Caminhando Pelas Ruas
do Bairro Santa Cruz
Uma
qualquer coisa dessa noite passada me encheu os tubos me lotou as medidas me
encheu mesmo. Uma noite assim sempre me enche de maus presságios e sustos e
sombras. Me faltaram sossego, garantia de passe livre, gurias, dinheiro, amigos,
futuro. Sonhei coisas estranhas e difíceis e terríveis e impossíveis e
surrealistas. Sonhei com duas a quatro poderosas patas ou garras ou mãos apertando
a minha pobre garganta. Acordei a tempo, mas acordei sufocado, irritado,
arrasado, doido por um gole de cachaça pura de alambique feita em Japaraíba. E
acordei com ganas de, grrrrra!...
Sonhei
também que estava na beira de um precipício sem fundo, um perau em forma de
espiral. A gente a família eu e meu avô Caparaó e mais meu primo Bacopari estávamos
rodeando os altos morros em forma de espiral. Uma mina de carvão a céu aberto.
A estradinha mal dava para a gente caminhar se espremendo contra a parede das
rochas. Qualquer escorregão rolava lá embaixo no vale e adeus mama mia. A
montanha parecia um cone e a gente subia se esgueirando pelas beiradas numa
estradinha estreita de formiga e em espiral.
E
então, eu estava me cuidando para nem cair, quando meu avô Caparaó gritou um
“ai!...” Eu olhei e meu avô estava preocupado com meu primo Bacopari que havia
caído sumido desaparecido. Nisso surgiu um quarto personagem, vinha descendo o
morro, viu o problema, quis ajudar meu avô e os dois espiaram lá para baixo e,
“ai!...” se jogaram caíram juntos despencaram lá para baixo pro fundo,
uuuuuh!...
Eu me
apavorei, me aproximei do precipício para ver também o que podia fazer, me
deitei no chão e olhei lá para baixo, uta! que susto que calafrio que dor nas
pernas... Era tudo muito alto e perigoso e eu nem consegui mais olhar com coragem.
Nem vi onde meu primo Bacopari e meu avô Caparaó e mais o quarto personagem foram
parar. Só vi pedras e poeira caindo num fundo sem fundo e eu desisti de olhar e
me arrepiei. Olhei tudo em volta e a noite vinha chegando. Parecia muito com a
história daquele livro “A Esfinge” contada pelo alagoano João Alphonsus. Noite
se erguendo do centro da terra.
Olhei o céu
noturno e vi um enxame de estrelas.
Ressuscitei
todo assustado e raivoso e vendo sombras de rato cruzar o chão do quarto. Bichos
rasteiros rápidos sombras fugidias pelo canto dos olhos. Isso sim. Isso sempre
quando eu menos esperava.
Nove
e dezoito no digital e o sol brilhante. Saía da noite ruim como alguém que sai
de um festival de música popular ao ar livre, ou seja, em estado de choque, de
horror, em dor de cabeça, e sujo e enojado.
Olhei
o alto diário e vi uma manada de nuvens.
O
céu azul estendido, o sol em fogo, o ar semeando cores, a passarada procurando
o que fazer, peiticas-de-chapéu-preto, chupins, periquitos-verdes,
ferreirinhos, andorinhas... Cavalo tordilho nitrindo, buzina estridulando,
pássaros corrudreando, pomba-rola turturinando. Vicejavam durante a serra de
Amambaí vicejavam camas-de-menino-deus. Era dia de dia claro e reinante.
Olhei
o centro do universo e vi um cardume de discos voadores.
***
Minha
tia Anori havia morrido. Finalmente morrera porque já vinha tentando de perto há
muito tempo. Tia Anori era minha parente favorita. Tia Anori tinha tio Pauini e
os filhos, meus primos, Azulona, Bojuru, Sagui-Leãozinho, Pirapitinga, Tamanduaí.
E tia Anori sabia fazer o melhor bolo de laranja que eu já provara, que eu já
cheirara, que eu já vira. Àquela horinha, tia Anori finalmente morrera. E
aguardava novo chamado, ali suspensa entre as nuvens do céu vai-não-vai, para
descer, retornar em forma de semente de alguma outra coisa, talvez retornar
como erva brilhantina-brasileira ou limpa-folha-vermellho ou guerreiro
suruuarrá... Vamos a ver.
