Vai que eu fico aqui
Estou
oculto na luminária. Posso e até devo fazer um barulhinho discreto. Sou talvez
um inseto, um besouro espião. Testemunho o assalto com segura distância de invisível.
Tenho mil olhos e olho quem sabe quem viu muito deslumbrado. Assalto à agência
bancária de Nova Prata ou Vila Flores ou Nova Araçá ou Dom Pedrito ou
Ibiraiaras?
Uma confusão na
área de entrada onde ficam os caixas eletrônicos e os balcões de preenchimento.
Correrias, sobressaltos e inquietudes. Bandidos nervosos, funcionários
apavorados, seguranças nervosos e clientes muito nervosos e apavorados. A
polícia já cercou o prédio, tudo. Em frente na praça da Bandeira o povo observa
atrás dos grossos guanandis, saboeiranas, ipadus, embiús-amarelos...
Três bandidos,
armamento pesado, já fugiram pelo pátio do prédio vizinho. Logo a polícia entra
e começa a revistar todas as pessoas e os bichos de estimação. Umas pessoas saem
apressadas e outras são retiradas à força. O fotógrafo do semanário local continua
disparando fleches. E minha irmã...
Que que minha
irmã Aruanã está fazendo no meio do assalto?!
Minha
irmã... grávida?, se esgueira entre os clientes, pede ajuda e tal, pede licença
e tal, toma um copo de água e tal, acaba saindo sem que ninguém se importe com
ela, sem despertar suspeitas, sem ser revistada. Na escadinha, antes da calçada
da rua, ela para e olha para trás. Leva as duas mãos à barriga e vai.
Está carregando
no bucho um malote cheio de dinheiro, gaita, carvão, arame, tudo em notas de
cem reais ou de cinquenta aquelas da oncinha. Aguarda um pouquinho ali por fora
já na calçada, faz manha, enxuga as lágrimas, põe as mãos na barrigona, respira
fundo, coloca o dedo nos lábios, ameaça desmaiar, espera com calma, espera mais
um instante, caminha para o lado de lá e some de repente em direção do táxi. Se
manda, escapole, ricaça, cheia do metal, cheia do que fazer, cheia do faz me rir
e some num passe de mágica... Mas que tipo, meu?!
***
Hoje,
e faz um tempo todo, ainda me lembro ter assistido um filme no extinto cine Itaíba.
Eu tinha treze quatorze quinze anos. Nós todos da rua Itália tínhamos essas
idades num tempo só num dia só.
Um domingo à
tarde descemos ao centro no Prata. Nossa turma de quatro cinco guris e umas
gurias. Quanto tempo e nem faz diferença! Eu, que nem era o chefe do bando, o
Caiapônia (o cacique do bando, o mais alto, o que decidia tudo, o que fumava, o
que pegava todas), o Caturaí, o Iconha, a Macela e a Iaciara, irmã do Caturaí e
que todos queriam lamber lamber. E que todos queriam sentar perto, e que todos
queriam abraçar no escuro, e que todos queriam puxar o cabelo sempre de rabo de
cavalo, e que todos queriam dançar no som as músicas lentas. Nós nos digladiávamos
para sentar do lado dela e ouvir seu perfume e lamber seu cabelo crespo nas
pontas. A gente já sabia que tinha lindas e grossas pernas, dentes perfeitos,
lábios de caju, perfume de flor. E que ela nem queria saber de ninguém. Sim, mas
o filme...
Na tela o filme
de quinta. Um grupo de bandeirantes cruzando a floresta dos Campos de Cima da
Serra, o pico do Realengo, o lugar de Bom Jesus, descendo e subindo e
contornando vales, arroio Upamaroti, cachoeira do Tigre Preto, sonhando com as
esmeraldas, cuidando dos índios caingangue, xocleng, coroado, guaianá, gado
alçado, seivais inóspitos, rio Mãe Luzia estrada natural para Itaara, ouvindo o
gorjeio de sabiás-da-mata, o zum-zum das guarupus... Eu tinha mais ou menos dez
anos. Eu tinha uma dúzia de anos. Eu tinha treze para quatorze anos. Eu tinha a
idade certa. Eu estou aqui e lembro e lembrando com tantos anos e tal e coisa.
