Todo Mundo Sabe Que
Está Por Vir
Recebi
um recado da Cotia, muito obrigado!, estava esperando, chegou numa hora que
precisava pensar coisa boa, agradável e estimulante. Um dia às 9h. O que é
possível lembrar.
Cotia,
vizinha de cidade, descreveu:
“Vou te dizer.
E você vem comigo, bem! Dezessete anos e uns meses, moradora na cidade de Veranópolis,
bairro Baturité, rua Avecutá, edifício Suruiá, 086, trabalha na loja de
aparelhos de ar condicionado Corumbataí há dois três quatro meses, controle de
qualidade, sonha de passar para secretaria da firma, já faz curso de
informática no sindicato, alérgica ao calor, chora diante da novela, torcedora de
um mega time da capital e da Seleção, sabe que é boazinha lá no fundo do
coração. Pensa em você esses dias. Você é um cara bom, eu sei, eu prometo!”
Na manhã bem
despontando o sol...
***
O
seu Uraricoera aguardava a chegada das visitas, o filho Extremoz, a nora
Precabura, a neta Pitiguari. Seus olhos mortiços vasculhavam o fundo da lagoa.
Cinco horas da tarde. Apê calculado com alguns terrários de vidro de plástico com
plantinhas espalhados pela sala. Via montanhas o dia todo, abismos e as calçadas
com pessoas perdidas na correnteza, pacus, iaras, peixes-bois, tracajás, sapos-bois...
se enroscando em barcos, barcaças, balsas, batelões, voadoras, igarités, gaiolas...
faróis ou postes de luz.
Era
sábado, a cidade de São Cristóvão, Sergipe, estava comportada, pôr do sol
bonito, cartão-postal, teco-teco arrastando faixa publicitária, bando de
anus-pretos, pios de almas-de-gato, sanhaços-da-amazônia, pixanxões, guiraxués,
galos-da-serra... A empregada deixou cair um prato de porcelana feito em
Aracaju, coisa finíssima. Um vizinho tocava acordeão, emitindo um som longo e desafiador
fazia tempo.
Sem
demora chegariam filho, nora, neta para o fim de semana. A televisão, abobada,
perguntou:
-
Que você acha, telespectador amigo telespectadora amiga! Somos nós, seres
humanos egoístas, a única espécie inteligente do universo? Telefonem, telefonem
de grátis para o número que está na tela, dê sua opinião e concorra a um
passeio por Foz do Iguaçu, Ponta Grossa, Maringá, Arapongas e Cascavel com
direito a acompanhante e tradutor!
Mas
nem se pode, pensou o velho Uraricoera, reclamar de tudo, muito menos de um
acordeonista desavisado espantando uma tardezinha de sábado. Aliás, completa
ele, esse vizinho sanfonista gauchesco tem mesmo alma de poeta. Uma reportagem
do jornal gazeta diário impresso local:
“Os
índios botocudos costumavam ter diversos apelidos durante a vida. Um nome para
cada fase da vida. Ao longo da jornada. Um nome na infância, dado pela mãe; um
nome na adolescência, dado pelo pai; e um nome na fase adulta, dado pelo curaca
ou pelo pajé.”
Uraricoera
foi até a geladeira e trouxe uma cerveja para a sala de estar. Um gol vazou a
rede da parede do vizinho, gritou o narrador:
-
Gooooool!!... Gol de plaaaaca!!...
No
fundo da lagoa os pedestres se entrecruzavam preocupados com o relógio e as
árvores povoavam outros espaços com seus cogumelos verdes, amarelos, vermelhos.
Era bem discordante desconcertante ver a paisagem de cima para baixo.
As
aves flanavam às vezes os aviões por dentro dos verdes por entre os prédios e o
céu dos azuis e o sol dos ouros de fogo. Tudo agradava ou passava batido. Que
categoria ver o cabeça-branca pousar na beiradinha do prédio olhar curioso num
vigésimo andar.
Sem
demora chegariam os olhos brilhantes da neta Pitiguari. A lata de cerveja
transpirava. O ovo do dia resvalava bem maduro e lento céu abaixo. Todo o mundo
espera alguma coisa de um sábado à noite. Uma manchete do telejornal:
-
Candidato de centro, o Cariru Sapopema, que faz oposição ao atual governo do
Estado, dispara nas pesquisas de intenção.
O
fundo da lagoa ficava pouco a pouco mais perdido, profundo, encardido, estranho,
carapanás, envolto em escuridão e rutilâncias. Pitiguari, o seu xodó, uma razão
para continuar aqui. Na cozinha a empregada dava os últimos retoques no jantar
de logo mais. O ovo já ia comido e o céu se deixava pintar e bordar e consumir
por um rastro de fogo, um rastro de ouro em pó, um rastro de leite derramado. Ouvira
de em algum lugar, lembrou assim assim:
-
Aposentado encontrado morto em seu próprio apartamento... adiantado estado
de... abandonado pela família...
Pela
janela insistia toda vida aquela música da cidade que era o concerto do
trânsito. O fundo da lagoa estava repleto de pequenas e acesas bocas de cavernas
abertas nas paredes das montanhas. Flagrava e admirava por momentos a moradora
do prédio em frente trocar de blusa. Se fosse gigante andaria pulando de pulo
em pulo de monte em monte de pico da Bandeira ao pico do Calçado ao pico do
Urubu ao pico da Pedra Roxa. A empregada, um grande sorriso de dentes à mostra:
-
Bem, seu Uraricoera, vou nessa. Deixo tudo encaminhado...
-
Muito obrigado, dona Iemanjá. Acho que nem vão demorá, né?!
-
Nem, imagine. Nem demora já estão aí. Tchau!
Hora
7 dia 12 mês 4 ano 1985 quando já morreram vários e mais que o dobro nasceram
ainda. Uns foram e já voltaram em forma de árvores aves outros bichos outras
pessoas, piramapu, tamanduá-colete, tapir, trinca-ferro, bacurizeiro,
pacavira-grande... Será bom morar em Lajinha? A estranha Pedra do Letreiro fica
em Quixeramobim. Brasileia na fronteira do Acre com o Paraná. A praia Formosa
em Catas Altas. Meia hora depois chegaram soltando as palavras:
-
Tudo bem, pai?!
-
Quelo mostá plô vô!...
-
Olá, vô! Tudo bém?!
-
Se acomodem, o tapiri é de vocês.
