quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 17




Caminhando Pelas Ruas do Bairro Santa Cruz

            Uma qualquer coisa dessa noite passada me encheu os tubos me lotou as medidas me encheu mesmo. Uma noite assim sempre me enche de maus presságios e sustos e sombras. Me faltaram sossego, garantia de passe livre, gurias, dinheiro, amigos, futuro. Sonhei coisas estranhas e difíceis e terríveis e impossíveis e surrealistas. Sonhei com duas a quatro poderosas patas ou garras ou mãos apertando a minha pobre garganta. Acordei a tempo, mas acordei sufocado, irritado, arrasado, doido por um gole de cachaça pura de alambique feita em Japaraíba. E acordei com ganas de, grrrrra!...
            Sonhei também que estava na beira de um precipício sem fundo, um perau em forma de espiral. A gente a família eu e meu avô Caparaó e mais meu primo Bacopari estávamos rodeando os altos morros em forma de espiral. Uma mina de carvão a céu aberto. A estradinha mal dava para a gente caminhar se espremendo contra a parede das rochas. Qualquer escorregão rolava lá embaixo no vale e adeus mama mia. A montanha parecia um cone e a gente subia se esgueirando pelas beiradas numa estradinha estreita de formiga e em espiral.
            E então, eu estava me cuidando para nem cair, quando meu avô Caparaó gritou um “ai!...” Eu olhei e meu avô estava preocupado com meu primo Bacopari que havia caído sumido desaparecido. Nisso surgiu um quarto personagem, vinha descendo o morro, viu o problema, quis ajudar meu avô e os dois espiaram lá para baixo e, “ai!...” se jogaram caíram juntos despencaram lá para baixo pro fundo, uuuuuh!...
Eu me apavorei, me aproximei do precipício para ver também o que podia fazer, me deitei no chão e olhei lá para baixo, uta! que susto que calafrio que dor nas pernas... Era tudo muito alto e perigoso e eu nem consegui mais olhar com coragem. Nem vi onde meu primo Bacopari e meu avô Caparaó e mais o quarto personagem foram parar. Só vi pedras e poeira caindo num fundo sem fundo e eu desisti de olhar e me arrepiei. Olhei tudo em volta e a noite vinha chegando. Parecia muito com a história daquele livro “A Esfinge” contada pelo alagoano João Alphonsus. Noite se erguendo do centro da terra.
Olhei o céu noturno e vi um enxame de estrelas.
Ressuscitei todo assustado e raivoso e vendo sombras de rato cruzar o chão do quarto. Bichos rasteiros rápidos sombras fugidias pelo canto dos olhos. Isso sim. Isso sempre quando eu menos esperava. 
            Nove e dezoito no digital e o sol brilhante. Saía da noite ruim como alguém que sai de um festival de música popular ao ar livre, ou seja, em estado de choque, de horror, em dor de cabeça, e sujo e enojado.
            Olhei o alto diário e vi uma manada de nuvens.
            O céu azul estendido, o sol em fogo, o ar semeando cores, a passarada procurando o que fazer, peiticas-de-chapéu-preto, chupins, periquitos-verdes, ferreirinhos, andorinhas... Cavalo tordilho nitrindo, buzina estridulando, pássaros corrudreando, pomba-rola turturinando. Vicejavam durante a serra de Amambaí vicejavam camas-de-menino-deus. Era dia de dia claro e reinante.
            Olhei o centro do universo e vi um cardume de discos voadores.
***
            Minha tia Anori havia morrido. Finalmente morrera porque já vinha tentando de perto há muito tempo. Tia Anori era minha parente favorita. Tia Anori tinha tio Pauini e os filhos, meus primos, Azulona, Bojuru, Sagui-Leãozinho, Pirapitinga, Tamanduaí. E tia Anori sabia fazer o melhor bolo de laranja que eu já provara, que eu já cheirara, que eu já vira. Àquela horinha, tia Anori finalmente morrera. E aguardava novo chamado, ali suspensa entre as nuvens do céu vai-não-vai, para descer, retornar em forma de semente de alguma outra coisa, talvez retornar como erva brilhantina-brasileira ou limpa-folha-vermellho ou guerreiro suruuarrá... Vamos a ver.
