Enigmática Bem Bolada
Bonita
Eles
se conheceram no meio da água do poço na cascata da Usina o rio da Prata. Poço
que nem dava pé, blu-blu-gue! blu-blu-gue!...
Um dia depois,
aquele meu primo Imaruí, que a viu boa, que a viu potranca, que a viu molhada,
a presenteou um vasinho de bromélias violentas. Nem sei onde as encontrou ou
comprou ou tirou ou retirou ou transplantou ou trasladou ou improvisou ou
ganhou. Flores de cores violentas amarelo ouro com riscos azuis e lilases.
Outro dia presenteou
um anel de fantasia de sorvete seco muito verde e tal e qual. Outra sexta-feira
deixou uma camisa amarrotada um par de calças desgastadas meias furadas e
cuecas freadas para lavar e cozer e passar. Outra chance deixou umas contas de
luz água e mercado também para quitar. E ela, a guria? E Iberé, natural de
Panambi, falou, caiu em si:
-
Gosta de mim, benhê?
Se
conheceram num verão tão bom. Poço fundo da cascata da Usina ex-capital da
pedra basalto Nova Prata e RGS. E foi tão bom! Esperava-se. Poço fundo remoinho
cercado de pedras pontiagudas e algumas plantinhas renitentes locais, chás-da-campanha,
piris, juncos-bravos, aguapés, golfos-amarelos... Ele, o primo Imaruí, disse:
-
Você é um monumento. Beleza integral de conjunto. E nosso patrimônio.
Já
eu achei, opinião que nem me pediram na época e nem em outras épocas, que o
importante era o coração do amor pacifismo.
***
Vez
em quando, enquanto isso.
O
que me sustentava e me faltava para sair pelo mundo viajar? O trem sempre partia
e já partia. O ônibus sempre partia para Santa Isabel do Rio Negro, Palmeiras,
Caseiros, Mariano Moro... O avião sempre voava até Dois Irmãos das Missões,
Venâncio Aires, Ibiúna... Um dia faria a viagem para conhecer o desconhecido. O
trem nem demorava e partia, São Geraldo, Porto Franco, Braço do Norte,
Santiago... outros lugares. Aliança cidade do maracatu; Portel cidade das
ilhas; Unistalda cidade dos raios; Acaraú cidade rio das garças... outras
pessoas. Tudo igual? Tudo assim? Vai saber, meu! E ir de ida porque ir sempre já
se foi... um bom remédio.
***
Eu
me lembro como se fosse hoje agora.
Sentei
perto da janela o meu quarto. O sol entrava pela abertura. Os sons das aves
assobiando entravam pelos ouvidos, suriri, anhuma, marreca-ananaí,
sabiá-tropeiro, picaparra, joão-pires, velhinho...
Coisa
importante de perder o sossego ou quanta monotonia pois até os
sabiás-laranjeiras me importavam.
Nem era calor
nem frio. Nem havia paz, nem havia dúvida, nem havia suco de pequi na
geladeira, nem havia futebol na tevê, nem havia aonde ir. Nem havia boas ideias,
nem havia menina, nem nuvens no céu, nem havia capivaras miando no potreiro, nem
mesmo tempo a perder.
Pela
rua Itália, vazia, nem um cachorro guaipeca.
***
No
amanhecer daquela data que me refiro... o dia apareceu sério e aberto e
amarelo. Tudo era animação de aniversário.
Estava
saindo e estava indo e estava chegando. A minha viagem era mesmo uma fuga. Era
sim, e daí?! Ia pegar o trem para Goiânia. Índios cutaxó ouvindo curugu tocar
na beira do rio Madeira. Um barco gaiola para Rio Branco.
Um
grito voador, aaaaaah!... de crejuá.
***
Durante
nem sei quantos anos...
O
caminho das pedras. O caminho de pedras. O muro de pedras. A casa de pedras. O
quarto talhado em pedra. Silêncio mineral. Igreja de N. S. do Carmo, Ouro
Preto, a criação do altar-mor que fora “todo proporcionado em preceito da ordem
compósita”, e segundo o mestre Ataíde. Estátua do bem está tudo bem. O herói de
pedra-sabão da praça em Tiradentes.
***
Os
dois procuradores de diamantes chegaram na casa no meio do descampado em as
imediações de Contendas do Sincorá e limites de Muritiba e cercanias de Mirante
e vizinhanças de Ronda Alta e etc.
-
Olha só, meu! A mulher! Olha o que ela veste nos pés! - disse um dos
procuradores de diamantes.
-
Será? Nem é, cara!... São pedras ametistas! - disse o outro dos procuradores de
diamantes.
Dito
e feito na hora h, os dois sequestraram o casal de camponeses. Queriam que
queriam que indicassem sem demora onde tinham encontrado as tais e quais se
havia mais as pedras preciosas ou joias ou ouros ou pratas ou tesouros ou
Pratinha ou Carbonita.
Então,
eles foram pelo sertão em fora em busca em procura. Os dois procuradores de
diamantes e mais o casal de roceiros o homem a mulher sequestrados. Rumo da
mina de ouro minas de gerais ou de informações sobre a tal e qual cidade da montanha
de ouro e prata e Diamantina e Moeda.
-
É por aqui - disse o homem sequestrado seguindo em frente puxando a fila na
dianteira do grupo.
Seguiam
a pé e sob o sol caleidoscópico. O homem ia na frente seguido pela mulher e
pelos dois procuradores de diamantes. Estes bem armados até a raiz dos cabelos,
canivetes multiuso, facas, adagas, facões, revólveres, fuzis a bandoleira.
Fazia
um sol de lua gigantesca. Pelo meio-dia chegaram a um povoadinho Arraial Novo
do Rio das Mortes.
-
Bem, gente. Vou lhes apresentar o meu compadre Pedro. Ele sabe melhor onde fica
a tal montanha de ouro e prata e joias preciosas e Berilo e Ouro Fino - falou o
homem.
-
Pois que seja - como resposta um dos procuradores de diamantes.
Foram
até o casebre de palhoça do tal e qual Pedro. Que este morava sozinho isolado
cuidando de pedras e ventos e horizontes azulados fazia já uma pá de alguns anos.
Pertencera ao grupo vanguarda popular revolucionária o VPR e com sequelas como
por exemplo puxar por uma perna a direita.
E em questão
de cinquenta minutos tudo foi esclarecido e mais o tal e qual Pedro -
requisições, sequestro do embaixador, comícios relâmpagos - se juntou ao grupo.
Um dos procuradores de diamantes recapitulou:
-
Seguinte. Então, nós vamos para a tal e qual mina de ouro, tá certo?!
Todos
balançaram a cabeça que sim assim pois é.
Passaram
a ponte do rio Paraguaçu. Atravessaram a BR-470 asfaltada já na altura do
município de Formigueiro. Cruzaram por uma via férrea, pare, olhe, escute, em
território de uma tribo dos xokleng. Assustaram o bando das suiruás em o alto
de um itapicuru já na hidroelétrica de Sobradinho.
O
silêncio o calor a pressa em chegar o espaço. E cada qual pensando o que
quisesse caminhando o perto o longe, etc., os quatro que pararam de falar.
Perto
das 14h descansaram na sombra de uma gigantesca muirajuçara. Depois logo logo
foram em frente, Pedro como guia - combatente foquista da luta armada contra a
ditadura de segurança nacional tempos idos e decorridos de 64 a 85 - seguido
por um sequestrador pela mulher pelo homem e fechando a fila o outro procurador
de diamantes.
-
Olha, pessoal. Eu nem estou bem certo do local exato da mina de ouro e prata.
Por isso a gente vai até a aldeia dos ofaié que lá tem o índio velho que sabe
tudo conhece a região como a palma da mão. Pode ser? Eu recomendo - disse Pedro,
lavagem cerebral, ameaça de matar o filho, pau-de-arara, maricota, cadeira do
dragão, palmatória, pescaria, telefone, corredor polonês (intermitentemente).
-
Então tá, né?! - disse suspirando um dos procuradores de diamantes. Toca em
frente que já estamos atrasados faz já uns tantos e quantos meses.
