sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Alice Para Sempre (romance) Capítulo 1




            Alice ouviu alguns passarinhos, manhãzinha recente, gorjeios e cantares diversos, e daí abriu a janela, viu cores e borboletas, abelhas, besouros e isabelinhas. As nuvens raras acolchoavam ou algodoavam o azul. Crescer e pensar por si mesma. Uma catarata de perguntas:
            - De que são feitos os dias? Por que é que estou aqui?
            Aspirou o ar de árvores molhadas, flores se abrindo e passarinhos movidos a sol, e não pensou em nenhum desafio importante, barcos a vela, emas e tamanduás-bandeiras corriam como balões e balõezinhos o campo azul, desejou as coisas mais mais que já ouvira falar. Mas por que perguntou? O sol ia ajeitando as cores do dia, os sons do dia, os lugares para as coisas do dia:
            - Aquele algo sempre demais demais que vem nos milagres.
            Trouxe com os olhos o azul para o espelho, se penteou, molhou a ponta dos lábios e saiu para o colégio.
As casas e prédios estavam ali, as ruas estavam ali, as árvores em fila indiana, os carros chispando. As pessoas iam e vinham carregando o tempo debaixo do braço. As gameleiras-brancas entre si trocavam perguntas e respostas e opiniões e bocejos. Vento fugindo do vento, vento fugindo do mar azul do céu, mais fugindo e barcos a vela voando.
Essa menina nunca parou para pensar. Ouviu falar que no princípio tudo e nada fora a mesma coisa, se perguntou:
            - Como pôde esse tudo sair do nada?
            E o caos entregue a Deus, que pode tudo, que deu um jeito, arco-íris como resumo do dia. Pelo interior dela, Alice, infinitos desejos, palpitações, tonteiras, galhos, queimações, explosões, trevas, luas.
            - Mas o que é que eu posso e não posso fazer? Vamos, alguém me diga, quero saber.
            Mirou-se no espelho de corpo inteiro, frente e verso e perfil, horas e horas ali, o batom vermelho beijou a lâmina de vidro, peitinhos empinados e barriguinha para dentro e bundinha para cima, os olhos suplicantes de cachorrinha lavada. Olhos de água doce e cristalina. Olhos que pareciam sempre voltar de país distante, um lugar que somente ela conhecia, somente ela conseguia, e somente ela desconhecia. Alice do espelho era a verdadeira, imagem não mente. Ficou quieta e, talvez, também o mundo.
            Tempos passados e antigos, a menina era excelente aluna, obediente de todos, naturalmente tinha um olhar doce e cristalino, e um sorriso e um riso de canarinha-da-terra, carismática, ia direto para a escola e da escola para casa, não dormia sobre o caderno de deveres, mais suave que um bichinho de estimação, mais clarinha que um poema surrealista, mais doce que um filhote de corruíra, mais limpa que água nascida da pedra.
            Hoje já mudou, hoje sonhava, olhava os meninos bonitos, ou se fingia, se achava, assistiu Peri e Ceci, caminho do Piabiru, se viu sentada na imagem da canoa descendo o rio, ouvindo os sons do mato, Peri remava, Peri forte pra burro, Peri buscando frutos e pescando e caçando, entrou a noite, Peri gostava de Alice, dormiram no mesmo galho, se beijaram procurando estrelas no céu da boca, Peri cheirava à flor de chá, Alice encantada, o corpo de Peri ali, sonhado, e o buriti acordou carregado de almas-de-gato e araras-vermelhas-grandes e bem-te-vis-do-bico-largo.
Alice procurava sim tanta coisa, e via tanta coisa a sua frente. Alice desejava tanta coisa, e não entendia de nada. Necessidade de procurar, de se exibir para o mundo?, de se expandir. Tudo seria novidade, tudo novidade, novidade. A novidade a deixava fora de si. E não a deixava pensar. Tudo de bom em qualquer lugar. Era agora ou nunca que ela estava acordando para sair. Entrar pelos caminhos sem poder parar. Ventos salgados, ventos doces, ventos frios, ventos cheios, ventos amarelos, quatro ventos.
