domingo, 26 de janeiro de 2020

Um Dia De Fuga (juvenil)





O tempo passatempo driblando todo mundo. É assim mesmo. Uns desgostam outros nem tanto. E que jogada! Mas nem tem outro jeito. O tempo passa pedaladas e marca outro gol.
As pessoas os bichos as árvores e as coisas. O dia como costuma ser. A cidade andando na estrada do sol aberto. O sol pela manhã, quase dez e dez e subindo. As coisas possíveis e impossíveis. As pessoas a trabalho ou a passeio. O dia muito bem.
A nova rodoviária de Nova Prata estava lotada de viajantes, os que chegavam os que partiam. Os destinos eram maravilhosos à escolha, variados, diversos, Taipas do Tocantins, Serra do Mel, Buíque, Cunha, Dores do Indaiá, Garuva, Porto de Pedras, Itapitanga, Rio Verde de Mato Grosso...
     Dona Jurema Piúva chegou à pracinha de nome Xeripana, logo em frente da Estação. Descansou as mãos nos quadris, olhou, olhou a sua volta. Aí, ela viu uma menininha sonhadora, sozinha, brincando sozinha e calma, quietinha, perto do balanço perto das gangorras perto do tobogã. Dona Jurema se aproximou da garotinha e chamou a sua atenção:
     - Oi! Está sozinha? Não brinca com amigas? Como seu nome? Está aborrecida? Quede sua família?
     A menina ouviu com paciência todas aquelas perguntas. E ainda olhou a dona Jurema com calma, com simpatia e quase com um amor. A menina olhou a dona Jurema e respondeu:
     - Nho-nho-nhó!...
     Dona Jurema Piúva teve uma ideia praticamente perfeita. Pelo menos para aquele instante. Se apresentou, estendeu a mão, pegou na mão da guriazinha e perguntou:
     - Vem comigo pra casa? Vem morar lá em casa? Vem fazer companhia a mim e ao meu marido? Vem, vai ser legal. E você não tem ninguém mesmo!
     A meninazinha olhou a dona. A guriazinha olhou ressabiada. A garotinha estendeu a mãozinha e suspirou:
     - Nhe-nhe-nhé!...
     A simplicidade das pessoas simples simplesmente passeando displicentes no passeio público. Uma tapuru gastava sombra e aroma de flores amarelas.
     Os guris as gurias brincavam de esqueite na pista da praça. E tinha um cachorrinho marrom olhando. Inventavam manobras subiam desciam contornavam derrapavam. O cãozinho era a melhor parte o principal o bonito o interessado.
     E a dona e a menininha foram caminhando devagar para a casa da dona Jurema Piúva. Pegaram um táxi, talvez. A guriazinha só tinha as roupas do corpo e mais nada e mais ninguém. E a menina ia para casa da dona Jurema pensando que sua vida ia ser boa e melhor. A menina, a mão dada com a dona Jurema, pensava levemente que sua vida ia ser ótima e não parar nunca de ser muito boa.
     Pensando muito, um pitanguá é extraterrestre, umas tocanguiras são intergalácticas, um juiponga é alienígena.
***
     Não muito depois, chegaram em casa, casa ou apartamento, de dona Jurema Piúva e seu marido o seu Chico Taguari. E quando seu Chico chegou em casa, vindo muito cansado do trabalho, teve a surpresa da presença da menina. Seu Chico se apresentou e foi logo esfregando as mãos e elogiando a guriazinha:
     - Hum... que menina bonitinha, uma vez. Você gosta de tomar sorvete com pedaços de frutas? Você gosta de chocolate em barras? Você quer uma boneca que cante e gingue? Vamos passear de pedalinho na lagoa? Temos muitas opções.
     E seu Chico Taguari estava empolgado mesmo, tanto que ofereceu também outras novidades para agradar agradar a menina. E dona Ju também estava emocionada e eufórica que prometia outras coisas mais para a menininha. E assim, naquela primeira noite, a família se achou. Todos se olharam muito bem. A menininha olhou os pais adotivos muito de perto. Os pais olharam a filhinha adotiva muito de perto. Não queriam nem dormir.
     E uma boa pergunta do seu Chico:
     - Olha, menina bonita e linda! Como é o seu nome? Que nome você já tem? Você já usa um nome? Um apelido?
     E a menininha respondeu com um biquinho, fazendo um bico de choro, como um passarinho:
     - Nhe-nhe-nhém!...
     Seu Chico em comum acordo com dona Jurema, declarou:
     - A gente pode chamar você de Caapi, oquei?!
     Dona Jurema acariciava a menina passando a mão pelos cabelos lá dela, esfregando suas costas. O seu Chico segurava as mãos da menina e a beijava nos olhos. Trocavam olhares de reconhecimento, ternura, afeto, paciência. Os pais adotivos perguntavam. O seu Chico foi desabafando:
     - Sabe, meu benzinho, hoje mesmo eu pensava. Eu estava sentado no banco do metrô e pensava. Eu pensava o seguinte: como seria bom encontrar uma bela menininha para adotar. É, eu pensava e sonhava tudo isso hoje mesmo. Vê que coincidência? Você veio como num milagre, percebe?!
     Dona Ju foi preparar um jantar. Seu Chico colocou música clássica Villa-Lobos para relaxar. Seu Chico não perdia a mania de esfregar as mãos lá dele. Pensou em adivinhar uma futura profissão para a menina. Falou nisso mesmo:
     - Hum... Que profissão você gostaria, hein?! Que tal você estudar muito muito para ser uma ornitóloga? Uma entomóloga? Ou então treinar muito muito para ser agente policial?
     A menininha que não viera com nome ou não lembrava do próprio nome ou ainda tinha vergonha de falar o nome de batismo, a provisória Caapi, resmungou:
     - Me-me-mé!...
     Seu Chico começou uma prosa que tinha longa viagem no meio no fim e no começo:
     - Foi naquela época de setembro para outubro dos idos de 1999. Eu e Lu fazíamos o Caminho da Luz, estrada de poeira e cajado e porteiras de fazendas, Tombos, Pedra Dourada, rio Carangola, Caiana, Galileia, Alto Caparaó, pico da Bandeira...
     Quando pensaram em dormir, naquela primeira noite, a menina fez bico para choro. E quis chorar. E por que chorou. E chorou mesmo de se lavar. Dona Ju e seu Chico também choraram para acompanhar. E os três dormiram os três na mesma cama, a menina entre o casal.
     E a noite passou. E retornou um novo dia. Havia um dia entrando com o sol pelas frestas das venezianas verdes. Um som puro de trânsito rodando na cidade. Um ronco sem graça de motores brabos passando na rua Capuava. O mundo acordava e dizia “bom dia!” tal e qual. A menina acordou.
     Metade do mundo brincava, metade do mundo ainda dormia, metade do mundo tomava café com pão, metade do mundo pegava ônibus na esquina, metade do mundo apressava para chegar na hora, metade do mundo passeava com cachorro na praça, praticamente.
