terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 23




Enigmática Bem Bolada Bonita

            Eles se conheceram no meio da água do poço na cascata da Usina o rio da Prata. Poço que nem dava pé, blu-blu-gue! blu-blu-gue!... 
Um dia depois, aquele meu primo Imaruí, que a viu boa, que a viu potranca, que a viu molhada, a presenteou um vasinho de bromélias violentas. Nem sei onde as encontrou ou comprou ou tirou ou retirou ou transplantou ou trasladou ou improvisou ou ganhou. Flores de cores violentas amarelo ouro com riscos azuis e lilases.
Outro dia presenteou um anel de fantasia de sorvete seco muito verde e tal e qual. Outra sexta-feira deixou uma camisa amarrotada um par de calças desgastadas meias furadas e cuecas freadas para lavar e cozer e passar. Outra chance deixou umas contas de luz água e mercado também para quitar. E ela, a guria? E Iberé, natural de Panambi, falou, caiu em si:
            - Gosta de mim, benhê?
            Se conheceram num verão tão bom. Poço fundo da cascata da Usina ex-capital da pedra basalto Nova Prata e RGS. E foi tão bom! Esperava-se. Poço fundo remoinho cercado de pedras pontiagudas e algumas plantinhas renitentes locais, chás-da-campanha, piris, juncos-bravos, aguapés, golfos-amarelos... Ele, o primo Imaruí, disse:
            - Você é um monumento. Beleza integral de conjunto. E nosso patrimônio.
            Já eu achei, opinião que nem me pediram na época e nem em outras épocas, que o importante era o coração do amor pacifismo.
                                                                       ***
            Vez em quando, enquanto isso.
            O que me sustentava e me faltava para sair pelo mundo viajar? O trem sempre partia e já partia. O ônibus sempre partia para Santa Isabel do Rio Negro, Palmeiras, Caseiros, Mariano Moro... O avião sempre voava até Dois Irmãos das Missões, Venâncio Aires, Ibiúna... Um dia faria a viagem para conhecer o desconhecido. O trem nem demorava e partia, São Geraldo, Porto Franco, Braço do Norte, Santiago... outros lugares. Aliança cidade do maracatu; Portel cidade das ilhas; Unistalda cidade dos raios; Acaraú cidade rio das garças... outras pessoas. Tudo igual? Tudo assim? Vai saber, meu! E ir de ida porque ir sempre já se foi... um bom remédio.        
                                                                       ***
            Eu me lembro como se fosse hoje agora.
            Sentei perto da janela o meu quarto. O sol entrava pela abertura. Os sons das aves assobiando entravam pelos ouvidos, suriri, anhuma, marreca-ananaí, sabiá-tropeiro, picaparra, joão-pires, velhinho...
            Coisa importante de perder o sossego ou quanta monotonia pois até os sabiás-laranjeiras me importavam.
Nem era calor nem frio. Nem havia paz, nem havia dúvida, nem havia suco de pequi na geladeira, nem havia futebol na tevê, nem havia aonde ir. Nem havia boas ideias, nem havia menina, nem nuvens no céu, nem havia capivaras miando no potreiro, nem mesmo tempo a perder.
            Pela rua Itália, vazia, nem um cachorro guaipeca.
                                                                       ***
            No amanhecer daquela data que me refiro... o dia apareceu sério e aberto e amarelo. Tudo era animação de aniversário.
            Estava saindo e estava indo e estava chegando. A minha viagem era mesmo uma fuga. Era sim, e daí?! Ia pegar o trem para Goiânia. Índios cutaxó ouvindo curugu tocar na beira do rio Madeira. Um barco gaiola para Rio Branco.
            Um grito voador, aaaaaah!... de crejuá.
                                                                       ***
            Durante nem sei quantos anos...
            O caminho das pedras. O caminho de pedras. O muro de pedras. A casa de pedras. O quarto talhado em pedra. Silêncio mineral. Igreja de N. S. do Carmo, Ouro Preto, a criação do altar-mor que fora “todo proporcionado em preceito da ordem compósita”, e segundo o mestre Ataíde. Estátua do bem está tudo bem. O herói de pedra-sabão da praça em Tiradentes.
***
            Os dois procuradores de diamantes chegaram na casa no meio do descampado em as imediações de Contendas do Sincorá e limites de Muritiba e cercanias de Mirante e vizinhanças de Ronda Alta e etc.
            - Olha só, meu! A mulher! Olha o que ela veste nos pés! - disse um dos procuradores de diamantes.
            - Será? Nem é, cara!... São pedras ametistas! - disse o outro dos procuradores de diamantes.
            Dito e feito na hora h, os dois sequestraram o casal de camponeses. Queriam que queriam que indicassem sem demora onde tinham encontrado as tais e quais se havia mais as pedras preciosas ou joias ou ouros ou pratas ou tesouros ou Pratinha ou Carbonita.
            Então, eles foram pelo sertão em fora em busca em procura. Os dois procuradores de diamantes e mais o casal de roceiros o homem a mulher sequestrados. Rumo da mina de ouro minas de gerais ou de informações sobre a tal e qual cidade da montanha de ouro e prata e Diamantina e Moeda.
            - É por aqui - disse o homem sequestrado seguindo em frente puxando a fila na dianteira do grupo.
            Seguiam a pé e sob o sol caleidoscópico. O homem ia na frente seguido pela mulher e pelos dois procuradores de diamantes. Estes bem armados até a raiz dos cabelos, canivetes multiuso, facas, adagas, facões, revólveres, fuzis a bandoleira.
            Fazia um sol de lua gigantesca. Pelo meio-dia chegaram a um povoadinho Arraial Novo do Rio das Mortes.
            - Bem, gente. Vou lhes apresentar o meu compadre Pedro. Ele sabe melhor onde fica a tal montanha de ouro e prata e joias preciosas e Berilo e Ouro Fino - falou o homem.
            - Pois que seja - como resposta um dos procuradores de diamantes.
            Foram até o casebre de palhoça do tal e qual Pedro. Que este morava sozinho isolado cuidando de pedras e ventos e horizontes azulados fazia já uma pá de alguns anos. Pertencera ao grupo vanguarda popular revolucionária o VPR e com sequelas como por exemplo puxar por uma perna a direita.
E em questão de cinquenta minutos tudo foi esclarecido e mais o tal e qual Pedro - requisições, sequestro do embaixador, comícios relâmpagos - se juntou ao grupo. Um dos procuradores de diamantes recapitulou:
            - Seguinte. Então, nós vamos para a tal e qual mina de ouro, tá certo?!
            Todos balançaram a cabeça que sim assim pois é.
            Passaram a ponte do rio Paraguaçu. Atravessaram a BR-470 asfaltada já na altura do município de Formigueiro. Cruzaram por uma via férrea, pare, olhe, escute, em território de uma tribo dos xokleng. Assustaram o bando das suiruás em o alto de um itapicuru já na hidroelétrica de Sobradinho.
            O silêncio o calor a pressa em chegar o espaço. E cada qual pensando o que quisesse caminhando o perto o longe, etc., os quatro que pararam de falar.
            Perto das 14h descansaram na sombra de uma gigantesca muirajuçara. Depois logo logo foram em frente, Pedro como guia - combatente foquista da luta armada contra a ditadura de segurança nacional tempos idos e decorridos de 64 a 85 - seguido por um sequestrador pela mulher pelo homem e fechando a fila o outro procurador de diamantes.
            - Olha, pessoal. Eu nem estou bem certo do local exato da mina de ouro e prata. Por isso a gente vai até a aldeia dos ofaié que lá tem o índio velho que sabe tudo conhece a região como a palma da mão. Pode ser? Eu recomendo - disse Pedro, lavagem cerebral, ameaça de matar o filho, pau-de-arara, maricota, cadeira do dragão, palmatória, pescaria, telefone, corredor polonês (intermitentemente).
            - Então tá, né?! - disse suspirando um dos procuradores de diamantes. Toca em frente que já estamos atrasados faz já uns tantos e quantos meses.  
