No Lugar das Estrelas
Nadaram os Peixes
Um
ano se passou. E alguns meses. Estou no segundo ano eis o segundo ano técnico
contábil. Foi um, veio outro ano. Um ano inteiro, mais uns meses, triturado
pelo tempo-rei. Um ano se esfarinhou no ar, caiu em desuso, obsoleto, 1001 a hora
local. Caiu no ocaso, fruto do acaso, até interessante de contingências.
Mais
uma vez era o começo de novo de outro amanhecer.
Que
D? Nem há D, e pronto! A história de cada tal e qual é um jogo. O que é que eu
ia fazer naquela horinha?
As
pessoas, na rua Corixa, o bairro Basalto, caminhavam lentamente por causa do
calor. O calor aumentava a preguiça. A preguiça era boa na sombra. A preguiça é
boa na sombra. A preguiça-de-bentinho se alimenta das folhas de embaúba-de-vinho.
Isso
muito já me interessava. Pois dentro do país as cidades e os pontos turísticos
geográficos topônimos. Das cidades os bairros as ruas superestruturas. Dos
lugares as montanhas os rios as cavernas. Das matas os bichos as árvores as
trilhas. Sempre pensei que isso tudo me interessaria.
Eu
fora ensinado para acreditar em tudo que passasse na tevê, lesse nos livros, os
mais velhos falassem, as canções cantassem. Mas nem sabia de nada. Nunca sabia.
Nunca entendia. Sem perguntar. Nem nem mesmo uma só certeza.
Sempre
tive e tenho fantasias maiores que o olho da barriga.
Encontrei
um vira-lata e fomos andando na calçada a começar da rua Itália. Depois o cão
latiu mais de uma vez insistente como se quisesse me chamar atenção para algo
necessário e urgente me dizer alguma coisa. Eu parei prestei atenção e nem
entendi nada. Continuei meu caminho firme no meu propósito displicente e ele
tentando me encher a paciência. Pronto, o cão queria me dizer alguma coisa. Ele
parava na minha frente trançava minhas pernas me fazendo tropeçar porque tinha
algo para me decifrar. Tem algo a me dizer, pensei. Entrei numa casa de carnes
e comprei o melhor osso que pude. E foi até aí.
Aliás,
vendo como via Enig-mática fazer as coisas e sorrir, vendo como pra ela tudo
era de mão beijada, eu me assustava me sentia um grão de areia boiando no
escuro ao vento.
Ficava
pensando e chegava a uma conclusão de nada. Nem me abalava. Sabia que tudo nem era
nada. E eu nadava numa piscina olímpica.
Certa
feita peguei o avião um pequeno teco-teco e sobrevoei a região da cidade. O
vento batendo nas minhas asas o azul do ar impagável as raras nuvens bem alto
na estratosfera. Mas nem tive outro pensamento lacustre. Já sobrevoava a capela
São Roque e em breve o rio da Prata.
Eu
ia seguido de avião teco-teco a Cocalzinho de Goiás, tinha negócios em Tubarão,
tive menina chamego a Cendira em Araguanã, visitei aqui perto em Galinhos,
sócio do parque Pedra da Boca.
***
Cheguei
em casa abrindo a porta da frente, aquela que se entra direto da rua. Escolhi a
chave e fui abrindo a porta. Pronto, entrei brincando e estava de volta.
Durante o dia
eu saíra, fora para lá e para acolá, etc. E depois eu fiz e desfiz e andei mais
um pouco até onde quis pra cima e pra baixo e almocei no restaurante Paquetá do
meu amigo Biguaçu. Almocei sem pressa, conversei, paguei (que ele nem me deixou
de cobrar) e saí para continuar o pega da tarde.
Eu tomava
conta do meu único e obsessivo pensamento: Enig. O ano muito quente de verão
depois de um inverno muito frio em pleno calor extremo em 85.
Me lembro que
olhei as horas no pulso diversas vezes. E voltei pra casa, abri a porta da
frente, escolhendo a chave certa, o dia ganho, o dia cumprido, o dia comprido,
o dia perdido, o dia encontrado, o dia esquecido.
- E tudo isso
eu fiz foi hoje, meu! - pensei.
Eu
era uma pedra. E achava que devia morar nesse lugar até o mundo terminar em
barranco.
Enigmática,
esse o nome dela e que a gente usava para apresentar a sua última aparição
entre nós sua última encarnação olhar de misteriosa. E a mais que perfeita,
obviamente.
A
genealogia de Enig já demonstrava suas evoluções ao longo e desde a raiz até as
folhas. E ela era uma vez as diversas etapas dessa chegada aqui ali entre nós.
E havia passado por outros seres outras pessoas outras coisas até limpar tudo
purificar finalizar lindeza em alto nível em E-nig-má-ti-ca. Ela foi gente foi
bicho foi inseto foi árvore, nem necessariamente nessa ordem. Então, até aqui
até ali fora milhares entre idas e vindas. Depois ela foi ver o aparecimento
das cachoeiras nos rios. A seguir ela foi ver a arapoca botar um ovo que virou
a lua. No verão ela foi até a praia chapéu elementar ver a inauguração de
Jijoca de Jericoacoara. Estava presente e sorridente no dia lugar e hora do
teleférico do Pão de Açúcar. No doce dia 12 do ano da graça na localidade de Vila
Maria do ponto de vista da praça Piratini ela transformou a vinda das estrelas
em pássaros. Aproveitou a evolução do avião desde a observação dos pássaros até
o superjatinho. E nessa pele nova aqui ali nem dizia nada bonita linda de todos
os seus passados ultrapassados melhorados.
E
o sol um animal geral e ele disse do ponto mais alto de um lugar privilegiado
ele mesmo uma autoridade universal ele irradiou:
-
Você range, você grunhe, você late, você coaxa, lambe, morde, cheira, ri,
caminha balança nada voa...
***
E
sem pensamento espelhei o meu olhar constante parado tranquilo e esperei que
algo acontecesse. O que o que acabei dormindo.
O
Cambuci índio antigo dos caripuna-do-amapá ajudado pela natureza da floresta
ele foi se lembrando pedindo ajuda aqui e ali de palavras de nomes os animais
as árvores nomeando o mundo inaugurando as coisas a manda-lua o sumaré-do-campo
a arirambinha a macambira o rato-de-espinho o bico-de-veludo a
arara-do-nordeste o tucunaré...
Nem me lembro
bem do sonho. Mas foi um sonho. A turma toda estava brincando dentro de um
cercado. Brincando de quê? Talvez jogando bola, talvez comendo laranja, talvez
roubando melancia, talvez azarando as gurias, nem sei mais.
Esse
cercado era um labirinto. Cheio de trilhas e sendas e passos e tal. Nós
estávamos completamente presos e sem saída. Sem saída porque dentro do
labirinto só conseguíamos pegar a própria cauda. Um gavião-carijó uma
onça-parda fugida do zoo um ser lendário ou sei lá nos prendia ali dentro. E o
monstro jurupari vinha para nos atacar. Era perigoso. Era repetitivo. Era
brincadeira de boi-bumbá.
