terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 20




Que Eu Conheci Conheci

            O padre Graçandu desenhou a cruz no ar traçou pregou corações ao alto e disse amém. Esvoaçavam voavam revoavam as corruíras as bandeirinhas as andorinhas... dentro no côncavo nave da igreja a casa de D.
Então, saímos todos tropa calmos pacientes concordados. Todos se mexeram e debandar para com alívio.
Saí na frente em primeiro e olhei os angicos-rajados no outono plácido. Tudo bem? Me perguntei também: e por que e de onde vinham e aonde iam toda esta turbamulta.
Uma manhã muito sábia tenra e cuja beleza. Mas podia ser de tarde. O carnaval tendo o preparo dali um mês, mês e pouco.
Olha só o céu, pensei, céu azul, branco, liso, açúcar, calmo, piscina, digno, profundo como uma certeza integral. Eu ainda pretendia ir a Chapadinha e agora mesmo, pensei, queria estar assim ali em Prata do Piauí, navegar no rio São José, navegar no rio dos Sinos.
D no céu? Nem dava pra ver quem ia ali.
            A escada de cordas puxava os eleitos para o céu, por onde já subiram outros tantos fantasmas. Índios iurimagua vendendo paiauaru e tupés e os olho-de-fogo e sapos-aru e tucanos-pacovas na beira calçada da rua Visconde de Jequitinhonha. Bergamotas amarelas no espaço de quase fim de ano.
            O sol saía descia subia voltava. Nuns movimentos naturais e esperados. O plano já dera certo há alguns dias e dias.
            A vontade de beiju me matava. Pronto, já estava morto. A sede me matava. O sono me matava. O meu rio descia fio de água ribeirão e límpido, serpenteando, desequilibrado e montanha abaixo. O mar estava enchendo há séculos, bilhões de anos, bíblias, baleias jubartes, navios petroleiros. O rio me remava para o litoral.
            O vento movimentando as árvores da praça da Independência as árvores as copas alterosas as folhas os galhos das plantas da avenida Dantas Barreto, ipecacuanha-preta, siriúba, salsaparrilha-do-rio... árvores centenárias seculares. A viagem ia embora para frente e num navegar de mar favorável.
            Nem podia acreditar nem podia duvidar, ou seja, era muita pura coincidência. E o mundo a Terra me olhava e me dizia, martelava:
            - Continue e continue!...
                                                                       ***
            O menino sonhou com um avião bimotor e quis virar um pássaro grande que voava alto, ipecuá, ipecuá. Quis pilotar um hidroavião, pousar na lagoa do Aviso, sobrevoar as meninas de Vila Nova do Sul, Ribeira do Amparo, Campestre, Caldas, Miracema do Tocantins, Roncador... Sonhou flanar, alar, espiar do alto da castanheira-do-pará e se apinchar. Como um pássaro de raro voo, bico-chato-amarelo. Nadar nas alturas azuis transparentes dos gaviões-de-penacho ou tamuriparás. Caminhar nos telhados como os gambás, nos campos durante a lua cheia como os lobos-guarás, em tardes silenciosas e calmas no cerrado como os tamanduás-bandeiras. Usar as nuvens de algodão como trampolins e veja lá os vinte-e-um-pintados. Sonhou também ser fantasma ou boitatá nas capelas das minas de ouro. Dar rasantes como aviões de combate, esquadrilha da fumaça. Sonhou navegar contra-atacar os corsários na costa do Recife, São Luís, Niterói, Vitória, Brejões, Navegantes... viajar no tempo que governava um vice-rei ou um imperador e imperatriz do Brasil. Sair pelos matos como índios pataxó, xavante, parecis, arara-caro, tupari...
            Depois da montanha o sol depois do horizonte o sol... Mas vai aonde, meu?! E ele empurrava mais pra lá que o próprio sol. E retornava como pássaro como peixe pessoa árvore papa-piri... E vai aonde, meu?! Nova Andradina estava uma cidade de tamanho conhecido preciso.
