quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Zuuum!... (juvenil)




            A menina Lilás estava na praia da Fonte, Guarapari, curtia o calor do sol, a areia branca e fina, comportamento igual e semelhante a outros tantos banhistas, e brincava, brincava com um disco de lançar.
Jogava o disco amarelo para lá, para cá, e ele voava, retornava, revoava, voltava como bumerangue. Uma brincadeira que dava cócegas de alegria e riso fácil na menina.
            Numa dessas, a menina jogou o disco de lançar e ele foi foi foi... fez a curva e retornou com força. Ela, então, embarcou nele, em pé, e subiu no ar. Subiu no ar junto e embarcada no disco de lançar. Navegou nas ondas dos ventos, nas correntezas dos ventos, foi para frente, para trás, sob o céu azul e ensolarado, abriu os braços para se equilibrar no ar, como fazem os tt.
Os ventos batiam na cara, arrepiando os longos cabelos, esticando os cabelos como se fossem roupas no varal, como se fossem bandeiras hasteadas batidas de vento. Sempre se tem ventos, fracos ou fortes, mansos ou rápidos, assim ou assados, quentes, sudoeste, nordeste, ou não.
Ela ria de olho arregalado, ria de fazer lágrimas, ria de olho estreitado, ria de boca aberta, ria sem pio ou mio. Os olhos dela que valiam mais. Lá por baixo a geografia era um tapete desenhado e bordado, uma colcha de retalhos, um papel riscado.
            E a menina Lilás pensou rápido e achou melhor dizer, afobada, de si para si:
            - Ah!... que excitante. Ah!... que excelente. Tô como os passarinhos, pois só os passarinhos podem tirar os pés do chão. Nem acredito!
            De lá de cima olhou as casas de gente do tamanho das de cachorro, as árvores parecendo cogumelos, as ruas e carros de brinquedo, muita coisa parecendo tudo do tamanho de formigas.
            - Será a cidade de Jundiaí?
Olhou os ipeúnas de todas as cores possíveis naturalmente, olhou a manhã e a tarde, ipês-amarelos encontrados perdidos separados da multidão, olhou as horas, olhou o que mais, olhou a pessoa do sol, os ipês-roxos nos parques e pastos e sítios e quintais.
- Não falei, não falei! É a praça Ipiranga!
E falou com voz bonita para as andorinhas curiosas:
            - O que vim fazer aqui no alto?!
Via a renda da praia junto ao mar, e o mar, o mar azul... Não cansou de ver mais alto e sempre mais longe o horizonte. As coisas todas tinham outra beleza olhando assim do alto. O mar e o céu eram uma coisa só, com um correto e reto e horizontal traço feito a lápis no horizonte. Dava gosto reparar. O dia comum, nem sempre comum, um dia comum.
- Olha o pico dos Três Estados! O pico do Cristal!
            Lilás voava daqui para lá... e de lá para cá... deslizando no ar do azul do céu. Parecia, agora sim, como uma irapurá, como uma gaviã-carijó, como uma abelha irapuã, como uma atobá-parda.
Ficou de ponta cabeça suspensa no ar, como se estivesse plantando bananeira entre o azul do céu e o verde do mar, igual um t de cabeça para baixo. Os cabelos caíram, ficaram abaixo do corpo, parecendo raízes de capim. Depois se desvirou. Seria igual a pular de paraquedas ou planar de asa-delta. Experimentou pôr o pé para fora do disco de lançar... claro, não sentiu nada, não havia chão, só o ar invisível. Se arrepiou toda e disse para si mesma, sempre numa voz bonita:
            - Nossa!... Socorro!... Que sensação de liberdade!... Nem acredito!
            Num instante... opa!, quase dá uma pechada na vidraça de um grande edifício. É que a vidraça refletia o céu azul, e a menina pensou que era o mesmo céu azul por onde andava. São coisas que acontecem.
            - A cidade de Picada Café!
            Era muito gostoso deslizar pelo ar. E Lilás sentia... maravilhada... que era uma espécie de deusa, de panapaná, de paina, de bom-é, de fura-barreira. Era outro mundo, outro ponto de vista. Não se compara o quanto era bom olhar as árvores, os prédios, os parques assim por cima. E voar ao lado e pertinho de aviões, e de curicacas... zuuum!... o vento na cara não se compara a nada no mundo... zuuum!... maravilha.
