sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Totó (juvenil)




            Sol para todos os lados, sol dentro da terra: o dia. Estrelas contadas para todos os gostos, grilos miando: a noite. Chuva para encher os rios novos, vento passageiro: noite ou dia.
E perdizes. Perdizes em bando de perdizes. Perdizes na plantação de mandioca. Perdizes exclamativas, perdizes nas plantações, perdizes olhando o campo. Mãe perdiz e pai perdigão.
            Um dia, toque toque toque!... na porta da casa dos pais de Lilás. A menina foi atender e... adivinhem!, era seu primo Guibá que chegava do interior do município, e para um fim de semana.
            - Primo! - gritou Lilás.
            - Prima! - gritou, por sua vez, o primo Guibá.
            - Você por aqui? Que legal!
            - Vim passear.
            - Maravilha!
            - Trouxe meu cãozinho linguiça, o Totó. Ele pode filar também?
            - Sem dúvida.
            O primo tinha a idade da prima, mais de nove anos menos de onze; e a altura da prima, dois terços de um cabo de vassoura comum. Esse primo levava sempre nos lábios um sorriso fácil, branco e quente. Era boa gente, mas seu olhar denunciava esperteza, manha, correria, futebol, tevê, etc, preguiça, sorvete, risos, gargalhadas. Era um carinha descuidado e otimista. Será que ele não gritava? Lilás perguntou outra coisa:
            - Você raspou o cabelo?
            - Sim. Cortei zero. Gostou?
            - Como fazem os monges de Buda.
            - É, é moda. E nesse verão refresca as ideias.
            - As pessoas não enticam, não gozam?
            - Mais ou menos. E eu nem ligo. Até gosto e admiro e admito.
            Algumas horas depois já se podia ter ideia de como funcionava aquele primo. Algumas horas depois já se tinha ideia de como se comportava o jaguarinha Totó. Totó era seu nome comum. Totó sem de quê. Só Totó. Totó tinha uma cor marrom-queimado, pernas curtas, cauda pouca e vibrante, e corpo alongado de salsicha, mais corpo que pernas, mais orelhas que olhos, olhos castanhos e grandes. Totó era mesmo do tipo rasteiro ou teixugueiro.
            Mandavam Totó sentar e ele sentava. Mandavam pegar alguma coisa, ele pegava. Atiravam alguma coisa para ele pegar e o cãozinho corria afobado e pegava e trazia de volta. Jogavam alguma coisa à toa para Totó não pegar e ele já ia correndo pegar. O cãozinho gostava de agradar o seu melhor amigo e os amigos do seu melhor amigo. E assim por diante, etc, e assim era a vida de Totó.
Primo Guibá e Totó ficavam muito tempo no chuveiro se ensaboando, tomando ducha, molhando tudo. De repente se ouvia uma gargalhada do Totó; de repente se ouvia um latido do Guibá. Totó e o primo eram dois tipos praticamente iguais no caráter, no comportamento, nas manias, nos gostos. E se entendiam muito bem, e se sintonizavam muito bem. Às vezes comiam no mesmo prato, por exemplo.
            Totó dormia no chão, sobre um travesseiro. O primo dormia na cama. E roncavam profundamente. Se o primo tinha pesadelo, Totó latia; se Totó tinha pesadelo, o primo acordava agitado. Aí, então, assistiam filme de desenho animado para cachorro. E mais alguma coisa?
            - Você gosta de pinhão, prima Lilás?
            - Gosto de pinhão como os que gostam de pinhão, primo Guibá.
            E outra coisa. Como Totó surgiu na família do primo? Totó nasceu aparecendo numa noite de ventania. O vendaval estava, sacudia o mundo e ele, o Totó, vinha chegando aí. Latindo ou choramingando, chorando ou quase acoando. Sem pai e sem mãe e sem irmãos. Muito pequeno, redondo e só. Decerto conseguiu entrar pelas grades estreitas do portão de ferro do pátio e veio bater à porta da casa da família do primo Guibá. Foi recebido com surpresa. Foi já já adotado. Guibá gostou do cãozinho e lhe deu o nome de Totó. Ficaram amigos e são inseparáveis para sempre toda vida até hoje. Assim o passado recente de Totó.
            Pois a família de Lilás, pessoas muito calmas, não se acostumavam que Totó comesse na mesa com eles, nem jogasse vídeo game no sofá da sala, nem tomasse banho de hidromassagem. Não estavam acostumados a dar mordomias especiais para cachorrinho. Embora não se agradassem, não falavam nada e até tinham muita calma, e até tinham muita pena, e até gostavam muito de Totó.
Era uma fase do ano que acontecia chover todas as noites. Chovia e chovia desde o começo da noite. Bastava chegar a noite que chovia. Todas as noites eram de chuva na certa. Dias que só chovia à noite. Aquela noite choveu muito.
Assim, no dia seguinte era muito sol brilhante.
            - Primo - falou a menina -, hoje é sábado. Vamos dar um bico no shopping do centro, na praça da Bandeira, etc?
            - Vamos! Lá é legal? - perguntou o primo.
