sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Alice Para Sempre (romance) Capítulo 4




            Pois sim, pois não, pois quando Alice achou que poderia ter um filho fora do casamento a mãe pensou e ficou pensando que não seria boa nota. Crescia assim a barriga; e Alice se enamorou da própria barriga. Contrariou cem mil crentes, vinte mil infiéis, quinze mil hereges e doze mil ateus. E todos tinham também inveja porque Alice era bela como a lua. Bonita e linda como uma lua sem crateras. Os vizinhos, nem todos - que a maioria cuidava já da própria vida -, picharam o muro que cercava a casa:
            - China, chinoca, lexiguana e piguancha!
            Na semana seguinte a mãe melhor decidiu que se mudassem para outra cidade, outro Estado. Até um dia, querência?!... Venderam tudo e foram para outro Estado da federação. Quem sabe, rincão amigo?!... Londrina era boa cidade, de subtropical para subtropical úmido mesotérmico, não se alterou muito a longitude, mas a latitude para um pouco mais perto do equador, e de setecentos para seiscentos e dez metros de altitude. Londrina veio de Londres? Veio no lombo de mulas? Veio no trem? Londrina, gleba Três Bocas, com ventos e chuvas em todas as estações. Terra roxa para o café. Sítio onde chegaram muitos do ocidente, do oriente médio e do oriente, que viraram pés-vermelhos, perto do rio Tibagi.
            Alice não saía, comprava revistas de bebê, assistia tevê, fazia as unhas, olhos pardos. Um olhar quieto para tudo, calmo e até adormecido. Celular com fones de ouvido. Ela tinha certezas? Não, não tinha. Sim, um pouco flutuante. Pensamento avulso. Alice, nho-nho-nhô!... comentou:
            - Mãe, vai doer.
            - Também será um milagre de Deus.
            - Para que lado corre a minha rua? Basicamente é o quê?
            - Deus gosta mais das flores que das estátuas; menos de flores que de mulheres.
            Alice, mais de dezenove anos, ainda não tinha em mente a certeza se seria filho ou filha. Tartarugas marinhas desde cento e oitenta milhões de anos. Cigarra dorme quinze anos debaixo da terra, para despertar e cantar uns dois dias. O planeta já vai para seiscentos milhões de anos. Problemas no mundo do faz de conta?
            - Se for menina? E se for menino?
            O obstetra, já a partir da primeira entrevista, blasonou, pregou:
            - Tu fumas?
            - Não.
            - Tu bebes?
            - Não.
            - Tu já tiveste seriamente uma ou outra moléstia que fosse?
            - Não.
            - Tens manias irresistíveis tipo, alergias, ataques, visões, compulsões ou compunções?
            - Não.
            - Tu tens tendência de... chutar pedras na rua, por exemplo?
            - Sim.
            - Então, gerarás um rebento tão lindo quanto tu.
            Sentava-se no sofá da sala, aquele sorriso infinitivo nos lábios inchados, e se acariciava como se tivesse comido demais, os peitos enormes e cheios e pesados, as pernas abertas, os olhos naufragados, as mãos nas cadeiras, e pedindo tudo na boca. Quase decidiu virar vegetariana. Por pouco não virou monge budista. O pensamento não se animava para muito longe e nem em linha reta. E a mãe lhe segurava pelo braço, lhe toucava o cabelo, lhe sorria e lhe falava ânimos escolhidos. Alice desejava fortemente coisas como, por exemplo: melancia com calda de pêssego, frango frito com chocolate quente, pizza de pitanga, se naturalizar índia itatim, se alçar na praia como uma andorinha-do-mar.
            Segredo é coisa importante. Coisas secretas: a cabala, a magia negra, a alquimia. Muiraquitã pendurado no pescoço. Fitinhas da Bahia no pulso. Amuletos e patuás. Deus espera a noite para descer a terra, caminhar no barro com seus rastos de tamancos.
            A moça precisava de um banho de descarrego? Os dias andavam bicudos? A dona Isa Negra curava quebranto, mau-olhado, ruindades, mal-do-engasgo, espinhela caída, pé-frio, pontaço no vazio, dor de corno, desemprego, falta de filho. A feiticeira pediu jejum de três dias. Ou dois dias e tanto. Melhor cinco dias e algumas horas. E quatro velas bentas de espermacete, garrafa de cachaça de Minas, lenço vermelho de pescoço, uma ou duas galinhas de quaisquer tonalidades, melhor duas galinhas caipiras.
