quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Terra Sem Mal (juvenil) cap. 3




            Lilás gostava de parque de diversões, gostava de brincar de ginasta, gostava de brincar de estátua, gostava de brincar de correr atrás da bola, gostava de brincar com gato. E Lilás brincava de roda ali com as amiguinhas, de rodar até tontear, de ciranda cirandinha. Brincavam de mãos dadas para a esquerda e depois para a direita. Cantavam as canções que lembravam, e riam muito, sempre rindo. Escolhiam os pátios das casas, os jardins dos prédios e as calçadas das praças. Menininhas gostam de brincar e rir muito e muito alto. Batiam palmas, os olhos mais naturais abertos, assim:
            - Batem palmas, gurias!!
            - Batem pés, gurias!!
            - Batem cabeças... ah ah ah!!
            E logo a seguir trocavam assim:
            - Como vai sua boneca, dona Fabi?
            - Mimi vai bem, obrigada!
            - O que que ela come quando tem fome?
            - Salgadinho na frente da tevê!
            - O que que ela bebe quando tem sede?
            - A água doce de limão!
            Bem, e por isso ia tudo. Os dias passavam e não passavam, os meses não iam e nem ficavam, os anos demoravam um século ou até nem existiam. O mesmo tempo em todo lugar em toda parte. E isso quer dizer que em Ivy-Marae o pensamento pode outras coisas. Era melhor fazer alguma coisa e era bom não fazer nada.
            A sorte na terra não é a mesma sorte em I-M ou idêntica à sorte no céu. Cada sorte com seu lugar sua hora e sua sorte.
                                                                       ***
            O dia começava a declinar, o dia principiava a cair, o sol já queria ir embora, o começo da noite se anunciava, o sol dobrava a esquina, a lua subia o morro. As primeiras sombras arrastavam seus cobertores escuros e se acocoravam pelos fundos e cantos onde a claridade já escasseava.
Gavião-Carijó pagou o táxi, apanhou as duas malas e se dirigiu ao balcão de embarque no aeroporto Salgado Filho. Gavião-Carijó não tinha medo de avião. Sempre sentou na janela para olhar o recorte da paisagem. Muitas vezes, por causa dos negócios, umas duas vezes por mês, fazia essa viagem de Canoas a Lindoia do Sul. Não tinha nenhum receio de voar. Já estava vacinado. Gostava de ficar na janelinha para olhar a terra lá embaixo, os retalhões de terrenos prontos para o plantio, as hortas para plantar mandioca, amendoim, araucária, cambuís, etc., isso quando não havia nuvens.
            Às oito da noite finalmente o avião, com Gavião-Carijó e muitos outros passageiros a bordo, decolou da cidade à beira do rio dos Sinos. Lá embaixo um mar de escuridão e luzes artificiais armando um labirinto de sonho em sono.
            Gavião-Indaié leu uma revista e depois relaxou e dormiu. O avião parecia voar calmo e firme e inteiro no mar de escuridão. A nave parecia um peixe fantástico e pré-histórico no oceano escuro. Ou um deus de um mundo de sonho no céu sem obstáculos. Uma pena não se poder olhar a terra lá embaixo.
            Toda pessoa ou bicho ou coisa sempre segue direitinho a estrada que está aí.
            Uma hora o avião bateu numa nuvem de granizo e sofreu um choque e uma pancada e tanto. Então, o avião sofreu e caiu. Foi que o avião deu um grito de espanto e entortou o bico para o chão. Estava muito escuro e ninguém sabia parar o avião de cair e que caía sem jeito, vexado, envergonhado, cheio de gente e bichos muito pequenos.