Chegaram
à aldeia e foram direto à oca do índio velho. Este fumava lá em frente da
televisão assistindo um jogo do campeonato nacional de futebol. Uns curumins
umas cunhantains brincavam ao redor com animais de companhia uns
ajurujubacangas.
Pedro
- investigado preso torturado - falou com o índio velho lá na língua do ofaié.
Trocaram umas perguntas com respostas. O índio velho se ergueu pegou uns trecos
pegou um cajado e fez sinal que o seguissem. O cachorro Tupi também resolveu
acompanhar. O cão ficou na dúvida ali no limite da aldeia com o capoeirão, mas
resolveu acompanhar o dono. Cheirou todo mundo pelos pés e optou por
acompanhá-los.
Pelas
14h e 30min já estavam na altura do município de Vila Real de Nossa Senhora da
Conceição de Sabará. Evitavam as estradas federais estaduais municipais vicinais
preferindo desbravar os carrascais.
Estavam
indo bem para o norte. O índio velho ofaié parou olhou se orientou e quebraram de
acordo todos para o oeste. Iam pelo campo iam a pé porque os sequestradores nem
queriam nenhuma divulgação. Todo mundo aceitou e concordou na hora e sem
controvérsias. Tupi latia para algumas perdizes que alçavam voo instantâneo
imediato.
O
índio velho ofaié parou e disse que estava cansado. Descansaram na sombra de
umas gigantescas palmeiras caranás. Comeram coquinhos beberam água da fonte descansaram
os pés e cada um tinha um pensamento na cabeça que nem repartiu divulgou para com
ninguém. Quando um casal de marias-rapés cantou o grupo se ergueu e continuou a
jornada. E que altitude que latitude que longitude que nada.
Costearam
um rio famoso e caudaloso e de forte corrente o tal e qual rio Sabia que deságua
no rio das Antas que este deságua no rio Taquari que este é tributário do Jacuí.
O índio velho ofaié falou com português regional:
-
Do outro lado do rio na margem de lá tenho um conhecido que sabe o nome da
montanha que vocês procuram. Podemos ir até lá ou nem? Acho que vamos ganhar
tempo e dinheiro com ele nos ajudando.
-
É pra já, meu! - falou um dos procuradores de diamantes.
Como
nem tinham barco nem havia lanchas para alugar, o grupo atravessou o rio no
braço nadando. O Tupi foi na frente seguido pelo índio velho um dos
sequestradores o Pedro - no caso dele particular com asterisco a anistia ampla
e geral e irrestrita - a mulher o homem e o outro procurador de diamantes. Uma
família de ariranhas oito ou nove pessoas gritaram roncaram para os
estrangeiros desde o barranco. Um sozinho suiriri-do-campo também se manifestou
estrilou a partir de um galho seco da figueira-branca.
Sentaram
nas lajes do outro lado e comeram um pouco de tapioca que o índio velho ofaié
levava no embornal.
-
Tá vendo aquele tuiuiú lá no alagado no meio daquelas plantinhas
juquiris-mansos? - apontou um dos sequestradores.
Todo
mundo ali olhou e viu o tuiuiú referido. A ave olhava em volta talvez sem
noção. Então, o procurador de diamantes, com a arma apontada o fuzil, disparou
um tiro. E errou. O tuiuiú demorou uns cinco segundos para se decidir decidiu
voou para bem longe. Tupi latiu com o susto mas já era tarde.
Todos
eles e ela ali tentaram pescar alguma coisa, mas os peixes eram espertos e
lisos e sorrateiros, traíras, pintados, dourados, piraputangas... quem viu? Nem
conseguiram nada e desistiram logo cansando ainda mais.
-
Aqui que tem muito cardume de anujás. Quando nóis vinha pescar aqui era
banquete na certa - testemunhou o índio velho ofaié.
Pelas
14h e 45min chegaram na casa desse amigo do índio. Bateram na porta e
esperaram. Apareceu uma mulher velha na janela do lado.
-
Oi, mulher velha! - cumprimentou o índio velho ofaié.
-
Boa tarde, seu índio velho ofaié.
-
A senhora mulher velha poderia me dizer se seu marido homem velho está, por
favor.
-
Peraí que vou acordá-lo. Ele meu marido homem velho tá tirando uma pestana.
Logo
logo apareceu o homem velho abrindo a porta bocejando com a mulher velha do
lado e convidando a entrar a tomar um cafezinho com broas de milho e mel.
-
Nem, obrigado - disse um dos procuradores de diamantes. Nóis estamos com pressa
e só queremos que nos guie até a montanha de ouro e prata e Cascalho Rico e
Pedra Dourada, tá certo?!
O
homem velho reparou na ostentação dos dois tipos bem armados até os dentes e
pensou rápido falou mais rápido ainda:
-
Tudo bem e é pra já agora mesmo sem a demora.
Pegou
o chapéu e veio. A mulher velha também pegou o chapéu feito de palha trançada
da palmeira de buriti e se uniu ao bando.
-
Pra que lado fica a montanha preciosa e fabulosa, seu homem velho? - perguntou
um dos sequestradores.
-
Fica pros lados de Santo André da Borda do Campo de Piratininga e nem demora
nada de nada. Amanhã ou depois estaremos lá sãos e salvos se D quiser.
Foram
andando em fila indiana 1m longe um do outro. O Tupi ia na frente parava
esperava o dono olhava para tudo que era lado cheirava tudo que via ou
desconfiava seguia na frente olhava o dono voltava para trás latia para umas
moitas de saca-rolhas, angelins-pedra, cambarás-brancos, etc., acompanhava o
grupo cheirava o dono seguia no trote rindo de língua comprida.
O
campo ralo de árvores e meio que seco umas outras árvores baixas poucas,
quebra-pedras, malvas-brancas, flores-de-babado, mata-cavalos, barrigudas... e
mais umas macegas, uns gravatás... muitas pedras, trilhas feitas pelo gado que
o grupo aproveitava para percorrer.
-
Tão vendo aquela montanha azulada lá no horizonte? - apontou ao grupo o homem velho.
Pois atrás dela tem outra um pouco maior e mais importante. E é então mais pra
lá ainda. Mas se a gente tiver forças logo logo se chega lá e eu presumo já bem
antes das quintas-feiras.
Nas
15h e 11min chegaram numa bifurcação: de um lado para Vila do Ribeirão de Nossa
Senhora do Carmo de outro lado para Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar. O homem
velho ficou indeciso e olhou pedindo opinião decisão para os procuradores de
diamantes. Tava na mão deles.
-
Pra que lado a gente segue, moços?
-
Pra nenhum desses lugares. A gente vai pelo mato mesmo que é para nem dar o que
falar. Vamos mesmo pelas trilhas de antas no meio do capoeirão, tá certo?! -
disse um dos sequestradores no que outro procurador de diamantes concordou com
um gesto.
Anoitecia
na beira da tarde quente cheia de papagaios-da-serra periquitos-vassouras
curicacas voltando dos matos grandes. O céu estava com poucas nuvens e estas
rajadas em várias tonalidades de dourado no horizonte. A mulher velha comentou:
-
Amanhã nem teremos chuva outra vez. Vai ser outro dia de calor intenso sol
abrasador temperatura de alto-forno verão seco seco.
Quando
chegou a noite pararam perto de um gigantesco penhasco que pertence à alçada da
serra do Cipó.
-
Se bom se fosse aqui a montanha do tesouro o eldorado, né?! - suspirou disse a
mulher.
-
É, seria até brincadeira - registrou a mulher velha.
Acenderam uma
fogueira e ficaram assim meio próximos. Conversaram pouco, só o essencial ou
obrigatório os monossílabos. A luz das chamas projetava sombras milagrosas míticas
na parede de pedras. Estavam extremamente extenuados e logo logo se esticaram
ali mesmo ao relento no chão e dormiram.
O Tupi ficou
cuidando protetor do grupo os ouvidos e os olhos no escuro. Um dos procuradores
de diamantes aguentou o cansaço e ficou de vigia de olho no grupo. Lá pelas 2h
foi substituído pelo outro sequestrador.
- A noite vai
ser longa - disse o Pedro (caiu na LSN da OBAN investigado pelo DOI-CODI).