***
Fui
desci à rodoviária buscar minha tia Aramari que vinha de lá da capital do
Portinho. Quase moça, aparentemente moça, uns vinte e cinco anos, corpo bem
lançado, sorriso bem tratado. Vestia uma grossa blusa de lã verde, calças azuis
apertadas, uma bata xadrez, um gorro verde-amarelo, fazia mesmo um pouco de
frio. E chegou sorrindo e colocando:
-
Tipo um dia me mudo pra cá definitivamente, ah ah ah!...
Naquele
mesmo dia, à noite, tia Aramari contou histórias dela e de Porto Alegre, dos
tempos que ela já chegava por lá, bairro da Azenha. Fomos até altas madrugadas
e rimos muito. Ela riu mesmo sem parar, ah ah ah!... Até dar o sono. Aquele
sotaque do Portinho, “Pooortu Aléeeegri, néeeeh!”
No
terceiro dia quis aprender a fazer uma torta de chocolate com bolos de
chocolate e camadas de chocolate coberta de merengue bem branco. Quis tomar uma
cerveja enquanto esperava o bolo assar, tomou. Começou a fazer perguntas.
Começou a responder perguntas e explicar respostas.
- Tu já foi no
Beira-Rio?
-
Tipo no estádio do Inter? - e riu.
Nem
sabia fazer comida. Ou quase nem sabia. Talvez um arroz com ovos estrelados?
Fez um arroz e esqueceu o sal e outros temperos.
Um
dia saiu cedo sem dizer nada dar um pio. Voltou para o almoço? Nem. Voltou à
noitinha e nem disse coisa com coisa. Nem tocamos no assunto. Ninguém lhe
perguntou. Que teria feito, hein?!, por essa cidadezinha de Nova Prata sem
pontos turísticos, sem shoppings, sem parques, sem academias de ginástica, sem
quadras de tênis, sem museu ou galeria de arte ou biblioteca ou piscina
aquecida, sem etc e tal que já mal e mal reconhecia?
Tinha
aquela mania do novo porto-alegrense de nomear os sinais de pontuação com a
palavra tipo, exemplo: “Tipo um dia vou mudar para cá tipo quando tiver um pé-de-meia
legal tipo assim quando arrumar um cara trilegal tipo...”, etcétera.
Tia Aramari
também tinha um estribilho: “Tipo eu sou eu e foi D que me fez assim.” É, ela
falava desse modo como para afirmar sua independência. O que é independência?
Ah, já sei: “Independência ou Morte!”, o filme.
Me
perguntou certa hora do dia da noite:
-
Então tipo qual o teu signo?
-
Meu signo...
-
Tipo e o planeta?
-
Meu planeta...
-
Tipo o signo e o planeta são muito importantes para entender tudo da sorte tipo
para começar a entender do destino.
Quinto
ou sexto dia, à noite, saímos eu e ela para dar um giro pelos bares em torno da
praça da Bandeira. Fomos de carro, pois podia chover e tal. A noite estava
esperta, agradável, calores, povo assanhado, cervejas, nem lugar para
estacionar. Saímos do carro em frente ao bar Ibipitanga, tia Aramari sorria,
jogava os cabelos, vestido flutuante, se olhava. Entramos no meu bar preferido.
Tinha música ao vivo: um carinha de lisos cabelos nos olhos o tempo todo e
fitinhas do Senhor do Bonfim no pulso e tocando umas emepebês violão no colo.
Tia Aramari e tal:
-
Tipo por que você me chama de tia, hein?!
Aramari
colocou, bebericando, apreciando o ambiente:
-
Tipo um dia vou mudar pra cá e você vai ver só, ah ah ah!...
Bebíamos
cerveja loira e comíamos tira gosto de cubos de queijo com rodelinhas de salame.
Bebíamos de lentidão, é verdade. Ela fumava mais, também é verdade.