            Chegaram à aldeia e foram direto à oca do índio velho. Este fumava lá em frente da televisão assistindo um jogo do campeonato nacional de futebol. Uns curumins umas cunhantains brincavam ao redor com animais de companhia uns ajurujubacangas.
            Pedro - investigado preso torturado - falou com o índio velho lá na língua do ofaié. Trocaram umas perguntas com respostas. O índio velho se ergueu pegou uns trecos pegou um cajado e fez sinal que o seguissem. O cachorro Tupi também resolveu acompanhar. O cão ficou na dúvida ali no limite da aldeia com o capoeirão, mas resolveu acompanhar o dono. Cheirou todo mundo pelos pés e optou por acompanhá-los.
            Pelas 14h e 30min já estavam na altura do município de Vila Real de Nossa Senhora da Conceição de Sabará. Evitavam as estradas federais estaduais municipais vicinais preferindo desbravar os carrascais.
            Estavam indo bem para o norte. O índio velho ofaié parou olhou se orientou e quebraram de acordo todos para o oeste. Iam pelo campo iam a pé porque os sequestradores nem queriam nenhuma divulgação. Todo mundo aceitou e concordou na hora e sem controvérsias. Tupi latia para algumas perdizes que alçavam voo instantâneo imediato.
            O índio velho ofaié parou e disse que estava cansado. Descansaram na sombra de umas gigantescas palmeiras caranás. Comeram coquinhos beberam água da fonte descansaram os pés e cada um tinha um pensamento na cabeça que nem repartiu divulgou para com ninguém. Quando um casal de marias-rapés cantou o grupo se ergueu e continuou a jornada. E que altitude que latitude que longitude que nada.
            Costearam um rio famoso e caudaloso e de forte corrente o tal e qual rio Sabia que deságua no rio das Antas que este deságua no rio Taquari que este é tributário do Jacuí. O índio velho ofaié falou com português regional:
            - Do outro lado do rio na margem de lá tenho um conhecido que sabe o nome da montanha que vocês procuram. Podemos ir até lá ou nem? Acho que vamos ganhar tempo e dinheiro com ele nos ajudando.
            - É pra já, meu! - falou um dos procuradores de diamantes.
            Como nem tinham barco nem havia lanchas para alugar, o grupo atravessou o rio no braço nadando. O Tupi foi na frente seguido pelo índio velho um dos sequestradores o Pedro - no caso dele particular com asterisco a anistia ampla e geral e irrestrita - a mulher o homem e o outro procurador de diamantes. Uma família de ariranhas oito ou nove pessoas gritaram roncaram para os estrangeiros desde o barranco. Um sozinho suiriri-do-campo também se manifestou estrilou a partir de um galho seco da figueira-branca.
            Sentaram nas lajes do outro lado e comeram um pouco de tapioca que o índio velho ofaié levava no embornal.
            - Tá vendo aquele tuiuiú lá no alagado no meio daquelas plantinhas juquiris-mansos? - apontou um dos sequestradores.
            Todo mundo ali olhou e viu o tuiuiú referido. A ave olhava em volta talvez sem noção. Então, o procurador de diamantes, com a arma apontada o fuzil, disparou um tiro. E errou. O tuiuiú demorou uns cinco segundos para se decidir decidiu voou para bem longe. Tupi latiu com o susto mas já era tarde.
            Todos eles e ela ali tentaram pescar alguma coisa, mas os peixes eram espertos e lisos e sorrateiros, traíras, pintados, dourados, piraputangas... quem viu? Nem conseguiram nada e desistiram logo cansando ainda mais.
            - Aqui que tem muito cardume de anujás. Quando nóis vinha pescar aqui era banquete na certa - testemunhou o índio velho ofaié.
            Pelas 14h e 45min chegaram na casa desse amigo do índio. Bateram na porta e esperaram. Apareceu uma mulher velha na janela do lado.
            - Oi, mulher velha! - cumprimentou o índio velho ofaié.
            - Boa tarde, seu índio velho ofaié.
            - A senhora mulher velha poderia me dizer se seu marido homem velho está, por favor.
            - Peraí que vou acordá-lo. Ele meu marido homem velho tá tirando uma pestana.
            Logo logo apareceu o homem velho abrindo a porta bocejando com a mulher velha do lado e convidando a entrar a tomar um cafezinho com broas de milho e mel.
            - Nem, obrigado - disse um dos procuradores de diamantes. Nóis estamos com pressa e só queremos que nos guie até a montanha de ouro e prata e Cascalho Rico e Pedra Dourada, tá certo?!
            O homem velho reparou na ostentação dos dois tipos bem armados até os dentes e pensou rápido falou mais rápido ainda:
            - Tudo bem e é pra já agora mesmo sem a demora.
            Pegou o chapéu e veio. A mulher velha também pegou o chapéu feito de palha trançada da palmeira de buriti e se uniu ao bando.
            - Pra que lado fica a montanha preciosa e fabulosa, seu homem velho? - perguntou um dos sequestradores. 
            - Fica pros lados de Santo André da Borda do Campo de Piratininga e nem demora nada de nada. Amanhã ou depois estaremos lá sãos e salvos se D quiser.
            Foram andando em fila indiana 1m longe um do outro. O Tupi ia na frente parava esperava o dono olhava para tudo que era lado cheirava tudo que via ou desconfiava seguia na frente olhava o dono voltava para trás latia para umas moitas de saca-rolhas, angelins-pedra, cambarás-brancos, etc., acompanhava o grupo cheirava o dono seguia no trote rindo de língua comprida.
            O campo ralo de árvores e meio que seco umas outras árvores baixas poucas, quebra-pedras, malvas-brancas, flores-de-babado, mata-cavalos, barrigudas... e mais umas macegas, uns gravatás... muitas pedras, trilhas feitas pelo gado que o grupo aproveitava para percorrer.
            - Tão vendo aquela montanha azulada lá no horizonte? - apontou ao grupo o homem velho. Pois atrás dela tem outra um pouco maior e mais importante. E é então mais pra lá ainda. Mas se a gente tiver forças logo logo se chega lá e eu presumo já bem antes das quintas-feiras.
            Nas 15h e 11min chegaram numa bifurcação: de um lado para Vila do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo de outro lado para Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar. O homem velho ficou indeciso e olhou pedindo opinião decisão para os procuradores de diamantes. Tava na mão deles.
            - Pra que lado a gente segue, moços?
            - Pra nenhum desses lugares. A gente vai pelo mato mesmo que é para nem dar o que falar. Vamos mesmo pelas trilhas de antas no meio do capoeirão, tá certo?! - disse um dos sequestradores no que outro procurador de diamantes concordou com um gesto. 
            Anoitecia na beira da tarde quente cheia de papagaios-da-serra periquitos-vassouras curicacas voltando dos matos grandes. O céu estava com poucas nuvens e estas rajadas em várias tonalidades de dourado no horizonte. A mulher velha comentou:
            - Amanhã nem teremos chuva outra vez. Vai ser outro dia de calor intenso sol abrasador temperatura de alto-forno verão seco seco.
            Quando chegou a noite pararam perto de um gigantesco penhasco que pertence à alçada da serra do Cipó.
            - Se bom se fosse aqui a montanha do tesouro o eldorado, né?! - suspirou disse a mulher.
            - É, seria até brincadeira - registrou a mulher velha.
Acenderam uma fogueira e ficaram assim meio próximos. Conversaram pouco, só o essencial ou obrigatório os monossílabos. A luz das chamas projetava sombras milagrosas míticas na parede de pedras. Estavam extremamente extenuados e logo logo se esticaram ali mesmo ao relento no chão e dormiram.
O Tupi ficou cuidando protetor do grupo os ouvidos e os olhos no escuro. Um dos procuradores de diamantes aguentou o cansaço e ficou de vigia de olho no grupo. Lá pelas 2h foi substituído pelo outro sequestrador.
- A noite vai ser longa - disse o Pedro (caiu na LSN da OBAN investigado pelo DOI-CODI).
