A menina Lilás estava na praia da
Fonte, Guarapari, curtia o calor do sol, a areia branca e fina, comportamento
igual e semelhante a outros tantos banhistas, e brincava, brincava com um disco
de lançar.
Jogava o disco amarelo para lá, para cá, e ele voava,
retornava, revoava, voltava como bumerangue. Uma brincadeira que dava cócegas
de alegria e riso fácil na menina.
Numa dessas, a menina jogou o disco
de lançar e ele foi foi foi... fez a curva e retornou com força. Ela, então,
embarcou nele, em pé, e subiu no ar. Subiu no ar junto e embarcada no disco de
lançar. Navegou nas ondas dos ventos, nas correntezas dos ventos, foi para
frente, para trás, sob o céu azul e ensolarado, abriu os braços para se
equilibrar no ar, como fazem os tt.
Os ventos batiam na cara, arrepiando os longos
cabelos, esticando os cabelos como se fossem roupas no varal, como se fossem
bandeiras hasteadas batidas de vento. Sempre se tem ventos, fracos ou fortes,
mansos ou rápidos, assim ou assados, quentes, sudoeste, nordeste, ou não.
Ela ria de olho arregalado, ria de fazer lágrimas, ria
de olho estreitado, ria de boca aberta, ria sem pio ou mio. Os olhos dela que
valiam mais. Lá por baixo a geografia era um tapete desenhado e bordado, uma
colcha de retalhos, um papel riscado.
E a menina Lilás pensou rápido e
achou melhor dizer, afobada, de si para si:
- Ah!... que excitante. Ah!... que
excelente. Tô como os passarinhos, pois só os passarinhos podem tirar os pés do
chão. Nem acredito!
De lá de cima olhou as casas de
gente do tamanho das de cachorro, as árvores parecendo cogumelos, as ruas e
carros de brinquedo, muita coisa parecendo tudo do tamanho de formigas.
- Será a cidade de Jundiaí?
Olhou os ipeúnas de todas as cores possíveis
naturalmente, olhou a manhã e a tarde, ipês-amarelos encontrados perdidos
separados da multidão, olhou as horas, olhou o que mais, olhou a pessoa do sol,
os ipês-roxos nos parques e pastos e sítios e quintais.
- Não falei, não falei! É a praça Ipiranga!
E falou com voz bonita para as andorinhas curiosas:
- O que vim fazer aqui no alto?!
Via a renda da praia junto ao mar, e o mar, o mar
azul... Não cansou de ver mais alto e sempre mais longe o horizonte. As coisas
todas tinham outra beleza olhando assim do alto. O mar e o céu eram uma coisa
só, com um correto e reto e horizontal traço feito a lápis no horizonte. Dava
gosto reparar. O dia comum, nem sempre comum, um dia comum.
- Olha o pico dos Três Estados! O pico do Cristal!
Lilás voava daqui para lá... e de lá
para cá... deslizando no ar do azul do céu. Parecia, agora sim, como uma
irapurá, como uma gaviã-carijó, como uma abelha irapuã, como uma atobá-parda.
Ficou de ponta cabeça suspensa no ar, como se
estivesse plantando bananeira entre o azul do céu e o verde do mar, igual um t
de cabeça para baixo. Os cabelos caíram, ficaram abaixo do corpo, parecendo
raízes de capim. Depois se desvirou. Seria igual a pular de paraquedas ou
planar de asa-delta. Experimentou pôr o pé para fora do disco de lançar...
claro, não sentiu nada, não havia chão, só o ar invisível. Se arrepiou toda e
disse para si mesma, sempre numa voz bonita:
- Nossa!... Socorro!... Que sensação
de liberdade!... Nem acredito!
Num instante... opa!, quase dá uma
pechada na vidraça de um grande edifício. É que a vidraça refletia o céu azul,
e a menina pensou que era o mesmo céu azul por onde andava. São coisas que
acontecem.
- A cidade de Picada Café!
Era muito gostoso deslizar pelo ar.
E Lilás sentia... maravilhada... que era uma espécie de deusa, de panapaná, de
paina, de bom-é, de fura-barreira. Era outro mundo, outro ponto de vista. Não
se compara o quanto era bom olhar as árvores, os prédios, os parques assim por
cima. E voar ao lado e pertinho de aviões, e de curicacas... zuuum!... o vento
na cara não se compara a nada no mundo... zuuum!... maravilha.