O
casal foi para a cozinha ver de servir o jantar e neta e avô ficaram na mesinha
de centro jogando dados trilhando trilhas pulando etapas conquistando
territórios somando bônus.
Já
estava a lua toda no céu. Se via claramente as cicatrizes, narizes, diretrizes,
matrizes, bissetrizes, perdizes, atrizes. Noite cheia de assombrações, saci,
matinta-pereira, boto, boiúna... O fundo da lagoa cheio de transeuntes
camuflados encapuzados pardos. O silêncio era tão amplo tão alto tão solto tão
longo tão lento tão ensurdecedor. Mas também era uma noite que só o céu sabia.
Vira-latas viravam esquinas, entravam em becos, escolhiam grutas, caíam em
cavernas, derrubavam latas e corriam, sumiam no fundo das bocas-de-lobo. A
cidade de São Cristóvão se aninhava e se enrolava como um andirá-açu no teto da
furna um gato doméstico no capacho da porta de entrada da casa.
-
O seu pai e a nossa Pitiguari, hem, bém?!
-
Sim, é muito carinho. Eles se adoram. Eles se entendem. Principalmente quando
inventou essa de dar presente em dinheiro pra neta, é.
-
Você acha que seu Uraricoera se importaria em cuidar da Pitiguari?
-
Papai tem lá sua rotina... Mas acho que sem problema, nem.
O
casal chegou na mesa com o jantar. Espalharam as travessas os pratos e os
talheres e as comidas, tambaqui moqueado, cupuaçu, bacuri, sorva, tacacá ao
tucupi, jabá, paxicá, tapioca, beiju, abóbora-moranga... se sentaram todos. Era
tudo muito manjar. A noite a família o jantar a tevê dando os fundos de
parabéns.
-
Sabe, pai... Trocando um pouco de assunto. Eu e Precabura temos um pedido, um
favorzinho a pedir. Nem queremos abusar. É que a gente tá pensando em ir ao
show da Tarumã, lá no ginásio do Iguape e...
-
Querem que eu fique com Pitiguari? Mas claro.
-
A gente ném quer incomodar, vô.
-
Sem problemas, sem sustos, sem nada a ver.
-
Pitiguari, minha filhinha, olha só o auê que ocê tá fazendo com a toalha do
vovô!
A
geração do Extremoz e da Precabura se tornou ativa politicamente a partir dos
anos oitenta. E quando entraram pra universidade. Sentaram na grama na terra
batida na laje quente do campus como os paxás os iogas fumando qualquer coisa
ouvindo barulho britânico e puteando o fmi o imperialismo o marechal o tio a
rainha o papa o cacique reitor. Gente nova cheia de novidades que nasceu na
madrugada do golpe de 64, e nos festivais de músicas psicodélicas, passeatas
dos colonos sem terra, anistia, diretas-já e copa do mundo pra frente B do meu
coração. Optar pela esquerda, àquela altura, era obrigação moral e cívica.
Gostavam de Cuba, falavam bem de Moscou, entendiam o porquê de Pequim, se
diziam leitores dos marxismos, enfim, gente fanática por política partidária,
temperamental, militante, intransigente, impenitente, beligerante. Uma geração
de carteirinha. Se responsabilizaram pela constituição de 88 que motivou
participações como dos carapintadas. Mas o muro caiu e a guerra fria veraneou.
E com a queda parece que o sonho ou a fantasia se perdeu, se extraviou, se
globalizou. Hoje essa gente vai aos shoppings, claro, lê livros de autoajuda, espíritas,
assiste novela e acompanha prestigia os já aposentados velhos ídolos antigas
canções em turnês pelos países. Vez ou outra ainda ousam dizer, por qualquer
motivo, em qualquer contexto, sem muita razão, com emo contra a corrupção
contra a politicagem, pra dizer alguma coisa: a luta continua, companheiro!
Então, como se
viu, o show da Tarumã era nostálgico, era ressuscitador dos tempos românticos e
das correrias pelas ruas com pedras nas mãos, tempos difíceis, tempos ótimos,
perdidos, lembrados, documentados, tempos de chumbo, tempos (re)queridos.
Uraricoera,
no seu próprio mundo, sentia a alma friável. Um desassossego paquidérmico
acordando, dando suas pontadas, sempre acordado. Mas nem dizia nada para as
visitas, nem dizia nada, continuava o jantar, prosseguia a lógica das coisas
banais. Homem que é homem luta para aprender a dominar as emoções e nem precisar
pedir arrego. E voltando à vaca atolada, falou:
-
Pessoal! Cinquenta sessenta formigas-quenquém carregando uma folha olímpica de
mungubarana pingando orvalho no caminho... um brinde!
Os
copos se encontraram sobre a mesa, tin-tins!... se acenderam os sorrisos,
vivas, risos e até uns, eh eh eh’s!... E a conversa rolou para os minutos da
prorrogação:
-
Bém, vô, então a gente já vai...
-
Sim, podem ir tranquilos. Ficaremos muito bem. Assistiremos um filme, faremos
pipoca, né, Pitiguari?! Talvez mais um sorvete com três bolas cada...
Após
tratos e contratos e abstratos retratos, o casal bateu a porta, bla-que!...
Havia
muitas casas entre os prédios e tais quais etc. As pessoas optavam por morar em
casas e faziam a segurança com guaritas muros grades arames alarmes e cachorros.
O
bairro estava cheio de cachorros. A noite o dia inteiro era sempre assim. O
país dos cães e cachorros e guaipecas. Dona tal com seu cachorro, seu tal com
seu cachorro, família tal com seus cães, e etc. Nem se podia passar sossegado
na rua na calçada. Um latia e a rua inteira acoava em coro. Um coral de altos e
baixos rápidos e prolongados uivos latidos rosnados bufos grunhidos. Bastava
alguém passar ali e pronto, todas as casas tinham seus cães e cachorros. Um cão
dava voz e latia os outros o acompanhavam. E com incontida fúria. Nem se
conheciam pessoalmente nem se cheiraram socialmente uma vez nem corriam torcida
organizada atrás de carros mas latiam em cachorrada em matilha alcateia nos intramuros.
Todos presos uns até acorrentados atrás dos muros e grades aos seus respectivos
terreiros. Um e outro já mais confortável podia entrar em casa olhar da janela
talvez da sacada. Mas a maioria dos canídeos esbarravam com o gradil e eram
obrigados a parar. Ouviam o arrastar dos pés na calçada latiam corriam até o
gradil e ali viravam uns demônios umas feras ferozes furiosos. E tentavam a
todo custo atacar atacar. Olhos acesos voz embargada boca espumando. Quando
havia foguetório um gol carnaval então era um pânico horrível de se ouvir.