O
sol até que enfim apareceu o sol apareceu por fim apareceu o sol as aparições
das cores o mexer-se das cores umas ainda úmidas.
Aí,
de um lado nem havia saída, do outro lado a anta e seus filhotes. O que nós
podíamos fazer, e tentávamos fazer, era encarar a anta e seus filhotes. Nós os
empurrávamos para trás, e a família era muito forte, eram mais fortes. Tentávamos
empurrá-los, mas eles eram muito fortes unidos testemunhas coro júri torcida
organizada. Todos juntos de um e outro lado. Empurrávamos de cá e eles de lá,
todos juntos. Eles atolavam as garras no chão e era um sacrifício
desenterrá-los dali.
Saí
fui trabalhar andar pelas ruas passear caminhar as ruas um bando de
papagaios-de-fronte-azul voava para oeste tudo por volta das 9 e 9 avistei de
longe uma padaria fui me aproximando e entrei. Pois no lugar das estrelas
vieram os pássaros. Pois em perseguição às estrelas chegaram os pássaros.
A
anta e seus filhotes nem saíam do caminho e nós nem tínhamos saída. Estávamos
encurralados. Atrás só a parede lisa e pintada, a cerca de arame farpado
espinhosa, o abismo do poço escuro, o buraco da pedreira pedregosa. Tentávamos
travar com os pés com as mãos com as garras como eles faziam mas em vão pois
derrapávamos pois deslizávamos ladeira abaixo.
Começou
a chover e as árvores se molharam. Os pássaros cantavam como se nada soubessem
de tudo.
E
a majestade do sol e a princesa da lua os longos cabelos de Enigmática os olhos
todos da natureza, jequitibá, jerivá, sibipiruna, tucum-do-brejo, bagaceira...
Me
lembro eu mesmo que eu mesmo tentava empurrar a família da anta com as minhas
forças meus braços minhas mãos. Era difícil era quase impossível. Ela era forte
e apoiada na família e mamífera e paquidérmica e vegetariana. Uma temeridade.
Os dentes o focinho me farejando os olhos me fuzilando.
Muita
voz entre uma coisa e outra entre uma rua e outra. No lugar dos pássaros vieram
as estrelas. Pois os pássaros papa-lagarta, ferrador, zorro,
beija-flor-azul-de-rabo-branco, grimpeiro... sumiram durante a aparição das
estrelas.
Sonho
que, aliás, nem entendi nada.
***
O
sol forte sugava a terra o ar ondulava e tudo numa miragem de nuvens de vapor.
Nem
dava para olhar muito longe.
Mutum
passeando de carro, ouvindo mpbu, pegou Sarova: e foram ao shopping Canguçu ali
no bairro da Santa Cruz, a rua Tapeba, a rua do Trabalhador... Fazer o quê no
shopping? Se viam, se encontravam, se cheiravam, se falavam todos os dias,
todos os dias.
No Canguçu
olharam cartazes de cinema. Mutum nem falou da preguiça de estudar história do
Prata. Sarova prometeu pela milésima vez: que ano que vem tentará vestibular
para psicologia. Era o seu sonho passar na Federal. Estava estudando para isso.
A universidade de Santa Maria ou a universidade de São Sebastião do Caí, a de
Pelotas, a de Rio Grande, os talvezes. No fim do ano o Mutum irá pedir o favor
para trocar o som do carro, e que sua mãe já prometera. Três horas e tanto da
tarde 15:15 hora e minutos de coincidência.
Perambularam desfilando sofisticados e
rebolando pelas lojas de novidades, etc., manequins sem cabeça, mostras de
cosméticos, vitrines decoradas com asas de todas as cores verdes, vermelhas,
inclusive cores que nem se misturavam mais, etc. Cada qual com três bolas de
sorvete quase se derretendo na mão. Pessoas entrando e saindo, pessoas mais
passeando que comprando. Que horas? O que era o namoro dos dois indivíduos?
Mãos dadas. Aqui, aqui e ali, se bicando aos beijos na boca como par
inseparável de dois guaxes de casal perfeito de bicudinhos-do-brejo.
Outra vez Mutum descansou o braço no ombro de
Sarova. E esta na cintura dele. De propósito um beijo estalado. Nem foram ali para
ver cinema? Para ver os lançamentos de mpbu?
Caminharam, subiram escada rolante, elevador e
foram andando sem pressa, e quando se deram por conta estavam no
estacionamento. Sarova passou a mão na bunda do Mutum. Mutum se fez de
desentendido. A tarde na sombra. A sorte nem disfarça e o tempo nem passa!
Sentados dentro do carro ano 98, novo, preto, 4x4,
quatro portas. Sem saber para onde. Mutum ligou o som. O que fazer? Ainda bem
que ambos gostavam de curtir de ouvir de mpbu’s.
E já rodavam
pela cidade que já os conhecia desde sempre, rua Capoeiras, rua Jacaré dos
Homens... As pessoas sempre nos mesmos lugares, rua Tiradentes, rua Pinheiro
Machado, rua Brasil... Sem uma alegria maior, sem um prazer ótimo, sem
entusiasmo, um jardim geralmente pequeno na frente da casa, trepadeira guarumbé
subindo pela gameleira-branca, galanteios de sabiapocas, rua Portugal, rua
avenida Imperatriz Leopoldina... Os dois trocavam uns monossílabos, uns
resmungos, rua Flores da Cunha, rua dos Maragatos, rua Coroados... riam um
pouco. O calor dos dias dava aquela moleza nas ideias e na alma e na lua e no
mundo. Sarova procurou estações para ouvir, ouvir mpbu’s, o segmento preferido.
Mutum dirigia com a mão direita enquanto a rua Júlio de Castilhos, a rua
Placidina de Araújo... o braço esquerdo pegava sol na janela. Uma choperia com
mesas na calçada atrapalhando o passeio dos pedestres.
Se sentaram cadeiras
e mesa tudo de plástico com dois chopes, do outro lado uma árvore frondosa um
pé de carne-de-vaca. Só isso? Uma pizza? Uma batata frita? O desfile do
trânsito muito lento pela avenida Presidente Vargas, a principal, choperia
Biribarana, mais de frente a pequenina praça da Bandeira balanços gangorras
crianças irrequietas. Ali estava melhor o movimento. Era bonito aquilo tudo? Mutum,
perguntou:
- Quer viajar
comigo a São Paulo?
- São Paulo!
No fim de semana?!...
-
São Paulo da Lagoa Vermelha, em, guria!
-
Objetivando?
Sarova
também achou bom viajar, fazer o quê. Os dois atirados nas cadeiras vermelhas
patrocinadas, e riram e se beijaram na boca com estalo. E pediram uma porção de
batatas fritas com queijo ralado.