            - O rio Paraná, uma vez! Nem acredito!
            Ali por baixo o rio Paraná suave e limpo e desenhado no chão, entre plantas e pedras e curvas e cascatas, sem sombra, sempre deitado. O sol refletindo na água. Um rio que descosturava o território.
            A menina deu uma virada com o pé no disco de lançar e foi para outros lugares, trocando de ares. Esquiava no azul do céu, pegava ondas de vento, correntes quentes. Palmeiral, e cada palmeira com seu cocar no tope. Pensou alto, na voz bonita:
            - Ah!... pra onde tô indo agora? Um lugar todo plantado de umiris todinhos meus, com certeza. Nem acredito!
            Espiou lá para baixo e viu que a região era típica de Brasília, planalto central, o oeste. Reconheceu largas avenidas de asfalto, a esplanada dos ministérios, o congresso... zuuum!... o palácio da Alvorada, a igreja de mãos postas... deu rasante no lago Paranoá, zuuum!... assustando os papudinhos e as moscas d’água. Ali no lago era dia nacional do barco a vela. Muitos barcos deslizando sobre a água, tocados por velas coloridas de vermelho, verde, amarelo, lilás.
            Deu outra virada com o pé no disco de lançar e se desviou para outro ambiente. Pegou outra onda de vento, outra geografia, outra carta, outro panorama, outra voz, outra pintura, outra coreografia.
            - Quem é Cururupu?
            O que queria, o que pretendia, o que pensava, o que sonhava a menina? Voava com o vento, como se tivesse asas nos pés. E encontrou um habitante das alturas, um velho e esquisito urubu-rei. Esse, vestido de preto e voando em círculos concêntricos, se chegou mais perto dela e lhe aconselhou:
            - Ei, você!... Acorde, menina!
            - Sim! Que foi?
            - Que tá fazendo aqui no alto? Está perdida? Tua família sabe que você viaja sozinha por aí e por aqui?
            - Tô dando uma voltinha, pensando na vida. Quero respirar novidades, quero olhar as coisas do alto, quero viajar pelo planalto aéreo. Nem acredito!
            - Ora, essa meu! Gente tem que ficar lá no chão, andando com os dois pés e as duas pernas esticadas! Cada mono-carvoeiro no seu galho!
            - Prometo que já desço.
            - Te cuide, guria da voz doce e bonita!
            - Nem acredito!
            E Lilás deu outra descaída com o pé no disco de lançar e saiu da área reservada aos urubus-reis de plantão. Pegou outra onda de vento, outro rumo, outra altura, mais uma topografia, outro mapa, serra da Moeda, rio Paranhana, outra costura, zuuum!...
            Num momento a menina encontrou um grupo de nuvens que vinham se arrastando lentas e esgarçadas pelo céu. E dentro dessas nuvens, meio camuflados, alguns besouros seminus. Pareciam zebelinhas, iguais a abelhas ou zangões, e beija-flores ou cuitelos. Mas eram besouros-verdes que gostavam de atacar as jabuticabeiras. Vestidos sempre de verde completo e batendo asas grossas e finas pintadas de cores estilo artístico.
Praticavam tiro ao alvo com seus arcos de guanandi e flechas de emburana. Nas costas o cabaz de palha de palmeira jandaia cheio de flechas. Era dia nacional dos besouros caçadores de corações. Uma turma deles ali brincando de disparar flechas de namoro e de acertar flechas de felizes-para-sempre. A menina chegou junto a um rechonchudinho, anteninhas vibrantes, carapacinha pintada de verde limite, e perguntou-lhe:
            - Distribuindo namoros, é?
            - Um pouco - respondeu o inseto.
            - Tem algum alvo pra hoje? Algum novo amor pra amanhã?
            - Sim, menina lilás da voz bonita. Hoje vou arrumar um namoro para Peri. Peri amará Ceci pra todo o sempre. Um romance bonito, coisa de jardim selvagem, coisa de pindorama.
            - E Ceci vai também se apaixonar por Peri?
            - Quase na mesma hora. No futuro será um amor muito grande. Serão felizes para sempre - besourou o coleóptero de seis patas e muitas asas.
