terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 28




Todo Mundo Sabe Que Está Por Vir

            Recebi um recado da Cotia, muito obrigado!, estava esperando, chegou numa hora que precisava pensar coisa boa, agradável e estimulante. Um dia às 9h. O que é possível lembrar.
            Cotia, vizinha de cidade, descreveu:
“Vou te dizer. E você vem comigo, bem! Dezessete anos e uns meses, moradora na cidade de Veranópolis, bairro Baturité, rua Avecutá, edifício Suruiá, 086, trabalha na loja de aparelhos de ar condicionado Corumbataí há dois três quatro meses, controle de qualidade, sonha de passar para secretaria da firma, já faz curso de informática no sindicato, alérgica ao calor, chora diante da novela, torcedora de um mega time da capital e da Seleção, sabe que é boazinha lá no fundo do coração. Pensa em você esses dias. Você é um cara bom, eu sei, eu prometo!”
Na manhã bem despontando o sol...
                                                           ***
            O seu Uraricoera aguardava a chegada das visitas, o filho Extremoz, a nora Precabura, a neta Pitiguari. Seus olhos mortiços vasculhavam o fundo da lagoa. Cinco horas da tarde. Apê calculado com alguns terrários de vidro de plástico com plantinhas espalhados pela sala. Via montanhas o dia todo, abismos e as calçadas com pessoas perdidas na correnteza, pacus, iaras, peixes-bois, tracajás, sapos-bois... se enroscando em barcos, barcaças, balsas, batelões, voadoras, igarités, gaiolas... faróis ou postes de luz.
            Era sábado, a cidade de São Cristóvão, Sergipe, estava comportada, pôr do sol bonito, cartão-postal, teco-teco arrastando faixa publicitária, bando de anus-pretos, pios de almas-de-gato, sanhaços-da-amazônia, pixanxões, guiraxués, galos-da-serra... A empregada deixou cair um prato de porcelana feito em Aracaju, coisa finíssima. Um vizinho tocava acordeão, emitindo um som longo e desafiador fazia tempo.
            Sem demora chegariam filho, nora, neta para o fim de semana. A televisão, abobada, perguntou:
            - Que você acha, telespectador amigo telespectadora amiga! Somos nós, seres humanos egoístas, a única espécie inteligente do universo? Telefonem, telefonem de grátis para o número que está na tela, dê sua opinião e concorra a um passeio por Foz do Iguaçu, Ponta Grossa, Maringá, Arapongas e Cascavel com direito a acompanhante e tradutor!
            Mas nem se pode, pensou o velho Uraricoera, reclamar de tudo, muito menos de um acordeonista desavisado espantando uma tardezinha de sábado. Aliás, completa ele, esse vizinho sanfonista gauchesco tem mesmo alma de poeta. Uma reportagem do jornal gazeta diário impresso local:
            “Os índios botocudos costumavam ter diversos apelidos durante a vida. Um nome para cada fase da vida. Ao longo da jornada. Um nome na infância, dado pela mãe; um nome na adolescência, dado pelo pai; e um nome na fase adulta, dado pelo curaca ou pelo pajé.”
            Uraricoera foi até a geladeira e trouxe uma cerveja para a sala de estar. Um gol vazou a rede da parede do vizinho, gritou o narrador:
            - Gooooool!!... Gol de plaaaaca!!...
            No fundo da lagoa os pedestres se entrecruzavam preocupados com o relógio e as árvores povoavam outros espaços com seus cogumelos verdes, amarelos, vermelhos. Era bem discordante desconcertante ver a paisagem de cima para baixo.
            As aves flanavam às vezes os aviões por dentro dos verdes por entre os prédios e o céu dos azuis e o sol dos ouros de fogo. Tudo agradava ou passava batido. Que categoria ver o cabeça-branca pousar na beiradinha do prédio olhar curioso num vigésimo andar.
            Sem demora chegariam os olhos brilhantes da neta Pitiguari. A lata de cerveja transpirava. O ovo do dia resvalava bem maduro e lento céu abaixo. Todo o mundo espera alguma coisa de um sábado à noite. Uma manchete do telejornal:
            - Candidato de centro, o Cariru Sapopema, que faz oposição ao atual governo do Estado, dispara nas pesquisas de intenção.
            O fundo da lagoa ficava pouco a pouco mais perdido, profundo, encardido, estranho, carapanás, envolto em escuridão e rutilâncias. Pitiguari, o seu xodó, uma razão para continuar aqui. Na cozinha a empregada dava os últimos retoques no jantar de logo mais. O ovo já ia comido e o céu se deixava pintar e bordar e consumir por um rastro de fogo, um rastro de ouro em pó, um rastro de leite derramado. Ouvira de em algum lugar, lembrou assim assim:
            - Aposentado encontrado morto em seu próprio apartamento... adiantado estado de... abandonado pela família...
            Pela janela insistia toda vida aquela música da cidade que era o concerto do trânsito. O fundo da lagoa estava repleto de pequenas e acesas bocas de cavernas abertas nas paredes das montanhas. Flagrava e admirava por momentos a moradora do prédio em frente trocar de blusa. Se fosse gigante andaria pulando de pulo em pulo de monte em monte de pico da Bandeira ao pico do Calçado ao pico do Urubu ao pico da Pedra Roxa. A empregada, um grande sorriso de dentes à mostra:
            - Bem, seu Uraricoera, vou nessa. Deixo tudo encaminhado...
            - Muito obrigado, dona Iemanjá. Acho que nem vão demorá, né?!
            - Nem, imagine. Nem demora já estão aí. Tchau!
            Hora 7 dia 12 mês 4 ano 1985 quando já morreram vários e mais que o dobro nasceram ainda. Uns foram e já voltaram em forma de árvores aves outros bichos outras pessoas, piramapu, tamanduá-colete, tapir, trinca-ferro, bacurizeiro, pacavira-grande... Será bom morar em Lajinha? A estranha Pedra do Letreiro fica em Quixeramobim. Brasileia na fronteira do Acre com o Paraná. A praia Formosa em Catas Altas. Meia hora depois chegaram soltando as palavras:
            - Tudo bem, pai?!
            - Quelo mostá plô vô!...
            - Olá, vô! Tudo bém?!
            - Se acomodem, o tapiri é de vocês.
