Alice
ouviu alguns passarinhos, manhãzinha recente, gorjeios e cantares diversos, e
daí abriu a janela, viu cores e borboletas, abelhas, besouros e isabelinhas. As
nuvens raras acolchoavam ou algodoavam o azul. Crescer e pensar por si mesma.
Uma catarata de perguntas:
-
De que são feitos os dias? Por que é que estou aqui?
Aspirou
o ar de árvores molhadas, flores se abrindo e passarinhos movidos a sol, e não
pensou em nenhum desafio importante, barcos a vela, emas e tamanduás-bandeiras
corriam como balões e balõezinhos o campo azul, desejou as coisas mais mais que
já ouvira falar. Mas por que perguntou? O sol ia ajeitando as cores do dia, os
sons do dia, os lugares para as coisas do dia:
-
Aquele algo sempre demais demais que vem nos milagres.
Trouxe
com os olhos o azul para o espelho, se penteou, molhou a ponta dos lábios e
saiu para o colégio.
As casas e
prédios estavam ali, as ruas estavam ali, as árvores em fila indiana, os carros
chispando. As pessoas iam e vinham carregando o tempo debaixo do braço. As
gameleiras-brancas entre si trocavam perguntas e respostas e opiniões e
bocejos. Vento fugindo do vento, vento fugindo do mar azul do céu, mais fugindo
e barcos a vela voando.
Essa menina
nunca parou para pensar. Ouviu falar que no princípio tudo e nada fora a mesma
coisa, se perguntou:
-
Como pôde esse tudo sair do nada?
E
o caos entregue a Deus, que pode tudo, que deu um jeito, arco-íris como resumo
do dia. Pelo interior dela, Alice, infinitos desejos, palpitações, tonteiras,
galhos, queimações, explosões, trevas, luas.
-
Mas o que é que eu posso e não posso fazer? Vamos, alguém me diga, quero saber.
Mirou-se
no espelho de corpo inteiro, frente e verso e perfil, horas e horas ali, o
batom vermelho beijou a lâmina de vidro, peitinhos empinados e barriguinha para
dentro e bundinha para cima, os olhos suplicantes de cachorrinha lavada. Olhos
de água doce e cristalina. Olhos que pareciam sempre voltar de país distante,
um lugar que somente ela conhecia, somente ela conseguia, e somente ela
desconhecia. Alice do espelho era a verdadeira, imagem não mente. Ficou quieta
e, talvez, também o mundo.
Tempos
passados e antigos, a menina era excelente aluna, obediente de todos,
naturalmente tinha um olhar doce e cristalino, e um sorriso e um riso de
canarinha-da-terra, carismática, ia direto para a escola e da escola para casa,
não dormia sobre o caderno de deveres, mais suave que um bichinho de estimação,
mais clarinha que um poema surrealista, mais doce que um filhote de corruíra,
mais limpa que água nascida da pedra.
Hoje
já mudou, hoje sonhava, olhava os meninos bonitos, ou se fingia, se achava,
assistiu Peri e Ceci, caminho do Piabiru, se viu sentada na imagem da canoa
descendo o rio, ouvindo os sons do mato, Peri remava, Peri forte pra burro,
Peri buscando frutos e pescando e caçando, entrou a noite, Peri gostava de
Alice, dormiram no mesmo galho, se beijaram procurando estrelas no céu da boca,
Peri cheirava à flor de chá, Alice encantada, o corpo de Peri ali, sonhado, e o
buriti acordou carregado de almas-de-gato e araras-vermelhas-grandes e
bem-te-vis-do-bico-largo.
Alice
procurava sim tanta coisa, e via tanta coisa a sua frente. Alice desejava tanta
coisa, e não entendia de nada. Necessidade de procurar, de se exibir para o
mundo?, de se expandir. Tudo seria novidade, tudo novidade, novidade. A
novidade a deixava fora de si. E não a deixava pensar. Tudo de bom em qualquer
lugar. Era agora ou nunca que ela estava acordando para sair. Entrar pelos
caminhos sem poder parar. Ventos salgados, ventos doces, ventos frios, ventos
cheios, ventos amarelos, quatro ventos.