Apesar do
cansaço o homem e a mulher fizeram amor rapidinho como até por hábito lá deles.
Um dos sequestradores ficou ouvindo com interesse indiscreto e também quis dar
um créu. Nem falou nada na hora, mas ficou se coçando acintosamente. Depois e
com consciência pesada foi falar com o comparsa:
- Sabe, meu. E
essa mulher eu acho que seria bom dividir os chamegos e afagos e carinhosos
dela com nóis. Você está de acordo?
- Claro que
sim. Boa ideia. E ainda hoje mesmo.
Os dois foram
lá, esperaram um pouco, conforme o ruído do casal, etc., depois já os intimando:
- É o
seguinte... - e explicaram arrumaram razões e partituras e desculpas, etc., e
até ameaçaram com as armas brancas.
O homem olhou
a mulher e a mulher pensou rápido que logo logo ela decidiu:
- Tá bem. Faço
o favor. Mas é por pouco tempo que tou morta de sono e nem mesmo tou muito afim.
Madrugada
acordou com o sol se queimando se insinuando atrás da montanha se instalando na
manhã do ovo. Seria a montanha procurada? A montanha pegava fogo desde o topo. Só
consultando o guia:
- Ei, homem velho!
É aquela a montanha do tesouro dourado?
Ainda nem era
aquela a montanha do ouro e prata e pedras preciosas e Minas Novas e Cristais.
A montanha em vista jorrava águas em cascatas e parecia ser um país repleto de
aves devido a grande quantidade de pássaros araras-de-barriga-amarela principalmente
que por lá se viam voando uns bandos mais altos que as nuvens.
Levantaram
acampamento tomaram um café ralo rumaram ao encontro do sol claridade nos olhos
mãos em pala. Bando de gangarras saíam do mato de araucárias e rumavam para o
oposto do rio Guaporé. O homem velho estacou no alto de um morrinho com alta
presença de cupinzeiros:
- Estamos na
periferia de Campanha da Princesa da Beira.
- E daí? -
perguntou um dos procuradores de diamantes.
- Bem. Daí que
seria bom alguém ir até a cidade comprar víveres e outros petrechos de boca e
de viagem. Posso ir eu mesmo, se preferirem.
Os
sequestrados concordaram com o homem velho. Os sequestradores se afastaram para
confabular. Confabularam rapidamente e chegaram a seguinte denominação:
- Está bem. O homem
velho e o homem vão até a vila comprar os equipamentos e etc. Se trouxerem a
polícia as mulheres morrem, oquei?! Devem voltar dentro de 2h. Nóis outros
esperamos aqui na sombra desse gigantesco carvão-de-ferreiro, oquei?!
O Pedro - resistência
armada, preso político, liberdade condicional - aproveitou para contar um causo
que aconteceu com ele e nem fazia lá muitos anos:
- Um amigo
camarada meu lá pelo território dos índios suruí-aiqueuara e que integrou as
forças guerrilheiras do Araguaia depois desaparecido - da comissão do PCdoB
onde era conhecido como Avião - esse amigo um belo dia achou uma pedra verde
interessante bonita e trouxe ela consigo. Salvou a pedra verde. A pedra tinha
uns 15kg e brilhava no escuro. Uma pedra muito digna. Achou um comprador e vendeu
a pedra por R$150,00.
“Na semana
seguinte foi buscar outra pedra ainda maior 58,5kg. O comprador arrematou a
pedra e ainda pagou à vista uns R$6.700,00. O comprador se mandou para os lados
de Ribeira do Mar dos Arrecifes dos Navios.
“Depois meu
amigo camarada ficou sabendo segundo ele mesmo me contou que o comprador vendia
a pedra para outro comprador e este segundo comprador vendia pedaços da pedra e
o comprador de pedaços revendia para um joalheiro que fazia anéis brincos
colares pulseiras tornozeleiras etc., cada joia em torno de R$30.000,00.
“Por isso meu
amigo e camarada contratou dois ajudantes e foram lá na montanha alugaram a
montanha aos índios suruí-aiqueuara e retiraram mais e mais pedras de todos os
pesos e tons de verde.
“Aí os
suruí-aiqueuara ficaram sabendo e queriam matar o meu amigo e os ajudantes se
eles caso nem desistissem de pegar as tais e quais pedras verdes pois as pedras
verdes eram da montanha dos deuses lá deles lugar sagrado desde os avós e
parentes ancestrais, etc.
“A partir daí
o governo começou a se interessar e impediu os índios suruí-aiqueuara de
explorar as pedras e interditou o lugar e a montanha virou um lugar proibido e
cercado pelo exército 24h por dia mês e ano.
“Resultado no fim
ao cabo dessas contas cientistas pesquisadores estudiosos da universidade e com
agenda cheia até em Brasília e Rio e Salvador vieram chegaram todas as semanas
e foram extrair amostras e carregar levar embora para São Paulo as tais e quais
pedras de vários matizes de verde. A família de um desses professores PHDs tem mesmo
até uma loja na avenida Paulista com a rua Augusta.”
3h e 10min da
tarde quando muito os dois que tinham ido à cidade retornaram e com mais um
companheiro carregados de mercadorias.
- Que que é do
bói? - questionou um dos sequestradores se referindo ao ajudante que veio com
os dois.
- Ele veio
desde o mercado para nos ajudar e auxiliar a carregar com as mercadorias.
- Ah é, é? -
esbravejou um dos procuradores de diamantes. Então, ele nos acompanha também.
O povo se
preparou para sair e saiu em o rumo do sul. Antes da tarde chegar dobraram para
leste aproveitando o caminho deixado das capivaras e porcos-do-mato e
tamanduás-bandeiras. O céu por ali já era uma revolução das aves as jacarinas.
Os dias
passavam e pareciam caminhar em vaivém em círculos e nem sair do mesmo lugar. O
sol só nem fazia chover.
Aí
pelas 12h e pouco o homem velho foi levando para o rumo de uma sombra de
gigantesca simaruba e parou se jogou no chão extenuado pedindo água. E se
queixando de tudo que doía pelo corpo todo:
-
Ufa!... sol forte... os meus pés... o meu fígado...
O
bando todo aceitou a parada. Descansaram um bocado e uns até cochilaram. O Tupi
muito de língua de fora. Os dois procuradores de diamantes conversaram
secretamente num canto. O homem velho se animou e chamou os sequestradores,
falou:
-
Ei, chefes! Acho que devíamos nos separar. Um grupo procura a montanha dourada
para nordeste e o outro grupo procura a montanha do tesouro para sudeste, que
vocês chefes acham?
-
O que isso quer dizer, homem velho? Que você está perdido? Que nóis estamos no
mato sem cachorro-do-mato-vinagre?
Todos
de olho no homem velho e esperando a resposta que se ouviu:
-
A verdade verdadeira é que estou perdido mesmo. Mas aí então se a gente se dividir
podemos cobrir o dobro do espaço no mesmo tempo e assim teremos mais chances de
chegar ao objetivo e quem sabe com certeza mais cedo, né?
-
Nem, nada disso. Temos que pensar noutra saída. Nada de nos separar. Você quer
nos enfraquecer, seu homem velho malandro?!
Nem
aceitaram os argumentos do homem velho e se puseram a andar outra vez. Rumaram
então para oeste. A montanha parecia perto mas azulava no horizonte como muitas
das outras tantas e bem distantes.
O
bói teve uma ideia lá dele que ideias nem faltam e colocou para os
sequestradores:
-
Olham, gente. Eu tenho um conhecido na cidade próxima que conhece uma montanha
de ouro e outras montanhas da região. Talvez pode ser quem sabe a que vocês procuram.
Se me deixarem ir falar com ele eu o convenço a vir conosco a seguir com a
gente e explicar o caminho. Ele deve saber foi garimpeiro por muito tempo agora
tá aposentado e vive de renda lá em Congonhas de Nossa Senhora da Conceição
abriu até uma loja de banca de jornais e revistas para ter o que se distrair.
Sei que parece estranho mas é uma, né?
-
E você sabe onde ele mora exatamente? Quero dizer, o endereço certinho a cor da
casa o número a rua o bairro, etc.?