            - Eu já fui e já voltei? Duvido!
            E quando se adora? Ama-se o que não se tem, ou o que se poderia ter e não se terá. Ama-se quanto se quer, até onde se quer. Ama-se em silêncio, ama-se em segredo, ama-se de olhos fechados, ama-se sem olhar. Ricardo, perguntou:
            - Áli, posso namorar você?
            Alice, surpreendida, prorrogou:
            - Não sei. Vou pensar, em casa.
            Chegaram no portão de casa, se despediram, depois a menina já foi correndo perguntar à mãe:
            - Mamã-nhê! Posso namorar com o Ricardo? Ele me convidou.
            A mãe torceu os beiços, pensativa, de repente alerta, assustada, torceu os dedos das mãos, torceu os lábios, depois comprou a briga:
            - Pode, mas vê lá, hein?! Só de brincadeira. Você ainda é uma guria de quatorze pra namorar sério, viu?!
            Alice sorriu, agradeceu, fez continência, saiu pensando e com profunda necessidade de ficar pensando sozinha no quarto. Sumiu correndo para o quarto e fechou a porta. Tinha a sensação que o mundo era com ela mesma ali presente e para sempre. Fechou as pálpebras e abriu os olhos para dentro de si. E o que se poderia fazer, o que se iria fazer. Foi brincar com o celular.
            Alice se despiu de índia, foi pular como se pula na tribo, adorava carnaval, conheceu Leonardo, olhos de Peri, Leonardo veio de presidiário e número tal, Alice caxinauá se deixou beijar, a caravana no deserto do Saara, “alá lá oh! oh! oh!.. mas que calô, oh! oh! oh!...”, serpentinas e suores e confetes, “estava atravessando o deserto do Saara...”, pularam do trenzinho e saíram até o pátio, estacionamento de camelos e tapetes mágicos, muitos beduínos e beduínas aí, muitos cameleiros aí, e outros piratas, odaliscas, e os dois se grudaram nos beijos, com estalinhos, trocando salivas, olhando bem de perto, rindo, Alice aprendia a gostar de beijar, aprendia a imergir e emergir na hora certa, confessou:
            - Beijar você, Leonardo, é a melhor coisa que já faço na vida.
            - Muito obrigado, são seus olhos. (?)
            Então, Alice se emocionou mais ainda. Quando o beijava era a si mesma que beijava. Amou sentir rosto com rosto, o calor dos apertos, o sufoco das pulsações, as orelhas pegando fogo nas pontas, lábios abertos, o sangue nas veias descendo e subindo corredeiras e cascatas, tudo se incendiando, gosto diferente na língua, as pernas trêmulas, os seios endurecendo, sabe-se lá o quê, o sangue descendo como encachoeirado, nariz com nariz, as amigas perguntaram:
            - Onde e o que com Leonardo?
            Alice, simplesmente de ouvido no celular, e dissilabicamente:
            - Nada.
            A primeira vez que entrou no laboratório biológico do Aparecida, enjoou com o cheiro dos produtos, espiou a rãzinha dissecada e sentiu pena. Ritinha vomitou. Aliás, Rita Marina no início riu, daí tossiu, até chorou e, então sim, acabou vomitando verde. E por muitos tempos Rita, toda vez que ria ou tossia, e recordava o dia, acabava vomitando sem querer, sensacionalmente verde.
            Outra noite Alice sonhou que descia o rio Pratinha na canoa. Era um rio maneiro. Podia ser o rio Camaquã? Podia ser o rio Tramandaí? Peri, seu bem querer, não aparecera em parte alguma. Alice sentia frio, muito mal-estar, ouvia ruídos estranhos, via a face da lua por trás dos galhos secos, formas raras, dinossáuricas, as montanhas pré-históricas, e muito mais, não possuía um remo sequer, deslizava na vontade da corrente como num caldo caótico, tempo frio, e um silêncio de tocaia, um silêncio de corredor de hospital, um frio de hospital, um frio branco com perigo de tocaia.
