Agora estamos aqui, embarcados neste
mesmo planeta Terra, e ele é redondo e está girando. Amanhã poderemos andar por
outra galáxia.
Esta história é do outro lado do
mundo.
Era sempre inverno e mês de junho.
Dias de chuva, dias de vento frio, dias de frio perto de zero grau e chuva
fina. O dia encharcado.
E Lilás estava com dez anos e a pele
toda lilás como seu nome já diz. E Lilás como lilás nunca se viu.
Naquela tarde fria e chuvosa, a
menina Lilás estava ensaiando o casamento caipira no colégio. Ela e toda a
turma numa bagunça sociável razoável.
A professora Corema explicava e
continuava explicando até com paciência, uma vez:
- Tudo bem meninas e meninos!...
Agora, voltem... Assim, e outra vez...
A Lilás e a professora ficaram para
trás, cerrando as janelas e as portas do auditório. Saíram juntas pelo portão
dos fundos do colégio, os guarda-chuvas balançando ao vento, e o vigia noturno
desejou um "boa noite e até amanhã".
Na esquina a professora parou, as
duas pararam um nada de segundos para se despedirem como sempre faziam:
- E tchau!
- Tchau, profe!
Poças de água, dia sempre assim
chovendo, noite antecipada, rua deserta àquela hora e molhada campeada pelo
vento minuano.
A professora desceu a rua Paracambi.
A menina pegou a travessa Itatiaia, puxou um passo e chegou na rua Placidina de
Araújo. Esta a rua da menina Lilás. Mais uma quadra duas quadras e estaria no
quentinho de casa.
- Pode ser chocolate quente, pipocas
sabor chocolate, torta de chocolate, bolachinhas de chocolate... hum! - todo o
pensamento chocolate da menina para quando chegasse no quentinho.
A noite já estava muito próxima. E
de repente, Lilás se viu na rua sem ninguém por perto e meio no escuro.
Palmeiras molhadas, pindobas-do-sul na neblina. Caminhando pela calçada, olhou
de um lado e não viu alma se mexendo, olhou do outro e não viu ninguém. Os
pontos de luz dos postes mal iluminavam debaixo da chuva e da neblina.
- Nossa, meu! Que dia perto da noite
- falou Lilás consigo mesma e já arrepiando o couro cabeludo.
A menina sentiu frio e desconforto.
Pensou em correr mesmo com o receio de escorregar na lajes molhadas da calçada
ou nos paralelepípedos do calçamento. Eram duas quadras e meia e não havia
gente na rua. Foi andando.
Abriu o celular para contatar com os
parentes, etc. Discando o número e caminhando, uma mão no telefone e outra
segurando o guarda-chuva, a mochila pesando no ombro, ela olhou para trás e viu
um cachorro dos grandes. A guria se arrepiou toda.
Apressou o passo olhou para trás e
quando ia levar o telefone ao ouvido o aparelho escorregou e caiu no bueiro,
bem justo no bueiro.
- Ah!... Essa não, meu!
Não queria perder tempo não podia
perder tempo. Olhou para trás e o cachorrão vinha vindo lentamente ao seu
encontro. Devagar e sempre. A cabeça baixa e a cauda em pé, pronto para atacar.
Não conhecia o bicho. Devia ser um vira-lata faminto. "Deve ser um cão
bandido perigoso raivoso", pensou ela.
Mesmo esticando o braço para dentro
da grade do bueiro, não conseguiu alcançar o celular. E o cão vinha vindo
devagar e curioso e molhado. Língua de fora, os dentes todos arreganhados,
vaporzinho saindo na respiração.
A menina ainda ficou na dúvida, se
corria ou se esperava o bicho pegar:
- Tento o celular com risco de ser
mordida ou disparo pra casa que lá é quente? - se perguntou.
A Lilás decidiu salvar a própria
pele. Na corrida olhou para trás e o cão também começou a andar no mesmo trote.
E sempre na perseguição. Parecia rir da menina.
Naturalmente, Lilás estava de olho
bem arregalado, os lábios tremendo, os dentes batendo, o coração pisando os pés
molhados. O cão próximo demais e de olhos fora da cabeça.
- Que que... eu faço nessa hora,
minha nossa! - desabafou a menina.
De repente se ouviu um assobio
forte. Lilás olhou para trás já com muito pavor e não viu mais o monstro
canibal. Continuou correndo até em casa e se atirou na porta chamando pelos
parentes o corpo de bombeiros a polícia o escambau.
Os olhos arregalados, a boca aberta,
os cabelos revoltados, roupa e tênis molhados, cachorro molhado, noite molhada.
- Não senti medo nenhum, que
esperança!
****
Pelo fixo da família, Lilás contou
tudo em detalhes para as amigas as amigas. O que tinha acontecido e nem ela
sabia explicar. O que era e não era. Mas tinha passado muito medo e pavor e
horror? Foi o que foi e um baita susto.
- Olha, eu corri tanto e como nunca
me vi correndo... O cão enorme atrás de mim como um lobisomem dos grandes e
babando. Eu me apavorei, etc. Perdi o celular, perdi o guarda-chuva, etc. O cão
parecia faminto de uma semana, meu! Um arrepio sem ser de frio. Quase caí na
esquina quando pisei uma laje solta da calçada molhada. Eu olhava pra trás e
fui esbarrar com tudo na traseira duma camionete estacionada com placa de
Tutoia. Se tivesse caído o cachorro teria me alcançado e me mordido a perna os
braços etc. Juro que foi uma aventura de perder o fôlego.
