Lilás
gostava de parque de diversões, gostava de brincar de ginasta, gostava de
brincar de estátua, gostava de brincar de correr atrás da bola, gostava de
brincar com gato. E Lilás brincava de roda ali com as amiguinhas, de rodar até
tontear, de ciranda cirandinha. Brincavam de mãos dadas para a esquerda e
depois para a direita. Cantavam as canções que lembravam, e riam muito, sempre
rindo. Escolhiam os pátios das casas, os jardins dos prédios e as calçadas das
praças. Menininhas gostam de brincar e rir muito e muito alto. Batiam palmas,
os olhos mais naturais abertos, assim:
-
Batem palmas, gurias!!
-
Batem pés, gurias!!
-
Batem cabeças... ah ah ah!!
E
logo a seguir trocavam assim:
-
Como vai sua boneca, dona Fabi?
-
Mimi vai bem, obrigada!
- O
que que ela come quando tem fome?
-
Salgadinho na frente da tevê!
- O
que que ela bebe quando tem sede?
- A
água doce de limão!
Bem,
e por isso ia tudo. Os dias passavam e não passavam, os meses não iam e nem
ficavam, os anos demoravam um século ou até nem existiam. O mesmo tempo em todo
lugar em toda parte. E isso quer dizer que em Ivy-Marae o pensamento pode
outras coisas. Era melhor fazer alguma coisa e era bom não fazer nada.
A
sorte na terra não é a mesma sorte em I-M ou idêntica à sorte no céu. Cada
sorte com seu lugar sua hora e sua sorte.
***
O dia
começava a declinar, o dia principiava a cair, o sol já queria ir embora, o
começo da noite se anunciava, o sol dobrava a esquina, a lua subia o morro. As
primeiras sombras arrastavam seus cobertores escuros e se acocoravam pelos
fundos e cantos onde a claridade já escasseava.
Gavião-Carijó pagou o táxi,
apanhou as duas malas e se dirigiu ao balcão de embarque no aeroporto Salgado
Filho. Gavião-Carijó não tinha medo de avião. Sempre sentou na janela para
olhar o recorte da paisagem. Muitas vezes, por causa dos negócios, umas duas
vezes por mês, fazia essa viagem de Canoas a Lindoia do Sul. Não tinha nenhum
receio de voar. Já estava vacinado. Gostava de ficar na janelinha para olhar a
terra lá embaixo, os retalhões de terrenos prontos para o plantio, as hortas
para plantar mandioca, amendoim, araucária, cambuís, etc., isso quando não
havia nuvens.
Às
oito da noite finalmente o avião, com Gavião-Carijó e muitos outros passageiros
a bordo, decolou da cidade à beira do rio dos Sinos. Lá embaixo um mar de
escuridão e luzes artificiais armando um labirinto de sonho em sono.
Gavião-Indaié
leu uma revista e depois relaxou e dormiu. O avião parecia voar calmo e firme e
inteiro no mar de escuridão. A nave parecia um peixe fantástico e pré-histórico
no oceano escuro. Ou um deus de um mundo de sonho no céu sem obstáculos. Uma
pena não se poder olhar a terra lá embaixo.
Toda
pessoa ou bicho ou coisa sempre segue direitinho a estrada que está aí.
Uma
hora o avião bateu numa nuvem de granizo e sofreu um choque e uma pancada e
tanto. Então, o avião sofreu e caiu. Foi que o avião deu um grito de espanto e
entortou o bico para o chão. Estava muito escuro e ninguém sabia parar o avião
de cair e que caía sem jeito, vexado, envergonhado, cheio de gente e bichos
muito pequenos.
O
Gavião-Carijó acordou em meio ao pânico generalizado dentro da aeronave. O
avião estava em mergulho suicida. Muitos, todos os passageiros gritavam e
clamavam por socorro e chamavam pelos santos e pelas santas. Gavião não sabia o
que esperar. Ninguém sabia. Todo mundo achava que não estava acontecendo o pior.