            - É, o amor é lindo, o céu é profundo, a floresta é verde e o mar é verde ou azul.
            E a menina, modesta menina, menina da voz confortável, da voz azul-clara, dos cabelos já despenteados, declarou mais uma coisinha para o besouro das nuvens:
            - E por fim... E passe bem, muito obrigada. Até um dia. Nem acredito!
            A menina ficou olhando o tipo alado no seu trabalho de resolver amores. Era uma profissão delicada, complicada, necessária, obrigatória, fundamental, prática.
E, de repente, o besouro-verde viu algo lá embaixo na terra e preparou o arco e a flecha para o arremesso. Esticou a arma, dormiu na mira, fechando um olho... e atirou. A flecha saiu zunindo, zuuuiiim!... que não deu nem para ver e acompanhar, sumindo paisagem abaixo, paisagem afora, paisagem adentro.
Um minuto depois, Lilás perguntou ao excelente besouro-verde vestido de casaca verde:
            - E daí? Acertou?
            - Na mosca, quer dizer, no coração.
            - O efeito da flechada será... de repente?
            - Dentro de dois instantes Peri sentirá um amor literário por Ceci. Um amor nunca sentido sonhado esperado. E vai entregar flores brinco-de-princesa.
            - E a Ceci retribuirá essa paixão?
            - Mais tarde, quando eu lhe der também uma das minhas flechadas. Mais tarde.
            - Nem acredito!
            E Lilás continuou pelo ar, pegando ondas de vento, viajando em pé no disco de lançar. Sentia-se toda em liberdade, vento na cara, ar puro, alta, leve, livre e solta, zuuum!...
            - Olha só o rio Camarajibe! Nem acredito!
            Então, num ponto do espaço aéreo, e sem querer, sem ver, a menina se engatou, se enliou, se enganchou, se emaranhou, se enovelou numas cordas que pendiam do céu ou subiam da terra.
Por esses cipós, vários curumins e cunhãs subiam fugindo de suas mães. Era dia nacional de curumins e cunhãs fugir de casa ou da oca. Não iam para o futebol, nem para a praia pegar ondas, nem para a escola, nem para as férias escolares.
Lilás, voz bonita, perguntou a um deles:
            - Quem são vocês?
            - Nós somos os curumins e cunhãs, e damos muita sorte.
            - E o que fazem aqui em cima, subindo pelos cipós-timbós?
            - Estamos fugindo de nossas mães, somos desobedientes.
            - Isso é pura independência! Isso nem acredito!
            A menina Lilás, então, desceu por um cipó até o chão. Em terra encontrou as mães tremendo de nervosas. Todas preocupadas procurando por seus filhos e filhas fujões. Uma das mães-índias lhe interrogou:
            - Você, por acaso, viu nossos curumins e nossas cunhãs?
            - Sim. Eles e elas estão subindo lá pro alto, lá pro céu. Escalam os cipós. Vão escalando e indo embora. Nem acredito!
            As mães-índias seguraram a cara os cabelos com as mãos nervosas e falaram todas ao mesmo tempo:
            - Minha nossa! Aqueles desobedientes e aquelas desobedientes o que querem é uma independência muito precoce e antes da hora e cedo demais.
            Os índios da aldeia ye’kuana passavam por uma carestia de alimentos que já durava alguns meses. Os homens, que eram guerreiros, caçadores, coletores e pescadores, não tinham mais como alimentar o povo. Estavam de pés e mãos atados. O rio-avô Aporé não fornecia mais peixe grande; o fogo-avô já não assava caça grande; a árvore-avô pequizeiro não mandava mais frutos de grande sabor; a montanha-avó Cara de Cão não guardava mais o mel selvagem de grande sabor.
Diante disso as mulheres, as mães, principalmente, resolveram ir à floresta catar milho verde ou o abati. E tentaram por alguns dias essa empreitada. Procuraram e perguntaram ao jabuti: e nada. Andaram mais e perguntaram ao pica-pau-verde-barrado: e nada. Subiram a serra do Caparaó e indagaram do guinumbi: e nada. No meio da trilha encontraram o cuí e perguntaram: e nada. Conversaram com a gameleira, a corticeira, a cacau-jacaré, a cola-de-cavalo, a algarobeira: e nada.
