O tempo passatempo driblando todo mundo. É assim mesmo. Uns desgostam
outros nem tanto. E que jogada! Mas nem tem outro jeito. O tempo passa
pedaladas e marca outro gol.
As pessoas os bichos as árvores e as coisas. O dia como costuma ser. A
cidade andando na estrada do sol aberto. O sol pela manhã, quase dez e dez e
subindo. As coisas possíveis e impossíveis. As pessoas a trabalho ou a passeio.
O dia muito bem.
A nova rodoviária de Nova Prata estava lotada de viajantes, os que
chegavam os que partiam. Os destinos eram maravilhosos à escolha, variados,
diversos, Taipas do Tocantins, Serra do Mel, Buíque, Cunha, Dores do Indaiá,
Garuva, Porto de Pedras, Itapitanga, Rio Verde de Mato Grosso...
Dona Jurema Piúva chegou à
pracinha de nome Xeripana, logo em frente da Estação. Descansou as mãos nos
quadris, olhou, olhou a sua volta. Aí, ela viu uma menininha sonhadora, sozinha,
brincando sozinha e calma, quietinha, perto do balanço perto das gangorras
perto do tobogã. Dona Jurema se aproximou da garotinha e chamou a sua atenção:
- Oi! Está sozinha? Não
brinca com amigas? Como seu nome? Está aborrecida? Quede sua família?
A menina ouviu com paciência
todas aquelas perguntas. E ainda olhou a dona Jurema com calma, com simpatia e
quase com um amor. A menina olhou a dona Jurema e respondeu:
- Nho-nho-nhó!...
Dona Jurema Piúva teve uma
ideia praticamente perfeita. Pelo menos para aquele instante. Se apresentou,
estendeu a mão, pegou na mão da guriazinha e perguntou:
- Vem comigo pra casa? Vem
morar lá em casa? Vem fazer companhia a mim e ao meu marido? Vem, vai ser
legal. E você não tem ninguém mesmo!
A meninazinha olhou a dona.
A guriazinha olhou ressabiada. A garotinha estendeu a mãozinha e suspirou:
- Nhe-nhe-nhé!...
A simplicidade das pessoas
simples simplesmente passeando displicentes no passeio público. Uma tapuru
gastava sombra e aroma de flores amarelas.
Os guris as gurias brincavam
de esqueite na pista da praça. E tinha um cachorrinho marrom olhando.
Inventavam manobras subiam desciam contornavam derrapavam. O cãozinho era a
melhor parte o principal o bonito o interessado.
E a dona e a menininha foram
caminhando devagar para a casa da dona Jurema Piúva. Pegaram um táxi, talvez. A
guriazinha só tinha as roupas do corpo e mais nada e mais ninguém. E a menina
ia para casa da dona Jurema pensando que sua vida ia ser boa e melhor. A
menina, a mão dada com a dona Jurema, pensava levemente que sua vida ia ser
ótima e não parar nunca de ser muito boa.
Pensando muito, um pitanguá
é extraterrestre, umas tocanguiras são intergalácticas, um juiponga é
alienígena.
***
Não muito depois, chegaram
em casa, casa ou apartamento, de dona Jurema Piúva e seu marido o seu Chico
Taguari. E quando seu Chico chegou em casa, vindo muito cansado do trabalho,
teve a surpresa da presença da menina. Seu Chico se apresentou e foi logo
esfregando as mãos e elogiando a guriazinha:
- Hum... que menina
bonitinha, uma vez. Você gosta de tomar sorvete com pedaços de frutas? Você
gosta de chocolate em barras? Você quer uma boneca que cante e gingue? Vamos
passear de pedalinho na lagoa? Temos muitas opções.
E seu Chico Taguari estava
empolgado mesmo, tanto que ofereceu também outras novidades para agradar
agradar a menina. E dona Ju também estava emocionada e eufórica que prometia
outras coisas mais para a menininha. E assim, naquela primeira noite, a família
se achou. Todos se olharam muito bem. A menininha olhou os pais adotivos muito
de perto. Os pais olharam a filhinha adotiva muito de perto. Não queriam nem
dormir.
E uma boa pergunta do seu
Chico:
- Olha, menina bonita e
linda! Como é o seu nome? Que nome você já tem? Você já usa um nome? Um apelido?
E a menininha respondeu com
um biquinho, fazendo um bico de choro, como um passarinho:
- Nhe-nhe-nhém!...
Seu Chico em comum acordo
com dona Jurema, declarou:
- A gente pode chamar você
de Caapi, oquei?!
Dona Jurema acariciava a
menina passando a mão pelos cabelos lá dela, esfregando suas costas. O seu
Chico segurava as mãos da menina e a beijava nos olhos. Trocavam olhares de
reconhecimento, ternura, afeto, paciência. Os pais adotivos perguntavam. O seu
Chico foi desabafando:
- Sabe, meu benzinho, hoje
mesmo eu pensava. Eu estava sentado no banco do metrô e pensava. Eu pensava o
seguinte: como seria bom encontrar uma bela menininha para adotar. É, eu
pensava e sonhava tudo isso hoje mesmo. Vê que coincidência? Você veio como num
milagre, percebe?!
Dona Ju foi preparar um
jantar. Seu Chico colocou música clássica Villa-Lobos para relaxar. Seu Chico
não perdia a mania de esfregar as mãos lá dele. Pensou em adivinhar uma futura
profissão para a menina. Falou nisso mesmo:
- Hum... Que profissão você
gostaria, hein?! Que tal você estudar muito muito para ser uma ornitóloga? Uma
entomóloga? Ou então treinar muito muito para ser agente policial?
A menininha que não viera
com nome ou não lembrava do próprio nome ou ainda tinha vergonha de falar o
nome de batismo, a provisória Caapi, resmungou:
- Me-me-mé!...
Seu Chico começou uma prosa
que tinha longa viagem no meio no fim e no começo:
- Foi naquela época de
setembro para outubro dos idos de 1999. Eu e Lu fazíamos o Caminho da Luz,
estrada de poeira e cajado e porteiras de fazendas, Tombos, Pedra Dourada, rio
Carangola, Caiana, Galileia, Alto Caparaó, pico da Bandeira...
Quando pensaram em dormir,
naquela primeira noite, a menina fez bico para choro. E quis chorar. E por que
chorou. E chorou mesmo de se lavar. Dona Ju e seu Chico também choraram para
acompanhar. E os três dormiram os três na mesma cama, a menina entre o casal.
E a noite passou. E retornou
um novo dia. Havia um dia entrando com o sol pelas frestas das venezianas
verdes. Um som puro de trânsito rodando na cidade. Um ronco sem graça de
motores brabos passando na rua Capuava. O mundo acordava e dizia “bom dia!” tal
e qual. A menina acordou.
Metade do mundo brincava,
metade do mundo ainda dormia, metade do mundo tomava café com pão, metade do
mundo pegava ônibus na esquina, metade do mundo apressava para chegar na hora,
metade do mundo passeava com cachorro na praça, praticamente.
