Os mais idosos da família costumam
contar histórias para a criançada. Sempre foi assim e assim será.
A meninada, então, vai dormir e sonha com os parentes
fantasmas. Estes zumbis aparecem nos sonhos ou pesadelos da gurizada recontando
histórias do começo do mundo. Lá do início do nada.
Lilás, menina leve, foi ouvir a
pergunta do grilo-comum:
- Cri-cri!... Lilás, você virá
sábado ao baile do colégio?
- Claro que sim. Só preciso de um
lindo vestido.
- Cri-cri!... Quer vir comigo? Passo
na sua casa, certo?
- Perfeitamente. Que horas?
Chegando em casa, Lilás foi procurar
o porquinho. Procurou no quarto, na sala de estar, debaixo da mesa na cozinha,
revistou o que pôde. Nada. Mexeu as gavetas, olhou o fundo do armário, espiou
sob a cama, pôs as mãos na cintura. Nem quis se sentar e pensar. O bichinho
havia sumido, desaparecido. E agora? Sem porquinho não haveria grana nem
vestido novo e nem baile.
Aí, a guriazinha pensou, não sabia
pensar em silêncio, não sabia pensar quieta no mesmo lugar, não sabia pensar
sozinha e se preocupou. Que nada!
E Lilás foi à luta, não desistiu.
Disse, gritou, repetiu, insistiu, chamou, conclamou pelo porquinho:
- Óinque, óinque!... Vem cá, vem cá, meu porquinho!
Até
que teve a ideia de telefonar para o corpo de bombeiros. Os homens vieram,
chegaram com a sirene aberta, subiram ao telhado, uta!, rabicozinho. Estava lá.
Graças a Alá, o Perfeito.
- Oh!, meu porquinho. Até que enfim
lhe achei. Essa é hora de sumir? Vem cá. Tem umas moedinhas?
O porquinho se sacudiu todo, escutou
o ronco da barriga, rorque!..., pensou pensou e concluiu:
- Há vinte moedas de um, quinze de
cinquenta, sessenta de vinte e cinco, trinta de dez, oito de cinco, onze de um
centavo de real, óinque!...
A menina foi até a loja e trouxe o
melhor vestido de grife que pôde encontrar, um arraso: veludo bordado de ouro e
prata e cravejado de diamantes e rubis, feito à mão. Vestido bonito na moda moderno
chique. Todas as suas amigas iriam olhar com a mão espalmada no rosto e fazer
um, ooooh!...
E na noite e hora combinadas, o
grilo-comum apareceu para apanhá-la. Uma noite de estrelas e astros no céu
noturno. Os grilos-pretos cricrilando na beira das calçadas. Os sapos-ferreiros
martelando no banhado. Uma placa com letras verdes indicando: siga em frente.
Os olhos grandes do grilo-comum eram grandes e de
imaginação sempre. Os olhos do grilo-comum eram negros ou pretos. E olhos de
quaisquer cores não importa, são sempre além do horizonte e transparentes. O
grilo-comum caminhava com os pés ou com os ouvidos. Os olhos do grilo-comum
brilhavam, e cricrilou:
- Cri-cri!... Como você está linda,
Lilás! Está uma modelo gaúcha.
- Obrigada. Você também está muito
elegante no seu fraque apertadinho.
- Cri-cri!... Vamos de mãos dadas?
Já no baile do colégio, em meio a
toda a agitada galera, pista de dança bem decorada, banda de sucesso, o
grilo-comum muito gentil e exibido convidou Lilás para dançar, assim:
- Cri-cri!... A beleza dos meus
sonhos quer me dar o maravilhoso prazer?
- Oh, perfeitamente, meu amigo.
Foram ao centro da pista disputar
espaço com outros pares. Sempre muita alegria, muita menina, muito menino,
muito barulho. Muitos casais começando a namorar a partir daquele instante.
Músicas escolhidas e dançantes, uma vez. Um bando de meninos e de meninas
vestindo a mesma cor de calça azul desbotada. O grilo-comum queria
impressionar:
- Cri-cri!... Muito bom o seu, isfe,
isfe!... perfume, Lilás. É o mesmo do da sua mãe?
- Não, querido, é manauara mesmo. E
esse seu fraque, é fraco?
- Cri-cri!... Não, não é fraco nem
forte. Não, não é longo nem curto. Não, não é folgado nem apertado.
- E ficou impecável, ajustadinho.
Caiu como... como um fraque.
- Cri-cri!... São seus belos olhos.
- Vamos beber uma água mineral ou
guaraná?
Foram os dois, um parzinho, até o
balcão para ver uma água ou um guaraná. O salão tremia com a turma na maior
agitação. Era tudo um tumulto muito bom e desorganizado. O grilo-comum, as
antenas batendo uma contra a outra, os olhos grandes e marrons, foi
impressionando e deixando ver sua grande fama:
- Cri-cri!... Já lhe disseram que
você é uma estrela, e a mais brilhante nessa noite de baile?
