domingo, 19 de janeiro de 2020

Minhas Tardes com o Avô (juvenil)




Segunda Parte

            A guria Lilás foi bater o ponto. Visitar o avô era sua melhor ideia na tarde de sol, pelas tardes de sol.
            O avô ainda estava lá por dentro. O avô tossiu arrastando as chinelas de couro preto fechadas na frente, assim assim. O avô apareceu e se sentou na cadeira de balanço de vime. Suspirou sentou olhou, a menina comendo uvas brancas, olhou o céu azul, etc, barba por fazer, óculos de grau caindo na ponta do nariz.
            Sol forte acostumado com azul.
            Lá do outro lado lá longinho, o encontro de guamirins angicos paineiras etc jerivás imburanas-de-cambão jequitibás-de-agulheiro caxindubas fazendo um capão de mato.
            O mês tinha um apelido, janeiro, a semana uma filha, terça-feira, a filha olhou a idade, umas dezesseis horas e vinte minutos.
            Pois o que não se faz no sábado domingo se faz na segunda-feira, e se espera.
            O tempo parecia passar depressa. Mas o tempo passa como bem entende. O vento é dono do tempo? Esse vento que levava para pastar algumas nuvens irregulares esquecidas nos cantos do céu azul-claro. O vento que passava sobre a chacrinha do avô da menina Lilás. O vento e o rio são parentes. O vento veio primeiro. O tempo o vento o rio são sócios e parentes. O loro Loló telefonava para os amigos de Montanhas: “Oi! Aqui é de Estância, é. Em Estância está muito quente e quentíssimo.” O avô falou ou destravou:
            - Tupã trovejou, roncou de detrás duma nuvem branca, a seguinte ordem ao seu dileto filho Jesus: “Jesus, vá e construa um trampolim ali no pátio do barraco e mergulhe.” Jesus, claro, ficou na dúvida, muito preocupado e retrucou, e por isso retrucou: “Mas, Pai, ali não há água! Ali não temos uma piscina, um açude, um olho d’água, uma sanga! Ali só há pedras soltas e pó! Por que um trampolim? E, principalmente, por que pular do trampolim?” Deus comandou outra vez com voz grossa de chefe: “Parece que você não entendeu, Jesus. Eu estou lhe mandando construir um trampolim, construa o trampolim e salte!” Então, Jesus foi fazer o trampolim para ele próprio saltar no seco.
            - Contra a vontade, né?! Talvez já ressabiado, e já sabendo que ia se esfolar todo.
            - Com a ajuda dos irmãos, Jesus arrumou taquaris e galhos e cordas e uma prancha até concretizar o trampolim. Concretizou o trampolim. Um elefante branco.
            - Elefante branco ou trampolim, vô?
            - Os dois num só. E acho que tinha a altura de um prédio de quatro andares. Então, quando Deus viu, espiando lá de cima, que o trampolim já estava prontinho, Ele falou ordenando: “Jesus, agora já que construiu o negócio todo você vai lá no topo e pule, mergulhe, se apinche. Pule como se pulasse numa piscina cheia de água, como se pulasse num açude, como se pulasse num colchão de molas, num colchão elástico. Pule de ponta cabeça como se pulasse de bung jump.”
            - Nossa! Jesus se arrebentaria todo! E Jesus aceitou arriscar?
            - Aí, Jesus ficou preocupadíssimo. Mas foi, era uma ordem, teve que se resignar e ir. Se despediu do irmão Curupira, se despediu do irmão Buda e se despediu da querida irmã Sheherazade, a esmaltosa. Sim, porque ele Jesus pensava que ia mesmo morrer e se separar dos irmãos.
            - E quando ele chegou no alto, vô, e olhou pra baixo? Será que sentiu um frio por todo no corpo, vô? Um arrepio que começava nas pernas e vinha subindo? Quatro andares é o bastante, vô!
            - Devia ser abichornante. Era duro, mas era queijo. Bem, aí então, Jesus pegou, olhou o céu, deserto àquela hora da tarde, se encheu de coragem até onde pôde, estufou o peito magro, respirou mais fundo, encheu o peito e se jogou, lá de cima, como se mergulhasse numa piscina, como se pulasse no sofá da sala, como se pulasse na cama, como se pulasse num monte de pasto seco. Um monte de feno sem feno algum, é claro. Assim quis Alá.
            - Pra que maltratar com o menino? Pra que esses testes perigosos? Pra que fazer testes, estudar, vencer na vida e ser a primeira? Por que arriscar perder?
            - Assim, então, Jesus se pinchou de lá e caiu, tofe!... no chão, levantando poeira. Se quebrou todo. Quando a poeira baixou, os irmãos recolheram Jesus. Jesus estava com um calombo no queixo, escorria baba da boca, estava tonto do solavanco, desmaiado da pancada, aniquilado pelo vexame.
            - Mas, pra compensar, os divinos são imortais e não sentem nada nada. Foi mais ou menos um susto, só um susto.
            - Foi mesmo. E vinte dias depois, mal cicatrizado, Jesus foi e viajou à floresta de taquaras onde vivia em retiro o seu padrinho predileto, o senhor Confúcio. Chegando lá, Jesus lhe contou a história e lhe pediu explicação e conselho. Confúcio nem abriu a boca. O padrinho Confúcio não disse meia água. Nem mímica. Nem música. Nem linguagem dos sinais.
            - Não disse nada nada? Nem para consolar o menino divino?
            - Pra falar sério, Confúcio só fez assim, uma espécie de riso amarelo e silencioso... Olhou os próprios nós dos dedos, a palma das mãos, a sola dos pés. E mais nada nada mais, é. Nem ficou olhando as cicatrizes do menino divino. Confúcio não foi nada carinhoso com seu afilhado predileto. Não foi carinhoso, aparentemente.