            O casal foi para a cozinha ver de servir o jantar e neta e avô ficaram na mesinha de centro jogando dados trilhando trilhas pulando etapas conquistando territórios somando bônus.
            Já estava a lua toda no céu. Se via claramente as cicatrizes, narizes, diretrizes, matrizes, bissetrizes, perdizes, atrizes. Noite cheia de assombrações, saci, matinta-pereira, boto, boiúna... O fundo da lagoa cheio de transeuntes camuflados encapuzados pardos. O silêncio era tão amplo tão alto tão solto tão longo tão lento tão ensurdecedor. Mas também era uma noite que só o céu sabia. Vira-latas viravam esquinas, entravam em becos, escolhiam grutas, caíam em cavernas, derrubavam latas e corriam, sumiam no fundo das bocas-de-lobo. A cidade de São Cristóvão se aninhava e se enrolava como um andirá-açu no teto da furna um gato doméstico no capacho da porta de entrada da casa.
            - O seu pai e a nossa Pitiguari, hem, bém?!
            - Sim, é muito carinho. Eles se adoram. Eles se entendem. Principalmente quando inventou essa de dar presente em dinheiro pra neta, é.
            - Você acha que seu Uraricoera se importaria em cuidar da Pitiguari?
            - Papai tem lá sua rotina... Mas acho que sem problema, nem.
            O casal chegou na mesa com o jantar. Espalharam as travessas os pratos e os talheres e as comidas, tambaqui moqueado, cupuaçu, bacuri, sorva, tacacá ao tucupi, jabá, paxicá, tapioca, beiju, abóbora-moranga... se sentaram todos. Era tudo muito manjar. A noite a família o jantar a tevê dando os fundos de parabéns.
            - Sabe, pai... Trocando um pouco de assunto. Eu e Precabura temos um pedido, um favorzinho a pedir. Nem queremos abusar. É que a gente tá pensando em ir ao show da Tarumã, lá no ginásio do Iguape e...
            - Querem que eu fique com Pitiguari? Mas claro.
            - A gente ném quer incomodar, vô.
            - Sem problemas, sem sustos, sem nada a ver.
            - Pitiguari, minha filhinha, olha só o auê que ocê tá fazendo com a toalha do vovô!
            A geração do Extremoz e da Precabura se tornou ativa politicamente a partir dos anos oitenta. E quando entraram pra universidade. Sentaram na grama na terra batida na laje quente do campus como os paxás os iogas fumando qualquer coisa ouvindo barulho britânico e puteando o fmi o imperialismo o marechal o tio a rainha o papa o cacique reitor. Gente nova cheia de novidades que nasceu na madrugada do golpe de 64, e nos festivais de músicas psicodélicas, passeatas dos colonos sem terra, anistia, diretas-já e copa do mundo pra frente B do meu coração. Optar pela esquerda, àquela altura, era obrigação moral e cívica. Gostavam de Cuba, falavam bem de Moscou, entendiam o porquê de Pequim, se diziam leitores dos marxismos, enfim, gente fanática por política partidária, temperamental, militante, intransigente, impenitente, beligerante. Uma geração de carteirinha. Se responsabilizaram pela constituição de 88 que motivou participações como dos carapintadas. Mas o muro caiu e a guerra fria veraneou. E com a queda parece que o sonho ou a fantasia se perdeu, se extraviou, se globalizou. Hoje essa gente vai aos shoppings, claro, lê livros de autoajuda, espíritas, assiste novela e acompanha prestigia os já aposentados velhos ídolos antigas canções em turnês pelos países. Vez ou outra ainda ousam dizer, por qualquer motivo, em qualquer contexto, sem muita razão, com emo contra a corrupção contra a politicagem, pra dizer alguma coisa: a luta continua, companheiro!
Então, como se viu, o show da Tarumã era nostálgico, era ressuscitador dos tempos românticos e das correrias pelas ruas com pedras nas mãos, tempos difíceis, tempos ótimos, perdidos, lembrados, documentados, tempos de chumbo, tempos (re)queridos.
            Uraricoera, no seu próprio mundo, sentia a alma friável. Um desassossego paquidérmico acordando, dando suas pontadas, sempre acordado. Mas nem dizia nada para as visitas, nem dizia nada, continuava o jantar, prosseguia a lógica das coisas banais. Homem que é homem luta para aprender a dominar as emoções e nem precisar pedir arrego. E voltando à vaca atolada, falou:
            - Pessoal! Cinquenta sessenta formigas-quenquém carregando uma folha olímpica de mungubarana pingando orvalho no caminho... um brinde! 
            Os copos se encontraram sobre a mesa, tin-tins!... se acenderam os sorrisos, vivas, risos e até uns, eh eh eh’s!... E a conversa rolou para os minutos da prorrogação:
            - Bém, vô, então a gente já vai...
            - Sim, podem ir tranquilos. Ficaremos muito bem. Assistiremos um filme, faremos pipoca, né, Pitiguari?! Talvez mais um sorvete com três bolas cada...
            Após tratos e contratos e abstratos retratos, o casal bateu a porta, bla-que!...
            Havia muitas casas entre os prédios e tais quais etc. As pessoas optavam por morar em casas e faziam a segurança com guaritas muros grades arames alarmes e cachorros.
            O bairro estava cheio de cachorros. A noite o dia inteiro era sempre assim. O país dos cães e cachorros e guaipecas. Dona tal com seu cachorro, seu tal com seu cachorro, família tal com seus cães, e etc. Nem se podia passar sossegado na rua na calçada. Um latia e a rua inteira acoava em coro. Um coral de altos e baixos rápidos e prolongados uivos latidos rosnados bufos grunhidos. Bastava alguém passar ali e pronto, todas as casas tinham seus cães e cachorros. Um cão dava voz e latia os outros o acompanhavam. E com incontida fúria. Nem se conheciam pessoalmente nem se cheiraram socialmente uma vez nem corriam torcida organizada atrás de carros mas latiam em cachorrada em matilha alcateia nos intramuros. Todos presos uns até acorrentados atrás dos muros e grades aos seus respectivos terreiros. Um e outro já mais confortável podia entrar em casa olhar da janela talvez da sacada. Mas a maioria dos canídeos esbarravam com o gradil e eram obrigados a parar. Ouviam o arrastar dos pés na calçada latiam corriam até o gradil e ali viravam uns demônios umas feras ferozes furiosos. E tentavam a todo custo atacar atacar. Olhos acesos voz embargada boca espumando. Quando havia foguetório um gol carnaval então era um pânico horrível de se ouvir.