            O pai do mesmo menino nem sonhava, nunca sonhou. O pai caminhava lento, len-to, lentamente, quase parando. Comia muito devagar, pensando, olhando o horizonte dentro de si. A comida esfriava no prato. O pai caminhava lentamente para o trabalho. E às vezes até esquecia alguma coisa, tinha que voltar da metade da rua. E de noite retornava mais cansado mais calmo mais espiritualizado. Parava no bar e bebia um trago de canha amarela, lenta-mente, engarrafada na cidade mineira de Estiva. Muitos tragos, bebendo lentamente, parecia bom beber e o menino disse para si mesmo prometeu que um dia também beberia.
E o menino que sonhava ser caracará dos ares, via o pai caminhar lentamente, acender um cigarro no outro, acordar sonolento, se ausentar demoradamente, se esquivar filosoficamente. O time de futebol da família já nem supria mais as necessidades dos domingos à tarde domingos de tarde sem nenhum gol para comemorar.
            E o avô do menino, pai do pai do menino, virou rei Momo papai Noel do shopping center Uarini. O avô de barbas brancas e crescidas, barriga inchada, prometeu presentes para as crianças que tirassem boas notas no colégio Tiradentes. O avô se comprometeu e riu, fazendo, oh oh oh!... O bom velhinho riu e sacudiu a barriga, a mão segurando a barriga. O menino viu o papai Noel, pai do pai, sentado na cadeira estofada em veludo vermelho perto do pinheirinho enfeitado rodeado de presentes lá no bairro Basalto, shopping center Uarini. E o menino foi pedir uma bicicleta, um brinquedo de videojogo e uma bola oficial com CBF e cinco estrelas.
            Mas era preciso olhar para o mundo com olhos garços gázeos verde-azulados olhos de mar olhos de água da chuva esverdeados ora azul ora verde.
            E eu olhei os olhos que me olhavam no espelho: olhos fixos e frios. Muita dúvida, ou seja, muita parede.
            No dia seguinte fui buscar meu primo minha prima e amigos para jogar nadar na piscina do clube esportivo recreativo Acarapixuna. Depois também duplas de tênis no saibro. Tênis brancos meiões brancos e raquetes fabricadas em Vianópolis.
            Golpe do vento que balançou os meus cabelos fez dançar as folhas das açucenas-do-mato, macambiras, paricás-de-curtume, ajurus, olhos-do-diabo... mas nem incentivou o frio. Nenhum pouco de maus presságios voos e pios de sondaia. Veio a chuva, muita chuva, uma cachoeira em água e espuma, e nem aconteceu de molhar os meus olhos, as minhas têmporas, os meus cabelos finos. Chegou do nada uma nuvem de mosquitos, zumbindo como alucinados, e nem fizeram me atacar.
            Na data conquistada de oito de março longo ano de 1978, me pensei.
            Perto do meu rio, perto das coisas, perto do meio-dia, perto da minha rua, perto do meu pé de jabuticabas.
            Então, escutei um causo de fazer rir, morri de rir, mas nem me alegrei. Então, esperei na faixa para que o trânsito de carros passasse, carro por carro, carros buzinando, carros de farol aceso, porém nem queria atravessar a ponte nem dei sinal com a mão para embarcar ou desembarcar do carro de aluguel.
            A mãe chamava o menino que queria sobrevoar:
            - Vem almoçar, guri! O almoço está servido e é muito bom!
            A mesma mãe disse ao pai do menino:
            - Senta e come, meu filho! Come de uma vez que está esfriando! Olhe que a comida nem espera!
            A mãe para o pai do pai do menino:
            - O senhor vem almoçar, vovô! Tem sobremesa que o senhor mais adora!
            É, era isso. Meu pensamento era vago vagal vagaroso cabuloso e por aí. Eram alguns dias assim. O rio Amazonas foi feito num só dia. Tapiranga pousou no ramo verde da jequirioba. Minha prima Juçara já morava em Coração de Maria, vinha visitar de vez em quando.  
            O espetáculo de luz e sombra, de sombra e lua, já há muito inaugurara o Palácio de Cristal, junto à praça 14-Bis, Petrópolis: “senhoras e senhores!...”
            Ainda hoje nem aprendi a voar de asa delta, parapente, balão, paraqueda, andorinha ou tucano-de-peito-branco ou gavião-carijó ou ariramba-verde...