E a nave continuava seu mergulho doido em parafuso. E caía como uma pedra que
cai. E bateu de bico no chão e com toda a força e com toda a gravidade.
Explodiu em milhões de pedacinhos e centenas de pedações e outros pedaços.
Depois alguém viu o estrago pela tevê e falou isso:
- Não
sobrou nada, meu!
Pois
Gavião-Carijó acordou na manhã clara, e se sentindo estranho... aéreo... leve
como uma paina... como uma pluma... branco... Gavião-Carijó não sentiu seus
joelhos, não sentiu seu bico curvo, não sentiu seus olhos, não sentiu seu
estômago, não sentiu o vento frio e empoeirado esfolando sua roupa de penas,
não sentiu suas asas rápidas, não sentiu fome nem sede. E ficou ali, assim
mesmo, olhando os seus próprios pensamentos invisíveis e sonhados boiarem no ar
calmo do dia quase sem lembrança. Para quem nunca sonhara morrer, chegou o dia.
E estava pronto morto, ponto.
A ave
de rapina olhou em torno e se viu no chão e no meio do mato, sem ideia de nada,
sem nenhum ferimento, sem nenhuma dor grave, perdido no mato sem gps, sem amor
algum, sem saudades, sem celular, sem dinheiro. Olhou mais algumas coisas de
luzes coloridas, tentou pegar as coisas, mas tudo parecia ou era mesmo feito de
sonho ou vapor. Como tudo que morre, morreu sozinho. Mas, sem explicação por quê?
Na
falta do que fazer, Gavião-Carijó saiu andando. Na dúvida, saiu andando para
leste, para o lado do nascente. Sem saber por quê. Um ímã o puxava para leste
onde nascia o sol. Estaria sendo encaminhado para o céu, depois do desastre?
Andou uma ou duas ou cinco horas, assim pensando, mexendo o bico, falando
crocitando para ele mesmo ouvir e se distrair:
-
Depois que as coisas, as pessoas e os bichos morrem, eles e elas viram
peixinhos emplumados ou peixinhas emplumadas de aquário? Para onde vão ou são levados
e levadas os peixinhos e as peixinhas de aquário? É, são perguntas para me
encontrar nas respostas.
As
nuvens toneladas passavam devagar acompanhando o vento. As árvores juremas,
pacaris, imburanas, piranheiras, formigueiras todas tremiam as folhas na
ansiedade de esperar a chuva. Os animais sibites, anambés-brancos,
tiúbas-pretas, embuás, aruanás pediam mais chuva. As pessoas olhavam o tempo e
comentavam. Depois o que a chuva fez.
A ave
caçadora andou dias e noites, um dia, dois, uma semana sem conversar com
pessoa, bicho, coisa. Cansado, Anajé esbarrou numa árvore umbuzeiro que olhou
para ele e riu:
- Ah
ah ah!... Que que houve, meu?!
Gavião-Carijó
sentou para tomar fôlego, e esperou. Depois respondeu:
-
Escuta, árvore Umbuzeiro. Quem descobriu o Brasil?
A
árvore umbuzeiro riu muito e depois se dignou responder, apitou:
- Foi
o Tiradentes.
E
Gavião-Carijó, pediu:
- Por
quê?
Gavião-Carijó ficou esperando
a resposta, mas a árvore umbuzeiro não disse mais nada, ficou rindo e sacudindo
temperatura de 28 graus Celsius umidade relativa do ar em 97 por cento os
galhos ao vento.
A ave
viveu ali ao pé da árvore umbuzeiro por um mês, a fim de descansar, curar as
bolhas das garras, meditar o etc. Descansado, curado, etc, se preparou para
seguir viagem. Tentou voar e não conseguiu. Foi caminhando, assim mesmo, um pé
e outro pé. A sombra do umbu era muito larga e agradável, obrigado.
Por
aí, Gavião-Carijó falou outra coisa antes de partir:
-
Sabe, árvore Umbuzeiro! Eu gosto muito de tigres e tigresas e tigrinhos.
