terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Vampiro Sem Bagagem (juvenil)



           
            Agora estamos aqui, embarcados neste mesmo planeta Terra, e ele é redondo e está girando. Amanhã poderemos andar por outra galáxia.
            Esta história é do outro lado do mundo.
            Era sempre inverno e mês de junho. Dias de chuva, dias de vento frio, dias de frio perto de zero grau e chuva fina. O dia encharcado.
            E Lilás estava com dez anos e a pele toda lilás como seu nome já diz. E Lilás como lilás nunca se viu.
            Naquela tarde fria e chuvosa, a menina Lilás estava ensaiando o casamento caipira no colégio. Ela e toda a turma numa bagunça sociável razoável.
            A professora Corema explicava e continuava explicando até com paciência, uma vez:
            - Tudo bem meninas e meninos!... Agora, voltem... Assim, e outra vez...
            A Lilás e a professora ficaram para trás, cerrando as janelas e as portas do auditório. Saíram juntas pelo portão dos fundos do colégio, os guarda-chuvas balançando ao vento, e o vigia noturno desejou um "boa noite e até amanhã".
            Na esquina a professora parou, as duas pararam um nada de segundos para se despedirem como sempre faziam:
            - E tchau!
            - Tchau, profe!
            Poças de água, dia sempre assim chovendo, noite antecipada, rua deserta àquela hora e molhada campeada pelo vento minuano.
            A professora desceu a rua Paracambi. A menina pegou a travessa Itatiaia, puxou um passo e chegou na rua Placidina de Araújo. Esta a rua da menina Lilás. Mais uma quadra duas quadras e estaria no quentinho de casa.
            - Pode ser chocolate quente, pipocas sabor chocolate, torta de chocolate, bolachinhas de chocolate... hum! - todo o pensamento chocolate da menina para quando chegasse no quentinho.
            A noite já estava muito próxima. E de repente, Lilás se viu na rua sem ninguém por perto e meio no escuro. Palmeiras molhadas, pindobas-do-sul na neblina. Caminhando pela calçada, olhou de um lado e não viu alma se mexendo, olhou do outro e não viu ninguém. Os pontos de luz dos postes mal iluminavam debaixo da chuva e da neblina.
            - Nossa, meu! Que dia perto da noite - falou Lilás consigo mesma e já arrepiando o couro cabeludo.
            A menina sentiu frio e desconforto. Pensou em correr mesmo com o receio de escorregar na lajes molhadas da calçada ou nos paralelepípedos do calçamento. Eram duas quadras e meia e não havia gente na rua. Foi andando.
            Abriu o celular para contatar com os parentes, etc. Discando o número e caminhando, uma mão no telefone e outra segurando o guarda-chuva, a mochila pesando no ombro, ela olhou para trás e viu um cachorro dos grandes. A guria se arrepiou toda.
            Apressou o passo olhou para trás e quando ia levar o telefone ao ouvido o aparelho escorregou e caiu no bueiro, bem justo no bueiro.
            - Ah!... Essa não, meu!
            Não queria perder tempo não podia perder tempo. Olhou para trás e o cachorrão vinha vindo lentamente ao seu encontro. Devagar e sempre. A cabeça baixa e a cauda em pé, pronto para atacar. Não conhecia o bicho. Devia ser um vira-lata faminto. "Deve ser um cão bandido perigoso raivoso", pensou ela.
            Mesmo esticando o braço para dentro da grade do bueiro, não conseguiu alcançar o celular. E o cão vinha vindo devagar e curioso e molhado. Língua de fora, os dentes todos arreganhados, vaporzinho saindo na respiração.
            A menina ainda ficou na dúvida, se corria ou se esperava o bicho pegar:
            - Tento o celular com risco de ser mordida ou disparo pra casa que lá é quente? - se perguntou.
            A Lilás decidiu salvar a própria pele. Na corrida olhou para trás e o cão também começou a andar no mesmo trote. E sempre na perseguição. Parecia rir da menina.
            Naturalmente, Lilás estava de olho bem arregalado, os lábios tremendo, os dentes batendo, o coração pisando os pés molhados. O cão próximo demais e de olhos fora da cabeça.
            - Que que... eu faço nessa hora, minha nossa! - desabafou a menina.
            De repente se ouviu um assobio forte. Lilás olhou para trás já com muito pavor e não viu mais o monstro canibal. Continuou correndo até em casa e se atirou na porta chamando pelos parentes o corpo de bombeiros a polícia o escambau.
            Os olhos arregalados, a boca aberta, os cabelos revoltados, roupa e tênis molhados, cachorro molhado, noite molhada.
            - Não senti medo nenhum, que esperança!
****               
            Pelo fixo da família, Lilás contou tudo em detalhes para as amigas as amigas. O que tinha acontecido e nem ela sabia explicar. O que era e não era. Mas tinha passado muito medo e pavor e horror? Foi o que foi e um baita susto.
            - Olha, eu corri tanto e como nunca me vi correndo... O cão enorme atrás de mim como um lobisomem dos grandes e babando. Eu me apavorei, etc. Perdi o celular, perdi o guarda-chuva, etc. O cão parecia faminto de uma semana, meu! Um arrepio sem ser de frio. Quase caí na esquina quando pisei uma laje solta da calçada molhada. Eu olhava pra trás e fui esbarrar com tudo na traseira duma camionete estacionada com placa de Tutoia. Se tivesse caído o cachorro teria me alcançado e me mordido a perna os braços etc. Juro que foi uma aventura de perder o fôlego.
