de madeira coberto de telhas de barro cozido. Sentamos na sombra de ótimo umbu. A árvore era enorme e antiga, sombra para todos, quiçá plantada pela hora da 2ª República. O dia estava quente. O casal de sabiás-laranjeiras ia e voltava. A serra do Conduru se destacava ao longe.
Comemos uma melancia estriada e achamos gostosa e bem fresquinha. A sombra agradava. Os olhos da gente passeavam no dia muito claro. Depois comemos uma de casca lisa. E outras. Acabamos fazendo brincadeiras e guerra de cascas de melancia. Foi um fiasco, lá no final.
                                                                       ***
            Tudo que vem do céu é beleza e provavelmente milagre.
Enigmática era beleza. Ela sempre inefável inefável. Enigmática era beleza feita diretamente acima das nuvens.  
            - Taí, cara, ela é meio enigmática!
            D planta pedras nos lugares mais altos, e planta pedras nos lugares certos. E come nuvens. E planeja tempestades.
Eu até posso dizer o que mais?
D bebe rios e rios de água doce. Bebe um milhão de reais na poupança. Bebe os voos dos aviões dos gaviões-belo dos urubus dos morcegos. E haja vista o parna de Ilha Grande nas cercanias de Altônia.
Profundamente, o mundo caminha voa nada e se alimenta sem que de mim.
                                                                       ***
            Cheguei bem pertinho de Urupemba. Ela tinha um cheiro de alguma flor que nem conhecia, boa flor, flor apetitosa, cheirosa, escolhida, maneirosa. Talvez de uma flor do cerrado e difícil. Ficava perto tudo o que eu podia e olhando e cheirando. Uma flor escondida. Eu fingia olhar para os meus pés e meus sapatos e o chão, mãos nos bolsos das calças. Ela ia fazer 17 anos pela primeira vez. E com muita honra. Talvez uma flor da Amazônia... lá para os altos do pico Neblina. Sem explicação. Impossível se conter. Uma flor de beira de água corrente cachoeira do Aruã. Depois, depois perguntei:
            - Tudo bem?
            Ela me olhou quase com dor nos olhos negros, com olhos pequenos, com olhos espremidos. Como se perguntasse, ela perguntou:
            - Te conheço, meu querido?
            Eu ensaiei umas palavras, gaguejei, perdi a memória, esqueci o que ia dizer. E nem disse coisa com coisa, coisa alguma. Achei que nem agradava, nem agradei. Ela tinha certeza que eu nem lhe agradara e disse:
            - Você é irmão do Piratini? Seus olhos e tal...
            Nem, nunca fui irmão do Piratini, nem amigo, nem conhecido, nem reconhecido, nem sabia exatamente quem era o tal de Piratini... palácio.
            Minha nossa, meu! Eu parecia um dinossauro comendo grama ressequida num campo do fim das eras. O nome de Alá ao meu redor e sobre mim, por favor! O bom Alá!
            Me despedi de Urupemba com essas poucas falas:
            - É isso...
            - Então, tá.
            Eu ainda adorei o meu dia. Tinha gente que nem conhecia Urupemba e estava morrendo.
            Depois de me abandonar, Urupemba continuou pedalando e tal morro acima, segurando no freio e tal morro abaixo... rua Barão de Itaqui... assobiavam sempre os tietingas...  
                                                                       ***
            Os vapores do limãozinho me pegaram pelo pé. Era difícil ondeado enjoativo desequilibrado todo o trajeto até em casa. Uma corda bamba. Minha vontade por trás da porta. Minha vontade quase esquecida. Minha vontade quase dormindo. Caminho torto e ondeado e escorregadio. Tropecei no meio-fio bem na ponta do canteiro do trevinho.
            Encontrei uma mula gaviona vadiando. Ali debaixo de uma jamburana, na sombra. A lua ia alta e lá por cima. A mula, anônima, esticou as orelhas pra mim. A jamburana, poderosa, nem balançava os galhos pra mim. Àquela hora a mula se sentou. Eu disse à alimária:
            - Boa noite!
            E a ruminante quadrúpede me respondeu, me perguntando, meio me reprimindo:
            - Você é jegue, é?
            Ouvi muito bem. Fingi que nem escutara muito bem. Quis dar ideia de que mula nem falava, e fiz que nem escutei nem entendi. Sabia que era e nem era mas, investi:
            - Você é dona dessa árvore, mula?!
            Aí, dito isso, me detestei. A mula continuou a balançar as orelhas. Às vezes sorria, maliciava, punha a língua, batia as patas. Principalmente a mula me olhava. Tonto, mãos postas, eu ainda chorei. A mula me olhava mais atentamente, entortava a cabeça, principalmente me olhava. Eu nem sabia me matar. Adormeci.