A menininha acordou, olhou
para os lados, não acreditou e gritou com plenos pulmões. Gritou muito forte
tão forte que ela mesma teve que tapar os ouvidos com os dedos. E os pais
adotivos acharam também que o grito foi de assustar e pularam da cama em
pânico. Tanto seu Chico como dona Jurema olharam a menina e não acreditaram. É,
a menina berrara muito alto mesmo. Para quê? Para que tanto medo e pavor e
horror? Dona Ju perguntou, que perguntar nem sequer ofende:
- Quer um cachorrinho de
estimação? Tem preferência de tamanho ou raça? Prefere um cachorrinho ou uma
cadelinha? Os gatos são mais responsáveis.
O seu Chico ainda pegou nas
mãozinhas da menininha e beijou os seus olhos de sono. Dona Ju a acariciou nos
cabelos e nas costas. Seu Chico ainda fantasiou uma viagem de passeio por:
- Quando eu era jovem, pouco
mais ou menos que você, minha filha, eu andei por longes terras e outras
comarcas e demais regiões, São Sebastião do Uatumã, Pão de Açúcar, Malhada de
Pedras, Alvorada de Minas, aldeia dos uari...
A menininha foi apresentada
ao seu quarto particular e exclusivo. Dona Jurema ainda foi afastar as cortinas
e abrir a janela. Toda a luz natural entrando com roncos da rua e cantos de
tico-ticos, porangas, mongos, sabiás-laranjeiras, birros, pombas-galegas... Um
quarto exclusivo e todo decorado para menina como se os pais já viessem
adivinhando tudo desde muito tempo. O quarto decorado muito bem. Brinquedos de
menina, cores de menina, fotos e pinturas na parede. Figuras na parede, bonecos
na estante e livros para colorir sobre o balcão. A menina ficou ali. Olhou tudo
e se sentou. Pegou uma coisa, foi se empolgando, pegou outra e nem parou mais
até ver com as próprias mãos todos os brinquedos do quarto. Sentada no chão ou
deitada na cama, tanto faz como tanto fez bem.
Lá pelas horas, a menina viu
um aladinho entrar no quarto. Primeiro a corruíra apareceu sem ela saber.
Depois a turma dos canários-da-terra cantaram e ela ficou procurando com
suspense. Procurou com o olhar e os achou pousados agarrados à cortina da
janela. Eram uns vinte ou trinta passarinhos muito conhecidos na redondeza. Uns
mais coloridos sarapintados que outros. Um tipo azul, azul até não aguentar
mais, azul até onde podia ser azul, azul-escuro nas costas, azul-claro no peito
e na barriga, topete azul-metálico, tamanho pequeno e peso ultraleve.
Andorinhas brancas na barriga e pretas nas costas. A beija-flor-grande-do-mato
toda colorida como arco-íris. E a menina os olhou sem palavras. Os passarinhos
a olharam cheios de trejeitos, piruetas, malabarismos e acrobacias. Todos se
olharam sem parar. Os passarinhos pareciam mais inquietos. Um galho de araribá-vermelho
chegava a riscar arranhar alcançar o vidro da janela. A menina mais
maravilhada.
***
Na sexta-feira ou no sábado,
a menina Caapi fez uma pergunta. Era a primeira vez que falava como gente como
ser gentil, e não como uma gata ou uma pata ou uma zogó ou uma jaritataca. A
menina falou e disse:
- Queria ir ao zoológico.
Vocês me levam ao zoo de Canela?
Os pais adotivos da menina
ficaram quicando de contentes. Se entreolharam admirados e contentíssimos.
Claro que foram ao zoológico. Canela não era longe, um pouco para lá de Nova
Petrópolis.
E no dia seguinte, um
domingo ou uma segunda-feira, a mesma menina perguntou aos pais adotivos.
Perguntou com já a vantagem de se saber muito bem amada:
- Ora, por que não vamos ao
shopping center comer pipocas carameladas? Eu estou sem roupas. Gostaria muito
de escolher umas roupas sem muito luxo nem muito destaque.
E os pais da menina se
entreolharam com preocupação e felicidade. Tudo porque a menina já falava muito
e falava mesmo muito e bem. E assim foram ao shopping Guainumbi fazer boas
compras. Aproveitaram para comprar tudo que a menina pedia desejava almejava
apontava. Os pais adotivos já comemoravam, pois achavam que a filhinha adotiva
estava no papo.
No outro dia não era mais
domingo, e sim uma quarta-feira de junho ou julho. Os pais adotivos continuaram
amando e prestigiando. Logo a menina viu isso, mas também lhe passou coisas
estranhas na ideia. A menina acordou pelas dez e dez com uma imagem nos olhos:
uma ilha lugar distante com coqueiros abanando. E chamou chamou a mãe adotiva,
o pai adotivo:
- Mamã-nhê!, dona Jurema.
Pai-ê!, seu Chico.
Os pais vieram a trote
competindo para ver quem era mais atencioso. A dona Ju passou a mão no cabelo
da menina, esfregou as costas. O seu Chico segurou as mãos da menina, beijou os
olhos. Perguntaram para a filha:
- Fale! Quer ir ao zoo? Quer
jogar vídeo game? Quer conhecer a piscina do clube Nhandeva? Quer um novo
celular? Quer conhecer a praia do Cassino?
- Diga! Quer uma festa de
aniversário? Quer um porquinho de estimação? Quer uma bolsa tiracolo? Quer um
espelho de corpo inteiro?
A menina disse, respondendo:
- Nem nada de cansativo. Só
queria dizer que sonhei com uma ilha povoada de coqueiros verdes e falantes.
Uma ilha e o coqueiral. Uns jerivás em jerivazal. Uma ilha de areia e
coqueiros. Coqueiros de cocar. Será que tem algum futuro?, pergunto.
Seu Chico Taguari pensou com
calma para responder e respondeu:
- Hum!... para falar a
verdade... hum!... nem sei lhe dizer, filha.
A dona Ju também pensou e
respondeu nem dizendo coisa com coisa:
- Pode ser saudade, pode ser
falta do que fazer, pode ser sugestão de algo que você comeu ou assistiu na
tevê.
Seu Chico testemunhou:
- Eu estava a passeio longe
à beça por São José dos Campos, Veranópolis, Paraibuna, Guatapará, na basílica
de NS da Penha em Recife...
A família estava unida e
coisa e tal. Conversavam sobre tudo e não deixavam crises para amanhã. Não
deixavam que as greves os separassem os dividissem. Eram pessoas que se
esforçavam e se queriam bem e muito mais.
As árvores verdes incomodam muita gente, a sambacuim incomoda muito
mais, o aguaí-vermelho incomoda muito mais, o alecrim-branco incomoda incomoda
muito mais, a farinha-seca incomoda muito muito mais, a guaibi incomoda todas
incomodam.
***
A menina foi para a escola
colégio NSAparecida aprender a ler aprender aritmética e aprendeu a decorar os
rios da Amazônia Legal, rio Uaupés, rio Jupará, rio Madeira, rio Purus, rio
Xingu, rio Negro... Tirou férias virtuais na praia do Meio, em Natal, Espírito
Santo. Deixou o cabelo crescer que foi crescendo. Ganhou bicicleta e foi
pedalar na calçada da rua em frente.