Apesar do cansaço o homem e a mulher fizeram amor rapidinho como até por hábito lá deles. Um dos sequestradores ficou ouvindo com interesse indiscreto e também quis dar um créu. Nem falou nada na hora, mas ficou se coçando acintosamente. Depois e com consciência pesada foi falar com o comparsa:
- Sabe, meu. E essa mulher eu acho que seria bom dividir os chamegos e afagos e carinhosos dela com nóis. Você está de acordo?
- Claro que sim. Boa ideia. E ainda hoje mesmo.
Os dois foram lá, esperaram um pouco, conforme o ruído do casal, etc., depois já os intimando:
- É o seguinte... - e explicaram arrumaram razões e partituras e desculpas, etc., e até ameaçaram com as armas brancas.
O homem olhou a mulher e a mulher pensou rápido que logo logo ela decidiu:
- Tá bem. Faço o favor. Mas é por pouco tempo que tou morta de sono e nem mesmo tou muito afim.
Madrugada acordou com o sol se queimando se insinuando atrás da montanha se instalando na manhã do ovo. Seria a montanha procurada? A montanha pegava fogo desde o topo. Só consultando o guia:
- Ei, homem velho! É aquela a montanha do tesouro dourado?
Ainda nem era aquela a montanha do ouro e prata e pedras preciosas e Minas Novas e Cristais. A montanha em vista jorrava águas em cascatas e parecia ser um país repleto de aves devido a grande quantidade de pássaros araras-de-barriga-amarela principalmente que por lá se viam voando uns bandos mais altos que as nuvens.
Levantaram acampamento tomaram um café ralo rumaram ao encontro do sol claridade nos olhos mãos em pala. Bando de gangarras saíam do mato de araucárias e rumavam para o oposto do rio Guaporé. O homem velho estacou no alto de um morrinho com alta presença de cupinzeiros:
- Estamos na periferia de Campanha da Princesa da Beira.
- E daí? - perguntou um dos procuradores de diamantes.
- Bem. Daí que seria bom alguém ir até a cidade comprar víveres e outros petrechos de boca e de viagem. Posso ir eu mesmo, se preferirem.
Os sequestrados concordaram com o homem velho. Os sequestradores se afastaram para confabular. Confabularam rapidamente e chegaram a seguinte denominação:
- Está bem. O homem velho e o homem vão até a vila comprar os equipamentos e etc. Se trouxerem a polícia as mulheres morrem, oquei?! Devem voltar dentro de 2h. Nóis outros esperamos aqui na sombra desse gigantesco carvão-de-ferreiro, oquei?!
O Pedro - resistência armada, preso político, liberdade condicional - aproveitou para contar um causo que aconteceu com ele e nem fazia lá muitos anos:
- Um amigo camarada meu lá pelo território dos índios suruí-aiqueuara e que integrou as forças guerrilheiras do Araguaia depois desaparecido - da comissão do PCdoB onde era conhecido como Avião - esse amigo um belo dia achou uma pedra verde interessante bonita e trouxe ela consigo. Salvou a pedra verde. A pedra tinha uns 15kg e brilhava no escuro. Uma pedra muito digna. Achou um comprador e vendeu a pedra por R$150,00.
“Na semana seguinte foi buscar outra pedra ainda maior 58,5kg. O comprador arrematou a pedra e ainda pagou à vista uns R$6.700,00. O comprador se mandou para os lados de Ribeira do Mar dos Arrecifes dos Navios.  
“Depois meu amigo camarada ficou sabendo segundo ele mesmo me contou que o comprador vendia a pedra para outro comprador e este segundo comprador vendia pedaços da pedra e o comprador de pedaços revendia para um joalheiro que fazia anéis brincos colares pulseiras tornozeleiras etc., cada joia em torno de R$30.000,00.
“Por isso meu amigo e camarada contratou dois ajudantes e foram lá na montanha alugaram a montanha aos índios suruí-aiqueuara e retiraram mais e mais pedras de todos os pesos e tons de verde.
“Aí os suruí-aiqueuara ficaram sabendo e queriam matar o meu amigo e os ajudantes se eles caso nem desistissem de pegar as tais e quais pedras verdes pois as pedras verdes eram da montanha dos deuses lá deles lugar sagrado desde os avós e parentes ancestrais, etc.
“A partir daí o governo começou a se interessar e impediu os índios suruí-aiqueuara de explorar as pedras e interditou o lugar e a montanha virou um lugar proibido e cercado pelo exército 24h por dia mês e ano.
“Resultado no fim ao cabo dessas contas cientistas pesquisadores estudiosos da universidade e com agenda cheia até em Brasília e Rio e Salvador vieram chegaram todas as semanas e foram extrair amostras e carregar levar embora para São Paulo as tais e quais pedras de vários matizes de verde. A família de um desses professores PHDs tem mesmo até uma loja na avenida Paulista com a rua Augusta.”
3h e 10min da tarde quando muito os dois que tinham ido à cidade retornaram e com mais um companheiro carregados de mercadorias.
- Que que é do bói? - questionou um dos sequestradores se referindo ao ajudante que veio com os dois.
- Ele veio desde o mercado para nos ajudar e auxiliar a carregar com as mercadorias.
- Ah é, é? - esbravejou um dos procuradores de diamantes. Então, ele nos acompanha também.
O povo se preparou para sair e saiu em o rumo do sul. Antes da tarde chegar dobraram para leste aproveitando o caminho deixado das capivaras e porcos-do-mato e tamanduás-bandeiras. O céu por ali já era uma revolução das aves as jacarinas.
Os dias passavam e pareciam caminhar em vaivém em círculos e nem sair do mesmo lugar. O sol só nem fazia chover.
            Aí pelas 12h e pouco o homem velho foi levando para o rumo de uma sombra de gigantesca simaruba e parou se jogou no chão extenuado pedindo água. E se queixando de tudo que doía pelo corpo todo:
            - Ufa!... sol forte... os meus pés... o meu fígado...
            O bando todo aceitou a parada. Descansaram um bocado e uns até cochilaram. O Tupi muito de língua de fora. Os dois procuradores de diamantes conversaram secretamente num canto. O homem velho se animou e chamou os sequestradores, falou:
            - Ei, chefes! Acho que devíamos nos separar. Um grupo procura a montanha dourada para nordeste e o outro grupo procura a montanha do tesouro para sudeste, que vocês chefes acham?
            - O que isso quer dizer, homem velho? Que você está perdido? Que nóis estamos no mato sem cachorro-do-mato-vinagre?
            Todos de olho no homem velho e esperando a resposta que se ouviu:
            - A verdade verdadeira é que estou perdido mesmo. Mas aí então se a gente se dividir podemos cobrir o dobro do espaço no mesmo tempo e assim teremos mais chances de chegar ao objetivo e quem sabe com certeza mais cedo, né?
            - Nem, nada disso. Temos que pensar noutra saída. Nada de nos separar. Você quer nos enfraquecer, seu homem velho malandro?!
            Nem aceitaram os argumentos do homem velho e se puseram a andar outra vez. Rumaram então para oeste. A montanha parecia perto mas azulava no horizonte como muitas das outras tantas e bem distantes.
            O bói teve uma ideia lá dele que ideias nem faltam e colocou para os sequestradores:
            - Olham, gente. Eu tenho um conhecido na cidade próxima que conhece uma montanha de ouro e outras montanhas da região. Talvez pode ser quem sabe a que vocês procuram. Se me deixarem ir falar com ele eu o convenço a vir conosco a seguir com a gente e explicar o caminho. Ele deve saber foi garimpeiro por muito tempo agora tá aposentado e vive de renda lá em Congonhas de Nossa Senhora da Conceição abriu até uma loja de banca de jornais e revistas para ter o que se distrair. Sei que parece estranho mas é uma, né?
            - E você sabe onde ele mora exatamente? Quero dizer, o endereço certinho a cor da casa o número a rua o bairro, etc.?
            - Sei, já estive lá e visitando a família dele algumas vezes. Posso ir num pé voltar noutro. Se bobear até arranjo umas ferramentas pás picaretas dinamites, etc.