Minha
tia Anori nunca acreditou em reencarnação, nem acreditava nessas superstições,
demorou para acreditar e ultimamente passou a acreditar por conta de amigas e
livros e revistas que vinha sistemática e vorazmente consumindo.
Está
todo mundo bem? Está todo mundo aí? Está todo mundo atento?
Os
mistérios nem são do céu. O céu infinito nem esconde nada. O céu nem sabe como
as coisas devem se resolver. O céu é limpo e límpido. O céu está em toda parte,
mas nem participa, nem brinca dessa brincadeira. O céu nem entende de nós e nem
de nada.
Minha
tia Anori se parecia com a mãe dela, minha avó materna. Minha avó Coari, dizem,
era a cara da minha bisavó Itapeva, a mãe dela. A gente via claramente que a
cara e o focinho, principalmente, da filha de tia Anori, minha prima Bojuru, era
a cara da tia Anori, mãe dela. E assim por diante. Sem contar os que ainda viriam
pelos séculos e séculos amém.
Eu
pensava muito. Nem sabia o que queria fazer. As dúvidas só aconteciam comigo. E
o céu nem nem. O céu nem entendia de pirâmides? O céu nem sequer. O céu nem
entendia de aguapés. O céu como se quer. O céu, e eu pensando na praia de
Jurerê.
Dava
vontade de morar num perau e nem ver mais gente nunca mais. Todo mundo ajoelhava
quando queria. Eu estava, àquela horinha, ajoelhado e bem ajoelhado. Você está
ajoelhado. Vamos, vamos nos ajoelhar sempre que for preciso e pronto. E eu
preferia morar acrocado numa gruta de perau, numa loca de barranco tipo as
araras-azuis-de-lear.
Uma jamanta
gigante e vermelha, do século passado, talvez mais, engarrafava a estrada, a
rua Tonantins. Morro abaixo, procissão, pela estrada, morro acima, comboio, pela
rua na direção do jardim do silêncio. Carreta carroceria estendida ao longo da
rua, reverberando ao sol, fantástica.
Quando
os ponteiros entenderam, então, eles sim chegaram às onze horas.
Eu
estava ali e nem estava. Agora estou aqui?
O
que se plantara nasceu, cresceu, frutificou e amadurecia para o dia da
colheita. Os quero-queros logo cedo queriam grasniram dizer alguma coisa.
E
o céu nem falou nada até ali, nem se meteu na conversa. O céu só fez uns gestos
lá de vez em quando. E
fez o mundo redondo, talvez. Mas o mundo redondo já estava redondo quando o céu
fazia o mundo redondo. Céu sem mistérios. Céu lá em cima. Mulher estendendo
roupa no varal. Céu lá com ele ensimesmado.
Quando
o céu olhou em volta, viu uma multidão de homens, muito homem, só havia homens,
homens demais e vestidos com roupas de ir à missa. Os homens criados ao acaso eram
muitos, muitos, uma multidão, um número avassalador e multiplicado, uma super
população inútil. E no dia do começo do mundo, ou um pouco depois, o céu viu
com seus próprios olhos que os homens lotavam o pátio do céu pedindo
providências. Praticamente só havia barbados e barbudos. Os homens se acotovelavam
no pátio do céu pedindo nem sei quanto por cento de aumento e outros benefícios.
Então, os homens, alguns, e por causa do excesso de marmanjos, tiveram a sorte
de ser sacrificados e transformados em porcos-do-mato ou caititus. A manada
grunhia e comia tudo que via e corria ao primeiro berro do número um que se
dizia chefe e ia na frente.
Um
dia houve um fogo na capoeira. Toda a capoeira pegou fogo. O fogo se alastrou
pelo mundo afora rapidamente e nada sobrou. Tudo que tinha sorte passou pela
língua terrível e arrasadora e purificante do fogo. Até mesmo as pedras. Até
mesmo a lua. Aí, então, que das cinzas e fumaça nasceu uma mulher muito bonita
e sem pelos e chamuscada. Deram o nome genérico de moça.