            No mês seguinte, Uraricoera e Pitiguari pegaram o trem tarde da noite. De Sergipe até a serra Gaúcha foi um colosso de estirão estradão. Avião até São Paulo Londrina Quixadá Epitaciolândia, pelo menos.
            O céu noturno bordado e transbordado como de flores com estrelas grandes trêmulas médias festivas pequenas verdes amarelas vermelhas brancas. Pitiguari esquecerá em breve os pais, pensava o avô. O plano de Uraricoera era trocar de ares, voltar para a terra natal, e se tornar um pai-avô amoroso.
            Passaram por... Envira, onde já lutara o Plácido de Castro. Viagem pelo rio Tapajós, de um lado de outro as cidades se sucediam... Vila Lângaro, Iúna, Alfredo Chaves, Iranduba, Salvaterra, Vila da Barra do Rio Negro...
            O ônibus continuava comendo estrada, passando cidades, mostrando paisagens, já paisagens da terra dos pampas, praça do Ferreira, lagoa Iberé, pico 31 de Março e plantações de tuiuiús a perder de vista até onde a vista alcançava. O dia claro e cheio de sol e cheio de céu azul com mormaço e de um lado o oceano Atlântico do outro a serra do Mar.
Para o velho, a neta já nem era mais neta, mas uma amiguinha de infância... muito muito tempo atrás... lá pros lados do nordeste do Estado. Quantos anos? Quem sabe foi ontem.
A memória era a pedra de carregar na cabeça.
            Os dois primos apearam dos cavalos de vassoura e correram de mãos dadas para a horta do vizinho, escondidos, silenciosos, pé ante pé, roubar, psssiu!... tomates maduros. Se sentaram na terra vermelha, racharam a melancia na pedra e comeram como dois bichinhos domésticos. Brincaram de pegar no meio do milharal, subiram em palmeira paxiúba, construíram casinhas, abriram ruas da cidade, casaram, ele o pai, o Uraricoera, o Urari, ela a mãe, a Vupabuçu, a Vupa, receberam as visitas de parentes, têm muitos parentes que vêm filar uma boia. Urari viajava de caminhão fazer entregas até Itamarati no Espírito Santo, ela dava aula ali mesmo no 11 de Agosto e no Tiradentes. Comemoravam aniversários com os amigos e vizinhos e colegas, ele recebia bola de futebol de presente, ela recebia sapos de pano e de porcelana e de gravura de presente.
             A rua de Urari era infinita de lembranças. Havia casas de lá até lá. Havia casas com pátios e bergamoteiras, canteiros com flores todas de um tipo bromélias, plantas caúnas, canaranas, ciganas, erva-doces, bicicleta na calçada, pitangueiras, acapus, guamirins, taxizeiros, cauchos, maracujás-de-cobra... Bom quando era de sol, mais ou menos quando era de chuva. À noite ele ouvia os grilos e via os vaga-lumes. Cães assustados latiam sem parar. Uma vez até teve um cusco, mas ele vivia acoando a noite toda e isso irritava muito a vizinhança a família. Urari olhava para a Vupa e corriam brincar. Nem eram todos os dias que se encontravam. Mas se achavam todos os dias para brincar e se ver e se falar e trocar gratificações quando as havia.
E para Urari a Vupa nem tinha propriamente um corpo, nem tinha olhos claros, nem tinha lindos cabelos loiros e cacheados nas pontas, nem tinha pinta de seios, nem tinha diferença, nem tinha beijos ou abraços. Para Urari a Vupa tinha tanto de peixe de ave de nuvem de planta. Talvez mais uns cabelos longos e bonitos e decorados, um sorriso mais bonito, um jeito mais lindo ainda, e somente. Mas tudo sem querer.
            Urari conhecia todos os cães que latiam por trás dos cercados e portões e cercas-vivas da rua Itália até a rua Matipu. Foi o Guirá, cão da tia Mantiqueira, que o pegou assaltando as jabuticabas das jabuticabeiras do quintal.
            Poucos carros passavam na rua do menino Urari. Era até dia de olhar carro passar, ficar contando durante meia hora, uma hora, no máximo. Caminhões eram mais raros. Trator, nem falar. Uma patrola era acontecimento excepcional. Um vendedor de quadros de anjo da guarda, de Jesus de coração em cascata de sol, de NSAparecida negra em manto azul. Ia pela rua o enterro da vizinha, dona Itaúna, senhora que andara curvada e tal, os carros fazendo fila de lata brilhando ao sol. Dona Itaúna andara no estilo lá dela de chinelas de couro cru fechadas na frente. Andara curvada apoiada na bengala de cambuim. Foi embora para o sempre, meio de lado, e rezando o terço e de véu de renda preta cobrindo a cara.
            Muitos tipos de passarinhos voavam ali e cantavam logo cedo, uns sabiás-laranjas gostavam de chegar nas bergamoteiras e guabirobeiras e tucuns e sete-capotes, uns bem-te-vis lá nos araçás, uns tucanos-de-bico-verde nas goiabeiras-do-mato, uns canarinhos-da-terra pelas pitangueiras, pinhas-do-brejo, muitos passarinhos, todas as manhãs cheias de pio-pios!... e muito mais nos dias que esperavam chuva ainda bem teimosos e ensurdecedores.
            A rua Itália do menino Uraricoera nem deu nenhum ladrão de carteirinha, nenhum fora de série, poucos faziam pequenos escândalos, nem gerou nenhum craque, nem nasceu nenhum artista ou gênio. Às vezes passavam homens e mulheres montados a cavalo, pa-ta-pa-tá!... no chão batido. Eles iam para as bandas do Maragata, ou outro CTG ali por mais ou menos longe, São Jorge, Domingos Martins, Munhoz, Choró... Umas noites até que passava um bêbado medindo a rua de lado a lado. E ele ia de cabeça baixa chutando todas as pedras soltas do caminho. Nem errava uma. E também meninas bonitas passavam ali, iam à escola, iam em bandos festivos, apressavam o passo abraçadas nos livros e cabelos amarrados. Umas se empurrando, mochilas nas costas, rindo e papagaiando como gralhas-azuis em festa de verão, grasnavam como periquitos-d’anta, gralhavam como araras-azuis-grandes.