- Os meninos são todos iguais. Só pensam
em futebol, em ser craques de futebol, centroavantes de futebol, camisa dez de
futebol.
- Cri-cri!...Falando nisso, você
joga futebol?
- Você aprecia cinema, música,
sapatos floridos, coleção de sapos de fantasia?
- Cri-cri!... Já viu o último álbum
de figurinhas da seleção? Um barato!
- E aquele menino que foi alimentado
por uma peixe-boi?
- Cri-cri!... Quando será que
seremos hexa?
Meia hora depois Lilás perdeu
grilo-comum, grilo-comum se extraviou de Lilás. A menina tentou encontrá-lo,
porém, na confusão de povo não foi possível. Logo agora que saíam as músicas
axé! Era o ritmo mais apreciado pela turma. E forró também. Também fanque do
centro da periferia.
Muito importante ter olhos e olhar o
mundo. O importante é ver, ver o mundo e ver a si mesmo no mundo. Quem quer ter
uns olhos azuis, uns olhos pretos, uns olhos verdes? Aí, a pessoa assim de
olhos se enche toda de si mesma e bate no peito, etc.
Tomando um ar puro no pátio, olhando
o céu... êpa! Bem lá em cima, entre outras mil, Lilás viu descer uma estrela
cadente. A estrela do deus-menino.
Ela correu à rua a fim de segui-la, não perdê-la, não
esquecê-la. Saiu na avenida XV de Novembro e já na esquina encontrou com os
três reis magos. Muito vaidosos e vestidos da melhor forma possível, por sinal.
Aí, a menina cantou, gritou, chorou, riu e falou:
- Nossa! Que surpresa! Vocês por
aqui? Posso ir junto? Quem é quem, afinal?
- Eu sou Baltazar, e você?
- Eu sou Melquior, e você?
- Eu sou Gaspar, e você?
- Lilás, as suas e suas e suas ordens.
Muito prazer, digo eu.
E a menina estava aí, diante dos
três famosos reis magos. Três reis vestidos de oriente. Era uma tal hora da
noite muito boa e agradável. Baltazar tinha uma cara de quem já viajara pelos
desconhecidos e belos e extravagantes mares de Madagascar e de Moçambique.
Melquior tinha uma cara de quem já caminhara muito pelos caminhos da China e da
Mongólia. Gaspar tinha uma cara de quem já cavalgara muito elefante pelas
trilhas e vales e montanhas da Índia e do Paquistão.
- Bem, para nos acompanhar terá que
ter um camelo - disse Baltazar. Ninguém segue uma cadente sem montar num camelo
ou dromedário, entende?!
- Perfeitamente. Então, onde eu
consigo um?
- Você quer um camelo nacional ou
importado? - perguntou Gaspar.
- Zero ou usado? - perguntou
Melquior.
- Tanque cheio, pneus novos, air
beg? - perguntou Baltazar.
- Com estepe e bagageiro? - voltou a
perguntar Melquior.
- Capota ou sem capota? - voltou a
perguntar Gaspar.
- Assento ejetável, internet a
bordo? - voltou a perguntar Baltazar.
- Ufa! Não é à toa que são
negociantes mercadores regatões mascates.
Então, Gaspar balançou discretamente
o nariz e, musfe!... o belo e grande camelo de Lilás apareceu. A menina
aplaudiu, montou e partiram. Viajar de camelo era viajar lentamente,
gingadamente, perigosamente, quase desequilibradamente.
Seguiram a estrela guia. A estrela
guia seguia solta no céu. A estrela sabia onde ia cair, uma vez. A estrela guia
era a melhor estrela do céu naquele dia de noite.
Muito além dos limites da cidade -
que por acaso era Areiópolis -, pararam para comer um panetone com enfeites de
frutas cristalizadas. Deixaram os quatro camelos mastigar mastigar mastigar
mastigar... toda uma roça de milho verde em espiga. Uma plantação de milho
verde que não tinha dono? Talvez tivesse dono, sim. E o dono não aparecia, e
melhor, não apareceu. Um bando de pés de milho verde em pé e todos altos,
elegantes, crinudos, verdes e maduros.
Além da estrela guia, outras estrelas pingavam no céu
noturno, pareciam olhos acesos de gatos, ou também vaga-lumes contando
estrelas, uma duas três... muitas, mil, milhão, brasas ou fogueiras.
E, só então, noite alta, novamente os oito seguiram a
cadente. Os quatro camelos mastigando, as quatro pessoas pensando; os quatro
camelos mastigando, as quatro pessoas balançando na garupa; os quatro camelos
quadrúpedes, as quatro pessoas bípedes. Os quatro camelos de pelo tobiano baio
azulego ruano.
Lilás estava adorando, afinal os três reis magos eram
o maior barato. Estavam sempre alegres, contando mentiras, piadas e causos,
dava até dor de barriga de tanto rir. E uma vez a menina:
- Queridos magos! Quanto tempo já
dura essa viagem atrás da cadente? Por que não trouxeram um cachorro ou três
cachorros para farejar?
- Três meses, uma semana e um dia já
dura minha viagem - disse Gaspar.