     A menininha acordou, olhou para os lados, não acreditou e gritou com plenos pulmões. Gritou muito forte tão forte que ela mesma teve que tapar os ouvidos com os dedos. E os pais adotivos acharam também que o grito foi de assustar e pularam da cama em pânico. Tanto seu Chico como dona Jurema olharam a menina e não acreditaram. É, a menina berrara muito alto mesmo. Para quê? Para que tanto medo e pavor e horror? Dona Ju perguntou, que perguntar nem sequer ofende:
     - Quer um cachorrinho de estimação? Tem preferência de tamanho ou raça? Prefere um cachorrinho ou uma cadelinha? Os gatos são mais responsáveis.
     O seu Chico ainda pegou nas mãozinhas da menininha e beijou os seus olhos de sono. Dona Ju a acariciou nos cabelos e nas costas. Seu Chico ainda fantasiou uma viagem de passeio por:
     - Quando eu era jovem, pouco mais ou menos que você, minha filha, eu andei por longes terras e outras comarcas e demais regiões, São Sebastião do Uatumã, Pão de Açúcar, Malhada de Pedras, Alvorada de Minas, aldeia dos uari...          
     A menininha foi apresentada ao seu quarto particular e exclusivo. Dona Jurema ainda foi afastar as cortinas e abrir a janela. Toda a luz natural entrando com roncos da rua e cantos de tico-ticos, porangas, mongos, sabiás-laranjeiras, birros, pombas-galegas... Um quarto exclusivo e todo decorado para menina como se os pais já viessem adivinhando tudo desde muito tempo. O quarto decorado muito bem. Brinquedos de menina, cores de menina, fotos e pinturas na parede. Figuras na parede, bonecos na estante e livros para colorir sobre o balcão. A menina ficou ali. Olhou tudo e se sentou. Pegou uma coisa, foi se empolgando, pegou outra e nem parou mais até ver com as próprias mãos todos os brinquedos do quarto. Sentada no chão ou deitada na cama, tanto faz como tanto fez bem.
     Lá pelas horas, a menina viu um aladinho entrar no quarto. Primeiro a corruíra apareceu sem ela saber. Depois a turma dos canários-da-terra cantaram e ela ficou procurando com suspense. Procurou com o olhar e os achou pousados agarrados à cortina da janela. Eram uns vinte ou trinta passarinhos muito conhecidos na redondeza. Uns mais coloridos sarapintados que outros. Um tipo azul, azul até não aguentar mais, azul até onde podia ser azul, azul-escuro nas costas, azul-claro no peito e na barriga, topete azul-metálico, tamanho pequeno e peso ultraleve. Andorinhas brancas na barriga e pretas nas costas. A beija-flor-grande-do-mato toda colorida como arco-íris. E a menina os olhou sem palavras. Os passarinhos a olharam cheios de trejeitos, piruetas, malabarismos e acrobacias. Todos se olharam sem parar. Os passarinhos pareciam mais inquietos. Um galho de araribá-vermelho chegava a riscar arranhar alcançar o vidro da janela. A menina mais maravilhada.
                                                               ***
     Na sexta-feira ou no sábado, a menina Caapi fez uma pergunta. Era a primeira vez que falava como gente como ser gentil, e não como uma gata ou uma pata ou uma zogó ou uma jaritataca. A menina falou e disse:
     - Queria ir ao zoológico. Vocês me levam ao zoo de Canela?
     Os pais adotivos da menina ficaram quicando de contentes. Se entreolharam admirados e contentíssimos. Claro que foram ao zoológico. Canela não era longe, um pouco para lá de Nova Petrópolis.
     E no dia seguinte, um domingo ou uma segunda-feira, a mesma menina perguntou aos pais adotivos. Perguntou com já a vantagem de se saber muito bem amada:
     - Ora, por que não vamos ao shopping center comer pipocas carameladas? Eu estou sem roupas. Gostaria muito de escolher umas roupas sem muito luxo nem muito destaque.
     E os pais da menina se entreolharam com preocupação e felicidade. Tudo porque a menina já falava muito e falava mesmo muito e bem. E assim foram ao shopping Guainumbi fazer boas compras. Aproveitaram para comprar tudo que a menina pedia desejava almejava apontava. Os pais adotivos já comemoravam, pois achavam que a filhinha adotiva estava no papo.
     No outro dia não era mais domingo, e sim uma quarta-feira de junho ou julho. Os pais adotivos continuaram amando e prestigiando. Logo a menina viu isso, mas também lhe passou coisas estranhas na ideia. A menina acordou pelas dez e dez com uma imagem nos olhos: uma ilha lugar distante com coqueiros abanando. E chamou chamou a mãe adotiva, o pai adotivo:
     - Mamã-nhê!, dona Jurema. Pai-ê!, seu Chico.
     Os pais vieram a trote competindo para ver quem era mais atencioso. A dona Ju passou a mão no cabelo da menina, esfregou as costas. O seu Chico segurou as mãos da menina, beijou os olhos. Perguntaram para a filha:
     - Fale! Quer ir ao zoo? Quer jogar vídeo game? Quer conhecer a piscina do clube Nhandeva? Quer um novo celular? Quer conhecer a praia do Cassino?
     - Diga! Quer uma festa de aniversário? Quer um porquinho de estimação? Quer uma bolsa tiracolo? Quer um espelho de corpo inteiro?
     A menina disse, respondendo:
     - Nem nada de cansativo. Só queria dizer que sonhei com uma ilha povoada de coqueiros verdes e falantes. Uma ilha e o coqueiral. Uns jerivás em jerivazal. Uma ilha de areia e coqueiros. Coqueiros de cocar. Será que tem algum futuro?, pergunto.
     Seu Chico Taguari pensou com calma para responder e respondeu:
     - Hum!... para falar a verdade... hum!... nem sei lhe dizer, filha.
     A dona Ju também pensou e respondeu nem dizendo coisa com coisa:
     - Pode ser saudade, pode ser falta do que fazer, pode ser sugestão de algo que você comeu ou assistiu na tevê.
     Seu Chico testemunhou:
     - Eu estava a passeio longe à beça por São José dos Campos, Veranópolis, Paraibuna, Guatapará, na basílica de NS da Penha em Recife...
     A família estava unida e coisa e tal. Conversavam sobre tudo e não deixavam crises para amanhã. Não deixavam que as greves os separassem os dividissem. Eram pessoas que se esforçavam e se queriam bem e muito mais.
As árvores verdes incomodam muita gente, a sambacuim incomoda muito mais, o aguaí-vermelho incomoda muito mais, o alecrim-branco incomoda incomoda muito mais, a farinha-seca incomoda muito muito mais, a guaibi incomoda todas incomodam.