Era uma moça
de nome Enigmática? É, era a Enigmática. E que enigmática, meu! E o céu quis
logo casar com ela e beijar sua boca e pegar na sua mão de dedos com todos os
anéis. O sonho do céu foi casar com Enigmática. Trejeitosa, saltitante,
esportiva, aérea e etérea, barriga de tanquinho. Seus olhos sempre sorriam,
seus lábios sorriam, seus dentes brilhavam, seus passos sempre fatais eram também
muito ligeiros. E o céu nem tinha milagres. E o céu nem sabia o que fazer. E o
céu nem sabia por onde começar.
Todo
dia eu pensava o seguinte: que faço aqui?, que fazer? Nem adiantava perguntar nada
a ninguém, nada de céus.
Um
dia era de paciência. Um dia era de sorte. Um dia era de horror. Um dia era de
vazio. Um dia era de mais. Um dia era de passar. Um dia depois do outro passava.
Um dia de luz flébil. Um dia de morena frisada. Um dia era de setembro. E todos
esses dias tinham coisas e D à vontade.
Depois
as formigas-de-fogo pediram para morrer. Todos tinham direito a morrer. E todos
sabiam da bondade do céu para com todos. Assim as formigas-de-fogo tiveram o
direito do além. As formigas-de-fogo esperaram a noite. Escalaram até a lua. Escalaram
até a lua em cordas de aço. Depois de atingir o vácuo se espalharam até as mais
remotas estrelas. O resto dos dias foram raios e relâmpagos e coriscos. Para lá
das constelações só o céu que sabe.
Me
peguei na rua Pejuçara. Quando me vi eu já andava de cabeça baixa. Pensando em gurias. Pensando
em viajar. Pensando em
cidades. Conhecer a aldeia dos índios panos. Pensando em
Enigmática, pensando em viajar pelo rio Cuiabá, rio Envira, pensando em passar
temporadas nas cidades de Santana, Penedo, Rosário do Sul, Diamantina, Teresina,
Osasco, Juruena... E eu chutei uma pedrinha da rua, gostei, procurei outras
mais, chutei outras, nem só com a esquerda. A sorte era assim mesmo.
Quando
olhei a mulher a mulher parou parou o sol parou a rua Castro Alves parou o sol parou
a sombra da curicaca a nuvem congelou o trânsito buzinava parou o jaú no rio
Arinos quando a mulher se olhou no espelho portátil parou o sol.
As
árvores se deixavam brincar ao vento. Era uma falação de folhas ao vento. As
andorinhas, vestidas de asa-delta, e brincando de pegar, rindo, voavam
perigosamente entre árvores e fios e escombros de casas antigas. Cigarra
rechinava no pé de louro-da-várzea, cão ladria, andorinha grinfava, araquã
piava. Quem era quem podia ser camarão-d’água-doce hoje em dia?
***
De
Papebinha nem se ouviu mais falar. Uns diziam praqueles lados da fronteira com
Argentina, Santa Vitória do Palmar, Jaguarão, Herval e mais nada. Nem tinham
certeza e nem ela e Cimarrão apareceram mais. Que eu saiba.
Os
outros irmãos ficaram com a sina deles e tal. O pai e a mãe se conformaram e
tal. Seguido, vendo tevê, vendo alguma coisa na tevê, se emocionavam e se
consolavam e se juntavam encostando as cabeças.
Papari
comprou uma moto usada e foi trabalhar num frigorífico de galinhas e porcos lá
pro interior de Venâncio Aires. O duro era andar de moto no frio e na chuva. Parece
que casou uma certa data aí e estava construindo uma casa com o suor do seu
rosto tijolo por tijolo.
A
menina Papeba ficou com os pais por mais dois anos até terminar o ensino médio.
Depois pediu e prometeu e conseguiu se mudar para Rio Grande na faculdade de
psicologia. Já estava dando aula. Já estava quase casada com um dos donos de
certa locadora de vídeo.
No
fim das contas, os dois mais ou menos meio velhos, o seu Lagamar e a dona
Juparanã, lutando sozinhos no sítio ali na periferia de Nova Prata. Ele ainda
na barbearia, mas menos. Ela cuidando da horta, algumas verduras, umas
laranjas, umas jabuticabas, uns coqueiros-dicuris.
