terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 26




No Lugar das Estrelas Nadaram os Peixes

            Um ano se passou. E alguns meses. Estou no segundo ano eis o segundo ano técnico contábil. Foi um, veio outro ano. Um ano inteiro, mais uns meses, triturado pelo tempo-rei. Um ano se esfarinhou no ar, caiu em desuso, obsoleto, 1001 a hora local. Caiu no ocaso, fruto do acaso, até interessante de contingências.
            Mais uma vez era o começo de novo de outro amanhecer.
            Que D? Nem há D, e pronto! A história de cada tal e qual é um jogo. O que é que eu ia fazer naquela horinha?
            As pessoas, na rua Corixa, o bairro Basalto, caminhavam lentamente por causa do calor. O calor aumentava a preguiça. A preguiça era boa na sombra. A preguiça é boa na sombra. A preguiça-de-bentinho se alimenta das folhas de embaúba-de-vinho.
            Isso muito já me interessava. Pois dentro do país as cidades e os pontos turísticos geográficos topônimos. Das cidades os bairros as ruas superestruturas. Dos lugares as montanhas os rios as cavernas. Das matas os bichos as árvores as trilhas. Sempre pensei que isso tudo me interessaria.
            Eu fora ensinado para acreditar em tudo que passasse na tevê, lesse nos livros, os mais velhos falassem, as canções cantassem. Mas nem sabia de nada. Nunca sabia. Nunca entendia. Sem perguntar. Nem nem mesmo uma só certeza.
            Sempre tive e tenho fantasias maiores que o olho da barriga.
            Encontrei um vira-lata e fomos andando na calçada a começar da rua Itália. Depois o cão latiu mais de uma vez insistente como se quisesse me chamar atenção para algo necessário e urgente me dizer alguma coisa. Eu parei prestei atenção e nem entendi nada. Continuei meu caminho firme no meu propósito displicente e ele tentando me encher a paciência. Pronto, o cão queria me dizer alguma coisa. Ele parava na minha frente trançava minhas pernas me fazendo tropeçar porque tinha algo para me decifrar. Tem algo a me dizer, pensei. Entrei numa casa de carnes e comprei o melhor osso que pude. E foi até aí.
            Aliás, vendo como via Enig-mática fazer as coisas e sorrir, vendo como pra ela tudo era de mão beijada, eu me assustava me sentia um grão de areia boiando no escuro ao vento.
            Ficava pensando e chegava a uma conclusão de nada. Nem me abalava. Sabia que tudo nem era nada. E eu nadava numa piscina olímpica.
            Certa feita peguei o avião um pequeno teco-teco e sobrevoei a região da cidade. O vento batendo nas minhas asas o azul do ar impagável as raras nuvens bem alto na estratosfera. Mas nem tive outro pensamento lacustre. Já sobrevoava a capela São Roque e em breve o rio da Prata.
            Eu ia seguido de avião teco-teco a Cocalzinho de Goiás, tinha negócios em Tubarão, tive menina chamego a Cendira em Araguanã, visitei aqui perto em Galinhos, sócio do parque Pedra da Boca.
                                                                       ***
            Cheguei em casa abrindo a porta da frente, aquela que se entra direto da rua. Escolhi a chave e fui abrindo a porta. Pronto, entrei brincando e estava de volta.
Durante o dia eu saíra, fora para lá e para acolá, etc. E depois eu fiz e desfiz e andei mais um pouco até onde quis pra cima e pra baixo e almocei no restaurante Paquetá do meu amigo Biguaçu. Almocei sem pressa, conversei, paguei (que ele nem me deixou de cobrar) e saí para continuar o pega da tarde.
Eu tomava conta do meu único e obsessivo pensamento: Enig. O ano muito quente de verão depois de um inverno muito frio em pleno calor extremo em 85.
Me lembro que olhei as horas no pulso diversas vezes. E voltei pra casa, abri a porta da frente, escolhendo a chave certa, o dia ganho, o dia cumprido, o dia comprido, o dia perdido, o dia encontrado, o dia esquecido.
- E tudo isso eu fiz foi hoje, meu! - pensei.
            Eu era uma pedra. E achava que devia morar nesse lugar até o mundo terminar em barranco.
            Enigmática, esse o nome dela e que a gente usava para apresentar a sua última aparição entre nós sua última encarnação olhar de misteriosa. E a mais que perfeita, obviamente.
            A genealogia de Enig já demonstrava suas evoluções ao longo e desde a raiz até as folhas. E ela era uma vez as diversas etapas dessa chegada aqui ali entre nós. E havia passado por outros seres outras pessoas outras coisas até limpar tudo purificar finalizar lindeza em alto nível em E-nig-má-ti-ca. Ela foi gente foi bicho foi inseto foi árvore, nem necessariamente nessa ordem. Então, até aqui até ali fora milhares entre idas e vindas. Depois ela foi ver o aparecimento das cachoeiras nos rios. A seguir ela foi ver a arapoca botar um ovo que virou a lua. No verão ela foi até a praia chapéu elementar ver a inauguração de Jijoca de Jericoacoara. Estava presente e sorridente no dia lugar e hora do teleférico do Pão de Açúcar. No doce dia 12 do ano da graça na localidade de Vila Maria do ponto de vista da praça Piratini ela transformou a vinda das estrelas em pássaros. Aproveitou a evolução do avião desde a observação dos pássaros até o superjatinho. E nessa pele nova aqui ali nem dizia nada bonita linda de todos os seus passados ultrapassados melhorados.
            E o sol um animal geral e ele disse do ponto mais alto de um lugar privilegiado ele mesmo uma autoridade universal ele irradiou:
            - Você range, você grunhe, você late, você coaxa, lambe, morde, cheira, ri, caminha balança nada voa...
                                                                       ***
            E sem pensamento espelhei o meu olhar constante parado tranquilo e esperei que algo acontecesse. O que o que acabei dormindo.
            O Cambuci índio antigo dos caripuna-do-amapá ajudado pela natureza da floresta ele foi se lembrando pedindo ajuda aqui e ali de palavras de nomes os animais as árvores nomeando o mundo inaugurando as coisas a manda-lua o sumaré-do-campo a arirambinha a macambira o rato-de-espinho o bico-de-veludo a arara-do-nordeste o tucunaré...
Nem me lembro bem do sonho. Mas foi um sonho. A turma toda estava brincando dentro de um cercado. Brincando de quê? Talvez jogando bola, talvez comendo laranja, talvez roubando melancia, talvez azarando as gurias, nem sei mais.
            Esse cercado era um labirinto. Cheio de trilhas e sendas e passos e tal. Nós estávamos completamente presos e sem saída. Sem saída porque dentro do labirinto só conseguíamos pegar a própria cauda. Um gavião-carijó uma onça-parda fugida do zoo um ser lendário ou sei lá nos prendia ali dentro. E o monstro jurupari vinha para nos atacar. Era perigoso. Era repetitivo. Era brincadeira de boi-bumbá.