Eu
nem me sentia bem com tanta mulher emancipada. Àquela época se fumava em
ambientes fechados, etc. Talvez a cerveja com muito cigarro misturados, cerveja,
cigarro, queijo e salame. Aramari olhava para os caras em geral e tirava
conclusões que nem me dava satisfação. Eu nem sabia onde colocar a cara, às vezes.
Aramari daqui a pouco arruma briga com uma dessas mulheres ali acompanhadas,
pensava eu.
Aí
aí, um cão dálmata, de olhos de gelo, calmo, confiante, animal balançando, se
aproximou de Aramari e a lambeu na mão direita. Como entrou no bar?
-
Tipo olha a do cão, meu!
Ela
olhou o jaguara e descobriu que o tipo era muito gentil e perito em lambidas,
linguarudo, lésbico. O cão ia ali, vinha aqui, fugia pra li, focinho esfregando
o chão, focinho bem rente ao chão. O cachorro falava coisas, ria, mostrava a
língua e espanava.
-
Tipo o cão me amou, primo! Que posso fazer?!
Uma
hora o carinha do violão deixou cair uma folha de papel e Aramari correu para
ajudá-lo, socorrê-lo, auxiliá-lo gentilmente. Fiquei envergonhado por ela. Quem
é que reparou aquilo? Todo mundo viu e só eu reparei e nem te conto e nem
entendi.
Aramari
era para ficar quinze dias, renováveis para mais cinco ou seis. Acabou que na
primeira semana já aprontava as malas e caía fora. Disse que, assim, “tipo já nem
aguento mais tanta paz e silêncio e calma e pios de tico-ticos, tem-tens, concrizes,
asas-de-telha, corujas-pretas, cajubis, pica-paus-amarelos...” E foi. E agradeceu,
apregoou ainda olhando para trás:
-
Tipo até a próxima e obrigada, gente boa!
***
Fechei
o portãozinho de casa, nhéee-trrrreque!... Olhei para todos os lados. A rua Itália
nem tinha atropelos de trânsito. Cruzei a rua e andei pela calçada, rente ao
muro das casas, grades, cerquinhas de ripinhas de madeira pintadas de branco ou
verde, gramados com plantinhas podadas, faveleiras, juciris,
amendoins-rasteiros, dormideiras, raizes-do-sol, espelinas... Apreciei árvores
e passarinhos. Umas goiabeiras-do-campo e uns araçás-do-campo aqui e ali. Desci
uns cinquenta, oitenta, noventa, cem metros pela rua Catimbau. Um pintassilgo
apareceu no palanque da cerca e se assustou, olhou ressabiando para todos os
lados, nem piou, me encarou, voou, voou. Entrei na confeitaria Ipiranga. E fui
falando e dizendo:
-
Nhe-nhe-nhé!...
-
Então, ah ah ah!...
Foi
a Capituva que me recebeu. Ela sabia que quase sempre parava para conferir as
manchetes das revistas e jornal que ela assinava. E trocar um papo sobre tudo e
nada, tipo o clima, o tempo, o salário mínimo, a praia da moda dos neopratenses
que podia ser a praia Paraíso ou a praia Azul ou a praia Miramar, etc, novas
tecnologias, descoberta de novo fóssil na região de Santa Maria, nova caverna
na região do vale do Ipanema, fim de ano em Crixás, cânion Fortaleza, santuário
do Caaró, excursão ao Cerro do Jarau, extinção das lebres e dos cabeuas e das
preguiças-reais. Capituva era de família torcedora do Tatu Futebol Clube. E eu
nem não.
Assim
que, quem diria!, ela disse ou eu falei:
-
Pelo sim ou pelo nem, nem sei se faço bem ou se faço nada.
-
As pessoas crescem muito, hoje em
dia. Em média são muito bem alimentadas, etc. A média de vida
do brasileiro ultimamente, hein!...
Esperei
um instante, pois entrava um freguês para comprar. A freguesa entrou e se dirigiu
ao balcão, solicitando:
-
Capituva! Me vê aí cinco cacetinhos e um sonho. Este recheado com mel natural
de abelhas irapuãs de que gosto muito. Dia abafado, né?!