Um dia Caapi acordou ouvindo
todo o mundo todo o mundo gritar:
- É a guerra!! É a guerra!!
E era a guerra mesmo. O
mundo estava em guerra. E guerra não é qualquer brincadeira. E guerra é pior
que programa de televisão nas tardes de sábado, pior que promessa de político
de 2 em 2 anos, pior que falta de pão arroz feijão, pior que apagão às 19h em
domingo de chuva, pior que perder duas Copas do Mundo em casa, pior que ver o
time ser rebaixado.
Então, veio a notícia que
com certeza a crise da guerra provocaria a falta de água boa. Assim, e por isso
mesmo, toda a população ficou preocupada com o que não beberia. E se faltasse
realmente água limpa, hein?! Seria o caos. Seria não, já era o caos e o deus nos
acuda.
Desse modo todos correram
armazenar água mineral. Telefonaram para carros-pipa, compraram baldes e bacias
e galões, encheram piscinas e cisternas e reservatórios subterrâneos e
caixas-d’água. Todos guardaram água para muito tempo. E também até quem não
sabia chorar começou se lamentando.
No início do mundo tudo era
água. No princípio era a água. Era água e água era chuva. Caía em pé e corria
deitada. Quando mais tarde, os outros dias depois. Quando D fez assim como e
depois. E chegaram os rios e vieram os mares e os oceanos. E mais chuva que D
mandava.
E as pessoas e os bichos e
as árvores e as coisas correram para as lojas e mercados comprar urgentemente
água de garrafinha com gás sem gás. E todos fugiram para a beira de rios e
lagoas e reservatórios e tanques e barragens. E todos compraram passagens
aéreas para viverem no paraíso das águas em Sete Lagoas, em Foz do Iguaçu,
Uruguaiana, arquipélago de Marajó, Alegre em o parque Cachoeira da Fumaça...
E coube uma dúvida, e que
todos se perguntaram:
- Haveria água para todos
saciarem a sede? Quanta água caberia a cada cidadão cidadã? Haveria banho para
todos os dias? Todo rio correria para o oceano? Toda a água salgada seria
convertida?
E assim, por causa dessa
guerra sem sentido, por causa da guerra sem beleza, guerra química, haveria uma
forte crise de falta de abastecimento de água. E o mundo em guerra só desejou
cuidar da água. E todos pensaram principalmente em água. E todos desejaram
água. E todos passaram a comprar e vender água. E a água foi a preços
estratosféricos ionosféricos tomando toda a atmosfera. E a água valorizou como
dinheiro. E as lágrimas viraram moeda de troca.
Durante o dia as pessoas
mercadejavam água. E durante a noite se ouvia e se fugia de tiroteio pela posse
da água. E depois, sem vexame, sem vergonha na cara, houve tiroteio em pleno
dia pela guarda da água. Então, virou uma guerra líquida.
Por isso todos choravam. Por
um motivo e outro, todos choravam ou se aproximavam de quem tinha o dom de
chorar facilmente. Inclusive e principalmente a menina Caapi. Até o céu chorava
por ela. E aí todos corriam com baldes e etc socorrer a água da chuva. Chovia
todo dia, durante o dia e à noite.
Mesmo os índios tupiniquim,
os índios cariai, os índios iruri... batiam tambor pela água do céu. E os
urbanos iam aos templos se ajoelhar e pedir mais água do firmamento. E as
pessoas da área rural faziam romarias até a capelinha na gruta do morro pela
água abençoada.
E D dizia para si mesmo na
sobreloja de umas nuvens próximas e carregadas:
- Mas por que todo o mundo
quer minha água? Por que todos ao mesmo tempo? Por que sempre em cima da hora?
Por que com tanta sede ao pote?
E a menina adotiva chorou
como uma fonte. E os pais adotivos choraram com ela como duas fontes próximas.
Um chafariz. Eram três nascentes de rios caudalosos tipo rio da Prata rio Carreiro
rio Retiro. E os pais adotivos prometeram mundos e fundos se ela terminasse com
as lágrimas. E a menina não tinha mais forças para agradar aos pais adotivos,
por isso não parava de chorar. E chorou mesmo o dia todo e todas as noites. E
foi aquela mania de choro familiar. Aquela crise de nervos.
Como diz a lenda dos índios
quiriri: o guerreiro se vestiu de tempo pegou a ubá remou foi pelo rio...
Como diz a lenda dos
autóctones apurinã: o rio foge pra sempre pra onde pra lá poraquê...
Os dias se furtaram, as
semanas voaram, o jogo jogado, as horas caíram de paraquedas, as árvores
cresceram com o vento nos cabelos, acaju-catinga, suinã, corticeira-do-banhado,
figueira-brava, varre-forno, macaúba... Depois do tempo que passou passar,
então, só aguardando que novas coisas acontecessem.
***
A menina Caapi estava no quarto olhando o teto. Estava deitada na cama
sem nada fazer e olhando o teto. Olhava o teto pintado de azul-clarinho. A
menina olhava o teto e... entrou aqueles uns aladinhos todos pintados nas cores
pintas variadas. Uns passarinhos se confundiram com o azul-clarinho do teto e
das paredes. O raro cutipuruí deu uma volta inteira pelo quarto reconhecendo o
ambiente esbarrando num bibelô verde de cachorro sentado. Depois nadou bateu
asas a pairari, que pousou se agarrando na cortina da janela. Os passarinhos em
geral cantavam num fôlego só o tal do fiu-fiu-fiu-tiu-riu-mil!...
A menina ficou pasmada e
olhando e olhando. Sem palavras. A menina ficou admirada e sem poder dizer uma
palavrinha. A Caapi queria ser amiga dos alados. E cantar como eles cantavam. E
viver como eles viviam. E voar e voar e voar... como eles e elas voavam. Esse
era o desejo e o sonho da menina adotiva. Ela não tinha mais alma de tanto que
queria isso para si.
E aconteceu uma coisa muito
importante na cidade e no país e no mundo por aqueles dias. Foi o seguinte.
Todo mundo ficou mudo. Se a menina adotiva não podia falar, então todo mundo,
as pessoas todas e os pássaros e os automóveis ficariam mudos. Mudinhos. E
ficaram mudos. O mundo ficou sem as comunicações. Mudinhos da silva. Nenhum
município falava dizia qualquer coisa, Urucará, Itapiranga, Faria Lemos,
Gravataí... Era a guerra da mudez das pessoas dos bichos das árvores das coisas
dos lugares.
O sol observou de lá de cima
aqui pra baixo e radiou:
- Ah, minha mãe!
A lua espiou de lá de cima
aqui pra baixo e prateou:
- Oh, meu pai!
E assim os dias de sol e as
noites de lua.
E assim a menina não ouvia,
não queria ouvir e não dizia ou não queria dizer mais absolutamente nada. Pouco
ria? Não, nem ria nada nada. Pouco ria e já nem falava. Nem ria e nem
resmungava. Nem pensava em nada e nem olhava. Ou melhor, não pensava em nada e
olhava sem ver.