            Depois de anos e anos longe da sua terra, do seu pago, Uraricoera voltava e talvez para ficar. E nem havia outras meninas bonitas como a prima Vupabuçu? O passado nem ficou de fato no passado. O passado veio vindo, veio emergindo, veio chegando renascendo e veio ficando e já estava ali desde sempre, já estava ali do lado, já estava de volta. O passado virou presente o de sempre.
            Chato era ficar os dias de inverno dentro de casa sem poder ir até ali, sem poder subir nas árvores, sem poder brincar com Vupa. Ficar dentro de casa como mosca olhando por trás da vidraça. Olhando o mundo sem poder tocar nele. Vento frio, vento com garoa, as coisas alagadas, vento cortante do minuano. Obrigado a adiar os planos de invasão ao paiol, ao porão e outras artes. Ficar ao redor do fogo, comer pinhão, ver a família se movimentar pelos cômodos e com economia de pensamento com economia de artimanhas.
            Soou o sino na igrejinha. Festa na capela São José, linha José Bonifácio, dia do santo padroeiro. Muito churrasco, foguetes batendo no ar, tum!... rrriiis-tum!... e jogo de cartas no salão. Um gramado para bater bola. Um rio com açude para tomar banho. Um matinho para churrasquear e descansar e fugir do sol forte. O padre no final da missa, “amém!...” Essa palavra teve efeito de dominó, foi ecoando e se repetindo e se alastrando e se arrastando até lá fora no gramado da igrejinha, o povo fez o sinal da cruz e começou a sair, e todos salvos em meio aos automóveis no estacionamento improvisado.
Arari e Vupa corriam por entre os grandes, e corriam de roupa nova, ela de vestido muito cheio de fitas e rendas e flores. Um homem soltava foguetes no espaço, um barulhão mesmo, três explosões, tum-Tum-TUM!... Os cães fugiam assustados, os pássaros voavam assustados, as pessoas abafavam os ouvidos irritadas. O sino badalava o meio-dia. As famílias já prevenidas com o churrasco para comer na sombra do caponete. Vupa tinha saia nova sapato novo fita verde no cabelo batom lilás discreto nos lábios perfume de rosas amarelas pisadas. Um trescalar de churrasco, toalhas estendidas na grama sob as árvores, as pessoas em volta. Churrasco pão salada de batata salada de tomate farinha de mandioca compotas de pepino compotas de pêssego em calda guaraná cerveja vinho tinto de mesa em garrafão troca de risos risadas troca de fofocas paqueras troca de receitas e doces:
- Experimente este, tia Caxinauá!
            Uraricoera e Vupabuçu chegaram perto do tocador de banjo. Ele tocava muito bem e cantava umas músicas em alemão. Coisa exótica. Ninguém entendia. Poucos entendiam. Todos batiam palmas, batiam o pé e batiam palmas. Aí, ele parava um pouco, só um instante, tomava um gole de cerveja. Então, pediam para ele tocar outra música falavam o nome da música e ele começava a tocar, que parecia a mesma música e tocava, o pessoal batia palma e batia o pé, e ainda aplaudia e vivava e ria em gargalhadas.
            Será que a alma tem ascendências descendências profundidades centenárias milenares? A história sim parece ser sem fim, sem parada, um círculo que se amarra em sucessivas gerações, tempo que morde a cauda. Sendo assim, nem se pode fixar o tempo. Só existe o tempo presente. Uma ciranda cirandinha. Uma cilada. Um enigma. Um labirinto. Um brinquedo de bambolê.
            Mesmo sendo só saudades, ilusões, amores perdidos, o fato era que seu Uraricoera estava emocionado e de volta à querência e querendo rever sua priminha Vupabuçu, a Vupa. Uma paquera para sempre? E como será? Cheia de netos. Levando o tempo olhando tevê cuidando das folhagens orquídeas tratando beija-flor no quintal chamando, pi-pi-pi!... beija-flor no pomar. E Vupabuçu reconhecerá Urari?
            Um belo gosto de regressar ao centro do pro-ble-ma à cena do crime. Que ia muito além e acima da saudade. Uma coisa de lógica humana.
            O dia predomínio do sol. Fevereiro, mormaço, rua Pirenópolis, bairro Sagrada Família, terra do basalto, Nova Prata, cidade que já tem suas águas quentes e termais e minerais naturais da profundidade da pedra. Cidadezinha maneira, senhoras varrendo varandas as calçadas da frente, cães atrás dos muros, árvores com passarinhos amarelos, bico-chato-de-orelha-preta, corruíra-de-casa, patativa, avinhado... Reconheceu?
Onze horas da manhã, terça-feira. Estrilar de cigarras nos interiores profundidades verdes dos ramos e galhos de cova-de-onça. Avô de mão dada com a neta Pitiguari. Aquele morro lá adiante ainda era o morro das antenas de rádio e tv. Que lado ficava o pequeno aeroporto aeródromo? Que lado a saída para André da Rocha.
            E pararam em frente um portão de ripinhas pintadas de azul-claro. Casa de material pintada de um verde com aberturas em azul-claro. É aqui, pensou o velho. Respirou fundo, soltou a mãozinha da neta e bateu palmas. Detrás da casa, e veio furioso desde a casinha, surgiu um cãozinho de uma raça e começou a acoar desesperado enlouquecido furioso brabo que só vendo.
            Sem demora, abrindo a porta da frente da varanda, surgiu uma senhora de cabelos acaju. Deve ser ela, pensou Uraricoera. A senhora apertou a vista, mão em pala sobre os olhos e veio ver de perto.
            - Quieto, Sapupira! - ela deu a ordem pro cãozinho acalmar.
            O cãozinho desistiu de latir, pareceu que meio ressabiado ou contrariado, resmunguento, balançando a cauda, atento atento. A senhora chegou até o portãozinho e olhou os visitantes com curiosidade. Uraricoera sentiu o coração galopar sem freios morro abaixo, tru! tru!... Vupabuçu chegou bem junto e o reconheceu. Eles se olharam com cara de bobos. Se abraçaram rapidamente. Quem falava?
            - Bom dia, Vupabuçu. Que que me diz?