            Na sexta-feira compareceram as freguesas com o embrulho debaixo do braço. Foram disfarçadas de turistas holandesas ou finlandesas. Olharam em volta... e entraram na casinha de fundo de rua, na rua descalça do Jardim União da Vitória II, perto do autódromo internacional Ayrton Senna.
E dona Isa Negra estava lá bem igualzinha e era isso mesmo: argolas nas orelhas, cruz enorme no pescoço, vestido longo até os pés com bordados de luas e crescentes e decrescentes e estrelas, estrelas de cinco seis pontas, a boca torta fumando cachimbo ou charuto, cartas de tarô, búzios, toda envolvida e camuflada na decoração da sala, inclusive uma sucuri albina enrolada num canto, noutro canto estátua de preto velho sentado, coruja empalhada no poleiro, móbiles tilintando sem parar sem parar sem parar, cheiro de incenso e cheiro de flores do campo, vasos com flores artificiais, tapetinho com paisagem coqueiral.
            Alice sentou dentro da gamela de cambuim, água morna com segredos de folhas de cheiro, cravo, canela, pozinhos secretos, pedras de seixos rolados, penas da cauda do urubu-rei, pétalas de rosas amarelas e vermelhas, sementes de não se sabia o quê, raízes importantes, casca ralada de barbatimão, pau-ferro para o sangue, lasquinhas de mamica-de-cadela para o coração, as quatro cinco velas em volta. 
A bruxa Isa Negra, sucuri enrolada no pescoço, acocorada, lenço floreado no cabelo, garrafa com azeite de peixe ao alcance da mão, começou o processo batendo os lábios, muxoxando, fazendo gestos propiciatórios e resmungando segredos. Com uma vassourinha de arruda foi lavando, esfregando, borrifando a paciente. Ia resmungando orações secretas acompanhadas às vezes de trejeitos, e bater de dedos no ar, estalando dedos no ar, gatinhando em volta. Lavou as pernas de Alice, lavou os joelhos da moça, lavou o meio das pernas e o ventre da freguesa. De joelhos, esfregou o molho de guanxuma nos ombros de Alice, nos seios da moça, no umbiguinho da parturiente. Esbateu ou espargiu a moça nos joelhos, nos ombros, no coco, nas costas. Depois, afundou toda a guria dentro da gamela de cambuim durante dois minutos. E por sobre tudo, já andando em volta toda ereta, recomendou, recomendou, receitou, ensinou:
            - Reze trinta Ave-Marias... trinta Padre-Nossos... e uma caridade para a capelinha de Nossa Senhora do Bom Parto, ali mesmo perto da rodoviária. Obrigada. Ah!, outra coisa. Volte na próxima sexta-feira, e na sexta-feira depois. Fecharemos com três quatro banhos.
            Alice parecia não acordar mesmo consciente que ali ali já seria irreversível e irresistivelmente mamãe, e sua própria mãe teria neto ou neta acabando avó, então, foram olhar o sexo do bebê. E era menina. Um milagre. Agora faltava o nome.
Ela se demorava muito em frente ao grande espelho do quarto, o espelho dentro do quarto e o quarto dentro do espelho, horas e horas ali nua, em três dimensões, e mais uma dimensão que vinha no voo do futuro, se achando, estufando a rede, crescendo na barriga:
            - Ilha de Marajó? Não, ilha do tesouro!
            Dia aberto, sol firme, calor sempre aumentando. Um sol se esparramando por toda a região. Alice estava passando pela beira do arvoredo da praça. Era bom. Aí, a tesoureira pousada na inhaíba se assustou, deu um pulo no ar, bateu asas, bateu asas, bateu asas mil e duzentas vezes, voou até o galho do guanandi onde achou de pousar mais alto, esticou bem as asas e aterrissou.
            Jamais consultara o zodíaco para o nome, imaginava nariz e boca e palavras e sorriso e riso e a cor dos olhos, o futuro, andanças e ditos e espertezas, os chutes que vinham e mais chutes, dormia como paxá cercada de almofadas por todos os lados, a visita à casa da numeróloga Ludovica, perto do aeroporto, Alice interrogou:
            - E depois?
            - Chegou uma embarcação do Mediterrâneo oriental. Não sei como, mas dizem que chegou. Como atravessou o Atlântico eu nem imagino. Outros imaginam, eu não consigo. Até consigo, mas não acredito.
            - E passaram fome e sede pelo meio do oceano?