-
Eu já fui e já voltei? Duvido!
E
quando se adora? Ama-se o que não se tem, ou o que se poderia ter e não se
terá. Ama-se quanto se quer, até onde se quer. Ama-se em silêncio, ama-se em
segredo, ama-se de olhos fechados, ama-se sem olhar. Ricardo, perguntou:
-
Áli, posso namorar você?
Alice,
surpreendida, prorrogou:
-
Não sei. Vou pensar, em casa.
Chegaram
no portão de casa, se despediram, depois a menina já foi correndo perguntar à
mãe:
-
Mamã-nhê! Posso namorar com o Ricardo? Ele me convidou.
A
mãe torceu os beiços, pensativa, de repente alerta, assustada, torceu os dedos
das mãos, torceu os lábios, depois comprou a briga:
-
Pode, mas vê lá, hein?! Só de brincadeira. Você ainda é uma guria de quatorze
pra namorar sério, viu?!
Alice
sorriu, agradeceu, fez continência, saiu pensando e com profunda necessidade de
ficar pensando sozinha no quarto. Sumiu correndo para o quarto e fechou a
porta. Tinha a sensação que o mundo era com ela mesma ali presente e para
sempre. Fechou as pálpebras e abriu os olhos para dentro de si. E o que se
poderia fazer, o que se iria fazer. Foi brincar com o celular.
Alice
se despiu de índia, foi pular como se pula na tribo, adorava carnaval, conheceu
Leonardo, olhos de Peri, Leonardo veio de presidiário e número tal, Alice
caxinauá se deixou beijar, a caravana no deserto do Saara, “alá lá oh! oh!
oh!.. mas que calô, oh! oh! oh!...”, serpentinas e suores e confetes, “estava
atravessando o deserto do Saara...”, pularam do trenzinho e saíram até o pátio,
estacionamento de camelos e tapetes mágicos, muitos beduínos e beduínas aí,
muitos cameleiros aí, e outros piratas, odaliscas, e os dois se grudaram nos
beijos, com estalinhos, trocando salivas, olhando bem de perto, rindo, Alice
aprendia a gostar de beijar, aprendia a imergir e emergir na hora certa,
confessou:
-
Beijar você, Leonardo, é a melhor coisa que já faço na vida.
-
Muito obrigado, são seus olhos. (?)
Então,
Alice se emocionou mais ainda. Quando o beijava era a si mesma que beijava.
Amou sentir rosto com rosto, o calor dos apertos, o sufoco das pulsações, as
orelhas pegando fogo nas pontas, lábios abertos, o sangue nas veias descendo e
subindo corredeiras e cascatas, tudo se incendiando, gosto diferente na língua,
as pernas trêmulas, os seios endurecendo, sabe-se lá o quê, o sangue descendo
como encachoeirado, nariz com nariz, as amigas perguntaram:
-
Onde e o que com Leonardo?
Alice,
simplesmente de ouvido no celular, e dissilabicamente:
-
Nada.
A
primeira vez que entrou no laboratório biológico do Aparecida, enjoou com o
cheiro dos produtos, espiou a rãzinha dissecada e sentiu pena. Ritinha vomitou.
Aliás, Rita Marina no início riu, daí tossiu, até chorou e, então sim, acabou
vomitando verde. E por muitos tempos Rita, toda vez que ria ou tossia, e
recordava o dia, acabava vomitando sem querer, sensacionalmente verde.
Outra
noite Alice sonhou que descia o rio Pratinha na canoa. Era um rio maneiro.
Podia ser o rio Camaquã? Podia ser o rio Tramandaí? Peri, seu bem querer, não
aparecera em parte alguma. Alice sentia frio, muito mal-estar, ouvia ruídos
estranhos, via a face da lua por trás dos galhos secos, formas raras,
dinossáuricas, as montanhas pré-históricas, e muito mais, não possuía um remo
sequer, deslizava na vontade da corrente como num caldo caótico, tempo frio, e
um silêncio de tocaia, um silêncio de corredor de hospital, um frio de
hospital, um frio branco com perigo de tocaia.