            - Vou bem... e você? Chegou hoje?
            - Esta é minha neta, a Pitiguari.
            - Bem bonita, por sinal.
            Em volta ao redor muito mais casas ruas calçadas lojas de carros usados seminovos novos compra vende troca financia onde antes tinha campinho de futebol e quero-queros e matinho de pindaíbas de jambus de cupuaçuzeiros de cumarus-do-ceará de hortelãs-do-mato... onde se escondiam jacus ciganas jaburus seriemas...
            - Este é meu cãozinho de guarda, o Sapupira.
            - Sapeca serelepe.
            - Sabia que você chegaria um dia desses.
            - Eu também sabia.
            Os dois velhos se olhavam muito. Às 11h 35min e o sol mais alto. Uraricoera reparou que os olhos dela eram os mesmos. Vupabuçu observou que os olhos dele eram os mesmos. Se olhavam muito sorriam pensavam muito o que falar quase nem encontravam o que dizer, o tempo estava bom o clima o verão no extremo as andorinhas revoluteando trissando sem parar.
            Assim na terra como no espaço sideral: sempre é meio-dia quando se vive para brincar: e nem se morre nunca.
            - Você é muito caipira.
            - Você é muito regional.
            - Muito por um triz.
            - Muito aliás por um giz.
            Pitiguari já fazia amizade com Sapupira. Sapupira parecia estar contente, corria muito e ria muito e saltava muito e buscava muito. Pitiguari parecia estar feliz, corria onde fosse e ria toda vida.
            - É, isso é difícil.
            - É, isso nem é fácil.
            - Antes de deixar... Cedro de São João.
            - Antes de deixar... Laguna Carapã.
            Se ouvia a conversa social dos mutuns-do-sudeste. O bairro já habitava povoava mil campos de futebol. Paisagem panorama ao longe no horizonte da pedra Azul (Amarela, Verde, Branca, do Lagarto), que muda de cor 1001 vezes por dia.
            - Em vez de rio, ponte.
            - Em vez de praia, fevereiro.
            Os raios do dia coloriam as árvores, angicos, jequitibás-rosas, sucupiras-da-mata, araputangás, sorveiras... os pios dos passarinhos, pintassilgos, bem-te-vis-do-bico-largo, tesoureiras, tchintchorrintchos, tico-ticos... os carros vermelhos, azuis, motos endiabradas...
            Então, foi isso. O ar de um tempo de fevereiro, calor, árvores carregadas de frutinhas amarelas, olhos parados nos olhos parados, pessoa amada, idolatrada, salve salve!
                                                           ***
            Contando que nem se demorasse muito, o sol anoiteceu.
            Contanto que semanas sobre semanas e meses com mais meses lá se foram os 365 dias do ano da graça de 1986.
Enigmática nem queria nada nem contava nenhuma história, mas todas e todos a achavam muito esportiva e elegante e famosa. Famosa por antecipação previsão. Ela tinha um porte nobre atlético e de berço. Feita para o sucesso a carreira em São Paulo e exterior. Andava e andava sempre de nariz alto e passo longo de modelo. Ela era alta e magra e confiante. A beleza imediata. Exultante e loquaz. A beleza exótica. Tinha gente que batia a cabeça na parede. Eu ainda nem chegara a esse ponto doloroso. Mas eu chegaria, eu já previa, a esse ponto extremoso.
Ano após ano todos os anos sabidos vinha de onde vinha e vinha de algum lugar do ar uma aranha pequena e mordia seu lábio inferior. Que fazia ferida passava um cobreiro. E quem disse que tinha remédio no mercado? Ficava coçando se coçando irritando o local do crime por dias e dias. Um dia ia embora quando como por que voltava no ano seguinte.
            E tem mais Enigmática. Um sorriso lindo, um sorriso claro, um sorriso franco, um sorriso doce, um sorriso por nada, mas um sorriso novo e do qual ninguém conseguia escapar ninguém escapava. Todo mundo tinha certeza de nem escapar.
            Abundante sorriso fácil em gestos e movimentos e jeitos e trejeitos. Onde poderia me abraçar um futuro promissor promissor. Os belos os de sempre longos morenos lisos bastos cabelos.
            Rapidamente, de repente, antes das 15h o céu mudou de cor peso graça baixando a tocar as copas das maniçobas-do-remanso. O vento soprava para chover forte e torrencial e vendaval.
            Centésimo octogésimo sexto dia que acordava muito cedo ou nem dormia.
            Passavam 28 das 10, ou já, tique-taque!... faltavam 31 pras 11.
                                                                       ***
            Sábado seguinte, à noite, voltei ao local dos beijinhos chamegos. Esperava encontrar Cotia e a encontrei. A minha turma e a turma dela. Dessa vez nos juntamos todos, juntamos as duas mesas, ninguém ficou de fora, juntamos as duas pontas e paguei com juros aos meus camaradas cupinchas. Nos olhamos e rimos um para o outro, eu e ela, e se formaram grupinhos de conversa. Quando nos preparávamos todos para as apresentações, antes dos abraços de chegada e os “como-vai’s”, uma amiga dela cricrilou (e me lembro tão bem) e para que todos ouvissem:
            - É o teu cara. Chegou o teu miau. Pronto, agora te vire.
            Cotia riu e me esperou. Quase todos ouviram, quase todos riram, riram até quem deixou de ouvir. Cheguei perto de Cotia e tal. Como um cachorrinho educado, silencioso, demorado, paciente, talvez emocionado batendo orelhas e mostrando a língua. Procurei quebrar o gelo:
            - Vamos tomar um sorvete e rodar pelaí?
            - Você manda, eu obedeço.
            - Se você tiver ideia melhor...
            - Nem falá! Melhor impossível.
            Andamos uns passos para lá. Peguei na mão dela e olhei o resultado. Ela riu. Então, tá, pensei. Fomos andando. Procurando um assunto, pelo menos. Falamos de nós mesmos e em cinco minutos narrei minha biografia com detalhes com capa dura com rodapés anexo preâmbulo. Cada um fez seu relato de quem era e por quê. Entramos na sorveteria Guarapó. Dobramos a quadra nas ruas Erval Seco e Formigueiro, e entramos na segunda sorveteria para beber um guaraná com gelo e limão. Trinquei:
            - Pode pedir quantas bolas quiser, viu?! Bastantes e de cada cor.