            O sol até que enfim apareceu o sol apareceu por fim apareceu o sol as aparições das cores o mexer-se das cores umas ainda úmidas.
            Aí, de um lado nem havia saída, do outro lado a anta e seus filhotes. O que nós podíamos fazer, e tentávamos fazer, era encarar a anta e seus filhotes. Nós os empurrávamos para trás, e a família era muito forte, eram mais fortes. Tentávamos empurrá-los, mas eles eram muito fortes unidos testemunhas coro júri torcida organizada. Todos juntos de um e outro lado. Empurrávamos de cá e eles de lá, todos juntos. Eles atolavam as garras no chão e era um sacrifício desenterrá-los dali.
            Saí fui trabalhar andar pelas ruas passear caminhar as ruas um bando de papagaios-de-fronte-azul voava para oeste tudo por volta das 9 e 9 avistei de longe uma padaria fui me aproximando e entrei. Pois no lugar das estrelas vieram os pássaros. Pois em perseguição às estrelas chegaram os pássaros.
            A anta e seus filhotes nem saíam do caminho e nós nem tínhamos saída. Estávamos encurralados. Atrás só a parede lisa e pintada, a cerca de arame farpado espinhosa, o abismo do poço escuro, o buraco da pedreira pedregosa. Tentávamos travar com os pés com as mãos com as garras como eles faziam mas em vão pois derrapávamos pois deslizávamos ladeira abaixo.
            Começou a chover e as árvores se molharam. Os pássaros cantavam como se nada soubessem de tudo.
            E a majestade do sol e a princesa da lua os longos cabelos de Enigmática os olhos todos da natureza, jequitibá, jerivá, sibipiruna, tucum-do-brejo, bagaceira...
            Me lembro eu mesmo que eu mesmo tentava empurrar a família da anta com as minhas forças meus braços minhas mãos. Era difícil era quase impossível. Ela era forte e apoiada na família e mamífera e paquidérmica e vegetariana. Uma temeridade. Os dentes o focinho me farejando os olhos me fuzilando.
            Muita voz entre uma coisa e outra entre uma rua e outra. No lugar dos pássaros vieram as estrelas. Pois os pássaros papa-lagarta, ferrador, zorro, beija-flor-azul-de-rabo-branco, grimpeiro... sumiram durante a aparição das estrelas.
            Sonho que, aliás, nem entendi nada.
                                                                       ***
            O sol forte sugava a terra o ar ondulava e tudo numa miragem de nuvens de vapor.
            Nem dava para olhar muito longe.                              
            Mutum passeando de carro, ouvindo mpbu, pegou Sarova: e foram ao shopping Canguçu ali no bairro da Santa Cruz, a rua Tapeba, a rua do Trabalhador... Fazer o quê no shopping? Se viam, se encontravam, se cheiravam, se falavam todos os dias, todos os dias.
No Canguçu olharam cartazes de cinema. Mutum nem falou da preguiça de estudar história do Prata. Sarova prometeu pela milésima vez: que ano que vem tentará vestibular para psicologia. Era o seu sonho passar na Federal. Estava estudando para isso. A universidade de Santa Maria ou a universidade de São Sebastião do Caí, a de Pelotas, a de Rio Grande, os talvezes. No fim do ano o Mutum irá pedir o favor para trocar o som do carro, e que sua mãe já prometera. Três horas e tanto da tarde 15:15 hora e minutos de coincidência.
 Perambularam desfilando sofisticados e rebolando pelas lojas de novidades, etc., manequins sem cabeça, mostras de cosméticos, vitrines decoradas com asas de todas as cores verdes, vermelhas, inclusive cores que nem se misturavam mais, etc. Cada qual com três bolas de sorvete quase se derretendo na mão. Pessoas entrando e saindo, pessoas mais passeando que comprando. Que horas? O que era o namoro dos dois indivíduos? Mãos dadas. Aqui, aqui e ali, se bicando aos beijos na boca como par inseparável de dois guaxes de casal perfeito de bicudinhos-do-brejo.
 Outra vez Mutum descansou o braço no ombro de Sarova. E esta na cintura dele. De propósito um beijo estalado. Nem foram ali para ver cinema? Para ver os lançamentos de mpbu?
 Caminharam, subiram escada rolante, elevador e foram andando sem pressa, e quando se deram por conta estavam no estacionamento. Sarova passou a mão na bunda do Mutum. Mutum se fez de desentendido. A tarde na sombra. A sorte nem disfarça e o tempo nem passa!
 Sentados dentro do carro ano 98, novo, preto, 4x4, quatro portas. Sem saber para onde. Mutum ligou o som. O que fazer? Ainda bem que ambos gostavam de curtir de ouvir de mpbu’s.
E já rodavam pela cidade que já os conhecia desde sempre, rua Capoeiras, rua Jacaré dos Homens... As pessoas sempre nos mesmos lugares, rua Tiradentes, rua Pinheiro Machado, rua Brasil... Sem uma alegria maior, sem um prazer ótimo, sem entusiasmo, um jardim geralmente pequeno na frente da casa, trepadeira guarumbé subindo pela gameleira-branca, galanteios de sabiapocas, rua Portugal, rua avenida Imperatriz Leopoldina... Os dois trocavam uns monossílabos, uns resmungos, rua Flores da Cunha, rua dos Maragatos, rua Coroados... riam um pouco. O calor dos dias dava aquela moleza nas ideias e na alma e na lua e no mundo. Sarova procurou estações para ouvir, ouvir mpbu’s, o segmento preferido. Mutum dirigia com a mão direita enquanto a rua Júlio de Castilhos, a rua Placidina de Araújo... o braço esquerdo pegava sol na janela. Uma choperia com mesas na calçada atrapalhando o passeio dos pedestres.
Se sentaram cadeiras e mesa tudo de plástico com dois chopes, do outro lado uma árvore frondosa um pé de carne-de-vaca. Só isso? Uma pizza? Uma batata frita? O desfile do trânsito muito lento pela avenida Presidente Vargas, a principal, choperia Biribarana, mais de frente a pequenina praça da Bandeira balanços gangorras crianças irrequietas. Ali estava melhor o movimento. Era bonito aquilo tudo? Mutum, perguntou:
- Quer viajar comigo a São Paulo?
- São Paulo! No fim de semana?!...
            - São Paulo da Lagoa Vermelha, em, guria!
            - Objetivando?
            Sarova também achou bom viajar, fazer o quê. Os dois atirados nas cadeiras vermelhas patrocinadas, e riram e se beijaram na boca com estalo. E pediram uma porção de batatas fritas com queijo ralado.