            - Mais de cem dias entre céu e mar. E tiveram muitas baixas. Mortes por atropelamento, por afogamento, por preguiça, por insolação, por outras coisas.
            - Mais o quê?
            - Aportaram na ilha de Marajó e pronto. A história não diz mais nada. A lenda não vai mais além. Até hoje. Obrigada.
            Um dia, duas da noite, gritou dores urgentes, deu à luz na madrugada. Repicaram os sinos das igrejas noticiando o nascimento real. Os foguetes atroaram, iluminando com suas luzes assobiadoras e coloridas e meteóricas. Colocaram o bebê nos braços da mãe, pequena trouxa de pano e sono. E tudo tudo amanhecia como um dia após o sonho da noite, um mundo de fundo de aquário, uma sensação de lentidão, de espaço vazio como se caminhando em superfície lunar, sempre haveria lugar para mais uma, e caiu na parabólica da mãezinha o nome esperado:
            - Marcelle!!
            Alice se sentiu senhora com tudo o que tinha direito, e as pessoas entravam para espiar, pediam para levar embora, pediam para raptar, pediam para sequestrar, e era mesmo Marcelle? Amamentava o brinquedo e se ria sozinha, o bichinho indefeso segurava seu seio, olho fechado dela não via os sacis, não via as visitas, não via o mundo, a mãozinha do bebe segurando o dedo da mãezinha, e a bichinha mamava o seio de olhos fechados, segurava o dedo da mãe, Alice tinha um ar de rosa amarela desabrochando, Alice rindo sem parar:
            - Quando vamos, ah ah ah!... passear, bater palmas, trocar palavras?
            O futuro já existia e poderia dizer se aquele pequeno brinquedo um dia viria a ser gente. Então, os sonhos de Alice não tinham limites. Sabia que tinha de ser mais lúcida. Mas sabia que não conseguiria ser mais lúcida.
            - Pode que sim, pode que não.
            Intervalos divididos em choros e os longos sonos, choro não dizia por quê, acordando sempre em cima da hora para sugar o seio, dormindo todo o tempo. A menininha sugando, olhos fechados, as mãozinhas segurando o seio.
            - Marcelle me reconhece.
            Horas e dias olhando da cama, olhando o bebê, cheirando, espiando o futuro que parecia ter olho azul, e pedia a Deus, antes pedia a Nossa Senhora Aparecida que pedisse a Deus, o futuro para Marcelle.
            - Bilu bilu tetéia!... Oh! oh! oh!... Você tá olhando a mamãe, é?! Obrigada.
            Saía na rua, desfilava na calçada, manhã espaçosa, cuidando do sol e do vento e dos insetos, as pessoas reparavam a cor dos olhos, só paciência mesmo para Marcelle crescer, muitos planos, o futuro era promissor, isso sim e aquilo não, Alice sempre e muito atenta, assustada, empolgada, rindo sozinha, o futuro seria delgado, e não por falta de heróis e heroínas:
            - É o Peri e a Ceci? É o Saci? É o Bumba Meu Boi?
            Já os meses não demoraram. Marcelle era sem tempo e o sol do universo. Esperavam a primeira palavra. Marcelle esticava o braço para as coisas em geral, e a tudo que pegava precisava experimentar na boca.
            O sol desapareceu. O sol se foi. A noite, outra noite. O vento veio mais frio. A poeira levantou no meio do vento. O teto, o chão e as paredes do destino. O destino será como um labirinto. Busca da revelação. Que revelação? Viagem faz pensar aventuras. Buscar horizontes, buscar mistérios, buscar horizontes invisíveis.
            Apenas uma estrela no céu. Uma estrela, duas ou três. Apenas uma lua. Muitas constelações, muito mais estrelas. O que seria uma tarde espaçosa? Alice interpretou:
            - Não sei quem sou, nunca saberei, e vou saber mais.
            Na rua o pessoal falava do preço do deputado estadual. Na rua o pessoal falava do preço do deputado federal. Na rua o pessoal falava do preço do senador. Na rua o pessoal falava do preço do ministro. Na rua o pessoal falava do preço do vereador. Na rua o pessoal falava do preço do prefeito. Na rua o pessoal falava do preço do governador.           