            Minha tia Anori nunca acreditou em reencarnação, nem acreditava nessas superstições, demorou para acreditar e ultimamente passou a acreditar por conta de amigas e livros e revistas que vinha sistemática e vorazmente consumindo.
            Está todo mundo bem? Está todo mundo aí? Está todo mundo atento?
            Os mistérios nem são do céu. O céu infinito nem esconde nada. O céu nem sabe como as coisas devem se resolver. O céu é limpo e límpido. O céu está em toda parte, mas nem participa, nem brinca dessa brincadeira. O céu nem entende de nós e nem de nada.
            Minha tia Anori se parecia com a mãe dela, minha avó materna. Minha avó Coari, dizem, era a cara da minha bisavó Itapeva, a mãe dela. A gente via claramente que a cara e o focinho, principalmente, da filha de tia Anori, minha prima Bojuru, era a cara da tia Anori, mãe dela. E assim por diante. Sem contar os que ainda viriam pelos séculos e séculos amém.
            Eu pensava muito. Nem sabia o que queria fazer. As dúvidas só aconteciam comigo. E o céu nem nem. O céu nem entendia de pirâmides? O céu nem sequer. O céu nem entendia de aguapés. O céu como se quer. O céu, e eu pensando na praia de Jurerê.
            Dava vontade de morar num perau e nem ver mais gente nunca mais. Todo mundo ajoelhava quando queria. Eu estava, àquela horinha, ajoelhado e bem ajoelhado. Você está ajoelhado. Vamos, vamos nos ajoelhar sempre que for preciso e pronto. E eu preferia morar acrocado numa gruta de perau, numa loca de barranco tipo as araras-azuis-de-lear.
Uma jamanta gigante e vermelha, do século passado, talvez mais, engarrafava a estrada, a rua Tonantins. Morro abaixo, procissão, pela estrada, morro acima, comboio, pela rua na direção do jardim do silêncio. Carreta carroceria estendida ao longo da rua, reverberando ao sol, fantástica.
            Quando os ponteiros entenderam, então, eles sim chegaram às onze horas.
            Eu estava ali e nem estava. Agora estou aqui?
            O que se plantara nasceu, cresceu, frutificou e amadurecia para o dia da colheita. Os quero-queros logo cedo queriam grasniram dizer alguma coisa.
            E o céu nem falou nada até ali, nem se meteu na conversa. O céu só fez uns gestos lá de vez em quando. E fez o mundo redondo, talvez. Mas o mundo redondo já estava redondo quando o céu fazia o mundo redondo. Céu sem mistérios. Céu lá em cima. Mulher estendendo roupa no varal. Céu lá com ele ensimesmado.
            Quando o céu olhou em volta, viu uma multidão de homens, muito homem, só havia homens, homens demais e vestidos com roupas de ir à missa. Os homens criados ao acaso eram muitos, muitos, uma multidão, um número avassalador e multiplicado, uma super população inútil. E no dia do começo do mundo, ou um pouco depois, o céu viu com seus próprios olhos que os homens lotavam o pátio do céu pedindo providências. Praticamente só havia barbados e barbudos. Os homens se acotovelavam no pátio do céu pedindo nem sei quanto por cento de aumento e outros benefícios. Então, os homens, alguns, e por causa do excesso de marmanjos, tiveram a sorte de ser sacrificados e transformados em porcos-do-mato ou caititus. A manada grunhia e comia tudo que via e corria ao primeiro berro do número um que se dizia chefe e ia na frente.
            Um dia houve um fogo na capoeira. Toda a capoeira pegou fogo. O fogo se alastrou pelo mundo afora rapidamente e nada sobrou. Tudo que tinha sorte passou pela língua terrível e arrasadora e purificante do fogo. Até mesmo as pedras. Até mesmo a lua. Aí, então, que das cinzas e fumaça nasceu uma mulher muito bonita e sem pelos e chamuscada. Deram o nome genérico de moça.
