sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Alice Para Sempre (romance) Capítulo 8




            Depois de tudo, depois da partida da mãe-avó, Alice e Marcelle restaram ali perdidas no mundo. E como acontece nesses casos, Alice não sabia o que fazer. Da noite pro dia precisava urgente e urgentíssimo de um banho de descarrego, sal grosso, borrifos de água benta com vassourinha de arruda. Alice se colocou:
            - E ainda por cima, não sou muito excelente em esquecer.
            Abriu a porta e resolveu tirar a limpo, pagar para ver. Abriu a porta. Tudo estava longe. Pisou a rua e entrou no mundo, por aí. Quinhentos anos depois do último pesadelo.
            Alice criou o ir embora. Ir para onde. Ir para Teresina? Ir para Maceió?
            - O mundo não muda nada, e eu não falo mais nada. Hoje é assim, amanhã não haverá perigo algum.
            Pensou alto, contraponteou:
            - Sempre que posso viajo e viajo de trem.
            Não são as árvores que possuem asas, não são as pedras que possuem asas, não são os ventos que possuem asas, não são as aves que possuem asas, não são as estradas que possuem asas. Ninguém possui asas. Quem possui asas?
            - Nunca fui uma simples carumbé descansada. Bem que eu merecia ser cautelosa e lenta e muda. Bem que eu precisava ir devagar, devagarinho, quase parando. Bem que eu necessitava ter todo o tempo do mundo.
            Alice e Marcelle seguiram, então, para a terra do silêncio árvore, da calma água de riacho, do sossego borboleta e da paz cambaxirra. Um arraial chamado Camba-aca-ará, uma praia capixaba remota, uma prainha perto da praia de nome Jacaraípe, e bem longe da luz elétrica, da internet, do celular, da parabólica, do automóvel, do avião, da moto, pensar só para o gasto, uma praia do Espírito Santo. Cabana coberta de palha catolé ou chirca, pagode chinês, oca indígena, gabioto africano, casa de taipa ou pau-a-pique estilo caboclo, chicaca, tugúrio, maloca indígena, barraca. As reuniões eram relaxadas, vida tipo zen budista, vida simples e contemplativa, vida natural, vida fácil, vida com Jesus, vida com Buda, vida com Rá, vida com Alá, vida com Krishna, vida com filosofia clássica, vida com poesia simbolista ou neosimbolista, discursos surrealistas, aguardos de astronaves. Todos ali um pouco de tudo, poetas, filósofos, tatus, ecologistas, preguiçosos.
            Os amigos que as receberam, pessoas de sandália de dedo, pessoas sem prevenção, mesmas pessoas que sempre gostavam de plantas, supupeira, macaúba, pixaúba, que adoravam as ondas do mar, surfavam de vez em quando, amavam os bichos, ararinha-azul, cutia, dorminhoco, preá, baleia jubarte, camiranga. Havia ali na aldeia umas doze cabanas, umas estradinhas muito caprichadas que seguiam pelo meio da vegetação até o mar, até o morro, até o riachinho.
            No primeiro momento já perguntaram para Alice:
            -Você acredita em disco voador?
            - Aaaah!... Acredito.
            - Há alguma coisa no mundo lá fora que te tira o sono?
            - Aaaah!... Não.
            Nada para preocupar a calma, nada para parar o sossego, nada para abalar o lugar, nada para pesar a consciência. Um tamanduá-bandeira imitava o caminhar do surubim e falava como uma arara-canindé.
            A reunião começou na manhã e se prolongou pela tarde, deitados nas redes já no quase escuro, sentados em posição de lótus sobre as esteiras, dependurados em muçuranas presas aos caibros ou plantando bananeiras. Cajueiros dão ótimos cajus. As mulheres iguais aos homens, as crianças brincando pelo terreiro, os passarinhos piando livres. Alguém mais queria comunicar:
            - Caminhei até o ponto mais alto do nosso lugarejo. Olhei todas as nossas palhoças de Camba-aca-ará. O mar, o mar alto e o bom mar. Me sentei na relva, na pedra, no tronco caído. Mastiguei uma haste de grama verde. Senti o gosto do verde e da terra doce. Gostinho da terra e do verde. Os passarinhos do território cantando surpresos, uns tico-ticos, umas cambaxirras, sanhaços-amarelos, outros canarinhos-da-terra. Cantavam para me expulsar? As nuvens, uns amontoados de feno aqui e ali, quase paradas, flocos de algodão, um céu de toldo molhado a azul, cogumelos, hipocampos, barcos a remo, bolas de asas. E lá no alto, voando alto, acreditei que podia ser um santo andando baixo, bem alto, um gavião-de-penacho. Talvez o carancho estivesse se perguntando: “O que essa aí faz aí sentada sozinha na grama?” Me demorei. Restava um cheiro de universo há muito satisfeito. O sol buscava o outro lado, viajara seu tanto, pilotando as horas, mandando uma luz importante.
            A corruíra cantou vermelho, o pintassilgo não era deste país, o sabiá-do-campo olhou as horas no relógio do vento, o sabiá-laranja olhou as horas no relógio do sol.
