quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 10




Com Minha Voz Oculta

            Agora, hoje, estamos numa manhã gelada, sol distante, sem nuvens, céu aberto e invisível. Os passarinhos são felizes. Passa um rastro de avião de passagem para Campinas, Campinas do Piauí, Campinas do Sul... Foram os últimos dias de chuva e mais chuva, vento brabo, frio minuano. Estamos em maio ou junho. Vamos todos lagartear.
            Então, naqueles tempos, meus tais e quais entre os dezesseis e os dezessete, noite quente e de maus presságios. Nem conseguia dormir, ora bolas! Abri os olhos na escuridão do quarto e, obviamente, nada. Levanto ou nem levanto?, pensei. Estava com preguiça. Nem conseguia dormir porque fiquei pensando coisas tolas que minha consciência me cobrava. Moças bonitas e boas e interessantes e raras e alegres. Bonitas de uma beleza de ave, sorridentes e quentes, enfeitadas de femininos, lisas e macias e necessárias e douradas bronzeadas em ouro fino, preciosas.
            Levantei, até porque um mosquito decidira se preocupar comigo. Procurei pelo dito cujo. O que faltava para o alvorecer, meu?! A passarada com disposição e arte e consequência, jaçanãs, noivinhas-brancas, joões-de-barro-da-mata, cujubins, pararus, anambés-militares... matinada cantos alados foi o que deu para identificar daqui. 
            De manhã, pela manhã o mundo acordando. Eu só queria poder viajar para nem sei onde, país dos javaé terra dos xavante mundo dos cubeo território dos trumai, por exemplo. É difícil ser alguém!
            Estava na porta da farmácia Raiz-de-Sol. E eu olhava tudo sem ver nada. Olhava como um boi que olha lá fora. Olhava como um quati-de-bando olha. Olhava tudo, olhava como um ouriço-preto olha. O movimento estava baixo e pouco e minguado. E eu olhava a rua Carlos Barbosa de lá para cá. Olhava como um jundiá de banca de feira livre olha. E era eu mesmo, nem podia ser outro. Olhava e por quê? Com que cara, meu?!
            O dia era todo pouco. O dia era pouco e quente. Todo assim. O dia era nada. O dia era olhar a rua de cima pra baixo. Espanava as prateleiras, passava um pano úmido no tampo do balcão, fazia as cruzadas do jornal, ligava o rádio na hora do esporte. Olhava a rua de poucos amigos poucos automóveis alguns cachorros vadios. Passava um caminhão, eu olhava, anotava a placa, jogava no bicho, ficava imaginando o lugar, Nova Iguaçu, Patrocínio, São Caetano do Sul, Cerro Grande do Sul... Passava nada, olhava, via nada.
            Vinha pela rua transversal Pinto Bandeira, à direita de quem vai, toda bonita, a guria mais linda daquele tempo, os bons tempos, os tempos. Vinha a bela Enigmática. Toda guria. E vinha perseguida. Uma camionete, vidros fumê, bandidos, devagarzinho, seguindo a prenda.
            Eu olhava a cena e aquilo me aumentava o horror me dava ódio e rancor e nojo. A camionete seguia a E-nigmática. Nem se via o interior do veículo a placa, etc. O cara, ou os caras, que estava lá dentro, passava incógnito. A guria virou a esquina, seguiu o pôr do sol, rua dos Ipês, largo do Arouche. A camionete, lentamente, fez o mesmo. Enigmática ia na calçada, a camionete na rua, par a par.
            Fui até a janela do lado e continuei cuidando. A camionete em câmara lenta seguia Enigmática a passos lentos e cuidados. A menina seguia o rumo lá da casa dela, sem erguer a cabeça, sem virar a cabeça, sem falar nada. Eu nem me conformava. Preferiria dar tiros, se pudesse. Um fuzil com mira a laser ou telescópica, como os filmes de sucesso fazem.