No
mês seguinte, Uraricoera e Pitiguari pegaram o trem tarde da noite. De Sergipe
até a serra Gaúcha foi um colosso de estirão estradão. Avião até São Paulo
Londrina Quixadá Epitaciolândia, pelo menos.
O
céu noturno bordado e transbordado como de flores com estrelas grandes trêmulas
médias festivas pequenas verdes amarelas vermelhas brancas. Pitiguari esquecerá
em breve os pais, pensava o avô. O plano de Uraricoera era trocar de ares,
voltar para a terra natal, e se tornar um pai-avô amoroso.
Passaram
por... Envira, onde já lutara o Plácido de Castro. Viagem pelo rio Tapajós, de
um lado de outro as cidades se sucediam... Vila Lângaro, Iúna, Alfredo Chaves,
Iranduba, Salvaterra, Vila da Barra do Rio Negro...
O
ônibus continuava comendo estrada, passando cidades, mostrando paisagens, já
paisagens da terra dos pampas, praça do Ferreira, lagoa Iberé, pico 31 de Março
e plantações de tuiuiús a perder de vista até onde a vista alcançava. O dia
claro e cheio de sol e cheio de céu azul com mormaço e de um lado o oceano
Atlântico do outro a serra do Mar.
Para o velho,
a neta já nem era mais neta, mas uma amiguinha de infância... muito muito tempo
atrás... lá pros lados do nordeste do Estado. Quantos anos? Quem sabe foi
ontem.
A memória era
a pedra de carregar na cabeça.
Os
dois primos apearam dos cavalos de vassoura e correram de mãos dadas para a
horta do vizinho, escondidos, silenciosos, pé ante pé, roubar, psssiu!...
tomates maduros. Se sentaram na terra vermelha, racharam a melancia na pedra e
comeram como dois bichinhos domésticos. Brincaram de pegar no meio do milharal,
subiram em palmeira paxiúba, construíram casinhas, abriram ruas da cidade, casaram,
ele o pai, o Uraricoera, o Urari, ela a mãe, a Vupabuçu, a Vupa, receberam as
visitas de parentes, têm muitos parentes que vêm filar uma boia. Urari viajava
de caminhão fazer entregas até Itamarati no Espírito Santo, ela dava aula ali
mesmo no 11 de Agosto e no Tiradentes. Comemoravam aniversários com os amigos e
vizinhos e colegas, ele recebia bola de futebol de presente, ela recebia sapos
de pano e de porcelana e de gravura de presente.
A rua de Urari era infinita de lembranças. Havia
casas de lá até lá. Havia casas com pátios e bergamoteiras, canteiros com
flores todas de um tipo bromélias, plantas caúnas, canaranas, ciganas, erva-doces,
bicicleta na calçada, pitangueiras, acapus, guamirins, taxizeiros, cauchos, maracujás-de-cobra...
Bom quando era de sol, mais ou menos quando era de chuva. À noite ele ouvia os
grilos e via os vaga-lumes. Cães assustados latiam sem parar. Uma vez até teve
um cusco, mas ele vivia acoando a noite toda e isso irritava muito a vizinhança
a família. Urari olhava para a Vupa e corriam brincar. Nem eram todos os dias
que se encontravam. Mas se achavam todos os dias para brincar e se ver e se
falar e trocar gratificações quando as havia.
E para Urari a
Vupa nem tinha propriamente um corpo, nem tinha olhos claros, nem tinha lindos
cabelos loiros e cacheados nas pontas, nem tinha pinta de seios, nem tinha
diferença, nem tinha beijos ou abraços. Para Urari a Vupa tinha tanto de peixe
de ave de nuvem de planta. Talvez mais uns cabelos longos e bonitos e decorados,
um sorriso mais bonito, um jeito mais lindo ainda, e somente. Mas tudo sem
querer.
Urari
conhecia todos os cães que latiam por trás dos cercados e portões e
cercas-vivas da rua Itália até a rua Matipu. Foi o Guirá, cão da tia
Mantiqueira, que o pegou assaltando as jabuticabas das jabuticabeiras do
quintal.
Poucos
carros passavam na rua do menino Urari. Era até dia de olhar carro passar,
ficar contando durante meia hora, uma hora, no máximo. Caminhões eram mais raros.
Trator, nem falar. Uma patrola era acontecimento excepcional. Um vendedor de
quadros de anjo da guarda, de Jesus de coração em cascata de sol, de
NSAparecida negra em manto azul. Ia pela rua o enterro da vizinha, dona Itaúna,
senhora que andara curvada e tal, os carros fazendo fila de lata brilhando ao
sol. Dona Itaúna andara no estilo lá dela de chinelas de couro cru fechadas na
frente. Andara curvada apoiada na bengala de cambuim. Foi embora para o sempre,
meio de lado, e rezando o terço e de véu de renda preta cobrindo a cara.
Muitos
tipos de passarinhos voavam ali e cantavam logo cedo, uns sabiás-laranjas
gostavam de chegar nas bergamoteiras e guabirobeiras e tucuns e sete-capotes, uns
bem-te-vis lá nos araçás, uns tucanos-de-bico-verde nas goiabeiras-do-mato, uns
canarinhos-da-terra pelas pitangueiras, pinhas-do-brejo, muitos passarinhos, todas
as manhãs cheias de pio-pios!... e muito mais nos dias que esperavam chuva ainda
bem teimosos e ensurdecedores.
A
rua Itália do menino Uraricoera nem deu nenhum ladrão de carteirinha, nenhum
fora de série, poucos faziam pequenos escândalos, nem gerou nenhum craque, nem
nasceu nenhum artista ou gênio. Às vezes passavam homens e mulheres montados a
cavalo, pa-ta-pa-tá!... no chão batido. Eles iam para as bandas do Maragata, ou
outro CTG ali por mais ou menos longe, São Jorge, Domingos Martins, Munhoz,
Choró... Umas noites até que passava um bêbado medindo a rua de lado a lado. E
ele ia de cabeça baixa chutando todas as pedras soltas do caminho. Nem errava
uma. E também meninas bonitas passavam ali, iam à escola, iam em bandos
festivos, apressavam o passo abraçadas nos livros e cabelos amarrados. Umas se
empurrando, mochilas nas costas, rindo e papagaiando como gralhas-azuis em
festa de verão, grasnavam como periquitos-d’anta, gralhavam como araras-azuis-grandes.