E
qual a lagoa dos Patos disso tudo? E qual o labirinto disso tudo? E qual o
ximango disso tudo? Qual o minuano disso tudo? Qual a piroga disso tudo? Qual a
lenda amazônica disso tudo?
Tudo
estava para acontecer, surpreender, pular repentinamente a sua frente a
qualquer momento. E como flor, como passarinho, Alice sofria de excesso de luz.
Alice delirava por excesso de sonho. Alice amava seus cabelos. Alice queria
peitos, tinha peitos e não queria peitos. Alice desconfiava que tinha um joelho
maior que o outro joelho.
Eram
oito horas, a cidade maquinava, o sol estava bom, e não acontecia nada. No meio
do gramado de uma casa, entre trepadeiras e pedras, uma carroça desatrelada e
enfeitada. O mundo rodava nos olhos da humanidade, que seguia em frente.
A
menina chegou ao colégio e já recebeu flores de Ricardo. E ele tentou lhe
beijar a mão, tentou também olhar as meninas dos olhos lá dela. Mas ela se
encolheu, ficou com as orquídeas e os cravos lilases, e se distraiu a aula
toda, não olhou à direita nem à esquerda, empreendeu uma viagem rumo ao sol,
como um beija-flor-de-topete irisado. Ricardo escreveu bilhete repleto de
paixão e cheio de dedos. Alice leu e releu e nem piscou. Alice até fez um
muxoxo. Estimou, refunfou, odiou, não olhou para os lados, muito menos para
trás, e hoje em dia adora e tal.
No final do
período Ricardo correu atrás, e perguntou, por exemplo:
-
Áli, você não me ama mais?
Alice,
celular no ouvido, cabelos soltos ao vento, definitivamente:
-
Está claro que não!
Alice
já estudava muito pouco, estava mais para um passarinho que procurasse
procurasse o fim do mundo. Peri, olhos verdes, cabelos longos e negros, corpo
de atleta e o sorriso de comercial de consumo... A menina não mostrava cadernos
e livros para a mãe, mãe vinha estranhando, mãe pensando alto:
-
Que será que acontece com a minha menina dos olhos?
Alice
preferia mais se recolher ao isolamento do seu quarto, ficar ali ligando e
desligando o celular, e só saía para as refeições, e comia pouco, gostava de
geleia de abacaxi. Peri era corajoso e carinhoso e se vestia das penas das
araras-azuis-grandes mais raras e das penas das gavioas-carijós mais difíceis.
A mãe não aguentou:
-
Minha menina, você precisa se cuidar. O que te acontece? Fala o problema.
Alguma dúvida? Por favor, não esconda nada da sua mamãe. Você sem dúvida
precisa de mim. Responda presente!
Alice
aliviou o peso das costas da mãe:
-
Não se preocupe. Não tenho nada de mais, nem de menos. Acredite.
A
mãe percebeu que Alice crescera. Já a menina lembrou um cartão-postal de
Quixadá, e sonhou com uma viagem a Petrolina-Juazeiro direto pelo rio São
Francisco. Vestia short floreado e miniblusinha floreada até o umbiguinho. Por
que Petrolina-Juazeiro? Alice ouvia passarinhos cantando lá fora e eram muitos.
Queria um boné com a aba virada. Declarou ao espelho:
-
Deus não fala comigo, e sei muito bem que me conhece.
Era
com Teresa que Alice dividia os cálculos e problemas e fórmulas e telefonemas.
Teresa de voz aguda, as partes rechonchudas, de rir muito por qualquer motivo,
das expressões típicas do vale-tudo, dos torpedos e mensagens. Não faziam
segredos. Alice, por falar nisso, se queixou das péssimas notas, que os guris
chateavam, que os guris tinham mania de puxar o cabelo; Teresa contou do seu
último pingente, e seu enjôo de dietas, e seu novo amiguinho. Alice, quando se
dava conta, quando se achava, ria pouco e se sentava como uma dama; Teresa já
queria descer o rio Madeira, ou o Tocantins, conhecer e conviver na reserva da
tribo dos ianomâmis. E Alice, única:
-
Hum!... Os parintintins comem beijus?