A
árvore umbuzeiro se interessou, riu alto, e até gargalhou, e perguntou:
- Ah
ah ah!... Por quê?
Gavião-Carijó
não a deixou sem resposta:
-
Porque possuem as tais listras, ora!
O
Gavião-C ia admirando naturalmente o que encontrava. Aos poucos, e não tudo de
uma vez. Ali, uma árvore guajuvira, duas gabirobeiras, punhado de
taquara-pocas, aglomerado de cóculos, cabeleira de barbas-de-bode,
facheiro-preto, quixabeira; uma borboleta que não era flor e muito menos
passarinho ou beija-flor; um rio tímido com esperança de comprimento; uma
estrela-do-mar esperando o trem das dez horas para Mata dos Cocais; uma
constelação do Cruzeiro do Sul, outra do Tucano, ainda outra da Flecha, mais
uma do Centauro, quem mais?, da Mosca; um ouriço-cacheiro escondido atrás dos
caraguatás-acangas; um sapo-cururu tridesconfiado.
O
sapo desconfiado quis pular para o esconderijo, mas Gavião-Carijó o atrapalhou:
-
Ora, ora, seu sapo Desconfiado!
O
sapo desconfiado parou sem graça e respondeu sem tradução:
-
Hum!... Hum!... Hum!...
E
G-Carijó perguntou:
- Seu
sapo Desconfiado, quem descobriu o Brasil?
O
sapo-cururu, desconfiou. Mas respondeu traduzido, coaxou:
- Foi
o Tiradentes.
E a
ave dos altos voos, meio encabulado, guinchou:
- Por
quê?
Gavião-Indaié
se sentou numa pedra para poupar um instante suas garras de unhas potentes.
Tirou as sandálias franciscanas de pescador e sentou na pedra. Olhou em volta
para um dia lembrar daquela paisagem: céu muito profundo, pinheiros-do-paraná,
touceiras de guanxuma e carqueja, coxilhas de manto verde e ondulante. Olhou o
sapo desconfiado. O sapo olhava também a ave.
O
rapina teve uma ideia, que acabou falando, concretizando no ar:
-
Sapo Desconfiado, você viu uma zebra, muito apressada, passar por aqui?
O
batráquio pensou, não tirou nada da memória e perguntou:
- Mas
por quê?
-
Porque acho interessante e até divertido e gosto de ver listras, ora. E muito
me preocupa.
Uma
ou duas horas, Gavião-Carijó seguiu seu valoroso caminho sem destino ou com
destino incerto misterioso. Seguia uma estrada de chão, terra vermelha, morros
baixos, talvez de coxilhas, campos, muito sol e um vento leve que vez ou outra
carregava um punhado de pó vermelho para os olhos. No dia de luz e vento e
pólen, o senhor bem-te-vi-do-brejo, ou senhora bem-te-vi-do-brejo, no alto da
taça de grimpas verdes do pinheiro-do-paraná - pose orgulhosa, dando a cara
para o vento bater, peito contra o vento, peito amarelo, às vezes dizendo, às
vezes dizendo bentevi! -, olhava todo o seu império onde mandava e desmandava,
sim senhor. E se chover, mesma coisa, pode andar na chuva, voar na chuva, que
não se molha, que não perde a cor e não se sente mal.
Mais
adiante, Inajé encontrou um ipê de chapéu amarelo e cabeleira amarela por baixo
do chapéu amarelo. Chegando mais perto, viu que na sombra do ipê-amarelo
descansava um boi nelore dos tais mais grandes. Olhava o mundo, os dois olhos
bovinos, com olhar bovino e sempre mascando qualquer coisa.
Gavião-Carijó
não pôde passar direto porque estava cansado, morto de cansaço, morto dos pés,
morto de sol na cacunda. Aí, apeou da estrada e se dirigiu ao pé do
ipê-amarelo. Cumprimentou a árvore, cumprimentou o boi.