            - Nada disso. Você escreve no papel o endereço e dá pro homem e pro homem velho que eles é que irão - determinou um dos procuradores de diamantes.
            Assim, pouco antes das 17h o homem e o homem velho rumaram para a vila com o endereço na mão em procura do guia da região. Por ali pelos barrancos devido ao monte à multidão divulgação promoção de andorinhas então era o país dos taperás.
            A noite estava estrelada e nem seria nessa que a chuva resolveria dar as caras e resolver o mormaço. Os que ficaram prepararam a comida e comeram. Depois cada um foi para seu canto procurar dormir. A mulher serviu um e outro sequestrador rapidamente e também se recostou. O céu estava lindo de estrelas e dava até para contá-las. Mas ninguém contou e o cão Tupi se preparou para vigiar o escuro. O Tupi um pouco agastado com esses e outros bacuraus corujas-buraqueiras morcegos-pescadores que zanzavam pelo aéreo ao redor na noite requentada.
            De manhã já na manhã seguinte o Tupi anunciou alguém chegando. Foram ver e era o homem o homem velho mais umas quatro pessoas. Chegando perto o homem apresentou os novos convidados integrantes do bando:
            - Esse é o tal e qual guia que procuramos o seu Neto e família a mulher dele o filho e a filha. Ele nem quis vir sozinho e deixar os familiares apreensivos na dúvida preocupados esperando por ele se sabe lá até quando ou como.
            - E ele sabe onde fica a montanha do ouro da prata das pedras preciosas de Fortuna de Minas e de Lavras?
            - Sabe, sim - respondeu o homem.
            - Na verdade faz uma cara que nem vou mais lá. Posso tentar - disse o Neto.
            Todos estavam ali reunidos e tal e qual.
            - Então, já vamos e continuamos! - determinou um dos sequestradores.
            Naquele dia nem no outro foram interrompidos pela chuva. Dias e dias de céu aberto muito sol e calor vento ameno. No terceiro dia avistaram uma montanha parecida com a descrita nos livros escolares de História do Brasil e que fazia pensar em montanha de ouro e prata e pedras preciosas e Miradouro e Turmalina.
            - Deve ser aquela a montanha que procuramos - falou a mulher.
            - Sim. Eu concordo - arriscou o índio velho ofaié.
            - Se nem for estamos perto - disse o guia Pedro (banido clandestino perseguido, evasivas mentiras desinformações).
            - Então, vamos logo - determinou um dos sequestradores.
            Escolheram uma trilha de suaçutingas e seguiram. A montanha que parecia próxima nem chegava nunca tão grande tão distante tão rochedo. Todos sentiam o calor muito forte. E estava muito quente mesmo.
            Antes das 15h sentaram na sombra de uma gigantesca curupiá. Ficaram esperando alguma coisa. Luz intensa num céu feito de cristal. Os dois procuradores de diamantes se reuniram de lado em segredo conversaram. Ver julgar e agir. Tupi só de butuca nos esquivos e sorrateiros preás. Nada mais a acrescentar, o grupo seguiu, continuaram, levantaram com certo exagero e seguiram.
            Na subida da montanha pararam diversas vezes para admirar a paisagem em redor olhar para trás. Tudo era novo mas muito desolado. Investigaram aqui e ali as pedras brutas e nem vestígios de minérios dourados prateados pedras brilhantes. Muita plantinha para remédio, coroa-de-frade, figueira-de-lombrigueira, erva-lanceta, sebipira-falsa, fedegoso-do-mato... e por aquele dia a dia mas por enquanto nem precisavam.
            No alto da chapada olharam todo o horizonte em volta e parecia outro mundo ou um mundo do outro mundo e por que nem de tão belo e exótico alto astral do divino espírito santo. Algo surreal próprio de pousos de alienígenas com nos seus discos voadores suas cabeças de formiga seus olhos de peixe suas pernas e braços de sapo suas falas de traços e pontos e estalos.
            - Estamos no centro do mundo - disse o Neto.
            - Do universo incomensurável - melhor completou o Pedro (indenizado com base na lei tal e qual e seguintes).
            Tupi farejou as moitas e corria atrás de pombas-rolas ou tiús ou zorrilhos o que aparecesse e sem motivo aparente.
            - Se eu fosse morar eu moraria aqui nesse belo lugar e ponto - concluiu a filha.
            - Pois o tesouro deve ser esse mesmo o da energia cósmica - disse a mulher dele.
            Foram até uma gigantesca muirapiranga e se jogaram se deitaram na sombra. Estavam todos extenuados fracassados e em pedaços e pandarecos e frangalhos e esbagaçados.
            A noite veio mais perto com estrelas e a lua subindo pela direita do morro. Barulho de água corrente algumas cascatas. Pássaros e aves que iam e vinham procurando o sossego do ninho, quero-queros, emas, seriemas, joões-nordestinos, bem-te-vis-do-campo...
            Fizeram uma fogueira esquentaram água ergueram umas tendas estenderam umas esteiras. O índio velho ofaié queria contar história...
            Um dos sequestradores e a filha mãos dadas se apresentaram ao grupo com a novidade novíssima:
            - Nóis temos algo a compartilhar com vocês - abriu parênteses este um dos procuradores de diamantes.
            - Sim, e nóis dois decidimos e de comum - declarou a filha.
            O restante do grupo ficou parado esperando e ouvir o quê.
            - Diga você - falou a filha, insistindo para que o um dos sequestradores ao seu lado e com o tal e qual vinha de mãos dadas falasse e explicasse.
            - Pois é verdade. Eu e filha vamos ficar juntos, é - explanou o um dos procuradores de diamantes.
            Os dois acharam que estavam um sucesso e riram. Sentiram que o pessoal gostou barbaridade e os olhos do casalzinho brilhavam enquanto isso. E se beijaram na boca com calma gosto doçura apetite e risinhos descontraídos quase bobos.
            Por isso o que se concluiu foi que toda a procura e a caminhada e a expedição resultou no encontro de um dos procuradores de diamantes com a filha.
            O que D quer o que D aponta o dedo tudo combina...
Lugar no começo do mundo antes de tudo por fazer...
Assim era o rio que corria por conta e que aprontava das suas...
- Vamos morar juntos e viajar juntos e também nos divertir sempre juntos - disse o um dos sequestradores.
- Isso sim e bastante e com os mesmos livros e filmes e músicas e roteiros - completou a filha.
- Pela manhã saio todo dia de casa em procura de diamantes e até posso sequestrar alguém se for o caso e se preciso for.
- E eu saio de casa pra aula o ônibus escolar na porta e já nas primeiras horas do amanhecer.
                                                                       ***
            Minhas perguntas me descobriam me delatavam. Então, as perguntas me bastavam me alimentavam? Já que as respostas nem precisavam nem certificavam nem atestavam.
                                                                       ***
            Cananeia preferia campos verdes, floridos, cantar ao vento, beijar borboletas de asas fantásticas psicodélicas. Eu já pensava montanha de pedras. Cananeia sempre teve mão para desenhar flores e pintá-las. Eu, sempre quadrados e retângulos e triângulos vazios com um só traço. Cananeia achava de gostar de música baiana, o que durou dois anos mais ou menos. Eu preferia a música da chuva, no verão. Cananeia nunca pensou em fim de mundo, fim dos tempos, apocalipse, mas já viu e reviu vinte mil filmes sobre a exploração desordenada da Amazônia. Eu pensava no meu nada: o infinito, o universo, dimensões paralelas, o quarto poder. Cananeia se iludia com mutum-do-nordeste ave símbolo de Alagoas. Eu com as cavernas de Peruaçu ou grutas da Lapa Vermelha.
            - Cananeia, vamos para Rosário do Sul e São Gabriel e Três Palmeiras.
            - E por lá por daquelas bandas tem festival de música folclórica gaúcha?
            Que sorte tem um curumim yawalapiti no trampolim do galho da imburana-de-cheiro. Ele vai pular no rio Abunã. Ele curumim e o rio Abunã se conhecem. E um foi feito para o outro. Em tempos...