E quando se ligava a tevê o
aparelho mostrava imagem e ninguém falava e ninguém ouvia. O rádio tudo a mesma
coisa. O telefone e o gramofone. Mais, melhor e maior que isso. Ora, as pessoas
queriam saber e nem podiam perguntar. Se perguntavam por telepatia por controle
remoto ninguém ouvia. Mexiam os lábios muito à toa. Os passarinhos queriam
cantar para o dia que ia nascer e nada de se ouvir os assobios. O galo emudeceu
como um grave defeito do mundo. Era um silêncio muito grande mesmo. Nem os
palhaços faziam as tais e quais micagens. Um silêncio pesado e estranho e o
seguinte.
Será que o mundo, o planeta,
estava fazendo greve de silêncio? Boa pergunta. Mas as perguntas não eram
respondidas porque não eram nem faladas nem ouvidas. Ninguém comunicava nada.
Tudo um silêncio de doer. Um silêncio antes da tempestade. Talvez fosse castigo
de D para os homens e mulheres que só falam besteiras. É, podia ser mesmo. Bem
feito!
A grande manhã com pleno sol
cheia de luz e sem vento. Manhã de árvores pensativas, cipó-de-gato,
acácia-de-flores-vermelhas...
E a Caapi parava na janela e
ficava olhando sem falar nada. A voz trancada e muda e silenciosa. Uma voz
interior pensativa e silenciosa. Uma voz sossegada e muda. A menina totalmente
mudada para a mudez. Talvez fosse o caso de doença? O caso de teimosia? O caso
de greve de silêncio, coisa que estava na moda? E ficar em silêncio parece
fácil, mas não é. E a menina adotiva continuava e se mantinha em silêncio
total. Era ela então muito corajosa e durona. Um silêncio inquietante, um
sossego teimoso, uma mudez de pegar no sono. Pois era mais difícil ficar em
silêncio do que não falar nada. E nada de palavra e nada de mímica.
E a guria ergueu os braços
em respeito ao looongo bocejo. Os brincos de pingentes sacudindo pouco acima
dos ombros. Soltou os cabelos alisou afofou nas pontas a franja caída diante
dos olhos um perfume escolhido entre as diversas selecionadas flores do campo.
E o mundo na terra durou em
silêncio e mudez por duas ou uma semana inteirinha. Talvez um dia e meio. Aí, o
mundo era muito silencioso e ninguém podia mais aguentar. Nem as pedras podiam
querer tanto silêncio. Nem os hospitais. Nem os hotéis de luxo. Nem noites de
sono precisavam de tanto silêncio psiu! e quietude e segredo. Mas a menina
obedecia todo esse comportamento silencioso.
O seu Chico Taguari chegou
perto da menina pela milésima vez e a pegou na mão. Seu Chico pegou a menina
nas mãos. Pegou as mãos da menina e também a beijou nos olhos. A dona Jurema
Piúva acariciou os cabelos da menina. Com a outra mão esfregou também as costas
da garotinha. A menina Caapi estava ainda com o mundo no silêncio do mar
profundo.
Na rua Chapada Diamantina um
cãozinho desfilava praticamente. Ele tinha um pensamento quieto dentro da
cabeça de vira-lata: “Trocar de boné, especialmente”. Cãozinho nem abandonado
nem perdido, mas um cão sozinho na rua procurando à procura.
Depois de um século que
durou quase dois dias, a menina viu uns aladinhos entrar pela janela e voar,
dar as voltinhas pelo quarto e pousar no peitoril da janela, na estante com
livros e cadernos, na tela da tevê, no encosto da cadeira. A menina deixou de
ser tímida e resmungou. Esqueceu as manhas e falou para os alados visitantes
ali todos curiosos e olhos arregalados. A menina destravou e perguntou abriu
para o diálogo:
- Ora, passarinhos, senhores
e senhoras! Vocês por aqui? Vocês querem ir comigo para a ilha dos coqueiros?
Muitos coqueiros de cocar. Que que sobra fazer por lá? Ora, muitas pipas,
muitas pandorgas e muitos papagaios coloridos feitos com papel de seda!
E os alados ficaram por aí
mais horas mais dias se olhando e se admirando, cantando, assobiando, compondo.
Os passarinhos muito curiosos, a menina muito interessada. Brincavam de brigar
com a imagem refletida no espelho. As avezinhas pareciam não ter pressa nem
almoço para arranjar, o quiriru, a gralha-do-mato, o miador, o
papagaio-do-peito-roxo, a jandaia, a graúna, o cardeal, o pintassilgo... A
menina se comportando como se os pais fizessem tudo por ela e deixassem que
fizesse tudo que lhe desse na mente. E os passarinhos esperaram horas ou uma
hora e meia. A menina também pensou em sair por aí e voar. Ela queria voar nem
que fosse de asa-delta. Flanar como a bela uarirama. Procurar as encostas ou os
morros altos e se apinchar.
- Eu quero voar por um sonho
a jato.
O vento soprava Caapi os
seus cabelos em particular as pontas dos seus cabelos. Caapi falou assim para
ninguém ao mesmo tempo que a todas as aves a cada uma ali presente sem saber
para onde ir e sem vontade de chegar, falou:
- Eu prefiro voar que é bom.
Os emplumados esperaram o
dia mais um pouquinho. Cantou um cantaram dois cantaram todos de uma vez e
tanto ainda. Aí, eles os aladinhos enfeitaram a menina pousando nos ombros nas
orelhas nos braços se agarrando pelos cabelos. Passarinhos adoraram. Com o
bico, muito de leve, uns até bicaram a orelha da menina. A menina riu. Outros
se admiraram do cabelo e fizeram trança do cabelo da guria. E se esconderam
entre os cabelos da guriazinha. A Caapi até deixou muito mais, e ria como quem
não quer que lhe puxassem o cabelo. E os alados brincaram e esqueceram de ir
embora. E depois de duas horas e meia eles todos foram embora e deixaram
saudades na cara da menina.
As árvores gigantes as mais
gigantes do mundo são as louro-puxuri, timbó, guassatunga, figueira-do-mato,
cabrué, sombra-de-touro. Árvores antigas e altas. Na principal árvore do capão
estavam reunidas todas as aves da região, quem sabe os exemplares, de todos os
pássaros da estação.
Caapi tinha voltado a se
interessar por tudo em volta e na mais pura brincadeira.
***
A menina, amiga dos alados e
das aladas, pensava e sonhava e realizava com uma ilha de coqueiros de cocar e
sombra. Quer ver?
Sol acordou vozeirão domingo
gol dourado. Dia 8 uma quinta-feira fevereiro 2016 em todo o Brasil e também em
Rio Branco no Estado do Amapá. O sol uma fogueira estalando crepitando frigindo
estrequelelê!... ali aqui em todo lugar dia pleno ótimo.