Era uma moça de nome Enigmática? É, era a Enigmática. E que enigmática, meu! E o céu quis logo casar com ela e beijar sua boca e pegar na sua mão de dedos com todos os anéis. O sonho do céu foi casar com Enigmática. Trejeitosa, saltitante, esportiva, aérea e etérea, barriga de tanquinho. Seus olhos sempre sorriam, seus lábios sorriam, seus dentes brilhavam, seus passos sempre fatais eram também muito ligeiros. E o céu nem tinha milagres. E o céu nem sabia o que fazer. E o céu nem sabia por onde começar.
            Todo dia eu pensava o seguinte: que faço aqui?, que fazer? Nem adiantava perguntar nada a ninguém, nada de céus.
            Um dia era de paciência. Um dia era de sorte. Um dia era de horror. Um dia era de vazio. Um dia era de mais. Um dia era de passar. Um dia depois do outro passava. Um dia de luz flébil. Um dia de morena frisada. Um dia era de setembro. E todos esses dias tinham coisas e D à vontade.
            Depois as formigas-de-fogo pediram para morrer. Todos tinham direito a morrer. E todos sabiam da bondade do céu para com todos. Assim as formigas-de-fogo tiveram o direito do além. As formigas-de-fogo esperaram a noite. Escalaram até a lua. Escalaram até a lua em cordas de aço. Depois de atingir o vácuo se espalharam até as mais remotas estrelas. O resto dos dias foram raios e relâmpagos e coriscos. Para lá das constelações só o céu que sabe.
            Me peguei na rua Pejuçara. Quando me vi eu já andava de cabeça baixa. Pensando em gurias. Pensando em viajar. Pensando em cidades. Conhecer a aldeia dos índios panos. Pensando em Enigmática, pensando em viajar pelo rio Cuiabá, rio Envira, pensando em passar temporadas nas cidades de Santana, Penedo, Rosário do Sul, Diamantina, Teresina, Osasco, Juruena... E eu chutei uma pedrinha da rua, gostei, procurei outras mais, chutei outras, nem só com a esquerda. A sorte era assim mesmo.
            Quando olhei a mulher a mulher parou parou o sol parou a rua Castro Alves parou o sol parou a sombra da curicaca a nuvem congelou o trânsito buzinava parou o jaú no rio Arinos quando a mulher se olhou no espelho portátil parou o sol.
            As árvores se deixavam brincar ao vento. Era uma falação de folhas ao vento. As andorinhas, vestidas de asa-delta, e brincando de pegar, rindo, voavam perigosamente entre árvores e fios e escombros de casas antigas. Cigarra rechinava no pé de louro-da-várzea, cão ladria, andorinha grinfava, araquã piava. Quem era quem podia ser camarão-d’água-doce hoje em dia?
                                                                       ***
            De Papebinha nem se ouviu mais falar. Uns diziam praqueles lados da fronteira com Argentina, Santa Vitória do Palmar, Jaguarão, Herval e mais nada. Nem tinham certeza e nem ela e Cimarrão apareceram mais. Que eu saiba.
            Os outros irmãos ficaram com a sina deles e tal. O pai e a mãe se conformaram e tal. Seguido, vendo tevê, vendo alguma coisa na tevê, se emocionavam e se consolavam e se juntavam encostando as cabeças.
            Papari comprou uma moto usada e foi trabalhar num frigorífico de galinhas e porcos lá pro interior de Venâncio Aires. O duro era andar de moto no frio e na chuva. Parece que casou uma certa data aí e estava construindo uma casa com o suor do seu rosto tijolo por tijolo.
            A menina Papeba ficou com os pais por mais dois anos até terminar o ensino médio. Depois pediu e prometeu e conseguiu se mudar para Rio Grande na faculdade de psicologia. Já estava dando aula. Já estava quase casada com um dos donos de certa locadora de vídeo. 
            No fim das contas, os dois mais ou menos meio velhos, o seu Lagamar e a dona Juparanã, lutando sozinhos no sítio ali na periferia de Nova Prata. Ele ainda na barbearia, mas menos. Ela cuidando da horta, algumas verduras, umas laranjas, umas jabuticabas, uns coqueiros-dicuris.