Cananeia achava que existiam fantasmas que usavam chapéu sobre os olhos, que entravam pelas paredes, que se escondiam durante o dia e só reapareciam depois da meia-noite. Meu fantasma era eu mesmo sem dinheiro sem emprego dentro da garrafa de pinga. Cananeia acreditava em cristais, sementes, cascatas, lagos, praias bonitas do Maranhão, Lençóis Maranhenses, paisagens da baía de Ubatumirim, avenida Caxangá. Eu nem acreditava em políticos, juízes das cortes, advogados e jornalistas de opinião. Cananeia queria ir para o Xingu, preferência antes dos vinte anos. Eu queria ir a Marajó depois das grandes chuvas, preferência depois dos vinte anos.
- Podemos ir Cananeia até Nova Ipixuna e Itupiranga e Bragança.
- É por lá que filmaram aqueles filmes do Cinema Novo que ninguém entende?
            Que sorte tem uma cunhã paumari brincando de fazer bichinhos de barro na beira do rio Curiti. Ela vai até ali na água e pega um punhado de areia úmida e faz uma oca, ou abre um buraco e enche de água do rio até o rio pedir água.
            - Tenho uma ideia melhor Cananeia. Vamos até a aldeia dos maraguá, pois em?!
            - Tava pensando também em Moreno e Araçoiaba e Jaboatão dos Guararapes, e pra sempre.
Cananeia lixava as unhas e olhava pela janela, no sábado à tarde. Eu me afundava na cama e dormia até escurecer. Cananeia pensava que só as dúvidas palpáveis. Eu pensava que nem matriculavam as tais dúvidas divinas na minha escola da sorte. Cananeia era morena, média, magra, sonhadora, bonita, santa dos regimes e estudante do ensino médio no 11 de Agosto. Eu só me importei muito principalmente com Cananeia aquele ano de 1975 e foi um ano inteiro. Cananeia tinha uma voz doce, perfumada, bem doce. Eu fazia tantas perguntas e ninguém respondia.
- Vamos embora eu te arrasto para Porto União e Orleans e Cachoeirinha.
- Para a capital do Brasil Rio Grande do Sul Porto Alegre.
            Eu estava no fundo do mar, e o ar era líquido, pronto.
                                                                       ***
            Um dia, um verão no final, aconteceu o episódio que juro vou narrar até o fim e sem cortes em as últimas consequências. E foi assim:
Conheci, olha só!, uma pessoa, um senador chamado Gurupi. Taí, o nome estranho. Me disse que nunca descobrira um xará um tocaio. Também, parecia nome de praia ou de rio ou de árvore! E tinha, o senador Gurupi, uma filha de dezenove anos que queria ser acrobata ou malabarista ou equilibrista ou contorcionista ou duble de filme pornô.
            Um dia ela, de nome bonito Bituva, voltou para casa e pediu para namorar o palhaço do circo mambembe. Tomou uma sova de cinto que saiu lasca e criou bicho. Nem piou mais nada de sair de casa com o circo e andou na linha como uma cordeirinha.
            Hoje Bituva é a famosa prestigiada requisitada fonoaudióloga da cidade. Pratica ioga todos os dias pelas 6h e sol quando tem nos domingos deitada na varanda. Já adquiriu um apartamento já tudo pronto para mudar no bairro Sagrada Família no terceiro andar do prédio Arauá e um carro grande forte dessas camionetes 4x4 de fazendeiro de grandes propriedades na cor bege. Esse ano que passou fez férias de quinze dias em Recife Olinda Itamaracá Fernando de Noronha... com namorada familiares amigos colegas. Declarou para um jornal local que nem pretende comprar ou adquirir um imóvel um sítio próximo aqui mesmo da cidade universitária de São Sepé e isso “é só sensacionalismo da imprensa que nem tem nada que fazer e mais nada a declarar” segundo ela. Ela trabalha para algumas firmas da cidade e atende no endereço do escritório só marcando hora com a secretária a dona Ipeca.
                                                                       * **
            Eu tinha pressa de chegar e partir, pois ia a lugar nenhum. E se um dia for ao Amapá, Macapá, nem terei pressa de voltar. Se um dia for a Vale Verde e Passo do Sobrado sem pressa de voltar. Tenho pressa de ir, tenho ânsia de ficar, nem tenho pressa de retornar. Nem preciso retornar. Olho e mais olho na janela a paisagem trocando de fotografia. Ninguém me espera e eu nem espero ninguém. Os índios caxarari podem ainda pescar e caçar e coletar mel na natureza. Assim como nem procuro nada e coisa nenhuma.
                                                                       ***
            Um dia minha vinda depois de tantas idas e vindas estaria pronta. Um dia também Cananeia. Um dia, e também o Pico da Neblina.
            Acuriá, menina de cabelos longos e finos, um dia inventou um tal de: matar um jaboti de estimação. E disse para a família que fora acidente ou suicídio.
            O silêncio da borboleta amarela, mata atlântica, Aparados da Serra, a caminho do mar ou da beira-mar.
                                                                       ***
            O melhor cheiro era o da Cachara. O melhor cabelo era o da Saicanga.  O melhor vestido até os joelhos era o da Tabarana. O melhor sorriso clássico era o da Piapara. O melhor verde caía bem com a Caparari. O melhor peito, dupla de área dupla de zaga, era o da Mandubé. O melhor nariz era o da Apaiari. O melhor beijo ou mordida nos lábios era da Macaúba. E muito mais, o time inteiro, que eu sabia. Nem era fácil encontrar no mundo nariz tão belo e condicionado igual ou parecido como da Apaiari. Um nariz bonito é muito difícil. Um nariz conforme é muito valioso e perseguido e caro. Tem médico que só faz nariz, tem cliente que só pensa em definir o próprio nariz. Há narizes belos de belas em Belo Oriente em Belo Vale.
                                                                       ***
            Anil me contou que sempre amou alguém com ela. Depois, ou esquecia ou lembrava que tinha um segundo namorado. O segundo era o primeiro ou o terceiro. No terceiro eliminava os dois anteriores e os reservas. Um dia nem tinha ninguém para telefonar. Nem sabia que amava Jari no começo de tudo. Mas tinha impressão que amava alguém. Alguém quem? Nem, nem sabia quem.
E Anil começou a olhar para todos os lados em procura de caras e tipos novos. Procurava aquele que iria encontrar um dia por acaso. E quem sabe para sempre. Todavia passar por ele na saída dum som e nem se tocarem. Morar no mesmo bairro e nem se conhecerem. Viajar num ônibus e nem se encostarem.
            Ela tinha um corpinho elegante e tentador uns 50kg. Todos diziam que ela dava para os namorados, um de cada vez. Então, todos tiveram a sorte e o prazer. Teve vários namorados, o que era normal. Eu nem vi nada porque nessa época eu namorava a Cananeia e explorava sonhos com Enigmática.
            Enigmática era a minha flor e o meu sustento. Enigmática como essa flor lilás espontânea plantinha rasteira no meio do pasto natural do campo. Sacudida pelo vento, veja só. Molhada da garoa que passou rapidinha e fria já pela manhã. Um dia pouco frio e tal. Um pouco distante da primeira árvore mais alta. Naquela paisagem ali do potreiro, entende?!
            Enigmática, como se fosse uma borboleta tocada de vento. Muita graça de sobra, gentileza, vivacidade e extremosa mais, bem parecida. Com estilo para ser o que D apontasse de bom e de grátis.
            Ela, Enigmática, como se o futuro tivesse obrigação de ser perfeito. Ela tinha certeza do seu futuro perfeito, do presente amarrado em fita dourada, e eu também. E todos igualmente. Mas era estranho pesar isso na ideia isso comigo o tempo todo.
                                                                       ***
            E naquela manhã eu acordei aborrecido. Sabia já que o dia seria aborrecido enfadonho. E foi mesmo. Mas aborrecido sem dúvida era muito enfadonho.