            E mais dentro da noite, Lilás não conseguiu dormir de luz apagada. E ficou rolando na cama. Tentou se iludir com tevê, foi no facebook, no twitter, no you tube, leu quadrinhos cômicos, etc., mas o pensamento sempre voltando para o cachorro. Nada de conseguir dormir até de manhã.
            - Quem que dorme, meu?!
****   
                        Cedo, manhã bem cedo, o mundo uma geladeira, Lilás saindo como sempre apressada para a aula, passando pelo mesmo lugar, olhou a rua e não viu cachorro algum, a ponta do cachecol conforme o vento e a chuva, espiou o bueiro e não viu mais o telefone.
            - A água da chuva já deve ter levado embora, paciência - pensou alto a menina. Essa hora tá boiando lá no rio Retiro.
            A chuva fina caía sobre a cidade, e seus habitantes tiritavam de frio. Dia aquoso, sombrio, ninguém pela rua, poucos automóveis molhados (e emplacados em Turiaçu, Cotiporã, Mauriti, Caldas Novas), pessoas em casa espiando pelas janelas, pessoas em compota. O vento assobiava e balançava a galharia, agitava as folhas das pitombeiras junto ao meio-fio.           
            E Lilás contando para as amigas e as colegas já na sala de aula o fato acontecido e o fato um pouco ridículo:
            - Aí, eu estava na calçada da rua e não via mais ninguém, gente! Noite inteira e total!  Pensei: o que fazer ou não fazer? Bem, decidi ir andando e olhando pra todo lado pra ver se não vinha gente estranha, gente suspeita, gente bêbada, né?!, e telefonar avisando, "tô chegando".
            - Estava tudo escuro muito escuro escuridão? - perguntou a Rê.
            - Muito escuro e com chuva caindo tudo molhado tudo nublado fechado a noite completa e antecipada.
            - E você estava sozinha na rua e mais ninguém? - preocupada, a Pérola.
            - Então, fui caminhando e ouvindo meus passos na calçada, toque! toque!... Era até engraçado. A chuva era fina e molhada e fazia tanto frio que estava já a zero grau.
            - Por que você não foi correndo de uma vez?
            - Achei que não precisava ter tanto medo assim. Depois o guarda-chuva e a mochila eram uns pesos pesados pra correr. E foi aí que eu senti algo ou alguém me olhando me vigiando me espreitando me seguindo. Olhei pra todo lado... Cara!, quando eu me viro e olho pra trás... um cachorro pastor alemão de coleira vermelha me farejando me cuidando me encarando com carranca de poucos amigos e sem falar nada, quer dizer, sem latir, só me cuidando de longinho, só mostrando a boca cheia de dentes pontudos. Fiquei dura de frio, meu!
            - Se apavorou, se espantou - comentou a Esmeralda.
            - Com muito terror e com vontade de fazer xixi na hora. Mas não tive ânimo de pensar muito, não.
            - E não pediu socorro, não gritou?
            - Na hora só pensei em me evaporar.
            - E daí? Conte mais.
            - Bem, daí que eu ia telefonar e o telefone justamente caiu no buraco do bueiro. Uma falta de azar, meu!
            - E você começou a correr...
            - Foi aí que vi o tal pastor alemão de coleira vermelha vindo na minha direção e com vontade de me pegar. Deixei o telefone que fizesse bom proveito e me mandei. Na correria a mochila pesava mais que um caminhão carregado de areia e eu quase escorreguei três quatro vezes.
            - O cachorro não te alcançou?
            - Acho que não quis me alcançar. Nessa altura que ouvi uns assobios e olhei pra trás e não vi mais cão nenhum. Cheguei em casa nas últimas de tão cansada. O coração acelerado, as pernas fracas, o corpo tremendo. Abri o portão arrombei a porta e vomitei.
            - Ah... o quê?! - as colegas resmungaram e fizeram caretas de nojo.
            - Vomitei do corredor até o banheiro. Não pude segurar. Foi tudo mais forte do que eu. Todo o lanche da tarde com o quindim bem amarelo. E parecia meio verde, meio amarelo, etc.
            Uma das colegas, maravilhada com a aventura de Lilás, disse:
            - Mas que assobio você ouviu? Isso eu não entendi. A menos que...
            - Sei lá. Deve ter sido o amigo do cão, o dono do cachorro. Ou foi o vento frio? Acho que foi isso. Depois do assobio o cão de coleira vermelha sumiu do mapa. Se não fosse o chamado do assobio, o cachorro teria me mordido.
            - É, tudo leva a crer que se trata de um lobisomem e de um vampiro! - falou a Esmeralda.
            - Ah... o quê?! - as outras meninas se espantaram com a ideia da Esmeralda.
            - Esmeralda! Que história essa que você tá dizendo? Lobisomem e vampiro de quê, de onde, de como, de por quê, onde se viu?! Ah, invente outra mais nova! Essa já tem no cinema.
            - É, Esmeralda! Você tá levando em conta coisa da sessão da meia-noite.
            - Não, não é coisa de filme. É coisa vera. Os lobisomens e vampiros e zumbis e sacis estão soltos por aí e prontos pra atacar as pessoas inocentes e indefesas, é. Ou vocês pensam que esses tais não existem? Hein?!