E mais dentro da noite, Lilás não
conseguiu dormir de luz apagada. E ficou rolando na cama. Tentou se iludir com
tevê, foi no facebook, no twitter, no you tube, leu quadrinhos cômicos, etc.,
mas o pensamento sempre voltando para o cachorro. Nada de conseguir dormir até
de manhã.
- Quem que dorme, meu?!
****
Cedo, manhã bem cedo, o
mundo uma geladeira, Lilás saindo como sempre apressada para a aula, passando
pelo mesmo lugar, olhou a rua e não viu cachorro algum, a ponta do cachecol
conforme o vento e a chuva, espiou o bueiro e não viu mais o telefone.
- A água da chuva já deve ter levado
embora, paciência - pensou alto a menina. Essa hora tá boiando lá no rio
Retiro.
A chuva fina caía sobre a cidade, e
seus habitantes tiritavam de frio. Dia aquoso, sombrio, ninguém pela rua,
poucos automóveis molhados (e emplacados em Turiaçu, Cotiporã, Mauriti, Caldas
Novas), pessoas em casa espiando pelas janelas, pessoas em compota. O vento
assobiava e balançava a galharia, agitava as folhas das pitombeiras junto ao
meio-fio.
E Lilás contando para as amigas e as
colegas já na sala de aula o fato acontecido e o fato um pouco ridículo:
- Aí, eu estava na calçada da rua e
não via mais ninguém, gente! Noite inteira e total! Pensei: o que fazer ou não fazer? Bem, decidi
ir andando e olhando pra todo lado pra ver se não vinha gente estranha, gente
suspeita, gente bêbada, né?!, e telefonar avisando, "tô chegando".
- Estava tudo escuro muito escuro
escuridão? - perguntou a Rê.
- Muito escuro e com chuva caindo
tudo molhado tudo nublado fechado a noite completa e antecipada.
- E você estava sozinha na rua e
mais ninguém? - preocupada, a Pérola.
- Então, fui caminhando e ouvindo
meus passos na calçada, toque! toque!... Era até engraçado. A chuva era fina e
molhada e fazia tanto frio que estava já a zero grau.
- Por que você não foi correndo de
uma vez?
- Achei que não precisava ter tanto
medo assim. Depois o guarda-chuva e a mochila eram uns pesos pesados pra
correr. E foi aí que eu senti algo ou alguém me olhando me vigiando me
espreitando me seguindo. Olhei pra todo lado... Cara!, quando eu me viro e olho
pra trás... um cachorro pastor alemão de coleira vermelha me farejando me
cuidando me encarando com carranca de poucos amigos e sem falar nada, quer
dizer, sem latir, só me cuidando de longinho, só mostrando a boca cheia de
dentes pontudos. Fiquei dura de frio, meu!
- Se apavorou, se espantou -
comentou a Esmeralda.
- Com muito terror e com vontade de
fazer xixi na hora. Mas não tive ânimo de pensar muito, não.
- E não pediu socorro, não gritou?
- Na hora só pensei em me evaporar.
- E daí? Conte mais.
- Bem, daí que eu ia telefonar e o
telefone justamente caiu no buraco do bueiro. Uma falta de azar, meu!
- E você começou a correr...
- Foi aí que vi o tal pastor alemão
de coleira vermelha vindo na minha direção e com vontade de me pegar. Deixei o
telefone que fizesse bom proveito e me mandei. Na correria a mochila pesava
mais que um caminhão carregado de areia e eu quase escorreguei três quatro
vezes.
- O cachorro não te alcançou?
- Acho que não quis me alcançar.
Nessa altura que ouvi uns assobios e olhei pra trás e não vi mais cão nenhum.
Cheguei em casa nas últimas de tão cansada. O coração acelerado, as pernas
fracas, o corpo tremendo. Abri o portão arrombei a porta e vomitei.
- Ah... o quê?! - as colegas resmungaram
e fizeram caretas de nojo.
- Vomitei do corredor até o
banheiro. Não pude segurar. Foi tudo mais forte do que eu. Todo o lanche da
tarde com o quindim bem amarelo. E parecia meio verde, meio amarelo, etc.
Uma das colegas, maravilhada com a
aventura de Lilás, disse:
- Mas que assobio você ouviu? Isso
eu não entendi. A menos que...
- Sei lá. Deve ter sido o amigo do
cão, o dono do cachorro. Ou foi o vento frio? Acho que foi isso. Depois do
assobio o cão de coleira vermelha sumiu do mapa. Se não fosse o chamado do
assobio, o cachorro teria me mordido.
- É, tudo leva a crer que se trata
de um lobisomem e de um vampiro! - falou a Esmeralda.
- Ah... o quê?! - as outras meninas
se espantaram com a ideia da Esmeralda.
- Esmeralda! Que história essa que
você tá dizendo? Lobisomem e vampiro de quê, de onde, de como, de por quê, onde
se viu?! Ah, invente outra mais nova! Essa já tem no cinema.
- É, Esmeralda! Você tá levando em
conta coisa da sessão da meia-noite.
- Não, não é coisa de filme. É coisa
vera. Os lobisomens e vampiros e zumbis e sacis estão soltos por aí e prontos
pra atacar as pessoas inocentes e indefesas, é. Ou vocês pensam que esses tais
não existem? Hein?!
- Não acredito e não aceito - disse
Rê - Agora todo mundo tá com essa mania de sanguessuga.