Estava
tudo indo assim quando, um dia de junho, inverno chegando e o tempo meio louco,
veio um tufão e arrasou tudo. Uns falaram que fora um tufão, outros um furacão,
outros um tornado. Enfim, o vendaval extratropical arrasou com a região, fez
estragos na cidade, derrubou casas e destelhou outras no bairro Basalto, no
bairro São João, capela Santa Líbera, e derrubou a casa da família Parangaba.
Os
dois antigos se salvaram por pouco foram parar no abrigo improvisado o ginásio
da prefeitura e tiveram que recomeçar tudo de novo tudo do zero e com o quê.
***
Minha
prima Azulona - tinha um gambá como mascote e bicho domesticado -, depois que
tia Anori morreu, resolveu ter uma sorte só dela e simples e foi pedir um
emprego. E conseguiu entrar para uma fábrica de tênis ali no Distrito Industrial.
O fato dela ter saído de casa, do conforto, do cômodo, do sofá e tevê, e
procurado um emprego, ganhar um salário mínimo que seja e tal e coisa,
surpreendeu muita gente e até a própria. Passava na rua e o pessoal perguntava.
Ela mesma dizia:
-
Olha, quando me vi dentro da fábrica trabalhando, empregada... quando caiu a
ficha... olha, gente, foi um orgulho pra mim e eu até me emocionei, pi-pi-pi!...
Azulona
continuou trabalhando. E lá mesmo, naquele meio poeirento e cheirando à cola de
sapateiro, ela conheceu o Tarumã. E os dois começaram a trocar olhares,
sorrisinhos, piadinhas, olhares, mãos bobas, empurrões, balas, apertos de mão.
Quando viram estavam namorando e frequentando bailes. Aí, foi um choque para o
tio, seu Pauini, viúvo e tal.
Pois
a Azulona continuou o namoro com o Tarumã. E trabalhavam juntos, e namoravam
toda hora de folga, no intervalo, depois do serviço, fins de semana. Estavam
sempre juntos e aquilo chamou a atenção porque era bacana. Eles foram feitos uma
para o outro, era o que todo mundo pensava e elogiava e até torcia. Tarumã
comprou um carro de segunda para pagar em vinte e oito prestações com certo
número de cilindradas ou cavalos. E a coisa andou cinco meses, seis meses.
Quando veio a notícia sensacional:
-
Sabem?! A Azulona está grávida! Grá-vi-da!
Apesar
de ser um acontecimento à toa e até natural, o pessoal achou uma coisa
espantosa e maravilhosa e engraçada. Foi um choque mesmo para todos da casa e
os irmãos e o pai de Azulona. Foi um choque porque eles estavam desprevenidos,
gente.
Mas
aí, a gravidez continuou e fazer o quê? Azulona foi aumentando e esperando o
bebê. Foi ver o sexo do bebê e teve uma surpresa:
-
Pois bem, dona Azulona! Sim, senhora! A senhora tem gêmeos! A senhora tem gêmeos
dos de dois gêneros!
Sabe,
então, foi um choque para muita gente porque ninguém espera ou se previne para
esses milagres, esses brinquedos, esses sustos, esse degrau.
E
a Azulona estava grávida de gêmeos e continuava abraçando a melancia. E o pai
dela achava que os pombinhos deveriam casar e casaram. A festa foi um barulho
muito grande no salão da sociedade São Cristóvão. Toda a parentada e aderentes
e amigos e vizinhos. Música ao vivo com um conjunto excepcionalmente de Tupanci
do Sul. Foi uma alegria para todos ver a noiva já com aquele barrigão de umbigo.
Foi um choque aquela festa de fechar a rua Bom Princípio esquina com André da
Rocha. E a galera gritava em coro:
-
Cuidado com o degrau!!
E
os recém-casados foram morar onde que nem tinham casa, nem tinham fogão a gás,
nem tinham poupança, nem tinham nada e nem tinham onde cair? O gambá foi junto,
evidentemente. Foram morar de puxadinho na casa do meu tio, o seu Pauini. Pois foi.
E assim as coisas foram feitas. Foi o que deu pra fazer. E muito amigo se
chocou com esse negócio de morar de favor no puxadinho da casa do papai do sogro
e tal. Coisa urgente é sempre incrível.