            Estava tudo indo assim quando, um dia de junho, inverno chegando e o tempo meio louco, veio um tufão e arrasou tudo. Uns falaram que fora um tufão, outros um furacão, outros um tornado. Enfim, o vendaval extratropical arrasou com a região, fez estragos na cidade, derrubou casas e destelhou outras no bairro Basalto, no bairro São João, capela Santa Líbera, e derrubou a casa da família Parangaba.
            Os dois antigos se salvaram por pouco foram parar no abrigo improvisado o ginásio da prefeitura e tiveram que recomeçar tudo de novo tudo do zero e com o quê.
                                                                       ***
            Minha prima Azulona - tinha um gambá como mascote e bicho domesticado -, depois que tia Anori morreu, resolveu ter uma sorte só dela e simples e foi pedir um emprego. E conseguiu entrar para uma fábrica de tênis ali no Distrito Industrial. O fato dela ter saído de casa, do conforto, do cômodo, do sofá e tevê, e procurado um emprego, ganhar um salário mínimo que seja e tal e coisa, surpreendeu muita gente e até a própria. Passava na rua e o pessoal perguntava. Ela mesma dizia:
            - Olha, quando me vi dentro da fábrica trabalhando, empregada... quando caiu a ficha... olha, gente, foi um orgulho pra mim e eu até me emocionei, pi-pi-pi!...
            Azulona continuou trabalhando. E lá mesmo, naquele meio poeirento e cheirando à cola de sapateiro, ela conheceu o Tarumã. E os dois começaram a trocar olhares, sorrisinhos, piadinhas, olhares, mãos bobas, empurrões, balas, apertos de mão. Quando viram estavam namorando e frequentando bailes. Aí, foi um choque para o tio, seu Pauini, viúvo e tal.
            Pois a Azulona continuou o namoro com o Tarumã. E trabalhavam juntos, e namoravam toda hora de folga, no intervalo, depois do serviço, fins de semana. Estavam sempre juntos e aquilo chamou a atenção porque era bacana. Eles foram feitos uma para o outro, era o que todo mundo pensava e elogiava e até torcia. Tarumã comprou um carro de segunda para pagar em vinte e oito prestações com certo número de cilindradas ou cavalos. E a coisa andou cinco meses, seis meses. Quando veio a notícia sensacional:
            - Sabem?! A Azulona está grávida! Grá-vi-da!
            Apesar de ser um acontecimento à toa e até natural, o pessoal achou uma coisa espantosa e maravilhosa e engraçada. Foi um choque mesmo para todos da casa e os irmãos e o pai de Azulona. Foi um choque porque eles estavam desprevenidos, gente.
            Mas aí, a gravidez continuou e fazer o quê? Azulona foi aumentando e esperando o bebê. Foi ver o sexo do bebê e teve uma surpresa:
            - Pois bem, dona Azulona! Sim, senhora! A senhora tem gêmeos! A senhora tem gêmeos dos de dois gêneros!
            Sabe, então, foi um choque para muita gente porque ninguém espera ou se previne para esses milagres, esses brinquedos, esses sustos, esse degrau.
            E a Azulona estava grávida de gêmeos e continuava abraçando a melancia. E o pai dela achava que os pombinhos deveriam casar e casaram. A festa foi um barulho muito grande no salão da sociedade São Cristóvão. Toda a parentada e aderentes e amigos e vizinhos. Música ao vivo com um conjunto excepcionalmente de Tupanci do Sul. Foi uma alegria para todos ver a noiva já com aquele barrigão de umbigo. Foi um choque aquela festa de fechar a rua Bom Princípio esquina com André da Rocha. E a galera gritava em coro:
            - Cuidado com o degrau!!
            E os recém-casados foram morar onde que nem tinham casa, nem tinham fogão a gás, nem tinham poupança, nem tinham nada e nem tinham onde cair? O gambá foi junto, evidentemente. Foram morar de puxadinho na casa do meu tio, o seu Pauini. Pois foi. E assim as coisas foram feitas. Foi o que deu pra fazer. E muito amigo se chocou com esse negócio de morar de favor no puxadinho da casa do papai do sogro e tal. Coisa urgente é sempre incrível.