            - É ótimo. Tem de tudo: árvores altas, pipoca, sorvete, coisas assim.
            - Vamos nessa que vai ser bom à beça.
            Então, latindo, acoando, Totó pediu ao amigo Guibá que o levassem a um cabeleireiro. Queria ficar bem bonito para o passeio.
Lá no cabeleireiro fez o pelo, as unhas, as orelhas e a cauda. Depois passaram numa loja para cachorro, óbvio, e compraram uma roupa, colares, pulseiras, pingentes, cinto, coleira, óculos escuros. Tudo de boa qualidade, cheio de brilhos, coisa linda, coisa bonita para cachorro.
            Chegando a tarde de sábado, foram. Já no shopping Itacambira, desceram e subiram escadas rolantes, bisbilhotaram vitrines. Começaram varrendo já do primeiro andar e foram até o oitavo.
Lilás e o primo encontraram conhecidos dela. Todos se amarravam em Totó. Fez tanto sucesso, o cachorrinho, como uma celebridade da mídia. Porém, Totó não parava quieto, queria conhecer tudo, andar por tudo, farejar coisas novas, ser muitos ao mesmo tempo. Totó era muito folgado, muito mexeriqueiro: um fução. Quando gostava de algo latia muito alto. O eco do latido chamava a atenção e todo o mundo olhava. E Totó agradava pelo seu jeito divertido e faceiro e brincalhão e bonachão e trapalhão e distraído. 
Uma hora deu de cara com uma cadelinha da sua raça. E isto era inédito para ele. E começou a flertá-la. A cadelinha gatinha era tudo igual e semelhante a ele, Totó. Tudo igual menos uma fitinha azul presa atrás da orelha direita. Esta fitinha discreta de enfeite, era sinal de que a cadelinha era uma cachorrinha. E Totó já descobria que ela seria sua namorada. Foi amor instantâneo, à primeira vista, à primeira cheirada. Trocaram tímidos olhares, ressabiadas fungadas, básicos latidos baixos. E a cadelinha era cheia de frescuras, não deu muita bola no princípio, o que não desanimou a Totó. Quis porque quis persegui-la por todos os cantos. Até que pôde latir baixinho nas orelhas lá dela. Totó ficou vidrado na mimosinha, que era assim aos seus olhos: fêmea e olhos castanhos e bonita e em câmara lenta. Aí latiram, miaram, sussurraram, trocaram murmúrios, se esfregaram um no outro, um pro outro, lamberam-se, perseguiram-se de cá pra lá e de lá pra acolá. Namoraram o resto da tarde. E ela se chamava? O nome dela?
E a mimosa cadelinha atendia pelo codinome de... Ana Paula! Mas todos diziam Aninha, e ela atendia. É, e muito mais. E o que mais, entre os dois, lado a lado? Não nem para curtirem até mesmo a batata-frita na área de alimentação. E o que mais? Ela, a Ana Paula, não gritava?
Todos tomaram um sorvete e, perto do anoitecer, pouco antes de chover, se despediram. O casal de namorados se separou tristonho, contra a vontade lá deles. Trocaram telefone e e-mail e cada um foi com seu dono para casa. Totó estava bobo, pateta, zonzo, aéreo, tolo e babaca. Seus olhos perdidos olhavam o nada: apaixonara-se e se apaixonara.
            Toda a família humana de Totó fez muito gosto que Totó se enamorasse da mocinha Ana Paula. Ela era tudo de bom e bela. Ela era da mesma raça do Totó e pertencente a um dono de muito conceito e prestígio na comarca. A tal cadelinha era, nada mais nada menos, que protegida e amiga de uma excelente família de humanos da cidade: a família Araçapeba. Portanto um ótimo e muito bom partido para o Totó. E muito obrigado. E parabéns.
            De noite, Totó não conseguiu dormir: bateu-lhe a insônia, o desejo de rever a amiga cadelinha. A saudade e a saudade, auuuu!... Quase que o primo telefona. Mas já era tarde da noite. Totó uivou sentado na varanda olhando a chuva, olhando o toró cair. Totó uivou na varanda a madrugada toda. Não deixou ninguém dormir direito. Coitado, sofria do coração.
            Lilás quis distrair Totó e perguntou a Totó:
            - Totó, você gosta mais de fazer turismo na praia ou na serra?
            O cachorrinho latiu sem alma, sem fé, orelhas baixas, sem ânimo praticamente, e o primo Guibá traduziu:
            - Totó disse que gosta de Ana Paula.
            Mas o tempo as horas foram andando assim mesmo.
            No domingo Totó estava já se tornando muito folgado, língua sempre fora, e tomando conta da casa. Corria pela casa esbarrando nas coisas e, volta e meia, depredando patrimônio alheio. Queria comer quando a família não comia, queria ir aonde os outros não estavam a fim de ir. Só comia comida de gente. Adorava bolo e docinho e frutas em compota. Era da raça dos teixugueiros, linguiças, rasteiros; tinha toda vida muita preguiça. Exigiu uma suíte só para ele, com tevê, paredes decoradas, cortinas verdes nas janelas, cama de casal, luzes acesas durante a noite toda. Estocava sua própria comida no frigobar do quarto. Só bebia água mineral importada de Araxá.