Seu Chico olhou a menina,
pegou as mãos lá dela e a beijou nos olhos. Seu Chico falou mansinho:
- Hum... Que você está
pensando, filhinha? Que você só pensa em ilhas e ilha distante no meio do mar?
Caapi baixou a cabeça, os
cabelos escorregaram para os olhos e já disse, a menina respondeu:
- Eu queria ir talvez para a
ilha dos coqueiros de cocar.
Pois é. A menina sonhava e
só sonhava com isso: a ilha dos coqueiros de cocar que faziam sombra na beira
da praia. Ela sonhava assim. Fazer o quê. E lá deitar.
Seu Chico expandiu:
- Eu estava a trabalho por
essas e outras cidades, Piracaia, Cravinhos, Juruaia, São José do Rio Pardo,
Delta, navegando o rio Atibaia...
Dona Ju chegou passou a mão
carinhosa nos cabelos da menina e também nas costas da guriazinha. A menina gostou,
é claro. Aí, a dona Jurema ainda perguntou para ter certeza:
- Você não quer um
cachorrinho ou cadelinha de estimação? Um cãozinho para lhe fazer companhia? Um
jaguarinha para passear na rua em frente? Um cusco que não late não incomoda os
vizinhos não suja a calçada?
A menina respondeu
perguntando:
- Vamos ao zoo? Vamos ao zoo
de Gramado? Vamos ao zoológico de Sapucaia do Sul?
Então, a família toda pegou
e foi ao clube passar a tarde na piscina. E foram os três à piscina com o maior
gosto. E foi legal nadar na piscina a tarde todinha. Tinha muita gente e muito
mais espaço também. Pessoas deitavam na toalha que era estendida na laje ou na
parte gramada. Havia muitas bagunças também na piscina. Havia
jacarés-de-papo-amarelo de plástico boiando. Havia botos-cinzas de plástico
dormindo. Havia bolas multicoloridas enormes boiando ou navegando na piscina
azul. Havia coqueiros gigantescos importados do litoral capixaba fazendo sombra
de cocar. Havia muitos gritos de alegria e horror engraçado. Havia o brinquedo toboágua
de escorregar pelo tubo e cair na água.
Quando voltaram para casa
depois das 5h da tarde, a menina encontrou o seu quarto tumultuado de aladinhos
e de aladinhas brincando de se esbaldar. E foi uma surpresa boa. Caapi entrou
no quarto, abriu a janela e os passarinhos pintados de tons verdes de aromas
azuis de coloridos diferentes pularam para dentro da tarde caindo no pôr do
sol. Foi sorte. Foi rápido o caso, foi plete!... A menina até se assustou
porque os alados pareciam nascer no escondido do seu quarto. Quem quis ir foi,
quem quis ficar ficou.
Assim ficaram uns poucos
sãos e salvos ali pelo cômodo. A janela aberta comunicando o quarto com o pôr
do sol. Os passarinhos olhando não muito assustados para tudo. A menina quis
contar a história do seu dia na piscina azul. Os bichinhos alados voaram para
se pendurar na cortina da janela aberta, na cortina do banheiro, etcétera.
Ficaram ouvindo ali olhando as atitudes da menina. A Caapi ia e voltava, pra cá
e pra lá dentro do espaço do quarto. Ela até esperava cantar, virar cantora,
interprete.
Caapi sonhava seu sonho
eterno seu eterno sonho e repetia:
- Vamos pra ilha dos
coqueiros de cocar? Vamos juntos, todos?
Os aladinhos engraçados
ainda olhavam quase assustados. Não, eles nem estavam assustados, mas estavam
mesmo curiosos. Muito alertas e curiosos. Depois já responderam um sim ou um
não. A menina perguntou e a alma-de-tapuio falou piando trilando:
- Onde mora esta ilha de
coqueiros que você sonha e tanto adora, menina? Onde fica mesmo esta ilha
pensada? É uma ilha de verão? Essa ilha é perto da praia da Paúba?
Caapi se ergueu da cama e
deu dois passos na direção da janela. O bichinho balançou as penas azuis
agarrado à cortina. A menina deu dois passos, parou e olhou lá fora. A
plumosinha olhava tudo curiosa. A menina já ficou na dúvida. Assim a menina
falou outra coisa mais:
- Bem que eu gostaria de ser
uma estátua na praça. Bem que eu gostaria de ser uma apuí na floresta da
Tijuca. Bem que eu gostaria de voar bem alto. Bem que eu gostaria de tocar
uatapu na aldeia junto dos uassu. Bem que eu gostaria agora mesmo de explorar
tesouro de ouro no morro do Pico do Jaraguá.
Os passarinhos se espantaram
um pouco com essa conversa de menina. Aí, uns voaram para cá e outros para lá.
Uns disfarçaram cantando, gorjeando, assobiando, trinando. E se mexeram um
pouco aí pendurados nas cortinas.
Essa coisa de vontade de
voar deixa a alma leve e sonhadora. O corpo solto no espaço sem gravidade,
navegando num rio ou num pedaço de mar.
Diversas nuvens se
aproximavam no espaço, diversas nuvens se entreolhavam, diversas nuvens se
douravam, uma em especial carregando D por milagre milagre, e chegavam para
mais perto do começo da noite com verão na estação.
***
Aquele sol distante no
espaço. Aparecendo espontâneo leve livre solto. Ficou mais otimista. Ali aqui
por todo lugar no ar um tom mais solar. Algumas horas depois no Brasil. Até
pousar de luz nas cores das coisas.
Dois mil dias após, Caapi foi apresentada a outro ano escolar. Ela já
sabia contar até oitocentos, a lua não era um satélite virtual, Uruguaiana nem
era a capital do Uruguai. Os pais acompanharam levaram a filha:
- Vamos que vamos para a
escola, filha.
A família chegou no colégio
NSAparecida bem na hora que alunas e alunos e outros personagens também
chegavam e apareciam. A menina vinha com mochila nas costas e olhos curiosos
para conhecer e reconhecer novos ou antigos colegas. A guria olhou tudo aquilo
e mais um pouco. Era um lugar de algazarra e correria e garotas e garotos falando
ao celular.
Os pais entregaram a menina
ao colégio e se despediram voltando para casa. A guria foi procurar a sua turma
e se abraçar.
Depois, meia hora depois, no
máximo, a menina foi para a sala de aula. Foi para a sua sala de aula. A menina
olhou para os quatro cantos e reconheceu quem já conhecia e conheceu quem ia
conhecer melhor.
Ainda teve um tempo para
olhar pela janela. A sala de aula tinha realmente janelas e porta. Lá fora o
dia vestido de sol. O sol vestido de pó de ouro. O sol e o dia se virando para
mexer muito bem com as cores. Do outro lado da rua a igreja com a torre única.
Caapi teve um espaçozinho entre as ideias para pensar num sorvete de pequi com
pedaços de abacaxi incidentais metidos.
O planeta Terra em nossa
órbita. O céu azul incomensurável. As formigas-cuiabanas podem devorar o mundo,
se quiserem. As mulembas e as uarumãs protegem o planeta do cinza. O Ivo viu a
Iva comendo uva.