****
Passou o dia com horas
de relógio. Passou por passar a longa noite e demais a demais. Ventos fortes de
inverno sacudiam e faziam ranger as begônias-sangue, as avencas-da-terra, as
marias-pretas, as jataís, as perobas-café e assim por diante todas as árvores
nas ruas nos jardins e nas praças. As rãs-pimentas coaxavam por onde escorria a
enxurrada.
Lilás achava placas de carro na rua
e colecionava nomes de cidades. Entendia isso engraçado interessante e
procurava na internet. Nomes de cidades, Itajubá, Atalaia, Itaporanga d'Ajuda,
Japaratuba, Piancó, Queluz, Aporé. Era um brinquedo um recreio um divertimento
do pensamento da menina encontrar os lugares das cidades. Quanto mais longe a
cidade, mais pontos.
Naquele outro dia, feriado municipal,
janela do quarto da menina fachada por causa do frio da chuva do vento. O dia
escorrendo água pelas paredes.
Lilás se olhava no espelho, muito
amando sua imagem, etc., aprovando a formosura, sempre com a mania de desviar
os cabelos dos olhos. De todo jeito, de lado de costas de frente olhos nos
olhos talvez o nariz fosse pequeno demais quem sabe cortar as pontas dos
cabelos.
Ali pelas nove, por exemplo, foi até
a janela de vidro fechada e espiou a rua... Não pôde acreditar... Quase caiu
sentada no chão, estremeceu, as pernas cansaram de repente, quase caiu de cara
na parede, os joelhos procuraram se dobrar por si, quase caiu de costas, tossiu
afobada:
- Que... que... o ca-chor-ro!
A menina reconheceu, no meio da rua
no meio do chuvisco, o mesmo cão de coleira vermelha encontrado naquela noite
de pesadelo. O cão sentado na calçada e olhando fixamente para a sua janela.
Olhando para ela Lilás com mil e duzentos olhos acesos.
- Agora eu não posso nem mais sair
de casa, meu?!
E os dois ficaram por momentos se
mirando como se nunca tivessem se visto. A menina gelada de medo e de pavor e
de horror o coração batendo em triplo, o cão apenas olhando sem mais nada.
- Não pode ser, cara!
Lilás conseguiu se libertar daquele
hipnotismo feroz e abandonar a janela cerrar a cortina e se entocar debaixo das
cobertas. E ficou ali dura de frio as pernas encolhidas rezando em voz alta:
- Meu Deus do céu e da terra, me
escute e me olhe e me ajude... hoje agora neste momento sempre difícil... não
quero glorias dinheiro homenagens viagens... só quero me livrar desse pesadelo
de cachorro... - e assim por diante ela orou.
Um pouco de tempo depois ela ouviu
um assobio. Rezou mais um pouco e com muita vontade olhos bem fechados
concentrada com fervor.
Fez sinal da cruz e se levantou. Foi
e espiou pela fresta da cortina. O cão havia sumido. E mais dois ou três
assobios misteriosos vindo de longe de onde. A rua Placidina de Araújo
novamente deserta molhada abandonada.
- Que solidão, meu!
Botou a mão no peito e sentiu o coração
a mil milhão. Os cabelos ainda em pé arrepiados a pele arrepiada as orelhas
quentes as mãos frias. Ficou com vergonha de pedir socorro. Ligou a tevê, ligou
o computador, etc., caminhou de um lado para outro do quarto. Não conseguiu
abrir um caderno um livro para estudar. O coração trepidava sem controle.
E o dia foi longo cheio de sustos e
desconfortos e solidão. Uma coisa não entendia:
- Por que logo eu?!
****
Pela altura das últimas treze horas,
Lilás saiu depressa para não chegar tarde ao ensaio no colégio. E por que não
parava de chover? Um guarda-chuva ilustrado numa mão e mochila verde nas
costas. As perobas-de-goiás molhadas pingando comovidas. A rua lavada e
automóveis estacionados na rua com placas de Gurupi e de Patrocínio e de Barra
do Corda e nada de cachorros e nada de cães e nada de guaipecas, ainda bem.
No ensaio do bailinho para a noite
de São João, Lilás e as melhores amigas estavam todas dançando e se rindo e
passando o tempo muito alegres e satisfeitas e saltitantes, etc., e se exibindo
para os melhores amigos. Todas queriam dançar com o Miguel por causa dos seus
olhos verdes e seu cabelo de propósito rebelde. Faziam fila e se empurravam
gostosamente.
Diante das melhores amigas e colegas
de colégio Onze de Agosto, Lilás se explicou se explicou:
- Sabe, gente! Eu fiquei assombrada,
mãos geladas e até ouvi vozes. Fiquei péssima. Fiquei congelada de frio e com
dor de cabeça.
- E era o mesmo lobisomem, você viu,
tem certeza? - perguntou a Pérola.
- Com certeza que era o mesmo cachorro,
e era pois tinha coleira vermelha.
- Ele latiu, resmungou, uivou,
falou, te hipnotizou? - quis saber a Rê.
- Me encarou ficou me encarando com
os olhos vermelhos de raiva.
- Com certeza, um cão comum é
diferente de um lobisomem sedento de sangue.
- E os assobios de onde e de quem
vieram?
- Não sei de onde vieram nem de quem
partiram. Só sei que os assobios assobiaram e o cachorro sumiu. Devem ter sido
do dono.
- E o dono é o vampiro.
- Sei lá, né, cara!