            Será que o guaipequinha Totó sabia de tudo que se passava? Será que Totó era inteligente ou apenas intransigente? Será que Totó estava se tornando humano demais para o gosto das pessoas? Será que Totó adquirira manhas e manias do seu dono? Será que Totó era divino? Será que Totó tinha uma alma tão pura assim? Será que Totó adivinhava pensamentos? Será que Totó sabia contar até dez? Será que Totó gostaria de viajar de avião?
            Mas o primo estava preocupado. O primo Guibá estava pensando mais que vivendo. Então, correu para a prima:
            - Prima!
            - Que foi primo?
            - Negócio seguinte. Tenho um problema.
            - Fale.
            - É que o Totó vai fazer aniversário semana que vem e ainda não tem padrinhos.
            - Tá certo. Precisamos de padrinhos urgentemente.
            - Sim, mas quem será esse padrinho e essa madrinha?
            - Chegamos aos problemas.
            - Temos que achar alguém que Totó goste e respeite. Temos que achar um par, um casal, que goste e respeite Totó.
            - Sim, sem dúvida, primo.
            Por isso a menina e o primo andaram matutando quem poderia ser o padrinho e a madrinha do cusquinho. Saíram pela rua Carumbé a procurar. Saíram pelas ruas e avenidas a procurar. Foi um custo deixar o Totó em casa, longe do passeio e alheio à procura. E procuraram, procuraram, procuraram... Procuraram atrás de coisas paradas, embaixo de coisas paradas e na copa de árvores copadas. Viram na rua 7 de Setembro uns gatos da mesma família tocando viola violão violino violoncelo. Viram na rua Voluntários da Pátria uma cutia dormindo na calçada perto da padaria. Mais alguma novidade? Foram passando e procurando.
            E perdizes. Perdizes bonitas pra chuchu. Perdizes não são flores que se cheirem. Perdizes astronautas. Perdizes nos bancos da praça Socó-Boi. Perdizes e as novas tecnologias. Perdizes na moda.
            Uma hora encontraram uma princesa loura, exibida, exigente, linda, bem vestida, colar de pérolas dando várias voltas no pescoço, pele bem tratada, olhos vivos, bem humorada, bisneta de D. Pedro II e que topou ser madrinha de Totó. E se chamava Calixa, princesa Calixa. Mas ela só aceitava com uma condição: que Totó fosse viver com ela no palacete, pelo menos os três meses nas férias de aula.
A princípio o primo, amigo íntimo de Totó, não gostou. Sentia pena de perder seu cãozinho durante o verão. Sentia pena de vê-lo só nos fins de semana daqueles dias ensolarados e dos altos verões. Depois pensou melhor e mudou de ideia.
            - Bem, eu aceito, princesinha Calixa.
            - Maravilha! - apitou eufórica, a princesa loura.
            - Aceito pro bem de Totó. Ele merece. A vida num casarão é melhor daquela que eu posso lhe dar. Totó sempre sonhou com vida assim fácil. Totó merece tudo de bom. Totó merece viajar pelo Acre, pelo Amapá, passar o carnaval na Bahia de Todos-os-Santos, andar de barco no rio Amazonas, rio Negro, rio Solimões, subir ao pico da Neblina, tirar fotos na baía de Curuçá, deitar na praia de Canoa Quebrada.
            - Vou dar tudo que ele desejar, do bom e do melhor, do caro e do importado, do fácil e do difícil, do perto e do longe - prometeu a princesa.
            - Fico feliz por ele. Fico com água na boca por ele. Fico torcendo de longe por ele.
            O primo e a menina Lilás precisavam agora encontrar o padrinho. Com madrinha, Totó estava bem servido. A princesa era boa, rica, feliz, jovem, bonita, esportiva, orgulhosa, loura, patriota e carinhosa. Era descendente da Princesa Isabel.
Só faltava o padrinho. E procuraram, procuraram, procuraram... Procuraram de táxi, procuraram de ônibus, procuraram de bicicleta e procuraram a pé. Visitaram o parque mais famoso, visitaram o museu mais badalado, visitaram a casa do poeta mais comemorado da cidade. Caminharam toda a extensão do caminho do tatu Tatuapé. Encontraram sapos pequenos ancorados em folhas verdes e úmidas de aguapés. Viram mariposa cair na rede da aranha, coisa natural. Esqueceram de algo ou alguém?
            No fim de um longo período de busca, numa esquina de uma noite nevoenta e chuvosa, encontraram o diabo. O carvoeiro se chamava Brasino. Perguntado se aceitava ser o padrinho de Totó, disse que sim. Mas exigiu uma condição: que Totó viesse morar com ele no inferno durante os invernos, as férias escolares de inverno. Exigência que já de cara foi aceita. 
Então, estava feito o carreto, ou seja, encontrado os padrinhos de Totó. E assim, foi martelado marcado o dia e a festa do grande aniversário.
            E perdizes. Perdizes coloridas. Perdizes brincalhonas. Perdizes jovens e perdizes da estação passada. Perdizes tomando sopa no abrigo da paróquia. Perdizes não gritam? Perdizes de Ibirubá.