            Mas o rio tem coisas difíceis e outras piores. O bom é que se pode ir em frente. E quem nem pode ir em frente já era e já foi ficando para trás. O bom que ir em frente já nem tem mais nada com o passado.
E Azulona com Tarumã e os dois gêmeos iam em frente. O casal ia e nem voltava. O caso era que discutiam um pouco. Azulona estava sempre atacada e atarefada e à flor da pele. Tarumã sempre impaciente e mais estúpido ainda. Mais uns dois ou três meses e os bebês apareceram. Que ma-ra-vi-lhas!! Foi um grande choque ver aqueles dois filhotes olhando o mundo sem ver nada sem entender de nada e esperando tudo. Era grande de bom e mais. Parecia ser como na tevê ou no livro do bebê.  
            Por aquele tempo os bebês já precisavam comer e mamavam muito e cresciam naturalmente. Azulona ficou só cuidando dos pimpolhos, os seios bojudos, os seios bombando. Tarumã perdeu o emprego, perdeu outro emprego, cansou de procurar. Sabe como é? Fábrica de calçados dura um ano e fecha por dois, dura mais dois anos e cerra por três. É a história do mercado do sapato neste país, etc. E foi um choque tremendo para a sina e o orçamento do casalzinho. Eles já estavam pensando em comprar dois carrinhos de bebê. Eles e a turma estavam pretendendo passar as férias de fim de ano em a praia de Cidreira.
            Mas o pai, meu tio, o seu Pauini, disse e falou:
            - Tudo bem. Se dá um jeito. Isso acontece. Tudo bem. É assim mesmo. Paciência. Eu dou uma mão até vocês se ajeitarem. Nem tem problema. Só nem quero que meus netos passem necessidades.
            Mas o fato verdadeiro era que todo mundo estava chocado com a tremenda porcaria que era a sina, economicamente falando, da nova família brasileira. Dois filhos pra criar? É duro, meu! E todos estavam chocados mesmo. E outros até achavam que nada podia dar certo. E mais outros achavam que fazer família era para seres otários e nem gente de homo sapiens.
            E a sina em geral ia naquela velocidade de cágado duna acima. E a sorte deles um pouco piorando. Uma dificuldade, meu!
E Tarumã nem arrumava emprego nem aqui nem ali nem acolá. Viajou para Parobé vê se arranjava viajou para Encantado vê se arranjava viajou para São Sebastião do Caí vê se arranjava foi até Tabaí e coisa nenhuma telefonou para São Vicente do Sul e nada e nem arranjava nada e nem arranjou nada até mesmo lá no Morro do Chapéu.
E foi num dia tal que ele ficou até tarde assistindo jogo de futebol no bar em frente quando até o time perdeu de goleada. Mas pra quê?! Quando chegou em casa Azulona, pronto, brigou e brigaram, discutiram, se disseram coisas interessantes até pela primeira vez. O pai dela, meu tio Pauini e os irmãos dela, meus primos, ficaram chocados e se olharam e ficaram paralisados e nem acreditaram o que estava acontecendo e nascendo lá entre eles. Um erro, depois outros erros e berros e assim por diante. O tio até tentou intervir:
- Calma, minha gente! Calma!
            Mais uma semana e outra briga por causa de falta de dinheiro, por falta do que fazer e por falta de leite para as crianças. E quebraram o pau, mesmo. Tarumã até chutou o gambá. E foi um choque para a família e para a vizinhança, amigos e a polícia. A polícia teve de comparecer para solucionar os termos das partes, chegou de carro verde com luzes de alerta ligado e para botar os pingos nos iis. Cada um pro seu lado.
            Daí o casal se separou quase que na marra. Aí, brigaram de foice no escuro. Tarumã distribuiu bênçãos por todos os participantes. Chegou a polícia outra vez. Levou o gajo para prestar depoimento. E foi um choque para todo mundo, pois até o jornal da cidade e os cachorros ficaram sabendo. Foi um choque e uma surpresa e um vexame. Mais que choque, um nojo.
            E tudo por quê? Porque a sorte o rio é difícil, meu!
            Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Tudo porque as pessoas acham que podem casar e casam. Como se casar fosse coisa de D.