- Tem mistério por aí!
- Muita emo.
- Mas isso precisa ser investigado e
esclarecido - sugeriu a Esmeralda.
- Chocante: "As aventuras de
Lilás e o lobisomem de coleira vermelha".
- Quem diria!
- Estamos diante de um mistério e
que não é pequeno!
Mas tinha um garoto muito tímido no
fundo da sala e que só tinha olhos para admirar Lilás. Nem tentava disfarçar
que estava muito ciumento apaixonado. Cem vezes olhou a menina Lilás com todos
os olhos dele amorosos. Nem gostava dos guris nem gostava das outras gurias, só
olhava e admirava e admitia a Lilás.
O garoto não aguentou mais aquela
miséria de não poder dançar com Lilás, de não ter chance de dançar com a
menina. Pegou e ergueu mais a gola do capotão e saiu fora, foi porta afora, se
mandou, foi se esconder bem longe. Desceu as escadas quase correndo e chegou à
rua Placidina de Araújo. A chuva ao redor de tudo ao redor do colégio. Um cão
de coleira vermelha saiu das sombras molhadas de um araticum-grande e veio
cheirar seus tênis. O garoto, sem nada cobrindo a cabeça recebendo toda aquela chuva,
falou com o cachorro:
- Vamos pra casa, Tupari, que lá é
um lugar quente...
****
Era outro dia completamente
melequento. Amanheceu chovendo de novo. Chovia uma chuva fria e fina e péssima
para obrigar as pessoas e os bichos a usar guarda-chuva. Boa para usar galocha
capote japona capa de chuva igarité. O vento minuano carregando pessoas com
guarda-chuva e tudo.
Com novas coisas na
cabeça, Lilás decidiu ir até a Biblioteca Pública buscar mais informações sobre
mania de cães e de lobos.
Chovia sempre como sempre naqueles
dias. Chovia solto assim devagar moderadamente.
O mundo tinha pouca cor pouca flor
pouco passarinho e muita umidade no ar. As águas rolavam pela sarjeta. As
arirambinhas piavam felizes nos alagados. Também as andorinhas trissavam na
chuva, iam e vinham de um e outro lado da rua, de uma casa para outra, de uma
aba para outra e sempre caçando qualquer coisa no espaço.
No meio da rua, o inverno
funcionando, Lilás pedalava com uma mão no guidão da bíci e outra no cabo do
guarda-chuva. Pegou primeiro a rua Placidina de Araújo, lá mais à frente dobrou
para a direita na rua Itanhandu. O guarda-chuva vacilava ao sabor do vento
arisco e molhado.
A rua Urupema com casas de um lado e
casas do outro, carros estacionados com placas dos lugares. A coleção de placas
da Lilás aumentava os sonhos de distância dia a dia cidade a cidade, Maratá,
Jeremoabo, Capela, Araras, Corumbataí, Campanha, Barra do Piraí, Campo Belo,
Joanésia. Ideias modernas de viajar. Um dia a menina sairia daqui e iria por aí
para visitar essas cidades milagrosas e que hoje estavam distantes.
Certa altura sentiu um arrepio na espinha. Um
medo exagerado. Coração imenso batendo muito depressa. Botou o pé no chão e
olhou para trás a fim de confirmar se estava sendo seguida.
- Ora! Com toda certeza... tem
alguém me seguindo. Eu sinto isso.
A menina se arrepiou, enrugou a
testa, os braços ficaram frios de repente, o corpo tremeu. Mas não comprovou
nada, não viu ninguém suspeito, não percebeu nada de anormal.
- Por que esse mistério?! - se
lamentou.
E prosseguiu mesmo assim, passando
pela frente do parque Treze de Maio até alcançar a rua Pequeri. Ali, entrou na
Biblioteca Pública Gonçalves Dias. Antes de subir a escadinha novamente olhou
para trás... para os lados... o corpo trincado de calafrios... E não viu
ninguém camuflado disfarçado nem sombra nem nada nem forma nenhuma de cachorro.
Com a ajuga da bibliotecária Dona
Pirambu, Lilás mexeu em diversos livros assuntos revistas procurando sobre
lobisomens até vampiros ainda zumbis brasileiros.
Havia dois tipos de lobo mania
soltos na região ali da serra gaúcha:
a) A primeira moda era dos que
diziam sobre os que adoram muito cães selvagens e lobos em geral. E citavam o
lobo-guará, o graxaim, o cachorro-do-mato-vinagre - nativos.
b) A segunda moda, pelo contrário,
dos que diziam que não preferem cães e lobos em geral mas adoram e prestigiam a
totalidade dos gatos tartarugas porcos galinhas e passarinhos - exóticos.
E a menina virou e revirou páginas
folheou desfolheou refolheou livros outras informações curiosidades gibis pegou
diversos livros para ler em casa e sossegada e no quentinho. Tinha um livro de
aventuras que era "Cem Noites Tapuias", outro que era "A
Montanha das Duas Cabeças", o terceiro que era "Os Segredos de Taquara-Poca",
etc.
- Vou ler a valer e um por dia, meu!
A Lilás foi lendo e se perdendo na
aventura da floresta cheia de ruídos de pássaros e onde as árvores eram muito
altas e até gigantes. Lendo um livro e caminhando andando pelas trilhas da
lenda como se tivesse vivendo no lugar nos acontecimentos e no corpo do
personagem. Passava a página olhava atentamente a carreirinha de frase e as
coisas saltavam vivas do livro pela imaginação da guria.