Mesa
da calçada para a avenida, procissão de todos os carros da cidade, carro sujo
de barro de brincar em atoleiro, moto ensurdecedora, os home da doze,
bicicletas, cães desfilando com donos e donas farejando tudo... Mutum pediu
mais um chope. Sarova um picolé de caju-abacaxi. A tevê gritou gol e todo mundo
conferiu confirmou no replei.
Mutum
olhou Sarova chupando picolé e disse e perguntou:
- Onde eu estava com a cabeça, meu?!
- Mmm!
Muito calmo,
tudo calmo, tarde sem tempo, mas estava muito calminho. O que dizer? Nas
primeiras luzes da cidade retornaram à casa de Sarova. A tarde se fora, o dia
se fora, o tempo, o mundo. Se beijaram na boca, mas sem fechar os olhos, mas
com estalo. Se largaram aí pelas oito e meia, uma hora antes do prazo, mais ou
menos. O planeta precisa de sorte!
Um rio
entendia do lugar por onde pulavam pássaros, pai-agostinho, bico-de-latão,
trinca-ferro-da-serra, sebinho... e falavam as árvores quataquiçaua, moreira,
cajueiro-do-campo, ingarana, mapati... e
cresciam cidades cresciam completamente, Jaguaribe, Ibiá, Alto Santo, Ajuricaba...
e molhando o céu de nuvens.
Bairro de Rio
Branco-Maragata já foi pouso de carreteiros de tropeiros. Mais movimentado que
o próprio Prata. É o que diz a História o que dizem as histórias. Ali em Rio Branco tinha uma
pousada grande e famosa com muita água e assim o lugar muito movimentado por
causa dos mascates que faziam a região. Subiam de Porto Alegre, São Leopoldo, Montenegro,
etc., pelos atalhos e picadas, e iam para Passo Fundo, Erechim, Lagoa Vermelha,
etc.
Já
depois, outro dia, Mutum e Sarova ficaram caseiros. Assistiram muita tevê
naquela mesma sala. Trocando muito de canal, uma mania do Mutum, uma agonia que
Sarova sabia assimilar. Sonhar o quê? Ou no quarto de Sarova ouvindo mpbu’s.
Mutum era
muito amigo do cão de estimação da família. Na verdade uma cadela janauí. Nem
poucas vezes passeavam pelaí juntos e contentes. Atendia pelo nome de Torba.
Torba entendia de ruídos e faros, tons de voz, esfregar de passos, recados de
hora marcada. Já os pais de Sarova, gente já aposentada e resolvida e pacata,
seu Itaberaba e dona Itacuã, ficavam ali boiando pela casa, assistindo tevê de
programa de auditório no quarto lá deles, tomando chimarrão na varanda de cara
lá pra baixo na rua Borges de Medeiros dos incríveis jacarandás que florescem
de lilás em novembro. Mutum pediu, preguiça de levantar do sofá de veludo
azulzinho, solicitou:
- Pode pegar
a carteira ali na jaqueta e ir até o caixa eletrônico ver o meu saldo?
E quando
Sarova voltou, Mutum outra pergunta:
- E aí, tudo
certo, tudo certo? Quede o extrato?
Que Mutum viu
ou se ouviu a revoada de pássaros e aves a partir do ingá-verde os passarinhos
ruflando as asas voando em voos rápidos certeiros diretos para a mata das
árvores do mato mais próximo.
Sarova nem
precisou de esforço para explodir com fúria. E inquiriu, indo direta e reta,
como um tiro, como uma facada, como um raio:
- Que
telefone é este?!!!
Então, ela
bateu o pé, bateu os pés, e apresentou e mostrou o número anotado na tirinha de
papel. Sarova gritou furiosa e com fúria e com olhos em brasa de ira incontida:
- É da tua
ex, né?! É da tal de Canguaxi, né?!
Sarova
respirou fundo, emocionada, já estava vermelha e de olhos bem brasinos, e com
mais raiva, e nem contendo o tum! tum!... do coração, e mais razão para ter
raiva, vociferou, inclinando o corpo para frente:
-
Hein, seu mané?! Hein, seu ma-néee?!
Mutum ficou
preso ao susto, ao escândalo, à surpresa. E realmente se obrigou a confirmar,
apesar da lei que existe e existia e deve ser empregada e deveria sempre ser
empregada nesses casos, que é de negar, negar e negar sempre, negar até o fim,
negar até morrer, negar de pés juntos. Sarova quicava de ódio de furor de
revolta de arara. Parecia um vulcão despejando lava incandescente, lama incandescente,
explosões de barro quente:
- Nem vem com
palhaçada pra cima de muá! Nem me toque!
E
mais ódio e lava incandescente morro abaixo destruindo tudo pela frente em
avalancha:
-
E Mané, mané! Um milhão de vezes, mané!...
Mutum,
aborrecido, pra lá de aborrecido cansado esgotado vencido quase casado ouvidos
furados de ouvir gritos tentou corrigir a situação remediar virar um inseto
dispensável e fugir pela janela aberta:
- Mas que é
isso agora? Nem sabia, nem lembrava mais disso aí. Esqueci de jogar fora. Nunca
mais telefonei pra Canguaxi...
E Sarova,
cega de despeito, surda de aversão e rancor, e cheia de razão, e despejando rio
de lava quente vermelha afogueada pegando fogo:
- Então, por
que guardou o número, seu mané?! Desembucha e nem me atocha, mané!
Mutum, já sem
saída, ouvidos furados dos berros, os sogros quietos lá no quarto, os vizinhos
também quietos atrás das paredes finas, Torba pronta para latir, e o beco sem
saída:
- Já disse,
esqueci, nem sabia mais...
- Ou será que
é o contrário: eu que sou totalmente otária?!
O clima
piorou. Um fim de mundo. Era mesmo uma clássica briga de namorados. Daquelas
que se vê em filme sem graça e sem assunto e que pensamos jamais acontecer com
a gente de tão ridículas e fora de hora e fora de moda e fora de tempo e fora
de país. E parecia que estavam brigando como nos filmes de quinta, novelas da
tarde, livros de bolso em coleções de cores. E agora? E depois? Mutum nem sabia
o que fazer. O que seria melhor? Como estavam antes ou como estavam agora ou
como ficariam depois? Brigados? Cada um pro seu lado assim mesmo? Mutum e
Sarova nem sabiam o que viria a seguir. Eram atores sem texto ou de texto
improvisado.
Sarova já
correu para o quarto e trancou a porta trancou a porta. Mutum saiu e foi embora
e ficou aborrecido o dia todo. Seu Itaberaba e dona Itacuã, quase aposentados,
pegaram e se entreolharam perplexos. Torba resmungou e se aninhou ali mesmo num
canto da sala a tevê no canal do boi. Sarova teve que correr para o quarto e lá
se trancar. Mutum nem teve ideia melhor e se mandou e ficou aborrecido porque
era uma situação. Acontecera, porém sem crime, sem tiro, sem cabelos arrancados,
sem presentes devolvidos.