- O rio Paraná, uma vez! Nem
acredito!
Ali por baixo o rio Paraná suave e
limpo e desenhado no chão, entre plantas e pedras e curvas e cascatas, sem
sombra, sempre deitado. O sol refletindo na água. Um rio que descosturava o
território.
A menina deu uma virada com o pé no
disco de lançar e foi para outros lugares, trocando de ares. Esquiava no azul
do céu, pegava ondas de vento, correntes quentes. Palmeiral, e cada palmeira
com seu cocar no tope. Pensou alto, na voz bonita:
- Ah!... pra onde tô indo agora? Um
lugar todo plantado de umiris todinhos meus, com certeza. Nem acredito!
Espiou lá para baixo e viu que a
região era típica de Brasília, planalto central, o oeste. Reconheceu largas
avenidas de asfalto, a esplanada dos ministérios, o congresso... zuuum!... o
palácio da Alvorada, a igreja de mãos postas... deu rasante no lago Paranoá,
zuuum!... assustando os papudinhos e as moscas d’água. Ali no lago era dia
nacional do barco a vela. Muitos barcos deslizando sobre a água, tocados por
velas coloridas de vermelho, verde, amarelo, lilás.
Deu outra virada com o pé no disco
de lançar e se desviou para outro ambiente. Pegou outra onda de vento, outra
geografia, outra carta, outro panorama, outra voz, outra pintura, outra
coreografia.
- Quem é Cururupu?
O que queria, o que pretendia, o que
pensava, o que sonhava a menina? Voava com o vento, como se tivesse asas nos
pés. E encontrou um habitante das alturas, um velho e esquisito urubu-rei.
Esse, vestido de preto e voando em círculos concêntricos, se chegou mais perto
dela e lhe aconselhou:
- Ei, você!... Acorde, menina!
- Sim! Que foi?
- Que tá fazendo aqui no alto? Está
perdida? Tua família sabe que você viaja sozinha por aí e por aqui?
- Tô dando uma voltinha, pensando na
vida. Quero respirar novidades, quero olhar as coisas do alto, quero viajar
pelo planalto aéreo. Nem acredito!
- Ora, essa meu! Gente tem que ficar
lá no chão, andando com os dois pés e as duas pernas esticadas! Cada
mono-carvoeiro no seu galho!
- Prometo que já desço.
- Te cuide, guria da voz doce e
bonita!
- Nem acredito!
E Lilás deu outra descaída com o pé
no disco de lançar e saiu da área reservada aos urubus-reis de plantão. Pegou
outra onda de vento, outro rumo, outra altura, mais uma topografia, outro mapa,
serra da Moeda, rio Paranhana, outra costura, zuuum!...
Num momento a menina encontrou um
grupo de nuvens que vinham se arrastando lentas e esgarçadas pelo céu. E dentro
dessas nuvens, meio camuflados, alguns besouros seminus. Pareciam zebelinhas,
iguais a abelhas ou zangões, e beija-flores ou cuitelos. Mas eram
besouros-verdes que gostavam de atacar as jabuticabeiras. Vestidos sempre de
verde completo e batendo asas grossas e finas pintadas de cores estilo
artístico.
Praticavam tiro ao alvo com seus arcos de guanandi e
flechas de emburana. Nas costas o cabaz de palha de palmeira jandaia cheio de
flechas. Era dia nacional dos besouros caçadores de corações. Uma turma deles
ali brincando de disparar flechas de namoro e de acertar flechas de
felizes-para-sempre. A menina chegou junto a um rechonchudinho, anteninhas
vibrantes, carapacinha pintada de verde limite, e perguntou-lhe:
- Distribuindo namoros, é?
- Um pouco - respondeu o inseto.
- Tem algum alvo pra hoje? Algum
novo amor pra amanhã?
- Sim, menina lilás da voz bonita.
Hoje vou arrumar um namoro para Peri. Peri amará Ceci pra todo o sempre. Um
romance bonito, coisa de jardim selvagem, coisa de pindorama.
- E Ceci vai também se apaixonar por
Peri?
- Quase na mesma hora. No futuro
será um amor muito grande. Serão felizes para sempre - besourou o coleóptero de
seis patas e muitas asas.