            Um dia aborrecido era um dia sem nada para olhar. Um dia aborrecido era um dia longo demais. Um dia enfadonho era quando nem tinha aonde ir, nem tinha baile, nem tinha festa, nem tinha carro. Um dia enfadonho nem acontecia nada de muito bom e nem nada de muito bonita. E tudo acabava bem ao estilo do nada vezes nada.
                                                                       ***
            Metáforas de trens pelo mundo afora, piuiii! piuiii!... De barcos gaiola pelos rios da Amazônia rio Guaxupé rio Ganhamoroba rio Canumã rio Jutaí... Para dentro do Brasil já era muito. Um dia valerá a pena navegar aí. Quando eu for para Urucurituba. Quando eu visitar Itaberaba. Uma vez explorar Esmeraldas e Itabirito. Quando eu morar de frente pra praça 7 de Setembro em Dom Pedrito.
                                                                       ***
            Um vento me ultrapassou de leve. Graças ao verão quente. Um vento quente. Um vento do nordeste. Graças ao dia brilhante. Um vento leve e suave empurrando o araçá-de-coroa. Um vento até com cheiro de chuva mais à tardinha mais à vontade. Graças aos pintassilgos inquietos. Um vento com sabor úmido de terra vermelha e muito bem graças aos aiuruebas, ajajás, rendeiros, almas-de-gato...
                                                                       ***
            Uma outra coisa iria acontecer em breve. Ou já estava acontecendo. Enigmática, voz de guria bonita. Riso intocável. Riso cristalino. Jeito despojado. E a menina podia ser bela e criativa. E a menina tongalante podia ser sestrosa que tudo ia bem. Podia ser o primeiro aluno da classe que ninguém ia perceber.
                                                                       ***
            E o cão e o cão?, latiu, depois urrou, atrás do muro. Perto de onde passei, na calçada, do outro lado do muro encimado por cacos de garrafas arames farpados. Era um cão? Era um jacaré-de-papo-amarelo? Era uma sucuri com dor de garganta? Era um homem? Era um telenoticiário da noite? Era uma cachorra-da-palmeira?
                                                                       ***
            Então, uma pedrinha do Senhor me falou, chegando voando assaltando velocidade artificial duma atiradeira de dinhonhinho aloprado e de alma esgarçada sem rodeios:
            - Vossemecê nem poderá mais subir em árvore. Vossemecê nem poderá mais comprar um iate. Vossemecê nem poderá mais nadar no rio Retiro. Vossemecê nem poderá mais tocar violão. Vossemecê nem poderá mais ficar rico e poderoso e governador. Nem poderá mais ficar famoso ator e aparecer nos jornais e revistas e telas do país. Nem poderá mais transar com a top ten gaúcha. Nem poderá mais fazer o gol do campeonato. Nem poderá mais viver dois meses sequer no Munim. Vossemecê nem poderá mais conhecer os museus de Petrópolis. Vossemecê nem poderá mais compartilhar na tribo dos coripaco.
                                                                       ***
            Céu azul, que lindeza!
            A menina desatenta passeava com o cachorro na guia. O cachorro ia ela ia o cachorro parava. Ela só estava se concentrava no cachorro. O cão cachorro quando queria. Cão muito gordo resfolegante. O cão empacava na árvore ela puxava puxava sem o cachorro.
            O céu em cima, o sol amarelo, a terra embaixo com plantas dos tipos língua-de-teiú, pitaiaia, araçá-guaçu, pau-pereira-do-campo, breu-branco, cardo-da-praia... O céu em cima, o mato verde embaixo. O céu em cima, o sonho leve flanando. O céu em cima, a cerração branca embaixo no vale verde. O céu em cima, a beleza em todo lugar. O céu em cima, a mulher de barriga rasa e ancas estreitas e riso de águas limpas nas pedras. O céu que eu vi em cima, a viagem que eu revi embaixo. Vi e revi e trevi.
                                                                       ***
            Enigmática e sua sombra e meu lastro. Enigmática e seu rastro na areia. Enigmática e seu rastro no caminho das pedras. E sua cor de pele com tatuagem em árabe no braço direito. E seu riso claro e doce e bonito e açucarado. E seu rastro nos cadernos escolares. Enigmática e seus dedos de carinho e alisamento e veludo. E seu perfume de chegar e banho tomado. E sua música de rádio 7h. Enigmática e seu rastro de lua e estrelas. As formas aerodinâmicas de avião de cavalo de peixe de barco a vela.
            Foi a primeira vez.
            Enigmática tirando foto de língua de fora nas pedras do rio da Prata cascata da Usina.
                                                                       ***
            Meu tio Saguaçu, irmão mais velho do tio Urubici, sabia um segredo secreto só para si e ele mesmo. Meu bisavô materno Urubuqueçaba sabia um segredo secreto só dele mesmo e olhe lá. Minha irmã Turiaçu sabia um segredo secreto que guardava com ela a sete chaves. Meu avô materno Muru ainda sabia um segredo secreto muito dele particular que nem revelava jamais e nem revelou nunca mais. Minha amiga Paratari sabia um segredo secreto que nem dizia nem para seu melhor amigo ou melhor amiga nem para as paredes ou o espelho. Minha tia Tarauacá mantinha sadia um segredo secreto que jamais confessava mesmo sob tortura ou mesmo em sonhos ou delírios.
            Acho que escondiam. Todos escondiam. Todos tinham seus segredos secretos muito íntimos e escusos e bem guardados. Quem sabe segredos sabe? O segredo secreto exclusivo é trabalhoso. O grande grande mundo de cada um. E isso é um privilégio particular e próprio e intransferível.
                                                                       ***
            Como ser como ter se o caminho é fracassado? Esperando um milagre. Um exemplo: o rastro de fumaça de avião jumbo no céu azul. Uns exemplos: um beija-flor metálico pousado na janela. Uma manhã acordar e comer pitangas no quintal. Receber um telefonema de Grajaú. Presenteado com passagem de ida para Parati. Conhecer em paz o rio Paraíba do Sul. Muitos milagres num dia só ou numa caminhada só, é isso.
            Um ser um ter nem sabe que tamanho tem o mundo e seu próprio caminho, ainda. Uma formiga nem sabe o tamanho do muricizeiro. Um gato vira-lata nem sabe o tamanho do muro que divide o bairro São Cristóvão do bairro Basalto. Um besouro voa e nem alcança o seu tamanho numa semana. Uma história qualquer nem é a extensão do submundo íntimo e particular. Uma viagem a um país nem é a totalidade das férias de verão no país. Uma montanha mede um grão de areia. Um beijo demorado, por mais e mais doce que seja, nem tem o sabor de uma boca querida.
            E eu tentava me enquadrar, bocejava, e Enigmática só para os olhos.
                                                                       ***
            As coisas foram como que sem endereço nome de remetente e destinatário.
            Fazer as viagens pelo país. Que eu preciso ir. Que eu saiba. E como? E por quê? Deixar que eu fosse. Ia fazer e pronto! Simboralá! Terminar a minha regular e natural e comum viagem viajando muito.
            Eu aprendia muito devagarzinho, uma vez. Acontecem a sorte o mistério o nada as viagens.
            Nem sabia o que era pra mim, o que me esperava, o que acontecimento.
                                                                       ***
            As pessoas e coisas que conhecia brincavam e gostavam muito de brincar. Mearim gostava de brincar subindo numa árvore lá da casa dela, uma gameleira ou leiteira. Caçonde gostava de brincar de bicicleta pelas ruas do bairro da Santa Cruz. Bacopari, a de cabelos longos, brincava de se pentear diante de um espelho enorme na parede do seu quarto. Primo Muriaé brincava de moto o dia todo e parte da noite no baldio. Tio Papeba brincava de namorar as quengas da zona, e daí?! Maricá brincava com tatuagens na panturrilha, na virilha, nos ombros. A Tabuba brincava de boneca para saber, num futuro próximo, lidar melhor com seus filhinhos e filhotes. A Bacopari também brincava de saci quando lembrava o jogo da sapata.