Teresa,
quase totalmente esportiva:
-
Oi! Os nambiquaras comem peixes do rio Areias, é.
E
Alice, de repente, o olhar deserto ou escandalizado:
-
Que lugar você acha o máximo?
Teresa
pensou, fez que pensava, os olhos no ar, o queixo caído sobre o mar, a boca
cheia de água, e tentou:
-
Ilha do Arvoredo? Ilha de Marajó? Ilha do Bananal?
O
primo Guyra, lá do Guabiju, veio para um fim de semana. Alice não gostou, a
princípio. E ele se mostrou bonzinho, educado, prestativo, assombrado, rinchante,
assobiador. E se sabe que todas as manhãs nascem puras e elegantes, nascem
transparentes e manhãzinhas, todas manhãs, manhãs prontinhas.
E no domingo
os dois foram passear pelo Centro, tomaram sorvete, assistiram cinema, comeram
pipoca, rodearam a pracinha da Bandeira três vezes, comeram mandolate. Em casa Alice lhe mostrou
as fotos no computador, o álbum com viagem na excursão a Canela e Gramado, fim
de semana na cascata da Usina, e não se largaram mais. Alice o deixou mexer no
vídeo, no celular, trocar água do peixinho do aquário, tocar nos seus cabelos,
o menino perguntou:
-
Áli, quer ver o meu particular guapuruvu?
Alice
tonteou, envelheceu cem anos em um segundo, não acreditou ter ouvido o que
acabara de ouvir, e com cor de tomate maduro nas maçãs do rosto de pele de
pêssego, disse:
-
Mas que tipo!!!...
O
primo Guyra, fora de si, fora da lei, baixou as calças e exibiu, pronto,
estrela alfa polar da ursa menor. Alice já petrificada não sabia mais se tugia
ou se mugia. O guri se ajeitou, se recompôs. Não brincaram mais. No outro dia o
primo viajou cedo; Alice ainda dormia.
Alice
escrevia na agenda, comprava cores de perfumes, se penteava horas e horas, logo
logo mudaria também aquele penteado e a cor do cabelo, escutava músicas, ligava
para Teresa, calçava sapatos plásticos de salto alto, para já necessitava de um
novo celular, louca por chocolate branco, pintava os lábios com batons
vermelhos ou lilases, colecionava frases e gírias, escovava os dentes com sabor
hortelã, rolava na cama, olhava os pelos, uma margarida aberta na orelha,
expressões vale-tudo na ponta da língua: e daí?!, fui!, tô fora!, jamé!,
conforme!
Pela
primeira vez naquele ano, pela segunda vez naquele mês, pela terceira sombra
daquele dia. As pedras cresciam, as nuvens falavam, mamãe ensaiava piano na
praça debaixo de chuva. Os sinos não tocavam, nem bimbalhavam, badalavam,
tilintavam, soavam, nem repicavam. A menina Alice brincava de procurar
penteados para suas melenas.
-
Vou dormir e me teletransportar, oquei?! Vou dar uma volta por alto. Aí, não
sei quando... volto, desço, e desço agarrada ao Cruzeiro do Sul. Mais ou menos.
Corria
o décimo terceiro mês do ano. As nuvens se tocavam, passavam, se desagregavam,
proseavam, serviam de poleiro para almas-de-gato. Signo da menina? O horóscopo
dizia que o sol mandava um mico-leão-dourado feito de fogo, e mais metal de
ouro, e cor alaranjada ou dourada, e perfume sândalo.
Na
lanchonete Cata-Vento, Teresa apreciava bolo de coco com suco misto
pequi-tangerina, uma delícia; Alice apreciava pastelzinho de brócolis e suco
misto caju-acerola, sensacional; Teresa reparou:
-
Áli, você já olhou... o Juno, hein?!
Alice
tentando não dar bandeira conferiu e comentou, rindo:
-
Um bem-te-vi-do-bico-largo...
Teresa
já apreciava outro suco misto abacaxi-pitanga, uma maravilha; Alice comentou:
-
Dizem que a primeira vez é qualquer coisa, assim, tipo...