            E qual a lagoa dos Patos disso tudo? E qual o labirinto disso tudo? E qual o ximango disso tudo? Qual o minuano disso tudo? Qual a piroga disso tudo? Qual a lenda amazônica disso tudo?
            Tudo estava para acontecer, surpreender, pular repentinamente a sua frente a qualquer momento. E como flor, como passarinho, Alice sofria de excesso de luz. Alice delirava por excesso de sonho. Alice amava seus cabelos. Alice queria peitos, tinha peitos e não queria peitos. Alice desconfiava que tinha um joelho maior que o outro joelho.
            Eram oito horas, a cidade maquinava, o sol estava bom, e não acontecia nada. No meio do gramado de uma casa, entre trepadeiras e pedras, uma carroça desatrelada e enfeitada. O mundo rodava nos olhos da humanidade, que seguia em frente.
            A menina chegou ao colégio e já recebeu flores de Ricardo. E ele tentou lhe beijar a mão, tentou também olhar as meninas dos olhos lá dela. Mas ela se encolheu, ficou com as orquídeas e os cravos lilases, e se distraiu a aula toda, não olhou à direita nem à esquerda, empreendeu uma viagem rumo ao sol, como um beija-flor-de-topete irisado. Ricardo escreveu bilhete repleto de paixão e cheio de dedos. Alice leu e releu e nem piscou. Alice até fez um muxoxo. Estimou, refunfou, odiou, não olhou para os lados, muito menos para trás, e hoje em dia adora e tal.
No final do período Ricardo correu atrás, e perguntou, por exemplo:
            - Áli, você não me ama mais?
            Alice, celular no ouvido, cabelos soltos ao vento, definitivamente:
            - Está claro que não!
            Alice já estudava muito pouco, estava mais para um passarinho que procurasse procurasse o fim do mundo. Peri, olhos verdes, cabelos longos e negros, corpo de atleta e o sorriso de comercial de consumo... A menina não mostrava cadernos e livros para a mãe, mãe vinha estranhando, mãe pensando alto:
            - Que será que acontece com a minha menina dos olhos?
            Alice preferia mais se recolher ao isolamento do seu quarto, ficar ali ligando e desligando o celular, e só saía para as refeições, e comia pouco, gostava de geleia de abacaxi. Peri era corajoso e carinhoso e se vestia das penas das araras-azuis-grandes mais raras e das penas das gavioas-carijós mais difíceis. A mãe não aguentou:
            - Minha menina, você precisa se cuidar. O que te acontece? Fala o problema. Alguma dúvida? Por favor, não esconda nada da sua mamãe. Você sem dúvida precisa de mim. Responda presente!
            Alice aliviou o peso das costas da mãe:
            - Não se preocupe. Não tenho nada de mais, nem de menos. Acredite.
            A mãe percebeu que Alice crescera. Já a menina lembrou um cartão-postal de Quixadá, e sonhou com uma viagem a Petrolina-Juazeiro direto pelo rio São Francisco. Vestia short floreado e miniblusinha floreada até o umbiguinho. Por que Petrolina-Juazeiro? Alice ouvia passarinhos cantando lá fora e eram muitos. Queria um boné com a aba virada. Declarou ao espelho:
            - Deus não fala comigo, e sei muito bem que me conhece.
            Era com Teresa que Alice dividia os cálculos e problemas e fórmulas e telefonemas. Teresa de voz aguda, as partes rechonchudas, de rir muito por qualquer motivo, das expressões típicas do vale-tudo, dos torpedos e mensagens. Não faziam segredos. Alice, por falar nisso, se queixou das péssimas notas, que os guris chateavam, que os guris tinham mania de puxar o cabelo; Teresa contou do seu último pingente, e seu enjôo de dietas, e seu novo amiguinho. Alice, quando se dava conta, quando se achava, ria pouco e se sentava como uma dama; Teresa já queria descer o rio Madeira, ou o Tocantins, conhecer e conviver na reserva da tribo dos ianomâmis. E Alice, única:
            - Hum!... Os parintintins comem beijus?