            Bem, o aniversário foi lindo. Tudo aconteceu num domingo pela manhã, numa capelinha pintada de azul e branco do bairro Pirágua. No céu azul não havia uma nuvem para semente. A capelinha estava lotada de gente e cachorros e gatos e borcos e galinhas e pedras alinhadas, todos vestindo branco. Cada pessoa com seu bicho de estimação. Cada cão com seu particular tratador. Não somente cães, mas também gatos, porquinhos, pássaros estrangeiros, ratos, faisões, perus, taturanas, grilos, gafanhotos, correrias, jogos de futebol. Um lugar calmo, branco e azul e verde, casas e vegetação, uma brinco-de-princesa florida, uns jacarandás floridos, uns ipês-amarelos apetitosos, uma fileira de jerivás fardados. E uma leva de amigos, parentes, contraparentes e aderentes. Estava a madrinha Calixa, que era princesa; e o padrinho Brasino, que era diabo. Havia um casal de gatos siameses da Tailândia, inclusive. E um casal de pastores alemães, que latiam em português. E muitos muitos outros bastantes convidados, índios do Xingu, índios majubins, e tamanduá-mirim, angicos, araçás-da-mata, capivaras, tucanos-do-bico-verde, juritis, bem-te-vis-do-campo, iaiás-de-cintura, tintureiros-das-pedras, cutiaias...
            Totó foi batizado oficialmente e ficou muito feliz com tudo. Gostou muito dos padrinhos e tal. Tão feliz que às vezes corria pelo pátio deixando a língua de fora ou tentando morder a própria cauda. Tão eufórico que pulava, e pulava para os braços dos convidados, e latia para tudo. Totó estava bobo, exibido, maravilhoso, poderoso, emocionado, orgulhoso, corajoso, agitado. Corria e se matava de correr principalmente em volta de sua namorada, a Ana Paula ou Aninha. Totó não gritava?
            Meio-dia rolou mesmo a festa. Uma festança para todos os convidados comer e beber à vontade. Muita alegria, muito osso e água mineral. O show ficou por conta do grupo de forró: Agarra Carrapicho. No palco os casais dançaram enroscados. E Totó, com sua namorada de pelo liso marrom-queimado, dançou sem parar. Totó teve que dançar com praticamente todas as convidadas, e que eram muitas, umas bonitas outras ainda mais lindas, todos os tamanhos, todos os bichos e espécies e raças. Mas estava tudo muito bom. Sempre pajeado pela madrinha e pelo padrinho.
            Madrinha e padrinho lutaram para ver quem agradava mais o afilhado. Disputaram para ver quem gostava mais do afilhado. Deram muitos presentes e agora carinho, atenção, beijos, ciúmes e olhares ternos. Não tiraram, nem por um minuto, os olhos de cima de Totó. Por vezes até chegaram a esfregar o nariz com o focinho do cachorrinho. E a noite chegou com chuva.
            Oito horas da noite, Totó cansado e sonolento, ouvindo o barulho da chuva lá fora, só queria uma boa cama, um bom encosto de almofada. Brincara muito aquele dia. Tudo fora muito bom, a festa, os convidados, a alegria, a namorada. Não parara um minuto. Queria agora dormir e sonhar com um paraíso de mar, sol, osso, namorada e tranquilidade. Amava a Aninha, amava uma torta com camadas de amendoim, um sorvete de melancia ou limão-laranja e um suco de abacaxi em algum lugar do Ceará, uma praia: Boa Viagem, por exemplo. Esta a natureza de Totó. E agora o que restava fazer?
            E perdizes. Perdizes em grupo. Perdizes passeando de asas dadas. Perdizes telefonando. Perdizes perdidas. Perdizes esperando condução. Perdizes fugindo do minuano. Perdizes em fila indiana pela avenida XV de Novembro. Perdizes de duas em duas.
            Na segunda-feira pela manhã, o primo Guibá, muito triste, pegou Lilás por um braço, chamou-a de lado e rogou:
            - Prima Lilás, você permitiria que eu e Totó ficássemos em sua casa mais alguns dias?
            - Claro. Será um prazer.
            - Oh!, que legal. Muito obrigado.
            - Não precisa agradecer. Vocês brincam comigo e isso é ótimo. Me divirto muito.
            - Valeu. Valeu mesmo. Valeu todas.
            E o primo, mais Totó, ficaram mais um tempo em casa de Lilás. Só que naquela mesma noite aconteceu um imprevisto, um escândalo. O fato foi que a princesa, madrinha e apaixonada por Totó, raptou Totó. Na calada da noite chuvosa, três dos seus serviçais entraram na casa dos pais de Lilás e roubaram o bichinho. Deixaram um bilhete: “Raptei Totó porque o amo muito. Não tentem buscá-lo, nem chamem a polícia porque a minha vida, a minha felicidade está em jogo. E peço por favor, gente! Obrigada. Ass.: Princesa madrinha Calixa.”