Depois
de anos e anos longe da sua terra, do seu pago, Uraricoera voltava e talvez
para ficar. E nem havia outras meninas bonitas como a prima Vupabuçu? O passado
nem ficou de fato no passado. O passado veio vindo, veio emergindo, veio
chegando renascendo e veio ficando e já estava ali desde sempre, já estava ali
do lado, já estava de volta. O passado virou presente o de sempre.
Chato
era ficar os dias de inverno dentro de casa sem poder ir até ali, sem poder
subir nas árvores, sem poder brincar com Vupa. Ficar dentro de casa como mosca
olhando por trás da vidraça. Olhando o mundo sem poder tocar nele. Vento frio,
vento com garoa, as coisas alagadas, vento cortante do minuano. Obrigado a
adiar os planos de invasão ao paiol, ao porão e outras artes. Ficar ao redor do
fogo, comer pinhão, ver a família se movimentar pelos cômodos e com economia de
pensamento com economia de artimanhas.
Soou
o sino na igrejinha. Festa na capela São José, linha José Bonifácio, dia do
santo padroeiro. Muito churrasco, foguetes batendo no ar, tum!... rrriiis-tum!...
e jogo de cartas no salão. Um gramado para bater bola. Um rio com açude para
tomar banho. Um matinho para churrasquear e descansar e fugir do sol forte. O
padre no final da missa, “amém!...” Essa palavra teve efeito de dominó, foi
ecoando e se repetindo e se alastrando e se arrastando até lá fora no gramado
da igrejinha, o povo fez o sinal da cruz e começou a sair, e todos salvos em
meio aos automóveis no estacionamento improvisado.
Arari e Vupa
corriam por entre os grandes, e corriam de roupa nova, ela de vestido muito
cheio de fitas e rendas e flores. Um homem soltava foguetes no espaço, um
barulhão mesmo, três explosões, tum-Tum-TUM!... Os cães fugiam assustados, os
pássaros voavam assustados, as pessoas abafavam os ouvidos irritadas. O sino
badalava o meio-dia. As famílias já prevenidas com o churrasco para comer na
sombra do caponete. Vupa tinha saia nova sapato novo fita verde no cabelo batom
lilás discreto nos lábios perfume de rosas amarelas pisadas. Um trescalar de
churrasco, toalhas estendidas na grama sob as árvores, as pessoas em volta.
Churrasco pão salada de batata salada de tomate farinha de mandioca compotas de
pepino compotas de pêssego em calda guaraná cerveja vinho tinto de mesa em
garrafão troca de risos risadas troca de fofocas paqueras troca de receitas e doces:
- Experimente
este, tia Caxinauá!
Uraricoera
e Vupabuçu chegaram perto do tocador de banjo. Ele tocava muito bem e cantava
umas músicas em alemão. Coisa exótica. Ninguém entendia. Poucos entendiam.
Todos batiam palmas, batiam o pé e batiam palmas. Aí, ele parava um pouco, só
um instante, tomava um gole de cerveja. Então, pediam para ele tocar outra música
falavam o nome da música e ele começava a tocar, que parecia a mesma música e
tocava, o pessoal batia palma e batia o pé, e ainda aplaudia e vivava e ria em
gargalhadas.
Será
que a alma tem ascendências descendências profundidades centenárias milenares?
A história sim parece ser sem fim, sem parada, um círculo que se amarra em
sucessivas gerações, tempo que morde a cauda. Sendo assim, nem se pode fixar o
tempo. Só existe o tempo presente. Uma ciranda cirandinha. Uma cilada. Um
enigma. Um labirinto. Um brinquedo de bambolê.
Mesmo
sendo só saudades, ilusões, amores perdidos, o fato era que seu Uraricoera estava
emocionado e de volta à querência e querendo rever sua priminha Vupabuçu, a
Vupa. Uma paquera para sempre? E como será? Cheia de netos. Levando o tempo
olhando tevê cuidando das folhagens orquídeas tratando beija-flor no quintal
chamando, pi-pi-pi!... beija-flor no pomar. E Vupabuçu reconhecerá Urari?
Um
belo gosto de regressar ao centro do pro-ble-ma à cena do crime. Que ia muito
além e acima da saudade. Uma coisa de lógica humana.
O
dia predomínio do sol. Fevereiro, mormaço, rua Pirenópolis, bairro Sagrada
Família, terra do basalto, Nova Prata, cidade que já tem suas águas quentes e
termais e minerais naturais da profundidade da pedra. Cidadezinha maneira,
senhoras varrendo varandas as calçadas da frente, cães atrás dos muros, árvores
com passarinhos amarelos, bico-chato-de-orelha-preta, corruíra-de-casa,
patativa, avinhado... Reconheceu?
Onze horas da
manhã, terça-feira. Estrilar de cigarras nos interiores profundidades verdes
dos ramos e galhos de cova-de-onça. Avô de mão dada com a neta Pitiguari.
Aquele morro lá adiante ainda era o morro das antenas de rádio e tv. Que lado
ficava o pequeno aeroporto aeródromo? Que lado a saída para André da Rocha.
E
pararam em frente um portão de ripinhas pintadas de azul-claro. Casa de
material pintada de um verde com aberturas em azul-claro. É aqui, pensou o
velho. Respirou fundo, soltou a mãozinha da neta e bateu palmas. Detrás da
casa, e veio furioso desde a casinha, surgiu um cãozinho de uma raça e começou
a acoar desesperado enlouquecido furioso brabo que só vendo.
Sem
demora, abrindo a porta da frente da varanda, surgiu uma senhora de cabelos
acaju. Deve ser ela, pensou Uraricoera. A senhora apertou a vista, mão em pala
sobre os olhos e veio ver de perto.
-
Quieto, Sapupira! - ela deu a ordem pro cãozinho acalmar.
O
cãozinho desistiu de latir, pareceu que meio ressabiado ou contrariado,
resmunguento, balançando a cauda, atento atento. A senhora chegou até o
portãozinho e olhou os visitantes com curiosidade. Uraricoera sentiu o coração
galopar sem freios morro abaixo, tru! tru!... Vupabuçu chegou bem junto e o
reconheceu. Eles se olharam com cara de bobos. Se abraçaram rapidamente. Quem
falava?