            Gomeira tinha os cabelos largados mais bonitos que já havia visto. Mangaba tinha os cabelos mais lisos e negros que já cheirei. Jatiuca tinha os cabelos mais ondulados que já naveguei. Guarajuba tinha os cabelos mais insatisfeitos rebeldes que já abracei. Ibirubá tinha os cabelos mais frisados que já puxei. E eram todas de além-mar todas de aquém-oceano.
            A planta alfavaca-carpunha plantada no quintal, as folhas que já viraram dinheiro, as frutinhas em novembro, as flores muito cheirosas e doces, o verde cheio de saúde, o vermelho muito suado, o branco muito prata, o passarinho amarelo com sua esposa carijó, o gurizinho que invejava os alados e sonhava se evadir. O vizinho de rádio ligado a toda no sertanejo popular. Árvores inclinadas na sombra.
Me deitei e me perguntei em pensamento isso: desligue esse rádio, quero dormir! A filha mais bonita do vizinho de rádio sempre no sertanejo popular era a Majuba. E Majuba chamava a árvore angico-amarelo de D. Mariana. Queria saber se D. Mariana queria dirigir carro caminhão pilotar teco-teco. Se usaria suas folhas verdes para dinheiro. Depois, na sombra da D. Mariana se realizavam vários eventos, aniversários da família, pedidos de namoro, pedidos de noivado, pedidos de casamento, abraços e beijos no escuro. E no são João a fogueira com balões e bandeirinhas e fogos e pinhões e quentão e aquele auê... A árvore D. Mariana que um dia falou para Majuba:
- Olha, Juba! Eu também queria assistir tevê e nadar na praia das águas do mar olímpico, é!
            Perto da sorte, perto do nada, perto do todo, perto do nada, perto do meu rio, perto da Ana Paula pernas de sol, navegando rio abaixo, à cerca da baía de Todos-os-Santos, logo logo o mar, perto do céu-piscina.
            Ana Paula convergia os olhares atraía incondicional atração dos olhares convergentes de quantos de todos. Seus olhos e que olhos que nem prometiam nem largavam nem pagavam certezas.
            No percorrido das minhas contas... Depois de andar um pouco mais... Acho que devo achar que somente tenho de presságio e péssimo e tonto a minha autocomiseração.  
                                                                       ***
            O sol nasceu no mundo derramou paisagem aumentou tudo ouro raios verdes araratucupis uvaias-do-campo araticuns-de-boi mais arrebol. Em boa hora aconteceram nuvens brancas pássaros amarelos pavãozinhos-do-pará.
Total, estava tomando café em casa. Que horas? Café da manhã às 10h. Mas podia ser às 23h. Quando, de repente, a xícara me escapou da mesa e pulou no soalho e saiu picando. Foi quicando, quicando, te-teque! te-teque!... A porta por acaso estava aberta, cadê cadê?!... porque eu sempre gosto de olhar lá fora e olhar o dia como vem como vai a noite de sons e tudo mais. E a xícara aproveitou a porta escancarada e saiu para fora e foi picando... Passou pela porta quicando, desceu a escada do primeiro andar, quicando, passou pelo portão aberto àquela hora, quicando, te-teque!... passou a calçada desse lado da rua, quicando, atravessou a rua Guaraíras, quicando, nem vinha trânsito algum, ainda bem, quicando, chegou do outro lado, quicando, começou a descer pela rua Marataízes que vem na perpendicular, quicando, te-teque!... e a xícara só foi parar mesmo, de quicar, quando deu de chofre de choque no para-choque de um ônibus urbano azulzinho novo em folha. O ônibus estava estacionado no meio-fio perto da casa da vizinha, a dona Maristela Açuçuapara. Ônibus urbano fazia a linha Centro e capela Santo Antônio e Centro. E consegui alcançar e recuperar a minha xícara de porcelana fabricada na longínqua cidade de Caldeirão Grande, te-teque!... uma relíquia e para continuar o meu café das 16h.
***
            Aliás, tanto foi a propósito que me lembrei pensei lá na hora do caso da menina Pequi parabólicas ligadas o tempo todo com ela era assim:
            A uma menina de poucos anos, idade de ensino fundamental e de andar de bicicleta. Idade de andar de bicicleta. E isso mesmo começou lá por volta da idade de se abrir para o mundo e fugir de bíci. Pois era ela mesma, a guria se chamava Pequi por causa da fruta.