***
Pois agora a menina não
queria nada com nada. A menina ali, os pais junto dela. E nada da menina ter
apetite para comer seja lá o que for. E a menina não tinha vontade nem para
beber água, suco ou refrigerante. Não tinha apetite nem para assistir desenho
animado e nem para jogar vídeo game. Não queria muito menos cantar falar ao
telefone ou ouvir a própria voz.
E a guria continuava ali,
sentada na cadeira da mesa do almoço, teimando e insistindo que não tinha
vontade de comer. Comer era muito difícil. Não tinha fome. Os pais insistiam
sem parar. E os pais ficaram preocupados. E os pais acharam que se a menina não
comesse morreria muito magra. Caapi não tinha fome de nada nem parecia se
importar em morrer hoje ou daqui vinte dias.
Seu Chico pegou as mãos da
menina, beijou seus olhos e falou indagando perguntando com calma:
- Quer comer pastéis de
queijo ou de palmito? Quer pelo menos suco de maracujá? É bom.
Caapi olhou tudo ali sem ver
e disse, respondendo:
- Nhe-nhe-nhé!...
Seu Chico contou de andanças
suas por esse mundo habitado de coisas visíveis e seres invisíveis:
- Eu estava a passeio por
Guaratuba, Itirapina, Espera Feliz, Caraguatatuba, Uberaba, Água Comprida...
A dona Jurema chegou bem
pertinho e já preparada, acariciou os cabelos da menina e ainda mais esfregou
as costas da menina. Dona Ju quis ajudar perguntando assim:
- Por que você não quer
saber de comer ou beber um suco ou uma vitamina? Você não gosta da minha
comida? Você não prefere comer ficar forte e crescer? Quer uma sopa de
letrinhas para ficar ainda mais inteligente?
A guria olhou por ali mesmo,
olhou os joelhos e depois olhou as próprias mãos e respondeu de um jeito lá
todo do seu estilo:
- Zu-zu-zum!...
Os pais da menina amavam a
menina amável. Os pais trouxeram para a mesa diversas e variadas comidas muito
boas: melancia com polpa vermelha estalada, suco de abacaxi natural
trescalante, iogurte gelado com sabor açaí, picolé de pitangas colhidas no pé,
torta de chocolate com camadas generosas de chocolate, merengues enfeitados com
passas de banana, confeitos de várias cores, sonhos recheados com creme de
laranja, et-cé-te-ra.
Caapi ainda olhou para todas
as comidas sortidas sobremesas iguarias sobre a mesa e desanimou. Tipo assim: Ah,
o gostoso é só isso, hein?! E bocejou. E a menina não experimentou, por
incrível que possa dar água na boca. A guria ficou calada e de bico fechado.
Nada nada passava pelo nó da sua garganta de menina temperamental. Ela já não
sabia mais engolir. E não tinha vontade para nada. E ultimamente não queria e
não pensava nem em cantar ou virar cantora. É, bota situação muito difícil
nisso! Uma menina nervosa e cheia de manhas e manias. Aonde ela ia buscar essas
e outras encucações? E querendo gostar de ficar magra magérrima esquelética
tipo doença de modelo de desfile de passarela.
O pai segurou as mãos da
menina, beijou seus olhos e perguntou sugerindo:
- Você não quer uma
bicicleta? Um velocípede? Um carinho de rolamento? Um triciclo? Uma viagem ida
e volta à cidade de Formosa do Rio Preto?
A menina olhou para as
próprias mãos e para os dedos das mãos e as unhas dos dedos das mãos e respondeu
de bico amuado:
- Pli-pli-pli!...
A mãe se aproximou
preocupadíssima e acariciou a menina nos cabelos e nas costas. Depois a mãe
lembrou de oferecer:
- Vamos até o parque de
atrações? Vamos andar de roda-gigante, no carro-choque, na maria-fumaça, no
carrossel, etc?
Caapi cruzou os braços sem
vontade nenhuma de se abrir, sem ânimo para levantar da cadeira e apenas
conseguiu resmungar num sopro de voz:
- Li-li-lim!...
E foi uma tarde muito longa
e sem graça porque a menina não tinha vontade de almoçar lanchar. E foi uma
tarde sem interesse algum porque a menina não tinha vontade de comer nem tomar
sorvete ou garapa. E foi uma noite muito esquisita porque a menina queria
dormir sem o jantar. E a guria foi deitar totalmente de barriga vazia e barriga
roncando.
***
Na escola, a melhor amiga e
companheira compreensiva da menina adotiva era uma tal de menina Lilás. A
menina lilás que tinha nome, Lilás. As duas eram amigas mesmo e viviam juntas
no colégio fora do colégio. Eram inseparáveis e muito confidentes,
telefonantes, uma a sombra desenhada da outra. Uma sombra se mexia, a outra
sombra acompanhava. Era até engraçado. Era até assombroso. Era até engraçado.
Era até mesmo muita amizade.
Caapi sentava na carteira ao
lado da carteira de Lilás. A menina adotiva ouvia as aulas e a menina Lilás
igualmente. A menina adotiva, por favor, ouvia a professora de geografia
falando e escrevendo no quadro-branco:
- O rio Tapajós localiza e
corre e fornece no norte do país no Estado do Paraná, tá certo?
A menina adotiva, a menina
Lilás, as duas e toda a turma, olharam o mapa do Brasil que ficava pendurado
toda a vida do lado do quadro-branco. A professora vez ou outra ia lá e
localizava com o dedo o famoso rio Tapajós. E o dedo pingava um ponto num
pedaço amarelo do mapa brasileiro. Então, a Caapi pensava e falava para a amiga
Lilás, dez anos as duas:
- O rio Tapajós fica e corre
e escorre num lugar todo de amarelo, é?
A menina Lilás completou
quando e como:
- É. E lá deve ter ouro ou
muito ipê-amarelo.
Caapi também tinha umas
certezas:
- E índios bacairi
pescadores de tucunaré.
Lilás tinha outra certeza:
- E mais as abelhas mombuca
fabricantes do mel silvestre.
Caapi mais outra nobreza:
- E teiru flauta de índio
feita de casca de árvore.
Era engraçado ver as duas
meninas sempre juntas e inseparáveis e acompanhadas com uma e outra. No
intervalo, por exemplo, elas comiam o mesmo tipo de doce ou de salgado. Se uma
preferia laranja, a outra também comia laranja. Se uma optava misto-quente, a
outra já já ia de misto-quente. Uma não discordava da outra. Se uma escolhia
biscoito de chocolate com chocolate quente, a outra idem chocolate quente com
biscoito de chocolate. Se uma ria da brincadeira de um menino, a outra também
ria da mesma forma. E eram tão amigas que uma colava da outra trocando
pedacinhos de papel. Tão amigas que tinham os mesmos defeitos e as mesmas
qualidades. Muito íntimas, tinham até o mesmo pretendente a namorado. Como eram
muito menininhas, esse pretendente era só namorado visual de namoro virtual.
Tipo assim:
- Olha lá!, é ele mesmo!, que gato, meu!