            - Eu estava brincando.
            - Falo sério. As cores são muito boas.
            - Nem vem, meu! Cada qual paga o seu.
            - Mas se eu quero pagar?
            - Conhece a praia de Areias Brancas, Arroio do Sal?
            - Já esteve lá?
            - Nem, mas dizem ser bonita atraente e cara.
            O passeio demorou uma hora e pouco. Nem demorou mais porque ficamos com saudade dos nossos amigos. E porque nem tínhamos tantos assuntos. E porque já rodeávamos a quadra pela segunda vez. Ela gostava de roupas e sempre parávamos dez minutos na frente da loja preferida. Os assuntos que eram puxados se desgastavam muito rapidamente. A fase de agradar tudo com tudo e sempre concordando. E damos a volta na quadra mais uma vez e pronto. Pra falar sério, eu a achava bem maneira. Eu mesmo já contava com todo o corpo dela pra mim.
            - Cansei de perder amigos e até namorado pra minha irmã.
            - E onde ela está agora?
            E Cotia tinha signo de escorpião. E escorpião, dizem, é fogo.
            No Brasil, 50 espécies de escorpiões. No mundo umas 1200 espécies. Escorpião: oitava casa, a casa da mooor-te.
            Escorpião é energia sutil. É energia forte. Escorpião, nesta sorte mesmo neste mesmo destino, já passou pelo fogo.
            Os escorpiões têm hábitos noturnos. Podem se alimentar diariamente, e até praticar o canibalismo. Nem toleram ninguém.
            O escorpião dá sorte, é amigo do deserto, do cerrado, da caatinga, do mato... Se escondem ou se atocaiam debaixo de uma pedra. Uns preferem os lugares quentes, outros nem tanto.
            Os escorpiões somente sabem com toda a certeza isto: são letais.
            Um dia vi uns guris e gurias catar escorpiões para sobreviver e vender na feira livre. Reviravam as pedras do terreno baldio. Quando encontravam pegavam o escorpião pelo aguilhão erguiam no ar com calma e punham num pote de vidro transparente de boca larga fechado com tampa de rosquear. Escorpião adora barata. Qual o pecado da barata?
            O escorpião é solitário. Eventualmente faz uma refeição. Tem muita paciência lá embaixo da pedra. É um trator de 8 pés e 2 pinças. Uma máquina de guerra desenvolvida perfeita, dizem os entendidos.
            Outubro e novembro são os meses do escorpião. A constelação tem 13 estrelas no firmamento universal gratuito. Uma vez o escorpião já foi o rei dos animais (um pouquinho antes do mundo e as coisas passarem a receber nomes).
            Os escorpiões são bichinhos tímidos. Vivem em profunda solidão. Estão aqui desde o princípio do mundo. Amam uma vez por ano e por acaso de encontrar a parceira. São ótimas engenharias. Máquinas insubstituíveis e exemplares e imbatíveis.
            O escorpião é silencioso.
            Os escorpiões se parecem com os humanos. Embora os humanos nem sejam crocantes. Eu mesmo gostaria de ser um escorpião de verdade sem mentiras.
E depois são invertebrados, artrópodes, octópodes, aracnídeos, de todos os tamanhos. Há os venenosos e nem venenosos. Os escorpiões dormem e comem e fazem suas necessidades em local adequado. Adoram atacar e ser confrontados vingativos geralmente revidam as provocações. Amam se arrastar pelo chão. Podem passar sem comer por até 15 dias de 24 horas. Mas seus pratos preferidos são sempre os lanches nervosos, de preferência até com asas e pernas se debatendo.
Nunca ninguém viu escorpião gostar de água beber nadar tomar banho, por exemplo. E até os escorpiões são pré-históricos.
Minha opinião que escorpiões fornecem antídoto para escorpião, e que foi mesmo uma pequena vaidade de D.           
                                                                       ***
            Noite e talvez o quê, dezoito horas? O padre Guapeva lia trechos com voz pausada, olhava para a assistência depois de cada parágrafo ou estrofe. Os ladrilhos encardidos. Podem sentar. Se levantem. Hinos e canções e salmos e ladrilhos fabricados em olaria de Charrua. Ladrilhos com desenho difícil de acompanhar concordar. Duzentas cabeças, quem sabe, espalhadas pela nave. Padre Guapeva sentado e alguém lendo o Livro dos livros no capítulo no versículo as duas palmas para cima segurando consagrado. Ladrilhos enjoados de desenhos geométricos pirados em 3d’s. Os corações ao alto. Também todos ao mesmo em coro numa voz. Amém.
            De longe de perto em movimento um rebanho um gado número simples, duzentas cabeças.
E fora, a noite de pesadas trovoadas. Mais precisamente, foguetes, foguetório, bombardeio, iiiiissss-tum!... Correnteza de automóveis indo desaguar em torno da praça da Bandeira, frente do teatro Amazonas, orla da lagoa do Forno. Era cedo. Metade da cidade comemorava o ano novo? Nem, o campeonato. Que pena. Amém. Também.
            Eu mesmo nem estava ali. Eu me comportava quieto tranquilo sul rio Banabuiú equinócio da primavera ginjeira-da-terra rua Lábrea.
                                                                       ***
            Viagem é aventura. E sorte é com a jogada o caminho das estrelas.
Haverá por que viajar? Qual o roteiro itinerário? Encontrar um tesouro de jesuíta? Encontrar perdida no mundo a outra metade da fruta? Eu pensava assim todos os dias aquela época. Passar uma temporada em Campestre da Serra. Quem podia? Eu queria ser da tribo dos galibi-do-uaçá. E morar em Itapeva. E navegar o Camará.
            Me olhava no espelho. E sorria. Um sorriso sem cor como aquele que sorri quando nem tem nada pra sorrir nem certeza de nada. Certeza alguma de poder ter alguma certeza. Talvez nem me adaptasse em Coqueiros do Sul ou Pauini em a serra do Imeri.
Decidia continuar me olhava, bla-bla-blá!... Me perguntei:
            - Você sem certeza é piau ou sernambi ou agrião-do-pará?
                                                                                  ***
            A noite passada que nem foi fácil de atravessar.