            - Vovô! O que é o presente? E o futuro?
            - Para ter futuro é preciso ter presente. Para ter presente é preciso ter passado. Tendo passado você terá presente e futuro. Que presente você gostaria de ganhar no aniversário?
            - Eu quero ganhar de presente... uma viagem até Fortaleza, ou Belém, ou Oiapoque, ou ilha Itacuruçá. 
            Lilás era uma menina que adorava andar no sol das manhãs, tomar sorvete, dizer coisas atropeladas, subir em árvores e agarrar as frutas, viajar de trem, conhecer o zoológico de Sapucaia do Sul, navegar no Guaíba, folhear livros de dinos, procurar lagos e lagoas na internet. Lilás, como sempre, gostava de ir aos domingos no sítio do avô. Subia em árvores, comia laranjas, cajus, abios. Ela gostava do sítio, que tinha muita jabuticabeira e araçazeiro e guabirobeira. As pitangueiras eram perto de um pequeno açude. O açude tinha uns peixes incidentais que, de vez em vez, cruzavam por dentro da transparência da água, charutinhos, bagres, traíras, lambaris, cascudos. 
            O asno Tapiti, esfregando a barriga no pé-de-bugre, zurrava, zuoooh!... triste-alegre. Depois de cheio o pantufo, depois de bem alimentado, a preocupação lá dele já passava.
            - Por que Tapiti ri e chora ao mesmo tempo, vô?
            - Porque tem dó de mim, dó de ti, etc.
            - Dó?! Dó ré mi fá lá si dó?
            O céu não segurava nenhuma nuvem naquele exato momento. E o avô se lembrou. Uns passos à frente, menina e avô, podiam ver e ouvir a azedinha cheirando com suas frutinhas amarelas. Três quatro cinco curicacas tagarelas tagarelando cruzavam o espaço aéreo da chácara, todas com os seus próprios bicos amarelos e longos e curvos. O avô, pregou:
            - Naquele dia, Alá gritou para Buda, chamando-o: “Buda, meu filho!” E Buda correu a atender. Tupã lhe disse, sempre sumido entre nuvens: “Vá à vila e me roube dois quilos de pequis maduros.” Buda ficou perturbado, com uma enorme interrogação no alto da cabeça. Deus reafirmou a ordem: “Vá e roube dois quilos de pequis maduros!”
            - Roubar não é legal, né, vô?! E por que Deus e Pai inventa essas pegadinhas pros seus diletos e divinos filhos, hein?! Ah!, já sei, os tais testes.
            - Então é. Mesmo assim, e até por isso mesmo, Buda teve que ir. E foi. E chegou ao mercado Ver-o-Peso. Procurou pelos tais pequis maduros. Olhou de ponta a ponta aquelas muitas barracas. Encontrou as frutinhas descansando numa caixa de madeira e mandou pesá-las uma quantia. Quando foi naquela hora de pagar, Buda agarrou os dois quilinhos de pequis e disparou, saiu correndo sem olhar para trás. O lugar era sempre muito frequentado, um formigueiro humano em meio de variedade de amostras de mercadorias e cheiros.
            - Pernas a todo vapor, né?! Fugiu pra onde, nesse tumulto?
            - O comerciante apitou lá um código deles feirantes e então toda a feira ficou pra pegar o gatuno. Que que é isso! Pobre Buda, ficou cercado. Veio a polícia. Buda tentou se esconder numa igreja triangular. Foi visto entrar e a polícia cercou o prédio. Buda teve que se entregar debaixo do maior vexame e debaixo da maior vaia. Antes e durante a operação, nossa! como levou de empurrões, e de não sei o quê. A polícia o deixou duas horas, quase um dia, a ver o sol quadrado, aprendendo a jogar xadrez. Buda até chegou a vomitar. Uma vergonha.
            - E por quê? Somente por causa de um teste patriarcal e altíssimo.
            - Buda foi solto e naquele dia seguinte. E foi tirar um tempinho lá debaixo do seu umbu centenário. Ali tentou tirar uma soneca. Não pôde. Tentou conversar consigo mesmo e só saíram desculpas esfarrapadas. Seu coração grande e bonito estava cheio de remorsos, frustrações, vazios e questões irrespondíveis. Pegou, se ergueu e foi visitar seu padrinho predileto, o Brama. Contou o caso ao padrinho, foi contando tintim por tintim. E esse gozador riu, rã rã rã!... ri ri ri!... eh eh eh!... ah ah ah!... Até vomitou, de tanto que riu às custas de Buda.
            - Que estranho, né?! Rir tanto e sem cabimento da péssima sorte do afilhado. O padrinho Brama, padrinho esse lá do Buda, entendia de aconselhar futuro?
            - E olhe que era o afilhado predileto, imagine se não fosse. Mas Brama era assim mesmo. Já era assim antes do mundo se formar e adquirir esses mistérios todos que andam por aí. Brama não mudou de lá pra cá. E Buda também quase já o entendia perfeitamente. Buda, quer saber?, já gostava muito do seu dileto padrinho Brama.
            Aí, o avô olhou seus petrechos de chimarrão, não viu. A Lilás olhou o De Flecha quase parando ali na grama do pátio, nem te ligo. O avô olhou o clima no tempo da tarde, bocejou. A menina olhou o avô, ajeitou com a mão os cabelos e tascou:
            - Por que o universo não tem pé nem cabeça, ou seja, vô, não tem fim e não tem começo?
            - Eu queria responder e não respondo. Eu queria saber e não imagino - disse, meio chateado consigo mesmo, e chateado com a dúvida.
            - E por que o universo é enfeitado no ar? Tipo assim como com bolas de cores pendentes dos galhos da árvore de natal? Aliás, não concordo!