            Mesa da calçada para a avenida, procissão de todos os carros da cidade, carro sujo de barro de brincar em atoleiro, moto ensurdecedora, os home da doze, bicicletas, cães desfilando com donos e donas farejando tudo... Mutum pediu mais um chope. Sarova um picolé de caju-abacaxi. A tevê gritou gol e todo mundo conferiu confirmou no replei.
            Mutum olhou Sarova chupando picolé e disse e perguntou:
- Onde eu estava com a cabeça, meu?!
- Mmm!
Muito calmo, tudo calmo, tarde sem tempo, mas estava muito calminho. O que dizer? Nas primeiras luzes da cidade retornaram à casa de Sarova. A tarde se fora, o dia se fora, o tempo, o mundo. Se beijaram na boca, mas sem fechar os olhos, mas com estalo. Se largaram aí pelas oito e meia, uma hora antes do prazo, mais ou menos. O planeta precisa de sorte!
Um rio entendia do lugar por onde pulavam pássaros, pai-agostinho, bico-de-latão, trinca-ferro-da-serra, sebinho... e falavam as árvores quataquiçaua, moreira, cajueiro-do-campo, ingarana, mapati...  e cresciam cidades cresciam completamente, Jaguaribe, Ibiá, Alto Santo, Ajuricaba... e molhando o céu de nuvens.
Bairro de Rio Branco-Maragata já foi pouso de carreteiros de tropeiros. Mais movimentado que o próprio Prata. É o que diz a História o que dizem as histórias. Ali em Rio Branco tinha uma pousada grande e famosa com muita água e assim o lugar muito movimentado por causa dos mascates que faziam a região. Subiam de Porto Alegre, São Leopoldo, Montenegro, etc., pelos atalhos e picadas, e iam para Passo Fundo, Erechim, Lagoa Vermelha, etc.
            Já depois, outro dia, Mutum e Sarova ficaram caseiros. Assistiram muita tevê naquela mesma sala. Trocando muito de canal, uma mania do Mutum, uma agonia que Sarova sabia assimilar. Sonhar o quê? Ou no quarto de Sarova ouvindo mpbu’s.
Mutum era muito amigo do cão de estimação da família. Na verdade uma cadela janauí. Nem poucas vezes passeavam pelaí juntos e contentes. Atendia pelo nome de Torba. Torba entendia de ruídos e faros, tons de voz, esfregar de passos, recados de hora marcada. Já os pais de Sarova, gente já aposentada e resolvida e pacata, seu Itaberaba e dona Itacuã, ficavam ali boiando pela casa, assistindo tevê de programa de auditório no quarto lá deles, tomando chimarrão na varanda de cara lá pra baixo na rua Borges de Medeiros dos incríveis jacarandás que florescem de lilás em novembro. Mutum pediu, preguiça de levantar do sofá de veludo azulzinho, solicitou:
- Pode pegar a carteira ali na jaqueta e ir até o caixa eletrônico ver o meu saldo?
E quando Sarova voltou, Mutum outra pergunta:                    
- E aí, tudo certo, tudo certo? Quede o extrato?
Que Mutum viu ou se ouviu a revoada de pássaros e aves a partir do ingá-verde os passarinhos ruflando as asas voando em voos rápidos certeiros diretos para a mata das árvores do mato mais próximo.
Sarova nem precisou de esforço para explodir com fúria. E inquiriu, indo direta e reta, como um tiro, como uma facada, como um raio:
- Que telefone é este?!!!
Então, ela bateu o pé, bateu os pés, e apresentou e mostrou o número anotado na tirinha de papel. Sarova gritou furiosa e com fúria e com olhos em brasa de ira incontida:
- É da tua ex, né?! É da tal de Canguaxi, né?!
            Sarova respirou fundo, emocionada, já estava vermelha e de olhos bem brasinos, e com mais raiva, e nem contendo o tum! tum!... do coração, e mais razão para ter raiva, vociferou, inclinando o corpo para frente:
            - Hein, seu mané?! Hein, seu ma-néee?!
Mutum ficou preso ao susto, ao escândalo, à surpresa. E realmente se obrigou a confirmar, apesar da lei que existe e existia e deve ser empregada e deveria sempre ser empregada nesses casos, que é de negar, negar e negar sempre, negar até o fim, negar até morrer, negar de pés juntos. Sarova quicava de ódio de furor de revolta de arara. Parecia um vulcão despejando lava incandescente, lama incandescente, explosões de barro quente:
- Nem vem com palhaçada pra cima de muá! Nem me toque!
            E mais ódio e lava incandescente morro abaixo destruindo tudo pela frente em avalancha:
            - E Mané, mané! Um milhão de vezes, mané!...                                                         
Mutum, aborrecido, pra lá de aborrecido cansado esgotado vencido quase casado ouvidos furados de ouvir gritos tentou corrigir a situação remediar virar um inseto dispensável e fugir pela janela aberta:
- Mas que é isso agora? Nem sabia, nem lembrava mais disso aí. Esqueci de jogar fora. Nunca mais telefonei pra Canguaxi...
E Sarova, cega de despeito, surda de aversão e rancor, e cheia de razão, e despejando rio de lava quente vermelha afogueada pegando fogo:
- Então, por que guardou o número, seu mané?! Desembucha e nem me atocha, mané!
Mutum, já sem saída, ouvidos furados dos berros, os sogros quietos lá no quarto, os vizinhos também quietos atrás das paredes finas, Torba pronta para latir, e o beco sem saída:
- Já disse, esqueci, nem sabia mais...
- Ou será que é o contrário: eu que sou totalmente otária?!
O clima piorou. Um fim de mundo. Era mesmo uma clássica briga de namorados. Daquelas que se vê em filme sem graça e sem assunto e que pensamos jamais acontecer com a gente de tão ridículas e fora de hora e fora de moda e fora de tempo e fora de país. E parecia que estavam brigando como nos filmes de quinta, novelas da tarde, livros de bolso em coleções de cores. E agora? E depois? Mutum nem sabia o que fazer. O que seria melhor? Como estavam antes ou como estavam agora ou como ficariam depois? Brigados? Cada um pro seu lado assim mesmo? Mutum e Sarova nem sabiam o que viria a seguir. Eram atores sem texto ou de texto improvisado.
Sarova já correu para o quarto e trancou a porta trancou a porta. Mutum saiu e foi embora e ficou aborrecido o dia todo. Seu Itaberaba e dona Itacuã, quase aposentados, pegaram e se entreolharam perplexos. Torba resmungou e se aninhou ali mesmo num canto da sala a tevê no canal do boi. Sarova teve que correr para o quarto e lá se trancar. Mutum nem teve ideia melhor e se mandou e ficou aborrecido porque era uma situação. Acontecera, porém sem crime, sem tiro, sem cabelos arrancados, sem presentes devolvidos.