- Dois meses, cinco dias e meio -
disse Melquior.
- Mês e meio - disse Baltazar.
Lilás já sabia que os três reis
magos seguiam a estrela por motivos divinos. A estrela cadente só aparecia para
anunciar a vinda de um deus. Em alguma parte do mundo. E era para lá que a
cadente se dirigia. E era para lá, seguindo a estrela guia, que os três reis
magos iam em missão.
Melquior olhou o céu. Viu a estrela
guia seguindo sempre para o sul. E ele ainda confessou:
- O meu povo, pra dizer a verdade,
esperou desde a década de oitenta.
- E para o meu povo será a salvação
da lavoura - confessou Gaspar. Será nosso Deus.
- O meu povo também. E promete ouro,
caju, castanha-do-pará, pé de moleque, beiju, etc, o que for preciso e precioso
- confessou Baltazar.
A menina ternura ficou ouvindo o
Melquior comunicar:
- Passei por várias cidades e
continentes, cruzei rios e mares com nomes próprios e diferentes.
- Eu também passei por muitas e
excelentes cidades e países, subi e desci montanhas fabulosas e altas -
retornou o Baltazar.
- É, eu passei por diversas cidades
e regiões, vi monumentos das oito maravilhas desse mundo, pontes de ferro ou de
pedra ou de concreto - comentou o Gaspar.
Pelo caminho que andavam meio
lentamente, no ritmo dos camelos mastigantes, havia pastos, árvores e um bando
desgrenhado de barbas-de-bode comendo a terra vermelha. Na beira de córregos as
gerações e gerações de avencas-de-espiga.
Foi a vez de Lilás falar. Ela olhou
o céu meio escuro, povoado de estrelas, riscado pela cadente no rumo do sul,
destravou:
- E finalmente tanta fé vai ser
recompensada. O salvador está chegando. Vocês imaginam como ele será, uma vez?
- Alto, forte e de pernas tortas -
imaginou Baltazar.
- Baixinho, forte e de pernas arqueadas
- imaginou Gaspar.
- Mediano, magrote e pernas
elegantes - imaginou Melquior.
Chegaram a uma praia fluvial e
trocaram os quatro camelos mastigantes por uma possante lancha a motor
biodiesel. Pelas margens do rio, grande rio Tapajós, irmãs palmeiras buritis
caminhavam de mãos dadas na sombra da noite. Do outro lado do grande rio estava
a cidade de Xavantina, Mato Grosso. Para lá que iriam? Atravessaram as águas
calmas cristalinas frias num instante. Era tarde, porém.
Voava por tudo uma sociedade de morcegos, um casal de
corujas caburés-de-orelha, um torpedo de mariposas, um moinho de mosquitos
piuns flautistas. E estes e aqueles não eram poucos, eram muitos. Estes e
aqueles bandos noturnos eram toneladas, que passaram a milhões, bilhões e não
acabavam nunca mais.
O rio Tapajós corria para o rio-mar e, ali naquele
ponto, não tinha tanta pressa assim. Aliás, o rio vinha de muito longe, de
muita gente, de muitos lugares, de muitos tempos, de muitas pontes. Rio de
iaras, curumins e cunhãs, cobras grandes, botos-cinzentos, barcos a vela e a
motor, tracajás, preguiças-gigantes, candirus, cangatis, corredeiras,
capivaras, jundiás, ratões-do-banhado, beira de cidades.
Os quatro navegantes logo perceberam
que pessoas e bichos, em bicicletas ou quadriciclos, desciam o rio pelo
barranco acompanhando a margem direita. Outros tantos, em motos ou triciclos,
subiam o rio pelo barranco da margem direita. Pessoas cruzavam o rio a nado ou
em bóias ou em ubás ou em voadoras.
Do outro lado do rio, em autos esportivos, pessoas e
bichos e coisas desciam o rio pelo barranco acompanhando a margem esquerda. E
outros tantos e outras tantas, em caminhões, na carroceria de caminhões ou
camionetas, subiam o rio pelo barraco da margem esquerda. Passageiros desciam
rio abaixo em velozes barcos a motor ou a vela. Viajantes subiam rio acima em
pesados transatlânticos ou sofisticados iates.
Os quatro navegantes já cruzavam o grande rio. Pronto.
Necessitando novamente de camelos para continuar atrás da cadente, os três reis
magos fizeram lá suas orações, figas, mágicas, lusfe! lusfe! lusfe!... e
apareceram três outros camelos ou dromedários.
- Ei, pessoal, e o meu camelo?! -
reclamou a menina.
Então, Melquior coçou discretamente
o lóbulo da orelha direita e, pufe!... fez aparecer outro camelo.
Por sua vez a estrela cadente parecia mais brilhante,
caindo pelo céu abaixo, o que também queria dizer que estava mais baixa, pronta
para aterrissar, e piscando, e pulsando, e dando sinal de preferência.
Pé na estrada, os oito iam tranquilos,
felizes, cantando assim: “eu olho, tu plantas, ele planta; eu como, tu colhes,
ele colhe; eu sossego, tu plantas, ele planta; eu durmo, tu colhes, ele
colhe...”, etc.