            O Gavião-Carijó acordou em meio ao pânico generalizado dentro da aeronave. O avião estava em mergulho suicida. Muitos, todos os passageiros gritavam e clamavam por socorro e chamavam pelos santos e pelas santas. Gavião não sabia o que esperar. Ninguém sabia. Todo mundo achava que não estava acontecendo o pior. E a nave continuava seu mergulho doido em parafuso. E caía como uma pedra que cai. E bateu de bico no chão e com toda a força e com toda a gravidade. Explodiu em milhões de pedacinhos e centenas de pedações e outros pedaços. Depois alguém viu o estrago pela tevê e falou isso:
            - Não sobrou nada, meu!
            Pois Gavião-Carijó acordou na manhã clara, e se sentindo estranho... aéreo... leve como uma paina... como uma pluma... branco... Gavião-Carijó não sentiu seus joelhos, não sentiu seu bico curvo, não sentiu seus olhos, não sentiu seu estômago, não sentiu o vento frio e empoeirado esfolando sua roupa de penas, não sentiu suas asas rápidas, não sentiu fome nem sede. E ficou ali, assim mesmo, olhando os seus próprios pensamentos invisíveis e sonhados boiarem no ar calmo do dia quase sem lembrança. Para quem nunca sonhara morrer, chegou o dia. E estava pronto morto, ponto.
            A ave de rapina olhou em torno e se viu no chão e no meio do mato, sem ideia de nada, sem nenhum ferimento, sem nenhuma dor grave, perdido no mato sem gps, sem amor algum, sem saudades, sem celular, sem dinheiro. Olhou mais algumas coisas de luzes coloridas, tentou pegar as coisas, mas tudo parecia ou era mesmo feito de sonho ou vapor. Como tudo que morre, morreu sozinho. Mas, sem explicação por quê?
            Na falta do que fazer, Gavião-Carijó saiu andando. Na dúvida, saiu andando para leste, para o lado do nascente. Sem saber por quê. Um ímã o puxava para leste onde nascia o sol. Estaria sendo encaminhado para o céu, depois do desastre? Andou uma ou duas ou cinco horas, assim pensando, mexendo o bico, falando crocitando para ele mesmo ouvir e se distrair:
            - Depois que as coisas, as pessoas e os bichos morrem, eles e elas viram peixinhos emplumados ou peixinhas emplumadas de aquário? Para onde vão ou são levados e levadas os peixinhos e as peixinhas de aquário? É, são perguntas para me encontrar nas respostas.
            As nuvens toneladas passavam devagar acompanhando o vento. As árvores juremas, pacaris, imburanas, piranheiras, formigueiras todas tremiam as folhas na ansiedade de esperar a chuva. Os animais sibites, anambés-brancos, tiúbas-pretas, embuás, aruanás pediam mais chuva. As pessoas olhavam o tempo e comentavam. Depois o que a chuva fez.
            A ave caçadora andou dias e noites, um dia, dois, uma semana sem conversar com pessoa, bicho, coisa. Cansado, Anajé esbarrou numa árvore umbuzeiro que olhou para ele e riu:
            - Ah ah ah!... Que que houve, meu?!
            Gavião-Carijó sentou para tomar fôlego, e esperou. Depois respondeu:
            - Escuta, árvore Umbuzeiro. Quem descobriu o Brasil?
            A árvore umbuzeiro riu muito e depois se dignou responder, apitou:
            - Foi o Tiradentes.
            E Gavião-Carijó, pediu:
            - Por quê?
Gavião-Carijó ficou esperando a resposta, mas a árvore umbuzeiro não disse mais nada, ficou rindo e sacudindo temperatura de 28 graus Celsius umidade relativa do ar em 97 por cento os galhos ao vento.
            A ave viveu ali ao pé da árvore umbuzeiro por um mês, a fim de descansar, curar as bolhas das garras, meditar o etc. Descansado, curado, etc, se preparou para seguir viagem. Tentou voar e não conseguiu. Foi caminhando, assim mesmo, um pé e outro pé. A sombra do umbu era muito larga e agradável, obrigado.