                                                               ***
     A menina foi para a escola colégio NSAparecida aprender a ler aprender aritmética e aprendeu a decorar os rios da Amazônia Legal, rio Uaupés, rio Jupará, rio Madeira, rio Purus, rio Xingu, rio Negro... Tirou férias virtuais na praia do Meio, em Natal, Espírito Santo. Deixou o cabelo crescer que foi crescendo. Ganhou bicicleta e foi pedalar na calçada da rua em frente.
     Um dia Caapi acordou ouvindo todo o mundo todo o mundo gritar:
     - É a guerra!! É a guerra!!
     E era a guerra mesmo. O mundo estava em guerra. E guerra não é qualquer brincadeira. E guerra é pior que programa de televisão nas tardes de sábado, pior que promessa de político de 2 em 2 anos, pior que falta de pão arroz feijão, pior que apagão às 19h em domingo de chuva, pior que perder duas Copas do Mundo em casa, pior que ver o time ser rebaixado.
     Então, veio a notícia que com certeza a crise da guerra provocaria a falta de água boa. Assim, e por isso mesmo, toda a população ficou preocupada com o que não beberia. E se faltasse realmente água limpa, hein?! Seria o caos. Seria não, já era o caos e o deus nos acuda.
     Desse modo todos correram armazenar água mineral. Telefonaram para carros-pipa, compraram baldes e bacias e galões, encheram piscinas e cisternas e reservatórios subterrâneos e caixas-d’água. Todos guardaram água para muito tempo. E também até quem não sabia chorar começou se lamentando.
     No início do mundo tudo era água. No princípio era a água. Era água e água era chuva. Caía em pé e corria deitada. Quando mais tarde, os outros dias depois. Quando D fez assim como e depois. E chegaram os rios e vieram os mares e os oceanos. E mais chuva que D mandava.
     E as pessoas e os bichos e as árvores e as coisas correram para as lojas e mercados comprar urgentemente água de garrafinha com gás sem gás. E todos fugiram para a beira de rios e lagoas e reservatórios e tanques e barragens. E todos compraram passagens aéreas para viverem no paraíso das águas em Sete Lagoas, em Foz do Iguaçu, Uruguaiana, arquipélago de Marajó, Alegre em o parque Cachoeira da Fumaça...
     E coube uma dúvida, e que todos se perguntaram:
     - Haveria água para todos saciarem a sede? Quanta água caberia a cada cidadão cidadã? Haveria banho para todos os dias? Todo rio correria para o oceano? Toda a água salgada seria convertida?
     E assim, por causa dessa guerra sem sentido, por causa da guerra sem beleza, guerra química, haveria uma forte crise de falta de abastecimento de água. E o mundo em guerra só desejou cuidar da água. E todos pensaram principalmente em água. E todos desejaram água. E todos passaram a comprar e vender água. E a água foi a preços estratosféricos ionosféricos tomando toda a atmosfera. E a água valorizou como dinheiro. E as lágrimas viraram moeda de troca.
     Durante o dia as pessoas mercadejavam água. E durante a noite se ouvia e se fugia de tiroteio pela posse da água. E depois, sem vexame, sem vergonha na cara, houve tiroteio em pleno dia pela guarda da água. Então, virou uma guerra líquida.
     Por isso todos choravam. Por um motivo e outro, todos choravam ou se aproximavam de quem tinha o dom de chorar facilmente. Inclusive e principalmente a menina Caapi. Até o céu chorava por ela. E aí todos corriam com baldes e etc socorrer a água da chuva. Chovia todo dia, durante o dia e à noite.
     Mesmo os índios tupiniquim, os índios cariai, os índios iruri... batiam tambor pela água do céu. E os urbanos iam aos templos se ajoelhar e pedir mais água do firmamento. E as pessoas da área rural faziam romarias até a capelinha na gruta do morro pela água abençoada.
     E D dizia para si mesmo na sobreloja de umas nuvens próximas e carregadas:
     - Mas por que todo o mundo quer minha água? Por que todos ao mesmo tempo? Por que sempre em cima da hora? Por que com tanta sede ao pote?
     E a menina adotiva chorou como uma fonte. E os pais adotivos choraram com ela como duas fontes próximas. Um chafariz. Eram três nascentes de rios caudalosos tipo rio da Prata rio Carreiro rio Retiro. E os pais adotivos prometeram mundos e fundos se ela terminasse com as lágrimas. E a menina não tinha mais forças para agradar aos pais adotivos, por isso não parava de chorar. E chorou mesmo o dia todo e todas as noites. E foi aquela mania de choro familiar. Aquela crise de nervos.
     Como diz a lenda dos índios quiriri: o guerreiro se vestiu de tempo pegou a ubá remou foi pelo rio...
     Como diz a lenda dos autóctones apurinã: o rio foge pra sempre pra onde pra lá poraquê...
     Os dias se furtaram, as semanas voaram, o jogo jogado, as horas caíram de paraquedas, as árvores cresceram com o vento nos cabelos, acaju-catinga, suinã, corticeira-do-banhado, figueira-brava, varre-forno, macaúba... Depois do tempo que passou passar, então, só aguardando que novas coisas acontecessem.
***
A menina Caapi estava no quarto olhando o teto. Estava deitada na cama sem nada fazer e olhando o teto. Olhava o teto pintado de azul-clarinho. A menina olhava o teto e... entrou aqueles uns aladinhos todos pintados nas cores pintas variadas. Uns passarinhos se confundiram com o azul-clarinho do teto e das paredes. O raro cutipuruí deu uma volta inteira pelo quarto reconhecendo o ambiente esbarrando num bibelô verde de cachorro sentado. Depois nadou bateu asas a pairari, que pousou se agarrando na cortina da janela. Os passarinhos em geral cantavam num fôlego só o tal do fiu-fiu-fiu-tiu-riu-mil!...
     A menina ficou pasmada e olhando e olhando. Sem palavras. A menina ficou admirada e sem poder dizer uma palavrinha. A Caapi queria ser amiga dos alados. E cantar como eles cantavam. E viver como eles viviam. E voar e voar e voar... como eles e elas voavam. Esse era o desejo e o sonho da menina adotiva. Ela não tinha mais alma de tanto que queria isso para si.              
     E aconteceu uma coisa muito importante na cidade e no país e no mundo por aqueles dias. Foi o seguinte. Todo mundo ficou mudo. Se a menina adotiva não podia falar, então todo mundo, as pessoas todas e os pássaros e os automóveis ficariam mudos. Mudinhos. E ficaram mudos. O mundo ficou sem as comunicações. Mudinhos da silva. Nenhum município falava dizia qualquer coisa, Urucará, Itapiranga, Faria Lemos, Gravataí... Era a guerra da mudez das pessoas dos bichos das árvores das coisas dos lugares.
     O sol observou de lá de cima aqui pra baixo e radiou:
     - Ah, minha mãe!
     A lua espiou de lá de cima aqui pra baixo e prateou:
     - Oh, meu pai!
     E assim os dias de sol e as noites de lua.