- Oi,
gente! Dia veloz, não?! Dia que passa rápido, não?!
O
ipê-amarelo e o boi responderam ao cumprimento. O ipê-amarelo segurava a
cabeleira amarela e perfumada com os duzentos braços trançados. Assentado no
chão, o boi de canga mastigava um capimpeba verde ali na borda do círculo da
sombra. O boi era muito calmo e ótimo bovino de família. Olhando bem, o boi ruminante
tinha um olhar bovino manso pacato de grandes olhos parados.
A ave
G-C se sentou por aí na sombra. Não, não tinha vontade de fazer um sono ou um
cochilo. Olhou em volta para recordar o panorama: um quero-quero andando de
mãos às costas, um longo território de capim-de-andar pronto para o pasto, bando
de curicacas gargalhando num pinheiro distante, capão de cambuíns, uma nuvem
branca passeando com chapéu-de-sol-de-sapo na cabeça sob pleno céu azul. Depois
indagou para quem quisesse responder:
- Gente!
Vocês imaginam por acaso quem descobriu o Brasil?
O
ipê-amarelo deixou cair flores amarelas típicas, mas não muitas, e disse,
esticando estalando os ramos:
-
Deve ter sido o Tiradentes.
O boi
de canga, natural da serra do Tará, parou por dez segundos de mastigar alguma
coisa que mastigava e respondeu assim:
- É,
foi o Tira.
Aí,
Gavião-Carijó olhou a paisagem por assim, de graça, com o sol. Aqui, ali,
acolá, cantos de diferentes aves e passarinhos, pirapuia, fruxu, cururá,
sabiá-gongá, anu-coroca. Um quero-quero, dois ou três quero-queros cercavam um
espaço de potreiro que julgavam somente para eles, território lá deles
exclusivo. Produto leve de painas flutuando... perdiz bebendo na sanguinha...
libélulas zonzas... a estrada com lista de caminho pela frente... uma
peroba-tabuada guardando uma sombrinha... um assobio de cochicho... cigarras
perfurando vidro... família da coruja-buraqueira...
Gavião-Carijó
suspirou e perguntou ou não perguntou, disse:
-
Pois é. Eu admiro muito essa turma dos bichinhos espertos, os tais gambás, e
famílias de gambás, e espécies de timbus.
O boi
parou de mastigar por dez segundos e ouvir o ipê-amarelo inquirir e perguntar:
- E
por quê?
- É
que possuem uma faixa ou listra sobre os olhos à moda de máscara mascarados.
E
Gavião-Carijó decidiu que devia partir, e partiu. Partiu andando. A estrada a
mesma, o dia aquele, o mundo nem tanto.
Uma
árvore parecia uma árvore, um bicho parecia uma árvore, uma ave parecia uma
árvore, um morro parecia uma árvore, uma gameleira-de-veneno parecia uma ema.
Tribo dos guató, cestos de taquara nas costas para vender na feira de São José
do Calçado, os mais velhos na frente. Todos os dias.
Gavião-Carijó
foi caminhando sem pressa, mas observando a paisagem que se modificava a cada
dois ou três quilômetros. Ele tinha saudades do mundo por onde passava, por
onde deixava. E não queria esquecer os lugares por onde caminhava andava seguia
e deixava. A estrada parecia um carretel que se desenrolava na frente dos olhos
e se enrolava na memória.
Lá pelas 10h, de uma
quinta-feira, G-C chegou a uma encruzilhada, duas estradas fazendo cruz ou xis.
Queria saber por onde seguir. Não sabia por enquanto. Queria saber para que
destinos as tais estradas poderiam levar. Então, esperou que alguém viesse e surgisse
e lhe informasse. Esperou... Esperou o quê, talvez mais uma hora? Mais duas
horas?