            Por aí, Gavião-Carijó falou outra coisa antes de partir:
            - Sabe, árvore Umbuzeiro! Eu gosto muito de tigres e tigresas e tigrinhos.
            A árvore umbuzeiro se interessou, riu alto, e até gargalhou, e perguntou:
            - Ah ah ah!... Por quê?
            Gavião-Carijó não a deixou sem resposta:
            - Porque possuem as tais listras, ora!
            O Gavião-C ia admirando naturalmente o que encontrava. Aos poucos, e não tudo de uma vez. Ali, uma árvore guajuvira, duas gabirobeiras, punhado de taquara-pocas, aglomerado de cóculos, cabeleira de barbas-de-bode, facheiro-preto, quixabeira; uma borboleta que não era flor e muito menos passarinho ou beija-flor; um rio tímido com esperança de comprimento; uma estrela-do-mar esperando o trem das dez horas para Mata dos Cocais; uma constelação do Cruzeiro do Sul, outra do Tucano, ainda outra da Flecha, mais uma do Centauro, quem mais?, da Mosca; um ouriço-cacheiro escondido atrás dos caraguatás-acangas; um sapo-cururu tridesconfiado.
            O sapo desconfiado quis pular para o esconderijo, mas Gavião-Carijó o atrapalhou:
            - Ora, ora, seu sapo Desconfiado!
            O sapo desconfiado parou sem graça e respondeu sem tradução:
            - Hum!... Hum!... Hum!...
            E G-Carijó perguntou:
            - Seu sapo Desconfiado, quem descobriu o Brasil?
            O sapo-cururu, desconfiou. Mas respondeu traduzido, coaxou:
            - Foi o Tiradentes.
            E a ave dos altos voos, meio encabulado, guinchou:
            - Por quê?
            Gavião-Indaié se sentou numa pedra para poupar um instante suas garras de unhas potentes. Tirou as sandálias franciscanas de pescador e sentou na pedra. Olhou em volta para um dia lembrar daquela paisagem: céu muito profundo, pinheiros-do-paraná, touceiras de guanxuma e carqueja, coxilhas de manto verde e ondulante. Olhou o sapo desconfiado. O sapo olhava também a ave.
            O rapina teve uma ideia, que acabou falando, concretizando no ar:
            - Sapo Desconfiado, você viu uma zebra, muito apressada, passar por aqui?
            O batráquio pensou, não tirou nada da memória e perguntou:
            - Mas por quê?
            - Porque acho interessante e até divertido e gosto de ver listras, ora. E muito me preocupa.
            Uma ou duas horas, Gavião-Carijó seguiu seu valoroso caminho sem destino ou com destino incerto misterioso. Seguia uma estrada de chão, terra vermelha, morros baixos, talvez de coxilhas, campos, muito sol e um vento leve que vez ou outra carregava um punhado de pó vermelho para os olhos. No dia de luz e vento e pólen, o senhor bem-te-vi-do-brejo, ou senhora bem-te-vi-do-brejo, no alto da taça de grimpas verdes do pinheiro-do-paraná - pose orgulhosa, dando a cara para o vento bater, peito contra o vento, peito amarelo, às vezes dizendo, às vezes dizendo bentevi! -, olhava todo o seu império onde mandava e desmandava, sim senhor. E se chover, mesma coisa, pode andar na chuva, voar na chuva, que não se molha, que não perde a cor e não se sente mal.
            Mais adiante, Inajé encontrou um ipê de chapéu amarelo e cabeleira amarela por baixo do chapéu amarelo. Chegando mais perto, viu que na sombra do ipê-amarelo descansava um boi nelore dos tais mais grandes. Olhava o mundo, os dois olhos bovinos, com olhar bovino e sempre mascando qualquer coisa.
            Gavião-Carijó não pôde passar direto porque estava cansado, morto de cansaço, morto dos pés, morto de sol na cacunda. Aí, apeou da estrada e se dirigiu ao pé do ipê-amarelo. Cumprimentou a árvore, cumprimentou o boi.