Mas
o rio tem coisas difíceis e outras piores. O bom é que se pode ir em frente. E quem nem pode
ir em frente já era e já foi ficando para trás. O bom que ir em frente já nem
tem mais nada com o passado.
E Azulona com Tarumã
e os dois gêmeos iam em frente. O casal ia e nem voltava. O caso era que discutiam
um pouco. Azulona estava sempre atacada e atarefada e à flor da pele. Tarumã
sempre impaciente e mais estúpido ainda. Mais uns dois ou três meses e os bebês
apareceram. Que ma-ra-vi-lhas!! Foi um grande choque ver aqueles dois filhotes
olhando o mundo sem ver nada sem entender de nada e esperando tudo. Era grande
de bom e mais. Parecia ser como na tevê ou no livro do bebê.
Por
aquele tempo os bebês já precisavam comer e mamavam muito e cresciam
naturalmente. Azulona ficou só cuidando dos pimpolhos, os seios bojudos, os
seios bombando. Tarumã perdeu o emprego, perdeu outro emprego, cansou de
procurar. Sabe como é? Fábrica de calçados dura um ano e fecha por dois, dura
mais dois anos e cerra por três. É a história do mercado do sapato neste país,
etc. E foi um choque tremendo para a sina e o orçamento do casalzinho. Eles já
estavam pensando em comprar dois carrinhos de bebê. Eles e a turma estavam
pretendendo passar as férias de fim de ano em a praia de Cidreira.
Mas
o pai, meu tio, o seu Pauini, disse e falou:
-
Tudo bem. Se dá um jeito. Isso acontece. Tudo bem. É assim mesmo. Paciência. Eu
dou uma mão até vocês se ajeitarem. Nem tem problema. Só nem quero que meus
netos passem necessidades.
Mas
o fato verdadeiro era que todo mundo estava chocado com a tremenda porcaria que
era a sina, economicamente falando, da nova família brasileira. Dois filhos pra
criar? É duro, meu! E todos estavam chocados mesmo. E outros até achavam que
nada podia dar certo. E mais outros achavam que fazer família era para seres otários
e nem gente de homo sapiens.
E
a sina em geral ia naquela velocidade de cágado duna acima. E a sorte deles um
pouco piorando. Uma dificuldade, meu!
E Tarumã nem
arrumava emprego nem aqui nem ali nem acolá. Viajou para Parobé vê se arranjava
viajou para Encantado vê se arranjava viajou para São Sebastião do Caí vê se
arranjava foi até Tabaí e coisa nenhuma telefonou para São Vicente do Sul e
nada e nem arranjava nada e nem arranjou nada até mesmo lá no Morro do Chapéu.
E foi num dia tal
que ele ficou até tarde assistindo jogo de futebol no bar em frente quando até
o time perdeu de goleada. Mas pra quê?! Quando chegou em casa Azulona , pronto,
brigou e brigaram, discutiram, se disseram coisas interessantes até pela
primeira vez. O pai dela, meu tio Pauini e os irmãos dela, meus primos, ficaram
chocados e se olharam e ficaram paralisados e nem acreditaram o que estava
acontecendo e nascendo lá entre eles. Um erro, depois outros erros e berros e
assim por diante. O tio até tentou intervir:
- Calma, minha
gente! Calma!
Mais
uma semana e outra briga por causa de falta de dinheiro, por falta do que fazer
e por falta de leite para as crianças. E quebraram o pau, mesmo. Tarumã até
chutou o gambá. E foi um choque para a família e para a vizinhança, amigos e a polícia.
A polícia teve de comparecer para solucionar os termos das partes, chegou de
carro verde com luzes de alerta ligado e para botar os pingos nos iis. Cada um
pro seu lado.
Daí
o casal se separou quase que na marra. Aí, brigaram de foice no escuro. Tarumã
distribuiu bênçãos por todos os participantes. Chegou a polícia outra vez.
Levou o gajo para prestar depoimento. E foi um choque para todo mundo, pois até
o jornal da cidade e os cachorros ficaram sabendo. Foi um choque e uma surpresa
e um vexame. Mais que choque, um nojo.
E
tudo por quê? Porque a sorte o rio é difícil, meu!
Uma
coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Tudo porque as pessoas acham que
podem casar e casam. Como se casar fosse coisa de D.