Umas
11h caiu uma chuva gostosa de refrescar de se ouvir de se ver de se falar. Caiu
uma chuva molhada que a natureza dava parabéns. E ele nem bebeu. Será que os
sapos cantam para chover? Milagre meteorológico. Será que os índios
cocuiregatejê dançam para fazer chover? Uma água caindo do céu com toda
certeza. Será que os sapos chamam tanta e tanta chuva, hein?! E isto de chuva é
muito sensacional; e caem chuvas, caem trovoadas, caem raios, chicotadas de
raios de fogo com estrondo. Parece que o céu se racha em tantos pedaços e caem
pedaços pelo chão. Chega mosquitama. Vem a garoa. Chuvisca. E passa, passou. A
chuva foi embora. As formigas de asas ganharam asas e sobrevoaram até uma certa
altura para então cair.
A chuva passou e foi embora.
Voltaram mais os coleirinhas de costas acinzentadas, cabeças e caudas escuras,
gargantas brancas com colar ou listra negra no pescoço. E os coleiras todos, o
gola, o papa-capim, o bigodinho, o coleira-de-sapé, o coleira-do-brejo, o
coleira-virada, o coleira-da-baía, o coleira-da-serra, o coleira-pardinho.
Todos espalhados no capim-rabo-de-gato, e se equilibrando sensacionalmente nas
hastes tenras, no balanço que o vento fazia com o capim. Um vento que chegava
voando do norte, mais ou menos.
Pelas
13h surgiu alguém ou algo mais. Era um ônibus. O coletivo vinha vazio chamando
poeira vermelha pelo caminho e assustando folhas secas das árvores da beira da
estrada de terra batida. Gavião-Carijó não conhecia o ônibus, e o ônibus
conhecia Gavião-Carijó de ouvir falar. Anajé perguntou:
- Seu
Ônibus! Por qual dessas estradas da encruzilhada eu chego à cidade de
Ivy-Marae?
O
ônibus não pensou duas vezes. Já sabia, claro. E buzinou:
-
Olha, Gavião-Carijó, eu vou mesmo para lá. Quer uma carona? Todos os caminhos
levam a Ivy-Marae, uma vez.
G-C
pensou... Depois G-C sentou na poltrona da carroceria. Ele preferia ter
continuado a pé, mas não podia recusar o convite do ônibus. Inajé já perguntou:
-
Você gosta daqueles bichinhos chamados quatis?
O
ônibus achou de pensar, dedo no lábio inferior, os olhos para o alto céu... E
por mais que procurasse pensar não conseguiu ver nada na sua memória. E pensou
alto, perguntando:
-
Como assim, quatis? O que você quer dizer com os quatis? Explique, não entendi.
-
Assim, olha, é que os quatis possuem listras no cabelo, e isso eu admiro muito,
entende?!, as tais listras ou rajas.
E
eles dois seguiram para Ivy-Marae, a cidade sem mal, porque era o destino. E o
sol estava perplexo, folhas flutuavam, gaivotas brancas nada nadavam, estrelas
estalavam, grilos também estalavam, o calor fazia crepitar a mataria, horas
entravam e saíam, a lua era Jaci, palmeirinhas-de-petrópolis vestindo cocar ou
canitar, tribo apiacá dançando ao som dos urucás, capão de maioria conabi. O
lago acolá, e sempre amigo de todos, alimentado de arroiozinhos brincalhões que
desciam afoitos dos morros ao redor. A tarde vinha vindo toda ainda quente e
contente, toda florida, e sempre, e limpa, e sempre, e vagarosa e sempre. E um
pó de ouro ou pólen no ar.
Parando ali, e olhando, e o
que se via? Um mar de verde. A noite atrás da porta, depois do morro. As
estrelas ligando o pisca para entrar à esquerda na via-láctea. Boitatá na
franja do caponete. As corujas e morcegos de serviço atrasado, farejando o ar.
O ônibus e o Gavião-Carijó
ainda não chegavam à praça Triangular. Mas já se viam por dentro do espaço
livre de Ivy-Marae.