            O primo quando soube do ocorrido, do bilhete, ficou tomado, desconsolado, desarvorado, arrasado, inconformado, sem apetite e não precisou se esconder para chorar:
            - Como pôde? Como pode? Quem essa princesa madrinha pensa que é? Só por que é madrinha de Totó? Que ousadia, que absurdo! Eu não admito! Isso é o que dá confiar em princesas mimadas!
            - Será que Totó está feliz? - questionou Lilás.
            - Claro que não! Ele não pode viver sem o meu carinho, a minha atenção, etc, a minha proteção, a minha presença.
            - Então, ele fugirá, pode esperar.
            - E se a princesa madrinha o prendeu num quarto decorado e cheio de presentes caros? E se ela o cativou com doces e viagens ao país dos cachorros? Totó não é de ferro. Seria o fim de Totó. Totó engordaria, ficaria irreconhecível, esqueceria dos amigos do peito.
            - Não, ela não faria isso.
            - Não se sabe. Uma princesa estimada é capaz até de tirar férias no estrangeiro, fazer greve de fome, fazer greve de sede por um cãozinho alheio.
         Mas o jaguané Totó levava uma vida de príncipe, tipo parente distante da Princesa Isabel. Tinha, lá no casarão, tudo do bom, do caro, do chique, do melhor e do que estava acontecendo na moda. Qualquer desejo seu era atendido. Não existia? Tudo bem, mandava-se fazer. Bastava latir e tudo que queria era posto aos seus quatro pés. Já não pensava no seu dono antigo, o tal de Guibá.
E a felicidade de Totó junto da princesa madrinha Calixa durava, parecia que seria eterna. A vida era calma, pacífica, sonolenta, saborosa. Todo dia era domingo. Todo santo dia tinha torta de chocolate no almoço e no jantar. Passeava no parque da mansão, sob as árvores bem cuidadas, bem podadas; igual no paraíso de Peri e Ceci. Ouvia, antes de deitar, histórias de sacis e animais falantes, lendas de índios do Mato Grosso, causos do Romualdo. Ganhara uma piscina com trampolim, só para ele. Usava óculos escuros e ouvia música erudita. Colecionava figurinhas de jogadores de futebol. Aprendia violino com uma professora particular vinda especialmente de Natal. Esquecera até mesmo de sua namorada, a mimosinha Aninha. Até porque, não havia tempo para pensar nela, tantas coisas por fazer: brincar de pegar bola colorida na piscina, lugares para ir e cheirar, coisas boas para comer, sorvetes de cores, caramelos, puxa-puxas, quindins, video games, tevês a cabo com canais de esportes e de viagens e de entrevistas e de participações e de desenhos animais animados. Era o sonho dourado, o sonho de consumo.
            Ainda na casa-grande, completou mais um ano de vida e teve uma festa de arromba. A festa movimentou a cidade, o jet set, os homens de fraque e as damas de pericote. Se decretou feriado. Todas as autoridades e muitos artistas compareceram. Houve até reportagem de tevê, primeira capa de jornais e revistas. Os políticos estavam todos lá sorrindo e dando tapinhas nas costas. Só as estrelas brilhantes do céu anil infinito não chegaram e não chegariam a tempo, pois chovia muito naquela mesma noite.
A princesa madrinha promoveu uma gincana, muitas artimanhas, para passar a data festiva. Tiveram lá corrida de emas, corrida de tartarugas do rio Amazonas, competição de pulgas chinesas no salto em distância, concurso de canto de galos garnisés, futebol de elefantes indianos, desfile de moda com cães e gatos do país inteiro, teatrinho de bonecos, e carnaval. O carnaval foi um sucesso de fantasias e alegorias e alegrias e máscaras. Se desfilou pelo centro da cidade e o povo todo participou: brincaram por três dias seguidos: dia claro e noite chuvosa. E não houve mais lugar para tantas coisas boas e agitadas. Tinha alguém ali que não gritava?
            Enquanto isso, na casa de Lilás, o primo Guibá estava inconsolável, intratável, neurastênico, não tomava banho, não queria tomar seu sorvete predileto com frutas naturais de açaí e pequi e caju, não queria dormir antes das 23h 30min, ficou com muito medo do escuro e da chuva, etc, passava o dia olhando pela janela e coçando a cabeça e esfregando as mãos. Queria pedir para sair do mundo, é? E ele, Guibá, não gritava? Dizia o pobre e tímido molequinho:
            - Vou bater minha cabeça na parede, prima Lilás.
            - Não exagere.
            - Mas o que vou fazer da vida, prima? Totó esqueceu de mim, seu irmão e melhor amigo. Virou um nobre, um esnobe, um sangue-azul, um senador, um comendador, um comodoro.
            - Talvez um dia ainda se arrependa. Quem sabe até convide você para morar mais ele lá na casa-grande. Espere o futuro com calma, primo.
            - Não, não, não e não. Quero virar pedra!
            - Calma, primo. Não sei mais o que dizer.
            - Quero virar estátua de praça pública!
            - Que nada, primo.
            - Quero virar burrinho carregadinho de pasto em presépio de natal, então!
            - Que isso, primo.
            - Já decidi. Vou voltar pra casa. Vou voltar para o meu interior. Não aguento mais essa rejeição. Quero esquecer, sumir, desaparecer. Quero virar pedra. Quero virar uma pedra sem coração.