Mutum chegou em casa e foi direto para a cama se atirou. E dormiu com o som ligado, as vozes os acordes da mpbu bem alto. Aí, acordou antes da meia-noite. Nem queria pensar, nem queria parar para pensar, nem queria ficar deitado para pensar. Foi na geladeira e pegou uma cerveja, sem palavras. Voltou ao quarto e detonou as duas cervejas, aumentou ainda mais o som. E a tevê, para ver alguma coisa se mexendo. Telefonaria para Sarova? Nem, Sarova que telefonasse. Afinal, nem se sentia errado, nem traidor. Nem tinha feito nada de errado e nem fora traíra. Então, disse para si mesmo, brabo e feroz como um jacaré-de-papo-amarelo:
- Qué sabê? Vou sair, e o resto que se hoda!
Pegou o carro e saiu, rua Rui Barbosa, rua Guaporé... Queria ver os conhecidos. Do outro lado da cidade, lá no bairro São Cristóvão, rua Santa Lúcia, rua São Jorge... Brigado com Sarova, e pensando bem, era melhor assim. Estava solteiro. Esperaí! Sim, era bom estar solteiro. Sentia falta de uma sombra do lado, de uma escora, de um apoio, mas era também melhor assim. E encontrou mesmo os camaradas, os cupinchas, os macanudos. E tinha seguro na ideia que nada contaria dos seus problemas. Eles nem sabiam e nem mereciam saber e nem desconfiariam e menos ainda perguntariam por que vinha só. Nem perguntariam. Nem mereciam saber.
Mutum aproveitou e bebeu todas as cervejas colecionando nomes nacionais e internacionais, e caminhou de grupo pra grupo tomando sua cerveja e tentando rir e fazer rir. Mas logo logo, depois de umas 3 cervejinhas, Mutum foi contando tudo e a todos ao redor. Sem olhar a quem. Até por falta do que falar. Até porque a língua já estava sem rédeas. E contou 33 vezes, aumentando os pontos 33 vezes, sua briga com Sarova 33 vezes 33. E jurava inocência em todas as versões. Quer dizer, em certa altura já nem lembrava se era tão inocente assim, já nem lembrava se era com ele o negócio, já nem lembrava se o Brasil era nosso. Os amigos acreditaram, e também riram antes e durante e depois. Os caboclos e os cabras e os maganões são pra essas coisas. Uns acreditaram e deram ideias novas. Outros nem acreditaram em tudo e nem acharam graça em nada.
Mutum ficou requentando essas versões até chegar a manhã. Vomitou no carro. Nem desconfiou como estacionou na garagem de casa sem um arranhão. Vai ver que o carro se guiou pelo faro! Nem, nem o cheiro, foi talvez pelo costume. Ah, como o mundo era cruel com os alcoólicos anônimos! Bebera como um gambá, como um jaratataca. Bebera porque era líquido. Brigara com a namorada. Era um bocó, um mocó. Nem tinha mais nada a fazer no mundo nem a ver com o mundo. O mundo e seus habitantes precisam de sorte!
            Naquela época remota, a única via de aceso por essas bandas do Prata era o que ficou sendo conhecida como a estrada Buarque de Macedo e olhe lá. Uma estrada de carretas e tropas de mulas, na poeira ou no barro. Lá vinham duas ou três carretas puxadas cada qual por três juntas de bois mansos. Lá vinha uma mula madrinha guiando mais dez ou doze outras comadres carregadas de pacotes. Alguns comerciantes queriam as aguadas do rio Retiro, outros se fixaram ali em torno da capela de São João Batista do Herval, mais uns poucos no bairro Rio Branco. Era tudo muita araucária e os viajantes diziam que chegavam no Prata por causa do rio da Prata. O rio da Prata por causa da prata do dinheiro dos negócios.
Mutum saiu de casa, noite de sexta-feira santa da cerveja, com a intenção braba de se aproximar novamente de Canguaxi. Aonde Canguaxi costumava ir e aportar? Onde se conheceram? Mutum foi e se dirigiu para esse tal espaço presumível. E como quem nem quer nada. Se tivesse ainda o número de Canguaxi! Já rodeara a casa dela inúmeras vezes nessas últimas horas. Nem pensava em Canguaxi desde muito, mas agora a tentação começou a mandar nos seus propósitos mal resolvidos. E desabafou:
- Sou um homem, logo nem posso sobreviver sem mulher diariamente!
Olhou em volta, desassossegado, realmente preocupado. Completou, de si para si, ali por volta da rua dos Imigrantes e dentro do carro da mamãe:
- Sarova vai ver que nem me rebaixo! Ah, se ela pensa que vou implorar por causa dela!...
 E estacionou o carro 21h e 21min na rua dos Ipês-Amarelos, naquele velho lugar da galera, dos camaradas, dos correligionários. E torceu, olhou e olhou e observou, torceu para que Canguaxi aparecesse, estivesse ali.
- Será que Canguaxi está dando sopa por aí entre os magrinhos e bundinhas? - se perguntou. 
Foi, então, até o boliche Cipotânea onde uma vez costumavam frequentar. Esperou, olhou, observou, procurou e tomando o seu samba suado e geladinho. Por enquanto nada. Melhor, foi bebendo sua mistura de refri com cachaça ou outro destilado qualquer. Mutum era cheio de vontades? Nem, imagine! Então, apareceu uma conhecida. Então, chegou uma conhecida. Mutum nem tocou no assunto, nem tocou no assunto. Depois acabou abrindo o bico, abrindo o bico.
 E rogou, implorou, insistiu a essa amiga comum Bicuíba-Cheirosa que telefonasse a Canguaxi. Do outro lado Canguaxi nem acreditou. Veio correndo. Chegou depressa em vinte e três minutos.
Canguaxi já nem pensava mais em Mutum fazia um ano e meio, ou seja, várias décadas, mas agora as coisas tomavam um rumo de história de folhetim. Isso era lógica de lenda, de filme de cinema, o que a animou sobremaneira e a fez acreditar no jogo das estrelas das cartas dos búzios da mãe-de-santo lá no centro de umbanda. Canguaxi acreditou, acreditou.
E quando se viram. Nem se abraçaram, nem se beijaram e nem se tocaram de modo algum. Trocaram três beijinhos para casar. Por enquanto. Mutum estava meio sem jeito. Por enquanto. Canguaxi fixou os olhos nele e nem desgrudou e nem largou. Canguaxi comia os raios de luz dos olhos dele. Os dois, pelo menos no começo, por enquanto, ficaram tentado buscar a velha sintonia, recompor os velhos assuntos, encontrar a mútua confiança. Por que tinham se separado mesmo? Ela molhou os lábios. Ele viu ela molhar os lábios e aquilo já já era bom.