     E assim a menina não ouvia, não queria ouvir e não dizia ou não queria dizer mais absolutamente nada. Pouco ria? Não, nem ria nada nada. Pouco ria e já nem falava. Nem ria e nem resmungava. Nem pensava em nada e nem olhava. Ou melhor, não pensava em nada e olhava sem ver.
     E quando se ligava a tevê o aparelho mostrava imagem e ninguém falava e ninguém ouvia. O rádio tudo a mesma coisa. O telefone e o gramofone. Mais, melhor e maior que isso. Ora, as pessoas queriam saber e nem podiam perguntar. Se perguntavam por telepatia por controle remoto ninguém ouvia. Mexiam os lábios muito à toa. Os passarinhos queriam cantar para o dia que ia nascer e nada de se ouvir os assobios. O galo emudeceu como um grave defeito do mundo. Era um silêncio muito grande mesmo. Nem os palhaços faziam as tais e quais micagens. Um silêncio pesado e estranho e o seguinte.
     Será que o mundo, o planeta, estava fazendo greve de silêncio? Boa pergunta. Mas as perguntas não eram respondidas porque não eram nem faladas nem ouvidas. Ninguém comunicava nada. Tudo um silêncio de doer. Um silêncio antes da tempestade. Talvez fosse castigo de D para os homens e mulheres que só falam besteiras. É, podia ser mesmo. Bem feito!
     A grande manhã com pleno sol cheia de luz e sem vento. Manhã de árvores pensativas, cipó-de-gato, acácia-de-flores-vermelhas...
     E a Caapi parava na janela e ficava olhando sem falar nada. A voz trancada e muda e silenciosa. Uma voz interior pensativa e silenciosa. Uma voz sossegada e muda. A menina totalmente mudada para a mudez. Talvez fosse o caso de doença? O caso de teimosia? O caso de greve de silêncio, coisa que estava na moda? E ficar em silêncio parece fácil, mas não é. E a menina adotiva continuava e se mantinha em silêncio total. Era ela então muito corajosa e durona. Um silêncio inquietante, um sossego teimoso, uma mudez de pegar no sono. Pois era mais difícil ficar em silêncio do que não falar nada. E nada de palavra e nada de mímica.
     E a guria ergueu os braços em respeito ao looongo bocejo. Os brincos de pingentes sacudindo pouco acima dos ombros. Soltou os cabelos alisou afofou nas pontas a franja caída diante dos olhos um perfume escolhido entre as diversas selecionadas flores do campo.
     E o mundo na terra durou em silêncio e mudez por duas ou uma semana inteirinha. Talvez um dia e meio. Aí, o mundo era muito silencioso e ninguém podia mais aguentar. Nem as pedras podiam querer tanto silêncio. Nem os hospitais. Nem os hotéis de luxo. Nem noites de sono precisavam de tanto silêncio psiu! e quietude e segredo. Mas a menina obedecia todo esse comportamento silencioso.
     O seu Chico Taguari chegou perto da menina pela milésima vez e a pegou na mão. Seu Chico pegou a menina nas mãos. Pegou as mãos da menina e também a beijou nos olhos. A dona Jurema Piúva acariciou os cabelos da menina. Com a outra mão esfregou também as costas da garotinha. A menina Caapi estava ainda com o mundo no silêncio do mar profundo.
     Na rua Chapada Diamantina um cãozinho desfilava praticamente. Ele tinha um pensamento quieto dentro da cabeça de vira-lata: “Trocar de boné, especialmente”. Cãozinho nem abandonado nem perdido, mas um cão sozinho na rua procurando à procura.
     Depois de um século que durou quase dois dias, a menina viu uns aladinhos entrar pela janela e voar, dar as voltinhas pelo quarto e pousar no peitoril da janela, na estante com livros e cadernos, na tela da tevê, no encosto da cadeira. A menina deixou de ser tímida e resmungou. Esqueceu as manhas e falou para os alados visitantes ali todos curiosos e olhos arregalados. A menina destravou e perguntou abriu para o diálogo:
     - Ora, passarinhos, senhores e senhoras! Vocês por aqui? Vocês querem ir comigo para a ilha dos coqueiros? Muitos coqueiros de cocar. Que que sobra fazer por lá? Ora, muitas pipas, muitas pandorgas e muitos papagaios coloridos feitos com papel de seda!
     E os alados ficaram por aí mais horas mais dias se olhando e se admirando, cantando, assobiando, compondo. Os passarinhos muito curiosos, a menina muito interessada. Brincavam de brigar com a imagem refletida no espelho. As avezinhas pareciam não ter pressa nem almoço para arranjar, o quiriru, a gralha-do-mato, o miador, o papagaio-do-peito-roxo, a jandaia, a graúna, o cardeal, o pintassilgo... A menina se comportando como se os pais fizessem tudo por ela e deixassem que fizesse tudo que lhe desse na mente. E os passarinhos esperaram horas ou uma hora e meia. A menina também pensou em sair por aí e voar. Ela queria voar nem que fosse de asa-delta. Flanar como a bela uarirama. Procurar as encostas ou os morros altos e se apinchar.
     - Eu quero voar por um sonho a jato.
     O vento soprava Caapi os seus cabelos em particular as pontas dos seus cabelos. Caapi falou assim para ninguém ao mesmo tempo que a todas as aves a cada uma ali presente sem saber para onde ir e sem vontade de chegar, falou:
     - Eu prefiro voar que é bom.
     Os emplumados esperaram o dia mais um pouquinho. Cantou um cantaram dois cantaram todos de uma vez e tanto ainda. Aí, eles os aladinhos enfeitaram a menina pousando nos ombros nas orelhas nos braços se agarrando pelos cabelos. Passarinhos adoraram. Com o bico, muito de leve, uns até bicaram a orelha da menina. A menina riu. Outros se admiraram do cabelo e fizeram trança do cabelo da guria. E se esconderam entre os cabelos da guriazinha. A Caapi até deixou muito mais, e ria como quem não quer que lhe puxassem o cabelo. E os alados brincaram e esqueceram de ir embora. E depois de duas horas e meia eles todos foram embora e deixaram saudades na cara da menina.
     As árvores gigantes as mais gigantes do mundo são as louro-puxuri, timbó, guassatunga, figueira-do-mato, cabrué, sombra-de-touro. Árvores antigas e altas. Na principal árvore do capão estavam reunidas todas as aves da região, quem sabe os exemplares, de todos os pássaros da estação.
     Caapi tinha voltado a se interessar por tudo em volta e na mais pura brincadeira.
                                                               ***
     A menina, amiga dos alados e das aladas, pensava e sonhava e realizava com uma ilha de coqueiros de cocar e sombra. Quer ver?
     Sol acordou vozeirão domingo gol dourado. Dia 8 uma quinta-feira fevereiro 2016 em todo o Brasil e também em Rio Branco no Estado do Amapá. O sol uma fogueira estalando crepitando frigindo estrequelelê!... ali aqui em todo lugar dia pleno ótimo.