Mutum chegou
em casa e foi direto para a cama se atirou. E dormiu com o som ligado, as vozes
os acordes da mpbu bem alto. Aí, acordou antes da meia-noite. Nem queria
pensar, nem queria parar para pensar, nem queria ficar deitado para pensar. Foi
na geladeira e pegou uma cerveja, sem palavras. Voltou ao quarto e detonou as
duas cervejas, aumentou ainda mais o som. E a tevê, para ver alguma coisa se
mexendo. Telefonaria para Sarova? Nem, Sarova que telefonasse. Afinal, nem se
sentia errado, nem traidor. Nem tinha feito nada de errado e nem fora traíra.
Então, disse para si mesmo, brabo e feroz como um jacaré-de-papo-amarelo:
- Qué sabê?
Vou sair, e o resto que se hoda!
Pegou o carro
e saiu, rua Rui Barbosa, rua Guaporé... Queria ver os conhecidos. Do outro lado
da cidade, lá no bairro São Cristóvão, rua Santa Lúcia, rua São Jorge...
Brigado com Sarova, e pensando bem, era melhor assim. Estava solteiro. Esperaí!
Sim, era bom estar solteiro. Sentia falta de uma sombra do lado, de uma escora,
de um apoio, mas era também melhor assim. E encontrou mesmo os camaradas, os
cupinchas, os macanudos. E tinha seguro na ideia que nada contaria dos seus
problemas. Eles nem sabiam e nem mereciam saber e nem desconfiariam e menos
ainda perguntariam por que vinha só. Nem perguntariam. Nem mereciam saber.
Mutum
aproveitou e bebeu todas as cervejas colecionando nomes nacionais e
internacionais, e caminhou de grupo pra grupo tomando sua cerveja e tentando
rir e fazer rir. Mas logo logo, depois de umas 3 cervejinhas, Mutum foi
contando tudo e a todos ao redor. Sem olhar a quem. Até por falta do que falar.
Até porque a língua já estava sem rédeas. E contou 33 vezes, aumentando os
pontos 33 vezes, sua briga com Sarova 33 vezes 33. E jurava inocência em todas
as versões. Quer dizer, em certa altura já nem lembrava se era tão inocente
assim, já nem lembrava se era com ele o negócio, já nem lembrava se o Brasil
era nosso. Os amigos acreditaram, e também riram antes e durante e depois. Os caboclos
e os cabras e os maganões são pra essas coisas. Uns acreditaram e deram ideias
novas. Outros nem acreditaram em tudo e nem acharam graça em nada.
Mutum ficou
requentando essas versões até chegar a manhã. Vomitou no carro. Nem desconfiou
como estacionou na garagem de casa sem um arranhão. Vai ver que o carro se
guiou pelo faro! Nem, nem o cheiro, foi talvez pelo costume. Ah, como o mundo
era cruel com os alcoólicos anônimos! Bebera como um gambá, como um jaratataca.
Bebera porque era líquido. Brigara com a namorada. Era um bocó, um mocó. Nem
tinha mais nada a fazer no mundo nem a ver com o mundo. O mundo e seus
habitantes precisam de sorte!
Naquela
época remota, a única via de aceso por essas bandas do Prata era o que ficou
sendo conhecida como a estrada Buarque de Macedo e olhe lá. Uma estrada de
carretas e tropas de mulas, na poeira ou no barro. Lá vinham duas ou três
carretas puxadas cada qual por três juntas de bois mansos. Lá vinha uma mula
madrinha guiando mais dez ou doze outras comadres carregadas de pacotes. Alguns
comerciantes queriam as aguadas do rio Retiro, outros se fixaram ali em torno
da capela de São João Batista do Herval, mais uns poucos no bairro Rio Branco.
Era tudo muita araucária e os viajantes diziam que chegavam no Prata por causa
do rio da Prata. O rio da Prata por causa da prata do dinheiro dos negócios.
Mutum saiu de
casa, noite de sexta-feira santa da cerveja, com a intenção braba de se
aproximar novamente de Canguaxi. Aonde Canguaxi costumava ir e aportar? Onde se
conheceram? Mutum foi e se dirigiu para esse tal espaço presumível. E como quem
nem quer nada. Se tivesse ainda o número de Canguaxi! Já rodeara a casa dela inúmeras
vezes nessas últimas horas. Nem pensava em Canguaxi desde muito, mas agora a
tentação começou a mandar nos seus propósitos mal resolvidos. E desabafou:
- Sou um
homem, logo nem posso sobreviver sem mulher diariamente!
Olhou em
volta, desassossegado, realmente preocupado. Completou, de si para si, ali por
volta da rua dos Imigrantes e dentro do carro da mamãe:
- Sarova vai
ver que nem me rebaixo! Ah, se ela pensa que vou implorar por causa dela!...
E estacionou o carro 21h e 21min na rua dos
Ipês-Amarelos, naquele velho lugar da galera, dos camaradas, dos correligionários.
E torceu, olhou e olhou e observou, torceu para que Canguaxi aparecesse,
estivesse ali.
- Será que
Canguaxi está dando sopa por aí entre os magrinhos e bundinhas? - se
perguntou.
Foi, então,
até o boliche Cipotânea onde uma vez costumavam frequentar. Esperou, olhou,
observou, procurou e tomando o seu samba suado e geladinho. Por enquanto nada.
Melhor, foi bebendo sua mistura de refri com cachaça ou outro destilado
qualquer. Mutum era cheio de vontades? Nem, imagine! Então, apareceu uma
conhecida. Então, chegou uma conhecida. Mutum nem tocou no assunto, nem tocou
no assunto. Depois acabou abrindo o bico, abrindo o bico.
E rogou, implorou, insistiu a essa amiga comum
Bicuíba-Cheirosa que telefonasse a Canguaxi. Do outro lado Canguaxi nem
acreditou. Veio correndo. Chegou depressa em vinte e três minutos.
Canguaxi já nem
pensava mais em Mutum fazia um ano e meio, ou seja, várias décadas, mas agora
as coisas tomavam um rumo de história de folhetim. Isso era lógica de lenda, de
filme de cinema, o que a animou sobremaneira e a fez acreditar no jogo das
estrelas das cartas dos búzios da mãe-de-santo lá no centro de umbanda.
Canguaxi acreditou, acreditou.
E quando se
viram. Nem se abraçaram, nem se beijaram e nem se tocaram de modo algum. Trocaram
três beijinhos para casar. Por enquanto. Mutum estava meio sem jeito. Por
enquanto. Canguaxi fixou os olhos nele e nem desgrudou e nem largou. Canguaxi
comia os raios de luz dos olhos dele. Os dois, pelo menos no começo, por
enquanto, ficaram tentado buscar a velha sintonia, recompor os velhos assuntos,
encontrar a mútua confiança. Por que tinham se separado mesmo? Ela molhou os
lábios. Ele viu ela molhar os lábios e aquilo já já era bom.