***
A menina
Lilás estava na escola grupo escolar Tiradentes. E com muita alegria a menina
sabia que era a aula de desenho. Então, a professora de desenho sugeriu:
-
Gente! Vamos fazer um desenho livre, hein?! Perguntas?
A
turma vibrou, satisfeita para subir nas asas livres da fantasia, e com
perguntas e respostas prontas.
A
menina Lilás era uma menina de uns dez anos de futuro. Nariz com sardinhas. Um
cabelo que caía quase até o ombro, talvez mais, e pela testa mechinhas sempre
teimando em atrapalhar os olhos e ela gostava e botava para trás nas orelhas. E
os olhos eram de passarinho serelepe e solerte. Passava os cabelos sempre para
trás das orelhas em mania. A menina Lilás adorava como nunca fazer desenho. Um
dia ela ainda seria uma artista pintora naif. E a menina precisava fazer as
coisas todas. Que coisas? Inventar o que quisesse e fazer existir o que não
existia.
Aí, a
Lilás pensou em voz alta, tentando explicar a si mesma com palavras e gestos de
mãos os pensamentos ilusões vindos na ideia:
-
Olha... Que desenho livre eu vou fazer? Sugestão!
E a
menina olhou aquele pequeno retângulo de folha em branco grande como igual a
uma porta ou janela. A folha em branco era bonita assim mesmo. Então, a menina
sentiu que tinha que caprichar. E pensava. E pensou em voz alta e com gestos de
mãos e brilho nos olhos e água na boca:
- Vai
ser a primeira coisa uma casa... Uma casa muito normal e básica... um
ranchinho...
A
garota desenhou um quadrado. Depois colocou uma porta e uma janela. Tudo
simples como um desenho de casa simples. Em cima um cone ou uma touca de saci
que ficou sendo o telhado. E olhou, olhou. Viu que a casa além de normal era
pequena e vivia no campo. E pensou alto, sacudindo também o corpo para um lado:
- Vou
escolher as cores e pintar...
Lilás,
então, pintou com lápis a porta de azul, a janela de amarelo, a parede de
vermelho, o telhado de verde. Olhou e reolhou. Olhou pensando, coçando um
detalhe da bochecha direita e falou alto:
-
Faltam mais coisas, tenho certeza. Há espaço e vou desenhar mais.
Aí,
muito bem, a guria desenhou uma árvore chamada pinheiro-do-paraná. Desenhou o
tronco, os galhos e as taças de folhas-espinhos. As folhas-espinhos foram
agrupadas como se fossem todas umas nuvenzinhas em taças. E pintou o tronco de
amarelo, os galhos de verde e cada nuvem-taça com uma cor predileta. Só faltava
se lembrar de algo mais e falar alto:
-
Mais alguma coisa... que eu me lembre...
Ela
achou por bem colocar um céu, três nuvens de verdade mais altas e um sol muito
porco-espinho. Pintou o céu de verde, uma nuvem de vermelho e outra de verde e a
terceira de azul. O sol foi naturalmente de amarelo espetado.
Se
passou, tudo isso de fazer, um tempo. Alguns minutinhos que a menina nem viu
quando que passaram ou não. A menina não viu. Mas já se passaram trinta minutos
de lá para cá, e lá se foram. A guria pensava sorrindo para ela mesma. Tinha
prazer satisfação de desenhar e se perdia nesse mundo ilustrativo figurativo
colorido inventivo.
Então,
achou que já era hora de mostrar para a professora. Ir mostrando como ia indo.
A menina apoiou a mão no rosto e chamou com calma:
- Sora!...
A
professora estava atendendo a Esmeralda e só olhou para o lado e respondeu
isso:
-
Hum?!...
A
Lilás insistiu ainda, agora com as duas mãos uma em cada bochecha, cotovelos na
mesa, lápis pendurado nos dedos, e ainda com calma:
-
Profe!... Vem vê meu desenho de uma vez...
A
professora olhou na direção e disse, também com calma e compreensão:
- Já
estou indo, Lilás.