Sonhei que tinha visto meu avô tocando sanfona num boteco aqui perto de casa. E de noite, no meio de malandros, cachaceiros, vagais, debiqueiros. Meu avô paterno Caparaó tocava e o pessoal em roda tentava cantar, bebia, ria, esculhambava. Era horrível. Foi aí que me vi entrando no lugar. Uta! ambiente esfumaçado, boteco, todo decorado de produtos secos e molhados, cheiro de cachaça na amburana e de cachorro suado. E só havia os estúpidos. Muito mau gosto. Mas meu avô estava ali e estava tocando sua sanfona antiga. Tocava mais ou menos, já dizendo a verdade. E meu avô tinha seus setenta anos e gostava de beber e farrear e contar piadas. Meu avô tinha, na altura, mais de setenta anos e anedotas de português papagaio bêbado corno. Uns setenta e sete vezes setecentos. Entrei no boteco e tudo isso ia acontecendo. Esperei o tempo passar. Nem gostava muito de vanerão. O tempo foi feito para se ter paciência. Nem de beber cachaça com cachaceiros. Olhava tudo e olhava meu avô. Perto do natal ele podia até virar papai Noel e distribuir presentes pros moleques lá no salão da comunidade São Cristóvão. Ele, nhe-nhe-nhê!... na gaita e um gole de pinga como intervalo. Nem chovia lá fora, mas pinga da marvada ali no recinto. Pensei comigo e falei brabo, entre dentes, rilhando os dentes, chocalhando os dentes como cobra cascavel:
            - Que bando de cascas-grossas! Só detonando!
            Mas eu estava ali, apesar de contrariado e aborrecido e frustrado. Certa hora um deles, bêbado e mal encarado, resolveu aprontar com meu avô. Derrubou o velho no chão, tchê! Mas pra quê?! Que cara de porco, meu! Ah, queimei os fósforos das ideias! Pior, todo mundo olhou meu avô e todos os presentes se abriram na gar-ga-lha-da. Mas pra quê, meu?! Tem gente que acha que é gente, e vai ver renega até a própria progenitora. Eu sou pior. Eu viro coisa de bicho do mato. Eu tinha meus dezenove vinte anos e já fabricava planejava matar uns quantos por dia.
            - Qual o pecado nº 1 da jararaca?
            Aí, eu, muita calma, ou melhor, muita raiva, pois já perdia a cabeça, peguei minha arma que sempre carregava comigo em a altura da virilha. Puxei para fora o revólver automático, e atirei em três filhos de ronca e fuça. Três deles, oh, babau! Bem feito. Eram os três que zoaram mais, inclusive o que derrubara o gaiteiro. Vão gargalhar no inferno, seus filhos de égua! Depois dos três tiros eu pensei em matar muito mais. Nem sei por que parei. Mas só parei para tomar fôlego, nem havia desistido. Ainda estava louco para matar mais uns oito ou dez dos tais e quais pés-de-cana. Olhei em volta e me cuidando. A festa continuava interessante. E tinha muito neguinho sem eira nem beira nem estribeira com as mãos trêmulas as pernas bambas a lucidez congelada no olho bem aberto arregalado.
            Naquele instante, em que eu pensava e procurava meu lugar na cena do palco, o bodegueiro, muito espertamente, apagou a luz da bodega. Loucura! Só sobrou uma porta aberta e duas janelas pequenas que se desenhavam com a luz que vinha dos postes da rua. E pra quê! Todo mundo voou para o claro da porta e das janelas. Todos ao mesmo tempo foi bonito. Que barulhão, meu! Eu me surpreendi com o trânsito e fique no meio do estouro da manada. Me atropelaram bonitinho. Uma bagunça. Sem poder ver muita coisa, mais sombras que porcos, poeira levantada, a boiada me pisou como pôde e fiquei jogado no chão. Pior era perder a arma. Perdi. Alguém a chutou para fora da minha alçada. Fiquei no matadouro sem o meu facão de corte quatro listas.
            Então, senti um cheiro de gasolina. Vi um relâmpago divino. Ouvi uma explosão catastrófica cataclísmica. O boteco pegava fogo. E o povo em desespero fugindo sem ordem abandonado ao deus-dará começou a gritar:
            - Fogo! Fogo! Fogo!...
            Acordei na realidade de todos nós, me ergui na cama, repetindo, berrando:
            - Fogo! Fogo! Fogo!...
            Procurei a lâmpada, acendi a luz elétrica. Me apalpei me encontrei me vi. Estava todo mijado, meu! Também, quem nem se mija com todo esse fogo, nem é?! E quem nem se mija todo depois de uma noite de fogo, em?!
                                                                       ***
            Domingo de tarde, oba! Cotia havia me convidado para visitá-la em casa, coisa e tal. Fui para lá namorar, acho. Me sentei no sofá de veludo vermelho coisa destacada. Eu tinha tomado banho como nunca, aquele dia. Estava todo ligado na novidade da casa, dos moradores da casa, do namoro na casa dos sogros. Também estava nervoso um tanto, e me pedia mais calma, toda a calma do mundo, mais calma. Eu ainda nem me via ali. Sentados no sofá de veludo vermelho e com tevê na frente ligada e os assuntos mais ou menos pertinentes. Eu me via ali como alguém fora de mim. Minha sogra de nome Guareí, por enquanto. Meu sogro de nome Paraitinga nem estava em casa, por enquanto. Os irmãos as irmãs ela nem tinha, ainda e por enquanto.
Chegaram as primeiras, as segundas e muitas perguntas, as principais perguntas. Tanto de Cotia como da mãe dela, absolutas. Aliás, a mãe da Cotia era a mais uma das pobres vítimas dos domingos com seus programas de auditório e senhores e senhoras de gargalhadas sem graça. Dona Guareí condenada a 50 pesados anos comerciais consumistas pagos com boleto na lotérica mais próxima. Nos intervalos comerciais ela esticava os olhos direcionava o nariz e erguia as orelhas para as minhas respostas. E até sugeria me indagando:
            - Você topa um chimarrão?
            - Você aceita uma cervejinha ou prefere um guaraná bem gelado?
            - Você gosta de pinhão?
            - Você quer apreciar meu pêssego em calda?
            - Você já experimentou comer beijo-de-sinhá?
            - Você disse que descende dos catuena?
            - Que bairro que rua mesmo você mora lá no Prata?