Mutum pensou
ou fez que pensou, deixou o pensamento pra lá. Então, Mutum contou uma outra
história. Nem uma mentira, e sim uma outra história. E Canguaxi quis acreditar
e acreditou, acreditou. Mutum se sentiu nas nuvens, caminhando com pernas longas
olhando respirando acima das nuvens mais altas, era esticar as mãos, era pegar
com as mãos, perguntou:
- Que tem
feito, Canguaxi? Aonde tem ido?
Canguaxi
respondeu e perguntou:
- Nada, pois
nem tenho muito com quem sair. Você está mais maduro. Já bebeu todas?
Mutum olhou e
muito bem olhou o jeito de Canguaxi. E esta transpirava de emoção, transpirava
um bigodinho. Pegaram e saíram para dar uma volta de carro, rua Antônio Prado,
rua José de Alencar... Nem se deram as mãos, ainda. Tinham muito para se dizer?
Noite estrelada? Mutum dirigiu para os lados do bairro Basalto, foi falando de mpbu’s
que eram moda, e cuidou de escolher o melhor cedê. Aonde iriam?, se
perguntaram. Qualquer lugar estava ótimo. Foram até o shopping Canguçu olhar os
cartazes do cinema, as lojas de cedês, as lojas de bonés, as lojas de viagens
programadas para Balneário Camboriú, para o parque Sete Cidades, o Estado do
Ceará ave símbolo a jandaia...
Caminharam entre
as lojinhas e tal. Tudo decorado para natal e fim de ano. E nem pararam para
nada, ombro a ombro, olhando o chão. Com muita calma e concentração. E desceram
até o carro e se sentaram no carro loucos por um assunto novo. Ele tocou o
rosto dela, o rosto, os olhos, tocou a subida do nariz e pulou de trampolim
para os lábios dela, tocou com seus os dela.
E novamente
rodaram por umas ruas da cidade, rua Santa Catarina, rua Júlio de Castilhos,
rua Jaguaretama... A lua distorcia os fedegosos-do-mato na fila indiana da
calçada, quer saber. Apareceram os velhos assuntos, as velhas risadas, as
velhas manhas, os mesmos assuntos, as mesmas gargalhadas, as manias batidas as
manias surradas as manias das mesmas palavras.
- E daí você
foi sozinha?
- Nem. Eu fui
com umas amigas.
E depois, rua
Perdizes, rua Osvaldo Aranha... já estavam de retorno ao boliche Cipotânea. Já
de mãos dadas, de repente já abraçados, trocando beijos estalados na frente de
D e todo mundo. Pensavam em planos? Alguns, sim, vinham à cabeça, planos para
dali a pouco. Retornar para a antiga paixão parecia com história de filme
filmado antigamente: era amor de verdade, paixão de verdade, coisa de
parasempre. Foram feitos uma para o outro, um para a outra. E agora nada os
impedia de ficar juntos para sempre. Se prometeram nunca mais brigar se separar
se deixar se enganar se perder. E riam se beijando mais que tudo.
E
Mutum nem era nada romântico. Canguaxi, mais nova de cinco irmãos, sempre
estudou no bom colégio NSAparecida, acreditava em romances óbvios de filmes de cinema.
Então, os planos e acordos do mundo precisam de sorte!
Depois,
com o longo tempo, as coisas mudaram um pouco de pouso e rumos. Os carreteiros e
tropeiros e mascates já preferiam ficar no Prata, ou seja, onde hoje é o centro
da cidade. Aí prosperava uma nova colônia de poucos imigrantes italianos, alemães,
poloneses, libaneses... E o Prata prosperou melhor.
Nem
muito depois, já no outro dia de tarde, Mutum e Canguaxi se encontraram na
choperia Biribarana e na companhia de outros conhecidos. Mutum, então, numa
passada de olhos pelo ambiente visualizou Sarova. Esta já se encontrava ali há
muito tempo? Mutum já ficou confuso. E ficou com vergonha. Sentiu que algo ia
acontecer e precisava acontecer. Sarova seria capaz? E Canguaxi seria capaz? E
ele mesmo seria incapaz?
Mutum ficou
sem saber se tossia ou se mugia ou se dava meia-volta volver cento e oitenta
graus. Nessas horas é que as pessoas param para ver como os conflitos humanos
são ridículos, pobres, mentecaptos, cenas de circo. E ridículo era pouco.
Haveria mesmo a cena de despeito? Mutum queria saber se a mão nem tremia caso
bebesse, bebesse muito. Mas já estava bebendo e tremendo e bebendo e tremendo.
No fundo,
Mutum queria que acontecesse uma coisa para ele assistir, um barraco, um rolo
qualquer, porque nem suportava mais tanta inércia. Assim como uma necessidade
secreta de ser pego num crime perfeito. Sarova o encarou séria, aparentemente
calma e calma. As duas garotas, olhando bem, pareciam muito solitárias e sem
futuro algum. Determinadas em quê? Ou será que Sarova nem queria mais nada com
ele? Mutum estava confuso. O mundo precisa de sorte!, eu diria.
Canguaxi tinha
outro cabelo ultimamente, e Sarova parecia mais pressurosa. Canguaxi nem sabia
e nem tinha ainda visto a rival. Rival é palavra de canção de balada dos anos
60. E a cada beijo ou agrado de Canguaxi Mutum instintivamente olhava para
Sarova. E de repente Mutum nem viu mais Sarova nenhuma. Sarova sumira. E Mutum
a procurou com os olhos, preocupadíssimo. Mutum e Canguaxi ficaram meio
agarradinhos por mais uma hora; ele ficou no ar por mais uma hora. Ele já nem
tinha mais coração, fígado, pulmão.
Sabe
aquela ponte antiguíssima de madeira de guamirim e que resiste ali perto no bairro
Rio Branco, sobre o rio da Prata? Aquela mesma que os carreteiros atravessavam
desde os antanhos? Sabe aquele brinquedo do elástico em que as pessoas se atiram
da ponte para o abismo? Pois é. Ali mesmo nesse lugar já pularam pessoas, já
pularam pessoas em dupla, já pularam pessoas em motos, já pularam pessoas em
bicicleta, já pularam pessoas abraçados aos seus animais de estimação, já
pularam pessoas com fé e sem crença nenhuma, já pularam pessoas sem o sinal da
cruz, já pularam pessoas sem o elástico. O mundo precisa de rio!
Sarova
foi à casa de Mutum, no outro dia 18 de março, no dia seguinte, uma outra
tarde. Esperou por ele conversando a tarde toda com a sogra, divorciada,
cabelos em trunfas e dona Guariúba Imbé. A dona falou:
-
O pai do Mutum mora lá em Jaru. É Roraima.
-
Então, sei lá, né, ele só vem no natal e talvez?
-
É, o Jacuraru só vem em fim do ano e um que outro, é.
-
Tráis presente e de quê?