-
Sei, já estive lá e visitando a família dele algumas vezes. Posso ir num pé
voltar noutro. Se bobear até arranjo umas ferramentas pás picaretas dinamites,
etc.
-
Nada disso. Você escreve no papel o endereço e dá pro homem e pro homem velho que
eles é que irão - determinou um dos procuradores de diamantes.
Assim,
pouco antes das 17h o homem e o homem velho rumaram para a vila com o endereço
na mão em procura do guia da região. Por ali pelos barrancos devido ao monte à
multidão divulgação promoção de andorinhas então era o país dos taperás.
A
noite estava estrelada e nem seria nessa que a chuva resolveria dar as caras e
resolver o mormaço. Os que ficaram prepararam a comida e comeram. Depois cada
um foi para seu canto procurar dormir. A mulher serviu um e outro sequestrador
rapidamente e também se recostou. O céu estava lindo de estrelas e dava até
para contá-las. Mas ninguém contou e o cão Tupi se preparou para vigiar o
escuro. O Tupi um pouco agastado com esses e outros bacuraus
corujas-buraqueiras morcegos-pescadores que zanzavam pelo aéreo ao redor na
noite requentada.
De
manhã já na manhã seguinte o Tupi anunciou alguém chegando. Foram ver e era o
homem o homem velho mais umas quatro pessoas. Chegando perto o homem apresentou
os novos convidados integrantes do bando:
-
Esse é o tal e qual guia que procuramos o seu Neto e família a mulher dele o
filho e a filha. Ele nem quis vir sozinho e deixar os familiares apreensivos na
dúvida preocupados esperando por ele se sabe lá até quando ou como.
-
E ele sabe onde fica a montanha do ouro da prata das pedras preciosas de
Fortuna de Minas e de Lavras?
-
Sabe, sim - respondeu o homem.
-
Na verdade faz uma cara que nem vou mais lá. Posso tentar - disse o Neto.
Todos
estavam ali reunidos e tal e qual.
-
Então, já vamos e continuamos! - determinou um dos sequestradores.
Naquele
dia nem no outro foram interrompidos pela chuva. Dias e dias de céu aberto
muito sol e calor vento ameno. No terceiro dia avistaram uma montanha parecida
com a descrita nos livros escolares de História do Brasil e que fazia pensar em
montanha de ouro e prata e pedras preciosas e Miradouro e Turmalina.
-
Deve ser aquela a montanha que procuramos - falou a mulher.
-
Sim. Eu concordo - arriscou o índio velho ofaié.
-
Se nem for estamos perto - disse o guia Pedro (banido clandestino perseguido,
evasivas mentiras desinformações).
-
Então, vamos logo - determinou um dos sequestradores.
Escolheram
uma trilha de suaçutingas e seguiram. A montanha que parecia próxima nem
chegava nunca tão grande tão distante tão rochedo. Todos sentiam o calor muito
forte. E estava muito quente mesmo.
Antes
das 15h sentaram na sombra de uma gigantesca curupiá. Ficaram esperando alguma
coisa. Luz intensa num céu feito de cristal. Os dois procuradores de diamantes
se reuniram de lado em segredo conversaram. Ver julgar e agir. Tupi só de
butuca nos esquivos e sorrateiros preás. Nada mais a acrescentar, o grupo
seguiu, continuaram, levantaram com certo exagero e seguiram.
Na
subida da montanha pararam diversas vezes para admirar a paisagem em redor olhar
para trás. Tudo era novo mas muito desolado. Investigaram aqui e ali as pedras
brutas e nem vestígios de minérios dourados prateados pedras brilhantes. Muita
plantinha para remédio, coroa-de-frade, figueira-de-lombrigueira, erva-lanceta,
sebipira-falsa, fedegoso-do-mato... e por aquele dia a dia mas por enquanto nem
precisavam.
No
alto da chapada olharam todo o horizonte em volta e parecia outro mundo ou um
mundo do outro mundo e por que nem de tão belo e exótico alto astral do divino
espírito santo. Algo surreal próprio de pousos de alienígenas com nos seus
discos voadores suas cabeças de formiga seus olhos de peixe suas pernas e
braços de sapo suas falas de traços e pontos e estalos.
-
Estamos no centro do mundo - disse o Neto.
-
Do universo incomensurável - melhor completou o Pedro (indenizado com base na
lei tal e qual e seguintes).
Tupi
farejou as moitas e corria atrás de pombas-rolas ou tiús ou zorrilhos o que
aparecesse e sem motivo aparente.
-
Se eu fosse morar eu moraria aqui nesse belo lugar e ponto - concluiu a filha.
-
Pois o tesouro deve ser esse mesmo o da energia cósmica - disse a mulher dele.
Foram
até uma gigantesca muirapiranga e se jogaram se deitaram na sombra. Estavam
todos extenuados fracassados e em pedaços e pandarecos e frangalhos e
esbagaçados.
A
noite veio mais perto com estrelas e a lua subindo pela direita do morro.
Barulho de água corrente algumas cascatas. Pássaros e aves que iam e vinham
procurando o sossego do ninho, quero-queros, emas, seriemas, joões-nordestinos,
bem-te-vis-do-campo...
Fizeram
uma fogueira esquentaram água ergueram umas tendas estenderam umas esteiras. O
índio velho ofaié queria contar história...
Um
dos sequestradores e a filha mãos dadas se apresentaram ao grupo com a novidade
novíssima:
-
Nóis temos algo a compartilhar com vocês - abriu parênteses este um dos
procuradores de diamantes.
-
Sim, e nóis dois decidimos e de comum - declarou a filha.
O
restante do grupo ficou parado esperando e ouvir o quê.
-
Diga você - falou a filha, insistindo para que o um dos sequestradores ao seu
lado e com o tal e qual vinha de mãos dadas falasse e explicasse.
-
Pois é verdade. Eu e filha vamos ficar juntos, é - explanou o um dos procuradores
de diamantes.
Os
dois acharam que estavam um sucesso e riram. Sentiram que o pessoal gostou
barbaridade e os olhos do casalzinho brilhavam enquanto isso. E se beijaram na
boca com calma gosto doçura apetite e risinhos descontraídos quase bobos.
Por
isso o que se concluiu foi que toda a procura e a caminhada e a expedição resultou
no encontro de um dos procuradores de diamantes com a filha.
O
que D quer o que D aponta o dedo tudo combina...
Lugar no
começo do mundo antes de tudo por fazer...
Assim era o
rio que corria por conta e que aprontava das suas...
- Vamos morar
juntos e viajar juntos e também nos divertir sempre juntos - disse o um dos
sequestradores.
- Isso sim e
bastante e com os mesmos livros e filmes e músicas e roteiros - completou a
filha.
- Pela manhã
saio todo dia de casa em procura de diamantes e até posso sequestrar alguém se for
o caso e se preciso for.
- E eu saio de
casa pra aula o ônibus escolar na porta e já nas primeiras horas do amanhecer.
***
Minhas
perguntas me descobriam me delatavam. Então, as perguntas me bastavam me
alimentavam? Já que as respostas nem precisavam nem certificavam nem atestavam.
***
Cananeia
preferia campos verdes, floridos, cantar ao vento, beijar borboletas de asas
fantásticas psicodélicas. Eu já pensava montanha de pedras. Cananeia sempre
teve mão para desenhar flores e pintá-las. Eu, sempre quadrados e retângulos e
triângulos vazios com um só traço. Cananeia achava de gostar de música baiana,
o que durou dois anos mais ou menos. Eu preferia a música da chuva, no verão. Cananeia
nunca pensou em fim de mundo, fim dos tempos, apocalipse, mas já viu e reviu
vinte mil filmes sobre a exploração desordenada da Amazônia. Eu pensava no meu
nada: o infinito, o universo, dimensões paralelas, o quarto poder. Cananeia se
iludia com mutum-do-nordeste ave símbolo de Alagoas. Eu com as cavernas de
Peruaçu ou grutas da Lapa Vermelha.
-
Cananeia, vamos para Rosário do Sul e São Gabriel e Três Palmeiras.
-
E por lá por daquelas bandas tem festival de música folclórica gaúcha?
Que
sorte tem um curumim yawalapiti no trampolim do galho da imburana-de-cheiro.