            Dentro dela guria Pequi no íntimo dela um perfume no mínimo dela a aventura de atualizar pelo mundo afora, confiar nas coisas, conhecer lugares arquipélagos boqueirões subidas e descidas.
            De alguma forma a menina pegou aquele dia e resolveu sair no mundo e de bíci. Parecia bom e ela topou:
            - Ei, dia claro! Vou contigooooo!...
            E foi pedalando bicicleta. Que era um esporte pacífico. Que era legal e dava até para olhar paisagem. Praticamente um esporte com exercício pedestre. Descendo a rua Bento Teixeira o bairro Santa Cruz a cidade de Utinga.
            Ouviu o rio tocar flauta-doce, o rio cheirar borbulhas, blu-blu-blu!... viu o rio ligeiro, o rio em cascata, depois fazer um cotovelo e virar rio Tietê, rio passar em frente da aldeia dos tapaiúna. Era uma sexta-feira do mês de novembro.
            De modo que ela esticou assim os olhos para uma porção grande de árvores que vinham caminhando lentamente pela margem pela várzea, jatobás, cumarus-de-cheiro, tucumãs, landis, guaranás-timbós, canjeranas-do-brejo, tucuns-do-brejo, camboatás-brancos, canelas-do-brejo... Que eram verdes e parentes próximas dos inhames-de-folha-roxa-pintada. Que eram dependentes dos bem-te-vis-do-chão das bandeiras-alemãs das irapuás...
            Travou a bíci e ficou admirando. Tudo era curioso, curiosidades. O rio Iguaçu passava e era curioso vê-lo passar e nem passar. Rio orgulhoso e barulhento, chá-ché-chi-chó-chu!...
            A chave de tudo era a curiosidade. E assim o mistério. E ainda o enigma. As coincidências. Os flagrantes de hora, tipo 20:02 ou 10:10 ou 08:16.
            Agora, já longe de casa e pedalando, ia longe, já nasciam as primeiras estrelas, primeiro as brancas. E os grilos cricrilantes, bri-bri-bri!... dentro das moitas escuras no aconchego dos arrebenta-bois no fofo das tipuanas no abraço das favas-contras.
            Pela primeira vez na sorte, que levava sempre junto, acordou navegava pedalava navegando pelo rio Arinos. A montanha da serra do Andaime realmente era maior ou teria mais importância que o rio?
            As paisagens da estrada, lados esquerdo direito, eram verdes iguais precisas interessantes. O uiraçu-verdadeiro a ave do Distrito Federal.
            Parou a bíci, assim, o pé no chão outro pé no pedal mãos no guidão, pensando, pensou, disse para si mesma:
            - Mas isso é assim. É divertido.
            A guria Pequi conheceu um papagaio-moleiro e por acaso. Perguntou ao sujeito de parolas:
            - Esta a estrada que liga para Floriano?
            - De acordo.
            Nem era preciso chegar a noite e dormir depois de um dia como aquele. Para onde se olhasse e o mundo estava ali. E o papagaio retornou ainda e mais confiado:
            - De onde você vem, garota?
            - Venho pedalando desde Leopoldina, e você?
            - Concordo.
            As iraúnas-grandes ciscavam se comportavam se divertiam tomavam banho nas areias brancas subindo e descendo os troncos caídos mangues-de-água-doce do rio Corrente. Uma delas pegou falar:
            - Temos que pensar a chuva!
            A outra iraúna-grande também deu ideia, grasnou:
            - Penso a chuva!
            Mais outra esticou o pescoço como uma corda:
            - Pensa a chuva!
            As nuvens estavam gordas a pouco foram magras mas estavam gordas e se mexiam para oeste. Que esperar um pouco que nada. Quem espera na verdade sempre alça voo. Embora demorasse. Demorou uma brincadeira. E ninguém precisava de chuva mas de sol e chuva casamento.