            Nunca se deve dizer boa noite a uma mula sem cabeça!
                                                                       ***
            O sonho tão sonhado e meu. Gozado esse sonho recorrente, nem?!
Eu caía do perau... Eu caía da escada... Eu caía da janela do prédio alto... Eu caía do pinheiro araucária... Eu caía e batia a cabeça no chão, tooom-bo!... Me levantava e tentava subir outra vez o barranco. Tentava subir para quê? Para cair novamente? Se sabia que voltaria a cair, então por que tentar e tentar subir mil vezes? Tentava subir. E caía outra vez no poço. Era um poço ou uma grota esconderijo de onça-pintada?
            Caía num buraco de tatu. Ia escorregando perigosamente pelo estômago da mina. Nem tinha onde me agarrar. Parecia um tobogã. Nem tinha nenhuma paciência com a aventura. E se o tatu voltasse do passeio e me encontrasse invadindo sua casa? Escorregava mais e mais. Para baixo todo o tempo... Ia mesmo era parar na China. A família do tatu corria atrás de mim. Os tatus eram dinossauros portanto maiores que nós todos, gente! E eu continuava escorregando sem querer. Era um escuro e fazia um calafrio. E cada vez que me virava na cama caía um cobertor. Os cobertores escorregam nas noites de frio. Que noite fria aquela! Se eu tivesse uma certeza de D! Mas achava que podia levantar da cama. Era melhor, pensando melhor, melhor nem sair lá fora.
                                                                       ***
            Será que a Enigmática conhecia paca, anta, capivara, cauintã, antítese? Eu também nem. Só pela tevê e olhe lá. Será que Enigmática já conheceu pessoalmente o lobo-guará? Eu nem. Só pela tevê e olhe lá. Por mim, achava que Enigmática era daquelas meninas que gostavam e amavam segurar no colo um filhote de guaipeca. Será que E-nigmática já conhecia pessoalmente a ilha da Laje, a lagoa da Tijuca? Tinha quase certeza disso.
            Aliás, Enigmática tinha cara de quem gostava daqueles cachorrinhos longos, rasteiros e de orelhas caídas. Nem sabia o nome da espécie, mas sabia o tipo. Eram a cara dela. Enigmática tinha focinho de cachorrinho salsicha. E se aproximava e abraçava e gostava e confiava e beijava mais em cachorrinho que em mim.
            Minha prima Igara também tinha focinho parecido com cachorrinho. Ela me cumprimentava sempre com beijinhos nos cantos dos lábios. E era tão quente que só visse. A prima Igara foi fazer altos estudos em Tapirapé. Casou com um fotógrafo natural do sertão da Farinha Podre. Formada juntos foram trabalhar em Itanhangá. Mais magra uns doze quinze quilos e mais alta uns oito nove centímetros e mais nova uns três quatro anos. Nariz esnobe arrebitado de cachorrinha poodle. Os tais e quais domingos e feriados ninguém conta com ela pela manhã porque nem levanta da cama antes das 11h.
            Até porque o domingo era marciano. O domingo era uma lista de horas. O domingo era só uma cidadezinha vazia. Domingos nem era ninguém que eu conhecesse.
***
            Fiquei meia hora olhando da janela. Tomava um copo de suco de laranja. Ia tomando suco de laranja. O sol batia no copo meio cheio. Aquilo nem acontecia sempre, nem fora combinado. Nunca acontecera antes, aposto. Mas era comum um dia de sol e um copo de suco meio vazio. Coisa banal era o suco no dia de sol. Só aquele dia, então? E fiquei cansado só de olhar e pensar com o burro amarrado.
            Nesse meio-tempo, já perto da 7h quando o sol desesperou. Hum... me lembro. Me lembro porque faz apenas duzentos anos.
            Pois é, duzentos aninhos ou dois séculos passam uma barbada. Resolvemos e fomos. Mas era ainda cedo. Paramos num bar ali por perto, do outro lado da faixa BR-470. Estava o time completo de futsal, ou seja, eu, Chirca, Pinha, Torres, Tachã, Micuim, Puruborá, nenhum suplente. Tomamos cervejas, fumamos cigarros convencionais, olhamos os velhinhos jogar bisca e escova e tressete, blasfemamos todos juntos em coro e gargalhamos.