Conversaram
as duas sobre tudo, muitas coisas, coisas de nada, mas rendeu muito
principalmente para Sarova. E sobre a relação dela com Mutum. Quem a sogra
preferia, no final das contas: ela ou aquela? Mutum por acaso morava ali e
chegou e teve a surpresa de ver Sarova batendo altos papos com a manhê. Mutum
logo sacou tudo, logo perguntou:
- Você esteve
lá na choperia foi ontem?
Sarova, muito
calma, muito civilizada, muito centrada, muito amiga da sogra:
- Queria te
ver. Acho que já tá na hora de a gente reatar. Eu nem posso sem você e você nem
consegue nada sem mim, essa é a verdade e temos de reconhecer.
Mutum estava
mesmo confuso. Ou só querendo ganhar tempo, já que a história estava ainda sem
gritos, unhas e gritos, uivos e palavrões. Mutum se sentiu disputado. Podia ser
a primeira vez, mas também a última vez. Nada melhor para um ego em ascensão. E
nem nada no mundo de mais interessante para o crescimento de um machochô. E ele
disse:
- Nem tive
culpa. Esqueci mesmo a droga daquele número na carteira.
- Esquece,
meu tudo! Vamos botar uma pedra do tamanho de um trem nessa história do
telefone.
Então,
precisaram muito sair e conversar eles dois sós. Mutum nem achou a camisa
preferida e reclamou com a manhê. E dona Guariúba Imbé avisou que tinha
realmente esquecido de mandar passar. Assim, Sarova pegou a camisa e ela mesma
foi tratar de passá-la a ferro. E fez mais. Lavou toda a roupa suja. Mutum se
emocionou, enquanto assistia tevê, enquanto botava um cedê de mpbu, enquanto assistia
os melhores e piores lances da rodada. E Sarova passou toda a roupa de Mutum,
que nem era muita mas já era um grande favor que fazia de boa vontade. Mutum
teve tempo de preparar um chimarrão, enquanto Sarova passava a roupa. E Mutum
fez a barba e tomou um banho demorado. Ainda, Sarova escolheu o perfume. Só
assim saíram para um rolê de carro.
E o colégio
11 de Agosto e a rua Castro Alves, rua Jaguaribara... devagar olhando para
fora, ouvindo as mpbu’s mais engraçadas mais solicitadas. Os gervões-roxos se
derretiam ao sol, também as ariauás. Três quatro horas e mais minutos de alguma
coisa da tarde. Sarova, classificou, plastificou, descolou, falou:
- Mutum, olhe
bem dentro dos meus olhos.
Mutum parou o
carro num estacionamento transversal da rua Veranópolis:
- Estou
olhando e sinceramente...
- Me olhe
muito, que isso é sério.
E se beijaram
com força e vontade, como nunca, com garra puxando os cabelos. Como nunca é modo
de dizer, pois se conheciam de muito. Com doçura também. Mutum estava sem
palavras. Sarova suava emocionada. Agora ele podia comparar o gosto do beijo de
Sarova.
E ficaram se
olhando de perto e meio no calorão do interior do carro sem ar condicionado. E
se prometeram nunca nunca, mas nunca mesmo, e com juras, nunca mais brigar e
bobear e separar. E se prometeram fidelidade até o fim dos tempos, fim dos
tempos. Sarova jurou assim:
- Mutum, você
é o meu sol, o meu amor, o meu guia e meu tudo!
- Sarova, você
é a flor melhor do jardim, o ar puro que respiro, a dona perfeita para o meu
destino, o que for!
- Eu nasci
para ser toda sua e até o fim dos tempos!
- Eu nasci
para te levar comigo até lá na eternidade!
- Até a
eternidade dizer chega chega!
- Ou mesmo no
céu no céu!
E continuaram
por um bom tempo se beijando desesperadamente. Mutum segurou o rosto de Sarova
com as duas mãos. Ela tinha um olhar doce doce como de passarinho qualquer,
corruíra, por exemplo. Mutum teve outra ideia:
- Quero
morrer antes de você, Sarova!
- Nem falá,
seu bobo! Morreremos é mesmo juntos e abraçados!
Aí, se
encararam, olho no olho, e se olharam um no fundo do olho do outro, ou melhor,
um na alma da outra. Até que um piscasse primeiro. Sarova nem falou, mas queria
ser toda mordida. Ele nem falou, mas queria apertá-la no pescoço. E ela e ele
já podiam pensar noutras chances que a história ia poder falar.
Há
pessoas que já viram isso: aqueles halos, ou auréolas, os nimbos, que voam ou
gravitam em volta dos santos católicos. São milagres. Querem dizer coisas de D.
Que fazem parte de milagres e são de D. É, são milagres. E eles precisavam ir
na farmácia mais próxima. O mundo precisa de sorte!
Mutum
telefonara para Sarova dizendo que passaria às 16h. Sarova esperou toda
arrumada, preparada, etc. Aonde iriam? Por aí, passear de carro, olhar as
vitrinas nas lojas em torno à praça da Bandeira, entrar num bar e beber um samba.
Sarova fazia hora, ia à janela e olhava a rua Cristo Rei, sentava na frente da
tevê e lixava as unhas, ouvia um cedê de mpbu. Trocou a calça justa por uma
saia até o joelho, vermelha, inédita. Diante do espelho, do espelho:
- Tô mesmo
legal, tô mesmo deslumbrante?
Sentou no
sofá veludo azulzinho, em frente da tevê, ouvindo mpbu, folheando revista.
Mutum nem vinha mais? Telefonou, confirmou. Se pendurou à janela. Mutum chegou
lá embaixo e travou bem junto do meio-fio, 16 e 16 horas e minutos. Sarova
comemorou e saiu correndo mal o carro apontou.
Ele já tinha
pulado fora do carro, ela veio sorrindo e se abraçaram pra todo o mundo ver.
Trocaram agrados e biquinhos e selinhos estalados lá na última cena do filme. Aonde
iriam? Embarcaram e deram voltas pela cidade, rua Protásio Alves, rua Visconde
de Mauá... o som mpbu nas alturas. O sol derretendo sem piedade aqueles jacarandás-cabiúnas,
aqueles mamangás, aqueles cajatis, aquelas tatajubas-de-espinho... Sem saber
como, deram com o estacionamento do shopping Canguçu. Olharam vitrinas
decoradas com motivos patrióticos. Sentaram na praça de alimentação. Um olhava
pra cá, o outro observava pra lá. Dois chopes, batatas fritas, sorvetes tricolores.
Passearam pelas lojas, parando nas vitrinas
mais iluminadas, subiram uns andares de escada rolante, desceram, pararam na
frente dos cartazes do cinema. Foram ver os filmes em cartaz. Escolheram um do
agrado de Mutum e entraram. Abraçados, e beijos na boca nos intervalos da
pipoca com sabor chocolate. Sarova bocejou duas vezes em quinze minutos, cinco
vezes em trinta minutos, oitenta vezes em uma hora e quarenta de filme filmado
na favela do Guaporanga; Mutum agarrado ao seio direito de Sarova apreciava o
filme com solenidade. Pegaram e saíram, mãos dadas.