            As pessoas, a comunidade em mutirão, Alice plantava girassóis, alfaces, repolhos, cenouras, uma jabuticabeira, cará-açu, cebolas, tomates, morangos, um açaizeiro, umas aboboreiras, uma pupunheira, cuidava da sua parcela de riachinho, os peixes que por ali passavam e viviam, os metros da sua praia de mar. Alice tratava a horta com paciência para treinar paciência. Deixar os animais na naturalidade, sem medo de gente. A comuna vendia o excedente para comprar roupa vermelha, amarela, estampada, floreada, branca, cadernos para as crianças e redes de dormir. Com a palavra uma pessoa com preguiça na voz:
            - Cheguei de surpresa no meio do caponete, ali à beira da sanga. Bandos de pássaros explodiram dos jerivás e guamirins quando me viram, qui-ri-qui-qui!... tesoureiras, bem-te-vis, pombas-rolas. Tudo bem. As aves não sabiam que eu vinha em paz. Foram pousar noutro lugar, lugar é que não falta, alguns alagados. Com certeza eu lhes interrompera a refeição, o namoro, o lazer, a conversa, o território. Falha minha, foi mal, não se deve fazer isso. Eles são muito integrados aos coqueiros e às árvores que os alimentam e os protegem. Há os que gostam de sementes, frutos, frutas, flores, néctares, insetos, brincadeiras. O sol é um pássaro, os passarinhos são filhinhos do sol.
            A chuva caiu de supetão e caía lá fora. A chuva meio que atrapalhava a reunião. A chuva caía calma e grossa, antecipando a noite. A chuva muito importante. A chuva caía e aumentava e corria pelas valetas. E mais gente gostaria de falar. Todos gostariam de falar e falavam e quase não se ouvia. E o ruído da chuva dava sono. Um ar úmido, esfriando um tanto e também carregado, isto sim, do cheiro de maconha. Comunicou, atrapalhando a música da chuva:
            - Aqui não temos as datas. Mas naquele dia o céu, o vento, o mar, estavam calmos, os deuses estavam quem sabe ainda no sono da manhã cedo. Manhã passageira de tarde, de noite, do tempo que aqui não conta. O sol ainda estava de lado. Me sentei nas pedras, sempre escolho a mesma pedra, é minha namorada, acredito que seja, e converso com ela, olho em volta, deixo os cabelos ao vento. O mar vinha tranquilo bater ali. Eu fiquei admirando. Minutos eu sonhei, viajei, outros eu cabeceei sonolenta, o corpo cheio de calor e sossego. Eu faço isso sempre que me dá aquela vontade. Ficar só é uma, sentar só é uma, faz parte. À noitinha, ao pôr do sol, vocês sabem, é tudo de bom sentar nas pedras, eu sento sempre na mesma pedra, ela me reconhece, e me espera, e olho, enfim, olho o sol fechar as pálpebras. O mar é como a alma da terra. Não sei, não sei. É bom não saber. Só sentir, né?! Pretexto para deixar o espírito voar, voar, deixar que leve, leve, se vá, e volte quando quiser. Eu estava lá e me acostumei, vou lá sempre que posso. O sol se esconde do lado da montanha. O tempo só existe no relógio, que não temos mais, né.
            Foram ao monte namorar a lua cheia, as estrelas mil, o calmo céu noturno, enquanto bebiam chás, chá de erva-doce, chá de carqueja, e outro chá de cipó, bebericavam chás, trocavam opiniões sobre as estrelas, discos voadores, apreciavam a lua, as cicatrizes da dona Jaci, o prato, o disco, o queijo, e nada nada de projetos. Gostavam do silêncio, podiam falar qualquer coisa, ouvir estrelas. O povo da aldeola não levava raiva de ninguém nem de nada nem de coisa alguma, ainda bem. A lua no céu, pedalando devagar, e provisória. Quem falou, falou:
            - Se temos alma é porque devemos muito aos quatro elementos.
            - Paradoxos, perguntas, equações, bumerangues...
            - Causos, histórias, lendas, narrativas...
            - Varadouro, trilha, caminho, travessão, beco sem saída...
            - É muito fácil dizer: o destino está escrito e ninguém lhe escapa, é.
            - Verdade ou sonho ou as duas coisas tramadas.
            - Você, eu, todo o mundo, temos que aceitar o mundo, gostar do mundo como ele é.
            Alice largou de plantar alface naquele dia calmo para brincar de boneca com Marcelle. A boneca de pano tinha um nome, Tutuca, e Marcelle gostava muito de Tutuca, conversavam. Alice, Marcelle e Tutuca faziam uma família, onde Tutuca ia, Marcelle ia atrás, as vontades de Marcelle ou as vontades de Tutuca eram quase sempre iguais e davam na mesma.
            Então, terça-feira de manhã, a chuva parou, o sol apareceu, mas as nuvens promissoras continuaram rodeando as voltas do horizonte.
Alguém falou para ser ouvido:
            - Vi um besouro verde. Não é jogo de palavra. Ele veio do nada e pousou no meu braço. Foi Tupã quem mandou. Tupã mandou e pronto. Motivo deve ter tido e de sobra. Tutuca gostou. Marcelle gostou. Marcelle apontou para o inseto, mostrando à Tutuca que o besourinho possuía asas, tinha pernas, se mexia, se equilibrava e uma cor verde metálica. Dúvidas de Tutuca: Por que era verde? Por que se mexia? Por que era verdade? Onde era sua casa? O besouro foi embora como chegou, na vontade lá dele. Harmonia bonita como ser besouro verde. Harmonia como ser brinco-da-princesa, bibi, orquídea, chuva, seixo rolado e polido, passarinho uirapuru.
            As pessoas se plantavam de lótus na sombra de um enorme e centenário jequitibá:
            - Precisamos mesmo comprar cadernos?
            - Vamos votar.
            - Posso ensinar a tocar flauta doce.
            Então, os meses não existiam, as horas não iam e não voltavam, os dias não cansavam. Uma borboleta vivia três meses, seis meses, namorava uma vez se tivesse sorte e sumia. Alice falou a Marcelle que comentou com a Tutuca, Alice disse:
            - Olha só a história do Saci.
            Marcelle comentou:
            - O Saci é que anda pulando numa perna só. E tem um gorro mágico e vermelho e muito bonito, que ele só usa para fazer o que bem quer e sumir de um pulinho mágico, tufe!...