            A continuação do episódio me escapou das vistas. Meu ódio à camionete era total, me encheu os nervos e o coração e a consciência. Lacrimejei de despeito e com estilo. Aquilo tudo, já sabia, ia estragar o meu dia. Gostaria de uma oportunidade de vingança. Queria planejar uma matança. Uma revanche. É, devia ser gente de fora. Quem era o cara da camionete? Eu destilava veneno, babava e corria no banheiro vomitar.
            Por fim me lembrei, lá na hora: mas bah, tchê! Te cuide, guri! A sorte é só um jogo! Será que entende? Um jogo bobo. Os preocupados com o mundo é que se esfolam. E se pergunta: por que se preocupar com o mundo? Vamos deixar o mundo rolar e viver cada qual a sua própria sina medíocre. Cada qual com seu destino. Se ninguém se preocupa contigo, por que se preocupar com o rio dos outros? E o queco?! Tudo isso eu pensei pulsando pulsando àquela hora. E me dava razão como uma fera intocável.
            Deixei passar. Estava mais relaxado, pensando com um coração de pedra. Tentando esquecer a formosura de Enig-mática. Me tirando do centro do mundo. Nem, nem era pra mim. Nem, nem era pra tanto. Nem me pertencia. Vai ver eram mesmo uvas azedas, frívolas. Procurei relevar, esquecer, deixar pra lá. Meu horror pela camionete me cegara. O dia nem estava bonito, hein?! Ora, me lembrava, bem dentro da minha retina: a Enigmática vestida de bermuda apertadinha e desfiada nas pernas, desbotada, manchas de poeira na bunda, camisa manga curta azul com gola. Cabelo preso em rabo de cavalo. Um colar de sementes tipo das tribos tupinambá, coripó, purucoto... solto na frente sobre a camiseta. E o que mais? Eu ainda via, é. Brincos de odalisca esticando os lóbulos das orelhas. Eu achei memória fácil e sentimental. E queria ter essa tal de percepção extra-sensorial. E saber tudo sobre matemática aplicada.
            Pronto. Àquela hora voltei a ficar preocupado. Passei o dia preocupado e procurando me curar da preocupação. Aquela camionete atrás da Enigmática... Que palhaçada, meu! Estava de volta com meu rancor. O coração em fogo, a mente em fogo, rasto de fogo. Precisava saber direitinho aquela história. Será que a camionete alcançara seu objetivo? Era melhor me conformar. Todo mundo queria comer a beldade. Poucos acertam na mega-sena. Poucos teriam o gostinho. E ponto.
            O dia demorou a passar, as horas, os minutos todos. O dia foi sozinho e sossegado, nem precisou de mim. O mundo nem precisava de mim. Eu precisava do mundo, do dia, de tudo. Eu queria protegê-la só para mim só para sempre só até D chegar.
            E Enigmática já devia estar em casa, fincada no quarto, tranquila, pensando em bobagens, pensando em coisas banais. Corpinho bem desenhado, bem esculpido, estirado sobre os lençóis floridos.
            Um vareio de bola. As horas me deram um vareio de bola. Olhava a rua. E a rua estava morta e seca e desenterrada. A rua nem passava. A rua estava ali de bobeira paralelepipada. Mesmo nem passava um caminhão, uma bicicleta, uma mula sem cabeça. A rua estava pela hora da tarde. O chão evaporando sob as horas, o vapor ondulando até as nuvens.
A E-nig-má-ti-ca estava no ponto de se bater o pênalti. Um bolo de chocolate com camadas de creme de laranja de dar água na boca. Pronta, trinta ou mais quilos já podia dar o que era dela para quem ela quisesse.
            E como alcançá-la? Ela vinha e passava. O dia era que demorava e nem passava e nem passava. Tudo ia e voltava e eu nada. Eu na minha sorte de rio descorrentado. Eu gastando minha alma à toa. Esperava que esperava. Esperava e me envenenava sempre mais e mais. Plantado como um arbusto mio-mio.