A estrada de asfalto ou de terra batida, como o grande
rio Tapajós, seguiam no rumo certo. E o mar era longe pacas. E a estrela guia
já beirava o horizonte. E os oito viajantes viajavam, voltavam, passavam,
cruzavam, iam, vinham, caminhavam, corriam, andavam, voavam, continuavam,
navegavam e tiravam o suor da testa e sopravam o calor dos pulmões.
O que aconteceria depois.
Certa altura, batendo o cansaço, resolveram dar um
tempo numa sorveteria. Havia todos os sabores e cores de dar água na boca. Os
quatro camelos entraram na horta da vizinha e comeram toda a alface, todo o
araticum-ponhê, toda a cebola, todo o tomate, etc, a maior salada. Havia ali na
horta também um bando de cenouras enterradas até os cabelos. Um pé de
goiaba-do-mato ofertava flores próprias, frutas próprias e corujas-carijós
incidentais.
Lilás não tinha o que responder o que perguntar.
Depois, mais tarde da noite, pegaram
novamente o rumo pela altura de Santo Antônio da Patrulha e sempre na cola da
cadente. Dormiram na floresta. Árvore era árvore, bicho noturno era bicho
noturno, variedade de estrelas no céu eram outras estrelas no céu...
Gaspar, o mais experiente e estudado, dormiu e roncou,
ronque!... a noite toda. Melquior e Baltazar contaram histórias para Lilás, e
aí riram e aplaudiram. Lá pelas horas da madruga botaram lenha no fogo e todos
foram deitar, menos os camelos. Os quatro camelos se fartavam com as folhas
tenras das canelas-de-ema, arrudas-do-campo, cordões-de-frade, juquiris-bravos,
hortelãs-do-campo. Por que não trouxeram um jaguarinha? Por que não trouxeram
três guaipequinhas para ficar de ronda, de prontidão, de tocaia, de vigia?
Por ali ainda as árvores não caminhavam nem voavam. As
pedras vinham de outros mundos, as pedras não tinham tempo, as pedras apareciam
vindas do centro da terra ou caídas da lua. Vivia ali um bando de senhoras
mariposas de cores sempre escuras, cores neutras, todas cinzentas, todas negras
ou pretas.
Ao tempo de uma ou duas horas não havia mais floresta
verde, só troncos e galhos desnudos, vazios, assombrados, e quatro camelos
mastigando mastigando mastigando mastigando... sem parar. Não sobrou pedra
sobre pedra. Os camelos apreciavam comer tudo e comeram tudo mesmo. Não haveria
mais o vermelho galopante de folhas selvagens, o amarelo alegre de flores
comunicativas, o verde respeitável e o verde-musgo da beira da água. Um redemoinho
feito de vento e luz e poeira e calor e ruídos se manifestou contra.
Os reis magos ainda cochilavam ou
cochichavam ou bochechavam. Tudo era uma madrugada sem tempo. Baltazar
coordenou, mandou, pediu, sugeriu, lembrou, recordou, os braços abertos se espreguiçando,
estalando as juntas, garganteou:
- Gaspar!... Ei, acorda de uma vez!
Vá fazer o café. Frite umas bolachas. Hoje já é madrugada de outro dia, já vai
nascer novo dia, hoje é o seu dia.
- Oi!? Quê? Que horas são? -
resmungou Gaspar.
Melquior olhou o céu noturno. Um céu
limpo de nuvens e cheio de olhinhos de meninos arteiros. Um casal de
bicos-de-brasa-da-várzea já madrugando cantando ali. A estrela guia não se
mexia na altura do sul, rente do horizonte azul. E Melquior perguntou:
- Vocês já perceberam?
- Sim. O quê? - também perguntou
Baltazar.
- Que a estrela cadente parou. Olhem
bem, está sobre aquele pé gigante de castanha-do-pará - apontou Melquior. Deve
de ser ali que vive o menino.
- É mesmo, seu! Que legal! -
observou Lilás.
- O café tá pronto! O café tá
servido! O café tá ótimo! O café tá esfriando! - gritou Gaspar.
Depois desse desjejum, depois do
rápido café com pão e marmelada de jerimum, se dirigiram à base do pé gigante
de castanha-do-pará. Ali pararam e pensaram como fazer. Sim senhores, como
fazer. Oito viajantes de mãos dadas para abraçar o tronco da castanheira
hipergigante centenária.
- É, temos que escalar o pé de
castanha-do-pará. Como se fosse brincar de escalar uma parede de pedra da
montanha - porque Gaspar pensou alto.
- E sem os camelos, infelizmente -
pensou alto Melquior.
- É o jeito de encarar - pensou alto
Baltazar.
Decidiram enfim miniaturizá-los.
Baltazar piscou duas vezes seu olho esquerdo e, pufe!... os quatro camelos
ficaram do tamanho de pitangas maduras. Cada um botou o seu camelinho no bolso
e se prepararam para a subida.