            Oito árvores da manhã. E árvores com nome de plantas e como nunca se viu, como a menina nunca percebeu, palmitos-do-chão, cajazeiras, imbaúbas, meruás, coiramas-amarelas, araticuns-da-mata, jaburandis, açoita-cavalos, marias-pretas, piraguaias, angicos-brancos... E para onde uma floresta pedindo água.
            Guria achou a tribo dos canamanti. Moravam na beira do rio Ouro Preto. O rio que sabia de tudo. Quanto muito quando para lá de Manaus e perto de Lábrea, Borba, Nova Olinda do Norte... Tinha gente que ia no gaiola e parecia demorar umas duas semanas abanando com lenço as pessoas na beira.
            A menina chegou para perto dos canamanti. E era já tarde perto da noite. Uma cascata descia pelo rio e fazia, chuuu!... sempre chuuu!... O pajé Axuá veio e se sentou num tronco de umbu junto da palhoça. Morava ali. O pajé chamou disse erguendo a mão para o alto a voz do pajé contou:
            - As estrelas... Chegam até aqui... E fazem o favor.
            Foram se foram as horas do dia a dia, os dias, quaisquer todas as coisas. O sol praticamente em todo lugar e até em Guarantã do Norte.
            Pequi demorou as idades, depois outras e outras, e quando fez sete anos começou a estudar na escola estadual 11 de Agosto. Cadernos com todo o respeito e florzinha no alto da página. Mapa com pedaços coloridos para cada um dos Estados.
            Quando fez oito anos olhou as figuras dos livros e mexeu muito com revistas de quadrinhos. Os livros tinham histórias de carreteiros histórias de tropeiros de garimpeiros histórias de seringueiros e lendas tupis-guaranis.
            Por volta dos treze anos começou a ler em voz alta e peripatética. Lia com entusiasmo e se achando muito esperta. Um livro bom, Mil Noites Tapuias do autor Mário Palmério. Outros livros bons. Uma viagem de trem antigo dia de sol olhando pela janela Caxias do Sul até Carlos Barbosa e principalmente passando por Batayporã e a ponte sobre o rio Ivinhema.
            E quando fez dezesseis encontrou com o Uru, seu primeiro namorado. Quando fez dezessete encontrou o Asa-Branca, seu segundo namorado.
            Pequi era linda e macia e suave e quase amarela como nenhuma outra fruta da sua tenda e idade já fora. Gostava de se vestir de verde. E levava a herança dna da família, ou seja, cabelos longos e bem pretos. Consumidora de sorvetes e versátil no gosto.
            Era linda e macia e suave e cheirosa e tenra como nenhuma flor adolescente ainda fora. Podia ser feliz quando e onde quisesse. Podia ser ótima atriz em Cabixi, Assunção, Pedras de Fogo, Cacimbinha, São Paulo, Santa Rosa do Purus... Onde D aponta o dedo é só alegria.  
            Asa-Branca era entregador de pizza, naquela altura, e isso de estar sempre na rua, calcule!, fascinou a querida querida Pequi.
            Depois de um tempo Uru nem amadureceu nem mesmo a Pequi.
            As nuvens vinham pelo espaço e aterrissando. E pesadas e azuis e confusas isso de chover levavam dias e dias. Vai chover, diziam uns e outros. Vamos ver daqui a pouco, já falavam outros e uns. Era estava claro que de chover ou fazer tempo limpo ficava sempre no comum. E aí quando chovia chovia durante dias e quando nem chovia ficava todo dia na ameaça de chover o chove nem molha.
            Pronto. Uru era astronauta e participava de escaladas na lua durante meses e meses. Meses e meses sem ver o namorado deixava Pequi muito apaixonada e feliz e infeliz. Ela se sentia muito feliz e dizia a todo mundo:
            - Sei, sou muito infeliz com a ausência e a incerteza das aventuras de Uru.
            Quando Pequi e Asa-Branca passeavam frequentemente pela frente da prefeitura e pela volta da pequena pracinha, até escolherem um banco para sentar, para ver o movimento passar, e se beijar calmamente, quando isso tudo acontecia, praça da Bandeira, eles namoravam no domingo e eram alegres e contentes e satisfeitos. Pequi era amarela e doce e tenra. Muitas crianças correndo e gritando nas gangorras. Vestida de verde com cabelos longos e vaidosos e acintosos e espetaculosos.