            - Vai saber um dia? - respondeu perguntando o avô.
            O avô mandou um recado, um pedido, um faz favor para o interior da casa. Pediu mais água quente para o mate-amargo. O gavião-carijó guinchou circulando no espaço, o bem-te-vi noticiou, as tesoureiras se prepararam para a guerra, Coronel avisou a república. Logo chegou uma garrafa térmica cheinha. A vaca malhada Vaquinha saiu andando e provando e mastigando as folhas perfumadas da pitangueira. E o avô continuou a contar desse jeito assim dele:
            - Pelo ano mil, então, Deus apareceu com sua voz potente lá por trás da nuvem de ouro. E trovejou, e ribombou, e reboou, e atroou, e tronou esse recado para a caludosa Sheherazade: “Minha filha! Vista-se de penas, e empreste penas de garça-branca, asas de pato-do-banhado, pés de tachã, bico de colhereiro e se prepare para voar. Preparada? Aí, então, voe!...” A calmosa Sheherazade não entendeu, é claro. Ficou na dúvida e olhou em volta. Olhou os irmãos que também perdiam os sentidos e direções, perdiam o sossego. O irmão Curupira opinou: “Tupã, o trovão, quer ver se você sabe nadar no azul do céu, talvez.” E o irmão Jesus: “Nosso Pai quer saber se você tá pronta para sair de anjo no fim do ano, quem sabe.” E o irmão Buda: “Alá pretende testar teus pulmões, acredito.” Mas tudo isso só acelerou o coração da pequena sorrisosa Sheherazade. E ela respirou fundo para poder, tum! tum! tum!... engolir a emoção.
            - E Sheherazade, a econômica, obedeceu, claro?!
            - A meninosa Sheherazade fez o que lhe foi ordenado pelo Superpai. Pegou e se empenou, pegou e se encheu de apetrechos de voo, pegou e se asou, pegou e calçou os pés de pato da tetéu e pegou e se preparou para voar. Bateu asas e tentou. E tentou e bateu asas até cansar muito. Doíam os braços, acha o quê! E tentou tentou bastante. Foi daí para o capãozinho e escolheu uma árvore bem grande. Uma massarandubeira? Era um jerivá. Uma taperabá. Subiu bem no alto. Uma paineira? Olhou de lá de cima e teve um pressentimento. Se preparou para pular, ou para voar, ou para agradar ao seu Pai Todo-Poderoso. Pulou e tentou bater as asas... Caiu de bico aberto no chão, taque!...
            - A atentosa Sheherazade achou o seu fim? Achou o seu início? Teve certeza absoluta que era imortal e divina?
            - Como foi fácil adivinhar, Sheherazade, a tatuosa, era muito mais pesada que o ar, na ocasião, e chegou ao solo com desvantagem pra ela. Sim, descobriu que era dura de morrer. Que as partes doíam. Descobriu que ela e seus irmãos eram imortais, mas ainda não faziam milagres.
            - Imortais. E ainda são até hoje, garanto.
            - Eu não disse? Com certeza, Lilás. Daí, mesmo assim, a tranquilosa Sheherazade ficou desconsolada e emburrada. Não falou com mais ninguém por duas horas. Aí, subiu ao seu predileto telhado de sapé ou santa-fé para repensar a vida esportiva que levava.  E logo logo aproveitou e foi trocar confidências com sua madrinha Iara. E as duas trocaram um diálogo no oco do jequitibá antigo, perto dum rio comprido. A madrinha Iara contou uma história do tempo que os animais viviam no potreiro do céu... do tempo que as pedras tinham coração... do tempo que os filósofos empinavam pandorgas... do tempo que as zabelinhas brincavam de esconde-esconde entre os aguapés... do tempo que o vento não media o tempo... do tempo do teatro na praça... do tempo do brinquedo do pula-corda... E quando contava as suas histórias, durante o contar de suas lendas, a madrinha Iara botava o olhar no sem fim dos pontos e não parava mais. Para além do rio Araguaia e algumas montanhas brancas ou azuis do país... Numa região recortada de rios bons, existia pequeno país que era governado por um cacique enfeitado de penas de harpia, armado de tacape, justo, poderoso, chamado...

***

            A Lilás chegou e já foi se sentando no banquinho de três pernas. Muito junto do avô. Cotovelos nos joelhos e mãos segurando o rosto.
            O sol forte. Chuva não vinha. O vento soprava o que podia.
            Nuvem com cara de caravela, nuvem com cara de música, nuvem com cara de formiga, nuvem com cara de dinossauro. O melhor e mais bonito eram nuvens com cara de bicho doméstico cachorro gato pato galinha.
            Lilás menina doce, o azul do dia, chamados de joão-de-barro.
            Passeriforme, a ave olhava de lado, o dançador-de-crista mirava revirando a cabeça, observando de soslaio.
            Desfilavam nuvens incríveis de outro planeta de outra galáxia.
            Vovô fez com o dedo e soprou, psiu!... para a menina Lilás. A menina viu e escutou, obedeceu. O avô fez que reparava uma coisa no ar com o ouvido. Escutaram: era uma belezinha de casal de canários-da-terra que cantava. Um canto de sabor de mel de abelha no verão. E a menina Lilás escutou, gostou. E o casal de aladinhos voou de mãos dadas por ali no terreiro. Se passou um tempo de passarinho. Se jogaram no pó do terreiro muito descontraídos e íntimos. Aí, o casal foi cantar e namorar noutra freguesia. Ajudado pela família, Coronel ciscava as folhas secas debaixo da laranjeira vermelha. O avô pôde continuar o reconto:
            - Um dia o anjo-correio apareceu de surpresa na palhoça dos três meninos irmãos e da menina irmã e ordenou, dando um recado que era, claro, de Deus: “Vão ao leilão de gado vacum e lá arrematem o bezerro.” Os irmãos perguntaram de bate-pronto: “Que bezerro? Por que um bezerro? Para que um bezerro? Não é um terneiro?” O anjo não disse mais nada. Pegou e sumiu, pife!... no ar. Desta vez nem se dignou voar, de tanta que era a pressa. Se teletransportou, se pulverizou, se evaporou, ou sei lá, num passe de mágica, para o cosmo azul de cima.