     Seu Chico olhou a menina, pegou as mãos lá dela e a beijou nos olhos. Seu Chico falou mansinho:
     - Hum... Que você está pensando, filhinha? Que você só pensa em ilhas e ilha distante no meio do mar?
     Caapi baixou a cabeça, os cabelos escorregaram para os olhos e já disse, a menina respondeu:
     - Eu queria ir talvez para a ilha dos coqueiros de cocar.
     Pois é. A menina sonhava e só sonhava com isso: a ilha dos coqueiros de cocar que faziam sombra na beira da praia. Ela sonhava assim. Fazer o quê. E lá deitar.
     Seu Chico expandiu:
     - Eu estava a trabalho por essas e outras cidades, Piracaia, Cravinhos, Juruaia, São José do Rio Pardo, Delta, navegando o rio Atibaia...         
     Dona Ju chegou passou a mão carinhosa nos cabelos da menina e também nas costas da guriazinha. A menina gostou, é claro. Aí, a dona Jurema ainda perguntou para ter certeza:
     - Você não quer um cachorrinho ou cadelinha de estimação? Um cãozinho para lhe fazer companhia? Um jaguarinha para passear na rua em frente? Um cusco que não late não incomoda os vizinhos não suja a calçada?
     A menina respondeu perguntando:
     - Vamos ao zoo? Vamos ao zoo de Gramado? Vamos ao zoológico de Sapucaia do Sul?
     Então, a família toda pegou e foi ao clube passar a tarde na piscina. E foram os três à piscina com o maior gosto. E foi legal nadar na piscina a tarde todinha. Tinha muita gente e muito mais espaço também. Pessoas deitavam na toalha que era estendida na laje ou na parte gramada. Havia muitas bagunças também na piscina. Havia jacarés-de-papo-amarelo de plástico boiando. Havia botos-cinzas de plástico dormindo. Havia bolas multicoloridas enormes boiando ou navegando na piscina azul. Havia coqueiros gigantescos importados do litoral capixaba fazendo sombra de cocar. Havia muitos gritos de alegria e horror engraçado. Havia o brinquedo toboágua de escorregar pelo tubo e cair na água.
     Quando voltaram para casa depois das 5h da tarde, a menina encontrou o seu quarto tumultuado de aladinhos e de aladinhas brincando de se esbaldar. E foi uma surpresa boa. Caapi entrou no quarto, abriu a janela e os passarinhos pintados de tons verdes de aromas azuis de coloridos diferentes pularam para dentro da tarde caindo no pôr do sol. Foi sorte. Foi rápido o caso, foi plete!... A menina até se assustou porque os alados pareciam nascer no escondido do seu quarto. Quem quis ir foi, quem quis ficar ficou.
     Assim ficaram uns poucos sãos e salvos ali pelo cômodo. A janela aberta comunicando o quarto com o pôr do sol. Os passarinhos olhando não muito assustados para tudo. A menina quis contar a história do seu dia na piscina azul. Os bichinhos alados voaram para se pendurar na cortina da janela aberta, na cortina do banheiro, etcétera. Ficaram ouvindo ali olhando as atitudes da menina. A Caapi ia e voltava, pra cá e pra lá dentro do espaço do quarto. Ela até esperava cantar, virar cantora, interprete.
     Caapi sonhava seu sonho eterno seu eterno sonho e repetia:
     - Vamos pra ilha dos coqueiros de cocar? Vamos juntos, todos?
     Os aladinhos engraçados ainda olhavam quase assustados. Não, eles nem estavam assustados, mas estavam mesmo curiosos. Muito alertas e curiosos. Depois já responderam um sim ou um não. A menina perguntou e a alma-de-tapuio falou piando trilando:
     - Onde mora esta ilha de coqueiros que você sonha e tanto adora, menina? Onde fica mesmo esta ilha pensada? É uma ilha de verão? Essa ilha é perto da praia da Paúba?
     Caapi se ergueu da cama e deu dois passos na direção da janela. O bichinho balançou as penas azuis agarrado à cortina. A menina deu dois passos, parou e olhou lá fora. A plumosinha olhava tudo curiosa. A menina já ficou na dúvida. Assim a menina falou outra coisa mais:
     - Bem que eu gostaria de ser uma estátua na praça. Bem que eu gostaria de ser uma apuí na floresta da Tijuca. Bem que eu gostaria de voar bem alto. Bem que eu gostaria de tocar uatapu na aldeia junto dos uassu. Bem que eu gostaria agora mesmo de explorar tesouro de ouro no morro do Pico do Jaraguá.  
     Os passarinhos se espantaram um pouco com essa conversa de menina. Aí, uns voaram para cá e outros para lá. Uns disfarçaram cantando, gorjeando, assobiando, trinando. E se mexeram um pouco aí pendurados nas cortinas.
     Essa coisa de vontade de voar deixa a alma leve e sonhadora. O corpo solto no espaço sem gravidade, navegando num rio ou num pedaço de mar.
     Diversas nuvens se aproximavam no espaço, diversas nuvens se entreolhavam, diversas nuvens se douravam, uma em especial carregando D por milagre milagre, e chegavam para mais perto do começo da noite com verão na estação.
                                                               ***
     Aquele sol distante no espaço. Aparecendo espontâneo leve livre solto. Ficou mais otimista. Ali aqui por todo lugar no ar um tom mais solar. Algumas horas depois no Brasil. Até pousar de luz nas cores das coisas.
Dois mil dias após, Caapi foi apresentada a outro ano escolar. Ela já sabia contar até oitocentos, a lua não era um satélite virtual, Uruguaiana nem era a capital do Uruguai. Os pais acompanharam levaram a filha:
     - Vamos que vamos para a escola, filha.
     A família chegou no colégio NSAparecida bem na hora que alunas e alunos e outros personagens também chegavam e apareciam. A menina vinha com mochila nas costas e olhos curiosos para conhecer e reconhecer novos ou antigos colegas. A guria olhou tudo aquilo e mais um pouco. Era um lugar de algazarra e correria e garotas e garotos falando ao celular.
     Os pais entregaram a menina ao colégio e se despediram voltando para casa. A guria foi procurar a sua turma e se abraçar.
     Depois, meia hora depois, no máximo, a menina foi para a sala de aula. Foi para a sua sala de aula. A menina olhou para os quatro cantos e reconheceu quem já conhecia e conheceu quem ia conhecer melhor.
     Ainda teve um tempo para olhar pela janela. A sala de aula tinha realmente janelas e porta. Lá fora o dia vestido de sol. O sol vestido de pó de ouro. O sol e o dia se virando para mexer muito bem com as cores. Do outro lado da rua a igreja com a torre única. Caapi teve um espaçozinho entre as ideias para pensar num sorvete de pequi com pedaços de abacaxi incidentais metidos.
     O planeta Terra em nossa órbita. O céu azul incomensurável. As formigas-cuiabanas podem devorar o mundo, se quiserem. As mulembas e as uarumãs protegem o planeta do cinza. O Ivo viu a Iva comendo uva.