Na volta para casa, Lilás pegou mais
chuva e mais suspense. Entrou numa padaria e olhou as amostras de doces e
salgados irresistíveis. Comeu pedaço de torta nega-maluca com suco de caju.
- Isso sim são coisas importantes e
recomendáveis - aprovou, limpando os lábios no guardanapo de papel.
Na rua novamente, satisfação nos
sentidos, pedalou um bocado, olhou para trás e... que emoção, que estardalhaço
vindo do coração...
- Mas olha! É um vampiro na chuva!
A menina viu, parado num ponto da
praça Itaoca, um menino de capote grosso de gola levantada. E olhando para ela
muito paradão. Perto dele bem do lado dele o cachorro, o mesmo cão de coleira
vermelha molhado e misterioso de sempre.
- E gente! Tá lá o dono e seu cão, o
cão e seu dono!
Lilás abriu tanto os olhos que foi
difícil segurar o coração dentro do peito.
- A menos que...
Toda arrepiada, da cabeça aos pés
tremendo de frio, suando frio, coração apitando vermelho, a menina correu o que
faltava pedalou barbaramente até chegar em casa e encontrar o quentinho do lar.
O pensamento de Lilás ficou sempre
mais devagar e lento. Não encontrou mais sossego. Tremia o queixo. Não podia
pensar em cachorro não podia ver cachorro que se arrepiava. Tinha sustos a todo
instante, seu corpo ficava elétrico, os pelos subiam nos braços, se contorcia
toda eletrizada.
- Que querem aqueles tipos, aquela
dupla medonha! Quem era aquele tipo aquela figura na chuva? Só Deus sabe, meu!
Imediatamente telefonou para a amiga
mais próxima a Rê e contou tudo e com pormenores e muita paciência:
- Eu tava voltando da bíblio, tá?!,
quando olho pra trás... meu! Eram o garoto vampiro e o cão lobisomem! Eles
formam uma dupla de super-heróis do além!
- Você acha, Lilás?
- Acho, tenho razão e tenho certeza.
- Mas o que eles querem contigo,
você sabe?
- Talvez um segredo muito secreto.
- E que segredo é esse, menina
Lilás? Você esconde algum segredo confidencial? Pode se saber ou é segredo?
- Ora, eu não tenho segredos. Nem
fiz nada de secreto. Então, não sei que espionagem eles têm comigo!
****
O dia vinte de junho chovia e já era
uma outra quarta-feira. O vidro da janela do quarto embaçado, Lilás fazia
corações e flechas, escrevia o próprio nome e outros nomes. Teve, como não,
diversos pensamentos se atropelando no cérebro.
Lilás sempre estava imaginando
coisas. E às vezes ficava até muito ansiosa com isso.
- O que meus olhos e meus ouvidos
não me traem - resmungava sozinha diante do plano da vidraça.
Onde estaria agora nessa hora o
vampiro de gola levantada e seu cão fiel? Estariam andando na chuva, pegando
gripe? Onde moravam? Será que viviam nas ruas e becos e bueiros alagados? O que
será que eles queriam com ela, Lilás, hein?! A não ser que...
O caso que, naqueles curtos dias e
longas noites, chovia sempre e por qualquer motivo. Os morros da cidade ao
redor de Nova Prata ondulados cobertos de plantas e fechados na cerração. As
pessoas não queriam sair na rua. Quem saía se arrependia na hora. O vento fazia
inclinar o risco da chuva. A memória do sol se escondia dia a dia dentro das
pessoas.
Lilás sempre quis sair de casa e
conhecer o país e ir até o fim do mundo. Por isso, sem querer, colecionava
placas de carro. Será que o fim do mundo era ali pertinho ou mais longe? E
viajava pela internet procurando as localidades, Cruzeiro, Guaraciaba do Norte,
Soledade de Minas, Carinhanha, Feira da Mata, Anajatuba. E quanto mais longe
mais motivos para viajar. Para ver se o mundo tinha fim, começo, fazia a curva.
Na tarde chuvosa, mais ensaio no
colégio, as amigas se encontram como sempre e como sempre comentam os
acontecimentos. Os acontecimentos eram aqueles dos perigos caninos:
- E eu fui na bíblio e na volta vi o
cara vi o cachorro e juro que fiquei dura de frio, meu! - falava a Lilás.
-
Mas isso precisa ser investigado! Que que pensa que é esse carinha que fica te
cuidando, hein?! - dizia a Esmeralda, de olhos arregalados.
- Ele deve mandar no cachorro. E
manda o cachorro te seguir, é - disse a Pérola, toda nervosa e esfregando as
mãos.
- Não deve ser da turma, nem do
bairro, senão você o teria reconhecido, certo?! - completou a Rê, já enxugando
o nariz molhado.
- É, amanhã a gente vai procurar
saber quem é o tipo e onde se esconde - falou a Pérola.
A Lilás tentava se desculpar com o
que não sabia nem fazia ideia muito menos sentido. Tudo era cada vez mais
assustador ou amedrontador:
- Mas como, gente! Eu não fiz nada
de mal pra ninguém!
- Será que ele quer te namorar e tem
vergonha de se aproximar?
- É uma!
- Chocante.
Lilás pensou bem, botou a mão no
queixo e disse, meio rindo meio séria, sei lá:
- Por tempo e prazo de validade eu
até posso pensar no mistério dele.
- Mas fique tranquila. Deve ser um
bobo que pensa que é assustador, só isso.