            - Uma reticência... Então, outro mistério enigmático.
            - Então, eu digo: pois é. Aí, os três irmãos e mais a irmã foram lá na exposição agropecuária de Esteio e arremataram o bezerro. Um bezerro que eles acharam legal, que lhes pareceu bom, que podia ser um bicho de estimação, por acaso. Custou todo o dinheiro que levavam, que não era lá muito, talvez quase nada, seus dinheirinhos. E o terneiro veio junto. E o bezerro foi tratado com zelo e admiração e pão-de-ló. E o bezerro estava em idade de crescimento. Virou um touro de estimação, um touro alado do bumba-meu-boi, um touro encantado da lenda. Uma manhã os irmãos e a irmã acordaram e... que dê o tourinho chimarrão? Havia sumido. É ou não é uma maravilha?! Assim quis Alá, o Magnífico.
            - Não tinha nome o tourinho chimarrão, vô? O tempo passou assim depressa, como um foguete a jato?
            - Um nome... acho... não sei ao certo... O nome mesmo dele era Garantido, talvez. Garantido o nome, vermelho a cor do pelo. E assim tiveram que procurar o paradeiro do boizinho, ora.
            Lilás já teve ou gostaria de ter peixe de aquário? Peixes emplumados, com penas leves, verdes, vermelhas, azuis? Peixes da Amazônia, dos rios ou igarapés? Peixes que fazem voltinhas no aquário, que fazem beicinhos, que dão adeusinhos, pintados de cores metálicas, transparentes, luminosos e que comem poeira?
            - Avô. Noite passada que sonhei que era uma árvore plantada. Que árvore? Ainda não sei. Não me lembro direito, não percebi direito, não olhei direito pra mim lá na hora. Só sei que eu era uma planta das grandes e altas. Plantada aqui mesmo no quintal do nosso pátio. Talvez uma pitangueira, uma ituá, uma pente-de-macaco, uma aroeira. E os passarinhos felizes vinham pousar e repousar e pousavam nos meus braços. Bicavam e comiam os meus cabelos. Aí, começou uma chuva, passei frio e o vento que vinha de lá, da banda de lá...
            O avô sorvia o chima, cada sorvo bem quente e medido, olhava a paisagem, na boa. Prosseguiu na sua própria história contada. Gavião-belo rondando o espaço, a sombra correndo no chão. Loló mandava uma telemensagem aos caras de Arapoema: “Oi! Aqui é de Mar Vermelho, é. Em Mar Vermelho está muito quente e quentíssimo.” O avô contava o causo:
            - O boi sumira e não dissera para onde. Buda, Curupira, Jesus e a silenciosa Sheherazade, os três irmãos e a irmã, saíram a procurá-lo, procurá-lo.
            - Mas é um mundão sem porteira...  Um mundo que ainda não foi feito, vô! Um mundão que Deus dá!
            - É ou não é uma maravilha?! Justamente. Praticamente. Eternamente. E percorreram muitos países, viveram mil e uma experiências, cruzaram os oceanos, os hemisférios, as latitudes, as longitudes, as altitudes. Foi difícil e ao mesmo tempo proveitoso. Cruzaram pontes famosas. Cruzaram pontes famosas de rios famosos. Cruzaram pontes famosas de rios famosos que banhavam cidades famosas.  Cruzaram pontes de rios que banhavam cidades em países famosos. Deus assim quis. De repente voltavam uma ponte, voltavam um rio, voltavam uma cidade. Voltavam uma ponte, voltavam uma montanha, voltavam um país, voltavam uma noite, voltavam um continente. E dispararam nas planícies disparadas, fugiram em serras, montanhas, montes, coxilhas, vales, peraus... Seguiram estradas, várzeas, cursos de rios, trilhos de trem, trilhos de preás, canhadas, passos... Dormiram em dormitório na ilha de Itaóca... Subiram o pico 31 de Março na serra do Imeri... Desceram em gaiola o rio Tartarugalzinho...
            - Quanto tempo? Mil e um dias? Mil e uma noites? Cem noites tapuias? Que esperanças no futuro? Foram a pé, ônibus, trem, a cavalo de pelo tordilho, avião a jato?
            - Quando se anda, quando se viaja, quando se anda caminhando procurando, na verdade verdadeira, estamos lendo o nosso futuro. É assim que se lê o futuro. Esperança e futuro são duas coisas numa só viagem pela estrada.
            - Salvar o boi Garantido era salvar o mundo?
            - O infinito do mundo. E os meninos e a menina, nessa lida de procurar o boi Garantido, passaram certo dia pelo país das borboletas. Só havia por lá borboletas. Podia escolher. Tontas e zonzas e leves. De todos os tamanhos e cores. Era um país em festa de borboletas. Nem te conto. Borboletas pra dar e vender, todas na maior santa da paz, se sacudindo no ar. Borboletas de estações de verão, de inverno, de outono, de primavera, noturnas e diurnas. Muita panapaná. Borboletas escondidas do vento, pinicando flores coloridas e cheirosas, voando quase em zigue-zague, inventando bordados no ar. Beira de rio entupido de borboletas. Cidade só de borboletas. Presidenta ou rainha borboleta, governadora borboleta, outras funcionárias públicas borboletas, borboletas adultas, borboletas crianças, borboletas cantoras, borboletas fazendo tricô na varanda, borboletas jogando voleibol na quadra da praça, borboletas medicando borboletas, borboletas comendo terra salgada. Primavera de borboletas. Aniversário de borboletas. Casamentos de borboletas. E muitos jardins e campos regados a flores para que as borboletas pudessem beber e se deliciar com o mel de cada dia, com o néctar de cada manhã, com cada raio de sol de cada dia de sol.