            - Não acredito e não aceito - disse Rê - Agora todo mundo tá com essa mania de sanguessuga.
****
                        Passou o dia com horas de relógio. Passou por passar a longa noite e demais a demais. Ventos fortes de inverno sacudiam e faziam ranger as begônias-sangue, as avencas-da-terra, as marias-pretas, as jataís, as perobas-café e assim por diante todas as árvores nas ruas nos jardins e nas praças. As rãs-pimentas coaxavam por onde escorria a enxurrada.
            Lilás achava placas de carro na rua e colecionava nomes de cidades. Entendia isso engraçado interessante e procurava na internet. Nomes de cidades, Itajubá, Atalaia, Itaporanga d'Ajuda, Japaratuba, Piancó, Queluz, Aporé. Era um brinquedo um recreio um divertimento do pensamento da menina encontrar os lugares das cidades. Quanto mais longe a cidade, mais pontos.
            Naquele outro dia, feriado municipal, janela do quarto da menina fachada por causa do frio da chuva do vento. O dia escorrendo água pelas paredes.
            Lilás se olhava no espelho, muito amando sua imagem, etc., aprovando a formosura, sempre com a mania de desviar os cabelos dos olhos. De todo jeito, de lado de costas de frente olhos nos olhos talvez o nariz fosse pequeno demais quem sabe cortar as pontas dos cabelos.
            Ali pelas nove, por exemplo, foi até a janela de vidro fechada e espiou a rua... Não pôde acreditar... Quase caiu sentada no chão, estremeceu, as pernas cansaram de repente, quase caiu de cara na parede, os joelhos procuraram se dobrar por si, quase caiu de costas, tossiu afobada:
            - Que... que... o ca-chor-ro!
            A menina reconheceu, no meio da rua no meio do chuvisco, o mesmo cão de coleira vermelha encontrado naquela noite de pesadelo. O cão sentado na calçada e olhando fixamente para a sua janela. Olhando para ela Lilás com mil e duzentos olhos acesos.
            - Agora eu não posso nem mais sair de casa, meu?!
            E os dois ficaram por momentos se mirando como se nunca tivessem se visto. A menina gelada de medo e de pavor e de horror o coração batendo em triplo, o cão apenas olhando sem mais nada.
            - Não pode ser, cara!
            Lilás conseguiu se libertar daquele hipnotismo feroz e abandonar a janela cerrar a cortina e se entocar debaixo das cobertas. E ficou ali dura de frio as pernas encolhidas rezando em voz alta:
            - Meu Deus do céu e da terra, me escute e me olhe e me ajude... hoje agora neste momento sempre difícil... não quero glorias dinheiro homenagens viagens... só quero me livrar desse pesadelo de cachorro... - e assim por diante ela orou.
            Um pouco de tempo depois ela ouviu um assobio. Rezou mais um pouco e com muita vontade olhos bem fechados concentrada com fervor.
            Fez sinal da cruz e se levantou. Foi e espiou pela fresta da cortina. O cão havia sumido. E mais dois ou três assobios misteriosos vindo de longe de onde. A rua Placidina de Araújo novamente deserta molhada abandonada.
            - Que solidão, meu!
            Botou a mão no peito e sentiu o coração a mil milhão. Os cabelos ainda em pé arrepiados a pele arrepiada as orelhas quentes as mãos frias. Ficou com vergonha de pedir socorro. Ligou a tevê, ligou o computador, etc., caminhou de um lado para outro do quarto. Não conseguiu abrir um caderno um livro para estudar. O coração trepidava sem controle.
            E o dia foi longo cheio de sustos e desconfortos e solidão. Uma coisa não entendia:
            - Por que logo eu?!
****
            Pela altura das últimas treze horas, Lilás saiu depressa para não chegar tarde ao ensaio no colégio. E por que não parava de chover? Um guarda-chuva ilustrado numa mão e mochila verde nas costas. As perobas-de-goiás molhadas pingando comovidas. A rua lavada e automóveis estacionados na rua com placas de Gurupi e de Patrocínio e de Barra do Corda e nada de cachorros e nada de cães e nada de guaipecas, ainda bem.  
            No ensaio do bailinho para a noite de São João, Lilás e as melhores amigas estavam todas dançando e se rindo e passando o tempo muito alegres e satisfeitas e saltitantes, etc., e se exibindo para os melhores amigos. Todas queriam dançar com o Miguel por causa dos seus olhos verdes e seu cabelo de propósito rebelde. Faziam fila e se empurravam gostosamente. 
            Diante das melhores amigas e colegas de colégio Onze de Agosto, Lilás se explicou se explicou:
            - Sabe, gente! Eu fiquei assombrada, mãos geladas e até ouvi vozes. Fiquei péssima. Fiquei congelada de frio e com dor de cabeça.
            - E era o mesmo lobisomem, você viu, tem certeza? - perguntou a Pérola.
            - Com certeza que era o mesmo cachorro, e era pois tinha coleira vermelha.
            - Ele latiu, resmungou, uivou, falou, te hipnotizou? - quis saber a Rê.
            - Me encarou ficou me encarando com os olhos vermelhos de raiva.
            - Com certeza, um cão comum é diferente de um lobisomem sedento de sangue.
            - E os assobios de onde e de quem vieram?
            - Não sei de onde vieram nem de quem partiram. Só sei que os assobios assobiaram e o cachorro sumiu. Devem ter sido do dono.
            - E o dono é o vampiro.