            - Oi, gente! Dia veloz, não?! Dia que passa rápido, não?!
            O ipê-amarelo e o boi responderam ao cumprimento. O ipê-amarelo segurava a cabeleira amarela e perfumada com os duzentos braços trançados. Assentado no chão, o boi de canga mastigava um capimpeba verde ali na borda do círculo da sombra. O boi era muito calmo e ótimo bovino de família. Olhando bem, o boi ruminante tinha um olhar bovino manso pacato de grandes olhos parados.
            A ave G-C se sentou por aí na sombra. Não, não tinha vontade de fazer um sono ou um cochilo. Olhou em volta para recordar o panorama: um quero-quero andando de mãos às costas, um longo território de capim-de-andar pronto para o pasto, bando de curicacas gargalhando num pinheiro distante, capão de cambuíns, uma nuvem branca passeando com chapéu-de-sol-de-sapo na cabeça sob pleno céu azul. Depois indagou para quem quisesse responder:
            - Gente! Vocês imaginam por acaso quem descobriu o Brasil?
            O ipê-amarelo deixou cair flores amarelas típicas, mas não muitas, e disse, esticando estalando os ramos:
            - Deve ter sido o Tiradentes.
            O boi de canga, natural da serra do Tará, parou por dez segundos de mastigar alguma coisa que mastigava e respondeu assim:
            - É, foi o Tira.
            Aí, Gavião-Carijó olhou a paisagem por assim, de graça, com o sol. Aqui, ali, acolá, cantos de diferentes aves e passarinhos, pirapuia, fruxu, cururá, sabiá-gongá, anu-coroca. Um quero-quero, dois ou três quero-queros cercavam um espaço de potreiro que julgavam somente para eles, território lá deles exclusivo. Produto leve de painas flutuando... perdiz bebendo na sanguinha... libélulas zonzas... a estrada com lista de caminho pela frente... uma peroba-tabuada guardando uma sombrinha... um assobio de cochicho... cigarras perfurando vidro... família da coruja-buraqueira...
            Gavião-Carijó suspirou e perguntou ou não perguntou, disse:
            - Pois é. Eu admiro muito essa turma dos bichinhos espertos, os tais gambás, e famílias de gambás, e espécies de timbus.
            O boi parou de mastigar por dez segundos e ouvir o ipê-amarelo inquirir e perguntar:
            - E por quê?
            - É que possuem uma faixa ou listra sobre os olhos à moda de máscara mascarados.
            E Gavião-Carijó decidiu que devia partir, e partiu. Partiu andando. A estrada a mesma, o dia aquele, o mundo nem tanto.
            Uma árvore parecia uma árvore, um bicho parecia uma árvore, uma ave parecia uma árvore, um morro parecia uma árvore, uma gameleira-de-veneno parecia uma ema. Tribo dos guató, cestos de taquara nas costas para vender na feira de São José do Calçado, os mais velhos na frente. Todos os dias.
            Gavião-Carijó foi caminhando sem pressa, mas observando a paisagem que se modificava a cada dois ou três quilômetros. Ele tinha saudades do mundo por onde passava, por onde deixava. E não queria esquecer os lugares por onde caminhava andava seguia e deixava. A estrada parecia um carretel que se desenrolava na frente dos olhos e se enrolava na memória.
Lá pelas 10h, de uma quinta-feira, G-C chegou a uma encruzilhada, duas estradas fazendo cruz ou xis. Queria saber por onde seguir. Não sabia por enquanto. Queria saber para que destinos as tais estradas poderiam levar. Então, esperou que alguém viesse e surgisse e lhe informasse. Esperou... Esperou o quê, talvez mais uma hora? Mais duas horas?