- Você quer
viajar comigo para os Pireneus?
-
As europas, hein?!
-
Quase, meu bem. Serra dos Pireneus em Pirenópolis, conhecer Goiás,
principalmente o rio Corumbá.
-
Você sabe que tudo que é meu é seu, tudo que é seu é meu.
No carro escolheram um cedê mpbu. Rodaram pela
cidade lentamente, rua 24 de Outubro, rua Vista Alegre do Prata, rua Érico
Veríssimo...
Mutum e
Sarova pareciam e estavam já feitos um para o outro. A tarde se esgueirou pela
noite. E também satisfeitos uma com o outro. Itus e ginjeiras-da-terra se
derretiam e pediam água na boca da noite.
Foram para a
casa de Sarova e comeram pizza de sardinha. Mutum achava a mãe de Sarova, dona
Itacuã, muito parecida com aquela atriz do filme do samba de raiz na favela do
Guaporanga. Principalmente quando sorria. Até que a eternidade os pulverizasse.
E
que ninguém vá pensar que escapará. E ninguém escapa mesmo. Jesus nem morreu.
Maomé nem morreu. Buda nem desidratou. Os passarinhos morrem. As árvores morrem
sob a vista do sol quente. Tão simples tão complicado tão antigo que ao mar
retorna o mar. O rio a sorte por acaso.
***
-
Vou até lá.
Eu nem falei?
Naquele tempo era tudo som. Qualquer coisa de bom que sugeria festa já era
proposto fazer um som. E a gente chamava de som e mais nada. Som para
aniversário, som para comemorar fim das aulas, som para fim de ano, som para
ver a seleção jogar, som para atrair gurias.
Eu
mesmo via o que o país via.
Bastava
confortavelmente olhar o dia em claridade e amplidão e competência. E navegar
uma experiente aeronave de janelas abertas. E festejar como as árvores a
aproximação das aves com as nuvens mais altas.
Um
sábado à tarde na garagem dos irmãos Ariquemes, casa dos pais deles. Quando
cheguei já tinha uma turma me apontando copo de samba, caneca de chope, cigarro
de maconha.
Theobroma
de penteado novo, eu achei linda ali na hora, de repente. Ela deslumbrante e
comprometida. E já sabia todas as coisas.
Um
dos irmãos Ariquemes tinha um papagaio-charão no ombro. E eu falei por falar:
-
Cuidado com o Ibama, hein, meu?!
-
Nem tem nada nem, carinha. Tá vendo aqui o anel na canela?!...
Praticamente
todos estavam marcando seu par em
cima. Sem folga porque os gaviões-das-taperas estavam
rondando. Eu rondava como quem nem queria nada. E nem vi gatinha sobrando e
mais nada. Olhei e dei umas voltas no espaço. Havia toda a escala da fauna e da
flora de zero a 10 desde a beldade passando pelas minhas parentes até uma ou
outra cobra-jabuti. O som saltava das caixas com muita fúria e tudo que era
tipo de batuque.
Parecia
que nada ia acontecer e nem nada ia dar certo.
Aí
eu a vi. E também me viu e deu risada. Eu mostrei um copo de cerveja e ela fez
sinal que só bebia refri. Me aproximei. Tinha uns peitos e tal. Tudo bem tudo
bem de zero a dez eu estava começando a beber dava uns seis e meio com louvor
para os quadris estreitos. E mais tarde eu de jeito nenhum nem estava bêbado
até atribuí um oito com louvor para os olhos negros como a noite.
Se
dançava em grupo, em bando, como na tribo, como na tribo dos tupiniquim, dos
tembé, dos tupari e quase todo mundo que queria dançar pulava aí como índio
pulava lá.
Convidei
a Pareci para pular na tribo. Ela se alegrou, e riu, rimos como dois festeiros.
Eu me livrei do copo e fomos pular. O nome dela era Pareci. E tinha um corpo depois
de um tempo praticamente mortal.
Mas
assim mesmo parecia que nada ia acontecer nada e as horas 17:17 nem passavam.
Uma
hora estávamos parados na porta da garagem, eu e Pareci, quando aconteceu de eu
perguntar:
-
Você nem é daqui, né?! Eu mesmo nunca te vi.
-
Eu cansei de te ver por aí. Você nem foi aquele que caiu da bíci outro dia lá
no posto de gasolina, oquei?!
Pensei,
pensei e me perguntei muito baixinho para ninguém mesmo ouvir: o que que vou
fazer, meu?!
E
nos beijamos foi sem esforço atentamente e nossos lábios saborearam
deliciosamente apropriadamente adquiridamente o gosto dos ambos os dois. E
durante semanas fomos conversando sempre antes e depois das aulas. Um dia no
mês íamos na manhã festiva até a praça Lupicínio Rodrigues abraçar as almas das
árvores e achando tudo muito inaugural e maravilhoso e década de 80 e
aconchegante.
Depois do som,
a galera pensou em dar um rolê pelo centro, ir ao cinema, ir comer num
cachorrão, fazer outra coisa, enfim. E decidimos isso mesmo e fomos. Mas a
Pareci nem queria me largar.
Nos
olhamos, nos abraçamos, nos olhamos de perto, nos abraçamos com mais, nos
beijamos no rosto. Pareci sorria um meio sorriso, ouvia dois meios ouvidos,
olhava dois meios olhos, ou seja, ternura ternura.
Às
seis e meia da tarde o sol já estava chutando o pau da barraca das horas do
dia, praticamente.
Nuvens
de água evaporada, homem colhendo ervas no barranco perto do riacho, um cão de
mãos às costas passos pra lá e pra cá dentro do cercado gradeado da casa branca
com janelas azuis. O homem caminhava entre sombras de peixes prateados o cão telefonava
para uma pizza com sardinha e calabresa a nuvem estufava as velas de caravelas
carnavalescas. Depois eles todos inclusive ficaram cercados pela noite que
vinha e subia do fundo das coisas enterradas. O cão abriu o portão o homem
disse boa tarde como vai a nuvem desceu mais um pouco arrastando os cabelos no
chão e todos entraram na barriga tatajiba da árvore frondosa do quintal.
Bem
no meio da minha consciência e do espaço do mundo do espanto das andorinhas
incidentais abri os braços em hélices em polichinelo os quatro pontos cardeais
os quatro cantos do vento as quatro faces do universo as quatro cores
principais.
***
Eram
as aulas noturnas e graças aos mesmos bocejos todos maiores e trabalhavam
durante o dia a dia.
Convidamos
Enigmática para ser a rainha da sala. Ia ser legal coisa e tal. Nem aceitou.
Mas...
-
Mas você concorrerá à rainha do colégio, guria! E todas as despesas por nossa
conta, oh, mina!