Capituva
foi até o balcão envidraçado, pegou o pegador, pegou os pães e o sonho. Se movimentou,
enrolou o sonho num papel especial, os pães e o sonho dentro dum saquinho plástico
e entregou. Ela mesma perguntou:
-
Mais alguma coisa, Camamu?
-
Nem, só isso. As ibabirabas e ibiranhirás estão em flor, já viu?
A
tal Camamu pagou, pegou o embrulho de sobre o balcão e saiu. O dia lá fora
estava feliz, era só admirar, era só ser comum que tudo ia bem. Com certeza passavam
uns carros na rua Cinquentenário, do outro lado da cidade, e eu nem estava lá.
Eu
e Capituva voltamos ao ponto do nosso assunto predileto, ou seja, futebol local
nacional e internacional. Capituva, mesmo de saia e etc, entendia pacas e olhava
futebol na tevê e escutava na rádio Guaíra e lia no jornal que assinava todo
dia. Eu perguntei, olhando pela janela à toa:
-
Que aquele pé de butiá?
-
Butiá é agridoce, entende?!
-
Hum... Me lembra água na boca e infância que eu vivia ainda lá pelas bandas da
capela Santa Catarina.
-
Bem, sendo assim, vai ali, né, e se silva!
Eu
fui. E voltei com um punhado de butiás amarelos e agridoces. Confesso que chorei
de um olho.
-
Mas vai aonde, meu?!
Então,
quando quis voltar ao futebol... fui novamente interrompido... peraí. Entrou
uma freguesa. Nem, um freguês e cliente e eu nem o conhecia. Esse solicitou:
-
Capituva! Me vê aí uns... oito cacetinhos. E mais uma fatia de torta de
chocolate Marta Rocha. Acho que hoje nem chove, nem, né?!
Capituva
fez todo o processo e tal. Foi até o balcão envidraçado, pegou o pegador, pegou
os pães pelo pegador, pegou a fatia de torta. Embrulhou a torta num papel
especial, os pães e a torta numa sacolinha de plástico, dessas comuns de supermercado.
E pronto. E ainda perguntou ao freguês:
-
Mais alguma coisa, seu Itaqui?
-
Nem, mas obrigado. Minha sobrinha Potiri voltou finalmente de Campo do Meio MG.
O
seu Itaqui já pagava estendendo uma nota de dez, pegou o troco e o embrulho e
saiu. Voltamos ao assunto? Na rua passava com barulho, bam! bam!... um caminhão
baú.
Capituva tinha
umas críticas a fazer para a direção do clube do Tatu Futebol Clube. E ela
ainda disse, eu ouvindo com esses meus ouvidos de orelhas, eu pensando com esse
meu pensamento quase lógico, eu duvidando com essa minha inteligência rara e
sistemática:
-
Falam cada coisa hoje em dia nessas novelas, e em tudo... Faz favor!
-
É, faz favor mesmo e com ênfase!
-
Outro dia, eu sempre sem querer e por acaso, ouvi e vi e escutei um personagem-atriz
dizer com todas as letras: “A minha vida é uma merda! Sempre foi! E a teu lado
virou uma cagada!” Então, meu, nem é o fim do Império do B? O fim da picada
mesmo! Isso na tevê, seis e meia da tarde, pode?!
-
Eu sei, eu sei. E quer saber, Capituva? Eu concordo contigo, mas também
discordo. Porque o seguinte...
-
E me aparece volta e meia um peitinho, outras partes também baixas e íntimas,
uns gemidos nada técnicos, suspiros com soluços e arranhões com grunhidos e arrastados
ãaaaahs!... umas sonoplastias de velhotes tarados.
Peraí.
Entrava... o quê?! Olha só o que eu estava vendo, meu! Uma guria, em primeiro
lugar, depois uma guria tenra, macia, intocada, intocável, longilínea, cabelos
pretos até os ombros. Isso pra começar. Verde guria, mas já se pensando madura,
já se achando um caju maduro no galho mais alto.