            Pelas oito horas da noite tive o prazer de desabafar com Coatá e Aruanã, meus cupinchas:
            - Pô, até que enfim, gente! Pensei que o dia nem acabava mais e vocês já esquecidos do nosso trato, meus camarada!
            A noite me incomodava mais que o dia. Assim ali era a noite secreta. Noite escura sem lua ou estrelas, tudo tapado, tudo escondido, tudo diminuído. Noite de suindaras e ou urutagos. Será que dá peixe?, pensei. Será que é o fim dos tempos bíblicos? Isso era programa de bêbado, de corno, de descontado.
            - E o tal riachinho dá mesmo peixe? É dúvida, meus camarada!
            - Também eu detestaria chegar lá e nada. Palhaçada!
            - Sempre têm uns cascudos, umas traíras, umas rãs, né? E temos umas comidas, umas cachaças, uns fumos...
            - E gurias? O principal, a razão de ser, o importante, neca.
            Só eu que falava. A minha voz soturna. O Coatá e o Aruanã mais escutavam, consertavam, bufavam, concordavam, discordavam, resmungavam, riam, tentavam dizer uma coisa e outra, faziam caretas, faziam micagens, mais nada. Eram mais graxains que eu. Mas muito mais graxains que eu. E o que era um graxaim-do-mato?, no caso.
            Começamos pela rua Visconde de Pelotas. A última casinha branca com fumacinha do seu Tarubá e família. Atalhamos pelo mato de ingazeiros, jirubás, manacás-da-serra, pindaíva rodeada de cipó-guira... Já estava noite e sossegado.
            - A noite tá tenebrosa, meus camarada. Pesada como uma montanha. Escura e fechada como o interior de uma mina, uma caverna, um túmulo, um esconderijo, uma lapa, uma lapa.
            - Sabem que número vem depois da meia-noite?
            - Nha-nha-nhã!... Nem sabem?
            - É dia 13. A partir da meia-noite entramos no 13, gente! Embora nem seja uma sexta-feira, mas... tremei!, treze é 13.
            - Tão com medo, meus camarada?!
            - Bah! Faz favor, né!
            - É só superstição, coisa de história pra assustar criança.
            - Vocês acreditam em almas penadas ou depenadas ou depiladas?
            Só eu que falava e só eu que tinha razão. A minha voz grave. Eles nem discutiam, resmungavam baixo, tossiam, cuspiam, fumavam, bebiam, só eu dizia o que era e nem era. Eu que perguntava e respondia.
Todo mundo diz que nem tem medo de nada. Mas todos têm pelo menos um medo ou dois. Todos têm medo e por isso são supersticiosos. É melhor nem provocar o que está quieto. É melhor nem mexer com coisas do aquém e do além e do outro mundo. É melhor nem bulir com mistérios que nem podemos desvendar. O nada cria mistérios, os mistérios querem ser desvendados, a gente se perde no labirinto, etc. Aí, bem nessa hora, adeus!, vem um bicho gigantesco feito de pedra com ruído mecânico voz ampliada e nos engole. E a gente acredita em tudo que nossa vã filosofia inventa, é.
            Chegamos então ao banhado do seu Jacutinga Pracuuba, bem pros lados da capela NSda Saúde. Um riachinho que passava, deixava um banhado ali do lado, provocava um alagadiço com poços e tal, e mais adiante sumia no meio do mato, descia morro abaixo, alimentava o rio da Prata, o rio este que caía no rio das Antas, etc., até o mar.
            - Hum... Falta o que para a meia-noite? Nada.
            - Esse pio, ieruuu!... deve ser de sanã ou de buraqueira, deve de ser.
            - Lembram daquele filme? Chama assim: “À meia-noite virei buscar a sua alma.” De quem é, de quem? É do Zé do Caixão. Já sabem? Legal.