            - Tô sem palavras, primo Guibá.
            - Não diga nada, não faça nada, não me irrite, me deixe ir.
            E o primo, profundamente amargurado, desistiu de Totó e voltou para a casa dos seus pais lá no interior, lá para os lados de Rio Branco ou Maragata. Só pensava em virar pedra. Só pensava em cair no chão e se esborrachar. Queria passar os dias muito quieto e parado. Se agachava, se encolhia, se abraçava e pensava no vazio de brincar sem o mascote. Parecia um pinto molhado, um peixe fora d’água, uma fotografia em preto e branco, uma pandorga sem vento, um balãozinho sem ar, um barco de papel na chuva.
            E perdizes. Perdizes fazendo pães artesanais em fornos de barro. Perdizes conversando sobre o tempo. Perdizes olhando. Perdizes pastando mais que humanos, mais que cavalos, mais que vacas, mais que ovelhas. Perdizes olhando enxame de marimbondos.
            Enquanto isso no casarão. Certo dia Totó acordou desanimado, irritado, azedo, preparado para uma arte daquelas. Queria gritar? E quando avistou o portão aberto não pensou duas vezes antes de fugir. Estava cansado de fazer as mesmas ótimas e maravilhosas coisas todos os dias. Incrível mas, Totó, cansara da vida boa, das coisas muito boas, do bom e do melhor, do luxo, do caro e dos mimos e do tudo pronto na hora.
            Quando a princesa e o pessoal da princesa madrinha sentiram sua falta já fizeram soar o alarma. Sua foto mais recente foi divulgada por todos os canais de comunicação: tevês, rádios, jornais, internet, revistas e outdoors: “Procura-se cãozinho teixugueiro que atende pelo nome de Totó. Se gratifica muito bem quem o encontrar. Detalhe: se gratifica muito muito bem quem o encontrar vivinho da silva!”
            O padrinho diabo, sabendo do sumiço do seu afilhado, também decidiu procurá-lo. Enfim, pensou lá sozinho, pensou lá consigo, que era a sua chance. Era do seu desejo que Totó viesse morar no inferno. Quem sabe até mesmo poderia adotá-lo, né?!
            Por onde, então, andaria o valente do Totó? Para os lados da rua da amargura? Para lá das capitanias hereditárias? Preso no canil municipal? Bebendo cerveja num boteco escuro de uma rua estreita do centro da cidade? Viajando a pé pelo país? Viajando de carona pelo país? Deitado na sombra de um pé de pente-de-macaco no parque? Deitado no cais do porto esperando um navio para Fernando de Noronha? Cheirando postes de rua até o mundo virar barranco? Telefonando para sua quase esquecida namorada Aninha? Gritando aos sete ventos ou sete luas debaixo de chuva? Telefonando para as queridas perdizes? Lendo um jornal de ontem e de cabeça para baixo? Tomando banho na cascata da Usina?
            A menina Lilás, lá na casa dela, também teve a sua ideia. Pensou: “O Totó só pode ter ido para um lugar: o shopping center Itacambira. Foi lá que conheceu sua namorada Aninha. As pessoas e os bichos sempre voltam ao lugar do primeiro prato, ao lugar do primeiro encontro, ao lugar do primeiro beijo, ao lugar do primeiro cheiro, ao lugar do primeiro gosto.”
            E dito e feito. Lilás se encaminhou ao shopping para salvar o Totó das garras do desconhecido, das garras do abandono. Mas só que houve um porém. O padrinho Brasino chegou primeiro. E levou o Totó para o inferno. E Totó foi com muito gosto. E Totó latiu feliz e lambeu a cara do padrinho. Pois o cãozinho queria coisas diferentes, mais aventura, emoções, mil emoções. Foi uma decisão que ele, Totó, tomou. Ou seja, a chapa tava ficando quente e quentíssima.
            No inferno, Totó também teve altas mordomias. Por exemplo, dormia tarde para acordar meio-dia; espalhava os brinquedos pelo palácio do inferno e ninguém o corrigia; comia chocolate além da conta e todo o mundo do inferno achava a maior graça; podia quebrar qualquer coisa que ninguém lhe chamava a atenção; podia jogar bola na sala de visitas e sujar a parede que ninguém o reprovava. Agora, vamos e venhamos, tinha uma coisa que o diabo padrinho não admitia e não tolerava e não deixava de jeito nenhum Totó fazer e desfazer.
A única coisa que o padrinho diabo não admitia eram três coisas ou o seguinte: era proibido, e proibido para todo o mundo, olhar o interior de três cômodos ou três quartos.
Essa, então, a restrição ou as três restrições impostas pelo padrinho diabo ao peralta afilhado. Todo o resto que quisesse ou desejasse poderia ter. Todo o resto que pudesse fazer lhe era permitido, menos entrar naqueles três quartos proibidos.
Então - e o proibido é mais que interessante -, o Totó queria saber o porquê desse segredo dos três quartos. Queria e teimava. E vivia insistindo, latindo, urrando, esperneando, vomitando, arranhando, mordendo, uivando, espalhando brasas e perguntando:
            - Au-au-auuu!... (tradução: Por que não posso olhar esses três cômodos, padrinho?).