Uma escalada como se escala uma parede da montanha de
pedra, ou uma palmeira catulé. Uma subida pela escada como alguém escalando uma
escada de nuvens até as nuvens. Como escalar um prédio de mais de duzentos
andares e pelo lado de fora.
- O último a chegar será a deusa lua
Jaci, para os indígenas - brincou Lilás.
Subiram, escalaram, treparam,
galgaram até o topo. Ou melhor, correram, se afastaram, fugiram para o alto. Um
lugar alto, acima das nuvens, um pouco abaixo do azul do céu. Um mezanino mais
ou menos. Chegaram satisfeitos à copa da supergigante castanheira-do-pará.
Ali repararam que a estrela cadente brilhava tanto que
nem dava para olhá-la nos olhos. Era tão grande como um guarda-sol aberto na
areia da praia. Tinha cinco pontas douradas, afiadas, amarelas, cintilantes,
silenciosas. A estrela guia estava suspensa no ar, boiando como bolha de sabão,
flutuando como coisa muito mais leve que o ar. Nesse lugar não haveria mais noite,
nem lua, nem estrelas.
Acabou a noite. E um bando de cigarras cantava sem
sossego e até estalar e até rebentar a cabeça: porque as cigarras gostam tanto
de cantar no calor e na luz e no amor. Havia muita luz, e luzes com tintas de
cores, buracos de silêncio, e todos os sons do dia.
- Bem, gente, agora é só prosseguir
até o palácio - recomendou Baltazar. Quem vai crescer com os camelos?
Os três reis magos ficaram se
entreolhando, indecisos, imprecisos. Lilás se prontificou. Lilás se empolgou e
quis provar o gosto da magia:
- Eu posso fazer a mágica, se vocês
me permitir.
- Tudo bem - consentiu Baltazar.
- Por mim... - consentiu Gaspar.
- Vá em frente - consentiu Melquior.
A menina fincou os pés no chão,
aprumou o corpinho como uma estaca, se concentrou, botou ambas as mãos na
cintura, fechou os olhos olhando para dentro de si mesma e, atchim!... a
mágica, fupe!... apareceu. Pronto, os quatro camelos voltaram ao tamanho
normal. Cada um dos reis montou o seu, a menina idem, e foram no sentido da mansão,
pela rua ladrilhada de escandalosos e belos e rebrilhantes e eternos diamantes.
- Por que diamantes? - perguntou
Lilás.
- Porque são escandalosos -
respondeu Gaspar.
- Porque são belos - respondeu
Melquior.
- Porque são eternos - respondeu
Baltazar.
Prestando atenção, a menina olhou
pro lado de lá e viu um rio passando na maior calma. Rio Quaraí? Notou os
lugares onde cresciam árvores e voavam enxames de arancins. Canela-de-cheiro
frondosa.
Os camelos andavam de modo elegante,
gingado, deselegante, desequilibrante, petulante, estonteante. Até onde um
camelo deve ser elegante, pendulante, gingante, gigante, balançante? E
mastigavam lá alguma coisa com muita paciência, talvez uns doces de banana com
açaí.
Sem conhecer a sorte, aonde fica a
sorte de cada um.
Pelo caminho escolhido e preferido e
bonito, se via um bando de palmeiras ouricuris morando uma ao lado da outra, e
altas e fortes, e retas até o teto do céu azul que era ali ali.
Pico Caratuva na serra do
Ibitiraquire. Ótimo Estado da região dos paiaguás. Os viajantes notavam os
lugares onde cresciam árvores. Algo em torno de novembro e dezembro. E era bom.
Por aí, em volta, um jardim, um
quintal, uns matinhos, um laranjal, um mandiocal, um palmeiral, um butiazal. As
araras-vermelhas-grandes tinham nas cores das penas todas as araras do dia.
Bandos de periquitos-verdes falando alto sobrevoavam para lá. Palmeiras de
cocar, ventos carregados de calor perfumado, lugares úmidos de flores
assustadas, riachinhos tontos e infantis blim! glem! plam!... por entre pedras
e pedregulhos. Sapos-martelos martelando no escuro das folhagens, lagarto
precipitado, onça-pintada deitada no capim, cigarras serrando fazendo lenha.
Passarinhos curiosos e borboletas sutis. Espaços azuis e espaços verdes e
espaços amarelos e espaços cristalinos.
Muita coisa por acontecer e muita coisa acontecendo
sem pressa e outras coisas acontecendo por acaso. Lugar de tomar banho na
sanga, lugar de correr na grama, lugar de esperar, lugar de pegar sol, lugar de
olhar o tempo passar. Lugar, com certeza, do dia acostumar a começar já muito
cedo.
Seguiam os viajados por uma calçada lajeada com
remendos de grama verde. Lajes cor laje. Portal, porteira, portão, porta. Não
havia cachorro-do-mato-vinagre fazendo a guarda. Casarão no meio de um grande
parque. Parque plantado de tantas espécies de árvores e gorjeios.
- Está todo mundo bem alinhado para
ver o menino? - perguntou Melquior.