            Umas 11h caiu uma chuva gostosa de refrescar de se ouvir de se ver de se falar. Caiu uma chuva molhada que a natureza dava parabéns. E ele nem bebeu. Será que os sapos cantam para chover? Milagre meteorológico. Será que os índios cocuiregatejê dançam para fazer chover? Uma água caindo do céu com toda certeza. Será que os sapos chamam tanta e tanta chuva, hein?! E isto de chuva é muito sensacional; e caem chuvas, caem trovoadas, caem raios, chicotadas de raios de fogo com estrondo. Parece que o céu se racha em tantos pedaços e caem pedaços pelo chão. Chega mosquitama. Vem a garoa. Chuvisca. E passa, passou. A chuva foi embora. As formigas de asas ganharam asas e sobrevoaram até uma certa altura para então cair.
A chuva passou e foi embora. Voltaram mais os coleirinhas de costas acinzentadas, cabeças e caudas escuras, gargantas brancas com colar ou listra negra no pescoço. E os coleiras todos, o gola, o papa-capim, o bigodinho, o coleira-de-sapé, o coleira-do-brejo, o coleira-virada, o coleira-da-baía, o coleira-da-serra, o coleira-pardinho. Todos espalhados no capim-rabo-de-gato, e se equilibrando sensacionalmente nas hastes tenras, no balanço que o vento fazia com o capim. Um vento que chegava voando do norte, mais ou menos.
            Pelas 13h surgiu alguém ou algo mais. Era um ônibus. O coletivo vinha vazio chamando poeira vermelha pelo caminho e assustando folhas secas das árvores da beira da estrada de terra batida. Gavião-Carijó não conhecia o ônibus, e o ônibus conhecia Gavião-Carijó de ouvir falar. Anajé perguntou:
            - Seu Ônibus! Por qual dessas estradas da encruzilhada eu chego à cidade de Ivy-Marae?
            O ônibus não pensou duas vezes. Já sabia, claro. E buzinou:
            - Olha, Gavião-Carijó, eu vou mesmo para lá. Quer uma carona? Todos os caminhos levam a Ivy-Marae, uma vez.
            G-C pensou... Depois G-C sentou na poltrona da carroceria. Ele preferia ter continuado a pé, mas não podia recusar o convite do ônibus. Inajé já perguntou:
            - Você gosta daqueles bichinhos chamados quatis?
            O ônibus achou de pensar, dedo no lábio inferior, os olhos para o alto céu... E por mais que procurasse pensar não conseguiu ver nada na sua memória. E pensou alto, perguntando:
            - Como assim, quatis? O que você quer dizer com os quatis? Explique, não entendi.
            - Assim, olha, é que os quatis possuem listras no cabelo, e isso eu admiro muito, entende?!, as tais listras ou rajas.
            E eles dois seguiram para Ivy-Marae, a cidade sem mal, porque era o destino. E o sol estava perplexo, folhas flutuavam, gaivotas brancas nada nadavam, estrelas estalavam, grilos também estalavam, o calor fazia crepitar a mataria, horas entravam e saíam, a lua era Jaci, palmeirinhas-de-petrópolis vestindo cocar ou canitar, tribo apiacá dançando ao som dos urucás, capão de maioria conabi. O lago acolá, e sempre amigo de todos, alimentado de arroiozinhos brincalhões que desciam afoitos dos morros ao redor. A tarde vinha vindo toda ainda quente e contente, toda florida, e sempre, e limpa, e sempre, e vagarosa e sempre. E um pó de ouro ou pólen no ar.
Parando ali, e olhando, e o que se via? Um mar de verde. A noite atrás da porta, depois do morro. As estrelas ligando o pisca para entrar à esquerda na via-láctea. Boitatá na franja do caponete. As corujas e morcegos de serviço atrasado, farejando o ar.
O ônibus e o Gavião-Carijó ainda não chegavam à praça Triangular. Mas já se viam por dentro do espaço livre de Ivy-Marae.