Assim, foi uma decepção, não arrumaram nadica de nada. Não era dia nacional de milho no pequeno roçado da tribo. Nem dia nacional de milho no campo aberto. Nem dia nacional de milho na floresta. Nem dia nacional de milho na várzea.
Uma das mães, então, teve a ideia de chamar os curumins e as cunhãs, pois segundo lenda conhecida deles, esses meninos e essas meninas davam muita sorte, muita sorte.
            Chamados os curumins e cunhãs, mães e meninos e meninas foram à floresta procurar milho verde, o abati. Só que esses peraltas e essas sapecas não queriam saber de trabalhar, não queriam saber de coisa alguma, a não ser brincar. Por isso se esconderam, fugiram das mães e se embrenharam pela mata.
Resolveram pior. Decidiram ser mais arteiros e arteiras ainda. Chamaram os colibris e pediram a esses pássaros que fossem amarrar cipós-timbós lá no alto do céu. E os colibris atenderam ao pedido dos curumins e das cunhãs. Com os cipós pendendo do céu, os curumins e as cunhãs subiram, escalaram e, assim, fugiram de suas mães.
            Aí, e nesse ponto, aconteceu que as mães receberam a notícia vindo do espaço na pessoa da Lilás, menina lilás. Assim, foi o dia nacional de ver mães chorando preocupadas com sumiço de curumins e cunhãs. Eram mães e avós e bisavós se lamentando e segurando com as mãos os olhos a cara os cabelos os joelhos os pés os braços.
            Mais tarde, vendo que seus curumins e suas cunhãs fugiram mesmo, as mães ficaram brabas. Foram atrás e só de raiva cortaram os cipós para que eles e elas não pudessem mais voltar para a terra. E os curumins e as cunhãs nunca mais poderiam voltar. Nunca mais voltaram. E se despediram.
            Foi aí que aconteceu uma coisa que só acontece nos recontos inventados, nas lendas mágicas dos índios, nas marandubas orgulhosas. Os curumins e as cunhãs, já que não podiam mais retornar ao chão, continuaram subindo para o alto e foram parar no céu, na tampa azul do céu.
Assim, só em noites sem nuvens podem ser vistos. Viraram gordas estrelas brilhantes.
Quanto às mães - cheias de raiva por ter perdido seus filhos e suas filhas desobedientes -, caíram no chão, rugiram e viraram onças-pintadas, onças-vermelhas, onças-pardas, onças-pretas.
E assim tudo está hoje, desde aquele tempo.
            No céu, dia nacional das estrelas de todo tipo e cor. No chão, dia nacional das suçuaranas, ariranhas, acanguçus, jaguatiricas, maracajás. Dia nacional sempre e todo dia.
            E Lilás se lembrou de recordar, de si para si, voz bonita, voz veludosa:
            - Não se pode deixar caído pelo chão o que se deixou cair pelo chão. Nem acredito!
            Depois de saber isso, de toda essa história, a lenda, a menina Lilás partiu da aldeia, em pé no seu disco de lançar, retornando para casa. Veio pelo ar como havia viajado antes, zuuum!... Voava rápido, esparramando a cabeleira no vento. Cruzou com rolinhas-picuís em bando. Se confundiu com periquitos-verdes em grupo. Topou com abelhas tubibas em enxame.
Do alto avistou a praia da Fonte, de onde partira horas atrás, e ali aterrissou.
            - Nem acredito!
            O azul com sol e céu é fácil como todo mundo já viu.
            A guria pousou na areia e deixou o disco de lançar de lado. Se enturmou com alguns meninos e meninas e jogou bola. Fazia calor e a meninada era boa de bola, ui!... davam caneladas também.
Anoiteceu.
            O dia e a noite sempre jogam, para valer para valer, os seus jogos de acaso ou de sorte.
            Uma lua caligráfica, teleférica, francisca.
No alto agora pisca-piscavam os primeiros e as primeiras e mais gordos e mais gordas e brilhantes e cintilantes curumins e cunhãs.
Essas estrelas brilharão para sempre, apesar de sempre ser um tempo que não acaba nunca, nem se mede, nem se pesa, sempre um tempo de hoje ontem depois, para sempre.


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