Na aula de História com H
maiúsculo do Brasil, o professor falou e disse olhando para a turma toda. E
depois escreveu no quadro-branco o importante recado seguinte:
- O Brasil só foi tirar, né,
gente!, sua carteira de motorista no ano de... de? No ano de 1822. Sete de
setembro de 1822, tô enganado?
E o professor perguntou isso
mesmo para a turma. O professor sorriu. A menina adotiva olhou a menina sua
amiga Lilás. Queriam saber. As duas meninas ficaram se olhando que pareciam
surpresas. Aí, a Caapi comentou com a Lilás:
- Será que o Brasil já sabia
tirar autorretrato naquele tempo tão distante?
A menina Lilás, vejam
vejam!, completou:
- Será que o Brasil já sabia
surfar as pororocas dos rios Amazonas, Araguaia, São Francisco e Tocantins?
Quando Caapi não queria
olhar o professor ou o quadro-branco ela podia muito bem olhar lá para fora,
pela janela. Quando a menina adotiva não queria olhar o livro ou o computador
ela podia olhar para a amiga Lilás. Assim era a vida na sala de aula. E a Caapi
nem pensava em ser cantora e viver cantando sucessos nos melhores programas de
tevê.
O professor de matemática um
dia desses escreveu ou desenhou no quadro-branco o seguinte objeto pouco
identificável ou nada identificável ou coisa de ficção científica: a + b : c.
E aí?! E aí todo mundo se
agitou na cadeira e todo mundo olhou um para o rosto do outro sem saber que
loucura era aquela. Que loucura era aquilo? E foi etê de Varginha que inventou
essa?
E que coisa extraterrestre
era aquela jogada atirada no quadro-branco: a + b: c? Que viagem sem volta era
aquilo, gente?! Alguém podia parar com aquilo? Aí que morava o perigo, meu!
E a menina adotiva ficou com
o troço na cabeça lá dela, veja: a + b: c. E levou embora. E veio do colégio
até em casa com a coisa pesando na ideia. Não descobria o que era ou nem
entendera a explicação do professor. Estava querendo ser no futuro uma
professora de matemática? Possível podia ser.
Horas quase 12h calor
mormaço sol e calçada lotada da avenida Rosário do Sul. As duas amigas vindo
embora pra casa. Caapi perguntou para Lilás:
- Onde está Xambioá? Quem é
Xambioá?
- Nem sei - resposta de
Lilás.
Depois, passaram por baixo de uma árvore embuia ouvindo cantar a
carará. Depois, Caapi perguntou mais outras coisas:
- De onde você veio, Lilás?
- Vim de São Miguel do
Araguaia.
- Pois onde fica?
- Na serra do Piloto.
- Onde fica?
- No Estado do Piauí.
- E para onde fica?
- Na floresta da Tijuca
cheia de carnaúbas, tarumãs-pretos, uvas-do-mato, pindobeiras, canivetes,
calumbis, chapéus-de-sol...
- Onde ficam?
Chegando em casa Caapi ainda
não esquecera aquilo tudo assim: a + b: c. A menina recebeu a visita dos
aladinhos joão-xiquexique, guaxe, tangará-dançarino, chanchão, pepita,
saíra-de-chapéu-preto... Os emplumados olharam tudo e pediram migalhas de bolo
de caju com água da chuva.
Logo a menina adotiva
lembrou de perguntar. A menina quando queria era muito perguntadeira. Então, já
perguntou em voz já aveludada:
- Pássaros e aves, me
respondam sem pensar. Sabem vocês o que seja, a + b: c?
Os voadorzinhos quase voaram
para o quintal. Mas não voaram agora. Pararam de limpar as próprias penas e
abriram muito mais os olhos curiosos. Ainda assim, não conseguiram decifrar o
problema. Depois, enganaram a guria com pipios gorjeios assobios e saçaricos
saracoteios.
Caapi adotiva ficou pensando
e olhando sem ver. Os passarinhos queriam ajudar, mas não ajudavam. A menina
não tinha ideia do que era, a + b: c. A menina não sabia calcular essa questão
usando a cabeça, assim de ideia livre. E parecia não poder decifrar e testar o
enigma. E continuava olhando sem ver. E os amigos alados olhavam tudo curiosos,
bem espertos e mais que curiosos, beliscando as asas, dançando nos poleiros improvisados.
A novidade de árvores verdes
como se fossem árvores, araçazeiro-do-mato, guarucá, pindaíba-preta, branquinho,
bacupari-do-campo, cataguá...
***
Uma cara de tempo muito
depois, mil séculos após, meses e anos mais tarde, alguns dias, a menina
adotiva foi deitar e dormir. Era já hora de dormir. Certa hora da noite boa
para deitar na cama e olhar para dentro de si. Dormir é bom elegante e faz bem.
Era hora de bichinho ir para o ninho. A menina se aprontou, acariciou a cama o
lençol e puxou o lençol azulzinho de lado. Pronta para dormir de pijama riscado
de azul e branco e sem bolsos. Deitou na cama e se cobriu até o queixo com o
lençol gostoso. Esticou o braço da direita e apagou a luz do abajur. E o quarto
se encerrou no escuro da escuridão noturna.
A menina fechou os olhos e
não viu mais nada, não viu nem sombra. Chaveou, se pode dizer, as pálpebras nas
trevas duras e impalpáveis. A menina fechou os olhos e foi levada para viajar
no nada, sem nada para ver. Foi caminhando sem ver, tateando, tropeçando, e
depois voando, batendo umas asas surpreendentes como os morcegos, como as aves
noturnas as mães-da-lua, será que avião sabe voar no escuro?, depois ainda batendo
asas voando muito rápido para qualquer lugar muito alto e isolado.
E Caapi sonhou que chegava
em país da manhã clara na ilha dos coqueiros de cocar. O sonho até aí era o que
ela queria. Um sonho bom e calmo e especial. Era a ilha dos coqueiros vergados
pelo vento do mar. Coqueiros de cocar verde palrando ao vento. Coqueiros que desenhavam
manchas de sombra no chão da ilha na areia fofa e branca. E a ilha era a ilha
dos coqueiros de cocar tão esperada. Suco de abacaxi gelado e melancia à
vontade. E havia pequenas pessoas, tipo micos e saguis, brincando na praia de
ondas que vinham e iam. E havia ainda outras pessoinhas, tipo sapinhos de
borracha, bolas coloridas, bicicletas enfeitadas, e todas brincando de fazer
casas e cidades na areia. Aves marinhas piavam riscavam o espaço azul desde o
alto das pedras para o mergulho no mar.
Pelas altas horas da noite
no quarto de dormir, a mesma noite, a Caapi estava só e dormindo e desamparada
e sofrendo pesadelos. O primeiro pesadelo foi esse: a menina estava à beira de
um perau e a gravidade a puxava para baixo, para o fim, para o buraco, para o
fim do mundo. A menina caiu, então. A menina caiu e foi caindo num poço sem
começo nem fim. Foi horrível como ela caiu. E a menina sempre continuava a cair
e a ficar com mais e mais tremores pelo corpo. Não parava de cair uma vez
sequer. Estranho que a menina adotiva caía do perau e caía e caía sem parar,
nunca chegando ao fundo do abismo. O perau era muito alto, muito fundo, escuro
e sem fundo, medonho e sem fim. O arrepio da menina era muito grande e sempre
nervoso. De repente, a menina conseguiu desatar um grito como se estivesse
emergindo do fundo das águas do remoinho e deu um berro:
- Aaaaaaaah!...