            E o padrinho diabo falando na mesma língua dos cães e cachorros e lobos-guarás e cachorros-vinagres-do-mato, respondeu:
            - Au-au-au!... (tradução: Porque não pode, e ponto).
            E Totó, o vira-latinha, voltava insistindo, petulante:
            - Au-au-auuu!... (tradução: É perigoso? É luxuoso? É só para adultos? É pornográfico? Diz por quê, padrinho?).
            Isso mesmo, Totó era já um pouco atrevido. Mesmo no inferno, ele, o Totó, já exagerava, já ia andando longe demais. Seu aniversário, mais um aniversário, passou no inferno, ao lado do padrinho e de muitos convidados ilustres.
Olha quem veio para a festa: a família do boitatá, vestidos de fogo; o curupira, dos pés virados para trás; o anhangá-pitã, espírito perigoso da floresta; o saci-pererê, irmão do vento, fumando seu cachimbo fumacento; a matinta-pererê, a bruxa que se disfarçava de ave tristonha; jurupari, diabo da mata; teiniaguá, lagartixa encantada; boicininga, cascavel das grandes; mapinguari, homem gigante da Amazônia; suçuarana ou onça-vermelha, etc, outros bichos extraordinários.
E muitas outras entidades do submundo do mundo entre-mundos. Compareceram muitos jornalistas sociais, políticos de todas as tendências, músicos sonolentos, artistas de teatro fingindo rir, jogadores de futebol dando autógrafos, etc, uma penca de zebelinhas vestidas de transparência, gafanhotos canhotos, adoradores de cachorro, apreciadores das fases da lua, chimangos e maragatos. Chegaram também as formigas-de-fogo, os escorpiões-de-fogo, as cobras-de-fogo, as lagartas-de-fogo, os línguas de trapo e os línguas de fogo. Só as estrelas cintilantes do céu profundo não compareceram e não compareceriam, chovia lá fora do inferno naquela noite toda.
Chegaram mais, chegaram uns morcegos de olhos de fogo, gatos pretos de olhos de brasa, gambás de cheiro, bando de mariposas, piolhos, moscas verdes, percevejos, aranhas de seis pernas, caranguejos, siris. Teve torta, teve bolo, tiveram merengues, docinhos, acarajés, rapaduras, mandolates, lembrancinhas, abraços e beijos.
Por motivos extraordinários, Totó não pôde convidar a namoradinha Aninha. Mas o prestigiado aniversariante ganhou um monte de presentes, roupas, colares, coleiras, perfumes, gravatas, meiões do time vermelho. Ganhou uma cancha enorme de areia fina para enterrar as necessidades, e uma cancha de terra preta só para enterrar ossos. Ganhou até uma amiguinha, de nome Camará, para brincar, acompanhar em travessuras e levar a culpa.
            Totó e sua amiga Camará. Aí é que tá! Camará era uma cachorrinha frágil, dócil, basset, assustadiça e medrosa. Tinha pavor de gato. Tinha horror à água, à chuva, a rio. Tinha e continuou tendo terror de morrer queimada. Não podia ouvir falar de foguetórios que ficava estressada. Na rua ficava estressada com o movimento de carros. E preferia dormir debaixo da cama ou dentro do armário, ou dentro da gaveta. Se fosse viajar de carro só queria ir na frente.
Mas os dois, Totó e Camará, eram sócios e unha e carne. A dupla vivia brincando, fazendo mil e duas, azarando a vida dos inquilinos do quase pacífico inferno. E o diabo só ria. E o diabo Brasino até achava muito engraçado. E o diabo botava a mão na barriga para segurar a barriga de tanto que ria e sacudia a barriga. E o inferno virou um inferno. E a vida no inferno pirou de vez, e piorou de dez a zero. Ou seja, era muito boa a bagunça.
            O padrinho diabo latiu para os cachorrinhos:
            - Au-au-au!... (tradução: Sabe, meu afilhado, estou feliz com você aqui. Gosto de você como se fosse um filho. Fico feliz vendo você feliz, Totó. E também você, Camará).
            - Au-au-auuu!... (tradução: Eu também aprecio muito esse lugar, padrinho. Aprecio as pessoas que vivem aqui, os bichos, os diabinhos todos e principalmente o senhor, o meu manhoso padrinho).
            E perdizes. Perdizes entrando na loja de eletrodomésticos. Perdizes comprando presentes de natal para as perdizinhas. Perdizes camufladas na macega. Perdizes tateando à beira da sanga. Perdizes amamentando perdizinhas. Perdizes assistindo filme de perdizes.
            Um dia o diabo teve que se ausentar do inferno. Foi aí que Totó e Camará resolveram aprontar de dez. Curiosos e travessos, foram bisbilhotar os três quartos proibidos.
E pezinho ante pezinho - quatro mais quatro pezinhos, total de oito pezinhos -, lá foram os doisinhos doidinhos. Pareciam dois assaltantezinhos de quatro patinhas com caudinha entre as perninhas. Muito silenciosos pelos corredores do inferno.