                                                                       ***
            Dizem que quem sonha tem o cérebro em ordem, em dia, dia a dia. Um cérebro esperto, desafogado, descansado, higienizado, ventilado, superficial.
            Pois eu estava no meio da estrada de asfalto com traços brancos na pista. Já ali no asfalto pra lá e pra cá e fazendo o quê? E começou a chover torrencialmente em lençóis de água. Era verão bom e a chuva estava ótima e aguaceira. Mostrei a língua e bebi. Eu sempre gostei e gosto de chuva. Apareceu meu irmão Inhambu.
            Mas a chuva nem parava e era muita água em cascatas e como D mandava. Aí, fui me abrigar no costado de um grande cilindro tombado deixado ali no lado da estrada. Um cilindro igual dos que os caminhões transportam gás ou leite. Mas era só o grande cilindro ali solto no asfalto. Bicho monstro dinossauro tipo cilindro liso rotundo fechado platinado de aço.
            Então, eu fui me abrigar junto dele, me escorando na beirada, na sombra, junto à lateral. Me encolhia ali e pronto. A água da chuva escorria.
            Mas assim mesmo a água era muita e nem parava e me encharcava todo. Eu gosto de água da chuva, mas era tanta água que era uma água barbaridade.
            Resolvi sair fora, enfrentar a bomba de água e voltar para casa para casa. Eu tinha que chegar em casa e fazer alguma coisa o que nem sei.
            Quando saía de perto do cilindro apareceu um caminhão de lá. Eu fui para o acostamento com receio que ele me atropelasse. E o caminhão também veio. Eu saí mais ainda para o acostamento e o caminhão também veio mais. Acabou que eu pulei na beira do barranco, me agarrando na beirada para nem rolar lá embaixo, e o caminhão passou bem pertinho dos meus dedos, um palmo, tirando fininho.
            Assim mesmo dei graças a D por ter me salvado. O caminhão seguiu tirando lasquinhas do barranco e foi foi muito rente como sobrando um fio de cabelo para nem cair do barranco. Eu ainda vi o caminhão ir mais um pouco mais para a frente e em velocidade de filme de ação. E realmente o caminhão caiu barranco abaixo com grunhido, gruuuuuim!... de porco. Caiu frente de uma casa e o pátio dessa casa estava cheio dos meus parentes num aniversário muito festivo era casa de tia Irani espocavam até os tais fogos de artifício.
            E todos estavam ali olhando o desastre de boca aberta e olhavam o caminhão vermelho que nem era mais caminhão e sim uma camionete com carroceria de madeira. Camionete caída e tombada do barranco bem aos pés dos meus parentes boquiabertos. E o cara da camionete, na capotagem, simplesmente pulou a janela, se equilibrou e saiu andando no mais. Nem olhou para trás e nem quis saber de nada e nem se lixou com meus parentes ali olhando de queixo caído.
            Eu lá do fundo olhava tudo e me admirava. Também fiquei boquiaberto. Com um tombo daqueles e o cara nem aí, meu?! E o cara pegou e foi embora deixando tudo para trás. Parecia um desenho animado com alguém pulando na lua.
            E sem mais um segundo eu já esperava a Manaquiri que estava ali no bar com a galera dela. Eu esperei e já cheguei e fomos embora. Fomos rumo para onde? Para casa dela? Para minha casa? Sem rumo algum? Nem pensei nisso, meu!
            Eu e Manaquiri fomos sumindo pelas ruas da cidade, e que talvez já começávamos pela rua Capoeiras. Que lugar da cidade? Nem estávamos namorando e também nem estávamos nos largando. E eu na verdade a achava um cavalo de gostosa e de apetitosa e de fogosa. Sabia que nunca a havia tocado, mas ela era gostosa até demais. Ou merecia ser. O meu cérebro fazia tuuuiiim!... Ela, acho, nem tinha muita certeza de mim, confiança em mim, paixão em mim.
            E fomos mesmo pelas ruas e tal com árvores que já conhecia de outros dias a cada três quatro metros na calçada, tento-amarelo, urucurana-vermelha, copiúva, cupuaçu, guajaraí... Os prédios e as casas nos rodeavam? Eu tentava pensar coisas e falar. Eu queria motivos de sobra para falar e fazê-la rir. Eu pensei pegá-la pela mão, agarrá-la de qualquer maneira, mas nunca vinha coragem ou ânimo. Nem queria que me escapasse e fosse de outros.