            A tevê era de uma programação de adoecer até a cadela da família a Piraíba. Depois poderíamos sair, caminhar pelas calçadas até a praça Capitão Jovino, mas chovia. Chovia também em Vargem Alta. Por que chovia? Choveria ainda em Boca do Acre na serra do Brigadeiro. Por que Cotia?
            Chovia e a Cotia foi preparar umas torradas com café bem preto. Lá fora D tirava os seus fleches e trovões. Eu preferia panquecas, mas nem falei nada.
            - Bem preto? Jura que nem quer um pingo de leite?
            Nem parou de chover e nem fomos andar até a praça. Chovia também bem dentro da lagoa Pinguela. Ficamos olhando a chuva dali da varanda. A begônia-de-folha-estreita parecia tranquila no pote de plástico, nem na chuva nem no seco. Pegamos um escurinho enrolados na cortina quando chegou a boca da noite. Chovia na praia do Magistério. Chovia uma chuva calma, garoa. Casal de Jesus-meu-deus saracoteando na chuva de galho em galho do catucaém. Um ou outro milagre. Uma ave e outro pessoas alados se deram ao trabalho de vir de sair voando de Naviraí buscando verões de Ipatinga até cá.
Eu olhei para Cotia e pulsávamos. Aí, nem chegamos muito nos etc e tal. Chovia por presença de D superior a nós. E sem mais arretos por falta total de segurança e confiança. Sem calor de estratagemas. E era a terceira vez que nos víamos, calma, meu! Na verdade ele que nem se acalmava nunca, nessas horas. Calma, seu!
            - Sorria! Você está sendo filmado.
            Aí, ela me fez mais umas perguntas. Eu nem aturo que pessoas me interroguem. Mãos nos bolsos. Vá lá que ainda era apenas sete e meia da tarde. Vá lá que estávamos nos conhecendo e nos apresentando. Chovia por si só na serra do Itapeti. Entramos. Intervalo comercial no programa dominical, palmas que já voltamos. Que horas que vou indo? Mãos ao alto. Eu precisava desarticular minha adrenalina e quando e o que chutar alguma coisa.
            - Nem estava muito frio lá na varanda?
            - Você quer provar minhas broas de milho?    
            - Você quer experimentar este musse de chocolate com sagu e pêssegos em calda? Especialidade da minha casa.
            - Você prefere um suco de laranja? Cotia! Vá espremer umas laranjas, vai!
            Ah, isso nem vai dar certo nem, pensei. Nem irá muito longe, intuí. Eu garanto, me confirmei me confessei. Ou como dizia o meu amigo Bracuí:
- Eu nem se agarranto, meu chapinha!
Em vez de incerteza, porta; em vez de dúvida, rua; em vez de cidade, região dos caripuna-do-amapá; em vez de bípede, sumaumeira-da-terra-firme.
 Foi o que pensei bastante lá comigo naquela horinha. E meus olhos andavam à mostra à vista à tona. Um quadro na parede me dizia que aquela família me era estranha e a praia Jardim Atlântico.
                                                           ***
            Se eu pudesse passar, rrrrraaa!... de avião a jato por cima disso tudo, ah!
Gritavam na rua, um mundo de pessoas gritando, um auê que tive de ver para crer. Corri pra rua, cheguei pra ver. Todos meio mundo muito excitados os rádios falando sem cessar. E diziam que navios foram vistos invadindo as estradas, que navios viriam por aí pelas ruas e avenidas e estradas. Que navios invadiram rodovias, passos e trilhas. Mas eu achei muito estranho essa história e que também nem podia duvidar de nada.
            Então, eu fui andando pela estrada de terra vermelha. Nem sei e nem me lembro se outras pessoas estavam me acompanhando. Eu ia para um lugar estranho esquisito desconhecido que ficava praquele lado e sem companhia e sem tapejara. A tevê interrompia a programação e as tais e quais intervenções de quinze em quinze minutos. Eu ouvia tudo que acontecia ao redor e eram os gorjeios de curió, bico-de-furo, papa-arroz, peito-roxo, caboclinho... surucuá-de-barriga-vermelha símbolo do Piauí.
            Numa subida de morro um caiaque desgovernado intitulado Peixe-Branco - nem percebi piloto nenhum -, veio firme pelo meio da estrada e quase me atropelou por pouco nem me abalroou. Eu me desviei a tempo e ainda olhei e ri. Eu caí fora me joguei de lado com calma e tranquilidade e rolante.
            Mais uns instante e, descendo ali mesmo a ladeira, vinha pelo meio da estrada um barco a motor chamado Andorinha-do-Rio e numa fúria enorme. Nem vi piloto e nem notei mais nada de muito importante e grave. Voava baixo que corria fazendo cheiro de madeira atritada quase pegando foro. Fiquei no acostamento e pronto, o barco passou sendo um pouco de susto, derrapando, ralando o chão seco, grrrruuu!... O ronco estrondando em quilômetros de ecos e reco-recos.
            Sem demora ouvi apitar um trem... nem, era um navio de guerra identificado Jenipapim. E o navio preto de casco de ferro vinha descendo o morro no meio da estrada na contramão faiscando fogo o tata. Eu calmamente fui para o barranco, escalei o barranco e trepei o barranco. O navio vinha vindo deslizando todo pesado como uma pedra gigante, trrruuuu!... Eu já me prevenindo e me afastando para fora das pistas. Aí, coisa estranha mesmo, o navio ficou com raiva de mim e tentou me alcançar e veio também para fora da estrada tentando me esfolar vivinho da silva. E vinha sobre a minha pessoa miserável. Deslizando porque sem rodas e pneumáticos e asas. E pior, nem parava de passar navio, um navio de guerra tão comprido que nem acabava mais um trem um atrás do outro comboio vagões. E a minha tranquilidade inicial se transformou em receio de ser esmagado e abalroado e pesado nos pratos da balança dos infernos e lá em os quintos del-rei.
            Acordei rindo de mim mesmo e imaginando com que força descomunal um navio de guerra daquele porte conseguiria andar pela estrada de terra batida ou asfaltada. Absurdamente mental cerebral espiritual intelectual e psicológico. Como um peixe fora da água fria. E os tem-tens-de-dragona-vermelha trovando as pipiras-encontros-vermelhos no terreiro do pomar da vizinha. Que por sinal era o solstício de verão, uma vez.
 



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