***
Dizem
que quem sonha tem o cérebro em ordem, em dia, dia a dia. Um cérebro esperto, desafogado,
descansado, higienizado, ventilado, superficial.
Pois
eu estava no meio da estrada de asfalto com traços brancos na pista. Já ali no
asfalto pra lá e pra cá e fazendo o quê? E começou a chover torrencialmente em
lençóis de água. Era verão bom e a chuva estava ótima e aguaceira. Mostrei a
língua e bebi. Eu sempre gostei e gosto de chuva. Apareceu meu irmão Inhambu.
Mas
a chuva nem parava e era muita água em cascatas e como D mandava. Aí, fui me
abrigar no costado de um grande cilindro tombado deixado ali no lado da
estrada. Um cilindro igual dos que os caminhões transportam gás ou leite. Mas
era só o grande cilindro ali solto no asfalto. Bicho monstro dinossauro tipo cilindro
liso rotundo fechado platinado de aço.
Então,
eu fui me abrigar junto dele, me escorando na beirada, na sombra, junto à
lateral. Me encolhia ali e pronto. A água da chuva escorria.
Mas
assim mesmo a água era muita e nem parava e me encharcava todo. Eu gosto de
água da chuva, mas era tanta água que era uma água barbaridade.
Resolvi
sair fora, enfrentar a bomba de água e voltar para casa para casa. Eu tinha que
chegar em casa e fazer alguma coisa o que nem sei.
Quando
saía de perto do cilindro apareceu um caminhão de lá. Eu fui para o acostamento
com receio que ele me atropelasse. E o caminhão também veio. Eu saí mais ainda
para o acostamento e o caminhão também veio mais. Acabou que eu pulei na beira
do barranco, me agarrando na beirada para nem rolar lá embaixo, e o caminhão
passou bem pertinho dos meus dedos, um palmo, tirando fininho.
Assim
mesmo dei graças a D por ter me salvado. O caminhão seguiu tirando lasquinhas
do barranco e foi foi muito rente como sobrando um fio de cabelo para nem cair
do barranco. Eu ainda vi o caminhão ir mais um pouco mais para a frente e em
velocidade de filme de ação. E realmente o caminhão caiu barranco abaixo com
grunhido, gruuuuuim!... de porco. Caiu frente de uma casa e o pátio dessa casa
estava cheio dos meus parentes num aniversário muito festivo era casa de tia Irani
espocavam até os tais fogos de artifício.
E
todos estavam ali olhando o desastre de boca aberta e olhavam o caminhão
vermelho que nem era mais caminhão e sim uma camionete com carroceria de
madeira. Camionete caída e tombada do barranco bem aos pés dos meus parentes
boquiabertos. E o cara da camionete, na capotagem, simplesmente pulou a janela,
se equilibrou e saiu andando no mais. Nem olhou para trás e nem quis saber de
nada e nem se lixou com meus parentes ali olhando de queixo caído.
Eu
lá do fundo olhava tudo e me admirava. Também fiquei boquiaberto. Com um tombo daqueles
e o cara nem aí, meu?! E o cara pegou e foi embora deixando tudo para trás.
Parecia um desenho animado com alguém pulando na lua.
E
sem mais um segundo eu já esperava a Manaquiri que estava ali no bar com a
galera dela. Eu esperei e já cheguei e fomos embora. Fomos rumo para onde? Para
casa dela? Para minha casa? Sem rumo algum? Nem pensei nisso, meu!
Eu
e Manaquiri fomos sumindo pelas ruas da cidade, e que talvez já começávamos
pela rua Capoeiras. Que lugar da cidade? Nem estávamos namorando e também nem
estávamos nos largando. E eu na verdade a achava um cavalo de gostosa e de
apetitosa e de fogosa. Sabia que nunca a havia tocado, mas ela era gostosa até
demais. Ou merecia ser. O meu cérebro fazia tuuuiiim!... Ela, acho, nem tinha
muita certeza de mim, confiança em mim, paixão em mim.
E
fomos mesmo pelas ruas e tal com árvores que já conhecia de outros dias a cada
três quatro metros na calçada, tento-amarelo, urucurana-vermelha, copiúva,
cupuaçu, guajaraí... Os prédios e as casas nos rodeavam? Eu tentava pensar
coisas e falar. Eu queria motivos de sobra para falar e fazê-la rir. Eu pensei
pegá-la pela mão, agarrá-la de qualquer maneira, mas nunca vinha coragem ou
ânimo. Nem queria que me escapasse e fosse de outros.