            Aí, pegamos o carro, atravessamos a pista além da ponte. Era uma casa antiga de madeira pintada de verde e telhado de zinco. Entramos. Claro que estava meio escuro e enfumaçado e a ceva custava 20 reais. Uma zona de beira de estrada. Ambiente cavernoso, típico, na penumbra, lâmpadas azuis e verdes e vermelhas. Umas músicas sertanejas ou as de dor de corno. Dez ou vinte cavalos, doze ou dez potrancas. Metade das tias já ocupadas. Chegamos, espalhamos, sentamos, varremos a sala no olhar, esperamos um nada.
            A loura mais alta, mais bonita, que eu já havia visto na noite, peitinhos pequenos, cabelo curto, lábios decorados de vermelho, lábios já beijados, hálito de cerveja, sorriso de canto de boca. E ela sentou no meu colo.
            - Paga uma cerveja, meu neguinho?
            Perguntou, mandou vir a cerveja e lambeu o meu pescoço. Me arrepiei, claro. E logo chegou a cerveja com oito doses de uísque. E a garrafa de cerveja furou já estava vazia. Ela mesma, loura alta de nome Sucupira-Branca, apertou e puxou minha mão.
            - Veio até aqui foi pra comer ou foi pra conversar, meu neguinho? Vamos ficá bebendo ou vamos comer, meu neguinho?
            Fiquei satisfeito com a simpatia dela. Eu gosto de mulheres, e naquela hora eu aprendi a gostar ainda mais. Assim como a loura alta Sucupira, muito simpática, espontânea, riso agradável, voz um pouco cantada também interessante. Então, gostando da simpatia dela:
            - Se fosse pagar quanto?
            - 50, meu neguinho. Eu topo qualquer coisa, mas aí é mais caro, tipo assim, 100 reais, meu neguinho. Mas para ti eu faço por... 45, meu neguinho. Tudo incluído, meu neguinho.
            Enquanto ia acontecendo isso e aquilo eu pensei duas coisas muito simples: primeira coisa: o mar nem nunca deixa de estourar de encontro às rochas. E segunda coisa: nunca mais vou me perder mais na noite da floresta. Ou seja: cerveja!
            Atravessamos o salão, onde outros dançavam sertanejas ou as de gauchescas, fomos por um corredorzinho, saímos num pátio cascalhado, caminhamos por baixo de uma tucaneira, chegamos a uma porta de casinha geminada, meia-água, porta verde 21 parede amarela.
            A loura alta Sucupira, e ainda alta depois de despir os sapatos de salto alto, me empurrou para a cama. Tirou a minissaia a blusinha a calcinha sem mais nada. Um pouco de grama na frente, logo na entrada. 5 minutos, 4 minutos.
Eu nem conseguia alcançar a boca da fulana. Parecia sim que ela nem queria ser beijada na boca. E me chamava de neguinho meu neguinho. 5 minutos, 4 minutos. Chupei um seio, talvez o do lado esquerdo. Um seio mole e muito branco. Era um seio doce e pequeno. 5 minutos, se tanto. E ela falou comigo no meio do tu-tu-tu!... Ela disse mesmo, avisando:
            - Pronto, já acabou, meu neguinho.
            5 minutos foi muito. Nem me lembro se deu tempo de cheirar a figura, de passar a língua no umbigo. Acho que estava um pouco bêbado, também. 5 minutos e nem se discutiu mais. 5 minutos e nem se falou mais nisso. E a sensação ilha de nem ter tido tempo de morder o pescoço da vítima.
            Enquanto conto isso me lembro de pensar duas coisas: a primeira coisa: eu tinha bebido muita cerveja e nem sabia se urinava ou se lambia. E segunda coisa: eu nem sei mais por que até hoje me vem essa alegoria que fica entre a alta e a loura. Até prefiro loura alta. No bom sentido exótico, claro!
                                                                       ***
            Pela minha janela nem passava nada. Também, era uma janela que dava para uma laranjeira e olhe lá! Assim foi que saí fora. Meu pensamento voava. O que fazer ao cair na rua Itália sem começo meio e fim?
            Um auto, um caminhão, uma moto barulhenta, uma menina de cabelos soltos na bicicleta subindo a ladeira, tudo. Isso tudo me lembrava que nem podia tocar em nada. O mundo intocável. Tudo muito sensível. O futuro, então, muito arisco. E dizendo futuro digo tudo.
            Depois de Alá, tudo é pó e pó.
            E mais nada me acalmava àquela hora. Parecia que as pessoas falavam aos berros e gritos e esperneios e pedradas. Precisava de ter calma. E quando eu mais precisava de ter alma era aí que eu perdia toda a calma e o resto da alma que nem mais tinha.
            O sol acabara de lançar de si e a lua também.


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