                                                               ***
     Pois agora a menina não queria nada com nada. A menina ali, os pais junto dela. E nada da menina ter apetite para comer seja lá o que for. E a menina não tinha vontade nem para beber água, suco ou refrigerante. Não tinha apetite nem para assistir desenho animado e nem para jogar vídeo game. Não queria muito menos cantar falar ao telefone ou ouvir a própria voz.
     E a guria continuava ali, sentada na cadeira da mesa do almoço, teimando e insistindo que não tinha vontade de comer. Comer era muito difícil. Não tinha fome. Os pais insistiam sem parar. E os pais ficaram preocupados. E os pais acharam que se a menina não comesse morreria muito magra. Caapi não tinha fome de nada nem parecia se importar em morrer hoje ou daqui vinte dias.
     Seu Chico pegou as mãos da menina, beijou seus olhos e falou indagando perguntando com calma:
     - Quer comer pastéis de queijo ou de palmito? Quer pelo menos suco de maracujá? É bom.
     Caapi olhou tudo ali sem ver e disse, respondendo:
     - Nhe-nhe-nhé!...
     Seu Chico contou de andanças suas por esse mundo habitado de coisas visíveis e seres invisíveis:
     - Eu estava a passeio por Guaratuba, Itirapina, Espera Feliz, Caraguatatuba, Uberaba, Água Comprida...
     A dona Jurema chegou bem pertinho e já preparada, acariciou os cabelos da menina e ainda mais esfregou as costas da menina. Dona Ju quis ajudar perguntando assim:
     - Por que você não quer saber de comer ou beber um suco ou uma vitamina? Você não gosta da minha comida? Você não prefere comer ficar forte e crescer? Quer uma sopa de letrinhas para ficar ainda mais inteligente?
     A guria olhou por ali mesmo, olhou os joelhos e depois olhou as próprias mãos e respondeu de um jeito lá todo do seu estilo:
     - Zu-zu-zum!...
     Os pais da menina amavam a menina amável. Os pais trouxeram para a mesa diversas e variadas comidas muito boas: melancia com polpa vermelha estalada, suco de abacaxi natural trescalante, iogurte gelado com sabor açaí, picolé de pitangas colhidas no pé, torta de chocolate com camadas generosas de chocolate, merengues enfeitados com passas de banana, confeitos de várias cores, sonhos recheados com creme de laranja, et-cé-te-ra.
     Caapi ainda olhou para todas as comidas sortidas sobremesas iguarias sobre a mesa e desanimou. Tipo assim: Ah, o gostoso é só isso, hein?! E bocejou. E a menina não experimentou, por incrível que possa dar água na boca. A guria ficou calada e de bico fechado. Nada nada passava pelo nó da sua garganta de menina temperamental. Ela já não sabia mais engolir. E não tinha vontade para nada. E ultimamente não queria e não pensava nem em cantar ou virar cantora. É, bota situação muito difícil nisso! Uma menina nervosa e cheia de manhas e manias. Aonde ela ia buscar essas e outras encucações? E querendo gostar de ficar magra magérrima esquelética tipo doença de modelo de desfile de passarela.
     O pai segurou as mãos da menina, beijou seus olhos e perguntou sugerindo:
     - Você não quer uma bicicleta? Um velocípede? Um carinho de rolamento? Um triciclo? Uma viagem ida e volta à cidade de Formosa do Rio Preto?
     A menina olhou para as próprias mãos e para os dedos das mãos e as unhas dos dedos das mãos e respondeu de bico amuado:
     - Pli-pli-pli!...
     A mãe se aproximou preocupadíssima e acariciou a menina nos cabelos e nas costas. Depois a mãe lembrou de oferecer:
     - Vamos até o parque de atrações? Vamos andar de roda-gigante, no carro-choque, na maria-fumaça, no carrossel, etc?
     Caapi cruzou os braços sem vontade nenhuma de se abrir, sem ânimo para levantar da cadeira e apenas conseguiu resmungar num sopro de voz:
     - Li-li-lim!...
     E foi uma tarde muito longa e sem graça porque a menina não tinha vontade de almoçar lanchar. E foi uma tarde sem interesse algum porque a menina não tinha vontade de comer nem tomar sorvete ou garapa. E foi uma noite muito esquisita porque a menina queria dormir sem o jantar. E a guria foi deitar totalmente de barriga vazia e barriga roncando.
                                                               ***
     Na escola, a melhor amiga e companheira compreensiva da menina adotiva era uma tal de menina Lilás. A menina lilás que tinha nome, Lilás. As duas eram amigas mesmo e viviam juntas no colégio fora do colégio. Eram inseparáveis e muito confidentes, telefonantes, uma a sombra desenhada da outra. Uma sombra se mexia, a outra sombra acompanhava. Era até engraçado. Era até assombroso. Era até engraçado. Era até mesmo muita amizade.
     Caapi sentava na carteira ao lado da carteira de Lilás. A menina adotiva ouvia as aulas e a menina Lilás igualmente. A menina adotiva, por favor, ouvia a professora de geografia falando e escrevendo no quadro-branco:
     - O rio Tapajós localiza e corre e fornece no norte do país no Estado do Paraná, tá certo?
     A menina adotiva, a menina Lilás, as duas e toda a turma, olharam o mapa do Brasil que ficava pendurado toda a vida do lado do quadro-branco. A professora vez ou outra ia lá e localizava com o dedo o famoso rio Tapajós. E o dedo pingava um ponto num pedaço amarelo do mapa brasileiro. Então, a Caapi pensava e falava para a amiga Lilás, dez anos as duas:
     - O rio Tapajós fica e corre e escorre num lugar todo de amarelo, é?
     A menina Lilás completou quando e como:
     - É. E lá deve ter ouro ou muito ipê-amarelo.
     Caapi também tinha umas certezas:
     - E índios bacairi pescadores de tucunaré.
     Lilás tinha outra certeza:
     - E mais as abelhas mombuca fabricantes do mel silvestre.
     Caapi mais outra nobreza:
     - E teiru flauta de índio feita de casca de árvore.
     Era engraçado ver as duas meninas sempre juntas e inseparáveis e acompanhadas com uma e outra. No intervalo, por exemplo, elas comiam o mesmo tipo de doce ou de salgado. Se uma preferia laranja, a outra também comia laranja. Se uma optava misto-quente, a outra já já ia de misto-quente. Uma não discordava da outra. Se uma escolhia biscoito de chocolate com chocolate quente, a outra idem chocolate quente com biscoito de chocolate. Se uma ria da brincadeira de um menino, a outra também ria da mesma forma. E eram tão amigas que uma colava da outra trocando pedacinhos de papel. Tão amigas que tinham os mesmos defeitos e as mesmas qualidades. Muito íntimas, tinham até o mesmo pretendente a namorado. Como eram muito menininhas, esse pretendente era só namorado visual de namoro virtual. Tipo assim:
- Olha lá!, é ele mesmo!, que gato, meu!