            - Esta uma noite ominooosa.
            Falava e eles dois escutavam, consentiam, muxoxavam. Eu cheio de razão até os olhos. Escutavam em silêncio, quase. Eu dominando a parada. A minha voz escura. Os mosquitos também nem te falo, meu! Os mosquitos eram um sucesso esportivo, um caso a parte. Mas, dizia eu, os dois olhavam e cuidavam dos apetrechos de pesca. A noite pintada de breu mais neutra do que nunca.
- Cuidado com o lampião! Cuidaaado... nem rasgar o dedo no anzol! Cuidado... nem sentar numa urutu!
            - Pronto, gente! A partir desse minuto já estamos no dia 13. Tá bom? O número 13 pode ser sorte ou azar, depende. Que que se prefere? Que que tu preferesss... seu Coatá? E tu, seu Aruanã, hein?!
            - Nem precisam me olhar com essa cara, gente! Medo de um número?
            - E essa noite... assim, emparedada desse jeito... Olha, acho que vai dar assombração logo logo. Falo sério.
            - Ouviram esse, uiii! uiii!... ouviram? Deve de ser uma coruja-diabo. Ou um urutau. Aves da... noooite.
            Eu falava, eles escutavam, nem falavam nada, eu só que falava. A minha voz rouca, sussurrada.
            As pessoas nem querem acreditar, mas acreditam, acabam acreditando com a insistência, com a propaganda, com a miséria. O medo faz parte. Ninguém vive sem medo. De medinho em medinho vai dar um medão. E acho que meus amigos, àquela hora, estavam com pavor de mim. Eu falava muito e pelos três. A minha voz arrastada nas vogais. Eles nem suportavam as minhas brincadeiras.
            Também, meu, só eu que falava! Eles ficavam olhando, pescando, fingindo que pescavam, acocorados, tossindo, resmungando, rindo, espantando mosquitos borrachudos, se coçando, bebendo canha, olhando mal e mal a boia do anzol na água, fumando o cigarro do capeta.
            - Acho que vai faltar canha. É sempre assim. Peixe que é bom, nada. Mas olhem a noite. Uta! Que breu, gente!
- Olharam? Pois é horrível, nem? Concordam, hein?!
            - Vocês, meus camarada, já se deram conta que estamos atolados no dia 13 de um mês de agosto, meus camarada?
            - E, sabem o que mais? Noite parada.
            - E nem é que um meu conhecido... Vocês nem sequer o conhecem. Pois o tal esse meu outro camarada, o Capororoca, me contou que um certo dia lá dele, faz um tempo, passou muito medo, aperto, susto e pavor. Tudo junto. Foi numa pescaria como esta de nós três... Mas o Capororoca, maluco, fora sozinho. Fora sozinho, sem cachorro, sem revólver, sem ideia alguma. Só com uma lanterninha a pilha. E ele disse que estava acocorado sobre uma pedra lisa uma laje. A vara de pesca na mão. O anzol com isca quicando na água chamando o peixe. Mal via a água por causa da escuridão. Igual hoje aqui nós três. O brilho mal e mal da água e um fiozinho de luz ou esperança no rio davam para ver mais ou menos onde se caminhava. E assim ele me contando. Até desligou a lanterna para nem gastar tanta pilha. O poço muito quieto. A noite com uns grilinhos e vaga-lumes, cli-cli-cli!... e um pio de coruja-branca, viuuu!... um assobio fino de manda-lua, reque! reque!... um barulhinho de riachinho indo no seu curso muito lento e de vez em quando, blo-blo-blo!... Tudo calmo e mais nada e coisa alguma. Uns mosquitos entrando pelos ouvidos pelo nariz. Aí... Quando tudo está muito calmo é de se preocupar, é de se estranhar, nem é, meus camarada?! Aí... de repente... e de supetão... redepentemente... um barulho