- Todo mundo sorrindo, hein?! -
recomendou Lilás.
- Tudo em cima com os presentes? -
perguntou Gaspar.
- Podem deixar que eu bato à porta
do casarão - disse Baltazar.
Andaram o suficiente e chegaram à
porta da mansão de três andares e oito portas e cem janelas. Um bando de
andorinhas pretas ou muito azuis fazia pouso e despouso pelos beirais da grande
casa. Mais de cem janelas, cada janela com floreira plantada de orquídeas nas
cores diferentes. Todas as cores de orquídeas florindo florando enflorindo,
muito mais a cor amarela.
A porta era de madeira grossa e o prédio em si de
pedras pesadas. Baltazar bateu uma duas três e quatro vezes. O sol era quente e
queimava.
Os visitantes apearam todos. Os camelos cruzaram os
braços. Os cabelos da Lilás se agitavam ao vento, compridos, lisos, claros,
abundantes, independentes.
Um menino veio atender, uns doze anos, com uma bola de
futebol debaixo do braço, e vestindo camisa da seleção, calção de boleiro,
chuteiras, meiões, perguntou o guri:
- Pois não, que desejam?
- Somos os três reis magos, já somos
esperados; e mais a menina Lilás, que veio de curiosa; e quatro camelos
mascantes e bem altos. Viemos atrás da estrela guia. Viemos conhecer o menino
bom de bola... aliás, é você? - perguntou Baltazar.
- Sou eu, sim. Qual é a jogada?
- A gente quer conversar sobre um
contrato. Queremos que você jogue na Arábia Saudita - propôs Gaspar.
- Não, na Espanha - corrigiu
Melquior.
- De jeito maneira. É na Itália -
disse Baltazar.
Confuso, o menino bom de bola gritou
para o interior da casa grande:
- Pai e Mãe! Escutem só esses
empresários ou procuradores!
Imediatamente desceram as escadas os
pais do menino bom de bola. Convidaram todos a entrar, a sentar no sofá
amarelo, ofereceram biscoitos de coco e chocolate, suco de laranja, suco de
pitanga, chimarrão, chá de casca de bergamota, café, pipoca, pamonha, beiju. Os
magos entregaram os presentes aos pais do menino. Os quatro camelos, para não
dizer que foram esquecidos, mascavam a grama atrás da goleira do campinho.
- Bem, belém, o fato é quê: o menino
bom de bola já foi negociado com a Alemanha. Não posso voltar atrás - disse o
pai.
- Bem, balém, não se entristeçam.
Quem sabe na próxima cadente. Quem espera se supera e, de repente, sempre
alcança - consolou a mãe.
Nas paredes da sala de visitas, onde
os três reis magos foram recebidos, um bando de troféus e medalhas e quadros
com fotografias do menino em poses de bom de bola no colégio 11 de Agosto, no
clube São Cristóvão, na várzea do campinho dos Três Mártires, nas pedras lisas
da praia do rio da Prata.
O menino bom de bola e Lilás
enjoaram de bolinho de chuva, merengue, sorvete de pequi, rapadura, suco de
jabuticaba, conversas, risos. Resolveram ir para a antessala bater uma bolinha.
Ficaram ali tentando provar quem era o melhor na embaixada, no balãozinho.
Depois se desafiaram no drible, para cá e para lá, arrastando o tapete, sujando
a parede e quebrando porcelanas decoradas caras caríssimas.
O tempo passou, o tempo passou quase sem nada nas
costas. O tempo firme, lá de cima da montanha do Calçado na serra do Caparaó,
empurrou as horas estreitas pelo dia feito tobogã.
Lá pelas tantas, eis que se não
quando, Lilás, na tentativa de agarrar uma bola, voou pela janela e caiu das
nuvens. Caiu e caía, caiu, aaaah!... caía e caiu toda vida, céu abaixo, caindo.
Em certo momento da queda, a guria teve o desplante de
esbarrar, meu!... numa vaca amarela com pequenas manchas azuis, muuuu!... que
pastava voando batendo asas ali por volta da altura reservada aos aviões
comerciais.
E Lilás continuava a cair, caía e caía... até que
bateu, tofe!... a retaguarda, ui! ai!... no soalho da nau caravela de Pedro
Álvares Cabral e do escrivão Pero Vaz de Caminha. Em pleno mar litoral da Bahia
de Todos-os-Santos. Sorria! Que alegria! Que dia?!
O dia pegava sol. E manhã transparente, límpida,
clara, branca, translúcida, cristalina, simples. Onze horas, nem antes nem
depois.
Lilás se ergueu no tombadilho, um
pouco atordoada, um pouco esbatida, amarfanhada, amarrotada, e imaginem. Forçou
botando os ossos no lugar, verificou se tudo estava cem por cento, olhou em
volta, viu o mar calmo de abril e perguntou ao primeiro marujo marinheiro que
pintou a sua frente:
- Onde estou? Quem é o senhor? Por
que ainda não fez a barba?
- Não tenho mais sabão - respondeu o
nauta anônimo.