O primo Muriaé caiu de moto no posto de gasolina engoliu um ferro retorcido abriu o peito de alto a baixo os órgãos à mostra rezando no limite durante quinze dias e noites e dizia no sonho dai-me o santo-daime auasca iagê mariri do caapi da chacrona.
                                                                       ***
            Mas eu precisava dizer outra coisa: viajar e me ver por lá, entende?! Parava quem sabe num lugar muito conhecido da cidade famoso cartão-postal e diria mesmo para mim somente eu estou aqui em Mucugê que coisa boa vem me acontecendo e nem posso acreditar.
                                                                       ***
            Foi um dia tal ontem. Meu avô paterno, avô Caparaó, sumiu. Eu nem estava presente, inda bem.
Eles no almoço de domingo ele comia um dos seus pratos prediletos: costelinhas de porco com polenta e vinho branco de garrafão seco de mesa. Primeiro, todos os presentes à mesa riam por qualquer motivo riam sem vergonha. E contavam causos, falavam de aventuras, pinturas, arquiteturas, governadores eleitos, preços da cesta básica, novos tempos e outros tempos, etc., riam e levavam o almoço de domingo numa boa, e levavam o mundo nem muito a sério nem muito ao oriente nem muito ao norte.
            - Pagar adiantado nem dá graça beber - falou o meu tio Ibijaú.
            - Concordo que pagar antes para beber depois nem dá graça, meu - disse o meu tio Marabá.
            - Pagar de primeira para só então beber em segunda estância nem pensar - declarou à mesa meu tio Muliterno.
            - Pagar por pagar e meio só depois da saideira, é - colaborou meu tio Araú.
Aí, meu avô entortou a boca, esqueceu a costelinha que segurava largou e olhou desesperado para o lado da janela aberta o quintal dos araticuns-folha-de-salgueiro. Então, o pessoal calou completamente e beiços lambuzados. Um barulho de talher caindo no chão, pi-pi-lim!... Cadeiras arrastadas para trás. E ainda assombravam todos qual que era. Então, todos correram para acompanhar o velho na descida lenta até o chão. E todos já choravam, quase todos já gritavam, muitos nem se davam conta, muitos nem sabiam o que fazer, muitos nem terminaram de mastigar o que tentavam engolir.
            Nem devo explicar tudo que ocorreu. Isso de sumir de desaparecer é horrível de se falar e de vai fazer o quê. E é feio de se ver. Acho o fim da picada... bem, esquece, e deixa pra lá, deixamos pra lá todos nós de uma vez para até quando e pronto.
                                                                       ***
            A professora de português do NSAparecida, dona ou senhorinha Taguara, tinha uma mania diferente, por enquanto naquela data altura do tempo, e que eu concordava e discordava. Queria que se lesse a redação ali mesmo em sala de aula, na presença dos colegas. Eu li minha redação de fantasia.
            Era uma história comprida que nascia crescia e nem acabava nunca mais... Os aventureiros iam por um país do tempo do Brasil Colônia, se nem me engano... Iam buscar ouro ou apresar índios ou paragens de nomes tupi-guarani assim nos moldes das entradas e bandeiras...
Mas eu fiquei pensando, todo o tempo da leitura, o que os outros estavam pensando de mim. Principalmente, o que Enigmática estava pensando em mim. E, então, achava que me perdia em mim de mim mesmo.
Fora um texto muito doido que perdia personagens no mato e ia buscá-los encontrá-los na cidade. Emendei loucuras e outras coisas absurdas para acabar nem dizendo lacunas quem morreu no final. O pessoal nem opinou, o pessoal nem disse nada, o pessoal ficou no aconchego do quieto, a professora passou adiante. E a Enigmática eu nem ouvi dizer se ela estava em sala e por que só eu que respirava. Se eu chegasse cedo na rodoviária pegaria sem demora um ônibus para conheça Sena Madureira. Dizem se eu começar aqui e fizer um buraco comprido o bastante vou sair no tatu-bola.
            Nem gostava de me parecer assim aparecer tão anônimo e surreal e pegando fogo pelas orelhas.
                                                                       ***
            Troquei o horário da farmácia. Em diante trabalharia no período da manhã até as duas da tarde. Assim poderia estudar à noite. Estudar à noite? Ir pra aula à noite, entende?! Ver Enigmática, guria líquida e vaporosa e sólida.
            Enigmática, a que jamais será repetida. A que jamais será minha namorada. A que jamais será feliz, ainda bem, bem feito.
                                                                       ***
            Foi aí que apareceu um daqueles dias que... sinceramente...
            Tudo estava mais ou menos bem. O professor de História do Brasil Colônia gazeteara. Então, a gente estava na sala só conversando, fazendo hora, até a próxima aula que seria o estudo da geografia.
            Um instante de bobeira é o que basta, nem?! Só um segundo de tonteira. Um relâmpago mais fundo de burrice ou de surdez da minha parte. Foi tudo sem pensar, sem que eu pudesse ver ou pressentir. Aconteceu, pronto, passou. Abanar para trás e nadar para frente.
            Assim eu vi a Mongaguá muito linda, muito lenda, muito toda toda desfilar pela minha frente. Nem resisti. Foi um impulso. Foi um momentinho de perda de consciência, de muito nervosismo, um zunido no cérebro, tiiiim!... Eu então passei a mão na bunda da Mongaguá. E pra quê, meu!
            Eu me olhei e me vi todo perdido no vexame. Nem acreditei que eu era eu. Veio o trem com tudo apitos velocidade dimensões e eu preso acorrentado nos trilhos e o resto já se sabe.
            Aí, todo mundo parou o que estava fazendo, se fez um silêncio muito maior que precisava, e todos ouviram a Mongaguá repetir aquele berro e mais os destroços de desaforos. O silêncio de toda a turma e os berros com desabafos e desaforos da Mongaguá, é. Eu nem sabia o que fazer e nem fiz nada. O que fazer? Enjoo total. Aguente.
            Temos um trem de carga e de passageiros também que parte na manhã de Vitória e chega na mesma noite de Belô. Eu adoro esse trem. Um dia vou nesse trem.
            O Itaqui, que parecia ter um interesse pela Mongaguá, veio ao meu encontro, alerta ligado, me intimando:
            - Que que tu qué, oh, seu doido?!
            E a ida do trem que parte sai de Rio Grande e vai pelo mapa do extremo sul até Uruguaiana atravessa a ponte sobre o rio Uruguai entra na Argentina. Durante a viagem muitas estações atrações típicas e folclóricas e nativas. Meu primo tal foi com mulher e filhos e cachorro e me recomenda já que eu sempre pretendo atingir os mais e mais horizontes.
            Porque eu estava acuado, perdido. E outras coisas que nem é bom relembrar. Perdido e também despossuído descaracterizado. Sem saída. E nem sei por que, talvez por nojo de mim mesmo, cuspi na cara do Itaqui. Por que cuspir? Mas pra quê, meu!
            Assim, então, o Itaqui veio com tudo. Muito mais forte que eu, estava claro. Nem era só ele nem, a turma toda, a vespa da Mongaguá, a minha consciência, tudo e todos. Mas o Itaqui chegou primeiro, ou pelo menos com mais presença. E ele me segurou pelo pescoço. Acho que queria me transformar mesmo no etê de Varginha. Eu senti isso e gelei. Tentei me desvencilhar. Por enquanto nem era possível. Esperneei. Esperneei como uma barata de pernas para o ar e pronta para ser esmagada. Eu nem tinha um pingo de razão um pingo de sangue para me defender. Esbugalhei. Eu nem tinha um pingo de adrenalina de iniciativa para fugir. Vi o meu fim chegando no prisioneiro no foragido mais procurado do país. Nem sei como consegui me soltar. Escorreguei no chão como uma gelatina como uma coisa irrisória. Mongaguá até chorava as lágrimas salgadas saltando dos olhos borrados e suspiros e uivos altos e baixos com a boca aberta os olhos bem esbugalhados as unhas em atitude.