-
Bom dia, Vupabuçu. Que que me diz?
-
Vou bem... e você? Chegou hoje?
-
Esta é minha neta, a Pitiguari.
-
Bem bonita, por sinal.
Em
volta ao redor muito mais casas ruas calçadas lojas de carros usados seminovos
novos compra vende troca financia onde antes tinha campinho de futebol e
quero-queros e matinho de pindaíbas de jambus de cupuaçuzeiros de
cumarus-do-ceará de hortelãs-do-mato... onde se escondiam jacus ciganas jaburus
seriemas...
-
Este é meu cãozinho de guarda, o Sapupira.
-
Sapeca serelepe.
-
Sabia que você chegaria um dia desses.
-
Eu também sabia.
Os
dois velhos se olhavam muito. Às 11h 35min e o sol mais alto. Uraricoera reparou
que os olhos dela eram os mesmos. Vupabuçu observou que os olhos dele eram os
mesmos. Se olhavam muito sorriam pensavam muito o que falar quase nem encontravam
o que dizer, o tempo estava bom o clima o verão no extremo as andorinhas
revoluteando trissando sem parar.
Assim
na terra como no espaço sideral: sempre é meio-dia quando se vive para brincar:
e nem se morre nunca.
-
Você é muito caipira.
-
Você é muito regional.
-
Muito por um triz.
-
Muito aliás por um giz.
Pitiguari
já fazia amizade com Sapupira. Sapupira parecia estar contente, corria muito e
ria muito e saltava muito e buscava muito. Pitiguari parecia estar feliz, corria
onde fosse e ria toda vida.
-
É, isso é difícil.
-
É, isso nem é fácil.
-
Antes de deixar... Cedro de São João.
-
Antes de deixar... Laguna Carapã.
Se
ouvia a conversa social dos mutuns-do-sudeste. O bairro já habitava povoava mil
campos de futebol. Paisagem panorama ao longe no horizonte da pedra Azul
(Amarela, Verde, Branca, do Lagarto), que muda de cor 1001 vezes por dia.
-
Em vez de rio, ponte.
-
Em vez de praia, fevereiro.
Os
raios do dia coloriam as árvores, angicos, jequitibás-rosas, sucupiras-da-mata,
araputangás, sorveiras... os pios dos passarinhos, pintassilgos, bem-te-vis-do-bico-largo,
tesoureiras, tchintchorrintchos, tico-ticos... os carros vermelhos, azuis, motos
endiabradas...
Então,
foi isso. O ar de um tempo de fevereiro, calor, árvores carregadas de frutinhas
amarelas, olhos parados nos olhos parados, pessoa amada, idolatrada, salve
salve!
***
Contando
que nem se demorasse muito, o sol anoiteceu.
Contanto
que semanas sobre semanas e meses com mais meses lá se foram os 365 dias do ano
da graça de 1986.
Enigmática nem
queria nada nem contava nenhuma história, mas todas e todos a achavam muito
esportiva e elegante e famosa. Famosa por antecipação previsão. Ela tinha um
porte nobre atlético e de berço. Feita para o sucesso a carreira em São Paulo e
exterior. Andava e andava sempre de nariz alto e passo longo de modelo. Ela era
alta e magra e confiante. A beleza imediata. Exultante e loquaz. A beleza
exótica. Tinha gente que batia a cabeça na parede. Eu ainda nem chegara a esse
ponto doloroso. Mas eu chegaria, eu já previa, a esse ponto extremoso.
Ano após ano
todos os anos sabidos vinha de onde vinha e vinha de algum lugar do ar uma
aranha pequena e mordia seu lábio inferior. Que fazia ferida passava um
cobreiro. E quem disse que tinha remédio no mercado? Ficava coçando se coçando
irritando o local do crime por dias e dias. Um dia ia embora quando como por
que voltava no ano seguinte.
E
tem mais Enigmática. Um sorriso lindo, um sorriso claro, um sorriso franco, um
sorriso doce, um sorriso por nada, mas um sorriso novo e do qual ninguém
conseguia escapar ninguém escapava. Todo mundo tinha certeza de nem escapar.
Abundante
sorriso fácil em gestos e movimentos e jeitos e trejeitos. Onde poderia me
abraçar um futuro promissor promissor. Os belos os de sempre longos morenos
lisos bastos cabelos.
Rapidamente,
de repente, antes das 15h o céu mudou de cor peso graça baixando a tocar as
copas das maniçobas-do-remanso. O vento soprava para chover forte e torrencial
e vendaval.
Centésimo
octogésimo sexto dia que acordava muito cedo ou nem dormia.
Passavam
28 das 10, ou já, tique-taque!... faltavam 31 pras 11.
***
Sábado
seguinte, à noite, voltei ao local dos beijinhos chamegos. Esperava encontrar Cotia
e a encontrei. A minha turma e a turma dela. Dessa vez nos juntamos todos,
juntamos as duas mesas, ninguém ficou de fora, juntamos as duas pontas e paguei
com juros aos meus camaradas cupinchas. Nos olhamos e rimos um para o outro, eu
e ela, e se formaram grupinhos de conversa. Quando nos preparávamos todos para
as apresentações, antes dos abraços de chegada e os “como-vai’s”, uma amiga
dela cricrilou (e me lembro tão bem) e para que todos ouvissem:
-
É o teu cara. Chegou o teu miau. Pronto, agora te vire.
Cotia
riu e me esperou. Quase todos ouviram, quase todos riram, riram até quem deixou
de ouvir. Cheguei perto de Cotia e tal. Como um cachorrinho educado,
silencioso, demorado, paciente, talvez emocionado batendo orelhas e mostrando a
língua. Procurei quebrar o gelo:
-
Vamos tomar um sorvete e rodar pelaí?
-
Você manda, eu obedeço.
-
Se você tiver ideia melhor...
-
Nem falá! Melhor impossível.
Andamos
uns passos para lá. Peguei na mão dela e olhei o resultado. Ela riu. Então, tá,
pensei. Fomos andando. Procurando um assunto, pelo menos. Falamos de nós mesmos
e em cinco minutos narrei minha biografia com detalhes com capa dura com
rodapés anexo preâmbulo. Cada um fez seu relato de quem era e por quê. Entramos
na sorveteria Guarapó. Dobramos a quadra nas ruas Erval Seco e Formigueiro, e
entramos na segunda sorveteria para beber um guaraná com gelo e limão.
Trinquei:
-
Pode pedir quantas bolas quiser, viu?! Bastantes e de cada cor.