Pior:
nem me viu e nem me viu, ali mesmo do lado esquerdo dela, dois metros, se
tanto. Que dor, meu!
A
pinta ainda falou, já que estava falando:
-
Dona! Vê cinco cacetinhos e um bombom caseiro com mais chocolate que leite.
Capituva
foi atendendo e tal. A freguesa acompanhava todo o processo. Acompanhou o pracá
pralá de Capituva. E Capituva interrogou o normal:
-
Só isso?
-
Sim, tá legal.
Assim,
a mesma guria, entregou uma nota, esperou, recebeu o troco, pegou o pacotinho,
rodou e saiu. Ela se virou nos calcanhares e saiu. Achei que fora mesmo em
câmara lenta. E saiu. E foi indo embora. Se virou nos calcanhares como modelo
se vira nos calcanhares na passarela de tapete vermelho. Que dor! E desceu os
dois degraus para a calçada do passeio. E foi. Saiu assim. Me abandonou. Que
dor, meu!
Eu
mesmo estava ali e parado, paralisado. Suspirei. Respirei fundo. Fui até a
porta e olhei atrás. Uma minissaia azul com franjas desfiadas e bolsos. E
depois eu pisquei. Senti muito, mas o tempo passou. Nem me conformei. Sensação
de perda, de fracasso no mundo, de miserabilidade. Vazio e desassossego. Uma
secura, carinha!
Agora
tinha outra coisa. O dia nem havia me abandonado. É, nem mesmo. E por quê?
Como? Já vem, espera aí, meu!
E
eu e Capituva voltamos ao tema que me levava sempre ali, ou seja, qual seja,
futebol e futebol. Eu adorava futebol quando meu time ganhava. Eu detestava
futebol logo no dia seguinte quando o rival ganhava. Capituva adorava futebol
se o time dela ganhava. Capituva detestava futebol se o rival dela ganhava. Uma
coisa ou outra sempre estava acontecendo. Assim, estávamos onde mesmo? Ah, sim,
eu ou ela:
-
Era uma vez, na nossa infância, ou pelo menos na minha, e nem faz muito, que
nós nos ajoelhávamos e rezávamos na frente da NSAparecida, é.
-
Eu também. E missa aos domingos pela manhã, festa de santo padroeiro orago
oráculo, semana santa procissão nem se podia perder.
-
E escapulário? Eu tinha.
-
Antes de dormir umas ave-marias e um pai-nosso.
-
E hoje, né, meu, nem D existe mais.
-
Se existe nem reaparece.
-
É, todo o mundo duvida e faz de pouco.
Foi
o que eu prometi antes: ela, aquela, a tal, voltou, estava de volta. Voltou
e... então, peraí!
A
guria voltou e chegou lá de onde vinha e tal. Entrou. Chegou ali pela segunda
vez e tal. Voltou. E foi solicitando. Uma nova chance e disse:
-
Ah, Dona! Eu havia esquecido. Me vê aí umas balas de goma bicolor.
-
Pra já e tá na mão.
Capituva
trabalhou e tal. Eu fiquei olhando porque muito me interessei. A guria, né! Ela
mesma nem me olhou. Nem me viu? Mas eu gostei de olhar e olhei sem parar. Olhei
os lábios dela. Olhei os lábios da guria. Ela, achei que me pressentia, me olhava
ou me cuidava pela sombra e... fazia com os lábios um biquinho... petisss!...
esticando o beicinho em biquinho de tico-tico. Coisa linda, detalhe e sutil. E
que dor, meu!
Capituva
estendeu o pacotinho de balas de goma bicolor. A guria esticou um e outro
braço, pegou o embrulhinho, entregou as moedinhas contadinhas, se virou, e, sem
me olhar, saiu. Saiu do espaço e do tempo e entrou escapulindo por um portal
mágico? Nem sei. Sem me olhar. Me tirou do espaço e do tempo? Achei que sim.
Era um arraso e um acaso. Um vazio muito frio, vazio e fracasso. Vazio com
vento nos cabelos - eu tinha mais cabelo naquela época.
Sinceramente?