     Na aula de História com H maiúsculo do Brasil, o professor falou e disse olhando para a turma toda. E depois escreveu no quadro-branco o importante recado seguinte:
     - O Brasil só foi tirar, né, gente!, sua carteira de motorista no ano de... de? No ano de 1822. Sete de setembro de 1822, tô enganado?
     E o professor perguntou isso mesmo para a turma. O professor sorriu. A menina adotiva olhou a menina sua amiga Lilás. Queriam saber. As duas meninas ficaram se olhando que pareciam surpresas. Aí, a Caapi comentou com a Lilás:
     - Será que o Brasil já sabia tirar autorretrato naquele tempo tão distante?
     A menina Lilás, vejam vejam!, completou:
     - Será que o Brasil já sabia surfar as pororocas dos rios Amazonas, Araguaia, São Francisco e Tocantins?
     Quando Caapi não queria olhar o professor ou o quadro-branco ela podia muito bem olhar lá para fora, pela janela. Quando a menina adotiva não queria olhar o livro ou o computador ela podia olhar para a amiga Lilás. Assim era a vida na sala de aula. E a Caapi nem pensava em ser cantora e viver cantando sucessos nos melhores programas de tevê.
     O professor de matemática um dia desses escreveu ou desenhou no quadro-branco o seguinte objeto pouco identificável ou nada identificável ou coisa de ficção científica: a + b : c.
     E aí?! E aí todo mundo se agitou na cadeira e todo mundo olhou um para o rosto do outro sem saber que loucura era aquela. Que loucura era aquilo? E foi etê de Varginha que inventou essa?
     E que coisa extraterrestre era aquela jogada atirada no quadro-branco: a + b: c? Que viagem sem volta era aquilo, gente?! Alguém podia parar com aquilo? Aí que morava o perigo, meu!
     E a menina adotiva ficou com o troço na cabeça lá dela, veja: a + b: c. E levou embora. E veio do colégio até em casa com a coisa pesando na ideia. Não descobria o que era ou nem entendera a explicação do professor. Estava querendo ser no futuro uma professora de matemática? Possível podia ser.
     Horas quase 12h calor mormaço sol e calçada lotada da avenida Rosário do Sul. As duas amigas vindo embora pra casa. Caapi perguntou para Lilás:
     - Onde está Xambioá? Quem é Xambioá?
     - Nem sei - resposta de Lilás.
     Depois, passaram por baixo de uma árvore embuia ouvindo cantar a carará. Depois, Caapi perguntou mais outras coisas:
     - De onde você veio, Lilás?
     - Vim de São Miguel do Araguaia.
     - Pois onde fica?
     - Na serra do Piloto.
     - Onde fica?
     - No Estado do Piauí.
     - E para onde fica?
     - Na floresta da Tijuca cheia de carnaúbas, tarumãs-pretos, uvas-do-mato, pindobeiras, canivetes, calumbis, chapéus-de-sol...
     - Onde ficam?
     Chegando em casa Caapi ainda não esquecera aquilo tudo assim: a + b: c. A menina recebeu a visita dos aladinhos joão-xiquexique, guaxe, tangará-dançarino, chanchão, pepita, saíra-de-chapéu-preto... Os emplumados olharam tudo e pediram migalhas de bolo de caju com água da chuva.
     Logo a menina adotiva lembrou de perguntar. A menina quando queria era muito perguntadeira. Então, já perguntou em voz já aveludada:
     - Pássaros e aves, me respondam sem pensar. Sabem vocês o que seja, a + b: c?
     Os voadorzinhos quase voaram para o quintal. Mas não voaram agora. Pararam de limpar as próprias penas e abriram muito mais os olhos curiosos. Ainda assim, não conseguiram decifrar o problema. Depois, enganaram a guria com pipios gorjeios assobios e saçaricos saracoteios.
     Caapi adotiva ficou pensando e olhando sem ver. Os passarinhos queriam ajudar, mas não ajudavam. A menina não tinha ideia do que era, a + b: c. A menina não sabia calcular essa questão usando a cabeça, assim de ideia livre. E parecia não poder decifrar e testar o enigma. E continuava olhando sem ver. E os amigos alados olhavam tudo curiosos, bem espertos e mais que curiosos, beliscando as asas, dançando nos poleiros improvisados.
     A novidade de árvores verdes como se fossem árvores, araçazeiro-do-mato, guarucá, pindaíba-preta, branquinho, bacupari-do-campo, cataguá...
                                                               ***
     Uma cara de tempo muito depois, mil séculos após, meses e anos mais tarde, alguns dias, a menina adotiva foi deitar e dormir. Era já hora de dormir. Certa hora da noite boa para deitar na cama e olhar para dentro de si. Dormir é bom elegante e faz bem. Era hora de bichinho ir para o ninho. A menina se aprontou, acariciou a cama o lençol e puxou o lençol azulzinho de lado. Pronta para dormir de pijama riscado de azul e branco e sem bolsos. Deitou na cama e se cobriu até o queixo com o lençol gostoso. Esticou o braço da direita e apagou a luz do abajur. E o quarto se encerrou no escuro da escuridão noturna.
     A menina fechou os olhos e não viu mais nada, não viu nem sombra. Chaveou, se pode dizer, as pálpebras nas trevas duras e impalpáveis. A menina fechou os olhos e foi levada para viajar no nada, sem nada para ver. Foi caminhando sem ver, tateando, tropeçando, e depois voando, batendo umas asas surpreendentes como os morcegos, como as aves noturnas as mães-da-lua, será que avião sabe voar no escuro?, depois ainda batendo asas voando muito rápido para qualquer lugar muito alto e isolado.
     E Caapi sonhou que chegava em país da manhã clara na ilha dos coqueiros de cocar. O sonho até aí era o que ela queria. Um sonho bom e calmo e especial. Era a ilha dos coqueiros vergados pelo vento do mar. Coqueiros de cocar verde palrando ao vento. Coqueiros que desenhavam manchas de sombra no chão da ilha na areia fofa e branca. E a ilha era a ilha dos coqueiros de cocar tão esperada. Suco de abacaxi gelado e melancia à vontade. E havia pequenas pessoas, tipo micos e saguis, brincando na praia de ondas que vinham e iam. E havia ainda outras pessoinhas, tipo sapinhos de borracha, bolas coloridas, bicicletas enfeitadas, e todas brincando de fazer casas e cidades na areia. Aves marinhas piavam riscavam o espaço azul desde o alto das pedras para o mergulho no mar.
     Pelas altas horas da noite no quarto de dormir, a mesma noite, a Caapi estava só e dormindo e desamparada e sofrendo pesadelos. O primeiro pesadelo foi esse: a menina estava à beira de um perau e a gravidade a puxava para baixo, para o fim, para o buraco, para o fim do mundo. A menina caiu, então. A menina caiu e foi caindo num poço sem começo nem fim. Foi horrível como ela caiu. E a menina sempre continuava a cair e a ficar com mais e mais tremores pelo corpo. Não parava de cair uma vez sequer. Estranho que a menina adotiva caía do perau e caía e caía sem parar, nunca chegando ao fundo do abismo. O perau era muito alto, muito fundo, escuro e sem fundo, medonho e sem fim. O arrepio da menina era muito grande e sempre nervoso. De repente, a menina conseguiu desatar um grito como se estivesse emergindo do fundo das águas do remoinho e deu um berro:
     - Aaaaaaaah!...