-
Eu estava brincando.
-
Falo sério. As cores são muito boas.
-
Nem vem, meu! Cada qual paga o seu.
-
Mas se eu quero pagar?
-
Conhece a praia de Areias Brancas, Arroio do Sal?
-
Já esteve lá?
-
Nem, mas dizem ser bonita atraente e cara.
O
passeio demorou uma hora e pouco. Nem demorou mais porque ficamos com saudade
dos nossos amigos. E porque nem tínhamos tantos assuntos. E porque já rodeávamos
a quadra pela segunda vez. Ela gostava de roupas e sempre parávamos dez minutos
na frente da loja preferida. Os assuntos que eram puxados se desgastavam muito
rapidamente. A fase de agradar tudo com tudo e sempre concordando. E damos a volta
na quadra mais uma vez e pronto. Pra falar sério, eu a achava bem maneira. Eu
mesmo já contava com todo o corpo dela pra mim.
-
Cansei de perder amigos e até namorado pra minha irmã.
-
E onde ela está agora?
E
Cotia tinha signo de escorpião. E escorpião, dizem, é fogo.
No
Brasil, 50 espécies de escorpiões. No mundo umas 1200 espécies. Escorpião:
oitava casa, a casa da mooor-te.
Escorpião
é energia sutil. É energia forte. Escorpião, nesta sorte mesmo neste mesmo
destino, já passou pelo fogo.
Os
escorpiões têm hábitos noturnos. Podem se alimentar diariamente, e até praticar
o canibalismo. Nem toleram ninguém.
O
escorpião dá sorte, é amigo do deserto, do cerrado, da caatinga, do mato... Se
escondem ou se atocaiam debaixo de uma pedra. Uns preferem os lugares quentes,
outros nem tanto.
Os
escorpiões somente sabem com toda a certeza isto: são letais.
Um
dia vi uns guris e gurias catar escorpiões para sobreviver e vender na feira
livre. Reviravam as pedras do terreno baldio. Quando encontravam pegavam o
escorpião pelo aguilhão erguiam no ar com calma e punham num pote de vidro
transparente de boca larga fechado com tampa de rosquear. Escorpião adora barata.
Qual o pecado da barata?
O
escorpião é solitário. Eventualmente faz uma refeição. Tem muita paciência lá
embaixo da pedra. É um trator de 8
pés e 2 pinças. Uma máquina de guerra desenvolvida perfeita,
dizem os entendidos.
Outubro
e novembro são os meses do escorpião. A constelação tem 13 estrelas no
firmamento universal gratuito. Uma vez o escorpião já foi o rei dos animais (um
pouquinho antes do mundo e as coisas passarem a receber nomes).
Os
escorpiões são bichinhos tímidos. Vivem em profunda solidão. Estão aqui desde o
princípio do mundo. Amam uma vez por ano e por acaso de encontrar a parceira. São
ótimas engenharias. Máquinas insubstituíveis e exemplares e imbatíveis.
O
escorpião é silencioso.
Os
escorpiões se parecem com os humanos. Embora os humanos nem sejam crocantes. Eu
mesmo gostaria de ser um escorpião de verdade sem mentiras.
E depois são
invertebrados, artrópodes, octópodes, aracnídeos, de todos os tamanhos. Há os
venenosos e nem venenosos. Os escorpiões dormem e comem e fazem suas necessidades
em local adequado. Adoram atacar e ser confrontados vingativos geralmente
revidam as provocações. Amam se arrastar pelo chão. Podem passar sem comer por
até 15 dias de 24 horas. Mas seus pratos preferidos são sempre os lanches nervosos,
de preferência até com asas e pernas se debatendo.
Nunca ninguém
viu escorpião gostar de água beber nadar tomar banho, por exemplo. E até os
escorpiões são pré-históricos.
Minha opinião
que escorpiões fornecem antídoto para escorpião, e que foi mesmo uma pequena vaidade
de D.
***
Noite
e talvez o quê, dezoito horas? O padre Guapeva lia trechos com voz pausada,
olhava para a assistência depois de cada parágrafo ou estrofe. Os ladrilhos
encardidos. Podem sentar. Se levantem. Hinos e canções e salmos e ladrilhos
fabricados em olaria de Charrua. Ladrilhos com desenho difícil de acompanhar
concordar. Duzentas cabeças, quem sabe, espalhadas pela nave. Padre Guapeva sentado
e alguém lendo o Livro dos livros no capítulo no versículo as duas palmas para
cima segurando consagrado. Ladrilhos enjoados de desenhos geométricos pirados
em 3d’s. Os corações ao alto. Também todos ao mesmo em coro numa voz. Amém.
De
longe de perto em movimento um rebanho um gado número simples, duzentas
cabeças.
E fora, a
noite de pesadas trovoadas. Mais precisamente, foguetes, foguetório, bombardeio,
iiiiissss-tum!... Correnteza de automóveis indo desaguar em torno da praça da
Bandeira, frente do teatro Amazonas, orla da lagoa do Forno. Era cedo. Metade
da cidade comemorava o ano novo? Nem, o campeonato. Que pena. Amém. Também.
Eu
mesmo nem estava ali. Eu me comportava quieto tranquilo sul rio Banabuiú equinócio
da primavera ginjeira-da-terra rua Lábrea.
***
Viagem
é aventura. E sorte é com a jogada o caminho das estrelas.
Haverá por que
viajar? Qual o roteiro itinerário? Encontrar um tesouro de jesuíta? Encontrar perdida
no mundo a outra metade da fruta? Eu pensava assim todos os dias aquela época.
Passar uma temporada em Campestre da Serra. Quem podia? Eu queria ser da tribo
dos galibi-do-uaçá. E morar em Itapeva. E navegar o Camará.
Me
olhava no espelho. E sorria. Um sorriso sem cor como aquele que sorri quando nem
tem nada pra sorrir nem certeza de nada. Certeza alguma de poder ter alguma
certeza. Talvez nem me adaptasse em Coqueiros do Sul ou Pauini em a serra do
Imeri.
Decidia
continuar me olhava, bla-bla-blá!... Me perguntei:
-
Você sem certeza é piau ou sernambi ou agrião-do-pará?
***
A
noite passada que nem foi fácil de atravessar.