            Teresa, quase totalmente esportiva:
            - Oi! Os nambiquaras comem peixes do rio Areias, é.
            E Alice, de repente, o olhar deserto ou escandalizado:
            - Que lugar você acha o máximo?
            Teresa pensou, fez que pensava, os olhos no ar, o queixo caído sobre o mar, a boca cheia de água, e tentou:
            - Ilha do Arvoredo? Ilha de Marajó? Ilha do Bananal?
            O primo Guyra, lá do Guabiju, veio para um fim de semana. Alice não gostou, a princípio. E ele se mostrou bonzinho, educado, prestativo, assombrado, rinchante, assobiador. E se sabe que todas as manhãs nascem puras e elegantes, nascem transparentes e manhãzinhas, todas manhãs, manhãs prontinhas.
E no domingo os dois foram passear pelo Centro, tomaram sorvete, assistiram cinema, comeram pipoca, rodearam a pracinha da Bandeira três vezes, comeram mandolate. Em casa Alice lhe mostrou as fotos no computador, o álbum com viagem na excursão a Canela e Gramado, fim de semana na cascata da Usina, e não se largaram mais. Alice o deixou mexer no vídeo, no celular, trocar água do peixinho do aquário, tocar nos seus cabelos, o menino perguntou:
            - Áli, quer ver o meu particular guapuruvu?
            Alice tonteou, envelheceu cem anos em um segundo, não acreditou ter ouvido o que acabara de ouvir, e com cor de tomate maduro nas maçãs do rosto de pele de pêssego, disse:
            - Mas que tipo!!!...
            O primo Guyra, fora de si, fora da lei, baixou as calças e exibiu, pronto, estrela alfa polar da ursa menor. Alice já petrificada não sabia mais se tugia ou se mugia. O guri se ajeitou, se recompôs. Não brincaram mais. No outro dia o primo viajou cedo; Alice ainda dormia.
            Alice escrevia na agenda, comprava cores de perfumes, se penteava horas e horas, logo logo mudaria também aquele penteado e a cor do cabelo, escutava músicas, ligava para Teresa, calçava sapatos plásticos de salto alto, para já necessitava de um novo celular, louca por chocolate branco, pintava os lábios com batons vermelhos ou lilases, colecionava frases e gírias, escovava os dentes com sabor hortelã, rolava na cama, olhava os pelos, uma margarida aberta na orelha, expressões vale-tudo na ponta da língua: e daí?!, fui!, tô fora!, jamé!, conforme!
            Pela primeira vez naquele ano, pela segunda vez naquele mês, pela terceira sombra daquele dia. As pedras cresciam, as nuvens falavam, mamãe ensaiava piano na praça debaixo de chuva. Os sinos não tocavam, nem bimbalhavam, badalavam, tilintavam, soavam, nem repicavam. A menina Alice brincava de procurar penteados para suas melenas.
            - Vou dormir e me teletransportar, oquei?! Vou dar uma volta por alto. Aí, não sei quando... volto, desço, e desço agarrada ao Cruzeiro do Sul. Mais ou menos.
            Corria o décimo terceiro mês do ano. As nuvens se tocavam, passavam, se desagregavam, proseavam, serviam de poleiro para almas-de-gato. Signo da menina? O horóscopo dizia que o sol mandava um mico-leão-dourado feito de fogo, e mais metal de ouro, e cor alaranjada ou dourada, e perfume sândalo.
            Na lanchonete Cata-Vento, Teresa apreciava bolo de coco com suco misto pequi-tangerina, uma delícia; Alice apreciava pastelzinho de brócolis e suco misto caju-acerola, sensacional; Teresa reparou:
            - Áli, você já olhou... o Juno, hein?!
            Alice tentando não dar bandeira conferiu e comentou, rindo:
            - Um bem-te-vi-do-bico-largo...
            Teresa já apreciava outro suco misto abacaxi-pitanga, uma maravilha; Alice comentou:
            - Dizem que a primeira vez é qualquer coisa, assim, tipo...