            Tutuca rebateu e empolgada:
            - Vi o Saci! Vi o Saci! Rodou como redemoinho! Como um pião! E era mesmo o Saci! Vi mesmo o Saci no meio da poeira vermelha!
            Pronto. Nuvens gordas avançavam pelo alto. Ia chover uma barbaridade. E isso era dizer chuva abundante, torrencial. A tarde se precipitando. Nuvens baixas. A tarde saindo apressada apressada das sombras das paineiras, dos cambarás, das urucuranas, as sombras assustadas, as sombras se arrastando. As árvores tinham pés afundados na lama, e braços erguidos, e folhas tagarelas. Na capoeira, as plantas se esgalhavam, davam de braçadas no vento. Algumas árvores se alternavam, não todas, umas feitas de troncos, outras de galhos, a maioria de folhas.
            Onde estão protegidas as bravas índias icamiabas? Onde ficam os rios de café com leite e pão com manteiga? Onde estão os mapas com as pistas dos tesouros perdidos? Onde as praças com túneis secretos do tempo dos jesuítas?
            Nas reuniões a comunidade cantava, tocava flauta doce, tocava violão, cantos de glória aos grandes santos, cantos de paz, mantras, e danças, dançavam pares, trios, quartetos, famílias, grupo, bebiam chás específicos para a ocasião, e podiam falar:
            - Que todo o mundo pense feliz para ser feliz.
            - Digo que pode ser sim nossa heliolatria.
            - Vivemos em comunidade, a ela nos aperfeiçoamos, mas a alma é solitária.
            - Minha mãe. Mamãe voltou na pele... no corpinho emplumado de um beija-flor metálico. Só pode. Eu vi.
            - Como posso me livrar das dúvidas? Como posso voltar um dia canjerana ou urucari?
            - Um tucano-de-bico-verde comeu na minha mão, esperou carícia e me olhou confiante. Amanhã na mesma hora ele ou ela vai voltar, eu sei.
            - O meu braço foi ontem aeroporto de besourinho verde. Minha filha me parabenizou.
            - Conheci o poeta dos cata-ventos faz uns cinco anos. Sim, é tudo o que declamam dele. O único a merecer um mundo de paz e tal qual um anjo.
            - Tenho partes de pássaro, tenho partes de árvore, tenho partes de bicho-preguiça, tenho partes de sol e lua, tenho partes de peixe, tenho sorriso de andorinha, tenho tempinho de passarinho.
            As crianças brincavam com uma pedra. As crianças brincavam com um monte de areia. As crianças brincavam com vinte ou trinta conchinhas. As crianças brincavam à sombra de um caponete de aroeiras, pés-de-bugre, paus-bugres, pentes-de-macaco, uiraris, acaiacaranas. Alguém mais poderia sintonizar:
            - Fui soprar flauta doce e pôr a mão nas plantas, nas folhagens, nos capins, nas línguas-de-vaca, nas milhãs-roxas, nas barbas-de-bode. Me deu vontade de ser uma árvore, uma touceira. Toquei flauta doce pra japecanga. Me recostei no tronco, parei de tocar e escutei lá o coração da pixaúba. Não tive coragem de pedir nada, folhas, flores, frutos, casa para morar. Me contentei com a sua sombra, sua beleza e tocar flauta doce pra ela. Sim, uma senhora alta, umbrosa, cabelos ao vento, amante do sol, filha da terra. Voltei a tocar para a árvore. E passarinhos e outros alados continuavam na eterna busca por aventuras. Tinha também a tarde que caía, a tarde macia e cheirosa, a tarde de ouros, e a tarde risonha, beleza tranquila.
            Chovia quase sempre, a chuva era a melhor parte, chovia como se sabe que chove, Alice gostava de ver a chuva, Alice se colocou à janela, se alegrou com a vinda da chuva, as plantas, as ervas, os bichos, os sapos, os tico-ticos, todos se alegravam com a passada da chuva. Marcelle mesmo passeou na chuva, Tutuca foi junto, depois que voltaram conversaram muito, cheias de empolgação, uma dizia isto, a outra aumentava isto e aquilo:
            - Eu mesma vi um bando de borboletas de muitas asas, é!
            - Eu vi dois bandos de papagaios ou periquitos gritando alto, não sei o quê!
            - Eu vi oito mil besouros e caramujos e zebelinhas na chuva, só para se molharem!
            - Eu vi trocentos milhões de abelhas ou formigas voadoras dando voltas ao redor de uma baita ubuçu!
            Cada manhã bem cedo, ou a qualquer hora do dia e da noite, as pessoas sentavam com as pernas cruzadas e se concentravam, segurando a ponta dos dedos, meditando. Um homem de cabelos brancos compartilhava filosofia:
            - Se o paraíso continuar nesse ritmo, se o paraíso sempre for bom assim, então, tá, adeus pensamentos fixos.
Duas mulheres ensinavam plantar couves-flores, chuchus, abóboras, jerimuns, mandiocas, aipins, macaxeiras, milhos, porongos. Três crianças brincavam de peteca com crista de penas. Um homem simples, zombeteiro e feliz, pintava um quadro com os dedos sujos de jenipapo e urucum. Todos falavam, um de cada vez:
            - Quanto aos cadernos pras crianças...
            - Aí, depende.
            - Não vejo outro jeito.
            - E tudo vai depender de alguma outra coisa. E mais isto e aquilo.
            Manhãzinha aquela cantoria em algazarra de passarinhos todos afobados em cantar o dia, em marcar território. As sombras se alongavam, passavam, entravam e saíam. Um pensamento já já era de todos para todos:
            - Sabemos que o bom lugar mesmo é sempre o meio termo.