espalhafatoso e estardalhoso pelo meio do riachinho acima. Era, segundo ele, um barulho de arrepiar. E o Capororoca se arrepiou como porco-espinho. E ele ainda ouviu isso, chaaape! chaaape!... Esse ruído maluco vinha lá de cima descendo o riozinho. Como se alguém estivesse caminhando, chaaape! chaaape!... pelo meio do leito do riacho. Mas logo ali. Logo ali em cima. E chaaape! chaaape!... eram os ruídos de passos na água. Pouco mais ou menos, ele calculou, uns vinte ou vinte e cinco metros. Tinha alguém. É, era um, chaaape! chaaape!... Com toda certeza alguém que também pescava por ali e por aquela noite. Alguém caminhando na água, né, gente?, chaaape! chaaape!... E a dúvida e o pior e o péssimo. Em seguida o silêncio. Ele me contando eu contando a vocês, me arrepio. O silêncio é que é o pior nessas horas. Capororoca sentiu todos os pelos do corpo arrepiar. Os pelos do corpo foram se erguendo len-ta-men-te, entendem?! Gelou. Esbugalhou os olhos, orientou a lanterna... procurando pela beira do riachinho... pelo mato... Claro que nem viu nada. Só escuridão e mato fechado. Pensou chamar... Mas aquele silêncio... E nada mais de, chaaape! chaaape!... Se era alguém, uma pessoa, um bicho, uma alma do além, o vento, quem sabe. Nem chamou e ficou de olho bem aberto, esperando. O coração, lá dele, né!, tum! tum! tum!... Aproveitou e desligou a lanterna, era melhor. Então, o Capororoca pensou mais um pouco, pensou o que pôde pensar e numa hora dessas. Estava intrigado. E preocupado. E com tremores nas mãos. E contando os pecados todos e muitos. Afinal, quem tem, tem, nem é? Se ergueu lenta-mente. Pensou o que fazer o que dizer. Pensou em fugir, claro, correndo. Largar tudo e correr até chegar o dia. E largou tudo e saiu correndo pela trilha do mato igual um bicho perseguido. Vamos ver ele correr, meus camarada? Vamos pensar ele correndo como doido pelo meio do mato, espinhos, agarra-agarra, e tropeçando, esbarrando, topando. Me disse ele que por pouco nem se matou. Podia ter caído num buraco, dar de encontro numa árvore, tropeçar e bater a cabeça, se rasgar todo numa cerca de arame farpado, etc. E chegou em casa todo sujo, rasgado, cortado, lanhado, estropiado, arrepiado, cagado. Disse que correu sem parada, num fôlego só. E que até ouvia mais uns, chaaape! chaaape!... e uns risos, gargalhadas pelo meio do mato, alguém ou algo correndo no seu calcanhar. Chegou em casa todo aterrorizado, chorando, vomitando, as calças pesando. Já de manhãzinha o sol apontando. É a lei da gravidade, né, gente, meus camarada?!
            O homem sempre respeitou a noite. Até demais. A escuridão impressiona. Até inventar o fogo. Até se esconder dentro de casa. Que ruído é esse? Tão ouvindo? Será alguém se aproximando, um bicho, um monstro, ou roupa no varal, um galho seco riscando a parede? Só mesmo indo lá para conferir.
            - Como a noite opressora, concordam?
            - E esse assobio ou sopro, huuur!... deve de ser de coruja-orelhuda, ou ibijaú-guaçu, tão ligado, meus camarada?  
            - É isso, gente. Noite tapada como essa... de repente... de súbito... né, gente?! Vai que pula alguém sobre nós! A escuridão ainda ajuda... o medo é que manda...
            - Pode ser um bandido, um fantasma, um marciano, um morto-vivo, um afogado nos estertores... um criminoso em série... um drogado fugido do hospício. Quem é que vai saber antes da hora? Quem viu? Quem pode entender os mistérios da sorte de cada um?