Ele vai pular no rio Abunã. Ele curumim e o rio Abunã se conhecem. E um foi
feito para o outro. Em tempos...
Cananeia achava
que existiam fantasmas que usavam chapéu sobre os olhos, que entravam pelas
paredes, que se escondiam durante o dia e só reapareciam depois da meia-noite.
Meu fantasma era eu mesmo sem dinheiro sem emprego dentro da garrafa de pinga. Cananeia
acreditava em cristais, sementes, cascatas, lagos, praias bonitas do Maranhão,
Lençóis Maranhenses, paisagens da baía de Ubatumirim, avenida Caxangá. Eu nem acreditava
em políticos, juízes das cortes, advogados e jornalistas de opinião. Cananeia
queria ir para o Xingu, preferência antes dos vinte anos. Eu queria ir a Marajó
depois das grandes chuvas, preferência depois dos vinte anos.
- Podemos ir
Cananeia até Nova Ipixuna e Itupiranga e Bragança.
- É por lá que
filmaram aqueles filmes do Cinema Novo que ninguém entende?
Que
sorte tem uma cunhã paumari brincando de fazer bichinhos de barro na beira do
rio Curiti. Ela vai até ali na água e pega um punhado de areia úmida e faz uma
oca, ou abre um buraco e enche de água do rio até o rio pedir água.
-
Tenho uma ideia melhor Cananeia. Vamos até a aldeia dos maraguá, pois em?!
-
Tava pensando também em Moreno e Araçoiaba e Jaboatão dos Guararapes, e pra
sempre.
Cananeia lixava
as unhas e olhava pela janela, no sábado à tarde. Eu me afundava na cama e dormia
até escurecer. Cananeia pensava que só as dúvidas palpáveis. Eu pensava que nem
matriculavam as tais dúvidas divinas na minha escola da sorte. Cananeia era morena,
média, magra, sonhadora, bonita, santa dos regimes e estudante do ensino médio
no 11 de Agosto. Eu só me importei muito principalmente com Cananeia aquele ano
de 1975 e foi um ano inteiro. Cananeia tinha uma voz doce, perfumada, bem doce.
Eu fazia tantas perguntas e ninguém respondia.
- Vamos embora
eu te arrasto para Porto União e Orleans e Cachoeirinha.
- Para a
capital do Brasil Rio Grande do Sul Porto Alegre.
Eu
estava no fundo do mar, e o ar era líquido, pronto.
***
Um
dia, um verão no final, aconteceu o episódio que juro vou narrar até o fim e
sem cortes em as últimas consequências. E foi assim:
Conheci, olha só!,
uma pessoa, um senador chamado Gurupi. Taí, o nome estranho. Me disse que nunca
descobrira um xará um tocaio. Também, parecia nome de praia ou de rio ou de
árvore! E tinha, o senador Gurupi, uma filha de dezenove anos que queria ser
acrobata ou malabarista ou equilibrista ou contorcionista ou duble de filme
pornô.
Um
dia ela, de nome bonito Bituva, voltou para casa e pediu para namorar o palhaço
do circo mambembe. Tomou uma sova de cinto que saiu lasca e criou bicho. Nem
piou mais nada de sair de casa com o circo e andou na linha como uma
cordeirinha.
Hoje
Bituva é a famosa prestigiada requisitada fonoaudióloga da cidade. Pratica ioga
todos os dias pelas 6h e sol quando tem nos domingos deitada na varanda. Já
adquiriu um apartamento já tudo pronto para mudar no bairro Sagrada Família no
terceiro andar do prédio Arauá e um carro grande forte dessas camionetes 4x4 de
fazendeiro de grandes propriedades na cor bege. Esse ano que passou fez férias
de quinze dias em Recife Olinda Itamaracá Fernando de Noronha... com namorada
familiares amigos colegas. Declarou para um jornal local que nem pretende
comprar ou adquirir um imóvel um sítio próximo aqui mesmo da cidade
universitária de São Sepé e isso “é só sensacionalismo da imprensa que nem tem
nada que fazer e mais nada a declarar” segundo ela. Ela trabalha para algumas
firmas da cidade e atende no endereço do escritório só marcando hora com a
secretária a dona Ipeca.
*
**
Eu
tinha pressa de chegar e partir, pois ia a lugar nenhum. E se um dia for ao
Amapá, Macapá, nem terei pressa de voltar. Se um dia for a Vale Verde e Passo
do Sobrado sem pressa de voltar. Tenho pressa de ir, tenho ânsia de ficar, nem
tenho pressa de retornar. Nem preciso retornar. Olho e mais olho na janela a
paisagem trocando de fotografia. Ninguém me espera e eu nem espero ninguém. Os
índios caxarari podem ainda pescar e caçar e coletar mel na natureza. Assim como
nem procuro nada e coisa nenhuma.
***
Um
dia minha vinda depois de tantas idas e vindas estaria pronta. Um dia também
Cananeia. Um dia, e também o Pico da Neblina.
Acuriá,
menina de cabelos longos e finos, um dia inventou um tal de: matar um jaboti de
estimação. E disse para a família que fora acidente ou suicídio.
O
silêncio da borboleta amarela, mata atlântica, Aparados da Serra, a caminho do
mar ou da beira-mar.
***
O
melhor cheiro era o da Cachara. O melhor cabelo era o da Saicanga. O melhor vestido até os joelhos era o da Tabarana.
O melhor sorriso clássico era o da Piapara. O melhor verde caía bem com a
Caparari. O melhor peito, dupla de área dupla de zaga, era o da Mandubé. O
melhor nariz era o da Apaiari. O melhor beijo ou mordida nos lábios era da
Macaúba. E muito mais, o time inteiro, que eu sabia. Nem era fácil encontrar no
mundo nariz tão belo e condicionado igual ou parecido como da Apaiari. Um nariz
bonito é muito difícil. Um nariz conforme é muito valioso e perseguido e caro.
Tem médico que só faz nariz, tem cliente que só pensa em definir o próprio
nariz. Há narizes belos de belas em Belo Oriente em Belo Vale.
***
Anil
me contou que sempre amou alguém com ela. Depois, ou esquecia ou lembrava que
tinha um segundo namorado. O segundo era o primeiro ou o terceiro. No terceiro
eliminava os dois anteriores e os reservas. Um dia nem tinha ninguém para
telefonar. Nem sabia que amava Jari no começo de tudo. Mas tinha impressão que
amava alguém. Alguém quem? Nem, nem sabia quem.
E Anil começou
a olhar para todos os lados em procura de caras e tipos novos. Procurava aquele
que iria encontrar um dia por acaso. E quem sabe para sempre. Todavia passar
por ele na saída dum som e nem se tocarem. Morar no mesmo bairro e nem se
conhecerem. Viajar num ônibus e nem se encostarem.
Ela
tinha um corpinho elegante e tentador uns 50kg. Todos diziam que ela dava para
os namorados, um de cada vez. Então, todos tiveram a sorte e o prazer. Teve
vários namorados, o que era normal. Eu nem vi nada porque nessa época eu
namorava a Cananeia e explorava sonhos com Enigmática.
Enigmática
era a minha flor e o meu sustento. Enigmática como essa flor lilás espontânea plantinha
rasteira no meio do pasto natural do campo. Sacudida pelo vento, veja só.
Molhada da garoa que passou rapidinha e fria já pela manhã. Um dia pouco frio e
tal. Um pouco distante da primeira árvore mais alta. Naquela paisagem ali do
potreiro, entende?!
Enigmática,
como se fosse uma borboleta tocada de vento. Muita graça de sobra, gentileza,
vivacidade e extremosa mais, bem parecida. Com estilo para ser o que D
apontasse de bom e de grátis.
Ela,
Enigmática, como se o futuro tivesse obrigação de ser perfeito. Ela tinha
certeza do seu futuro perfeito, do presente amarrado em fita dourada, e eu
também. E todos igualmente. Mas era estranho pesar isso na ideia isso comigo o
tempo todo.
***
E
naquela manhã eu acordei aborrecido. Sabia já que o dia seria aborrecido
enfadonho. E foi mesmo. Mas aborrecido sem dúvida era muito enfadonho.