            Teresa interrogou:
            - Como, quando e por que, você sabe?
            - Todo mundo já sabe.
            Teresa ainda tinha dúvidas:
            - Acho os meninos uns vira-latas, e as meninas umas icamiabas.
            Alice se confundiu:
            - Não sei mais. Acho que preferia ter nascido arara-azul-grande ou uma gralha-azul ou um tururim. Uma flor do campo azedinha e de florzinha lilás, vestida de verde, tocada de sol e ventos.
            Flanando pelas calçadas em frente das lojas, Alice se apaixonou por um vestido vermelho, todo vermelho com uns bordados de fios de ouro, abertura lateral, então, correu para casa e chateou:
            - Mãe, eu preciso senão eu morro!
            A mãe procurou em vão correr da conta, a menina teimou:
            - Eu quero, eu preciso, eu morro. É minha vida. Prometo qualquer coisa!...
            E tanto fez, etecétera, que mãe prometeu gastar economias. Assim, então, Alice esperava ocasião chique para estrear.
            Alice conheceu Carlos Alberto num aniversário de Carolina. Ele tinha jeito de cachorrinho salsicha abandonado e suplicante. Ele era do Gramadinho. Ele tinha olhos úmidos e cara de cachorrinho pedinte. Alice aceitou lhe estender a mão. Ele lambeu a mão. Acabou a festa 4h 20min. Alice deixou lamber o braço, o pescoço. Combinaram se encontrar segunda-feira no colégio, debaixo do pé de perova-amarela.
            A menina rolava nua sobre a cama, saída do banho e perfumada, tinha os desejos e assim tocava os bicos dos seios, olhava os pelos, puxava os pelos, suspirava de olhos fechados, corria ao espelho para ter certeza da cor dos próprios olhos, sonhava viver dentro da tevê, morar num programa de tevê ou numa novela, namorar um Peri, modelar nos desfiles de São Paulo, e Europa, e Japão, comprar uma casa em Canoa Quebrada, passear de barco a vela sob o sol num oceano calmo e cristalino, conhecer gente de celebridade, esquiar, dar entrevistas e autógrafos, falar ao telefone o máximo possível com palavras de sueco, tatuar beija-flor no ombro esquerdo, fugir de dar entrevistas, amar Peri para sempre e descer de canoa, secretamente, pelo rio Cristalino, dar entrevistas na tevê de domingo e fugir dos fãs no aeroporto Salgado Filho, e para os nervos um chá de camomila.
            Assistiam ao filme agarradinhos, abraçadinhos, coladinhos, pombinhos. Precisava ver, Alice e Carlos Alberto se beijavam de estalinhos todo o tempo. Trocavam cócegas. Ele pegou o peito, ela cruzou os braços.
Terminada a sessão, chovia desastradamente. Estacionaram o carro e ficaram se tocando e se cheirando e se experimentando em meio ao escurinho do deserto. Alice se deixou explorar, Alice e os cinco sentidos, então, seus seios sobraram fora da camisa, tonteou. A música do cd era um todo com a chuva batendo no capô, mas não se ouvia som algum, o mundo os deixava em paz. Quase debaixo de um butiazeiro, ali onde as três ruas se encontram - a Presidente Vargas e a Borges de Medeiros e a Buarque de Macedo -, e por onde chovia também. Confusão no pequeno espaço interior do carro, o mergulho na piscina e o abandono entre os peixinhos coloridos, seixos rolados, os baús dos tesouros de piratas. Do lado de fora a chuva não parava e no interior a música também. Depois a música não parou, a chuva não parou, os olhos de Alice pararam olhando sem ver. 