Manaquiri,
cabeleira morena bem apanhada, nem tinha enfeite no pescoço ou nos pulsos ou
nos tornozelos ou nem reparei direito, minha altura, da minha altura. Ela nem
me evitava, mas nem colaborava. Era muita areia para o meu tratorzinho de
caçamba. Fomos pedalar no laguinho com os já tradicionais pedalinhos. Apanhava
os cabelos com as duas mãos e os jogava para trás.
Eu
tentava um papo e ela já sabia a pergunta e a resposta e me olhava com
superioridade, com altivez, com elegância, com riso nos dentes bonitos
aperolados. Ela ria e nem dava corda. E me deixava começar os assuntos e nem
gostava dos assuntos. De repente eu estava falando e ela olhando o infinito
olhando o carro passar. E íamos pelas ruas, o que que eu ia fazendo desfazendo?
Uma
altura, nem sei depois de que tanto tempo, paramos num quiosque e sentamos num
banco de ferro. Ela sentou um metro longe. Que difícil, meu!
Tentei
falar com estilo de malandro com gírias alopradas com sotaque de nem sei que
parte do país com jeito de lombrado e tentava mesmo fazer mágica. Tinha que
quebrar o gelo, entende?! Ela era dura e nem se aproximava um centímetro. Parecia
um sonho psicodélico no meio com as luzes estroboscópicas. Pensei em lhe pagar
um sorvete ou suco de abacaxi:
-
Vamos beber uma ceva, hem?!, guria.
Ela
riu e aceitou com pouco entusiasmo. Mas estava aí, nem estava? Estava aí e
estava muito difícil, muito distante, pra lá de esquisita, pra lá de
Guaratinguetá. Estava comigo mas parecia só passar o tempo alongar o tempo
esquisitar o tempo.
Será
que nem era o nosso dia? Será que nem era o meu dia? Será que ia ser mais
difícil que eu imaginava? Será que ia tirar a mão do queixo beber um gole
passar a língua nos lábios azuis e olhar sério pra mim?
Ela
falava só o necessário porque gostava de falar só o necessário, ela ria muito
porque gostava de rir muito. Todo o rosto dela era um país vizinho.
Eu
nem podia perdê-la por nada deste mundo, ela nem me abandonava nem sei por quê.
Tão muito tentação e lunar.
Um
papagaio-caboclo arengou, uma bandeira do país tatalou, um besouro extraordinário
chilrou, um burro ornejou.
E,
finalmente, eu reparei bem que Manaquiri era um dia próxima, linda e difícil.
Nem
sei de mais nada, obrigado.
***
Semana
passou e outros dias e, em começos de agosto, o sol apareceu sem nuvens o
anilaçu falou:
-
Sinto tudo muito mágico sobrando no ar e outras ondas de rádio boas e ótimas de
respirar.
Um
caxinguelê falou:
-
Por mim nem será assim tão rápido assim.
Outra
sucupira fluflurou:
-
Estou pensando em altos sucessos.
O
papa-sebo sobrevoou pousou e piou:
-
Tudo está em paz pacificado pacífico.
E
se conversou e se analisou e se concluiu:
-
Por que nem isso sempre e todos os dias? Por que nem antes?
-
E se o vento nem mudar? Porque se o vento mudar!...
-
A gente sempre espera por que esperar? Mas quando menos se espera, acontece.
-
D colabora colabora.
-
Exatamente. Quando D quer Ele para numa praça com ótimo jardim laguinho
araucárias novas e até estátua de poeta Cruz e Souza.
Embora,
assim mesmo de súbito, como nos verões mais gostosos, uma chuva desabou,
desabou. Chuva de assombrar torrencial diluviana. Pode até ser meu exagero mas
a água corria muita limpava as valetas. Para carregar e encher até o riacho
Retiro. Me sentia um peixe. Choveu tanto que chover assim muito me ficou até
normal. Apareci e abracei a chuva caindo a chuva. Aprendi muito com a chuva a
água na altura atingindo já minha cintura.
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