            - Sei lá, né, cara!
            - Tem mistério por aí!
            - Muita emo.
            - Mas isso precisa ser investigado e esclarecido - sugeriu a Esmeralda.
            - Chocante: "As aventuras de Lilás e o lobisomem de coleira vermelha".
            - Quem diria!
            - Estamos diante de um mistério e que não é pequeno!           
            Mas tinha um garoto muito tímido no fundo da sala e que só tinha olhos para admirar Lilás. Nem tentava disfarçar que estava muito ciumento apaixonado. Cem vezes olhou a menina Lilás com todos os olhos dele amorosos. Nem gostava dos guris nem gostava das outras gurias, só olhava e admirava e admitia a Lilás.
            O garoto não aguentou mais aquela miséria de não poder dançar com Lilás, de não ter chance de dançar com a menina. Pegou e ergueu mais a gola do capotão e saiu fora, foi porta afora, se mandou, foi se esconder bem longe. Desceu as escadas quase correndo e chegou à rua Placidina de Araújo. A chuva ao redor de tudo ao redor do colégio. Um cão de coleira vermelha saiu das sombras molhadas de um araticum-grande e veio cheirar seus tênis. O garoto, sem nada cobrindo a cabeça recebendo toda aquela chuva, falou com o cachorro:
            - Vamos pra casa, Tupari, que lá é um lugar quente...
****
            Era outro dia completamente melequento. Amanheceu chovendo de novo. Chovia uma chuva fria e fina e péssima para obrigar as pessoas e os bichos a usar guarda-chuva. Boa para usar galocha capote japona capa de chuva igarité. O vento minuano carregando pessoas com guarda-chuva e tudo.
                        Com novas coisas na cabeça, Lilás decidiu ir até a Biblioteca Pública buscar mais informações sobre mania de cães e de lobos.
            Chovia sempre como sempre naqueles dias. Chovia solto assim devagar moderadamente.
            O mundo tinha pouca cor pouca flor pouco passarinho e muita umidade no ar. As águas rolavam pela sarjeta. As arirambinhas piavam felizes nos alagados. Também as andorinhas trissavam na chuva, iam e vinham de um e outro lado da rua, de uma casa para outra, de uma aba para outra e sempre caçando qualquer coisa no espaço.
            No meio da rua, o inverno funcionando, Lilás pedalava com uma mão no guidão da bíci e outra no cabo do guarda-chuva. Pegou primeiro a rua Placidina de Araújo, lá mais à frente dobrou para a direita na rua Itanhandu. O guarda-chuva vacilava ao sabor do vento arisco e molhado.
            A rua Urupema com casas de um lado e casas do outro, carros estacionados com placas dos lugares. A coleção de placas da Lilás aumentava os sonhos de distância dia a dia cidade a cidade, Maratá, Jeremoabo, Capela, Araras, Corumbataí, Campanha, Barra do Piraí, Campo Belo, Joanésia. Ideias modernas de viajar. Um dia a menina sairia daqui e iria por aí para visitar essas cidades milagrosas e que hoje estavam distantes.
             Certa altura sentiu um arrepio na espinha. Um medo exagerado. Coração imenso batendo muito depressa. Botou o pé no chão e olhou para trás a fim de confirmar se estava sendo seguida.
            - Ora! Com toda certeza... tem alguém me seguindo. Eu sinto isso.
            A menina se arrepiou, enrugou a testa, os braços ficaram frios de repente, o corpo tremeu. Mas não comprovou nada, não viu ninguém suspeito, não percebeu nada de anormal.
            - Por que esse mistério?! - se lamentou.
            E prosseguiu mesmo assim, passando pela frente do parque Treze de Maio até alcançar a rua Pequeri. Ali, entrou na Biblioteca Pública Gonçalves Dias. Antes de subir a escadinha novamente olhou para trás... para os lados... o corpo trincado de calafrios... E não viu ninguém camuflado disfarçado nem sombra nem nada nem forma nenhuma de cachorro.
            Com a ajuga da bibliotecária Dona Pirambu, Lilás mexeu em diversos livros assuntos revistas procurando sobre lobisomens até vampiros ainda zumbis brasileiros.
            Havia dois tipos de lobo mania soltos na região ali da serra gaúcha:
            a) A primeira moda era dos que diziam sobre os que adoram muito cães selvagens e lobos em geral. E citavam o lobo-guará, o graxaim, o cachorro-do-mato-vinagre - nativos.
            b) A segunda moda, pelo contrário, dos que diziam que não preferem cães e lobos em geral mas adoram e prestigiam a totalidade dos gatos tartarugas porcos galinhas e passarinhos - exóticos.
            E a menina virou e revirou páginas folheou desfolheou refolheou livros outras informações curiosidades gibis pegou diversos livros para ler em casa e sossegada e no quentinho. Tinha um livro de aventuras que era "Cem Noites Tapuias", outro que era "A Montanha das Duas Cabeças", o terceiro que era "Os Segredos de Taquara-Poca", etc.
            - Vou ler a valer e um por dia, meu!
            A Lilás foi lendo e se perdendo na aventura da floresta cheia de ruídos de pássaros e onde as árvores eram muito altas e até gigantes. Lendo um livro e caminhando andando pelas trilhas da lenda como se tivesse vivendo no lugar nos acontecimentos e no corpo do personagem. Passava a página olhava atentamente a carreirinha de frase e as coisas saltavam vivas do livro pela imaginação da guria.