            Pequi fazia duas coisas ao mesmo tempo: assistia desenho animado e conversava com seus brinquedos, principalmente bonecas e comidinhas. Ora assistindo ora ensinando a filhinha, todas as horas. Numa novela escolheu o nome da filhinha e foi se chamar: Ivaí.
            E aí, naquela idade, ela parou porque nem tinha mais tempo para mais nada. Estudar, Pequi estudava. Nem falava inglês, gostava das aulas de desenho, detestava química e física.
            No começo Pequi hesitou.
            Depois no explodir da primavera ela aprendeu a descascar bergamotas amarelas e com as unhas pintadas.
            Mais tarde aprendeu a gritar, mãos crispadas, curvando bem o corpo para frente, despenteando os lindos cabelos negros negros como nunca se viu.
            Assim, ela já aprendia a beijar Uru na boca. E com perder o fôlego.
            O mundo estava certo e andando do mesmo lá seu jeito dele tudo que D queria.
            Um ano longo se passou. Pequi nem viu. Quando muito quanto.
            Pequi teve, dito e feito, uma noite de conformidade, de sonhos suaves, de como ela bem merecia. Sonhou que estava caindo e caía sem parar. Mais que caía mais dormia. Quando parou de cair, acordou. Olhou admirada as paredes surgindo conforme o sol lá fora. E cantavam os bonitos-do-campo, os chibantes, as tesouras-do-brejo, os arrelias e estrilavam os ajuruetês em grupo.
            A lua chegou no trem antigo das 18h e viu rostos conhecidos. Cães ladraram sem certezas. Galos cocoricaram a partir das 05:05.
            Pequi tirou seis meses para trabalhar na malharia Guaximbé ali no bairro Coroados. Pequi rosto fácil e contente. Tinha que ir e vir de ônibus. Pequi boca desenhada em ondas. Pequi olhar amaciado olhos e espírito móvel móvel. Flor preferida de Pequi, as orquídeas. Boca de Pequi como arco de flechas. Todos riam para ela seus melhores sorrisos. Aonde ia era assim. A mão que fazia os gestos que seguiam as palavras tudo muito simples e encantado e ajustado. Tão bonita e querida que dava prazer, vencedora.
            Que altura distância tinha a sorte tinha a lua? Que notas musicais tinha o arco-da-chuva?
            Na rua Anta Gorda todos se reuniram para ver passar a banda marcial, a escola desfilar, a jamanta estacionar, um cavalo pingo e seu cavaleiro à gaúcha.
            Sim, aquele ano o minuano ficou mais frio.
            - Como é? Isso faz parte? - perguntou Pequi.
            - Claro que sim! - respondeu Uru.
            Pequi, depois de conhecer Asa-Branca, esqueceu que precisava estudar e correu dar abraços quentes e uns beijos carinhosos no cara. Ninguém ou pouca gente sabe o amanhã.
            Ela precisava de ajuda e começou a chorar. Ela nem precisava de ajuda e começou a rir. Foi ver no palco do cinema Membi uma trupe de teatro que vinha de Curitiba, uns do interior de Curitiba, Três Barras do Paraná, Guaramiranga, Foz do Jordão, Boa Ventura de São Roque...
            Um dia Pequi viu um papagaio-canindé caminhando de lado e gostou. Se juntou a ele e se apresentou:
            - Oi! Sou Pequi! E você?
            - Eu sou alado e me chamo Bétis! Venho voando desde Igaporã, já passei Boa Nova, Vargem Grande, Cambuquira, Guarujá...
            Aí, Pequi aterrissou nos seus dias de hoje, voltando dos seus tempos passados de antes e antigos, e teve mesmo de sorrir. O riso estalou no ar e se dilatou. Pequi ainda vestia verdes tons da floresta amazônica. Gostava muito de guabirobas.
            E Pequi teve um pensamento colhido no programa de tevê da manhã ou da tarde. Olhar reparar totalmente fixada na pretensão do interessado apresentador ou plastificada apresentadora:
            - Uma pessoa, como eu como você como nós, só se apaga quando seu objetivo seu alvo seu apoio seu salário atrasar atrasarem.


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