            - Tupã não é uma figura de linguagem.
            - Quando eu morrer, por favor, hein?!, me plantem no oco do ingazeiro.
            - Se quiser pedir desculpas pelo que não fez, tudo bem; se quiser pedir desculpas pelo que já fez, aí talvez.
            - Aqui se conhece, onde se vai não se sabe.
            Alice olhava Marcelle, a filha olhava o besouro pretinho com cor reverberante. Marcelle, olhos cintilantes, dando seus pulinhos para alcançar borboletas tontas. Marcelle achava engraçado essas coisas de borboletas, voando ali, saltando no ar. Alice se apegando com seu muiraquitã, talismã das amazonas, nó de gente.
            As jabuticabeiras, os tarumãs, o cajueiro, os ipês-amarelos, os tucuns, as pitangueiras, as sete-capotes chegavam na sua melhor fase do ano e recebiam tico-ticos, bem-te-vis-de-bico-largo, tesoureiras, sebinhos, beija-flores, corruíras, coleirinhas, pintassilgos, joões-de-barro, canários-da-terra, grimpeiros, almas-de-gato, cardeais, rolinhas. E o capim crescendo por cima dos morros com florzinhas amarelas, florzinhas lilases, florzinhas verdes. Mais os poetas olhando o panorama, e os tocadores de flauta doce, quase sempre andando sós para se concentrarem melhor e porque eram poetas. Não eram só uns e outros que fumavam maconha, bebiam santo-daime, procuravam sementes para miçangas, penas para enfeitar peteca.
            Umas flores mais bonitas que um bando de passarinhos, um passarinho mais bonito que um campo florido, uma moça duas moças oito moças de olhares doces e vestidos floreados até os pés. Uma orquídea sem nome e de perto - era uma borboleta de sete cores. A borboleta de luz, no longe da distância - era um peixe elétrico voando solto com o vento.
            O riozinho germinava no monte, caía corria lá do seu jeito coleante até o mar, tinha sua vida ao sol, ao luar, às estrelas, comportava peixes, lambaris, cascudos, traíras, jundiás, e era piscina, açude, tanque. Os aldeões gostavam de molhar os pés e as canelas no seu raso. Não era discurso, mais um desabafo:
            - O calor me dominou, me tonteou, me deixou por baixo e no chão de terra batida. Não sei o que aconteceu, onde estava com a cabeça. Beijei e procurei lamber o peito dele, os pelos, isso tudo pelo menos. Chupei pelos, lábios, pés, orelhas, dedos dos pés. Lambi meus dedos e meus lábios e meus próprios peitinhos. Aí, ficamos deitados, sonhando, nos olhando com o canto dos olhos, rindo um riso cansado e bobo. Deitados no chão, na areia, na relva, na rede, na esteira e um nos braços do outro. Ele era atencioso para qualquer coisa minha. E qualquer coisa lá dele se voltava na minha direção sempre de instante a instante. Ele tinha um troço ali que me dizia: é pra já! é pra ti! E o troço, como vara verde, me comia, e eu era obrigada a dizer e dizia: mete mais!, mete tudo! E ele quis me bater com aquele troço. Lutamos como duas cobras. E não só me derrubou como me bateu e me engraxou a barriga. Foi quando suspirei, bufei, me apalpei, me espalmei, me conferi meio às cegas... sim, era eu mesma... por enquanto.
            Era o tempo da primavera, a comunidade andou a colher frutas silvestres, cada particular com sua alegria, e todos estavam bem. Alice juntou araticuns, mangabas, sete-capotes, guabirobas, azedinhas amarelas que derretiam na boca e num sabor inenarrável entre o doce e o azedo, agridoce.
Em Camba-aca-ará, um recanto de praia magnífico no Espírito Santo, todos os dias se perfilavam um ao lado do outro iguais e semelhantes, harmônicos e maneiros. Podia fazer sol ou chover que ninguém tinha pressa. Todos tomavam seu chá de particular escolha, sem pressa. Uns tomavam chá de cipó da Amazônia, para abrir o apetite do céu. E o céu vinha encantado enrolado nas nuvens silvestres. Às vezes se escorregava muito no céu.
            Nasceram sombras apetitosas debaixo da asa da cajá-manga, nasceram sombras confortáveis na beira dos rochedos do morro, nasceram sombras de pés de milho na tarde e com a tarde. As cores, muito simples, simplesmente. As sombras, então, enfiaram o bico debaixo da asa.
            Uma noite pegaram todos e foram até a clareira esperar discos voadores, e todos, adultos, crianças, bichinhos de estimação, as crianças jogavam a peteca, outros andavam de mãos às costas como peripatéticos, tomavam chimarrão em círculos de bate-papo, as crianças riam alto, chegavam a gritar, as estrelas no céu, umas alinhadas, a maioria jogadas ao sabor dos causos, outras aninhadas, os meteoritos riscando, as estrelas que piscavam, e quando um cometa se desprendia faziam alvoroço, e mastigavam frutas, abacaxis, bananas, melancias, batatas-doces e sorviam chimarrão, chá de folha de laranjeira, e outro chá de cipó, poucos da comunidade tinham conhecimentos de estrelas e astros, não davam nome nem endereço das constelações, alguém ressuscitou o Bendegó, os irmãos do céu demoravam, talvez os irmãos moradores das estrelas tivessem mais o que fazer, talvez não fosse o tempo certo, umas crianças já dormiam, ninguém tinha certeza de como e por que seria o reencontro da terra com os irmãos de uma estrela qualquer de uma galáxia perdida.
Deitada na terra vermelha, braços ao longo do corpo, olhos no infinito, esperando a fogueira queimar, a mulher de bandana patriótica na cabeça, conversava:
            - Viemos de uma outra galáxia muito distante. Um dia nossos irmãos nos acharão e nos conduzirão para casa. Nos encontrarão, nos encontraremos.