                                                                       ***
     A menina Lilás estava na escola grupo escolar Tiradentes. E com muita alegria a menina sabia que era a aula de desenho. Então, a professora de desenho sugeriu:
            - Gente! Vamos fazer um desenho livre, hein?! Perguntas?
            A turma vibrou, satisfeita para subir nas asas livres da fantasia, e com perguntas e respostas prontas.
            A menina Lilás era uma menina de uns dez anos de futuro. Nariz com sardinhas. Um cabelo que caía quase até o ombro, talvez mais, e pela testa mechinhas sempre teimando em atrapalhar os olhos e ela gostava e botava para trás nas orelhas. E os olhos eram de passarinho serelepe e solerte. Passava os cabelos sempre para trás das orelhas em mania. A menina Lilás adorava como nunca fazer desenho. Um dia ela ainda seria uma artista pintora naif. E a menina precisava fazer as coisas todas. Que coisas? Inventar o que quisesse e fazer existir o que não existia.
            Aí, a Lilás pensou em voz alta, tentando explicar a si mesma com palavras e gestos de mãos os pensamentos ilusões vindos na ideia:
            - Olha... Que desenho livre eu vou fazer? Sugestão!
            E a menina olhou aquele pequeno retângulo de folha em branco grande como igual a uma porta ou janela. A folha em branco era bonita assim mesmo. Então, a menina sentiu que tinha que caprichar. E pensava. E pensou em voz alta e com gestos de mãos e brilho nos olhos e água na boca:
            - Vai ser a primeira coisa uma casa... Uma casa muito normal e básica... um ranchinho...
            A garota desenhou um quadrado. Depois colocou uma porta e uma janela. Tudo simples como um desenho de casa simples. Em cima um cone ou uma touca de saci que ficou sendo o telhado. E olhou, olhou. Viu que a casa além de normal era pequena e vivia no campo. E pensou alto, sacudindo também o corpo para um lado:
            - Vou escolher as cores e pintar...
            Lilás, então, pintou com lápis a porta de azul, a janela de amarelo, a parede de vermelho, o telhado de verde. Olhou e reolhou. Olhou pensando, coçando um detalhe da bochecha direita e falou alto:
            - Faltam mais coisas, tenho certeza. Há espaço e vou desenhar mais.
            Aí, muito bem, a guria desenhou uma árvore chamada pinheiro-do-paraná. Desenhou o tronco, os galhos e as taças de folhas-espinhos. As folhas-espinhos foram agrupadas como se fossem todas umas nuvenzinhas em taças. E pintou o tronco de amarelo, os galhos de verde e cada nuvem-taça com uma cor predileta. Só faltava se lembrar de algo mais e falar alto:
            - Mais alguma coisa... que eu me lembre...
            Ela achou por bem colocar um céu, três nuvens de verdade mais altas e um sol muito porco-espinho. Pintou o céu de verde, uma nuvem de vermelho e outra de verde e a terceira de azul. O sol foi naturalmente de amarelo espetado.
            Se passou, tudo isso de fazer, um tempo. Alguns minutinhos que a menina nem viu quando que passaram ou não. A menina não viu. Mas já se passaram trinta minutos de lá para cá, e lá se foram. A guria pensava sorrindo para ela mesma. Tinha prazer satisfação de desenhar e se perdia nesse mundo ilustrativo figurativo colorido inventivo.
            Então, achou que já era hora de mostrar para a professora. Ir mostrando como ia indo. A menina apoiou a mão no rosto e chamou com calma:
            - Sora!...
            A professora estava atendendo a Esmeralda e só olhou para o lado e respondeu isso:
            - Hum?!...
            A Lilás insistiu ainda, agora com as duas mãos uma em cada bochecha, cotovelos na mesa, lápis pendurado nos dedos, e ainda com calma:
            - Profe!... Vem vê meu desenho de uma vez...
            A professora olhou na direção e disse, também com calma e compreensão:
            - Já estou indo, Lilás.