Então, Alice vivia, e Alice inventou querer gostar das artes plásticas e partir para as pinturas em telas, os desenhos e as cores, e foi ao primeiro dia de aula, o mestre mandou colher laranjas e bergamotas e limas e limões, varrer as folhas secas que sempre nessa época do ano atapetavam o quintal, amontoar as folhas e tacar fogo, pôr o ateliê numa ordem, lavar e secar os pincéis, apontar com o dedo opinativo os gênios equatorianos e mexicanos e colombianos nos livros grandes de capa dura, livrar da poeira as paisagens portuguesas e ucranianas e libanesas presas às paredes, colagens, minimalismos, pós-modernismos, cubismos, narizes e peitos nus e pernas e regiões do agrião, verdadeira obsessão por pernas e regiões do agrião, e as paisagens mais comuns como a do mar e o rochedo, um farol em ruínas, um pescador na praia de Ipioca tecendo a rede, um pedaço do porto de Belém do Pará, ruínas de São Miguel das Missões, o professor desabafou que gostava das bandeirinhas de são João.
O mestre pintor, maneiroso, venerável, vertical, com voz melíflua, em linguagem desnudada e plana, mãos grossas, revelou o ainda seguinte:
            - Preciso logo logo jovem metro e oitenta e cinco magra peitões fortes e altos que apontam o futuro cabeluda pentelhuda boca grande beiçuda nariz empinado olhos verdes, conhece?
            Alice queria ser psicóloga, ou psiquiatra, talvez psicanalista, e entendia de amores frustrados, de horizontes distantes, de labirintos difíceis e ilhas de coqueiros tortos carregados de cocos verdes. Queria ser engenheira, e entendia de medidas e pesos, entendia de pontes e túneis, curvas e esquinas. Queria ser cantora, e entendia de voz melíflua, de voz rouca, de voz modulada, de voz sussurrada. E o pensamento percorrendo o pensamento - sem que ela visse -, pensamento correndo o pensamento uma barbaridade, uma eternidade.
            - Rio, este bicho de muito rabo e muita cauda.
            Bonita e dorminhoca, Alice espiou o dia com um olho, dois olhos e acordou. Um solzinho incerto de droguinha loira, bem madrugador. Então, os olhos de Alice conheceram as coisas do dia. Lavada, engraçada, leve e quase satisfeita, foi e se sentou ali numa pedra debaixo do ingazeiro, ou na raiz do ingazeiro, e ouviu os passarinhos cantar, gorjear mais umas horas, e esperou o sol subir mais, olhando as nuvens já dispostas em bandinhos pelo céu, montinhos de feno aqui e ali.
            E como o sol estava calmo! Como o sol estava amarelo! Como as nuvens passeavam muito à vontade! E o sol reverberava, rebrilhava, resplandecia, dardejava, espelhava, reinava. O sol soprou e os cabelos dela flutuaram.
            Alice se olhava e se perguntava, sentia mesmo falta, short curtinho e sungado, sentia o vazio de um troço, tudo parecido com nada e nada parecido com tudo, uma vontade de dar, e a mãe-avó lhe resumiu:
            - Procure um emprego.
            Alice não sabia de ofício algum, aí mesmo que resmungou:
            - Ah!, é assim. Trocar meu esforço e meu tempo diário por um faz me rir de dinheiros.
            Marcelle já ficava mais com a avó, eventualmente nas sextas, principalmente nos sábados, e ainda para enjoar de vez, Marcelle começava a chatear com perseguições e manhas e teimosias e birras e gritinhos e sapateios e lágrimas de lavar o rosto.
            Alice pensava num presente. Pensando e tal. Pensou: uma bicicleta, uma viagem, um objeto de arte, uma coisa qualquer de artesanato. Queria uma vida em São Paulo, uma vida na ilha do Meio, uma vida à beira do rio Gurupi ou à beira da lagoa do Caverá.
            As embarcações singrando os rios e mar com nomes de barco: Pirajussara, Aratu, Guajará, Paranoá, Manaquiri, Saquarema, Inhacorá... Embarcações de pescadores, barcos a vela, navios petroleiros, transatlânticos e outros barcos com nomes de barcos: Ilhabela, Brocoió, Juparaná, Piranji, Aporé, Alcatrazes...
            Formosa Alice se preparou para uma festa em casa de uma pessoa conhecida. Alice ano que vem faria vinte e um anos. O brilho suave dos seus olhos castanhos, nem pouco nem muito. Estava tranquila e calma, calma quase perfeita. As coisas são bem mais simples do que aparentam. Importante era o cabelo com movimento. E Alice ria, ria quase simples, dentes sempre à mostra, ria para si, ria com os dentes brancos e os olhos e os cabelos.