     O berro foi ouvido no Acre, em Belém do Pará, Brasília, Anta Gorda, em Niterói, no Myanmar, do outro lado desse mundo, pela casa toda e vizinhanças. Aí, os pais adotivos chegaram na hora, depressa, correndo e afobados. A dona Jurema Piúva foi perguntando:
     - Que que foi, minha filha? Teve pesadelo? Você ficou tonta?
     O seu Chico Taguari também foi logo interrogando:
     - Que que há, minha querida? Você se assustou com algo ou alguém? Foi o anhangá-pitã, a matinta-pereira, o caboclo d’água?
     Caapi respirou fundo, respirou, respirou fundo e armou um bico para chorar. A menina tentava respirar fundo, respirar melhor, encher de ar a sua alma abandonada. E respondeu tudo junto e chorando assim:
     - Bi-bi-bi!...
     Dona Jurema acariciou o cabelo da menina, esfregou as costas com a palma da mão. Seu Chico pegou as mãos da menina entre as suas, beijou a menina nos olhos e foi relatando:
     - Eu estava a trabalho por aquelas tantas bandas de Ubatuba, Guaíra, serra do Piquiri, praia Vermelha do Sul... O dia passava alto a noite passava baixa. A chuva caía quando D queria. O rio passava. Os guarás tinham razão. A folha-de-lixa precipitava seus ramos folhosos. Quando papagaios-do-peito-roxo voavam pela manhã e voltavam no pôr do sol. Os silvícolas tupiná acreditam que Rudá é deus das nuvens e íntimo da lua cheia da lua nova...  
A menina tentava segurar as lágrimas quentes e salgadas, mas não conseguia e não era fácil. As lágrimas da menina escorriam pelo rosto abaixo como de uma fonte borbulhante e impulsiva. O rosto da menina ficou riscado de pequeninos rios correntes. A guriazinha tinha dois repuxos um em cada olho azul.
     Mais tarde, meia hora, três horas depois, quatro da matina, a menina adotiva relaxou um pouco e fechou os olhos e se aquietou na cama. Com calma se deitou na cama. Cansada, se aninhou se encolheu ao travesseiro. Os pais adotivos esperaram ela dormir e ressonar. Quando a menina dormiu e roncou, os pais foram saindo do quarto pé ante pé e gesto a gesto ombro a ombro. Apagaram a luz e encostaram a porta. A menina ficou sozinha, deitada, dormindo, ronronando, perdida no mundo de sonhos bons. E viajando enrolada em nuvens para embrulho, para além das estrelas, voando com calma sobre as copas das árvores, ximbó, uafé, paina-de-seda, pacari, ipê-mandioca, marizeira... estas árvores do norte do país.
     Profundas horas noturnas da mesmíssima noite, a menina dormia já se agitando outra vez. Rolando na cama sem sossego inquieta perdida pelas ruas sem nome. É que dentro da cabeça pintou já um novo pesadelo, um sonho perturbador. A menina adotiva tremia sem querer e se via caindo do paredão. O outro paredão, mas o mesmo paredão, mesmo perau. Ela caía e caía sem parar, sem fundo, sem cintos de segurança. Se agarrava um milímetro e resvalava. Caía do quinquagésimo andar. Caía do avião com avião e tudo. O pesadelo parecia algo assim muito presente e alto e real, tanto que a menina não parava de tremer, e sofria, e suava frio, se arrepiava, e batia os dentes, e se agarrava ao lençol com unhas e dentes. Olhava lá do vigésimo andar e tinha necessidade de pular. E de repente, a menina deu um grito dentro da noite sem fundo se libertando do aperto na garganta:
     - Uaaaaaaah!...
Foi ouvido sem dúvida por todo o Brasil, no Amapá, em João Pessoa, Dianópolis, Água Nova, Marcação, Pitangui, na aldeia dos tuiúca, até na África subsaariana. Foi ouvida pela casa toda e proximidades arrabaldes. E os pais adotivos da menina adotiva já pularam lá da cama deles e vieram correndo. Quem chegou primeiro foi... E viram que a menina não parava de tremer, já chorando, tiritando de frio como vara verde ao vento minuano.
     Seu Chico se aproximou com as mãos e pegou nas mãos da menina e também a beijou nos olhos. A dona Jurema se juntou também bem juntinho e passou acariciando a mão nos cabelos da menina e depois também massageou as costas da menina. Ficaram assim os três agrupados ali, à beira da cama, quase na manhã.
Ficaram os três ali em trio e agarradinhos como se estivessem com muito muito frio. E realmente parecia fazer frio. E estava fazendo muito frio. Esperaram um bom pouco de tempo. Cochilaram ali abraçadinhos como uma família de gambás ou de tamanduás-bandeiras.
     Amanheceu e... falando sério, a menina decidiu voltar para a sua verdadeira e legítima casa, a sua verdadeira família. Que não era longe nem perto. Que não era aqui nem ali. Isso três anos e três meses depois de ser adotada. E disse dizendo:
     - Eu vou embora para casa. Me desculpem. Estejam todos desculpados.
     É, a ex-Caapi quis voltar para casa dos verdadeiros pais, os irmãos, as irmãs, para o seu nome de batismo, para a ilha dos coqueiros de cocar. Coqueiros de leques abanando no verão. E foi assim mesmo que ela pegou e voltou. Poderia até cantar e virar cantora, por que não?!
     Foi até a pracinha de nome Xeripana. Um bando de papas-cacaus fazia um auê ensurdecedor. Plantas de todo tipo faziam sombra e era legal, acapurana-vermelha, congonha-caixeta, rabo-de-raposa, mirindiba, abio-grande, pixuna, cajueiro-do-campo... Atravessou a avenida de nome Gonçalves Dias. Viu a rodoviária, os destinos, e colheu um destino, dessa vez o seu destino correto, original, natural, entre outros a se oferecerem.
     E foi melhor assim. Três anos e três meses com três dias de inexperiência. Pois a menina ex-adotiva preferiu a vida na vida real. No claro e escuro da ilha coqueiral. E voltou para casa e para seu lugar. Melhor para todos nós. Com paisagem de passagem por Andaraí, Jarinu, Louveira, São José do Sul... Bem melhor para ela, em particular.
     E, no que interessa, um jeito que, além de muito imensamente surpreendente, surpreende interessantemente.
     O vento respirava por ali. Nuvens invisíveis no azul comum. E, sem novidade, se esperava um milagre outro milagre, etcétera.
     E é assim que se paz.


Nenhum comentário:

Postar um comentário