Assim
a menina Lilás ainda teve tempo de olhar o desenho muito bem olhado. Olhou o
desenho, olhou a casa, olhou a árvore... peraí..., foi o grito que deu para si
mesma:
- Ei,
peraí!... Tá faltando uma chaminé nesse telhado vazio!
Por
aí se vê que a menina teve que colocar uma chaminé no telhado da casa e
pintá-lo de preto ou de cinza. Chaminé para lareira? Chaminé para fogão a
lenha? Chaminé para um carijo? Chaminé para passeio? Chaminé para bonito?
Chaminé para luxo? Chaminé para saída de emergência? Chaminé para perfeição de
casa?
Assim
chegou a professora e olhou, olhou... foi logo elogiando a beleza, a
criatividade e a delicadeza e o bom-humor e a riqueza e a...a sineta tocou. Fim
de aula, aula acabou. Até amanhã e passem bem!
A
menina Lilás morava a dois quarteirões da escola, e sua melhor amiga e colega
de classe, a Rê, morava para o mesmo lado a três. Voltavam sempre juntas, eram
das melhores amigas... assim como iam ao colégio uma na carona da outra. Lilás
falava um assunto:
- Eu
queria fazer uma vaca malhada, mas não tive tempo. Até nem havia me lembrado.
Acho que vou desenhar a vaca com asas com tatuagem e tudo.
A Rê
também vinha falando:
- Tá
certo. Fiquei na dúvida se desenhava um rio, um lago ou o mar já de uma vez...
Mar é melhor verde ou azul? Por que o mar é salgado e o rio é doce?
As
duas vinham lentamente caminhando pela calçada e tricotando conversa vai e
conversa vem. E conversavam sem pressa também. Foi por aí que viram um
cachorrinho sentado no meio-fio.
A Rê
suspirou e disse:
-
Hum... que cachorrinho bobo..., desculpa, acho que eu quis dizer triste. Não só
triste como quieto e perdido e abandonado e superior.
E a
Lilás completou:
-
Hum... Pois é sim um cachorrinho médio e preto. Um cachorrinho ensimesmado. Nem
balança a cauda de tão aborrecido que está com qualquer coisa. Parece que até é
feito de plástico!
As
meninas se aproximaram, olharam muito atentamente o cão e suspiraram. Ao
suspirarem o cachorrinho disse, latindo:
-
Qual de vocês duas quer me adotar? Hein?! Me adotem, por favor! Estou cansado
de andar perdido por aí e sem dono ou dona.
As
meninas foram tomadas de dúvidas e perguntas detalhadas. Uma olhou a outra em
cara de interrogação. Adotar o cachorrinho? E isso seria possível neste mundo?
Haveria lei para isso? A cidade de Ivy-Marae permitia adoção de cusquinhos, de
gozoinhos? A vida boa de Ivy-Marae não é cada um por si e todos pela liberdade?
O
guaipequinha olhou para elas com leve esperança nos olhos na cauda por todo o
corpo. Depois ele olhou em volta, para cá e para lá, olhou outras pessoas que
também passavam ali, etc.
Gente e bichos, se quisessem,
se olhassem bem, podiam ver um cavalo pastando sozinho lá no pasto que subia o
morro. Escutando bem, um galo cantava atrás de uma casa azul. E o galo voltou a
cantar noutros lugares mais distantes como se não fosse o primeiro. E tornou a
cantar. O galo era mágico? Uma família de pacas, sossegada, cruzou a rua lá
para o final da rua Princesa Isabel.
E a
rua era arborizada de árvores muito fortes, braúna-preta, guaxima, mulungu,
cansanção, xiquexique, mandacaru, cacaurana, comandaíba. Passava na rua um
ônibus de duas cores principais, vermelho e verde, e passava uma moto, passava
um casal de lebres, passava um caxinguelê muito ligado ou ligeiro ou apressado
ou irrequieto. Passava o dia calorão suado bom de passeio. Passava o presente,
e de maneira muito interativa.
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