            - Todo mundo se impressiona. Quem tem, tem.
            - Inda mais uma noite viva como esta, e se mexendo.
            - Assassinos os mais cruéis e loucos e covardes se escondem na noite para cometer seus crimes violentos e hediondos. E isso é humano.
            Os meus amigos estavam assustados. E eu quase. Procurei falar, já que eles nem se animavam. A minha voz lúgubre. Os dois parados e olhos fixos na água, gelados, o blo-blo!... da água na noite lívida. Mas era só eu que tinha razão. Apenas eu que falava:
            - Hum... uma hora da noite de 13. Uma hora e tudo bem, meus camarada.
            - É, mas nunca se sabe. O mundo é dos loucos perturbados. Assassinos nesse mundo que nem faltam. Vêem os noticiários? Só se fala nisso. Notícia mesmo é só desgraça. Notícia boa é elogio, notícia-notícia é desgraça. E notícia é que nem falta neste mundo. E tem muita gente marcada para morrer. Tem mais matador que bocó. Tem neguinho que mata a vovó para roubar cinquentinha uma oncinha e comprar cocaína.
            - O diacho tem trabalho. Acreditam no medonho? Eu acredito e provo.
            - E a noite nem deixa por menos. E noite escura como essa que nós estamos afundados, hein?!, é propícia para o crime. O cara pode nos matar e sair a passo. Nunca que se descobrirá. Pode ir até no nosso enterro e chorar no túmulo. Na boa. Ninguém viu nada. Ninguém irá desconfiar.
            - Nem o mato viu o assassino, nem o assassino conheceu a vítima. Nunca se viram. Nem se reconhecerão lá no inferno. Uma loucura.
            - O horror existe e está muito perto de nós. Basta ter chegado a hora. Basta o dinho querer.
            Olhei os dois amigos e cupinchas. Molhavam a garganta com cachaça da boa, mineira, lá de engarrafada em Carlos Chagas. Estavam apavorados. Quem mandava pescar em noite feia! Olhavam ao redor. Qualquer estalinho era motivo para orelhas em pé. Procuravam ver no escuro, entender os ruídos, o pio aéreo, veeeu!... de um caburé-do-mato. Tremiam, batiam os dentes, bebiam a canha, estapeávamos mosquitos, riamos, xingavam, fumavam.
            - Eu se fosse vocês temia fumar. É fácil alguém ver a brasa do cigarro. Alguém ali na escuridão, protegido pelo breu, hein?! Com uma doze dali do escurão, mira na brasa, e peu!... Já era o meu amigo e camarada. É, fica fácil acertar um tiro.
            - Acho bom. Isso mesmo, apaguem os cigarros. E escutem. Escutem a noite. Ela está cheia de vozes muito sutis. Estão ouvindo pequenos murmúrios? Acho mesmo que são outros, chaaape! chaaape!... vindo aí. Alguém caminhando de galocha pela beira do riachinho. E arrastando correntes. Arrastando os passos pesados de monstro. Ô, meu, ouviram isso?! Foi um chamado de socorro ou eu ouvi mal?
            - Deve ser a coruja-barata. Esse bicho é manhoso e tinhoso e feiticeiro.
            A noite tinha seus encantos. Mistérios sem fim. Noite era breu sem fundo. Uma parede fria. Povoada de tudo e mais um pouco que a imaginação quisesse. Mosquitada. Minha voz paralítica. Medo eu tinha e dizia mais:
            - Pensando bem, né, gente... a noite é de assustar.
            - Tenho ódio da noite. Isso para nem dizer pavor. Tudo à noite é brabo, estranho, difícil, perigoso. Já pensaram: todos os gatos são pardos. Hora de matador andar livre, solto, despreocupado, assobiando uma canção de corno. Quem sabe ali atrás daquela embaúba, tão vendo?, ele nos admirando há horas. E calculando quem matará primeiro. Um tiro para cada qual. Bem no meio da desta e, peu!... já era.