Um
dia aborrecido era um dia sem nada para olhar. Um dia aborrecido era um dia
longo demais. Um dia enfadonho era quando nem tinha aonde ir, nem tinha baile,
nem tinha festa, nem tinha carro. Um dia enfadonho nem acontecia nada de muito
bom e nem nada de muito bonita. E tudo acabava bem ao estilo do nada vezes nada.
***
Metáforas
de trens pelo mundo afora, piuiii! piuiii!... De barcos gaiola pelos rios da
Amazônia rio Guaxupé rio Ganhamoroba rio Canumã rio Jutaí... Para dentro do
Brasil já era muito. Um dia valerá a pena navegar aí. Quando eu for para
Urucurituba. Quando eu visitar Itaberaba. Uma vez explorar Esmeraldas e
Itabirito. Quando eu morar de frente pra praça 7 de Setembro em Dom Pedrito.
***
Um
vento me ultrapassou de leve. Graças ao verão quente. Um vento quente. Um vento
do nordeste. Graças ao dia brilhante. Um vento leve e suave empurrando o
araçá-de-coroa. Um vento até com cheiro de chuva mais à tardinha mais à vontade.
Graças aos pintassilgos inquietos. Um vento com sabor úmido de terra vermelha e
muito bem graças aos aiuruebas, ajajás, rendeiros, almas-de-gato...
***
Uma
outra coisa iria acontecer em
breve. Ou já estava acontecendo. Enigmática, voz de guria
bonita. Riso intocável. Riso cristalino. Jeito despojado. E a menina podia ser
bela e criativa. E a menina tongalante podia ser sestrosa que tudo ia bem.
Podia ser o primeiro aluno da classe que ninguém ia perceber.
***
E
o cão e o cão?, latiu, depois urrou, atrás do muro. Perto de onde passei, na
calçada, do outro lado do muro encimado por cacos de garrafas arames farpados.
Era um cão? Era um jacaré-de-papo-amarelo? Era uma sucuri com dor de garganta? Era
um homem? Era um telenoticiário da noite? Era uma cachorra-da-palmeira?
***
Então,
uma pedrinha do Senhor me falou, chegando voando assaltando velocidade
artificial duma atiradeira de dinhonhinho aloprado e de alma esgarçada sem
rodeios:
-
Vossemecê nem poderá mais subir em árvore. Vossemecê nem poderá mais comprar um
iate. Vossemecê nem poderá mais nadar no rio Retiro. Vossemecê nem poderá mais
tocar violão. Vossemecê nem poderá mais ficar rico e poderoso e governador. Nem
poderá mais ficar famoso ator e aparecer nos jornais e revistas e telas do
país. Nem poderá mais transar com a top ten gaúcha. Nem poderá mais fazer o gol
do campeonato. Nem poderá mais viver dois meses sequer no Munim. Vossemecê nem
poderá mais conhecer os museus de Petrópolis. Vossemecê nem poderá mais compartilhar
na tribo dos coripaco.
***
Céu
azul, que lindeza!
A
menina desatenta passeava com o cachorro na guia. O cachorro ia ela ia o
cachorro parava. Ela só estava se concentrava no cachorro. O cão cachorro
quando queria. Cão muito gordo resfolegante. O cão empacava na árvore ela
puxava puxava sem o cachorro.
O
céu em cima, o sol amarelo, a terra embaixo com plantas dos tipos
língua-de-teiú, pitaiaia, araçá-guaçu, pau-pereira-do-campo, breu-branco,
cardo-da-praia... O céu em cima, o mato verde embaixo. O céu em cima, o sonho
leve flanando. O céu em cima, a cerração branca embaixo no vale verde. O céu em
cima, a beleza em todo lugar. O céu em cima, a mulher de barriga rasa e ancas
estreitas e riso de águas limpas nas pedras. O céu que eu vi em cima, a viagem
que eu revi embaixo. Vi e revi e trevi.
***
Enigmática
e sua sombra e meu lastro. Enigmática e seu rastro na areia. Enigmática e seu
rastro no caminho das pedras. E sua cor de pele com tatuagem em árabe no braço
direito. E seu riso claro e doce e bonito e açucarado. E seu rastro nos
cadernos escolares. Enigmática e seus dedos de carinho e alisamento e veludo. E
seu perfume de chegar e banho tomado. E sua música de rádio 7h. Enigmática e
seu rastro de lua e estrelas. As formas aerodinâmicas de avião de cavalo de
peixe de barco a vela.
Foi
a primeira vez.
Enigmática
tirando foto de língua de fora nas pedras do rio da Prata cascata da Usina.
***
Meu
tio Saguaçu, irmão mais velho do tio Urubici, sabia um segredo secreto só para
si e ele mesmo. Meu bisavô materno Urubuqueçaba sabia um segredo secreto só
dele mesmo e olhe lá. Minha irmã Turiaçu sabia um segredo secreto que guardava
com ela a sete chaves. Meu avô materno Muru ainda sabia um segredo secreto
muito dele particular que nem revelava jamais e nem revelou nunca mais. Minha
amiga Paratari sabia um segredo secreto que nem dizia nem para seu melhor amigo
ou melhor amiga nem para as paredes ou o espelho. Minha tia Tarauacá mantinha sadia
um segredo secreto que jamais confessava mesmo sob tortura ou mesmo em sonhos
ou delírios.
Acho
que escondiam. Todos escondiam. Todos tinham seus segredos secretos muito
íntimos e escusos e bem guardados. Quem sabe segredos sabe? O segredo secreto
exclusivo é trabalhoso. O grande grande mundo de cada um. E isso é um
privilégio particular e próprio e intransferível.
***
Como
ser como ter se o caminho é fracassado? Esperando um milagre. Um exemplo: o
rastro de fumaça de avião jumbo no céu azul. Uns exemplos: um beija-flor
metálico pousado na janela. Uma manhã acordar e comer pitangas no quintal.
Receber um telefonema de Grajaú. Presenteado com passagem de ida para Parati. Conhecer
em paz o rio Paraíba do Sul. Muitos milagres num dia só ou numa caminhada só, é
isso.
Um
ser um ter nem sabe que tamanho tem o mundo e seu próprio caminho, ainda. Uma
formiga nem sabe o tamanho do muricizeiro. Um gato vira-lata nem sabe o tamanho
do muro que divide o bairro São Cristóvão do bairro Basalto. Um besouro voa e nem
alcança o seu tamanho numa semana. Uma história qualquer nem é a extensão do submundo
íntimo e particular. Uma viagem a um país nem é a totalidade das férias de
verão no país. Uma montanha mede um grão de areia. Um beijo demorado, por mais
e mais doce que seja, nem tem o sabor de uma boca querida.
E
eu tentava me enquadrar, bocejava, e Enigmática só para os olhos.
***
As
coisas foram como que sem endereço nome de remetente e destinatário.
Fazer
as viagens pelo país. Que eu preciso ir. Que eu saiba. E como? E por quê? Deixar
que eu fosse. Ia fazer e pronto! Simboralá! Terminar a minha regular e natural
e comum viagem viajando muito.
Eu
aprendia muito devagarzinho, uma vez. Acontecem a sorte o mistério o nada as
viagens.
Nem
sabia o que era pra mim, o que me esperava, o que acontecimento.
***
As
pessoas e coisas que conhecia brincavam e gostavam muito de brincar. Mearim
gostava de brincar subindo numa árvore lá da casa dela, uma gameleira ou
leiteira. Caçonde gostava de brincar de bicicleta pelas ruas do bairro da Santa
Cruz. Bacopari, a de cabelos longos, brincava de se pentear diante de um
espelho enorme na parede do seu quarto. Primo Muriaé brincava de moto o dia
todo e parte da noite no baldio. Tio Papeba brincava de namorar as quengas da
zona, e daí?! Maricá brincava com tatuagens na panturrilha, na virilha, nos ombros.
A Tabuba brincava de boneca para saber, num futuro próximo, lidar melhor com
seus filhinhos e filhotes. A Bacopari também brincava de saci quando lembrava o
jogo da sapata.