            Na volta para casa, Lilás pegou mais chuva e mais suspense. Entrou numa padaria e olhou as amostras de doces e salgados irresistíveis. Comeu pedaço de torta nega-maluca com suco de caju.
            - Isso sim são coisas importantes e recomendáveis - aprovou, limpando os lábios no guardanapo de papel.
            Na rua novamente, satisfação nos sentidos, pedalou um bocado, olhou para trás e... que emoção, que estardalhaço vindo do coração...
            - Mas olha! É um vampiro na chuva!
            A menina viu, parado num ponto da praça Itaoca, um menino de capote grosso de gola levantada. E olhando para ela muito paradão. Perto dele bem do lado dele o cachorro, o mesmo cão de coleira vermelha molhado e misterioso de sempre.
            - E gente! Tá lá o dono e seu cão, o cão e seu dono!
            Lilás abriu tanto os olhos que foi difícil segurar o coração dentro do peito.
            - A menos que...
            Toda arrepiada, da cabeça aos pés tremendo de frio, suando frio, coração apitando vermelho, a menina correu o que faltava pedalou barbaramente até chegar em casa e encontrar o quentinho do lar.
            O pensamento de Lilás ficou sempre mais devagar e lento. Não encontrou mais sossego. Tremia o queixo. Não podia pensar em cachorro não podia ver cachorro que se arrepiava. Tinha sustos a todo instante, seu corpo ficava elétrico, os pelos subiam nos braços, se contorcia toda eletrizada.
            - Que querem aqueles tipos, aquela dupla medonha! Quem era aquele tipo aquela figura na chuva? Só Deus sabe, meu!
            Imediatamente telefonou para a amiga mais próxima a Rê e contou tudo e com pormenores e muita paciência:
            - Eu tava voltando da bíblio, tá?!, quando olho pra trás... meu! Eram o garoto vampiro e o cão lobisomem! Eles formam uma dupla de super-heróis do além!
            - Você acha, Lilás?
            - Acho, tenho razão e tenho certeza.
            - Mas o que eles querem contigo, você sabe?
            - Talvez um segredo muito secreto.
            - E que segredo é esse, menina Lilás? Você esconde algum segredo confidencial? Pode se saber ou é segredo?
            - Ora, eu não tenho segredos. Nem fiz nada de secreto. Então, não sei que espionagem eles têm comigo!
****
            O dia vinte de junho chovia e já era uma outra quarta-feira. O vidro da janela do quarto embaçado, Lilás fazia corações e flechas, escrevia o próprio nome e outros nomes. Teve, como não, diversos pensamentos se atropelando no cérebro.
            Lilás sempre estava imaginando coisas. E às vezes ficava até muito ansiosa com isso.
            - O que meus olhos e meus ouvidos não me traem - resmungava sozinha diante do plano da vidraça.
            Onde estaria agora nessa hora o vampiro de gola levantada e seu cão fiel? Estariam andando na chuva, pegando gripe? Onde moravam? Será que viviam nas ruas e becos e bueiros alagados? O que será que eles queriam com ela, Lilás, hein?! A não ser que...
            O caso que, naqueles curtos dias e longas noites, chovia sempre e por qualquer motivo. Os morros da cidade ao redor de Nova Prata ondulados cobertos de plantas e fechados na cerração. As pessoas não queriam sair na rua. Quem saía se arrependia na hora. O vento fazia inclinar o risco da chuva. A memória do sol se escondia dia a dia dentro das pessoas.
            Lilás sempre quis sair de casa e conhecer o país e ir até o fim do mundo. Por isso, sem querer, colecionava placas de carro. Será que o fim do mundo era ali pertinho ou mais longe? E viajava pela internet procurando as localidades, Cruzeiro, Guaraciaba do Norte, Soledade de Minas, Carinhanha, Feira da Mata, Anajatuba. E quanto mais longe mais motivos para viajar. Para ver se o mundo tinha fim, começo, fazia a curva.
            Na tarde chuvosa, mais ensaio no colégio, as amigas se encontram como sempre e como sempre comentam os acontecimentos. Os acontecimentos eram aqueles dos perigos caninos:
            - E eu fui na bíblio e na volta vi o cara vi o cachorro e juro que fiquei dura de frio, meu! - falava a Lilás.
            - Mas isso precisa ser investigado! Que que pensa que é esse carinha que fica te cuidando, hein?! - dizia a Esmeralda, de olhos arregalados.
            - Ele deve mandar no cachorro. E manda o cachorro te seguir, é - disse a Pérola, toda nervosa e esfregando as mãos.
            - Não deve ser da turma, nem do bairro, senão você o teria reconhecido, certo?! - completou a Rê, já enxugando o nariz molhado.
            - É, amanhã a gente vai procurar saber quem é o tipo e onde se esconde - falou a Pérola.
            A Lilás tentava se desculpar com o que não sabia nem fazia ideia muito menos sentido. Tudo era cada vez mais assustador ou amedrontador:
            - Mas como, gente! Eu não fiz nada de mal pra ninguém!
            - Será que ele quer te namorar e tem vergonha de se aproximar?
            - É uma!
            - Chocante.
            Lilás pensou bem, botou a mão no queixo e disse, meio rindo meio séria, sei lá:
            - Por tempo e prazo de validade eu até posso pensar no mistério dele.
            - Mas fique tranquila. Deve ser um bobo que pensa que é assustador, só isso.