No primeiro quarto, muito a susto, abriram a porta e soltaram as almas não muito boas que ali estavam presas desde o começo dos tempos. Aí, acharam que estavam fazendo muito bem, ou mais ou menos bem, e foram para o outro cômodo.
No segundo quarto, muito receosos, abriram a porta, descobriram um lugar prateado, cheio de muita prata, soltaram riquezas, tesouros, pedras preciosas e outras coisas riquíssimas. Ainda assim acharam que estavam fazendo boa coisa, ou coisa ótima e excelente.
No terceiro aposento, e último, já muito tremendo de remorso e culpa, viram um lugar carnavalesco, e soltaram as alegrias, as felicidades, as agitações e as empolgações, as danças, os rodopios e as canções. Mesmo aí, acharam que estavam fazendo coisas pra lá de muito satisfatórias e muito boas.
Acabaram, portanto, de libertar todas essas coisas perigosas. E o mundo ficou invadido e tomado dessas coisas ótimas e salientes e muito engraçadas.
            Quando Brasino voltou da viagem percebeu de imediato, bem claro, que alguém havia entrado nos seus cômodos secretos, aberto as portas e libertado o que não era para ser libertado e que não era para viver livre. Sem dúvida desconfiou logo de Totó e Camará. Imediatamente chamou-os a sua presença, deu-lhes altos uivos, deu-lhes altos relinchos, deu-lhes altos latidos e apontou o dedo para a rua expulsando-os do inferno.
E os dois traquinas, dois espalha-brasas, saíram pela porta de saída do inferno. Totó e Camará estavam no olho da rua. Estavam expulsos da boa e excelente vida do inferno. Não tiveram tempo de gritar ou não se lembraram de gritar?
            E agora, Totó e Camará? Estão com vergonha de levantar a cabeça, é? Perderam o apetite e a vontade de farejar? Estão se sentindo uns pobres cãezinhos sarnentos, é? Estão sempre perdidos no mundo? Será que o tempo de vocês dois já vem chegando a trote? Por que não latem? Por que não berram?
            Totó e Camará andaram dias e noites sempre sem destino. Perdidos pelas ruas perigosas da cidade calma. Perdidos em bairros perdidos. Perdidos em lugares desconhecidos. Perdidos em pântanos escuros, sob a chuva noturna. Perdidos no parque pouco frequentado. Perdidos no campo das perdizes, assustando as perdizes. Comendo o pão que o diabo amassou, bebendo a água da sarjeta, lambendo a calçada onde todos passavam, dormindo debaixo da ponte do rio Retiro. E dormiam em qualquer canto, sob o viaduto, dentro de latões de lixo, em bueiros úmidos e atulhados. E passaram frio e fome e sede e remorso. Sobreviveram de favor, comendo o que outros jogavam fora. Totó teve uma ideia, latindo com tradução simultânea:
            - Seguinte, Camará. Vamos voltar pra casa, quer dizer, retornar ao meu antigo lar, ao meu velho dono, o guri Guibá.
            - O garoto Guibá?
            - Sim, o primo de Lilás.
            - E onde mora esse Guibá, esse primo da menina? É muito longe?
            - Muito muito, não, mas é longe, no bairro Rio Branco. Vamos pedir ajuda à menina Lilás, ela é facha, sangue bom.
            E assim se encaminharam para a casa de Lilás. Chegando lá, bateram à porta e foram recebidos com alegria e festas e agrados e festa. Logo logo o primo da menina veio do interior para receber e perdoar seu amigo fujão. O encontro dos dois amigos foi de abraços e lambidas e perdões.
            Um mês depois, Totó integrado à vida do primo, moravam juntos e satisfeitos na roça dos cafundós de Rio Branco. Lilás e Guibá marcaram o casamento de Totó com a Aninha.
            E assim se resolveu. O casamento foi no distrito, casa do primo, com convidados poucos e os mais importantes para as famílias. Chegaram Lilás e a adotada Camará, a princesa Calixa e séquito, o diabo e diabinhos do inferno, e mais outros poucos mais, parentes mais próximos de Totó e da Aninha. Lilás comentou com o primo Guibá:
            - Onde o nosso amigo Totó vai passar a lua de mel?
            - Bem, eu queria que fossem passar um mês na ilha de Itamaracá. Eu sugeri que fossem dar uma volta ao mundo de transatlântico. Eu até pagaria que fossem passar duas semanas na lua, numa cratera lunar. Mas eles preferiram ficar no sítio mesmo.
            - Ufa! Parece que Totó deixou de bancar o orgulhoso e o insatisfeito e o nervoso.
            - É, a vida na mansão e depois no inferno só lhe fez bem. Ficou um cão humilde, sério, comportado, maduro, concentrado, responsável, paciencioso.
            Senhor Totó e senhora Aninha de Totó latiram felizes para sempre. Muitos filhotes todos os anos durante muitos anos. Latiram todos a vida toda na roça. Passavam o fim de ano no casarão da princesa loura Calixa. Passavam o carnaval no inferno do diabo Brasino.
E não acabou tudo aí, não.

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