- É, o amor é lindo, o céu é
profundo, a floresta é verde e o mar é verde ou azul.
E a menina, modesta menina, menina
da voz confortável, da voz azul-clara, dos cabelos já despenteados, declarou
mais uma coisinha para o besouro das nuvens:
- E por fim... E passe bem, muito
obrigada. Até um dia. Nem acredito!
A menina ficou olhando o tipo alado
no seu trabalho de resolver amores. Era uma profissão delicada, complicada,
necessária, obrigatória, fundamental, prática.
E, de repente, o besouro-verde viu algo lá embaixo na
terra e preparou o arco e a flecha para o arremesso. Esticou a arma, dormiu na
mira, fechando um olho... e atirou. A flecha saiu zunindo, zuuuiiim!... que não
deu nem para ver e acompanhar, sumindo paisagem abaixo, paisagem afora, paisagem
adentro.
Um minuto depois, Lilás perguntou ao excelente
besouro-verde vestido de casaca verde:
- E daí? Acertou?
- Na mosca, quer dizer, no coração.
- O efeito da flechada será... de
repente?
- Dentro de dois instantes Peri
sentirá um amor literário por Ceci. Um amor nunca sentido sonhado esperado. E
vai entregar flores brinco-de-princesa.
- E a Ceci retribuirá essa paixão?
- Mais tarde, quando eu lhe der
também uma das minhas flechadas. Mais tarde.
- Nem acredito!
E Lilás continuou pelo ar, pegando
ondas de vento, viajando em pé no disco de lançar. Sentia-se toda em liberdade,
vento na cara, ar puro, alta, leve, livre e solta, zuuum!...
- Olha só o rio Camarajibe! Nem
acredito!
Então, num ponto do espaço aéreo, e
sem querer, sem ver, a menina se engatou, se enliou, se enganchou, se
emaranhou, se enovelou numas cordas que pendiam do céu ou subiam da terra.
Por esses cipós, vários curumins e cunhãs subiam
fugindo de suas mães. Era dia nacional de curumins e cunhãs fugir de casa ou da
oca. Não iam para o futebol, nem para a praia pegar ondas, nem para a escola,
nem para as férias escolares.
Lilás, voz bonita, perguntou a um deles:
- Quem são vocês?
- Nós somos os curumins e cunhãs, e
damos muita sorte.
- E o que fazem aqui em cima, subindo
pelos cipós-timbós?
- Estamos fugindo de nossas mães,
somos desobedientes.
- Isso é pura independência! Isso
nem acredito!
A menina Lilás, então, desceu por um
cipó até o chão. Em terra encontrou as mães tremendo de nervosas. Todas
preocupadas procurando por seus filhos e filhas fujões. Uma das mães-índias lhe
interrogou:
- Você, por acaso, viu nossos
curumins e nossas cunhãs?
- Sim. Eles e elas estão subindo lá
pro alto, lá pro céu. Escalam os cipós. Vão escalando e indo embora. Nem
acredito!
As mães-índias seguraram a cara os
cabelos com as mãos nervosas e falaram todas ao mesmo tempo:
- Minha nossa! Aqueles desobedientes
e aquelas desobedientes o que querem é uma independência muito precoce e antes
da hora e cedo demais.
Os índios da aldeia ye’kuana
passavam por uma carestia de alimentos que já durava alguns meses. Os homens,
que eram guerreiros, caçadores, coletores e pescadores, não tinham mais como
alimentar o povo. Estavam de pés e mãos atados. O rio-avô Aporé não fornecia
mais peixe grande; o fogo-avô já não assava caça grande; a árvore-avô
pequizeiro não mandava mais frutos de grande sabor; a montanha-avó Cara de Cão
não guardava mais o mel selvagem de grande sabor.
Diante disso as mulheres, as mães, principalmente,
resolveram ir à floresta catar milho verde ou o abati. E tentaram por alguns
dias essa empreitada. Procuraram e perguntaram ao jabuti: e nada. Andaram mais
e perguntaram ao pica-pau-verde-barrado: e nada. Subiram a serra do Caparaó e
indagaram do guinumbi: e nada. No meio da trilha encontraram o cuí e
perguntaram: e nada. Conversaram com a gameleira, a corticeira, a cacau-jacaré,
a cola-de-cavalo, a algarobeira: e nada.