            - Sinto saudades que não se explicam. Umas saudades picantes, profundas, ocasionais. E algo mais desse tempo aí, sei lá.
            - Isso sim é esperança!
            - Lá teremos paz à larga.
- Tenho pressa em localizá-los, vê-los, reencontrá-los, revê-los, e colocar as conversas em dia. Voltarei às aulas, é.
- Tupã inventou alguma coisa boa para cada recanto desses.
            - E Tupã pensou em tudo para que esperássemos a eternidade.
            - Todos nós temos asas.
            - Faz sentido ter sentido. Qualquer sentido.
            - O infinito é muito muito ou muito pouco.
            Alice costumava ler na cama, ler na rede, reler, treler. Os livros eram poucos e raros, sempre os mesmos. Os livros eram escolhidos. Os livros eram abraçados. Os livros, ali, eram sempre os mesmos e relidos.
E Alice falava bem, ouvia bem, se sentia bem, gesticulava bem, mas só entendia o que queria. Alice andou até ali, leu a palma da mão, olhou para o nada, suspirou, inspirou, recordou, falou:
            - Fomos eu, Marcelle, Tutuca e outros cinco ou seis tomar banho no riozinho. Passar lá o dia todo. Comemos bananas, jogamos bola, jogamos a peteca, pegamos sol deitados sobre as pedras ou sobre a grama, assustamos os maçaricos-do-campo. Como índios embaiá. Um dia de pouco vento e muito quente, medíamos as sombras e o mormaço com a língua de fora. Ao meio-dia os passarinhos se recolheram e tudo silenciou. Chegou uma forte chuva de verão que alegrou mais ainda todo o mundo. Voltaram o sol, os jogos à beira-rio, os passarinhos, o ar molhado, um arco-íris, um casal de patos-arminhos. Nós todos paramos cheios de maravilhas, uma aliança, um casamento, uma ponte, potes de ouro, sorriso de Tupã, tesouros que os piratas esqueceram no mapa, casamento da raposa, arco-da-velha.
            Marcelle brincava com Tutuca na terra, corriam de se atropelar, corriam de se esconder, corriam de pega-pega, e comiam pitangas, bergamotas, uma subiu na árvore e chamou, me pega! me pega!... deitavam ao sol sobre as pedras, deitavam na grama sob o sol, riscavam o chão com curvas e retas e figuras de três lados, desenhavam casinhas com sol na varanda, plantavam bananeiras e davam cambalhotas, colecionavam pedrinhas, uma ficava com as sementes e pétalas de várias flores, outra contava folhas de taperebá-do-sertão, se encantavam com as borboletas, e sonhavam virar passarinhos japiins, coleirinhas, pisavam o barro, corriam na chuva, o ar todo em volta cheirando a flores de goiabeira-do-mato, povoado de gritinhos de alegria, zumbidos de abelhas e mosquitos, cantavam pedaços de canções, e o mundo não era povoado só de jacarés-do-papo-amarelo, Marcelle cada dia estava mais bonita, batendo palmas e crescendo.
            Para falar a verdade, as pessoas ali da comunidade acordavam os horários que bem entendiam. Uns muito cedo e dormiam com as galinhas, outros muito tarde e já de sol alto. Dias de chuva e vento esperavam tomando chá ou chimarrão. Por acaso se encontravam, ao se encontrarem não tinham segredos:
            - Nós dois noturnamente na rede, a rede na área, nos tocando como se tocássemos violões afinados, ou uma lira zodiacal. A noite sugando as estrelas. Silêncio lunar. O vento varrendo o pensamento para debaixo do tempo. Sem palavras. Os rios voltando para o ninho, subindo cascatas e corredeiras até as nascentes. Depois o mundo se pré-preparando. Os passarinhos despertando, os passarinhos acordando, os passarinhos cantando. Verão seco e sol escaldante, labaredas no pasto, correrias de bichinhos do mato, bando de araras-vermelhas-grandes, sorvete de pitangas, canto do sabiá-laranja, aí pelas cinco e vinte e cinto da matina, dois versos reprisados, multidão de nós dois. Casal bem comportado.
            O sol nasce do mar, o sol nasce no mar. Bandos de anus-pretos saem toda manhã, manhãs de sol, e se espalham pelas sete cores do dia. Surdo, agogô, tamborim, cuíca, flauta doce, festa e mania de carnaval.
            - Vim buscar, aqui nesse pequeno arraial, um sorriso para mim e um grande sorriso e um enorme e vasto sorriso para Marcelle.
As aves crocitaram, o mar ululou, o vento trinou. Enfim, um dia, se chega de supetão diante de alguém, os olhos do fulano arregalados, se faz a brincadeira de escola: laranja, laranjeira, laranjal e laranjada, banana, bananeira, bananal e bananada, pitanga, pitangueira, pitangal e pitangada. E os olhos bem abertos são lagos doces, onde nadam os peixes pequenos e coloridos e emplumados.