Teresa
interrogou:
-
Como, quando e por que, você sabe?
-
Todo mundo já sabe.
Teresa
ainda tinha dúvidas:
-
Acho os meninos uns vira-latas, e as meninas umas icamiabas.
Alice
se confundiu:
-
Não sei mais. Acho que preferia ter nascido arara-azul-grande ou uma
gralha-azul ou um tururim. Uma flor do campo azedinha e de florzinha lilás,
vestida de verde, tocada de sol e ventos.
Flanando
pelas calçadas em frente das lojas, Alice se apaixonou por um vestido vermelho,
todo vermelho com uns bordados de fios de ouro, abertura lateral, então, correu
para casa e chateou:
-
Mãe, eu preciso senão eu morro!
A
mãe procurou em vão correr da conta, a menina teimou:
-
Eu quero, eu preciso, eu morro. É minha vida. Prometo qualquer coisa!...
E
tanto fez, etecétera, que mãe prometeu gastar economias. Assim, então, Alice
esperava ocasião chique para estrear.
Alice
conheceu Carlos Alberto num aniversário de Carolina. Ele tinha jeito de
cachorrinho salsicha abandonado e suplicante. Ele era do Gramadinho. Ele tinha
olhos úmidos e cara de cachorrinho pedinte. Alice aceitou lhe estender a mão.
Ele lambeu a mão. Acabou a festa 4h 20min. Alice deixou lamber o braço, o
pescoço. Combinaram se encontrar segunda-feira no colégio, debaixo do pé de
perova-amarela.
A
menina rolava nua sobre a cama, saída do banho e perfumada, tinha os desejos e
assim tocava os bicos dos seios, olhava os pelos, puxava os pelos, suspirava de
olhos fechados, corria ao espelho para ter certeza da cor dos próprios olhos,
sonhava viver dentro da tevê, morar num programa de tevê ou numa novela,
namorar um Peri, modelar nos desfiles de São Paulo, e Europa, e Japão, comprar
uma casa em Canoa Quebrada ,
passear de barco a vela sob o sol num oceano calmo e cristalino, conhecer gente
de celebridade, esquiar, dar entrevistas e autógrafos, falar ao telefone o
máximo possível com palavras de sueco, tatuar beija-flor no ombro esquerdo,
fugir de dar entrevistas, amar Peri para sempre e descer de canoa,
secretamente, pelo rio Cristalino, dar entrevistas na tevê de domingo e fugir
dos fãs no aeroporto Salgado Filho, e para os nervos um chá de camomila.
Assistiam
ao filme agarradinhos, abraçadinhos, coladinhos, pombinhos. Precisava ver,
Alice e Carlos Alberto se beijavam de estalinhos todo o tempo. Trocavam
cócegas. Ele pegou o peito, ela cruzou os braços.
Terminada a
sessão, chovia desastradamente. Estacionaram o carro e ficaram se tocando e se
cheirando e se experimentando em meio ao escurinho do deserto. Alice se deixou
explorar, Alice e os cinco sentidos, então, seus seios sobraram fora da camisa,
tonteou. A música do cd era um todo com a chuva batendo no capô, mas não se
ouvia som algum, o mundo os deixava em paz. Quase debaixo de um butiazeiro, ali onde as
três ruas se encontram - a Presidente Vargas e a Borges de Medeiros e a Buarque
de Macedo -, e por onde chovia também. Confusão no pequeno espaço interior do
carro, o mergulho na piscina e o abandono entre os peixinhos coloridos, seixos
rolados, os baús dos tesouros de piratas. Do lado de fora a chuva não parava e
no interior a música também. Depois a música não parou, a chuva não parou, os
olhos de Alice pararam olhando sem ver.