Sinceridade, ela me pareceu uma pomba-rola. Uma passarinha. Uma pintassilgo.
Uma pomba-do-meio toda viva, com um vermelho apagado no peito e na ponta das
asas. Uma arapaçu-de-bico-branco e asas de arcanjo. E eu me martirizei. Nem sabia
se achava bom viver. Me senti feliz, talvez. Me senti aquecido, talvez. Perdido
no mato sem pombinha-das-almas. Vontade de correr atrás da iara. E que frio,
meu!
Voltei
para Capituva e pedi notícias do mundo de cá, informações urgentes, indagando:
-
Quem?
-
Taí, nem sei. Chegaram há pouco tempo. Acho que é filha do policial ali de
baixo. Nem tenho certeza, talvez da cidade de Ibiaçá ou Ibicuí, confundo.
-
Também nunca vi.
-
Chegaram faz uns... dois ou três dias.
-
Um nome...
-
Desconheço.
-
E é impressionante. Acho, sim.
-
Meio enigmática, ela, nem?
Voltei
para casa. Dos lados da casa havia outras casas e praticamente uma cada cor. As
paredes externas de branco ou azul-claro e as janelas de verde ou lilás. Eu
reconheço as árvores gosto de plantas e sempre nasci assim. E acho até que uma
vez ou outra já fui guaritá ou iapunaqueuaupê ou touaou. Para falar sério, eu
admiro as pessoas que nem se importam com futebol. Estava em casa. Peguei um
livro do Manuel Antônio de Almeida ou João Simões Lopes Neto, num título assim:
“O Fruto do Vosso Ventre”. Me lembrei tanto da guria, meu! Um desassossego,
meu! E me perguntei e me exclamei e me questionei:
-
Enigmática, é?!
***
Por
fim, o Cuaraci, que vê tudo, aquele que enxerga longe, aquele que enxerga o
tempo e o espaço, pegou e disse o que se passou, e o que pensou, e o que
executou.
Eu
nem entendia nem entendo disso mas era e foi.
O
deus Caa, sabedor das coisas, que vive sentado num trono alado suspenso sobre a
montanha Roraima bem alta e escarpada, esse deus construiu um mundo grandioso
na sua privilegiada cabeça dura. Pensou tudo que precisava, tudo que desejava,
encheu a cabeça de ideias, um mundo de ideias, cada ideia um ideal.
Então,
o Cuaraci, o sol, pegou um machado e abriu a cabeça de Caa fazendo assim que
algumas coisas saíssem e se materializassem no mundo aqui fora. Uma dessas
coisas saídas do cabeça dura o deus Caa, foi sua própria filha que se chamou
Amanaci. Mas foi que Amanaci, flor cipó-café no cabelo, nasceu antes da mãe, sem
a mãe e, assim, se perdeu sozinha no mundo.
O
mundo diversificado de acontecimentos aventuras odisseias. E ituí-cavalo o
peixe, e truirapeva o lagarto, e urutau a ave noturna, e sambaíba a planta, e
os charrua, minuano, guaicuru, tape, pato, carijó, arachane índios autóctones
aborígenes.
Quer
ver? Continente do Rio Grande de São Pedro.
Quando,
cem anos depois, o machado de Cuaraci novamente bateu e reabriu a cabeça dura de
deus Caa. O barulho, trooo-que!... se ouviu até lá em Ipuaçu, até ali em Nova
Friburgo, até pra lá de Santa Cruz das Palmeiras e Caxambu e Putinga. Foi, então,
que pôde a mãe Jaci sair e começar a procurar a filha Amanaci.
Assim,
a Jaci andou pelo mundo procurando pela filha que nunca havia visto. Única
certeza que Jaci carregava era que a filha levava cicatrizes na cabeça como ela
própria as tinha iguais.
Quer
ver? O rio grande ou Lagoa dos Patos dia como outro qualquer de São Pedro ou
terras descobertas pelo explorador aventureiro português Pero Lopes de Sousa a
mando da Coroa portuguesa em 1532.