            Acho que alguém falou isso aí, uma guria, nem seria a Enigmática, e por que tinha de ser logo ela, seria muito vexatório, com certeza foi uma outra e sem notificação sem relação com minha alma desqualificada desajustada:
            - Inadequado! Porém, isso foi inadequado!
            Tem outra que inventaram por esses poucos tempos agora que parte do Guaíba de remo ou no motor mesmo e pega o Jacuí sobe o Carreiro até dar pé. É como se fosse o tempo dos pioneiros imigrantes, nem é? Embora as cidades no caminho os gps’s e tudo mais, mas enfim, né?!
            E, então, eu corri para a porta quede a porta. A porta estava muito longe e atrapalhada com carteiras e outros ex-colegas-camaradas. É, eu nem conseguiria chegar lá antes de todo mundo, antes de ser preso, antes do fim dos tempos, antes de Cristo, ou do anticristo. Assim, voltei. No que voltei, enganei todos eles por acaso. E rumei de vereda para uma janela. Ah!, eles jamais poderiam pensar que meu interesse era pular a janela. E fui no rumo da janela mais perto mais colateral. Eu tinha coragem de pular a janela? A janela estava providencialmente aberta pelo destino pela lógica do verão. Que cada um tem o seu destino as suas estações! Nem pensei muito bem, mas sabia que teria de salvar minha pele sem tatuagens sem pingentes. Eu merecia? Portanto, dei uma de macaco-prego desesperado ou morcego frugívoro. Me joguei pela janela. Pulei da janela. Era o segundo andar. O começo do planeta Terra? Voei pela janela. Noite bela de verão? Voei sem guarda-chuva. Principalmente, caí janela abaixo como um joão-bobo mais pesado que o ar. Como um caxinguelê sem asas.
            E ainda bem que caxinguelê nem era nem mastozoário.
            Voei num rápido voo como do nambu. E caí no chão, passando antes pelo meio dos galhos de uma bacuri e galhos e espinhos de um espinheiro-bravo. Os espinhos seguraram um pouco a minha queda, e também me esfolaram pelo corpo todo. Atravessei a galharia do espinheiro-bravo. E todo estropiado. E caí mesmo no chão com um baque, to-que!...
Sem perda de tempo, sorte em risco, alma esfolada, saí para a rua Bom Jesus bem atrás do prédio escolar. Aí, eu já corria mancando. Fiz o que pude para sair fora, meio manquitolando e tal. Me arrastando. Me afastando.  Me coçando. Me repensando nos meus objetivos em esse mundo. De longe em longe olhava para trás. Meu esconderijo na serra do Rio do Rastro país dos aracadaini nem seria descoberto em tempo algum ainda bem.
Quando morrer e voltar quero retornar um ipecuá ou maracajá-peludo ou pereiro-da-serra ou as opções são muitas e o universo grande o bastante, pensei.
                                                                       ***
            Estávamos na avenida Placidina de Araújo bonita e confortável rua da cidade dos neopratenses com ipês-amarelos e ipês-roxos beirando as calçadas. Eu e... dona Tatajuba, esposa do seu Tambaú e mãe de cinco filhos em escadinha cronológica... (Este sonho tirei nem sei de onde, sonhei e pronto; que coisa!). Tatajuba se queixava que carecia de umas fotocópias quaisquer. Eu disse:
            - Deixa comigo. Te ajudo. Deixa que eu bato. Te arranjo. Deixa comigo e nem abro.
            Então, entramos na casa de um parente dela. Que seria, talvez, a mãe ou uma irmã, nem deu pra ver. E eu fui lavar as mãos. Na volta nem vi mais a dita cuja e procurei a dona Tatajuba por tudo que era lugar da casa e nada. Procurei e reprocurei. Enfim, por fim, resolvi escrever um bilhete com as anotações dos procedimentos que ela deveria fazer para conseguir as tais e quais fotocópias. Mas aí, incrível, nem consegui encontrar papel e caneta. E procurei, reprocurei troquei em vão pelos mais de cem canais da televisão...
                                                                       ***
            Pensava, pensava que comparecendo às aulas perto dela, a Enigmática, minha autoestima se desgraçasse e tudo se acalmaria, e eu pronto a esqueceria. Engano. Perto dela, todos os dias da semana, minha admiração cresceu tudo que podia. Uma esperança atrás de outra e de otário em otário fui inchando. Achava até que ficava bobo muito mais que já era. E fiquei mais.
            Enigmática era também significado de limpeza, azul, higiene, água corrente, água de pedra, água de montanha, água da chuva, cascata caindo da montanha num dia claro, céu de cristal, fotografia em alta definição. E principalmente ela nem tinha namorado, ainda.
            - Você já ouviu falar dos suruí-paíter?
            Ver a Enigmática de perto foi um susto. Uma paralisação nos neurônios. No mundo também. Olhar a cor dos olhos, o cheiro do cabelo e de todo o corpo, o hálito de jabuticaba na chuva, medir a altura, empurrar com os ombros. Ver de perto. Ver todos os dias. Ver ouvir e fingir nem olhar.
            Enigmática quase sempre chegava de cabelos úmidos, bolsa a tiracolo, calça comprida desbotada, camisetinha com umbigo. No inverno de touca e cachecol só com o focinho de fora.
            - Será que um dia é pouco para visitar Buriti Alegre?
            Eu a espiava. Eu a inspirava. Claro, no que podia. Sempre em silêncio. Como secreta. Como espião mesmo. Pelas costas. Assim como numa espécie de traição. De traição era melhor.
            Se eu me achava e me comportava muito tímido perto dela. Será que era por ter pintado o dragão com muitas cores, com todas as cores do arco-íris, com muitas lendas, com lendas de outras eras, com cavernas profundas, histórias de guerras entre nações, chamas pelas ventas?
            Impressionante, mas perto dela nem sabia o que fazer. O que pensar? O que dizer? Nem fazia nada, então. Eu era, sim, um belo tracajá. E meu sorriso era de piramboia, pronto, falei.
            Eu olhava para ela bem de perto. De perto. E reparava os detalhes. Como um diamante que nem acabava nunca. Que brilha sempre. Que cobiça os olhos. Uma pedra que muda de cor conforme. Uma pedra igual uma estrela que nunca vi de perto. Uma passarela que vira biografia e nem nunca mais lembrará da gente.
            - Você já pensou... Eu já pensei em nascer todos os dias em a de Ibirama.
            Uma noite, saída do colégio NSAparecida, chovia mais que o necessário e ficamos ilhados debaixo da marquise. Uns esperando que chegasse a carona, outros que a chuva acalmasse. Era bom. Eu olhando para ela. Fiquei atrás de todos, reservado, olhando pelas costas como um traidor. Era bom olhar. Ela olhava a chuva, a rua em frente Princesa Isabel alagada, a enxurrada descendo a rua Princesa Isabel, conferia o relógio de pulso com mostrador grande luminoso. Era noite boa. Daí fazia uns passos, abraçada aos livros, chegou até a me olhar, mas nem disse nada, nem falou com ninguém, abraçada a si mesma e com os cadernos, frustrada com o tempo ali empatada. Se virou para trás uma vez rapidamente me olhou me questionou me puxou me sorriu me contou narrou uma história falou altos papos e nem disse nada.
                                                                       ***
            Pirapama me agarrou na escada, antes de subirmos para a sala de aula, ainda no intervalo:
            - Vamos ao cinema? Filme bárbaro, meu!
            Eu parei e pensei. Pensava o quê, meu?! Oportunidade, meu! É a Pirapama, meu! Tá favorável, cara pintada!
            E Pirapama era casada com um conhecido meu. Me segurou na escada. Eu nem sabia se eram casados ou ajuntados ou namorados ou separados ou ficados. E nem perguntei essas coisas abichornantes. Compramos uns dois cartuchos de amendoim. Havia pouca gente, nem havia pipoca, muita gente? Era uma quarta-feira no meio das aulas de contabilidade e o cinema às moscas apresentava um filme de terror.
                                                                       ***
            Um dia calmo, novo e por quê. Um sol inclemente. Ainda começando. E depois, mais nem sabia.
            Quem vê, pensa!
  

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