            Tutuca acordou, lavou o rosto e foi para o pátio brincar, nem pensou em tomar café, e de lá Tutuca chamou Marcelle, esta acordou, brincaram de contar folhas de araçazeiro, as duas sem comer nada, com o bate-papo Alice acordou, abriu a janela, Alice se lavou e foi preparar o suco de abacaxi, o chá preto e o café, as três se sentaram, no meio do café a brincadeira das duas, as três com fome, e falantes. Às vezes eram mãe, filha e boneca, às vezes meninas. E Alice poderia dizer ou pensar e pensou, e disse quase em segredo:
            - Leio e releio poesias surrealistas, cavalos alados, nuvens tocando piano na praça, cavalos coloridos e alados. O poeta viveu e viu coisas e anotou coisas sutis no seu caderninho. A tarde toda me deu uma febre de ler ler ler poesia. Sutileza de coisas, praças, infância, amores que poderiam ter sido, tempo rolado. E muitas outras coisas. Esgotei mesmo os sentidos de tanta poesia, esgotei a poesia, muito encantada. E parei para escutar o estalar de cores das flores, do verde das árvores, as nuvens arrastando o indo e o vindo. Fiquei num estado de alma, acho que era minha alma, ou mesmo fiapo de Tupã. O vento nas folhas, o cair do riozinho em cascata, a vida pré-cabralina na tribo. O mato a mata a floresta mostrando as lendas, os caaporas, os boitatás. Preparei um chá de camomila. E bebi o chazinho tão lentamente lentamente como é do costume. E bebi o chá com colherinha. Então, depois, saí no pátio, vaguei pelo pátio de tico-ticos, andei a esmo, ao atá, sem rumo, errei, deambulei, assim, vinte e dois metros, toda ensimesmada. Voltei, subi os três degraus até o umbral da porta. Sentei na cadeira com um cotovelo na mesa. Olhei tudo de novo.
            As decorações das palhoças eram de móbiles dourados, dependurados, presos nos batentes das portas e janelas, nas árvores mais próximas peixes de ouro, pássaros, luas, estrelas, tilintintins!, e nos jardins umas pedras de tamanhos variados e cores e formas, as flores silvestres, as ervas que curam.
E canções para acalmar o tempo, mantras murmurantes e rezas para embalar o astral, elevar o espírito, transportar o pensamento, acalmar os nervos, anular as ideias. Se falava muito em anjos e discos voadores e almas das coisas. Se tatuava ideogramas ou escritos chineses, egípcios e árabes. Uns homens coaxavam, umas mulheres gorjeavam, uns moços piavam, umas moças cricrilavam:
            - Que idade têm essas estrelas? Por que a distância?
            - Tenho saudade da vida nos séculos do Brasil colônia e império.
            - Esses dias atrás, uma noite atrás, sonhei que jogava e jogava pedrinhas no açude. Perdi a conta das pedrinhas que joguei. Eu escolhia as pedrinhas e as jogava de modo que picassem várias vezes na superfície da água. Com muita habilidade. Jogava comigo mesmo. Não sei quanto passatempo. Não sei também se adormeci depois, ou fiquei sonhando outro sonho. Fui treinando atirar pedrinhas na água e quase consegui ganhar.
            - Tenho pés de nambu, tenho orelhas de tamanduá-bandeira curioso, tenho nariz de quati, tenho olhos de bicho-preguiça mascarado.
            - Já estive nesse lugar antes, em algum alto passado da minha vida.
            - Só uma vez queria me chamar Ana Paula, ou Cecília, ou Guilherme.
            - Esse fim de tarde vermelho, amarelo, azul e ouro.
            Marcelle brincava de sapata, pulava numa perna até o céu, ensinou tudo à Tutuca, assim, ora ia Tutuca ora ia Marcelle, pulavam e contavam até o céu, as duas pulavam pulavam de casa em casa, num pé só, feito dois sacis, até atingir o céu. Marcelle andou seus pulinhos para alcançar borboletas amarelas, Marcelle apontou uma formiguinha para Tutuca rir tanto.
            Alice subiu até o monte para ver ao longe, ver matinhos e ver pedras. Procurou a sombra das árvores mais galhudas, uma paineira, e se sentou em posição de lótus. Fixou o olhar lá na distância do mar... Uma nuvem em forma de caravela? Para desobstruir o cérebro e as vontades que nasciam do corpo ela foi murmurando mantras, uma infinidade de, hum! hum! hum!... Só voltou a se ver muito tempo depois, sem tempo, sem saber como tudo se passara, como tudo voltou à tona. A caravela já era jabuti ou jabota. E contou tudo a si mesma, em segredo:
            - Uns instantes agradáveis, uns momentos melhores, um dia sem pensamento, sem pensamento.
            Marcelle aprendeu a brincar de balanço, subir em árvore, amar peixes do açude, sem medo de cachorro:
            - Por que balança o rabo?
            - É que dá, de repente, uma alegria nele e ele ri.
            O mundo dormia e Alice passeava ouvindo os grilos cricrilar, as corujas piar, os morcegos resmungar, talvez uma jequitiranaboia fazendo susto, as folhas das árvores soprando flauta de taquara-poca, o vento e seus longos cabelos arrastando folhas secas pelo chão. Alice lembrou com saudades de uma cidade onde nunca nunca esteve, nunca estaria, mas bem que amaria lá ter nascido. O quase silêncio da noite dava a sensação de que o mundo não precisava de ninguém, estava de barriga cheia. Alice não dormia, não estava sonhando, e admirada com a azáfama das ruas daquela cidade de Sabará, as cores várias e vivas em toda parte, as barracas de feira na calçada atrapalhando o trânsito, os índios uirinas aculturados ali debaixo das abas dos telhados vendendo cestas, ou nas escadarias das igrejas de ouro vendendo cestinhas, ou ainda nas esquinas dos casarões enjanelados vendendo artesanato. Alice gostava muito daquela cidade, uma saudade misteriosa. E no momento exato que o mundo voltava a si, quando os grilos se recolhiam com as estrelas, Alice pegou no sono. O carro do sono passou por ela cheio de sonhos e a sujou na roupa, no rosto, nos cabelos, praticamente atropelando-a. Os sonhos foram tantos e tão rápidos no seu carro abarrotado de encantos, que Alice nem distinguiu a placa.
            Alice criou o ir embora. Ir para onde. Ir para Cuiabá? Ir para Boa Vista?