Mutum pensou ou fez que pensou, deixou o pensamento pra lá. Então, Mutum contou uma outra história. Nem uma mentira, e sim uma outra história. E Canguaxi quis acreditar e acreditou, acreditou. Mutum se sentiu nas nuvens, caminhando com pernas longas olhando respirando acima das nuvens mais altas, era esticar as mãos, era pegar com as mãos, perguntou:
- Que tem feito, Canguaxi? Aonde tem ido?
Canguaxi respondeu e perguntou:
- Nada, pois nem tenho muito com quem sair. Você está mais maduro. Já bebeu todas?
Mutum olhou e muito bem olhou o jeito de Canguaxi. E esta transpirava de emoção, transpirava um bigodinho. Pegaram e saíram para dar uma volta de carro, rua Antônio Prado, rua José de Alencar... Nem se deram as mãos, ainda. Tinham muito para se dizer? Noite estrelada? Mutum dirigiu para os lados do bairro Basalto, foi falando de mpbu’s que eram moda, e cuidou de escolher o melhor cedê. Aonde iriam?, se perguntaram. Qualquer lugar estava ótimo. Foram até o shopping Canguçu olhar os cartazes do cinema, as lojas de cedês, as lojas de bonés, as lojas de viagens programadas para Balneário Camboriú, para o parque Sete Cidades, o Estado do Ceará ave símbolo a jandaia...
Caminharam entre as lojinhas e tal. Tudo decorado para natal e fim de ano. E nem pararam para nada, ombro a ombro, olhando o chão. Com muita calma e concentração. E desceram até o carro e se sentaram no carro loucos por um assunto novo. Ele tocou o rosto dela, o rosto, os olhos, tocou a subida do nariz e pulou de trampolim para os lábios dela, tocou com seus os dela.
E novamente rodaram por umas ruas da cidade, rua Santa Catarina, rua Júlio de Castilhos, rua Jaguaretama... A lua distorcia os fedegosos-do-mato na fila indiana da calçada, quer saber. Apareceram os velhos assuntos, as velhas risadas, as velhas manhas, os mesmos assuntos, as mesmas gargalhadas, as manias batidas as manias surradas as manias das mesmas palavras.
- E daí você foi sozinha?
- Nem. Eu fui com umas amigas.
E depois, rua Perdizes, rua Osvaldo Aranha... já estavam de retorno ao boliche Cipotânea. Já de mãos dadas, de repente já abraçados, trocando beijos estalados na frente de D e todo mundo. Pensavam em planos? Alguns, sim, vinham à cabeça, planos para dali a pouco. Retornar para a antiga paixão parecia com história de filme filmado antigamente: era amor de verdade, paixão de verdade, coisa de parasempre. Foram feitos uma para o outro, um para a outra. E agora nada os impedia de ficar juntos para sempre. Se prometeram nunca mais brigar se separar se deixar se enganar se perder. E riam se beijando mais que tudo.
            E Mutum nem era nada romântico. Canguaxi, mais nova de cinco irmãos, sempre estudou no bom colégio NSAparecida, acreditava em romances óbvios de filmes de cinema. Então, os planos e acordos do mundo precisam de sorte!
            Depois, com o longo tempo, as coisas mudaram um pouco de pouso e rumos. Os carreteiros e tropeiros e mascates já preferiam ficar no Prata, ou seja, onde hoje é o centro da cidade. Aí prosperava uma nova colônia de poucos imigrantes italianos, alemães, poloneses, libaneses... E o Prata prosperou melhor.
            Nem muito depois, já no outro dia de tarde, Mutum e Canguaxi se encontraram na choperia Biribarana e na companhia de outros conhecidos. Mutum, então, numa passada de olhos pelo ambiente visualizou Sarova. Esta já se encontrava ali há muito tempo? Mutum já ficou confuso. E ficou com vergonha. Sentiu que algo ia acontecer e precisava acontecer. Sarova seria capaz? E Canguaxi seria capaz? E ele mesmo seria incapaz?
Mutum ficou sem saber se tossia ou se mugia ou se dava meia-volta volver cento e oitenta graus. Nessas horas é que as pessoas param para ver como os conflitos humanos são ridículos, pobres, mentecaptos, cenas de circo. E ridículo era pouco. Haveria mesmo a cena de despeito? Mutum queria saber se a mão nem tremia caso bebesse, bebesse muito. Mas já estava bebendo e tremendo e bebendo e tremendo.
No fundo, Mutum queria que acontecesse uma coisa para ele assistir, um barraco, um rolo qualquer, porque nem suportava mais tanta inércia. Assim como uma necessidade secreta de ser pego num crime perfeito. Sarova o encarou séria, aparentemente calma e calma. As duas garotas, olhando bem, pareciam muito solitárias e sem futuro algum. Determinadas em quê? Ou será que Sarova nem queria mais nada com ele? Mutum estava confuso. O mundo precisa de sorte!, eu diria.
Canguaxi tinha outro cabelo ultimamente, e Sarova parecia mais pressurosa. Canguaxi nem sabia e nem tinha ainda visto a rival. Rival é palavra de canção de balada dos anos 60. E a cada beijo ou agrado de Canguaxi Mutum instintivamente olhava para Sarova. E de repente Mutum nem viu mais Sarova nenhuma. Sarova sumira. E Mutum a procurou com os olhos, preocupadíssimo. Mutum e Canguaxi ficaram meio agarradinhos por mais uma hora; ele ficou no ar por mais uma hora. Ele já nem tinha mais coração, fígado, pulmão.
            Sabe aquela ponte antiguíssima de madeira de guamirim e que resiste ali perto no bairro Rio Branco, sobre o rio da Prata? Aquela mesma que os carreteiros atravessavam desde os antanhos? Sabe aquele brinquedo do elástico em que as pessoas se atiram da ponte para o abismo? Pois é. Ali mesmo nesse lugar já pularam pessoas, já pularam pessoas em dupla, já pularam pessoas em motos, já pularam pessoas em bicicleta, já pularam pessoas abraçados aos seus animais de estimação, já pularam pessoas com fé e sem crença nenhuma, já pularam pessoas sem o sinal da cruz, já pularam pessoas sem o elástico. O mundo precisa de rio!
            Sarova foi à casa de Mutum, no outro dia 18 de março, no dia seguinte, uma outra tarde. Esperou por ele conversando a tarde toda com a sogra, divorciada, cabelos em trunfas e dona Guariúba Imbé. A dona falou:
            - O pai do Mutum mora lá em Jaru. É Roraima.
            - Então, sei lá, né, ele só vem no natal e talvez?
            - É, o Jacuraru só vem em fim do ano e um que outro, é.
            - Tráis presente e de quê?