            - Nós vamos ver de perto se tem olho vermelho, bafo de cebola paulista, dentes de plástico, ok?!
            - É isso aí. E amanhã mesmo. Confirmado?!
            As amigas riram muito e confirmaram com pulinhos para no dia seguinte investigar o caso do vampiro na chuva, ou do vampiro e o lobisomem na chuva, se sabe lá.
            - E por onde começar? Por onde começaremos? - queria saber a Esmeralda.
                        - Vamos investigar os maradores do bairro, um por um, começando pela minha rua Placidina de Araújo - disse Lilás.
            - Temos que descobrir se tem morador novo no bairro, se é vizinho novo, se é sinistro...
            - O nome dele de onde veio pra que que serve, etc.
            - Se tem cachorro de coleira vermelha que anda solto aí...
                        Em casa de noite e no quentinho, andando pelo quarto ao redor da cama, pensando no caso do vampiro na chuva, do lobisomem na chuva, pensando e se arrepiando, Lilás tinha o bicho carpinteiro. Não conseguiu dormir.
            - Isto não existe, meu!
            Ouviu uma coruja-buraqueira piar lá no buraco do campinho, não muito longe. A noite fria e chuvosa que demorava a passar. Espiou pela janela a rua e não viu nada de assustador, por enquanto. O chichiar da chuva caindo dentro da luz dos postes e o vento choramingando nas árvores molhadas.
****
            Na manhã seguinte, manhã baixa fechada nublada de frio e de chuva e de vento cortante, etc.
            Onde pousavam as borboletas, onde pousavam os beija-flores, onde pousavam as flores?
            Lilás pedalando em ziguezague, o cabo do guarda-chuva numa mão o guidão na outra. Ela ia investigar as casas da rua Placidina de Araújo e tentar descobrir a morada do vampiro na chuva do lobisomem na chuva.
            Sobre a rua deserta caía a chuva miúda fina rala. Sem parar. O vento cortava o rosto, ralava a pele.
            Parou, botou um pé no chão, olhou para todos os lados e não viu bicho estranho bicho do mato.
            - Tudo ainda é muito desconfortável - comentou ela com ela mesma.
            A guria estava perturbada. Pedalou mais, andou para cima e para baixo da rua até parar frente a um casarão antigo e abandonado e esquecido. Olhou em volta e não viu nada de gente e bicho e automóvel se movendo.
            - Bom, tá na cara!
                        Espiou a casa e quase virou picolé na chuva, quase morreu de susto... Numa janela do primeiro andar... um garoto olhava encantado para ela para ela Lilás. O garoto de capote com a gola levantada.
            Lilás já satisfeita ia saindo quando olhou outra vez para o casarão e... Desta vez o garoto já estava na sacada, debaixo da chuva que Deus mandava, sem nada na cabeça. O espanto da guria aumentou. No pátio também apareceu o cachorro, e parecia faminto. O cão espiava o garoto e também reparava nela, Lilás.
            Eles olhavam para ela e não faziam nada, nem falavam nem latiam nem gesticulavam. Ambos na chuva. O menino de gola erguida em pé na sacada, como o vampiro dos pesadelos. O cão de orelhas altas sentado sobre as patas traseiras, igual o lobisomem nos terrenos baldios dos pesadelos.
            Muito leve, magro, franzino mesmo, cicatriz no lado da testa, o garoto da sacada andava sem se mexer sem movimentar as pernas e os braços sem fazer esforço sem tocar em nada atravessando as paredes as vidraças não deixando rasto. Como se flutuasse. Um espírito.
            Lilás não se conteve mais:
            - Pelo amor de Deus!
            E disparou para casa - pois que lá era quente -, olhos secos bem arredondados, já perdendo o guarda-chuva na carreira.
                        No mesmo dia, mais à tarde, numa sala de aula qualquer do colégio Onze de Agosto, Lilás e as melhores amigas confabularam nervosamente eletricamente desajeitadamente:
            - Pois eu fui de bíci até lá no casarão e parei na frente do portão. Arrepiei, meu!
            - A casa está abandonada, tô certa?
            - Talvez. Aí, quem apareceu? O garoto. Por trás da vidraça da janela. E eu arrepiei mais.
            - Ele disse alguma coisa, jogou um beijo apaixonado, convidou você pra entrar, ficou contente em te ver, etc? - perguntou a Pérola.
            - Não piou. Fez pouco. Veio e parou na sacada, na chuva. Como se não bastasse o cão aparece no jardim e senta pra me olhar. E os dois me encararam sem essa nem mais aquela e...
            - Já sei, você se arrepiou.
            - Me arrepio só em pensar só em lembrar.
            - Então, o garoto vampiro e o cão lobisomem não são a mesma pessoa? Não são o mesmo zumbi?
            - Praticamente... não.
            - Você tentou falar com o vampiro na chuva?
            - Eu? Nem pensar! Arrepiei, meu!
****
            E Lilás colecionava placas de carros e todos os seus amigos sabiam e apoiavam e colaboravam. Era bom, ela gostava. Um passatempo como outro qualquer. Imaginava o lugar e ia na internet pesquisar. Os lugares do país onde ela pretendia morar um dia ou visitar ou veranear ou estudar, quem sabe: Itabaiana, Resende, Jacareí, Pé de Serra, Tremembé, Pindamonhangaba, Cambuquira. E quanto mais se viaja mais é preciso viajar.