            - Sabem, meus camarada. Nem quero morrer como um mocó.
            Eu falava e eles escutavam com temor com ódio com enjoo, eu sabia. A vinha voz mumificada. Noite de capa preta ou pior. Noite pesada. Noite de matar e morrer. Aquela noite. Noite de correr.
            De repente... de súbito, um uivo... iaruuu!... quase muito perto de nós. Me arrepiei. Meus nervos ficaram encarquilhados. Um cão atacando a noite, só podia. Um cão doente? Ou um lobisomem em crise existencial? Uma alma desamparada? Uma alma de mártir? Uma alma de afogado?
            Olhei os meus cupinchas. Estavam enrodilhados nos cobertores de campanha. Fazia frio, também. A canha ajudava mas nem tanto. E o cão insistia em uivar para a noite, iaruuu!... ou para nós três. E mosquitos? Nem se fala. O cão uivava na profunda da noite, iaruuu!... Era uma coisa... Outras vezes o uivar. Nem queríamos ouvir.       Noite azul de um negror confuso. Alguém chamou? Eu falei, minha voz sombria:
            - Tem alguém chamando aí. Vocês ouviram alguém chamando, meus camarada?
            Sou supersticioso? Sou medroso? Sou impressionável? Quem nem é. Olhava em volta. Estava arrepiado. O cão parecia estar ali perto, uns vinte e cinco metros. E se fosse um cão ensinado para matar? Um graxaim faminto de carne humana? Havia graxains, lobos-guarás por aí perdidos no mato? Podiam nos atacar pelas costas. E pular na minha garganta. Eles pulam sempre é na garganta.
            - Olha só... Tão ouvindo? O cão continua a uivar, iaruuu!... Que cachorro louco é esse, gente?! Ou alguém imitando. Que horas são, meus camarada?
            Pois é, se é que era um cão! Podia ser um bandido imitando um cão pesteado. Um cabra que mata só para ver a obra acabada. Um monstro de olhos vermelhos. Um bicho amestrado pelo dinhonhinho.
            E se fosse? Atacaria pelas costas também. Sempre de traição. A faca erguida, o facão, o machado, lâmina afiada. E por que um monstro daqueles mataria um desconhecido? Para comer um pedaço, beber o sangue, ficar com as orelhas, arrancar o escalpo.
            - Que horas são, meus camarada? Vamos nos dar as mãos e rezar.
A noite estava pastosa. Uma caverna sem saída. Mosquitada. Passos? Que passos eram aqueles?
            Eram passos que esfolavam o chão. Passos que se arrastavam. Nunca chegavam. Mas iam chegar um dia, uma hora, de repente, iaruuu!...
Parecia que vinha dali encostado. Pareciam uivos, em vez. E passos, chaaape! chaaape!... pisando nas folhas caídas.
- Oi, meu! Que uivo foi esse? Vocês confirmam o que eu ouvi, meus camarada?
- Eu flutuava por entre os livros de zoologia. Dos tantos livros que folheei... se nem me engano... sempre que os abria, seria por coincidência, eram as páginas dos mamíferos. Por que as páginas dos mamíferos? Bem nas páginas dos mamíferos, entendem?! Gostava de olhar imagens. Nem, nem entendia, continuo nem entendendo.
- O rótulo desta garrafa de caninha... até que tem um carro de bois e um baita feixe de cana...
- Sei o que estão pensando... Acham que provoco o cornudo à toa, é isso, é isso?!
            Noite pesada como o gorro de uma montanha. Noite escura como interior de mina de carvão. Fundo do mar. Escuro e terrível como grito de criança doente na noite de tempestade.
            Arrotei pura cachaça. Um peso de cachaça... Queria dormir ou desmaiar, isso sim!
            Nem minha voz eu reconhecia mais.
                       

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