- O quê?! Por isso esse cheiro de
vários dias, hein, meu?! Quanto tempo vocês não tomam um bom banho de água
doce, hein?!
- Bem, uns quatro... meses.
Quando ele confessou isso... Quando
o marujo confessou tal coisa... Quando o marinheiro falou e disse da sorte,
Lilás desmaiou de frustração, caiu outra vez no soalho da caravela e com tudo,
toque!... Acordou com o marujo da gávea, lá em cima no cesto da gávea,
gritando:
- Terra à vista!! Terra à vista!! Eu
vi primeiro!!
Com esse berreiro, com esse gritedo,
o desmaio foi embora, ficou para longe, se evaporou. Lilás foi à proa ver qual
era, quanto faltava, afinal, para se descobrir o Brasil.
E um futuro Brasil estava ali à frente do mundo,
prontinho para ser visitado, legal para ser descoberto, ideal para ser
reconhecido, verde para ser desembrulhado.
E povoado de milhares de índios originais, tribo de
iranxes araras-caros coropós jeripancós, macus-camãs, arborizado de
araçás-de-coroa unhas-de-gato espinilhos caobas guajuviras-brancas timbaúvas
folhas-de-leite jomirins, pisoteado de antas capivaras pacas cutias nútrias, comido
de formigas vermelhas, pintado de araras-azuis-grandes, macaqueado de macacos e
micos e saguis, costurado de rios famosos, pontilhado de ilhas.
E o bando de albatrozes chegou perto do navio, olhou,
revoou, cheirou, volteou e foi embora insatisfeito.
- É o Brasil. Essa terra se chama:
Brasil!! - nomeou Lilás.
- Uma correção. Quem manda nessa
expedição sou eu mesmo. Chamar-se-á: Ilha de Vera Cruz!! - nomeou o almirante
Pedro Álvares Cabral.
- Muita calma nessa hora, gente!
Chamar-se-á: Terra dos Papagaios!! e ponto - disse o mestre João.
- Neca! Em nome de Jesus se
chamará... Terra de Santa Cruz!! - disse em alto e bom tom um padre de Bíblia
na mão.
- Eu já prefiro mais bonito nome:
Terra de Leões!! - falou o senhor Pero Vaz de Caminha, o escrivão oficial da
armada.
A discussão prometia se alongar, mas
já era hora de baixar a âncora e remar o bote os botes até uma praia de Porto
Seguro. Na praia, muitos índios botocudos apareceram para receber os deuses do
mar. Os índios até faziam sinais amistosos e esportivos e festivos e típicos.
O encontro foi pelas onze e vinte.
Os índios até a cintura na água limpa e verde. Os portugueses nos botes de
remo. E se encontraram e trocaram abraços e tapinhas nas costas e presentes.
Enquanto os marujos sentiam vergonha de ver índios
pelados e índias peladas e curumins e cunhãs pelados, os índios apertavam o
nariz frustrados da falta de asseio dos deuses das grandes águas.
E um bando de índios vestidos de passarinho recebeu um
bando de homens vestidos de farrapos chapéu barba por fazer e banho por tomar.
Estava descoberta a terra de Ibirapitanga e inaugurado o Cruzeiro do Sul.
A tribo tupiniquim veio toda, ou
quase toda, para ver a novidade que vinha de longe, da Europa e dos mundos dos
deuses fanfarrões. E os visitantes perguntaram ao cacique, ao índio de melhor e
mais bonito cocar, o morubixaba Itaverava:
- Olha... que terra bonita, meu!
Então, que terra é esta, para falar a verdade?
- Hum... É Terra de Pindoroma.
Os portugueses arregalaram os olhos,
se entreolharam, passaram a língua nos lábios e pediram mais água de coco.
Pediram suco de caju. Pediram suco de abacaxi. Perguntaram o preço do
pau-brasil. Nomearam a terra de Terra das Amazonas. Perguntaram onde o
Eldorado. E começaram a esfregar as mãos, a sonhar, a rir.
Bem, passado o primeiro assombro, os
dois lados do mesmo mundo resolveram se conhecer melhor.
Como bons camaradas, os índios guticraques foram e
organizaram uma grande festa, muita comida feita de milho e mandioca e bebida
feita de milho e mandioca, tocando mibu, dançando em volta da fogueira. Muito
ensaio de carnaval. Muita escola de samba desfilando de pé no chão. Muito
brincante saltitando na areia da praia, dançando ao redor do fogo, erguendo os
braços, esticando as pernas. Porandubas e marandubas de montanhas de ouro, rios
de esmeraldas. Chocalho, maracá, membixuê, atabaque, tum tum tum!... E um bando
de ruídos e gestos e jeitos que os brancos ainda não entendiam, mas faziam
planos.
- Vamos ser felizes, aqui! - disse o
Cabral.
- Vamos ser ricos, aqui! - disse o
Caminha.
- Vamos ser santos, aqui! - disse o
padre de Bíblia debaixo do braço.