Uma hora depois, para as bandas da UEL, chegou na casa da melhor amiga. Só passados os trinta minutos foi que Alice começou a entender os rapazes. Que um homem é um homem, um cachorro é um bicho, um disco voador é um helicóptero, um inseto é uma semana...  que nem liga para nada.
Aí, ela destacou por conta, lá do meio de todos, o pai da amiga. Um cara maduro, amarelecido pelo tempo, coco despovoado de muito cabelo, óculos de lentes amarelas, comportamento de divorciado, e seu jeito tímido e desprevenido de lidar com a galera da filha cativou e chamou a atenção de Alice, aí ela mesma chegou no homem e o abraçou, um amplexo demorado, e o abraçou com gosto, e ficaram abraçados, o homem sem jeito ficou rechinando, rechinou:
            - Oh! oh! oh!... querida...
            Tudo bem com o mundo, há muitos livros para ler e pouca idade para viver, e a carne é alegre. E os dias se passaram. Mundos e fundos. E depois, quase nada. Noé viveu novecentos e cinquenta anos. 
Duas semanas ou três meses depois, uma bela manhã de verão e sol e muita chuva em Piracicaba, Alice encontrou com o pai da colega, pura sorte, no patamar da escada da pinacoteca. Alice pensou em silêncio o seguinte: “Pra que negar, gostei do tipo!”
Alice, cabelos caindo displicentes, foi chegou e o abraçou com ternura, novo amplexo, abraço firme e total, tanta ternura de parte dela que mesmo repousou o ouvido no peito dele, e permaneceu agarrada ao homem por um bom período, o coroa sorriu sem saber o que mugir, o que considerar, o que sonhar, o que falar, apenas teve tempo de crocitar:
            - Hi! hi! hi!... filha...
            Confusão e várias coisas tumultuando a cabeça de Alice, coisas que pouco antes nem passavam, tudo e muitas outras coisas, um arquivo de outros Estados e cidades, e tomavam um tempo até equilibrar, e se gastava uma angústia, às vezes era tão sério que chegava a quebrar a alma, a fatiar a alma, a triturar a alma, e era alma para todo lado sangrando, nomes de cidades, nomes de praias paradisíacas, ilhas muito doidas, ilha das Aranhas, ilha Urubuqueçaba, ilha das Cobras, ilha do Rato, ilha das Garças, ouvia uma risadinha metálica, irritante, hi hi hi!... não sabia de quem de onde, uma cascata de perguntas íntimas:
            - Para mim? Sabe, quando eu era criança não pensava nunca nos meus vinte e um anos.
            Foi à casa da amiga fazer ou desfazer alguns compromissos, sábado à tarde, sol quente de pelar macaco, os moços e moças lavando carros nas portas das garagens, as paineiras ou perobeiras plantadas na calçada em fila indiana, casal de idosos caminhando de mãos dadas pelas sombras da praça Rocha Pombo, um senhor chuchurreando um chimarrão na varanda, uma senhora indo ou vindo acompanhada de uma cadelinha atônita, crianças correndo de bicicleta ou de patins, e foi o pai da amiga que atendeu, o próprio que abriu a porta.
Alice, feliz com a surpresa, sorriu para ele e viu que ele simpático lhe devolveu com juros o sorriso, então, Alice o abraçou demoradamente, gostoso amplexo, como quando se tem muita muita saudade, como se gostasse para toda a vida, ela abraçou e pousou o ouvido no peito largo e peludo do homem, e o homem crocitou, o homem declamou, o homem tentou mugir mais ou menos isso:
            - Hein!... Ahn!... Tá bem!...
            Alice iniciou aulas numa escola de informática. Todo domingo de manhã, sem chuva ou frio, passeava na pracinha com a Marcelle no carrinho. Pintou os cabelos de ruivo, pendurou brincos de odalisca, se olhava no espelho, retesava o peito, apertava os bicos dos seios, puxava e apertava e esfregava. Tinha um ar de saracura desbotada. Alice via um rio na menina dos seus próprios olhos, rio evidentemente líquido, mudo, desnorteado, desconhecido, particular, desassossegado, importante, carente, carente.
            Então, era isso mesmo. Fugir, andar, ir, partir e dar o fora. Fugir no tapete. Para fora do círculo de montanhas. Embora. Procurar cidades, Sabará, Parintins, Xapuri... Alice era incompleta, e se completava fugindo, talvez de cidade em cidade. O bagual puava saltitava irrequieto, fogo nos olhos por causa da amplidão do mundo, pedindo rédeas. Foi passear até a rodoviária, prédio com cara de disco voador. Desviou até a praça e sentou à sombra de um guarabu-amarelo, e olhou, e sonhou, e divagou ainda mais.