O primo Muriaé
caiu de moto no posto de gasolina engoliu um ferro retorcido abriu o peito de
alto a baixo os órgãos à mostra rezando no limite durante quinze dias e noites
e dizia no sonho dai-me o santo-daime auasca iagê mariri do caapi da chacrona.
***
Mas
eu precisava dizer outra coisa: viajar e me ver por lá, entende?! Parava quem
sabe num lugar muito conhecido da cidade famoso cartão-postal e diria mesmo
para mim somente eu estou aqui em Mucugê que coisa boa vem me acontecendo e nem
posso acreditar.
***
Foi
um dia tal ontem. Meu avô paterno, avô Caparaó, sumiu. Eu nem estava presente,
inda bem.
Eles no almoço
de domingo ele comia um dos seus pratos prediletos: costelinhas de porco com
polenta e vinho branco de garrafão seco de mesa. Primeiro, todos os presentes à
mesa riam por qualquer motivo riam sem vergonha. E contavam causos, falavam de
aventuras, pinturas, arquiteturas, governadores eleitos, preços da cesta
básica, novos tempos e outros tempos, etc., riam e levavam o almoço de domingo numa
boa, e levavam o mundo nem muito a sério nem muito ao oriente nem muito ao
norte.
-
Pagar adiantado nem dá graça beber - falou o meu tio Ibijaú.
-
Concordo que pagar antes para beber depois nem dá graça, meu - disse o meu tio
Marabá.
-
Pagar de primeira para só então beber em segunda estância nem pensar - declarou
à mesa meu tio Muliterno.
-
Pagar por pagar e meio só depois da saideira, é - colaborou meu tio Araú.
Aí, meu avô
entortou a boca, esqueceu a costelinha que segurava largou e olhou desesperado
para o lado da janela aberta o quintal dos araticuns-folha-de-salgueiro. Então,
o pessoal calou completamente e beiços lambuzados. Um barulho de talher caindo
no chão, pi-pi-lim!... Cadeiras arrastadas para trás. E ainda assombravam todos
qual que era. Então, todos correram para acompanhar o velho na descida lenta até
o chão. E todos já choravam, quase todos já gritavam, muitos nem se davam
conta, muitos nem sabiam o que fazer, muitos nem terminaram de mastigar o que tentavam
engolir.
Nem
devo explicar tudo que ocorreu. Isso de sumir de desaparecer é horrível de se falar
e de vai fazer o quê. E é feio de se ver. Acho o fim da picada... bem, esquece,
e deixa pra lá, deixamos pra lá todos nós de uma vez para até quando e pronto.
***
A
professora de português do NSAparecida, dona ou senhorinha Taguara, tinha uma
mania diferente, por enquanto naquela data altura do tempo, e que eu concordava
e discordava. Queria que se lesse a redação ali mesmo em sala de aula, na
presença dos colegas. Eu li minha redação de fantasia.
Era
uma história comprida que nascia crescia e nem acabava nunca mais... Os
aventureiros iam por um país do tempo do Brasil Colônia, se nem me engano...
Iam buscar ouro ou apresar índios ou paragens de nomes tupi-guarani assim nos
moldes das entradas e bandeiras...
Mas eu fiquei
pensando, todo o tempo da leitura, o que os outros estavam pensando de mim.
Principalmente, o que Enigmática estava pensando em mim. E, então, achava que
me perdia em mim de mim mesmo.
Fora um texto
muito doido que perdia personagens no mato e ia buscá-los encontrá-los na
cidade. Emendei loucuras e outras coisas absurdas para acabar nem dizendo lacunas
quem morreu no final. O pessoal nem opinou, o pessoal nem disse nada, o pessoal
ficou no aconchego do quieto, a professora passou adiante. E a Enigmática eu nem
ouvi dizer se ela estava em sala e por que só eu que respirava. Se eu chegasse
cedo na rodoviária pegaria sem demora um ônibus para conheça Sena Madureira.
Dizem se eu começar aqui e fizer um buraco comprido o bastante vou sair no
tatu-bola.
Nem
gostava de me parecer assim aparecer tão anônimo e surreal e pegando fogo pelas
orelhas.
***
Troquei
o horário da farmácia. Em diante trabalharia no período da manhã até as duas da
tarde. Assim poderia estudar à noite. Estudar à noite? Ir pra aula à noite,
entende?! Ver Enigmática, guria líquida e vaporosa e sólida.
Enigmática,
a que jamais será repetida. A que jamais será minha namorada. A que jamais será
feliz, ainda bem, bem feito.
***
Foi
aí que apareceu um daqueles dias que... sinceramente...
Tudo
estava mais ou menos bem. O professor de História do Brasil Colônia gazeteara.
Então, a gente estava na sala só conversando, fazendo hora, até a próxima aula
que seria o estudo da geografia.
Um
instante de bobeira é o que basta, nem?! Só um segundo de tonteira. Um
relâmpago mais fundo de burrice ou de surdez da minha parte. Foi tudo sem
pensar, sem que eu pudesse ver ou pressentir. Aconteceu, pronto, passou. Abanar
para trás e nadar para frente.
Assim
eu vi a Mongaguá muito linda, muito lenda, muito toda toda desfilar pela minha
frente. Nem resisti. Foi um impulso. Foi um momentinho de perda de consciência,
de muito nervosismo, um zunido no cérebro, tiiiim!... Eu então passei a mão na
bunda da Mongaguá. E pra quê, meu!
Eu
me olhei e me vi todo perdido no vexame. Nem acreditei que eu era eu. Veio o
trem com tudo apitos velocidade dimensões e eu preso acorrentado nos trilhos e
o resto já se sabe.
Aí,
todo mundo parou o que estava fazendo, se fez um silêncio muito maior que
precisava, e todos ouviram a Mongaguá repetir aquele berro e mais os destroços
de desaforos. O silêncio de toda a turma e os berros com desabafos e desaforos
da Mongaguá, é. Eu nem sabia o que fazer e nem fiz nada. O que fazer? Enjoo
total. Aguente.
Temos
um trem de carga e de passageiros também que parte na manhã de Vitória e chega
na mesma noite de Belô. Eu adoro esse trem. Um dia vou nesse trem.
O
Itaqui, que parecia ter um interesse pela Mongaguá, veio ao meu encontro, alerta
ligado, me intimando:
-
Que que tu qué, oh, seu doido?!
E
a ida do trem que parte sai de Rio Grande e vai pelo mapa do extremo sul até
Uruguaiana atravessa a ponte sobre o rio Uruguai entra na Argentina. Durante a
viagem muitas estações atrações típicas e folclóricas e nativas. Meu primo tal
foi com mulher e filhos e cachorro e me recomenda já que eu sempre pretendo
atingir os mais e mais horizontes.
Porque
eu estava acuado, perdido. E outras coisas que nem é bom relembrar. Perdido e
também despossuído descaracterizado. Sem saída. E nem sei por que, talvez por
nojo de mim mesmo, cuspi na cara do Itaqui. Por que cuspir? Mas pra quê, meu!
Assim,
então, o Itaqui veio com tudo. Muito mais forte que eu, estava claro. Nem era
só ele nem, a turma toda, a vespa da Mongaguá, a minha consciência, tudo e
todos. Mas o Itaqui chegou primeiro, ou pelo menos com mais presença. E ele me
segurou pelo pescoço. Acho que queria me transformar mesmo no etê de Varginha.
Eu senti isso e gelei. Tentei me desvencilhar. Por enquanto nem era possível.
Esperneei. Esperneei como uma barata de pernas para o ar e pronta para ser
esmagada. Eu nem tinha um pingo de razão um pingo de sangue para me defender. Esbugalhei.
Eu nem tinha um pingo de adrenalina de iniciativa para fugir. Vi o meu fim
chegando no prisioneiro no foragido mais procurado do país. Nem sei como
consegui me soltar. Escorreguei no chão como uma gelatina como uma coisa
irrisória. Mongaguá até chorava as lágrimas salgadas saltando dos olhos
borrados e suspiros e uivos altos e baixos com a boca aberta os olhos bem
esbugalhados as unhas em atitude.
Acho
que alguém falou isso aí, uma guria, nem seria a Enigmática, e por que tinha de
ser logo ela, seria muito vexatório, com certeza foi uma outra e sem
notificação sem relação com minha alma desqualificada desajustada:
-
Inadequado! Porém, isso foi inadequado!