E
Jaci, a lua, antes das coisas existirem de renome antes de morar ao lado da
filha, rodeou montanhas sem cabelo, olhou debaixo de folhas secas, troncos
caídos, pisou no fundo dos rios o Canoas o Guarita o Peperi-Guaçu o Vacacaí o
rio da Pedra, sentou no barranco de terra vermelha para olhar o horizonte e
tocou flauta-doce, sentou de pernas cruzadas na laje e comeu beiju e bebeu suco
de abacaxi, dormiu na gruta, adotou macaco caiarara de estimação, aproveitou o
rio Araranguá foi até a praia Morro dos Conventos, campeou, campeou.
Quer
ver? As mamoneiras-miúdas os espinhos-de-agulha os cansanções árvores boas
frondosas algumas e floríferas quase todas os curuaís as ararutas fustigar de pernilongos
os mata-pastos as abutuas.
A
prateada Jaci ficou ali pastando o céu o céu. Jaci ficou aqui pastando o
espelho da água da água. Jaci ficou pra lá pastando o uivo do lobo-guará do lobo-guará.
Jaci mergulhou três dias na baía de São Marcos e São José de Ribamar.
Jaci,
cabelos muito bem desarrumados, perguntou ao povo que encontrava por este mundo
afora, os coropó, os acorane, os tuiúca, os quixadá, os juberi, os guató...
Andou em todos os lugares e até nos mais estranhos, em todos os países, Caibaté,
Lavras do Sul e de Água Santa até Xangri-lá. Essa procura durou dezoito mil anos
depois de c.
Quer
ver? Nem lembrava direito de outra sorte mas reconhecia por sonho ou instinto
as pedras as árvores os caneleiros-pretos os ratos-d’água as preguiças-de-dois-dedos
os tambaquis os cheiros os lugares Rio Pardo, Candelária, praia da Ponta de
Areia tudo e até com fotos panorâmicas.
Finalmente,
Amanaci foi localizada, Jaci a encontrou, encontrada, achada um dia quando
trabalhava numa plantação de batatas-doces na cidade de São José dos Ausentes.
Já estava casada com um guerreiro amoipira de nome Ibitu e tivera três filhos
duas cunhãs e um curumim. As cunhãs eram duas lagoas bonitas e parecidas lagoa
Encantada lagoa da Sapiranga. Encantada dava muitos tachãs, Sapiranga vivia
muito de ipequis. E o curumim que era o lago das Pedras onde piavam muitas
saracuras entre as ipecacuanhas-pretas.
E
Jaci explicou tudo muito direitinho a sua filha Amanaci logo depois de se
abraçarem com força com força. E as duas voltaram para o alto monte e o tal deus
Caa.
Quer
ver? O Prata foi pouso de tropeiros e depois alguns deles ficaram na volta da
capela para estabelecer negócios. Tanto negócio tanta prata ficou o rio da
Prata.
Como
Amanaci era mais velha cem mil anos que sua mãe Jaci, o deus Caa se casou com
Amanaci. Naquele tempo o deus podia casar com quem ele mais precisasse.
Deus
Caa, o mato, e Amanaci, a chuva, se casaram no início de março. Os preás
corriam pelo banhado. O graxaim-do-campo farejava os caminhos. Os sapos-martelos
pulavam e coaxavam no brejo.
E Amanaci foi
a responsável pelo verde das plantas. O casal teve, durante essa longa vida,
diversos filhos e filhas que ainda hoje povoam o mundo. Nem perderam tempo e as
árvores içara, casca-dura, rabo-de-macaco, imbua-amarela, pata-de-lebre, e
bichos, anta, cutia, tatu-canastra, caxinguelê, gralha-azul, ubu, seriema,
abelha iraí, abelha uruçu, escorpião, pintado, traíra, jundiá, e rios, rio
Sobradinho, rio Crixá-Açu, rio Azul, rio do Umbuzeiro.
Quer
ver? Luas e chuvas nas quatro estações do clima ameno.
E
os sóis irradiaram as cores com os dias, e as árvores foram caminhando do lado
dos rios, e os animais terrestres preferiram plantar amendoim mandubi e milho
abati e mandioca maniva.
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