            - Encontraram o boi Garantido?
            - Claro... que não.
            - E nenhuma borboleta deu notícia da passagem do boi da esperança?
            - Mais ou menos. Não tinham certeza. Borboletas têm olhos nas asas, e esses olhos não foram feitos para olhar, mas para enganar quem pensa que são olhos para olhar.
            - Os meninos e a menina prosseguiram na procura? Os meninos eram teimosos? A menina era modestosa?
            - Exatamente. Pegaram a estrada. Tentando seguir uma pista, ou a intuição, o mapa da mina. O que não era fácil. O que não era nada fácil. E a estrada era sempre longa, o horizonte sempre no fim da paisagem, e a estrada sempre com mania de grandeza. Estrada morro acima, e morro abaixo, se esticando como pescoço de rio-cobra.
            - Eram meninos corajosos e iluminados. E mais uma menina bonitosa e divinosa.
            - E olha, Lilás. Um belo dia de setembro ou outubro ou novembro ou primavera, chegaram ao país das jabuticabeiras com jabuticabas prontas. É, jabuticabas negras e pretas e tentadoras. Jabuticabas com cara de olhos pretos. E só havia muito pé de jabuticaba. Jabuticaba madura, lustrosa, e esteja certa. É, jabuticabas aos gritos, aos berros, aos relinchos. Pés de jabuticabas de ambos os lados da estrada. Então, primeira coisa que os quatro arteiros pensaram em fazer, e já foram fazendo quase sem dar tempo de pensar? Eu pergunto e respondo, neta Lilás. Eles todos já na correria se pincharam pra cima dos pés de jabuticabas. E foi divertido. Ou ainda mais gostoso. Eu digo que foi saboroso, e fico satisfeito.
            - No país das jabuticabeiras e jabuticabas só havia jabuticabeiras e jabuticabas maduras e doces caindo pelo gramado?
            - Sim senhora, Lilás. No país das jabuticabas, hum!... toda a floresta se povoava de jabuticabeiras. Floresta um jabuticabal. E eram antigas, novas e anciãs. Todas carregadinhas dos pés à cabeça, das raízes à copa, enfeitadas no tronco e nos galhos. Ainda no país das jabuticabeiras e jabuticabas acontecia a festa da jabuticaba com mil doces e comes e bebes feitos de jabuticabas. E havia um prêmio especial para quem encontrasse a melhor jabuticaba, a mais doce, a mais brilhante, a mais preta, a mais exibida, a mais perfeita, a mais maior.
            - Perguntaram pelo boi Tatá? Pelo boi Barroso? Não, digo o boi Garantido? Perguntaram os meninos e a menina pelo boi Garantido desaparecido ou fugido ou colorado ou perdido?
            - Os viajantes chegaram para a rainha da floresta das jabuticabeiras, e que era uma enormíssima jabuticabeira, dava todas as maiores jabuticabas da estação, e indagaram, assim: “Realeza! Sua Saborosa teve notícia da passagem de um novilho, quase touro, um brasino, mais conhecido como boi Garantido, por estes seus domínios reais e jabuticabais?” E o que a rainha das jabuticabeiras respondeu? Respondeu isso, assim: “O Rio de Janeiro faz muito calor. O Vitória faz muito calor. O Curitiba faz muito calor. O Brasília faz muito calor. O Rosário do Sul faz muito calor. O Barra do Corda faz muito calor.” E os meninos e a menina se entreolharam sem entender, na verdade.
            - Diz sério, vô. Que código ou anticódigo era esse?
            - Linguagem lá das jabuticabeiras moradoras no país jabuticabal das jabuticabeiras carregadas de jabuticabas.
            Avô apreciava o ar livre, o céu da tarde caminhando devagar e quase parando, etc., e o verão, os desenhos do dia, a folia das andorinhas, das corruíras, dos enferrujados, dos caminheiros-de-espora, dos porangas. Temperatura ambiente em torno dos 30° centígrados. Avô com ideia leve na cabeça, pensamento leve como coisa qualquer bem leve, pluma ou sonho de passarinho. A menina teve um súbito pedido ou uma dúvida urgente:
            - Havia templos, igrejas, lugares consagrados, sítios arqueológicos, ruínas jesuítas abandonadas lá pelo caminho missioneiro do quarteto?
            - Hum... Ah é! Agora que a princesinha lembrou... Pois é. Aí, se passaram mês e tanto eles andando sob o sol e sob a chuva. E os quatro foram sempre andando muito mais. Viram até disco voador e bicho de três olhos, bicho de três cabeças, bicho falante, árvore falante. E os divinos mesmo falavam, diziam e sempre acertavam. Por dias e dias. Dia que fazia um sol, dia que era quase noite de tanta chuva. Então, pararam na escadaria de um templo e se sentaram. Olharam em volta. E inventaram pedir, ao povo que passava e não olhava, uma coisinha pra comer, qualquer coisa, qualquer pão seco, qualquer arroizinho soltinho, uma pamonha, um cartucho de amendoim torrado, um beiju, um pé de moleque. E aí comeram até fartar. Comeram um arroizinho soltinho com batata-doce e aipim e abóbora. E pode-se dizer que isso tudo não era nada demais nem de menos.
            O avô escutava o arvoredo, ginjeira-da-terra, embira, embaúba-da-mata, pixuna. A menina Lilás escutava a tarde solta no vento. O avô voltou com comentários. Antes a menina destravou:
            - E os viajantes federais passaram por mais continentes, países e aventuras?