            As meninas melhores amigas prepararam tudo para a invasão ao casarão. Sabiam por onde começar. E finalmente foram, ora essa!
            Pararam na frente, pararam na frente do portão da mansão abandonada.
            - Agora, gente? - perguntou uma.
            Olharam para baixo e para cima da rua Placidina de Araújo. Nada se movia, nada de novidade, ninguém para atrapalhar. Chovia uma garoa mínima de fazer mais frio e irritar a pele do rosto.
            - Ah!, gente, vamos entrar e pronto.
            Abriram o portão e entraram. Abriram assim. Empurraram o portão e invadiram. O portão de ferro rangeu. O jardim mal cuidado como um capoeirão uma quiçaça. O casarão sujo e mais ou menos azul descascado, por fora. Fecharam os guarda-chuvas. A porta da frente da casa trancada. Balão de vespas camoatins pendurado na aba. Deram a volta pelo lado direito até os fundos. Do lado da casa morava, e já fazia tempos, uma gigantesca carnaúba. Nada de gente nada de cachorro, o que era uma sorte ou não.
            - A casa está abandonada mesmo.
            - Vazia e mal cuidada.
            - Assombrada.
            - Isso dá azar, meu!
            O casarão estava escondendo algo ou alguém. Mas o quê e por quê?
            - Não somente misterioso como enigmático.
            Descobriram uma janela só encostada, forçaram e espiaram lá dentro. Tudo vazio, sem móveis, tudo sujo de poeira e mofo e teias de aranha e rastos de lagarto e pegadinhas de patinhas de lacraias, etc.
            Subiram no parapeito da janela e pularam para dentro.
            - Estou até toda arrepiada, gurias.
            - De repente o garoto ou o cachorro podem aparecer atrás de uma porta, né, gente?!
            - É uma.
            - Chocante.
            Foram andando meio juntas receosas na penumbra das peças e quartos e salas e corredores e escadarias abrindo portas. As meninas daquele jeito acanhadas ali pela casa estranha vazia alheia fechada, etc.
            - Se existe fantasma por aqui deve passar muito mal, pois não tem móveis, não tem nada, não tem bagagem.
            - Vampiro sem bagagem, né, meu?!
            - Falem baixo.
            Abriram a porta de um cômodo e foi que correram baratas por entre os pés das intrusas, que se assustaram, gritaram, se agarraram uma na outra e correram nervosas e confusas como as próprias baratas tontas. Correram para onde, estabanadas.
            Subiram pela escada até o primeiro andar. Os degraus rangiam vacilavam como se fossem se quebrar. A casa cheirava a qualquer coisa. Lá em cima foram pelo corredor, espiando aqui e ali, os quartos, entrando aqui e ali para bisbilhotar tudo, sempre pé ante pé...
            - Foi dessa janela, acho, que vi o garoto me olhando. Depois ele apareceu na sacada debaixo da chuva. O cão lá no jardim me vigiando...
            - Se o garoto está por aqui, por que não aparece? - quis saber a Rê.
            - Nunca vi algo assim como de fantasma...
            Lilás interrompeu a frase porque uma baita ratazana assustada correu pelos cantos assustando ela as meninas que gritaram que correram para fora dali. E continuaram a gritar, muito apavoradas, correndo escada abaixo, berrando a plenos pulmões que era para desabafar o susto, até que... mais um grande susto... deram de cara com um velho todo molhado da chuva de chapéu escorrendo água braços abertos óculos na ponta do nariz...
            - Que vocês estão fazendo aqui, gurias?! Não sabem que é propriedade particular?!
            As meninas assustadas assombradas descabeladas geladas pararam de súbito na frente do homem todas juntas agarradas eletrizadas. Demoraram para reconhecer, no homem de idade percorrida longa perdida, o seu Tonico da papelaria.
            - Que é isso, meninas?! Vocês me invadindo o casarão pra fazer artes? Quer que eu duvide?
            - Desculpa.
                        O seu Tonico respirou fundo procurou relaxar tentou acalmá-las e saber e entender melhor o porquê de tudo aquilo:
            - Contem o que vieram investigar, faz favor.
            As gurias se entreolharam e uma delas falou:
            - A gente pensou ver um garoto ali na sacada do primeiro andar, então, resolvemos entrar para conhecê-lo. Achamos que havia moradores...
            - Não, não tem ninguém morando aqui e já faz um tempo. Vocês devem ter percebido que está tudo abandonado e vazio. A última família que morou aqui faz já uns oito nove anos. Depois mais ninguém.
            - Não tem mais dono nenhum?
            O seu Tonico foi respondendo explicando abrindo caminho e levando as gurias para fora da casa. Trancou tudo outra vez e saíram na rua Placidina de Araújo.
            - Mas seu Tonico, por que a casa está fechada abandonada desocupada sem serventia?
            Seu Tonico parou na calçada, a chuva fina e sempre impertinente, olhou para as gurias, resolveu:
            - Vamos sair da chuva. A gente pode ir até a minha livraria e lá eu falo pra vocês da história dessa casa e da tragédia que houve ali. Pode ser?
            Na janela do primeiro andar do casarão - sem que ninguém da turma percebesse, sem que ninguém olhasse para trás -, apareceu o garoto. O mesmo garoto no casacão de gola erguida. Botou a cara na vidraça suja de poeira e olhou o pessoal saindo na chuva.