            Manaquiri, cabeleira morena bem apanhada, nem tinha enfeite no pescoço ou nos pulsos ou nos tornozelos ou nem reparei direito, minha altura, da minha altura. Ela nem me evitava, mas nem colaborava. Era muita areia para o meu tratorzinho de caçamba. Fomos pedalar no laguinho com os já tradicionais pedalinhos. Apanhava os cabelos com as duas mãos e os jogava para trás.
            Eu tentava um papo e ela já sabia a pergunta e a resposta e me olhava com superioridade, com altivez, com elegância, com riso nos dentes bonitos aperolados. Ela ria e nem dava corda. E me deixava começar os assuntos e nem gostava dos assuntos. De repente eu estava falando e ela olhando o infinito olhando o carro passar. E íamos pelas ruas, o que que eu ia fazendo desfazendo?
            Uma altura, nem sei depois de que tanto tempo, paramos num quiosque e sentamos num banco de ferro. Ela sentou um metro longe. Que difícil, meu!
            Tentei falar com estilo de malandro com gírias alopradas com sotaque de nem sei que parte do país com jeito de lombrado e tentava mesmo fazer mágica. Tinha que quebrar o gelo, entende?! Ela era dura e nem se aproximava um centímetro. Parecia um sonho psicodélico no meio com as luzes estroboscópicas. Pensei em lhe pagar um sorvete ou suco de abacaxi:
            - Vamos beber uma ceva, hem?!, guria.
            Ela riu e aceitou com pouco entusiasmo. Mas estava aí, nem estava? Estava aí e estava muito difícil, muito distante, pra lá de esquisita, pra lá de Guaratinguetá. Estava comigo mas parecia só passar o tempo alongar o tempo esquisitar o tempo.
            Será que nem era o nosso dia? Será que nem era o meu dia? Será que ia ser mais difícil que eu imaginava? Será que ia tirar a mão do queixo beber um gole passar a língua nos lábios azuis e olhar sério pra mim?
            Ela falava só o necessário porque gostava de falar só o necessário, ela ria muito porque gostava de rir muito. Todo o rosto dela era um país vizinho.
            Eu nem podia perdê-la por nada deste mundo, ela nem me abandonava nem sei por quê. Tão muito tentação e lunar.
            Um papagaio-caboclo arengou, uma bandeira do país tatalou, um besouro extraordinário chilrou, um burro ornejou.
            E, finalmente, eu reparei bem que Manaquiri era um dia próxima, linda e difícil.
            Nem sei de mais nada, obrigado.
***
            Semana passou e outros dias e, em começos de agosto, o sol apareceu sem nuvens o anilaçu falou:
            - Sinto tudo muito mágico sobrando no ar e outras ondas de rádio boas e ótimas de respirar.
            Um caxinguelê falou:
            - Por mim nem será assim tão rápido assim.
            Outra sucupira fluflurou:
            - Estou pensando em altos sucessos.
            O papa-sebo sobrevoou pousou e piou:
            - Tudo está em paz pacificado pacífico.
            E se conversou e se analisou e se concluiu:
            - Por que nem isso sempre e todos os dias? Por que nem antes?
            - E se o vento nem mudar? Porque se o vento mudar!...
            - A gente sempre espera por que esperar? Mas quando menos se espera, acontece.
            - D colabora colabora.
            - Exatamente. Quando D quer Ele para numa praça com ótimo jardim laguinho araucárias novas e até estátua de poeta Cruz e Souza.
            Embora, assim mesmo de súbito, como nos verões mais gostosos, uma chuva desabou, desabou. Chuva de assombrar torrencial diluviana. Pode até ser meu exagero mas a água corria muita limpava as valetas. Para carregar e encher até o riacho Retiro. Me sentia um peixe. Choveu tanto que chover assim muito me ficou até normal. Apareci e abracei a chuva caindo a chuva. Aprendi muito com a chuva a água na altura atingindo já minha cintura.

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