- Nós vamos ver de perto se tem olho
vermelho, bafo de cebola paulista, dentes de plástico, ok?!
- É isso aí. E amanhã mesmo.
Confirmado?!
As amigas riram muito e confirmaram
com pulinhos para no dia seguinte investigar o caso do vampiro na chuva, ou do
vampiro e o lobisomem na chuva, se sabe lá.
- E por onde começar? Por onde
começaremos? - queria saber a Esmeralda.
- Vamos investigar os
maradores do bairro, um por um, começando pela minha rua Placidina de Araújo -
disse Lilás.
- Temos que descobrir se tem morador
novo no bairro, se é vizinho novo, se é sinistro...
- O nome dele de onde veio pra que
que serve, etc.
- Se tem cachorro de coleira
vermelha que anda solto aí...
Em casa de noite e no
quentinho, andando pelo quarto ao redor da cama, pensando no caso do vampiro na
chuva, do lobisomem na chuva, pensando e se arrepiando, Lilás tinha o bicho
carpinteiro. Não conseguiu dormir.
- Isto não existe, meu!
Ouviu uma coruja-buraqueira piar lá
no buraco do campinho, não muito longe. A noite fria e chuvosa que demorava a
passar. Espiou pela janela a rua e não viu nada de assustador, por enquanto. O
chichiar da chuva caindo dentro da luz dos postes e o vento choramingando nas
árvores molhadas.
****
Na manhã seguinte, manhã baixa
fechada nublada de frio e de chuva e de vento cortante, etc.
Onde pousavam as borboletas, onde
pousavam os beija-flores, onde pousavam as flores?
Lilás pedalando em ziguezague, o
cabo do guarda-chuva numa mão o guidão na outra. Ela ia investigar as casas da
rua Placidina de Araújo e tentar descobrir a morada do vampiro na chuva do
lobisomem na chuva.
Sobre a rua deserta caía a chuva
miúda fina rala. Sem parar. O vento cortava o rosto, ralava a pele.
Parou, botou um pé no chão, olhou
para todos os lados e não viu bicho estranho bicho do mato.
- Tudo ainda é muito desconfortável
- comentou ela com ela mesma.
A guria estava perturbada. Pedalou
mais, andou para cima e para baixo da rua até parar frente a um casarão antigo
e abandonado e esquecido. Olhou em volta e não viu nada de gente e bicho e
automóvel se movendo.
- Bom, tá na cara!
Espiou a casa e quase
virou picolé na chuva, quase morreu de susto... Numa janela do primeiro
andar... um garoto olhava encantado para ela para ela Lilás. O garoto de capote
com a gola levantada.
Lilás já satisfeita ia saindo quando
olhou outra vez para o casarão e... Desta vez o garoto já estava na sacada,
debaixo da chuva que Deus mandava, sem nada na cabeça. O espanto da guria
aumentou. No pátio também apareceu o cachorro, e parecia faminto. O cão espiava
o garoto e também reparava nela, Lilás.
Eles olhavam para ela e não faziam
nada, nem falavam nem latiam nem gesticulavam. Ambos na chuva. O menino de gola
erguida em pé na sacada, como o vampiro dos pesadelos. O cão de orelhas altas
sentado sobre as patas traseiras, igual o lobisomem nos terrenos baldios dos
pesadelos.
Muito leve, magro, franzino mesmo,
cicatriz no lado da testa, o garoto da sacada andava sem se mexer sem
movimentar as pernas e os braços sem fazer esforço sem tocar em nada
atravessando as paredes as vidraças não deixando rasto. Como se flutuasse. Um
espírito.
Lilás não se conteve mais:
- Pelo amor de Deus!
E disparou para casa - pois que lá
era quente -, olhos secos bem arredondados, já perdendo o guarda-chuva na
carreira.
No mesmo dia, mais à
tarde, numa sala de aula qualquer do colégio Onze de Agosto, Lilás e as
melhores amigas confabularam nervosamente eletricamente desajeitadamente:
- Pois eu fui de bíci até lá no
casarão e parei na frente do portão. Arrepiei, meu!
- A casa está abandonada, tô certa?
- Talvez. Aí, quem apareceu? O
garoto. Por trás da vidraça da janela. E eu arrepiei mais.
- Ele disse alguma coisa, jogou um
beijo apaixonado, convidou você pra entrar, ficou contente em te ver, etc? -
perguntou a Pérola.
- Não piou. Fez pouco. Veio e parou
na sacada, na chuva. Como se não bastasse o cão aparece no jardim e senta pra
me olhar. E os dois me encararam sem essa nem mais aquela e...
- Já sei, você se arrepiou.
- Me arrepio só em pensar só em
lembrar.
- Então, o garoto vampiro e o cão
lobisomem não são a mesma pessoa? Não são o mesmo zumbi?
- Praticamente... não.
- Você tentou falar com o vampiro na
chuva?
- Eu? Nem pensar! Arrepiei, meu!
****
E Lilás colecionava placas de carros
e todos os seus amigos sabiam e apoiavam e colaboravam. Era bom, ela gostava.
Um passatempo como outro qualquer. Imaginava o lugar e ia na internet pesquisar.
Os lugares do país onde ela pretendia morar um dia ou visitar ou veranear ou
estudar, quem sabe: Itabaiana, Resende, Jacareí, Pé de Serra, Tremembé,
Pindamonhangaba, Cambuquira. E quanto mais se viaja mais é preciso viajar.