Conversaram as duas sobre tudo, muitas coisas, coisas de nada, mas rendeu muito principalmente para Sarova. E sobre a relação dela com Mutum. Quem a sogra preferia, no final das contas: ela ou aquela? Mutum por acaso morava ali e chegou e teve a surpresa de ver Sarova batendo altos papos com a manhê. Mutum logo sacou tudo, logo perguntou:
- Você esteve lá na choperia foi ontem?
Sarova, muito calma, muito civilizada, muito centrada, muito amiga da sogra:
- Queria te ver. Acho que já tá na hora de a gente reatar. Eu nem posso sem você e você nem consegue nada sem mim, essa é a verdade e temos de reconhecer.
Mutum estava mesmo confuso. Ou só querendo ganhar tempo, já que a história estava ainda sem gritos, unhas e gritos, uivos e palavrões. Mutum se sentiu disputado. Podia ser a primeira vez, mas também a última vez. Nada melhor para um ego em ascensão. E nem nada no mundo de mais interessante para o crescimento de um machochô. E ele disse:
- Nem tive culpa. Esqueci mesmo a droga daquele número na carteira.
- Esquece, meu tudo! Vamos botar uma pedra do tamanho de um trem nessa história do telefone.
Então, precisaram muito sair e conversar eles dois sós. Mutum nem achou a camisa preferida e reclamou com a manhê. E dona Guariúba Imbé avisou que tinha realmente esquecido de mandar passar. Assim, Sarova pegou a camisa e ela mesma foi tratar de passá-la a ferro. E fez mais. Lavou toda a roupa suja. Mutum se emocionou, enquanto assistia tevê, enquanto botava um cedê de mpbu, enquanto assistia os melhores e piores lances da rodada. E Sarova passou toda a roupa de Mutum, que nem era muita mas já era um grande favor que fazia de boa vontade. Mutum teve tempo de preparar um chimarrão, enquanto Sarova passava a roupa. E Mutum fez a barba e tomou um banho demorado. Ainda, Sarova escolheu o perfume. Só assim saíram para um rolê de carro.
E o colégio 11 de Agosto e a rua Castro Alves, rua Jaguaribara... devagar olhando para fora, ouvindo as mpbu’s mais engraçadas mais solicitadas. Os gervões-roxos se derretiam ao sol, também as ariauás. Três quatro horas e mais minutos de alguma coisa da tarde. Sarova, classificou, plastificou, descolou, falou:
- Mutum, olhe bem dentro dos meus olhos.
Mutum parou o carro num estacionamento transversal da rua Veranópolis:
- Estou olhando e sinceramente...
- Me olhe muito, que isso é sério.
E se beijaram com força e vontade, como nunca, com garra puxando os cabelos. Como nunca é modo de dizer, pois se conheciam de muito. Com doçura também. Mutum estava sem palavras. Sarova suava emocionada. Agora ele podia comparar o gosto do beijo de Sarova.
E ficaram se olhando de perto e meio no calorão do interior do carro sem ar condicionado. E se prometeram nunca nunca, mas nunca mesmo, e com juras, nunca mais brigar e bobear e separar. E se prometeram fidelidade até o fim dos tempos, fim dos tempos. Sarova jurou assim:
- Mutum, você é o meu sol, o meu amor, o meu guia e meu tudo!
- Sarova, você é a flor melhor do jardim, o ar puro que respiro, a dona perfeita para o meu destino, o que for!
- Eu nasci para ser toda sua e até o fim dos tempos!
- Eu nasci para te levar comigo até lá na eternidade!
- Até a eternidade dizer chega chega!
- Ou mesmo no céu no céu!
E continuaram por um bom tempo se beijando desesperadamente. Mutum segurou o rosto de Sarova com as duas mãos. Ela tinha um olhar doce doce como de passarinho qualquer, corruíra, por exemplo. Mutum teve outra ideia:
- Quero morrer antes de você, Sarova!
- Nem falá, seu bobo! Morreremos é mesmo juntos e abraçados!
Aí, se encararam, olho no olho, e se olharam um no fundo do olho do outro, ou melhor, um na alma da outra. Até que um piscasse primeiro. Sarova nem falou, mas queria ser toda mordida. Ele nem falou, mas queria apertá-la no pescoço. E ela e ele já podiam pensar noutras chances que a história ia poder falar.
            Há pessoas que já viram isso: aqueles halos, ou auréolas, os nimbos, que voam ou gravitam em volta dos santos católicos. São milagres. Querem dizer coisas de D. Que fazem parte de milagres e são de D. É, são milagres. E eles precisavam ir na farmácia mais próxima. O mundo precisa de sorte!
            Mutum telefonara para Sarova dizendo que passaria às 16h. Sarova esperou toda arrumada, preparada, etc. Aonde iriam? Por aí, passear de carro, olhar as vitrinas nas lojas em torno à praça da Bandeira, entrar num bar e beber um samba. Sarova fazia hora, ia à janela e olhava a rua Cristo Rei, sentava na frente da tevê e lixava as unhas, ouvia um cedê de mpbu. Trocou a calça justa por uma saia até o joelho, vermelha, inédita. Diante do espelho, do espelho:
- Tô mesmo legal, tô mesmo deslumbrante?
Sentou no sofá veludo azulzinho, em frente da tevê, ouvindo mpbu, folheando revista. Mutum nem vinha mais? Telefonou, confirmou. Se pendurou à janela. Mutum chegou lá embaixo e travou bem junto do meio-fio, 16 e 16 horas e minutos. Sarova comemorou e saiu correndo mal o carro apontou.
Ele já tinha pulado fora do carro, ela veio sorrindo e se abraçaram pra todo o mundo ver. Trocaram agrados e biquinhos e selinhos estalados lá na última cena do filme. Aonde iriam? Embarcaram e deram voltas pela cidade, rua Protásio Alves, rua Visconde de Mauá... o som mpbu nas alturas. O sol derretendo sem piedade aqueles jacarandás-cabiúnas, aqueles mamangás, aqueles cajatis, aquelas tatajubas-de-espinho... Sem saber como, deram com o estacionamento do shopping Canguçu. Olharam vitrinas decoradas com motivos patrióticos. Sentaram na praça de alimentação. Um olhava pra cá, o outro observava pra lá. Dois chopes, batatas fritas, sorvetes tricolores.
 Passearam pelas lojas, parando nas vitrinas mais iluminadas, subiram uns andares de escada rolante, desceram, pararam na frente dos cartazes do cinema. Foram ver os filmes em cartaz. Escolheram um do agrado de Mutum e entraram. Abraçados, e beijos na boca nos intervalos da pipoca com sabor chocolate. Sarova bocejou duas vezes em quinze minutos, cinco vezes em trinta minutos, oitenta vezes em uma hora e quarenta de filme filmado na favela do Guaporanga; Mutum agarrado ao seio direito de Sarova apreciava o filme com solenidade. Pegaram e saíram, mãos dadas.
- Você quer viajar comigo para os Pireneus?