A festa sem fé sem lei sem rei,
durou a noite toda. Quase todos os nativos dormiram por aí mesmo, onde o
cansaço e o sono os tombaram, deitados sobre esteiras, jogados nas redes
carijós. A maioria dos visitantes prometera não beber, mas beberam além da
conta. Assim, restaram todos bem entregues de sono ali na areia da praia ou
escorados numa palmeira tucumã ou lá balançando na nau ancorada na baía.
Lilás, que aliás queria voltar para casa, cansou de
tanto agitar. Deitou na grama, olhou as estrelas e pegou no sono. Dormiu e
enquanto dormia seu cabelo crescia, não parava, não parou de crescer.
O cabelo da menina crescia como se fosse um rio
correndo pela areia da praia. À medida que os cabelos cresciam, se formavam
novas e grandes árvores e de todos os tipos conhecidos. Eram plantas novas,
árvores novas, flores novas, touceiras de capim, arbustos novos, árvores novas
que abriam os braços para abraçar o ar azul do novo país, jará-açu
copaíba-vermelha mogno maúba-amarela pupunha macaúba. Foi assim que surgiu a
mata atlântica com a terra boa por baixo e a brisa do mar por perto e o sol
tropical por cima e os rios famosos aos montes por dentro.
Lilás continuou dormindo. Era bom dormir e a menina
dormia com gosto. Um bando de passarinhos amarelos cantava sem parar. Uns
bandos de passarinhos de cores cantavam sem parar. Árvores altas com
passarinhos na copa, arbustos com passarinhos nos galhos, trepadeiras com passarinhos
camuflados. Matas ciliares com piolhinhos limpa-folhas-de-testa-baia risadinhas
tricolinos barulhentos diucas, juruviaras, iraúnas-grandes. Pinheirais com
gralhas-azuis, curicacas grimpeiros. Banhados com quero-queros, saracuras,
seriemas.
No interior da mata nasceu o
bicho-preguiça. Sim senhoras e senhores, no interior da mata nasceu o
bicho-preguiça de mascara na cara. Era tão preguiçoso e sonolento que vivia sem
pressa. Seu caminhar era len-to, de-va-gar, qua-se pa-ran-do... Sem mentira, o
bicho-preguiça sempre levou uma hora e meia para subir uma árvore de cinco
metros. Quem o via pegava no sono, ficava entediado, olhava as horas, voltava a
olhar o relógio e as horas. O bicho se movia devagar e só falava isso:
- Ai, que preguiça!...
E de tanto falar isso, e somente
essa frase, e viver lentamente por tudo, foi que o apelidaram de
bicho-preguiça. O bicho-preguiça, muito conhecido na terra, nasceu sempre com
preguiça sono paciência sonolência. Deixe ele, deixe ele pra lá!
E o dia passou, depois os restantes.
Pedaços de um dia, completos de outros, repletos de muitos que não foram
poucos. Lá um belo dia, lá e aqui.
Por esse tempo, os tempos, vamos e
viemos, os tempos foram muitos, os passados, que nem dá para contar de todos. O
tempo que é feito para durar. Coisa que não dorme.
Mas do fundo do poço fundo veio uma
voz, e que foi pescada assim: “Acorda, Lilás... acorda, sua dorminhoca... ei,
acorda... acorda, sua senhora preguiça...”
E Lilás acordou na sala de aula do colégio 11 de
Agosto:
- O quê? Como? Onde estou? É você,
verde Esmeralda verde?
- Sim, sou eu. Que história é essa
de dormir em plena aula? Que história foi essa de cabelos crescentes? Que
história foi essa de bandos de cabelos virarem em bandos de árvores tropicais?
- Que dê a turma, a professora, o
corpo de bombeiros?...
- Foram todos embora, a aula acabou,
Lilás.
- Bateu o sinal de saída? Mas como
que não ouvi?
- E eu é que sei? Você devia de
estar no mundo da geografia. Passeando pelas ruas do Recife, de Olinda, de
Aracaju. Quem sabe assistindo uma manada de jacarés deitados no sol do pantanal
mato-grossense, viajando pelo rio Meia-Ponte, velejando perto da ilha do
Caju...
- Ah!... me lembro. Eu estava na
História do Brasil.
- Que altura da História do Brasil?
- Brasil do começo começando bem no
início dos primórdios iniciais.
- Quando? Como? Por quê?
- Na época do Cabral, o
descobrimento... lembra?
- E o que você fazia lá?
- Aguardava a primeira missa na nova
terra. Tínhamos recém descoberto o Brasil. A festa foi de arromba. Dormi na
areia e virei sombra.
- Falando em festa. Você virá ao
baile amanhã à noite? Todos os meninos do colégio estarão aqui.
- Virei, Esmeralda. Só me falta um
bonito vestido. Um bonito vestido para a noite. Um longo e belo e interessante
vestido para a noite.
Sol atônito. Sem tirar nem pôr; não
era tarde nem cedo. Um dia amarelo. Um amarelo mais amarelo que o amarelo,
sempre amarelo. Cada árvore no seu lugar reservado na calçada.
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