As meninas melhores amigas
prepararam tudo para a invasão ao casarão. Sabiam por onde começar. E
finalmente foram, ora essa!
Pararam na frente, pararam na frente
do portão da mansão abandonada.
- Agora, gente? - perguntou uma.
Olharam para baixo e para cima da
rua Placidina de Araújo. Nada se movia, nada de novidade, ninguém para
atrapalhar. Chovia uma garoa mínima de fazer mais frio e irritar a pele do
rosto.
- Ah!, gente, vamos entrar e pronto.
Abriram o portão e entraram. Abriram
assim. Empurraram o portão e invadiram. O portão de ferro rangeu. O jardim mal
cuidado como um capoeirão uma quiçaça. O casarão sujo e mais ou menos azul
descascado, por fora. Fecharam os guarda-chuvas. A porta da frente da casa
trancada. Balão de vespas camoatins pendurado na aba. Deram a volta pelo lado
direito até os fundos. Do lado da casa morava, e já fazia tempos, uma
gigantesca carnaúba. Nada de gente nada de cachorro, o que era uma sorte ou
não.
- A casa está abandonada mesmo.
- Vazia e mal cuidada.
- Assombrada.
- Isso dá azar, meu!
O casarão estava escondendo algo ou
alguém. Mas o quê e por quê?
- Não somente misterioso como
enigmático.
Descobriram uma janela só encostada,
forçaram e espiaram lá dentro. Tudo vazio, sem móveis, tudo sujo de poeira e
mofo e teias de aranha e rastos de lagarto e pegadinhas de patinhas de
lacraias, etc.
Subiram no parapeito da janela e
pularam para dentro.
- Estou até toda arrepiada, gurias.
- De repente o garoto ou o cachorro
podem aparecer atrás de uma porta, né, gente?!
- É uma.
- Chocante.
Foram andando meio juntas receosas
na penumbra das peças e quartos e salas e corredores e escadarias abrindo
portas. As meninas daquele jeito acanhadas ali pela casa estranha vazia alheia
fechada, etc.
- Se existe fantasma por aqui deve
passar muito mal, pois não tem móveis, não tem nada, não tem bagagem.
- Vampiro sem bagagem, né, meu?!
- Falem baixo.
Abriram a porta de um cômodo e foi
que correram baratas por entre os pés das intrusas, que se assustaram,
gritaram, se agarraram uma na outra e correram nervosas e confusas como as
próprias baratas tontas. Correram para onde, estabanadas.
Subiram pela escada até o primeiro
andar. Os degraus rangiam vacilavam como se fossem se quebrar. A casa cheirava
a qualquer coisa. Lá em cima foram pelo corredor, espiando aqui e ali, os
quartos, entrando aqui e ali para bisbilhotar tudo, sempre pé ante pé...
- Foi dessa janela, acho, que vi o
garoto me olhando. Depois ele apareceu na sacada debaixo da chuva. O cão lá no
jardim me vigiando...
- Se o garoto está por aqui, por que
não aparece? - quis saber a Rê.
- Nunca vi algo assim como de
fantasma...
Lilás interrompeu a frase porque uma
baita ratazana assustada correu pelos cantos assustando ela as meninas que
gritaram que correram para fora dali. E continuaram a gritar, muito apavoradas,
correndo escada abaixo, berrando a plenos pulmões que era para desabafar o
susto, até que... mais um grande susto... deram de cara com um velho todo
molhado da chuva de chapéu escorrendo água braços abertos óculos na ponta do
nariz...
- Que vocês estão fazendo aqui,
gurias?! Não sabem que é propriedade particular?!
As meninas assustadas assombradas
descabeladas geladas pararam de súbito na frente do homem todas juntas
agarradas eletrizadas. Demoraram para reconhecer, no homem de idade percorrida
longa perdida, o seu Tonico da papelaria.
- Que é isso, meninas?! Vocês me
invadindo o casarão pra fazer artes? Quer que eu duvide?
- Desculpa.
O seu Tonico respirou
fundo procurou relaxar tentou acalmá-las e saber e entender melhor o porquê de
tudo aquilo:
- Contem o que vieram investigar,
faz favor.
As gurias se entreolharam e uma
delas falou:
- A gente pensou ver um garoto ali
na sacada do primeiro andar, então, resolvemos entrar para conhecê-lo. Achamos
que havia moradores...
- Não, não tem ninguém morando aqui
e já faz um tempo. Vocês devem ter percebido que está tudo abandonado e vazio.
A última família que morou aqui faz já uns oito nove anos. Depois mais ninguém.
- Não tem mais dono nenhum?
O seu Tonico foi respondendo explicando
abrindo caminho e levando as gurias para fora da casa. Trancou tudo outra vez e
saíram na rua Placidina de Araújo.
- Mas seu Tonico, por que a casa
está fechada abandonada desocupada sem serventia?
Seu Tonico parou na calçada, a chuva
fina e sempre impertinente, olhou para as gurias, resolveu:
- Vamos sair da chuva. A gente pode
ir até a minha livraria e lá eu falo pra vocês da história dessa casa e da
tragédia que houve ali. Pode ser?
Na janela do primeiro andar do
casarão - sem que ninguém da turma percebesse, sem que ninguém olhasse para
trás -, apareceu o garoto. O mesmo garoto no casacão de gola erguida. Botou a
cara na vidraça suja de poeira e olhou o pessoal saindo na chuva.