            - Passaram pelo país dos saguis-de-duas-cores e os saguis-de-coleira e os saguis-caratinga, onde só havia saguis-leõezinhos. E passaram também pelo país dos macacos-aranhas, onde só havia macacos-aranhas. E passaram pela terra das águas dos peixes-bois, onde só havia peixes-bois. Cruzaram o país das cunhantãs, onde só havia cunhantãs preocupadíssimas em casar na noite de lua cheia. E muitos países e muitas terras e águas, quer saber. Havia o país das noites intermináveis povoado de morcegos de olhos cegos e corujas de olhos acesos. Havia a noite nos países intermináveis povoada de ruídos de grilos e ruídos de sapos-martelos e latidos de lobos-guarás. Terra esta de noite pesada e fechada e sem fim. Assim quis Alá. E o futuro não tem um ponto onde começar, e a esperança não tem um ponto onde findar. É ou não é uma maravilha?!
            Jandaia tossiu na escada do alpendre, tossiu outra vez, saiu correndo para trás da casa e não voltou tão cedo. Loló se espantou com aquele engasgo da cadela e telefonou para os seus tios lá de São Bento do Sapucaí: “Oi! Aqui é de Lagoa Vermelha, é. Em Lagoa Vermelha está muito quente e quentíssimo.” De Flecha dormia seu sono da tarde. Tarde, boa tarde, a mesma que já dava sinal de cansada também. O avô retomou o pé na estrada da história:
            - E um dia chegaram ao país dos escorpiões. Para lá do parque do Jaú. Maravilha o país dos escorpiões. Um perigo andar pelas estradas e ruas e cidades desse país. Os escorpiões são bichos muito simples, mas mortais. Apesar dos irmãos serem filhos de Tupã, e todos muito imortais e divinos, não calculavam vacilar com esses aracnídeos. Não ficaram mais de meia hora no país dos escorpiões.
            - Tomaram muito cuidado, espero. Andaram na ponta dos pés.
            - Os escorpiões são perigosos e também muito justos. Só atacam quem pisar na cabeça deles. Estão representados no céu, numa constelação de estrelas de diamante. Coisa finíssima. Coisa antiguíssima. Coisa altíssima. Coisa cosmosíssima.
            - Os escorpiões têm asas? Vivem de quê?
            - No país dos escorpiões os escorpiões são escorpiões sem sorriso. Dormem debaixo de pedra. E no país dos escorpiões não há cachorro, gato, tartaruga e automóvel. Tudo o mais existe e alcança.
            - Avô. Por que o céu não cai sobre nós?
            - Por enquanto vai ficar assim mesmo, é melhor. É que o céu e o mar são dois irmãos diferentes e muito bem. Tomara que continuem assim, cada um no seu mundo. Uma vez foram irmãos e parentes próximos. Hoje se separaram por n motivos. Foi algo enigmático, mas acabou tudo bem como está. Foi melhor assim. Foi melhor pra todo o mundo. Valeu a pena. Deixe estar.
            O avô e a Lilás, olhando o céu, podiam ver que as andorinhas estavam muito agitadas àquela hora da tarde. Talvez por ser de tardezinha. De fato vinha caindo ou entrando no ar, tocada por um vento ralo, a tarde lá do outro lado do tempo ou do morro. A mesma tarde que emocionava a Jandaia. Avô devolvia contando:
            - Havia escorpiões que trabalhavam durante o dia, os outros trabalhavam à noite e recebiam adicional noturno. Havia escorpiões, poucos, alguns, muito neurastênicos, que mastigavam as próprias mãos. E os meninos e a menina, com muito cuidado para não pisarem na cabeça de nenhum cidadão cidadã do lugar, foram saindo de fininho. Sem esquecer de perguntar aos escorpiões, meio de longe, é claro, se eles tinham visto passar por ali um certo boi assim e... assim mesmo, que estava perdido ou fugido ou corrido ou sequestrado ou emburrado.
            - Os escorpiões viram alguma coisa? Os escorpiões enxergam à noite? Os escorpiões saem de dia para caçar? Os escorpiões gostam de pedras? 
            - Viram ou repararam um talvez. Viram passar um boi alado. Um boi precavido. Um boi Garantido. Um boi assim e escaldado.
            - Oba! Estou torcendo pros meninos e pra menina. Então, os divinos e a divina estavam no caminho certo.
            - É, tinham descoberto uma pista. Uma pista aérea, mas uma pista. Não um rasto, mas uma indicação. Assim sendo, prosseguiram na caminhada. Logo pegaram a estrada poeirenta. Rumo do sul do hemisfério sul, seguindo a estrela alfa do Cruzeiro do Sul. Sem correr porque o sol era muito escaldante, e a lua muito paralisante.
            - Cruzaram ainda outros países da igualdade, da semelhança, da mesmice, é? Eu gosto de história que tem bicho solto no meio, e muita árvore plantada também, rios descendo pro mar e caudalosos.
            - Breve chegaram ao país dos pântanos. Era um banhadão, um alagadão do tamanho do Pantanal Mato-Grossense, ou do banhado do Taim. Um lugar úmido que só quem gosta desses lugares se sentiria bem ali. Uns matinhos de caniços, sarandis, gravatás, cipós com flores amarelas ou brancas, pés de araticuns, taquaras, carazinhos, samambaias, taboas, orquídeas, coqueiros de pequeno porte, aningaúbas, mães d’águas, tracajás, tucunarés, pirarucus, colhereiros, socós-grandes, tuiuius, guarás, gaviões-caburés, maçaricos, saracuras, ximangos, olhos-d’água, arapapás, borboletas verdes, jaçanãs, cabeças-secas, maruins, moscas-da-abóbora.