            Assim a menina Lilás ainda teve tempo de olhar o desenho muito bem olhado. Olhou o desenho, olhou a casa, olhou a árvore... peraí..., foi o grito que deu para si mesma:
            - Ei, peraí!... Tá faltando uma chaminé nesse telhado vazio!
            Por aí se vê que a menina teve que colocar uma chaminé no telhado da casa e pintá-lo de preto ou de cinza. Chaminé para lareira? Chaminé para fogão a lenha? Chaminé para um carijo? Chaminé para passeio? Chaminé para bonito? Chaminé para luxo? Chaminé para saída de emergência? Chaminé para perfeição de casa?
            Assim chegou a professora e olhou, olhou... foi logo elogiando a beleza, a criatividade e a delicadeza e o bom-humor e a riqueza e a...a sineta tocou. Fim de aula, aula acabou. Até amanhã e passem bem!
            A menina Lilás morava a dois quarteirões da escola, e sua melhor amiga e colega de classe, a Rê, morava para o mesmo lado a três. Voltavam sempre juntas, eram das melhores amigas... assim como iam ao colégio uma na carona da outra. Lilás falava um assunto:
            - Eu queria fazer uma vaca malhada, mas não tive tempo. Até nem havia me lembrado. Acho que vou desenhar a vaca com asas com tatuagem e tudo.
            A Rê também vinha falando:
            - Tá certo. Fiquei na dúvida se desenhava um rio, um lago ou o mar já de uma vez... Mar é melhor verde ou azul? Por que o mar é salgado e o rio é doce?
            As duas vinham lentamente caminhando pela calçada e tricotando conversa vai e conversa vem. E conversavam sem pressa também. Foi por aí que viram um cachorrinho sentado no meio-fio.
            A Rê suspirou e disse:
            - Hum... que cachorrinho bobo..., desculpa, acho que eu quis dizer triste. Não só triste como quieto e perdido e abandonado e superior.
            E a Lilás completou:
            - Hum... Pois é sim um cachorrinho médio e preto. Um cachorrinho ensimesmado. Nem balança a cauda de tão aborrecido que está com qualquer coisa. Parece que até é feito de plástico!
            As meninas se aproximaram, olharam muito atentamente o cão e suspiraram. Ao suspirarem o cachorrinho disse, latindo:
            - Qual de vocês duas quer me adotar? Hein?! Me adotem, por favor! Estou cansado de andar perdido por aí e sem dono ou dona.
            As meninas foram tomadas de dúvidas e perguntas detalhadas. Uma olhou a outra em cara de interrogação. Adotar o cachorrinho? E isso seria possível neste mundo? Haveria lei para isso? A cidade de Ivy-Marae permitia adoção de cusquinhos, de gozoinhos? A vida boa de Ivy-Marae não é cada um por si e todos pela liberdade?
            O guaipequinha olhou para elas com leve esperança nos olhos na cauda por todo o corpo. Depois ele olhou em volta, para cá e para lá, olhou outras pessoas que também passavam ali, etc.
Gente e bichos, se quisessem, se olhassem bem, podiam ver um cavalo pastando sozinho lá no pasto que subia o morro. Escutando bem, um galo cantava atrás de uma casa azul. E o galo voltou a cantar noutros lugares mais distantes como se não fosse o primeiro. E tornou a cantar. O galo era mágico? Uma família de pacas, sossegada, cruzou a rua lá para o final da rua Princesa Isabel.
            E a rua era arborizada de árvores muito fortes, braúna-preta, guaxima, mulungu, cansanção, xiquexique, mandacaru, cacaurana, comandaíba. Passava na rua um ônibus de duas cores principais, vermelho e verde, e passava uma moto, passava um casal de lebres, passava um caxinguelê muito ligado ou ligeiro ou apressado ou irrequieto. Passava o dia calorão suado bom de passeio. Passava o presente, e de maneira muito interativa.

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