            Da areia onde Alice e Marcelle estavam dando conta, Alice viu lá atiradas no alto mar umas dez ou doze arvorezinhas, topete de uma ilhota. Quando nadaria até lá? Nunca? Talvez, talvez sempre. Quando remaria até lá? Nunca? Quando voaria até lá?
            - Que que há pra lá das águas do oceano, mãe?
            - Ora, se tem.
            - O que, por exemplo?
            - Muita coisa.
            - Manada de capivaras, filhote de teiú, casal de papa-uirá?
            - Pelo menos.
            Sobreveio uma tremenda ventania, chuva e granizo, as coberturas de capim das palhoças voaram longe, tudo durou menos de meia hora. Camba-aca-ará virara tapera. A reconstrução exigiu um mutirão, e ia ser mais engraçado que nunca. Alice sabia, então, que tinha sorte. Tudo estava bem, a natureza agira com rapidez e força, perfeita. Alice teve muito que fazer aquele dia, todos estavam felizes, ninguém ficou com pressa, nem com sono. Uma borboleta de saias azuis chegou toda trêmula e pousou numa folha e nas flores úmidas, só para beber água. Alice chegou perto, e o bichinho pulsava e pulava desequilibradamente de flor em flor ali entre as orquídeas, bromélias e outras flores.
            O tempo não contava. O sol sucedia a noite. As menininhas e os menininhos não precisavam cortar o cabelo. Um beija-flor verde de peito branco insistia no chamado estridente pousado sobre o galho da embaúba-branca. E apareceram outras borboletas coloridas, outras amarelas ou azuis, ainda as alvi-verdes com olhos negros, as tricolores, besouros zunindo, as abelhas zumbindo investigadoras.
Marcelle, tocando as flores, se escondendo atrás das tabocas, confundindo os insetos, de repente se sentiu com vontade de ser planta, ou pegar uma libélula, viver verde como louva-a-deus. Levava amarrada no pulso esquerdo (não se sabe por que) uma fita crepe cor vermelha (vermelha a cor contra os maus espíritos).
            Os pássaros e os passarinhos foram chegando, bebendo o ar, cheirando a paisagem, medindo o dia, estalando as chinelinhas no ar quente. O dia não precisava dizer nada, nem que ninguém pensasse por ele.
            Reunidos todos os aldeões e as aldeãs, bebiam chás, chuchurreavam o chimarrão, comiam frutas e bebiam aqueles outros chás feitos de cipó. A moça falou, lá do seu pouso de lótus:
            - Que bom assim. A gente, de nosso mesmo, só tem o presente.
            - Sonhei com mamãe tocando piano no alto das pedras, ali de lado, perto do mar. Tocava piano pro mar. E mais ninguém. Ninguém lhe dava a mínima, pássaros-marinhos, peixes do riachinho ou do oceano, ninguém se importava. Mas mamãe tocava com alma forte e sorriso doce. Tocava com a memória da infância e da adolescência lá dela. Não sei por que agora, depois de todo esse tempo, logo nesse meu sonho, ela volta, volta tocando o piano e tentando recuperar o tempo lá dela perdido.
            - Fui à cascatinha e recolhi umas pedras. Os tamanhos cabiam na mão. Viemos para casa. Estão no centro da sala. As pedras têm sabor. De modo geral as pedras crescem. As pedras falam comigo e são minhas amigas, obrigada. As pedras têm um dom que eu gosto.
            - Confiamos e temos fé e esperança nos nossos irmãos das estrelas: as pirâmides do Egito não foram em vão, as pirâmides maias, as cidades incas, os monumentos astecas, a cidade de Atlântida, o sítio de Calçoene.
            - Vamos andar nus como os aimorés. Na frente do sol, na frente do verde e na frente do azul. E na frente da nossa beleza. Na frente das nossas saudades.
            - Lembram dos milhos selvagens que um capixaba me presenteou? Sim, aquelas espécies raras de milhos coloridos. Pois bem, vou engarrafá-los logo depois de amanhã. Vou decorar a sala com grãos vermelhos, amarelos, brancos, raros, antigos.
            - O melhor é olhar. Sem pensar. Olhar o milagre e não querer aquém ou além. Aceitar o que está escrito. Aceitar o milagre já feito.
            - Quando se escala uma pitangueira se escala o espírito santo, quando se joga uma pedra se joga o espírito santo, quando desejamos alguém desejamos mais espírito santo.
            Tutuca falou qualquer coisa, Marcelle respondeu, Tutuca não quis mais brincar aquele brinquedo, as duas sentaram na pedra junto à porta de casa, Marcelle falou coisa no ouvido da outra, Tutuca queria ver formigas passeando em fila indiana, e lá foram elas ver formigas vermelhas subir a estrada na casca do umbu, Tutuca avisou:
            - Não me coloque no chão, né!
            - Se preocupe não. As formigas só levam pauzinhos, pedacinhos de folhas, pedrinhas que brilham. E as formigas só comem doces.