            Um cão apareceu do lado da piscina e olhou para o garoto na janela e depois para a turma indo embora. O pastor alemão de coleira vermelha e orelhas fitas olhou a rua olhou a janela sentando na grama molhada.
            Ninguém do pessoal viu essas coisas suspeitas, ninguém se arrepiou o suficiente para olhar para trás.
            O vento frio e úmido não parava de atacar. As ruas sempre molhadas, a chuva fina sem parar, as pessoas encapotadas e arqueadas debaixo dos guarda-chuvas, as casas sem graça, os autos com vidros embaçados emplacados em Patos de Minas, Maracaçumé, Formosa da Serra Negra, ali estacionados na beira da calçada.
            Na sua lojinha de quinquilharias, em frente do colégio, o seu Tonico Ajuru mostrou para as gurias uma porção de folhas do jornal semanário "Gazeta do Prata" onde o caso do menino era contado e recontado fotografado e com muitos detalhes. Foi resumindo o que sabia:
            - A família dos Oliveira morava ali na casa e há muito tempo. O menino Zezinho nasceu e se criou ali. Frequentou o mesmo colégio de vocês, o Onze de Agosto. Quando a tragédia ocorreu, o menino tinha a idade de vocês, dez onze anos.
            - Que que aconteceu com ele, seu Tonico?
            - Bem, era um dia de inverno como hoje. Chovia uma chuva fria e fina, como hoje. O menino era meio peralta, um pouco brincalhão, gostava de aventuras... tão me entendendo?
            - E mais o quê?
            - Há uma piscina no quintal e o menino  caiu nela e morreu. Só foram descobrir o garoto umas cinco horas depois. Já era o fim.
            - Não sabia nadar?
            - Sabia. Mas a piscina estava vazia e ele escorregou com o esqueite e bateu a cabeça. Foi horrível. Dá até pena em lembrar...
            Seu Tonico meio se emocionou e parou de falar, a voz um pouco rouca baixa a garganta travada. As meninas ficaram sérias, se entreolharam. Lilás lembrou de algo e peguntou:
            - E o cachorro?
            O seu Tonico se arrepiou:
            - Que cachorro você tá falando?
            - O cachorro de coleira vermelha do menino, talvez. Eu vi os dois juntos e na chuva. Tem um cachorro nessa história.
            O velho pensou um pouco, olhos fora dos óculos:
            - Bem, acho mesmo que o cachorro anda por aí. Se é um pastor alemão deve ser o mesmo cão, o cão da família Oliveira. É que a família, pai mãe avó e duas irmãs, traumatizadas com  o sucedido, pegaram e se mudaram da cidade, acho que até do Estado, foram e nunca mais voltaram. Se mudaram para longe. Mandaram rezar missas de sétimo e de trigésimo dia pela alma do guri e nem se despediram dos amigos. O cão Tupari ficou pra trás. Era o mascote do menino. É, deve ser isso. O cão Tupari resolveu ficar e guardar o menino.
            - O fantasma do menino - falou a Rê.
            Seu Tonico se arrepiou, esfregou as mãos, caminhou pela loja e concluiu:
            - O menino que você diz que viu, está morto. A menos que você tenha visto um fantasma. O cão não, esse anda mesmo por aí. Meio perdido, meio faminto.
            - Antes de virar também fantasma, né?! - achou a Rê.
            O homem arrumou os óculos no nariz vermelho, visivelmente emocionado, passou a mão nos cabelos poucos e brancos. Falou outra vez:
            - Vocês não eram nascidas. A tragédia do garoto Zezinho comoveu o bairro todo de São Cristóvão, etc. O colégio Onze de Agosto fez luto de três dias, etc. O caixão de madeira pintado de verniz coberto com todas as flores da jardineira, etc.
****
            Quinta-feira, manhã chuvosa e fria como todas do inverno rigoroso, Lilás pedalava pela rua Placidina de Araújo vestida na sua capa de chuva verde, o cabelo com as pontas molhadas sobrando do capuz.
            Foi quando o mundo pensou no vento, na chuva, no inverno de junho, etc. O mundo estava com excesso de umidade no ar. O vento impiedoso da rua sacudia descabelava abanava as asas das palmeiras ariri.
            Outra vez a menina aproveitou a tentação de espionar o casarão. Aí, ela parou em frente ao portão e olhou olhou. Se por acaso passou mais de um minuto foi muito e... Quem apareceu na janela do primeiro andar?
            - Que... que fantasma, meu!
           Lilás se arrepiou do começo ao fim, suas pernas e tudo mais começaram a tremer. Ficou muda da cintura para cima. Os olhos molhados querendo chorar. E saiu em disparada pedalando rumo de casa, que lá era quente.
            Na esquina parou a bíci, pôs o pé no chão, coração pesado e olhou para trás. O cão a vigiava lá bem em frente da mansão, sentado na calçada lavada, coleira preta no pescoço. A guria arrepiou.
            - Mas vai aonde, meu?!
****
            E o fantasma do vampiro na chuva e a presença faminta do lobisomem estão ainda aí, nessa mesma casa velha e abandonada. No inverno de junho ano após ano. Na mesma rua Placidina de Araújo, perto do colégio Onze de Agosto, na vizinhança das meninas melhores amigas.
            Quem quiser conferir que chegue na mesma rua no mesmo inverno e espie e arrepie.
            O mais importante e seguro, sempre, é ficar no quentinho do lar doce lar.
            É não olhar para trás.

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