Um cão apareceu do lado da piscina e
olhou para o garoto na janela e depois para a turma indo embora. O pastor
alemão de coleira vermelha e orelhas fitas olhou a rua olhou a janela sentando
na grama molhada.
Ninguém do pessoal viu essas coisas
suspeitas, ninguém se arrepiou o suficiente para olhar para trás.
O vento frio e úmido não parava de
atacar. As ruas sempre molhadas, a chuva fina sem parar, as pessoas encapotadas
e arqueadas debaixo dos guarda-chuvas, as casas sem graça, os autos com vidros
embaçados emplacados em Patos de Minas, Maracaçumé, Formosa da Serra Negra, ali
estacionados na beira da calçada.
Na sua lojinha de quinquilharias, em
frente do colégio, o seu Tonico Ajuru mostrou para as gurias uma porção de
folhas do jornal semanário "Gazeta do Prata" onde o caso do menino
era contado e recontado fotografado e com muitos detalhes. Foi resumindo o que
sabia:
- A família dos Oliveira morava ali
na casa e há muito tempo. O menino Zezinho nasceu e se criou ali. Frequentou o
mesmo colégio de vocês, o Onze de Agosto. Quando a tragédia ocorreu, o menino
tinha a idade de vocês, dez onze anos.
- Que que aconteceu com ele, seu
Tonico?
- Bem, era um dia de inverno como
hoje. Chovia uma chuva fria e fina, como hoje. O menino era meio peralta, um
pouco brincalhão, gostava de aventuras... tão me entendendo?
- E mais o quê?
- Há uma piscina no quintal e o
menino caiu nela e morreu. Só foram
descobrir o garoto umas cinco horas depois. Já era o fim.
- Não sabia nadar?
- Sabia. Mas a piscina estava vazia
e ele escorregou com o esqueite e bateu a cabeça. Foi horrível. Dá até pena em
lembrar...
Seu Tonico meio se emocionou e parou
de falar, a voz um pouco rouca baixa a garganta travada. As meninas ficaram
sérias, se entreolharam. Lilás lembrou de algo e peguntou:
- E o cachorro?
O seu Tonico se arrepiou:
- Que cachorro você tá falando?
- O cachorro de coleira vermelha do
menino, talvez. Eu vi os dois juntos e na chuva. Tem um cachorro nessa
história.
O velho pensou um pouco, olhos fora
dos óculos:
- Bem, acho mesmo que o cachorro
anda por aí. Se é um pastor alemão deve ser o mesmo cão, o cão da família
Oliveira. É que a família, pai mãe avó e duas irmãs, traumatizadas com o sucedido, pegaram e se mudaram da cidade,
acho que até do Estado, foram e nunca mais voltaram. Se mudaram para longe.
Mandaram rezar missas de sétimo e de trigésimo dia pela alma do guri e nem se
despediram dos amigos. O cão Tupari ficou pra trás. Era o mascote do menino. É,
deve ser isso. O cão Tupari resolveu ficar e guardar o menino.
- O fantasma do menino - falou a Rê.
Seu Tonico se arrepiou, esfregou as
mãos, caminhou pela loja e concluiu:
- O menino que você diz que viu,
está morto. A menos que você tenha visto um fantasma. O cão não, esse anda
mesmo por aí. Meio perdido, meio faminto.
- Antes de virar também fantasma,
né?! - achou a Rê.
O homem arrumou os óculos no nariz
vermelho, visivelmente emocionado, passou a mão nos cabelos poucos e brancos.
Falou outra vez:
- Vocês não eram nascidas. A
tragédia do garoto Zezinho comoveu o bairro todo de São Cristóvão, etc. O
colégio Onze de Agosto fez luto de três dias, etc. O caixão de madeira pintado
de verniz coberto com todas as flores da jardineira, etc.
****
Quinta-feira, manhã chuvosa e fria
como todas do inverno rigoroso, Lilás pedalava pela rua Placidina de Araújo
vestida na sua capa de chuva verde, o cabelo com as pontas molhadas sobrando do
capuz.
Foi quando o mundo pensou no vento,
na chuva, no inverno de junho, etc. O mundo estava com excesso de umidade no
ar. O vento impiedoso da rua sacudia descabelava abanava as asas das palmeiras
ariri.
Outra vez a menina aproveitou a
tentação de espionar o casarão. Aí, ela parou em frente ao portão e olhou
olhou. Se por acaso passou mais de um minuto foi muito e... Quem apareceu na
janela do primeiro andar?
- Que... que fantasma, meu!
Lilás se arrepiou do
começo ao fim, suas pernas e tudo mais começaram a tremer. Ficou muda da
cintura para cima. Os olhos molhados querendo chorar. E saiu em disparada
pedalando rumo de casa, que lá era quente.
Na esquina parou a bíci, pôs o pé no
chão, coração pesado e olhou para trás. O cão a vigiava lá bem em frente da
mansão, sentado na calçada lavada, coleira preta no pescoço. A guria arrepiou.
- Mas vai aonde, meu?!
****
E o fantasma do vampiro na chuva e a
presença faminta do lobisomem estão ainda aí, nessa mesma casa velha e
abandonada. No inverno de junho ano após ano. Na mesma rua Placidina de Araújo,
perto do colégio Onze de Agosto, na vizinhança das meninas melhores amigas.
Quem quiser conferir que chegue na
mesma rua no mesmo inverno e espie e arrepie.
O mais importante e seguro, sempre,
é ficar no quentinho do lar doce lar.
É não olhar para trás.
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