            Alice se agarrou à toalha felpuda, tremia e soluçava, mãe a conduziu ao banho, e a despiu do calçado e das meias bicolores, as mãos de mãe eram quentes, ótimas, Alice soluçou baixinho, os olhos nublados, mãe a despiu da minissaia, da camisa, da calcinha, Alice entrou no chuveiro, e mãe afetuosa passou a esponja de espuma nas costas, nos seios, no umbigo, nas coxas, pôs xampu nos cabelos, Alice se deixou levar, mãe passou a esponja de espuma nos braços, na bunda, nas pernas, e deu um selinho na pontinha dos lábios da filha, Alice não abria os olhos, mãe esfregou a esponja de espuma na barriga, nas coxas, nos seios da menina, Alice se deixava lavar, Alice confundiu lágrimas quentes e desenxabidas com sabão e água de chuveiro, mãe lambeu o rosto e enxaguou o corpo tímido de Alice, a menina abriu os olhos e eram azuis e doces, mãe chupou as pontas dos dedos e beijou a pontinha dos lábios escarlates de Alice.
            Alice quase esqueceu de tremer e soprar. Mãe tocou na menina com um beijo de pontas de lábios e fez acordar um sorriso, já era um sorriso mesmo assim. Alice secou os cabelos, escovou os dentes com sabor hortelã explosão, mãe perfumou de leve e suave jasmim o corpo da guria e vestiu a calcinha e o pijama na filha. Alice foi guiada pela mão até a cama, bocejou cansada no caminho porque lá fora o tempo não parava. Mãe contou história leve e corrente como um córrego na planície verde, a menina dormiu antes de bater na porta do céu. Boa noite para quem era de dentro da noite. E a noite tinha sono. Obrigada.
            - Afunda muito?
            Outubro e novembro e dezembro são ventos e rios de pitangas e guabirobas; março, principalmente, são carnavais de butiás e araçás e goiabas-do-mato e sete-capotes. Sempre é estação de bem-te-vis-do-gado, tico-ticos, sabiás-laranjas, coleirinhas-da-serra, canarinhos-da-terra.
            A cidade dos neopratenses sempre foi pintada em branco, amarelo, azulzinho, verde, e poucos prédios altos, pracinha com bancos e árvores grandes, cidadezinha que nasceu numa bacia de montes, nas alvoradas bandos de passarinhos tomam o café da manhã nos pátios e calçadas e gramados, zumbe a vespa amarela de lista preta, o homem fala e cochicha e grita e resmunga e mussita, igreja há no alto do barranco, branca, a torre sai como dedo furabolos para o céu, sábados e domingos e dias feriados o povo exercita a calma e a paciência, sim, é verdade, voam andorinhas e corruíras, a nave com raios de sol se destaca em raios coloridos através dos vitrais de cores, a nave espacial sem vento sem rio sem tempo sem nada.
            Alice desceu do auto, os olhos construindo tardes comuns e brancas, tempo azul-clarinho, tarde lavada pelo vento corrente, pinceladas de sol se entregando na tardezinha. Que a felicidade seja a sua sombra! Uma tarde que o coração batia no peito, nos olhos, nos ouvidos, no sorriso, na garganta, nos dois ou três coqueiros-barrigudos aí do lado da escadaria.
            Seria outro planeta. Embarcaria numa nave do futuro. Seria roubada por um tempo fora de série. Seria purificada de esperança. Seria mais madura do que o próprio sol.
            Ergueu os olhos para o alto da escadaria da igreja, veio uma onda do mar esbarrar nos seus joelhos, ajeitou o vestido branco, branco como uma nuvem branca, branco como uma alma quieta, eram uns oitenta degraus e mais, o sonho lhe sorria e sorriu para o sonho, subiu branca e azul como a pomba de uma paz, cheirando a orquídeas e outras flores, compenetrada, tonta, os convidados aplaudindo, música de pétalas de rosas amarelas, todos eram sorrisos, tipo mesmo como de um filme, a tarde pintada, o rosto com tons de vermelho, o altar da luz da cruz como uma porta do céu guardada de luz, quem tinha pressa de chegar?, cor e cores tocando flauta-doce, serafins, querubins, nuvens, polens, mares, protofonias amazônicas, iaras - mães do ouro e das pedras preciosas, filhas da lua, rainhas das águas.

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