Ela
falou que nem podia, que nem tinha jeito pra isso ou seja nem podia. De cabeça
feita. Nem era do seu estilo e nem podia. E nem havia o que inventar para
atraí-la. Ela nem queria nada com nada. Ela era autossuficiente. Nem podia
aceitar e nem podíamos convencê-la. Nem queria se misturar, ou melhor, nem
queria se comprometer, nem se envolver, nem se dar às ousadias. Mas...
-
Mas você ganhando concorrerá à rainha dos colégios da cidade, oh, linda! Pense
bem, seu!
Se
negou, se negava a participar. Fazer o quê? Nem queria. E só a visão que eu
tinha da cidadela me deixava contente, esperançoso, vivo e até alegre. Sem que
o dia me cansasse. Perto dela qual cansaço qual nada! E nem queria dar o
bracinho a torcer. Nem queria saber de concursos de misses e tal e coisa brega
e tal. Mas...
-
Mas ganhando você pode chegar à rainha dos colégios do Estado, gente! Regula aí
sintoniza aí, vai, mulé!
Nem
queria e nem pensar. Nem era do seu agrado. Nem se importava. Sabe, toda noite,
horário de aula, e admirá-la, mesmo pelas costas, me acalmava, me aliviava, me
relaxava o cérebro, me agradava. É como o ar que se respira. Era como uma
promessa. Era como uma viagem em excursão à cidade de Foz do Iguaçu. Uma visão
de tesouro navio encalhado no fundo do mar a visão dos corais e peixes
coloridos. E fazer o que se nem queria ser rainha? Abraçá-la? Nem, nem queria e
eu teria raiva se ela fosse querer. Ela nem queria, nem precisava querer. Nem
queria. Mas...
-
Mas você vai ser com certeza, e olha o que lhe digo, a rainha dos colégios
todos desse imenso país, garota! Te liga, meu!
Nem
e nada. Nem desejava tal coisa pra ela. E chega, vai! Nem queria e já estava
decidido. Jamais! Coisa se viu! Nem queria e já estava toda decidida. Agora,
seus olhos de cascata pouco brilhavam, ou pouco esclareciam, quando estava com can-sa-ço.
O olhar já aéreo. E nada de nada de querer participar do rainha. Nem, esquece!
Mas...
-
Mas você pode concorrer à rainha dos colégios do universo, oh, santa! Nem vê
que o poço do sucesso nem tem fundo, cara!
Quantas
vezes nem? Um milhão foi pouco? Precisava repetir até quando, até o quilômetro
cinco mil? Nem queria por fim. E tanto nem queria, e estava certa disso, que
até achava engraçado tanta insistência e persistência. E passou da teimosia e
da raiva até chegar no riso frouxo. Engraçado nem, achava ridículo. Nem a
enchessem o saco. Nem queria e pronto, falei. Nem via a porta. Suspirou de tédio,
até. Mas...
-
Mas você chegaria com facilidade à rainha dos caminhoneiros, garanto, e com
procissão de buzinaço! Acorda com o barulho, menina!
Que
nada, nem aceitou e ficou esperando a paciência, e ou os insistentes se
acalmarem, pararem, esquecerem, desistirem, se mancarem e fecharem a boca. Nem
aceitou mesmo e pronto e por dias e dias. E só continuamos a olhá-la porque ela
era muito diferente das outras, muito linda mesmo, sempre atraente, qualquer
coisa lhe caía bem.
Enigmática
nem aceitou. Nem se levantou nem da carteira para ficar nervosa, para agradecer
a preferência, a escolha, a indicação. Nem se dignou se erguer da cadeira. Nem
desistiu jamais do nem. E achei eu mesmo lá na horinha que ela até nem devia
nem mesmo um agradecimento para a galera que tanto a queria e tal.
Então
tá, né?! Quanto mais se conhecia a tal de Enigmática, melhor. Até porque, por
mais que se conhecesse a tal misteriosa Enigmática, era pouco.
Vi
muito bem quando ela molhou os lábios e fez um muxoxo de impaciência. Ela era
linda porque muito bonita até nos detalhes. Cabelos livres, leves e luminosos
como devem ser da idade.
Aí,
fomos ao plano b. Convidamos a Taiaçupeba. E ela aceitou. Taiaçupeba ficou
surpresa com o convite. Ficou eufórica. Restou vermelha. E riu sem parar. Uta!,
como riu. Ria mostrando todos os dentes, toda a boa e vasta dentadura. De um
jeito que se podia ver que estava muito atriz. Rindo, fincou:
-
E vocês vão me apoiar com tudo e nem vão me deixar sozinha, lá no desfile, né?!
E aconteça o que acontecer e seja o que D quiser, em?!
Imagine.
Nós evidentemente prometemos, até porque os maiores interessados éramos nós, a
turma toda, enfim. E a acompanharíamos em tudo e por tudo. Tudo por nossa conta
e tal. Porém, ela continuava a insistir e a todo momento, passado um instante,
e voltava:
-
E vocês nem vão me deixar esquecida lá no desfile se eu perder, se eu cometer
uma escorregada, né?!
Olha
só como ela ria! E ria muito. Muito simpática. Um corpo bem desenhado, esbelto
como palmeira carandá, peitos para frente e ao alto, europeia, vibrante, fio
dental. E ria. Nos olhava e ria. Que alegria! Que simpatia! Sem se esquecer de
buscar ou apurar:
-
E vocês nem vão me deixar no frio olhando para trás, nem me deixar preocupada sem
pai nem mãe, né?!
Fomos
muito bem, ou quase otimamente, com a bela Taiaçupeba. Tiramos o segundo lugar.
Só a Taiaçupeba - que nem precisava -, mas se desculpou:
-
Sinto muito, gente. Eu fiz o que pude.
-
Que que é isso, Taiaçupeba! Nada a ver. Foi tudo muito ótimo. Ganhamos o
segundo lugar contigo e foi excelente e ganhamos de quebra o primeiro lugar de
torcida mais animada. Dois troféus que ficarão lá na sala de aula. E foi tudo
muito divertido.
Se
houve aquilo e outras coisas por lá, por quiçá, nem deu pra ver. Mas houve
bagunça da boa e nos conformes. Tanto que outras pessoas nos elogiaram nos
cumprimentaram. As torcidas organizadas bagunçaram todos muito bem. E ganhamos
como torcida mais extrovertida e mais empolgada e mais eufórica. E perdemos
para o primeiro ano A o concurso de rainha. Só a Taiaçupeba se desculpando:
-
Sinto muito, galera. Eu fiz o que estava ao meu alcance.
Perdendo
o primeiro lugar no concurso perdemos a vez e a oportunidade de concorrer à
rainha do município. E chegar, quem sabe, à rainha dos municípios dos gaúchos.
Nem se pode ter tudo que se deseja, nem é mesmo? Só a Taiaçupeba se descontava
se detestava:
-
Sinto muito, meus queridos. Eu dei tudo de mim e mais um pouco.
E
Taiaçupeba - nunca esqueci - baixava a cabeça e dizia sem graça, quase se
emocionando, se desculpava:
-
Dei tanto tanto de mim, turma, que até sinto dores nas costas.
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