            - Então, havia sortimento de viventes ali no banhadão?
            - Sobre isso não há dúvidas. E um bando de quero-queros aterrissou. Eles, os quero-queros são aves bonitas e boas e alarmadas. E só falam quero-quero!... Não, ninguém conseguiu até hoje domar ou amestrar quero-quero. E os quero-queros não têm nada contra as outras aves povoarem as árvores da beira do alagado. Os quero-queros são gritantes, mas conformados. E quase não dormem.
            - E os meninos e a menina como se viraram para saber informações do boi Garantido e perdido?
            - Arriscaram chegar perto. Mas, se sabe, os quero-queros são muito desconfiados, e não suportam estranhos na área, e são precavidos. Os quero-queros queriam expulsá-los rapidamente e de todo jeito. Essas aves fazem voos rasantes sobre os intrusos.
            - Então, os meninos tiveram que correr. E a menina proteger seus escorridos cabelos.
            - Foi por aí, sim. Foi quase assim. Foi por um fio. Os meninos perguntaram e os quero-queros respondiam, muito brabos, na língua deles que não se entende. E a menina pensou num rastro de boi, quem sabe.
            - Resultado. Tiveram ideia se o boi passara ou não pelo banhadão.
            - Mais ou menos. É isso mesmo. Os meninos e a menina repararam que pelo barro dos alagados havia umas pegadas de boi. Difícil foi saber se era o boi Garantido. Mas só podia ser o boi Garantido. Então, tiveram certeza que eram pegadas do boi Garantido.
            A menina cruzou os braços, atirou os cabelos soltos para trás e continuou ditando:
            - Se não fosse o boi dos garotos e da garota...
            - Se não fosse o boi dos meninos e da menina seria uma perda de tempo, uma pista falsa, seguiriam uma pista errada, dariam com os burros n’água.
            - Ficariam sem ânimo nenhum. Sentados à beira do caminho.
            - Pelo sim, pelo não, pelo talvez, seguiram as pegadas.
            - Havia estalagens, tavernas, tabernas, pousadas, campings, cavernas, grutas, lapas, e tudo mais ao longo do caminho?
            - Hum... Está claro que hotéis existiam e de todo tipo de luxo ou sem luxo. E pensões de todo tipo de dinheiro. E resorts de diversos números de estrelas. Poderiam estender a rede de dormir num barracão qualquer e dormir altos sonos, é. E eles se hospedavam em lugares muito bons, obrigado.
            Lilás, menina comportada, gostava e adorava de ver o sol depois da chuva. Saudades do sol. E amava a chuva, ver a chuva, olhar a água escorrendo dos beirais, correndo nas valetas. Quando chovia, claro.
            Enquanto o avô mateava e contava a história, Lilás às vezes estava com os olhos aqui, outras perdia os olhos ali, mas sempre por perto e com os ouvidos atentos o suficiente para ouvir a narração. A história acontecia. O limonoso Loló escrevia um e-mail para os de longe lá de Montes Claros: “Oi! Aqui é de Pato Branco, é. Em Pato Branco está muito quente e quentíssimo.” O avô tentou explicar:
            - Os meninos não descansavam, a menina não cansava, e não iriam parar enquanto não encontrassem o boi Garantido de estimação. Pegaram novamente a estrada, seguiram então com novo fôlego.
            - Já tavam muito longe de casa, hein, vô? Quase no futuro? E com que esperança? Já passavam do rio Iguaçu? Já alcançavam a serra do Espinhaço?
            - Olha, Lilás, nem digo porque nem calculo. E lá foram eles com aquela esperança brilhando nos olhos, com a alma enxaguada, com o coração passado a limpo. Seguiram um dois três dias, uma semana. Aí, chegaram à cidade dos homens e mulheres desempregados. Era uma cidade muito povoada e conhecida. Era uma cidade cercada de arame farpado e muros encimados com cacos de vidro de diversas cores e origens. Uma cidade onde ninguém confiava em ninguém. Uma cidade que se podia entrar, mas não se sabia se se podia sair. Cidade de trânsito engarrafado. Uma cidade que não aparecia nos telejornais e mapas do governo.
            - Quem mandava nesse lugar, vô? Quem era o rei ou rainha da cocada preta ou branca?
            - Eram bandos de pessoas desocupadas.
            - Os viajantes tiveram notícias do boi, pelo menos? Descobriram algum rastro do Garantido?
            - Por incrível que pareça tiveram notícias do boi. É que alguns dos desempregados já haviam perseguido o boi para fazer um espeto corrido. E até conseguiram arrancar a cauda do boi.
            - O boi Garantido foi perseguido, é? O boi fugiu deles, é?
            - Pois os meninos não perderam tempo e se mandaram. Na estrada olharam o chão e viram marcas recentes de cascos de boi e outros pertences de boi.
            - Seria do boi Garantido de estimação, com certeza.
            - Acho que sim. Mas as pegadas do boi mostravam um defeito no pobre do bicho. O boi Garantido, se fosse ele, estaria ferido na pata traseira do lado esquerdo. Talvez com a pata quebrada. E também, aqui e ali, sinais de pingos de sangue. O boi estava em sério risco de vida, parecia. O boi havia perdido a cauda para os desocupados da cidade dos desempregados. O boi tinha a pata avariada. O boi vermelho pingava vermelho. Assim quis a sorte.
            - Não podiam chegar a tempo de salvá-lo? Saíram correndo para socorrê-lo? Chegariam a tempo? Estavam frios ou quentes?
            - Aí é que estava o sufoco. Pareciam ser de dois meses atrás aquelas marcas. Pensando assim, se apavoraram. Temeram pelo pior. Então, os meninos começaram a correr. E a menina disse, “me esperem!”, e também correu. Estavam já prontos para chorar. É ou não é uma maravilha?!