            Mesmo os deuses e deusas de todas as cores viviam em paz ali na comunidade. Isso sim era obra ali deles todos. Ninguém tinha pressa de falar, podia ouvir, podia coçar o queixo, podia dormir, podia esperar a vez, podia falar, podia gastar o que já foi dito:
            - Despertei com o sabiá-laranja da manhãzinha. Os outros passarinhos chegaram na mesma horinha. Fiz um chá, um chimarrão, um café, um suco de melancia, comi o pão de milho. Pronto, o sol levantou, esfregou o olho, espiou de olho amarelo, nem falou nada. Tutuca dormia nos braços de Marcelle. Marcelle dormia no ombro de Tutuca. Um suco de pequi. De repente, percebi que o dia já não tinha mais receio, despertava de todo, tudo funcionando no seu lugar, o mundo essa já sabida engrenagem voluntária. Os passarinhos iam para o trabalho, meio atarefados com a busca do pão lá deles de cada dia. Os insetos idem. A natureza ia ao trabalho, embora inocente. Aí, Tutuca e Marcelle levantaram, tomaram chá com pão de milho, gomos de laranja, suco de acerola, colherada de açaí. Marcelle realmente apareceu para o dia quando uma incauta borboleta azul-claridade, num voo atrapalhado pelo sopro do vento, esbarrou no seu rosto. Marcelle quase se assustou mas riu, e riu assumindo o dia bonito de sol. Eu mesma fui conferir o canteiro de cebolinhas, e mais o canteiro de alfaces. Mas me sentei na pedra junto à porta de casa e esperei. Abri um olhar panorâmico. Ficamos as três, aí, observando a vida tocar o dia, se aprontando na manhãzinha. Mas a vida ia em frente sem a gente, o mundo nesse seu filme cinema novo, sem dinheiro, sem problemas, com uma câmera nas mãos, e sozinho na poltrona do cinema Aurora.
            O namorado de Alice se fazia presente todos os dias, outros dias era Alice que visitava, conversavam os assuntos, aí, um cansava, ou os dois, então, ficavam a contemplar a eles mesmos ou uma outra coisa, se beijavam tranquilamente, bebericavam chás na sombra, quando iam para o rio ou à praia já iam nus e de mãos dadas, ali brincavam e riam muito, gritinhos e muitos talvezes, buscavam pedrinhas no fundo ou conchinhas na areia, principalmente se escondiam sob a superfície da água, ela tremia de corpo e alma, ele dava uns berros de cachorro vadio, ninguém notava que eram crianças grandes, ninguém queria saber.
            Havia sempre um lugar para se jogarem na grama, na areia, na esteira, na rede. Ela tremia, estremecia, trepidava, ele sentia o coração mais ligeiro. Os dois viam o céu mais perto, o céu mais infinito, o céu muito mais perto, respiração funda. Era um sufoco que queimava a pele e eles já sabiam o que era e o que precisavam. Ela se virava e se revirava, se dobrava e se redobrava como um arco de caça, e ele lia e relia, acertava e tentava de novo com o lápis, e pronto. Ela abanou com os pés, ele tremeu as pernas.
            No centro os frutos, as frutas e os chás. E em volta todos sentados. As crianças dispersas, algumas desvairadas. Não havia crianças histéricas, pois não havia mães ou pais histéricos. Todos olhavam o céu noturno com a sempre firme esperança de ver a chegada dos discos voadores, os irmãos intergaláticos, os semideuses, os anjos, os marcianos, os evoluídos. Quando alguém estava com fome ou com sede, ia até as cestas e pegava um fruto, uma fruta, bebericava um pouco mais do chá, basicamente olhavam as estrelas, colocavam paus de lenha na fogueira, tiravam as hipóteses:
            - Os anjos poderiam vir sem demora e nos premiar. Esperamos há séculos.
            - E hoje não vai chover.
            - Já estamos maduros para recebê-los.
            - Boa vontade e esperança não nos faltam.
            - Quem sabe já estejam entre nós. Diluídos ou encantados ou disfarçados em luzes, ou pedras, ou plantinhas, ou joaninhas.
            - O homem terráqueo já cresceu, já cresce, sempre crescerá.
            - Nossos tios lá do cosmo profundo sabem disso e nos abençoam.
            - As verdades soam como versos.
            - Se nossos irmãos das galáxias chegarem hoje, nós seremos muito mais felizes.
            - Ah, gente! Quero ser teleguiada, teletransportada, abduzida, amém.
            Alice já ficou sabendo que o paraíso presta mesmo, e decidiu. Que que Alice decidiu? Tutuca nas mãos de Marcelle e Marcelle de mão dada com Alice. Alguém plantando mandioca, alguém olhando, alguém sentado na grama, alguém tomando chá na sombra, alguém olhando, alguém olhando, alguém apreciando guabirobas, alguém abriu muito os olhos e nunca se viu olhos tão cintilantes, alguém olhando, alguém olhando sem parar, alguém olhando sem precisar dizer adeus.
E o horóscopo falara e dissera à Alice que o sol estava como mico-leão-dourado, a lua como aquário, os nativos do tempo teriam mais sorte, o amor seria divertido, o mascote da semana a martinta-pereira, a força da terra e da água muito positivas no astral, dias muito bons para realizar viagens ou andanças e promover mudanças de espírito, caapora ente da magia, viver seria todo dia e qualquer dia que se procurasse.
            Alice criou o ir de uma vez. Ir para onde. Ir para Araçatuba? Ir para a serra da Bodoquena? Ir para Belém, bairro Caruará?
            Marcelle crescera cinco centímetros, eram nove de julho, as abelhas e os zangões zumbiam, as três pararam no alto da duna e olharam para trás, os bem-te-vis-de-bico-largo diziam bentevi! bentevi!... os sapos coaxavam, alguém ficava em casa e sem palavras, alguém estava até muito tolerante, as pombas-rolas rulavam e arrulhavam, o gavião-carijó piava, as gaivotas e os atobás pousavam nas pedras.
E a cascata do filhote de rio subia o paredão, as folhas das árvores miavam, mugiam, baliam. Um homem tocava flauta doce e olhava. Passava muito pouco das nove horas. Alice, Marcelle e Tutuca não voavam e não corriam e passavam juntas já das nove horas. Talvez já com saudades divididas. E se expandiram para a cidade grande. E saíram da aldeola, e foram sonhar noutro lugar, buscar noutro lugar, pescar noutro lugar, remar noutro lugar.

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