Sonhei que tinha
visto meu avô tocando sanfona num boteco aqui perto de casa. E de noite, no
meio de malandros, cachaceiros, vagais, debiqueiros. Meu avô paterno Caparaó tocava
e o pessoal em roda tentava cantar, bebia, ria, esculhambava. Era horrível. Foi
aí que me vi entrando no lugar. Uta! ambiente esfumaçado, boteco, todo decorado
de produtos secos e molhados, cheiro de cachaça na amburana e de cachorro suado.
E só havia os estúpidos. Muito mau gosto. Mas meu avô estava ali e estava
tocando sua sanfona antiga. Tocava mais ou menos, já dizendo a verdade. E meu
avô tinha seus setenta anos e gostava de beber e farrear e contar piadas. Meu
avô tinha, na altura, mais de setenta anos e anedotas de português papagaio
bêbado corno. Uns setenta e sete vezes setecentos. Entrei no boteco e tudo isso
ia acontecendo. Esperei o tempo passar. Nem gostava muito de vanerão. O tempo
foi feito para se ter paciência. Nem de beber cachaça com cachaceiros. Olhava
tudo e olhava meu avô. Perto do natal ele podia até virar papai Noel e
distribuir presentes pros moleques lá no salão da comunidade São Cristóvão. Ele,
nhe-nhe-nhê!... na gaita e um gole de pinga como intervalo. Nem chovia lá fora,
mas pinga da marvada ali no recinto. Pensei comigo e falei brabo, entre dentes,
rilhando os dentes, chocalhando os dentes como cobra cascavel:
-
Que bando de cascas-grossas! Só detonando!
Mas
eu estava ali, apesar de contrariado e aborrecido e frustrado. Certa hora um
deles, bêbado e mal encarado, resolveu aprontar com meu avô. Derrubou o velho
no chão, tchê! Mas pra quê?! Que cara de porco, meu! Ah, queimei os fósforos das
ideias! Pior, todo mundo olhou meu avô e todos os presentes se abriram na gar-ga-lha-da.
Mas pra quê, meu?! Tem gente que acha que é gente, e vai ver renega até a
própria progenitora. Eu sou pior. Eu viro coisa de bicho do mato. Eu tinha meus
dezenove vinte anos e já fabricava planejava matar uns quantos por dia.
-
Qual o pecado nº 1 da jararaca?
Aí,
eu, muita calma, ou melhor, muita raiva, pois já perdia a cabeça, peguei minha
arma que sempre carregava comigo em a altura da virilha. Puxei para fora o
revólver automático, e atirei em três filhos de ronca e fuça. Três deles, oh,
babau! Bem feito. Eram os três que zoaram mais, inclusive o que derrubara o
gaiteiro. Vão gargalhar no inferno, seus filhos de égua! Depois dos três tiros
eu pensei em matar muito mais. Nem sei por que parei. Mas só parei para tomar
fôlego, nem havia desistido. Ainda estava louco para matar mais uns oito ou dez
dos tais e quais pés-de-cana. Olhei em volta e me cuidando. A festa continuava
interessante. E tinha muito neguinho sem eira nem beira nem estribeira com as
mãos trêmulas as pernas bambas a lucidez congelada no olho bem aberto
arregalado.
Naquele
instante, em que eu pensava e procurava meu lugar na cena do palco, o bodegueiro,
muito espertamente, apagou a luz da bodega. Loucura! Só sobrou uma porta aberta
e duas janelas pequenas que se desenhavam com a luz que vinha dos postes da
rua. E pra quê! Todo mundo voou para o claro da porta e das janelas. Todos ao
mesmo tempo foi bonito. Que barulhão, meu! Eu me surpreendi com o trânsito e
fique no meio do estouro da manada. Me atropelaram bonitinho. Uma bagunça. Sem
poder ver muita coisa, mais sombras que porcos, poeira levantada, a boiada me
pisou como pôde e fiquei jogado no chão. Pior era perder a arma. Perdi. Alguém
a chutou para fora da minha alçada. Fiquei no matadouro sem o meu facão de
corte quatro listas.
Então,
senti um cheiro de gasolina. Vi um relâmpago divino. Ouvi uma explosão
catastrófica cataclísmica. O boteco pegava fogo. E o povo em desespero fugindo sem
ordem abandonado ao deus-dará começou a gritar:
-
Fogo! Fogo! Fogo!...
Acordei
na realidade de todos nós, me ergui na cama, repetindo, berrando:
-
Fogo! Fogo! Fogo!...
Procurei
a lâmpada, acendi a luz elétrica. Me apalpei me encontrei me vi. Estava todo
mijado, meu! Também, quem nem se mija com todo esse fogo, nem é?! E quem nem se
mija todo depois de uma noite de fogo, em?!
***
Domingo
de tarde, oba! Cotia havia me convidado para visitá-la em casa, coisa e tal.
Fui para lá namorar, acho. Me sentei no sofá de veludo vermelho coisa destacada.
Eu tinha tomado banho como nunca, aquele dia. Estava todo ligado na novidade da
casa, dos moradores da casa, do namoro na casa dos sogros. Também estava
nervoso um tanto, e me pedia mais calma, toda a calma do mundo, mais calma. Eu
ainda nem me via ali. Sentados no sofá de veludo vermelho e com tevê na frente
ligada e os assuntos mais ou menos pertinentes. Eu me via ali como alguém fora
de mim. Minha sogra de nome Guareí, por enquanto. Meu sogro de nome Paraitinga
nem estava em casa, por enquanto. Os irmãos as irmãs ela nem tinha, ainda e por
enquanto.
Chegaram as
primeiras, as segundas e muitas perguntas, as principais perguntas. Tanto de Cotia
como da mãe dela, absolutas. Aliás, a mãe da Cotia era a mais uma das pobres
vítimas dos domingos com seus programas de auditório e senhores e senhoras de
gargalhadas sem graça. Dona Guareí condenada a 50 pesados anos comerciais
consumistas pagos com boleto na lotérica mais próxima. Nos intervalos
comerciais ela esticava os olhos direcionava o nariz e erguia as orelhas para
as minhas respostas. E até sugeria me indagando:
-
Você topa um chimarrão?
-
Você aceita uma cervejinha ou prefere um guaraná bem gelado?
-
Você gosta de pinhão?
-
Você quer apreciar meu pêssego em calda?
-
Você já experimentou comer beijo-de-sinhá?
-
Você disse que descende dos catuena?
-
Que bairro que rua mesmo você mora lá no Prata?
A
tevê era de uma programação de adoecer até a cadela da família a Piraíba.