            - As europas, hein?!
            - Quase, meu bem. Serra dos Pireneus em Pirenópolis, conhecer Goiás, principalmente o rio Corumbá.
            - Você sabe que tudo que é meu é seu, tudo que é seu é meu.
 No carro escolheram um cedê mpbu. Rodaram pela cidade lentamente, rua 24 de Outubro, rua Vista Alegre do Prata, rua Érico Veríssimo...
Mutum e Sarova pareciam e estavam já feitos um para o outro. A tarde se esgueirou pela noite. E também satisfeitos uma com o outro. Itus e ginjeiras-da-terra se derretiam e pediam água na boca da noite.
Foram para a casa de Sarova e comeram pizza de sardinha. Mutum achava a mãe de Sarova, dona Itacuã, muito parecida com aquela atriz do filme do samba de raiz na favela do Guaporanga. Principalmente quando sorria. Até que a eternidade os pulverizasse.
            E que ninguém vá pensar que escapará. E ninguém escapa mesmo. Jesus nem morreu. Maomé nem morreu. Buda nem desidratou. Os passarinhos morrem. As árvores morrem sob a vista do sol quente. Tão simples tão complicado tão antigo que ao mar retorna o mar. O rio a sorte por acaso.
                                                                       ***
            - Vou até lá.
Eu nem falei? Naquele tempo era tudo som. Qualquer coisa de bom que sugeria festa já era proposto fazer um som. E a gente chamava de som e mais nada. Som para aniversário, som para comemorar fim das aulas, som para fim de ano, som para ver a seleção jogar, som para atrair gurias.
            Eu mesmo via o que o país via.
            Bastava confortavelmente olhar o dia em claridade e amplidão e competência. E navegar uma experiente aeronave de janelas abertas. E festejar como as árvores a aproximação das aves com as nuvens mais altas.
            Um sábado à tarde na garagem dos irmãos Ariquemes, casa dos pais deles. Quando cheguei já tinha uma turma me apontando copo de samba, caneca de chope, cigarro de maconha.
            Theobroma de penteado novo, eu achei linda ali na hora, de repente. Ela deslumbrante e comprometida. E já sabia todas as coisas.
            Um dos irmãos Ariquemes tinha um papagaio-charão no ombro. E eu falei por falar:
            - Cuidado com o Ibama, hein, meu?!
            - Nem tem nada nem, carinha. Tá vendo aqui o anel na canela?!...
            Praticamente todos estavam marcando seu par em cima. Sem folga porque os gaviões-das-taperas estavam rondando. Eu rondava como quem nem queria nada. E nem vi gatinha sobrando e mais nada. Olhei e dei umas voltas no espaço. Havia toda a escala da fauna e da flora de zero a 10 desde a beldade passando pelas minhas parentes até uma ou outra cobra-jabuti. O som saltava das caixas com muita fúria e tudo que era tipo de batuque.
            Parecia que nada ia acontecer e nem nada ia dar certo.
            Aí eu a vi. E também me viu e deu risada. Eu mostrei um copo de cerveja e ela fez sinal que só bebia refri. Me aproximei. Tinha uns peitos e tal. Tudo bem tudo bem de zero a dez eu estava começando a beber dava uns seis e meio com louvor para os quadris estreitos. E mais tarde eu de jeito nenhum nem estava bêbado até atribuí um oito com louvor para os olhos negros como a noite.
            Se dançava em grupo, em bando, como na tribo, como na tribo dos tupiniquim, dos tembé, dos tupari e quase todo mundo que queria dançar pulava aí como índio pulava lá.
            Convidei a Pareci para pular na tribo. Ela se alegrou, e riu, rimos como dois festeiros. Eu me livrei do copo e fomos pular. O nome dela era Pareci. E tinha um corpo depois de um tempo praticamente mortal.
            Mas assim mesmo parecia que nada ia acontecer nada e as horas 17:17 nem passavam.
            Uma hora estávamos parados na porta da garagem, eu e Pareci, quando aconteceu de eu perguntar:
            - Você nem é daqui, né?! Eu mesmo nunca te vi.
            - Eu cansei de te ver por aí. Você nem foi aquele que caiu da bíci outro dia lá no posto de gasolina, oquei?!
            Pensei, pensei e me perguntei muito baixinho para ninguém mesmo ouvir: o que que vou fazer, meu?!
            E nos beijamos foi sem esforço atentamente e nossos lábios saborearam deliciosamente apropriadamente adquiridamente o gosto dos ambos os dois. E durante semanas fomos conversando sempre antes e depois das aulas. Um dia no mês íamos na manhã festiva até a praça Lupicínio Rodrigues abraçar as almas das árvores e achando tudo muito inaugural e maravilhoso e década de 80 e aconchegante.
Depois do som, a galera pensou em dar um rolê pelo centro, ir ao cinema, ir comer num cachorrão, fazer outra coisa, enfim. E decidimos isso mesmo e fomos. Mas a Pareci nem queria me largar.
            Nos olhamos, nos abraçamos, nos olhamos de perto, nos abraçamos com mais, nos beijamos no rosto. Pareci sorria um meio sorriso, ouvia dois meios ouvidos, olhava dois meios olhos, ou seja, ternura ternura.
            Às seis e meia da tarde o sol já estava chutando o pau da barraca das horas do dia, praticamente.
            Nuvens de água evaporada, homem colhendo ervas no barranco perto do riacho, um cão de mãos às costas passos pra lá e pra cá dentro do cercado gradeado da casa branca com janelas azuis. O homem caminhava entre sombras de peixes prateados o cão telefonava para uma pizza com sardinha e calabresa a nuvem estufava as velas de caravelas carnavalescas. Depois eles todos inclusive ficaram cercados pela noite que vinha e subia do fundo das coisas enterradas. O cão abriu o portão o homem disse boa tarde como vai a nuvem desceu mais um pouco arrastando os cabelos no chão e todos entraram na barriga tatajiba da árvore frondosa do quintal.
            Bem no meio da minha consciência e do espaço do mundo do espanto das andorinhas incidentais abri os braços em hélices em polichinelo os quatro pontos cardeais os quatro cantos do vento as quatro faces do universo as quatro cores principais. 
                                                                       ***
            Eram as aulas noturnas e graças aos mesmos bocejos todos maiores e trabalhavam durante o dia a dia.
Convidamos Enigmática para ser a rainha da sala. Ia ser legal coisa e tal. Nem aceitou. Mas...
            - Mas você concorrerá à rainha do colégio, guria! E todas as despesas por nossa conta, oh, mina!
            Ela falou que nem podia, que nem tinha jeito pra isso ou seja nem podia. De cabeça feita. Nem era do seu estilo e nem podia. E nem havia o que inventar para atraí-la. Ela nem queria nada com nada. Ela era autossuficiente. Nem podia aceitar e nem podíamos convencê-la. Nem queria se misturar, ou melhor, nem queria se comprometer, nem se envolver, nem se dar às ousadias. Mas...