O berro foi ouvido no Acre,
em Belém do Pará, Brasília, Anta Gorda, em Niterói, no Myanmar, do outro lado
desse mundo, pela casa toda e vizinhanças. Aí, os pais adotivos chegaram na
hora, depressa, correndo e afobados. A dona Jurema Piúva foi perguntando:
- Que que foi, minha filha?
Teve pesadelo? Você ficou tonta?
O seu Chico Taguari também
foi logo interrogando:
- Que que há, minha querida?
Você se assustou com algo ou alguém? Foi o anhangá-pitã, a matinta-pereira, o
caboclo d’água?
Caapi respirou fundo,
respirou, respirou fundo e armou um bico para chorar. A menina tentava respirar
fundo, respirar melhor, encher de ar a sua alma abandonada. E respondeu tudo
junto e chorando assim:
- Bi-bi-bi!...
Dona Jurema acariciou o
cabelo da menina, esfregou as costas com a palma da mão. Seu Chico pegou as
mãos da menina entre as suas, beijou a menina nos olhos e foi relatando:
- Eu estava a trabalho por
aquelas tantas bandas de Ubatuba, Guaíra, serra do Piquiri, praia Vermelha do
Sul... O dia passava alto a noite passava baixa. A chuva caía quando D queria.
O rio passava. Os guarás tinham razão. A folha-de-lixa precipitava seus ramos
folhosos. Quando papagaios-do-peito-roxo voavam pela manhã e voltavam no pôr do
sol. Os silvícolas tupiná acreditam que Rudá é deus das nuvens e íntimo da lua
cheia da lua nova...
A menina tentava segurar as lágrimas quentes e salgadas, mas não
conseguia e não era fácil. As lágrimas da menina escorriam pelo rosto abaixo
como de uma fonte borbulhante e impulsiva. O rosto da menina ficou riscado de
pequeninos rios correntes. A guriazinha tinha dois repuxos um em cada olho
azul.
Mais tarde, meia hora, três
horas depois, quatro da matina, a menina adotiva relaxou um pouco e fechou os
olhos e se aquietou na cama. Com calma se deitou na cama. Cansada, se aninhou
se encolheu ao travesseiro. Os pais adotivos esperaram ela dormir e ressonar.
Quando a menina dormiu e roncou, os pais foram saindo do quarto pé ante pé e
gesto a gesto ombro a ombro. Apagaram a luz e encostaram a porta. A menina
ficou sozinha, deitada, dormindo, ronronando, perdida no mundo de sonhos bons.
E viajando enrolada em nuvens para embrulho, para além das estrelas, voando com
calma sobre as copas das árvores, ximbó, uafé, paina-de-seda, pacari,
ipê-mandioca, marizeira... estas árvores do norte do país.
Profundas horas noturnas da
mesmíssima noite, a menina dormia já se agitando outra vez. Rolando na cama sem
sossego inquieta perdida pelas ruas sem nome. É que dentro da cabeça pintou já
um novo pesadelo, um sonho perturbador. A menina adotiva tremia sem querer e se
via caindo do paredão. O outro paredão, mas o mesmo paredão, mesmo perau. Ela
caía e caía sem parar, sem fundo, sem cintos de segurança. Se agarrava um
milímetro e resvalava. Caía do quinquagésimo andar. Caía do avião com avião e
tudo. O pesadelo parecia algo assim muito presente e alto e real, tanto que a
menina não parava de tremer, e sofria, e suava frio, se arrepiava, e batia os
dentes, e se agarrava ao lençol com unhas e dentes. Olhava lá do vigésimo andar
e tinha necessidade de pular. E de repente, a menina deu um grito dentro da
noite sem fundo se libertando do aperto na garganta:
- Uaaaaaaah!...
Foi ouvido sem dúvida por todo o Brasil, no Amapá, em João Pessoa,
Dianópolis, Água Nova, Marcação, Pitangui, na aldeia dos tuiúca, até na África
subsaariana. Foi ouvida pela casa toda e proximidades arrabaldes. E os pais
adotivos da menina adotiva já pularam lá da cama deles e vieram correndo. Quem
chegou primeiro foi... E viram que a menina não parava de tremer, já chorando,
tiritando de frio como vara verde ao vento minuano.
Seu Chico se aproximou com
as mãos e pegou nas mãos da menina e também a beijou nos olhos. A dona Jurema
se juntou também bem juntinho e passou acariciando a mão nos cabelos da menina
e depois também massageou as costas da menina. Ficaram assim os três agrupados
ali, à beira da cama, quase na manhã.
Ficaram os três ali em trio e agarradinhos como se estivessem com
muito muito frio. E realmente parecia fazer frio. E estava fazendo muito frio.
Esperaram um bom pouco de tempo. Cochilaram ali abraçadinhos como uma família
de gambás ou de tamanduás-bandeiras.
Amanheceu e... falando
sério, a menina decidiu voltar para a sua verdadeira e legítima casa, a sua
verdadeira família. Que não era longe nem perto. Que não era aqui nem ali. Isso
três anos e três meses depois de ser adotada. E disse dizendo:
- Eu vou embora para casa.
Me desculpem. Estejam todos desculpados.
É, a ex-Caapi quis voltar
para casa dos verdadeiros pais, os irmãos, as irmãs, para o seu nome de
batismo, para a ilha dos coqueiros de cocar. Coqueiros de leques abanando no
verão. E foi assim mesmo que ela pegou e voltou. Poderia até cantar e virar
cantora, por que não?!
Foi até a pracinha de nome
Xeripana. Um bando de papas-cacaus fazia um auê ensurdecedor. Plantas de todo
tipo faziam sombra e era legal, acapurana-vermelha, congonha-caixeta,
rabo-de-raposa, mirindiba, abio-grande, pixuna, cajueiro-do-campo... Atravessou
a avenida de nome Gonçalves Dias. Viu a rodoviária, os destinos, e colheu um
destino, dessa vez o seu destino correto, original, natural, entre outros a se
oferecerem.
E foi melhor assim. Três
anos e três meses com três dias de inexperiência. Pois a menina ex-adotiva
preferiu a vida na vida real. No claro e escuro da ilha coqueiral. E voltou
para casa e para seu lugar. Melhor para todos nós. Com paisagem de passagem por
Andaraí, Jarinu, Louveira, São José do Sul... Bem melhor para ela, em
particular.
E, no que interessa, um
jeito que, além de muito imensamente surpreendente, surpreende
interessantemente.
O vento respirava por ali.
Nuvens invisíveis no azul comum. E, sem novidade, se esperava um milagre outro
milagre, etcétera.
E é assim que se paz.
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