            - Eles não mereciam encontrar o boi Garantido todo morto, eu acho.
            - Também acho que não. Quer dizer, achava. Mas quem cuidava de tudo, da sorte do boi Garantido, da história toda, da sorte dos meninos, da sedosa pele de pêssego da menina, e etc, era e é Deus-Alá-Tupã.
            - Os três meninos acharam o boi morto, não é? A menina não quis ver o boi Garantido todo falecido, não foi?
            - Exatamente. Essa a triste notícia que tenho pra lhe dar, Lilás. Os meninos foram seguindo a pista deixada no chão da estrada, seguindo aquelas marcas, os sinais, os pingos de sangue nos ii. Pelos sinais no chão se via que o boi passara muito sofrido, se arrastando, mancando. Até cair para não poder levantar. Até morrer. E parou. Agonizou. Caiu. E morreu. Até que a cidade inteira e capital do país dos urubus, que está lá instalada no alto acima das montanhas da serra do Mar, cheirar e ver e vir correndo, migrar voando, e se atirar sobre os restos mortais do boi Garantido. E depois só o silêncio. Durante o silêncio um barulho grasnado dos urubus esganados almoçando apressados. Foi isso que os guris e a guria viram, deduziram, interpretaram, adivinharam, pressentiram.
            - E... então, vô?! Só não foi pior por falta de favor nenhum?
            - Tudo é pó, exceto Alá, o Judicioso!
            Lilás, claro, ficou muito sentida com aquele fim trágico da história da aventura do boi Garantido. O avô ainda tinha mais a dizer, como com uma carta de coringa, mais uma coisinha e pronto, uma carta na manga. E foi contando:
            - Então, os meninos chegaram correndo. A menina chegou correndo quase sem fôlego. E viram só ossos brancos no acostamento da estrada federal. Ficaram atordoados de perguntas sem respostas. Ficaram mortos de pena do boi Garantido. Ficaram sem saber sair dessa. Ficaram sem esperança e sem futuro.
            - Se desconsolaram e caíram no chão?
            - Buda disse para os ossos se juntarem e comporem novamente o esqueleto antigo do boi. E os ossos se juntaram como tinha de ser, sem nenhuma dúvida. E Jesus deu ordem à carne, aos músculos, aos nervos e ao sangue para que voltassem e alimentassem aquele esqueleto vazio. E foi também muito e rapidamente atendido. Por sua vez, Curupira chamou a vida e disse para ela entrar no corpo do boi ali deitado e tomar conta, bater com o coração, resfolegar com os pulmões. E a vida obedeceu, soprou e estufou dentro do peito e da barriga do boi. E a calorosa Sheherazade contou uma história de um boi Garantido e vermelho que não morria nunca. Uma história para boi ressuscitar. Uma história de boi que mordia a cauda. E contou uma lenda de um boi que era uma festa todo ano. Um boi que renascia para festejar com o povo festeiro. Uma história comum de um boi que virou lenda. Um boi inteiro e vivo e chifrante com sua cauda espanante e tudo.
            - Eram os milagres que aconteciam, vô! Eram os milagres que brotavam, vô! Eram os milagres esperados, vô!
- Se eram. Eram os meninos e a menina arregaçando as mangas. E o boi Garantido estremeceu, bateu o coração, estufou os pulmões, abriu as narinas, abriu os olhos bovinos, espanou com a nova cauda umas moscas mexeriqueiras. E o boi se ergueu, vivinho da silva, como se nada tivesse acontecido, pronto pra outra, e ainda teve humor para dizer: “Bem, meninos, grandiosa menina, fiquei muito tempo parado e agora... agora preciso tirar o tempo perdido, pastar um capim macio e verde. Ou seja, gentes, estou com muita fome de capim verde e frutas doces e flores maduras. E ainda vou brincar muito no fim do ano de bumba-meu-boi ou boi-de-mamão ou boi-de-jacá ou boi-de-matraca ou boi-de-melão ou boi-bumbá.”
            Lilás parecia querer se emocionar demais. O avô olhou para ela. Coronel sentara na entrada da porta. Jandaia entrava pela porta. A tarde saía, devagarzinho, porta afora da casa do dia do mundo. E Lilás falou:
            - E voltaram pra casa com o boi vivinho da silva. E o futuro garantido.
            - Voltaram. E o boi Garantido prometeu fugir de casa e arriscar a própria vida mundo afora. Prometeu porque prometer é fácil. E o boi Garantido prometeu fazer festa todo ano num lugar conhecido e limpo mundo afora. Mundo de muitas terras de tizius, muitos países de tamanduás-bandeira onde só habitam tamanduás-bandeira, países de águas onde só vivem botos-cinzentos que adoram bailes altas horas da noite, terras de países de canaviais onde todo o mar é verde em ondas verdes ao som do vento verde.
            - E o mundo era o mesmo, só mais tarde, né, vô?
            - Eles, os quatro irmãos, mais o boi, voltaram rindo para casa. Mas todo lugar é a casa deles, agora, a partir daquela hora. E eles riram, caíram rindo, caíram rindo pela estrada e estradas, rolaram de rir, se abraçaram rindo, se seguraram na barriga de tanto rir, riram alto e mais alto, riam porque eram imortais e divinos e milagrosos.
            O avô descansou a cuia no porta-cuia. Ficou curtindo as cores da tarde.
A tarde já ia se recolhendo, pintando as nuvens no horizonte, fechando o expediente dos passarinhos. O horizonte se desenhava de riscos azuis, amarelos, vermelhos. Urumutuns piavam no pinheiral. Uma revoada de estrelas começava a pontuar de olhinhos acesos o alto mais alto.
E Lilás ali, aqui, em torno de si. Nem aqui, nem ali, nem lá ou acolá.

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