            - Mas você ganhando concorrerá à rainha dos colégios da cidade, oh, linda! Pense bem, seu!
            Se negou, se negava a participar. Fazer o quê? Nem queria. E só a visão que eu tinha da cidadela me deixava contente, esperançoso, vivo e até alegre. Sem que o dia me cansasse. Perto dela qual cansaço qual nada! E nem queria dar o bracinho a torcer. Nem queria saber de concursos de misses e tal e coisa brega e tal. Mas...
            - Mas ganhando você pode chegar à rainha dos colégios do Estado, gente! Regula aí sintoniza aí, vai, mulé!
            Nem queria e nem pensar. Nem era do seu agrado. Nem se importava. Sabe, toda noite, horário de aula, e admirá-la, mesmo pelas costas, me acalmava, me aliviava, me relaxava o cérebro, me agradava. É como o ar que se respira. Era como uma promessa. Era como uma viagem em excursão à cidade de Foz do Iguaçu. Uma visão de tesouro navio encalhado no fundo do mar a visão dos corais e peixes coloridos. E fazer o que se nem queria ser rainha? Abraçá-la? Nem, nem queria e eu teria raiva se ela fosse querer. Ela nem queria, nem precisava querer. Nem queria. Mas...
            - Mas você vai ser com certeza, e olha o que lhe digo, a rainha dos colégios todos desse imenso país, garota! Te liga, meu!
            Nem e nada. Nem desejava tal coisa pra ela. E chega, vai! Nem queria e já estava decidido. Jamais! Coisa se viu! Nem queria e já estava toda decidida. Agora, seus olhos de cascata pouco brilhavam, ou pouco esclareciam, quando estava com can-sa-ço. O olhar já aéreo. E nada de nada de querer participar do rainha. Nem, esquece! Mas...
            - Mas você pode concorrer à rainha dos colégios do universo, oh, santa! Nem vê que o poço do sucesso nem tem fundo, cara!
            Quantas vezes nem? Um milhão foi pouco? Precisava repetir até quando, até o quilômetro cinco mil? Nem queria por fim. E tanto nem queria, e estava certa disso, que até achava engraçado tanta insistência e persistência. E passou da teimosia e da raiva até chegar no riso frouxo. Engraçado nem, achava ridículo. Nem a enchessem o saco. Nem queria e pronto, falei. Nem via a porta. Suspirou de tédio, até. Mas...
            - Mas você chegaria com facilidade à rainha dos caminhoneiros, garanto, e com procissão de buzinaço! Acorda com o barulho, menina!
            Que nada, nem aceitou e ficou esperando a paciência, e ou os insistentes se acalmarem, pararem, esquecerem, desistirem, se mancarem e fecharem a boca. Nem aceitou mesmo e pronto e por dias e dias. E só continuamos a olhá-la porque ela era muito diferente das outras, muito linda mesmo, sempre atraente, qualquer coisa lhe caía bem.
            Enigmática nem aceitou. Nem se levantou nem da carteira para ficar nervosa, para agradecer a preferência, a escolha, a indicação. Nem se dignou se erguer da cadeira. Nem desistiu jamais do nem. E achei eu mesmo lá na horinha que ela até nem devia nem mesmo um agradecimento para a galera que tanto a queria e tal.
            Então tá, né?! Quanto mais se conhecia a tal de Enigmática, melhor. Até porque, por mais que se conhecesse a tal misteriosa Enigmática, era pouco.
            Vi muito bem quando ela molhou os lábios e fez um muxoxo de impaciência. Ela era linda porque muito bonita até nos detalhes. Cabelos livres, leves e luminosos como devem ser da idade.
            Aí, fomos ao plano b. Convidamos a Taiaçupeba. E ela aceitou. Taiaçupeba ficou surpresa com o convite. Ficou eufórica. Restou vermelha. E riu sem parar. Uta!, como riu. Ria mostrando todos os dentes, toda a boa e vasta dentadura. De um jeito que se podia ver que estava muito atriz. Rindo, fincou:
            - E vocês vão me apoiar com tudo e nem vão me deixar sozinha, lá no desfile, né?! E aconteça o que acontecer e seja o que D quiser, em?!
            Imagine. Nós evidentemente prometemos, até porque os maiores interessados éramos nós, a turma toda, enfim. E a acompanharíamos em tudo e por tudo. Tudo por nossa conta e tal. Porém, ela continuava a insistir e a todo momento, passado um instante, e voltava:
            - E vocês nem vão me deixar esquecida lá no desfile se eu perder, se eu cometer uma escorregada, né?!
            Olha só como ela ria! E ria muito. Muito simpática. Um corpo bem desenhado, esbelto como palmeira carandá, peitos para frente e ao alto, europeia, vibrante, fio dental. E ria. Nos olhava e ria. Que alegria! Que simpatia! Sem se esquecer de buscar ou apurar:
            - E vocês nem vão me deixar no frio olhando para trás, nem me deixar preocupada sem pai nem mãe, né?!
            Fomos muito bem, ou quase otimamente, com a bela Taiaçupeba. Tiramos o segundo lugar. Só a Taiaçupeba - que nem precisava -, mas se desculpou:
            - Sinto muito, gente. Eu fiz o que pude.
            - Que que é isso, Taiaçupeba! Nada a ver. Foi tudo muito ótimo. Ganhamos o segundo lugar contigo e foi excelente e ganhamos de quebra o primeiro lugar de torcida mais animada. Dois troféus que ficarão lá na sala de aula. E foi tudo muito divertido.
            Se houve aquilo e outras coisas por lá, por quiçá, nem deu pra ver. Mas houve bagunça da boa e nos conformes. Tanto que outras pessoas nos elogiaram nos cumprimentaram. As torcidas organizadas bagunçaram todos muito bem. E ganhamos como torcida mais extrovertida e mais empolgada e mais eufórica. E perdemos para o primeiro ano A o concurso de rainha. Só a Taiaçupeba se desculpando:
            - Sinto muito, galera. Eu fiz o que estava ao meu alcance.
            Perdendo o primeiro lugar no concurso perdemos a vez e a oportunidade de concorrer à rainha do município. E chegar, quem sabe, à rainha dos municípios dos gaúchos. Nem se pode ter tudo que se deseja, nem é mesmo? Só a Taiaçupeba se descontava se detestava:
            - Sinto muito, meus queridos. Eu dei tudo de mim e mais um pouco.
            E Taiaçupeba - nunca esqueci - baixava a cabeça e dizia sem graça, quase se emocionando, se desculpava:
            - Dei tanto tanto de mim, turma, que até sinto dores nas costas.


Nenhum comentário:

Postar um comentário