Tem
outra que inventaram por esses poucos tempos agora que parte do Guaíba de remo
ou no motor mesmo e pega o Jacuí sobe o Carreiro até dar pé. É como se fosse o
tempo dos pioneiros imigrantes, nem é? Embora as cidades no caminho os gps’s e
tudo mais, mas enfim, né?!
E,
então, eu corri para a porta quede a porta. A porta estava muito longe e
atrapalhada com carteiras e outros ex-colegas-camaradas. É, eu nem conseguiria
chegar lá antes de todo mundo, antes de ser preso, antes do fim dos tempos,
antes de Cristo, ou do anticristo. Assim, voltei. No que voltei, enganei todos
eles por acaso. E rumei de vereda para uma janela. Ah!, eles jamais poderiam
pensar que meu interesse era pular a janela. E fui no rumo da janela mais perto
mais colateral. Eu tinha coragem de pular a janela? A janela estava providencialmente
aberta pelo destino pela lógica do verão. Que cada um tem o seu destino as suas
estações! Nem pensei muito bem, mas sabia que teria de salvar minha pele sem
tatuagens sem pingentes. Eu merecia? Portanto, dei uma de macaco-prego
desesperado ou morcego frugívoro. Me joguei pela janela. Pulei da janela. Era o
segundo andar. O começo do planeta Terra? Voei pela janela. Noite bela de
verão? Voei sem guarda-chuva. Principalmente, caí janela abaixo como um
joão-bobo mais pesado que o ar. Como um caxinguelê sem asas.
E
ainda bem que caxinguelê nem era nem mastozoário.
Voei
num rápido voo como do nambu. E caí no chão, passando antes pelo meio dos
galhos de uma bacuri e galhos e espinhos de um espinheiro-bravo. Os espinhos
seguraram um pouco a minha queda, e também me esfolaram pelo corpo todo. Atravessei
a galharia do espinheiro-bravo. E todo estropiado. E caí mesmo no chão com um
baque, to-que!...
Sem perda de
tempo, sorte em risco, alma esfolada, saí para a rua Bom Jesus bem atrás do
prédio escolar. Aí, eu já corria mancando. Fiz o que pude para sair fora, meio
manquitolando e tal. Me arrastando. Me afastando. Me coçando. Me repensando nos meus objetivos em
esse mundo. De longe em longe olhava para trás. Meu esconderijo na serra do Rio
do Rastro país dos aracadaini nem seria descoberto em tempo algum ainda bem.
Quando morrer
e voltar quero retornar um ipecuá ou maracajá-peludo ou pereiro-da-serra ou as
opções são muitas e o universo grande o bastante, pensei.
***
Estávamos
na avenida Placidina de Araújo bonita e confortável rua da cidade dos
neopratenses com ipês-amarelos e ipês-roxos beirando as calçadas. Eu e... dona Tatajuba,
esposa do seu Tambaú e mãe de cinco filhos em escadinha cronológica... (Este
sonho tirei nem sei de onde, sonhei e pronto; que coisa!). Tatajuba se queixava
que carecia de umas fotocópias quaisquer. Eu disse:
-
Deixa comigo. Te ajudo. Deixa que eu bato. Te arranjo. Deixa comigo e nem abro.
Então,
entramos na casa de um parente dela. Que seria, talvez, a mãe ou uma irmã, nem
deu pra ver. E eu fui lavar as mãos. Na volta nem vi mais a dita cuja e procurei
a dona Tatajuba por tudo que era lugar da casa e nada. Procurei e reprocurei.
Enfim, por fim, resolvi escrever um bilhete com as anotações dos procedimentos
que ela deveria fazer para conseguir as tais e quais fotocópias. Mas aí,
incrível, nem consegui encontrar papel e caneta. E procurei, reprocurei troquei
em vão pelos mais de cem canais da televisão...
***
Pensava,
pensava que comparecendo às aulas perto dela, a Enigmática, minha autoestima se
desgraçasse e tudo se acalmaria, e eu pronto a esqueceria. Engano. Perto dela,
todos os dias da semana, minha admiração cresceu tudo que podia. Uma esperança atrás
de outra e de otário em otário fui inchando. Achava até que ficava bobo muito
mais que já era. E fiquei mais.
Enigmática
era também significado de limpeza, azul, higiene, água corrente, água de pedra,
água de montanha, água da chuva, cascata caindo da montanha num dia claro, céu de
cristal, fotografia em alta definição. E principalmente ela nem tinha namorado,
ainda.
-
Você já ouviu falar dos suruí-paíter?
Ver
a Enigmática de perto foi um susto. Uma paralisação nos neurônios. No mundo
também. Olhar a cor dos olhos, o cheiro do cabelo e de todo o corpo, o hálito
de jabuticaba na chuva, medir a altura, empurrar com os ombros. Ver de perto.
Ver todos os dias. Ver ouvir e fingir nem olhar.
Enigmática
quase sempre chegava de cabelos úmidos, bolsa a tiracolo, calça comprida
desbotada, camisetinha com umbigo. No inverno de touca e cachecol só com o
focinho de fora.
-
Será que um dia é pouco para visitar Buriti Alegre?
Eu
a espiava. Eu a inspirava. Claro, no que podia. Sempre em silêncio. Como
secreta. Como espião mesmo. Pelas costas. Assim como numa espécie de traição.
De traição era melhor.
Se
eu me achava e me comportava muito tímido perto dela. Será que era por ter
pintado o dragão com muitas cores, com todas as cores do arco-íris, com muitas
lendas, com lendas de outras eras, com cavernas profundas, histórias de guerras
entre nações, chamas pelas ventas?
Impressionante,
mas perto dela nem sabia o que fazer. O que pensar? O que dizer? Nem fazia
nada, então. Eu era, sim, um belo tracajá. E meu sorriso era de piramboia,
pronto, falei.
Eu
olhava para ela bem de perto. De perto. E reparava os detalhes. Como um
diamante que nem acabava nunca. Que brilha sempre. Que cobiça os olhos. Uma
pedra que muda de cor conforme. Uma pedra igual uma estrela que nunca vi de
perto. Uma passarela que vira biografia e nem nunca mais lembrará da gente.
-
Você já pensou... Eu já pensei em nascer todos os dias em a de Ibirama.
Uma
noite, saída do colégio NSAparecida, chovia mais que o necessário e ficamos
ilhados debaixo da marquise. Uns esperando que chegasse a carona, outros que a
chuva acalmasse. Era bom. Eu olhando para ela. Fiquei atrás de todos,
reservado, olhando pelas costas como um traidor. Era bom olhar. Ela olhava a
chuva, a rua em frente Princesa Isabel alagada, a enxurrada descendo a rua
Princesa Isabel, conferia o relógio de pulso com mostrador grande luminoso. Era
noite boa. Daí fazia uns passos, abraçada aos livros, chegou até a me olhar,
mas nem disse nada, nem falou com ninguém, abraçada a si mesma e com os
cadernos, frustrada com o tempo ali empatada. Se virou para trás uma vez rapidamente
me olhou me questionou me puxou me sorriu me contou narrou uma história falou
altos papos e nem disse nada.
***
Pirapama
me agarrou na escada, antes de subirmos para a sala de aula, ainda no intervalo:
-
Vamos ao cinema? Filme bárbaro, meu!
Eu
parei e pensei. Pensava o quê, meu?! Oportunidade, meu! É a Pirapama, meu! Tá
favorável, cara pintada!
E
Pirapama era casada com um conhecido meu. Me segurou na escada. Eu nem sabia se
eram casados ou ajuntados ou namorados ou separados ou ficados. E nem perguntei
essas coisas abichornantes. Compramos uns dois cartuchos de amendoim. Havia
pouca gente, nem havia pipoca, muita gente? Era uma quarta-feira no meio das
aulas de contabilidade e o cinema às moscas apresentava um filme de terror.
***
Um
dia calmo, novo e por quê. Um sol inclemente. Ainda começando. E depois, mais nem
sabia.
Quem
vê, pensa!
Nenhum comentário:
Postar um comentário