Assim, foi uma decepção, não arrumaram nadica de nada.
Não era dia nacional de milho no pequeno roçado da tribo. Nem dia nacional de
milho no campo aberto. Nem dia nacional de milho na floresta. Nem dia nacional
de milho na várzea.
Uma das mães, então, teve a ideia de chamar os
curumins e as cunhãs, pois segundo lenda conhecida deles, esses meninos e essas
meninas davam muita sorte, muita sorte.
Chamados os curumins e cunhãs, mães
e meninos e meninas foram à floresta procurar milho verde, o abati. Só que
esses peraltas e essas sapecas não queriam saber de trabalhar, não queriam
saber de coisa alguma, a não ser brincar. Por isso se esconderam, fugiram das
mães e se embrenharam pela mata.
Resolveram pior. Decidiram ser mais arteiros e
arteiras ainda. Chamaram os colibris e pediram a esses pássaros que fossem
amarrar cipós-timbós lá no alto do céu. E os colibris atenderam ao pedido dos
curumins e das cunhãs. Com os cipós pendendo do céu, os curumins e as cunhãs
subiram, escalaram e, assim, fugiram de suas mães.
Aí, e nesse ponto, aconteceu que as
mães receberam a notícia vindo do espaço na pessoa da Lilás, menina lilás.
Assim, foi o dia nacional de ver mães chorando preocupadas com sumiço de
curumins e cunhãs. Eram mães e avós e bisavós se lamentando e segurando com as
mãos os olhos a cara os cabelos os joelhos os pés os braços.
Mais tarde, vendo que seus curumins
e suas cunhãs fugiram mesmo, as mães ficaram brabas. Foram atrás e só de raiva
cortaram os cipós para que eles e elas não pudessem mais voltar para a terra. E
os curumins e as cunhãs nunca mais poderiam voltar. Nunca mais voltaram. E se
despediram.
Foi aí que aconteceu uma coisa que
só acontece nos recontos inventados, nas lendas mágicas dos índios, nas
marandubas orgulhosas. Os curumins e as cunhãs, já que não podiam mais retornar
ao chão, continuaram subindo para o alto e foram parar no céu, na tampa azul do
céu.
Assim, só em noites sem nuvens podem ser vistos.
Viraram gordas estrelas brilhantes.
Quanto às mães - cheias de raiva por ter perdido seus
filhos e suas filhas desobedientes -, caíram no chão, rugiram e viraram
onças-pintadas, onças-vermelhas, onças-pardas, onças-pretas.
E assim tudo está hoje, desde aquele tempo.
No céu, dia nacional das estrelas de
todo tipo e cor. No chão, dia nacional das suçuaranas, ariranhas, acanguçus,
jaguatiricas, maracajás. Dia nacional sempre e todo dia.
E Lilás se lembrou de recordar, de
si para si, voz bonita, voz veludosa:
- Não se pode deixar caído pelo chão
o que se deixou cair pelo chão. Nem acredito!
Depois de saber isso, de toda essa
história, a lenda, a menina Lilás partiu da aldeia, em pé no seu disco de lançar,
retornando para casa. Veio pelo ar como havia viajado antes, zuuum!... Voava
rápido, esparramando a cabeleira no vento. Cruzou com rolinhas-picuís em bando.
Se confundiu com periquitos-verdes em grupo. Topou com abelhas tubibas em
enxame.
Do alto avistou a praia da Fonte, de onde partira
horas atrás, e ali aterrissou.
- Nem acredito!
O azul com sol e céu é fácil como
todo mundo já viu.
A guria pousou na areia e deixou o
disco de lançar de lado. Se enturmou com alguns meninos e meninas e jogou bola.
Fazia calor e a meninada era boa de bola, ui!... davam caneladas também.
Anoiteceu.
O dia e a noite sempre jogam, para
valer para valer, os seus jogos de acaso ou de sorte.
Uma lua caligráfica, teleférica,
francisca.
No alto agora pisca-piscavam os primeiros e as
primeiras e mais gordos e mais gordas e brilhantes e cintilantes curumins e
cunhãs.
Essas estrelas brilharão para sempre, apesar de sempre
ser um tempo que não acaba nunca, nem se mede, nem se pesa, sempre um tempo de
hoje ontem depois, para sempre.
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