Alice
se agarrou à toalha felpuda, tremia e soluçava, mãe a conduziu ao banho, e a
despiu do calçado e das meias bicolores, as mãos de mãe eram quentes, ótimas,
Alice soluçou baixinho, os olhos nublados, mãe a despiu da minissaia, da
camisa, da calcinha, Alice entrou no chuveiro, e mãe afetuosa passou a esponja
de espuma nas costas, nos seios, no umbigo, nas coxas, pôs xampu nos cabelos,
Alice se deixou levar, mãe passou a esponja de espuma nos braços, na bunda, nas
pernas, e deu um selinho na pontinha dos lábios da filha, Alice não abria os
olhos, mãe esfregou a esponja de espuma na barriga, nas coxas, nos seios da
menina, Alice se deixava lavar, Alice confundiu lágrimas quentes e desenxabidas
com sabão e água de chuveiro, mãe lambeu o rosto e enxaguou o corpo tímido de
Alice, a menina abriu os olhos e eram azuis e doces, mãe chupou as pontas dos
dedos e beijou a pontinha dos lábios escarlates de Alice.
Alice
quase esqueceu de tremer e soprar. Mãe tocou na menina com um beijo de pontas
de lábios e fez acordar um sorriso, já era um sorriso mesmo assim. Alice secou
os cabelos, escovou os dentes com sabor hortelã explosão, mãe perfumou de leve
e suave jasmim o corpo da guria e vestiu a calcinha e o pijama na filha. Alice
foi guiada pela mão até a cama, bocejou cansada no caminho porque lá fora o
tempo não parava. Mãe contou história leve e corrente como um córrego na
planície verde, a menina dormiu antes de bater na porta do céu. Boa noite para
quem era de dentro da noite. E a noite tinha sono. Obrigada.
-
Afunda muito?
Outubro
e novembro e dezembro são ventos e rios de pitangas e guabirobas; março,
principalmente, são carnavais de butiás e araçás e goiabas-do-mato e
sete-capotes. Sempre é estação de bem-te-vis-do-gado, tico-ticos,
sabiás-laranjas, coleirinhas-da-serra, canarinhos-da-terra.
A
cidade dos neopratenses sempre foi pintada em branco, amarelo, azulzinho,
verde, e poucos prédios altos, pracinha com bancos e árvores grandes,
cidadezinha que nasceu numa bacia de montes, nas alvoradas bandos de
passarinhos tomam o café da manhã nos pátios e calçadas e gramados, zumbe a
vespa amarela de lista preta, o homem fala e cochicha e grita e resmunga e
mussita, igreja há no alto do barranco, branca, a torre sai como dedo furabolos
para o céu, sábados e domingos e dias feriados o povo exercita a calma e a
paciência, sim, é verdade, voam andorinhas e corruíras, a nave com raios de sol
se destaca em raios coloridos através dos vitrais de cores, a nave espacial sem
vento sem rio sem tempo sem nada.
Alice
desceu do auto, os olhos construindo tardes comuns e brancas, tempo
azul-clarinho, tarde lavada pelo vento corrente, pinceladas de sol se
entregando na tardezinha. Que a felicidade seja a sua sombra! Uma tarde que o
coração batia no peito, nos olhos, nos ouvidos, no sorriso, na garganta, nos
dois ou três coqueiros-barrigudos aí do lado da escadaria.
Seria
outro planeta. Embarcaria numa nave do futuro. Seria roubada por um tempo fora
de série. Seria purificada de esperança. Seria mais madura do que o próprio
sol.
Ergueu
os olhos para o alto da escadaria da igreja, veio uma onda do mar esbarrar nos
seus joelhos, ajeitou o vestido branco, branco como uma nuvem branca, branco
como uma alma quieta, eram uns oitenta degraus e mais, o sonho lhe sorria e
sorriu para o sonho, subiu branca e azul como a pomba de uma paz, cheirando a
orquídeas e outras flores, compenetrada, tonta, os convidados aplaudindo,
música de pétalas de rosas amarelas, todos eram sorrisos, tipo mesmo como de um
filme, a tarde pintada, o rosto com tons de vermelho, o altar da luz da cruz
como uma porta do céu guardada de luz, quem tinha pressa de chegar?, cor e
cores tocando flauta-doce, serafins, querubins, nuvens, polens, mares,
protofonias amazônicas, iaras - mães do ouro e das pedras preciosas, filhas da
lua, rainhas das águas.
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