Depois poderíamos sair, caminhar pelas calçadas até a praça Capitão Jovino, mas
chovia. Chovia também em Vargem Alta. Por que chovia? Choveria ainda em Boca do
Acre na serra do Brigadeiro. Por que Cotia?
Chovia
e a Cotia foi preparar umas torradas com café bem preto. Lá fora D tirava os
seus fleches e trovões. Eu preferia panquecas, mas nem falei nada.
-
Bem preto? Jura que nem quer um pingo de leite?
Nem
parou de chover e nem fomos andar até a praça. Chovia também bem dentro da
lagoa Pinguela. Ficamos olhando a chuva dali da varanda. A begônia-de-folha-estreita
parecia tranquila no pote de plástico, nem na chuva nem no seco. Pegamos um
escurinho enrolados na cortina quando chegou a boca da noite. Chovia na praia
do Magistério. Chovia uma chuva calma, garoa. Casal de Jesus-meu-deus
saracoteando na chuva de galho em galho do catucaém. Um ou outro milagre. Uma
ave e outro pessoas alados se deram ao trabalho de vir de sair voando de Naviraí
buscando verões de Ipatinga até cá.
Eu olhei para
Cotia e pulsávamos. Aí, nem chegamos muito nos etc e tal. Chovia por presença
de D superior a nós. E sem mais arretos por falta total de segurança e confiança.
Sem calor de estratagemas. E era a terceira vez que nos víamos, calma, meu! Na
verdade ele que nem se acalmava nunca, nessas horas. Calma, seu!
-
Sorria! Você está sendo filmado.
Aí,
ela me fez mais umas perguntas. Eu nem aturo que pessoas me interroguem. Mãos
nos bolsos. Vá lá que ainda era apenas sete e meia da tarde. Vá lá que
estávamos nos conhecendo e nos apresentando. Chovia por si só na serra do
Itapeti. Entramos. Intervalo comercial no programa dominical, palmas que já
voltamos. Que horas que vou indo? Mãos ao alto. Eu precisava desarticular minha
adrenalina e quando e o que chutar alguma coisa.
-
Nem estava muito frio lá na varanda?
-
Você quer provar minhas broas de milho?
-
Você quer experimentar este musse de chocolate com sagu e pêssegos em calda?
Especialidade da minha casa.
-
Você prefere um suco de laranja? Cotia! Vá espremer umas laranjas, vai!
Ah,
isso nem vai dar certo nem, pensei. Nem irá muito longe, intuí. Eu garanto, me
confirmei me confessei. Ou como dizia o meu amigo Bracuí:
- Eu nem se
agarranto, meu chapinha!
Em vez de
incerteza, porta; em vez de dúvida, rua; em vez de cidade, região dos
caripuna-do-amapá; em vez de bípede, sumaumeira-da-terra-firme.
Foi o que pensei bastante lá comigo naquela
horinha. E meus olhos andavam à mostra à vista à tona. Um quadro na parede me
dizia que aquela família me era estranha e a praia Jardim Atlântico.
***
Se
eu pudesse passar, rrrrraaa!... de avião a jato por cima disso tudo, ah!
Gritavam na
rua, um mundo de pessoas gritando, um auê que tive de ver para crer. Corri pra
rua, cheguei pra ver. Todos meio mundo muito excitados os rádios falando sem
cessar. E diziam que navios foram vistos invadindo as estradas, que navios
viriam por aí pelas ruas e avenidas e estradas. Que navios invadiram rodovias, passos
e trilhas. Mas eu achei muito estranho essa história e que também nem podia
duvidar de nada.
Então,
eu fui andando pela estrada de terra vermelha. Nem sei e nem me lembro se
outras pessoas estavam me acompanhando. Eu ia para um lugar estranho esquisito
desconhecido que ficava praquele lado e sem companhia e sem tapejara. A tevê
interrompia a programação e as tais e quais intervenções de quinze em quinze
minutos. Eu ouvia tudo que acontecia ao redor e eram os gorjeios de curió,
bico-de-furo, papa-arroz, peito-roxo, caboclinho... surucuá-de-barriga-vermelha
símbolo do Piauí.
Numa
subida de morro um caiaque desgovernado intitulado Peixe-Branco - nem percebi
piloto nenhum -, veio firme pelo meio da estrada e quase me atropelou por pouco
nem me abalroou. Eu me desviei a tempo e ainda olhei e ri. Eu caí fora me joguei
de lado com calma e tranquilidade e rolante.
Mais
uns instante e, descendo ali mesmo a ladeira, vinha pelo meio da estrada um
barco a motor chamado Andorinha-do-Rio e numa fúria enorme. Nem vi piloto e nem
notei mais nada de muito importante e grave. Voava baixo que corria fazendo cheiro
de madeira atritada quase pegando foro. Fiquei no acostamento e pronto, o barco
passou sendo um pouco de susto, derrapando, ralando o chão seco, grrrruuu!... O
ronco estrondando em quilômetros de ecos e reco-recos.
Sem
demora ouvi apitar um trem... nem, era um navio de guerra identificado
Jenipapim. E o navio preto de casco de ferro vinha descendo o morro no meio da
estrada na contramão faiscando fogo o tata. Eu calmamente fui para o barranco,
escalei o barranco e trepei o barranco. O navio vinha vindo deslizando todo
pesado como uma pedra gigante, trrruuuu!... Eu já me prevenindo e me afastando
para fora das pistas. Aí, coisa estranha mesmo, o navio ficou com raiva de mim
e tentou me alcançar e veio também para fora da estrada tentando me esfolar vivinho
da silva. E vinha sobre a minha pessoa miserável. Deslizando porque sem rodas e
pneumáticos e asas. E pior, nem parava de passar navio, um navio de guerra tão
comprido que nem acabava mais um trem um atrás do outro comboio vagões. E a
minha tranquilidade inicial se transformou em receio de ser esmagado e
abalroado e pesado nos pratos da balança dos infernos e lá em os quintos
del-rei.
Acordei
rindo de mim mesmo e imaginando com que força descomunal um navio de guerra
daquele porte conseguiria andar pela estrada de terra batida ou asfaltada. Absurdamente
mental cerebral espiritual intelectual e psicológico. Como um peixe fora da
água fria. E os tem-tens-de-dragona-vermelha trovando as
pipiras-encontros-vermelhos no terreiro do pomar da vizinha. Que por sinal era
o solstício de verão, uma vez.
Nenhum comentário:
Postar um comentário