            O proprietário-professor da escola de informática a convidou para trabalhar ali como bonita e agradável e apetitosa recepcionista. Alice passou a atender telefone, anotar e passar recados e a manter aquele sorriso comercial e fixo e primordial. O patrão, por enquanto, só impôs uma filosofia. O patrão por hora sugeriu uma geografia ou coreografia ou geometria ou caligrafia ou fotografia:
            - Posso propor, Alice.
            - Deve?
            - Mantenha esse sorriso preparado para mostrar todos os dentes, pinte os lábios com vermelho ou com lilás cintilante, e esqueça o sutiã.
            Alice o olhou bem em calma, e o tempo que parou para pensar não deu realmente para nada, nem para pensar, e disse, quase só mais para si mesma, mas enfim disse, enfim cantou, instruiu:
            - Quero correr, correr!
Um morcego bom de ouvido na noite completa. O frugívoro passou voando baixo, dizendo qualquer coisa. Um pio de caburé-de-orelha, dois olhos fixos. Alice olhando a lua fatiada. Olhando encantada. Apenas olhando a lua e não pensando em nada, e não entendendo nada.
            O chefe e proprietário, daí para os próximos dias, começou a crescer seguido, todo dia, sobre o ombro direito de Alice, com certeza estava louco para comer na mão de Alice, assim, então, naquele dia, ele veio todo preocupado e mais perfumado e, de repente, soltou lá sua mão boba na bunda dela, e quando Alice viu, e acordou para se olhar, quando a ficha caiu já estava namorando o cara, já estavam se grudando fora das vistas dos alunos, já estavam se tratando muito bem com adjetivos passadistas, com diminutivos ridículos, já estavam se beijando na frente dos alunos, se empurrando, já estavam se prensando de encontro às paredes, e Alice ficou co-responsável pela burocracia da escola, muitos dias de sábado controlando o sono pescando sobre o balcão da recepção, sorrisos e elogios distribuídos para as pessoas que chegavam.
Um dia o patrão veio com flores, no outro dia não era mais o patrão que trazia um ramalhete de margaridas misturadas com orquídeas, e mais um outro dia e as flores viviam rindo e se mostrando num vaso sobre o pequeno armário ou arquivo de ferro. Um quase tudo e um quase nada de dias floridos e janelas abertas para o lago Igapó.
            A vida - e se fala mesmo de uma vida boa -, pingava contando em pingagotas na maior paciência, tédio. Que chave abriria o grande mistério? Amanhecia novembro e as pitangueiras da calçada, por aqui e por ali, começavam a florir, a goiabeira-do-mato há dias já atraía, com suas flores abertas e doces e avermelhadas e de sabor de mel, uns dois tucanos-de-bico-verde e mais duas ou quatro curicacas.
E chegando se chega a uma conclusão: deveria acontecer alguma coisa para a sobrevivência da esperança.
            Alice tinha bronca com os sábados e, podia contar, aos sábados ficava pescando, cabeceando sono sobre a mesa de trabalho, sonhava com um amante futuro, e este não apresentava ainda um corpo e um rosto completos, mas era um amante muito carinhoso, apegado, sustentador de um sorriso novo, uns suspiros ou impulsos por aventuras em trilhas ecológicas, carreadouros ecológicos, tipo assim de pássaro migratório, ela mesma cheiro de terra e ele cheiro de sol, e com diálogo e tudo:
            - Vamos fugir, aguentar as trilhas com mochila nas costas?
            - Quem quer que...
            No shopping do bairro Vila Ipiranga, Alice reencontrou o pai da melhor amiga, e o abraçou em sossego, com amplexo e tudo, a pele arrepiada, se demorou no abraço, escorou o ouvido no peito peludo, escutou o, tum! tum! tum!... lá dele, mediu alturas, enquanto o homem zumbia, enquanto o homem trincava, enquanto o homem suava, até que o homem espirrou:
            - Uh!... que dia bonito...
            Sentaram-se, Alice queria falar, cabelo espatifado, e foi falando assim se expondo por todos os poros, contando e gastando o tremor da ansiedade, como se tivesse só cinco minutos para narrar tudo tudo, como se tivesse treze para quatorze anos, como se tivesse ensaiado muito:
            - Me acha bonita? Olhe minha pele, meu cabelo sedoso e macio, de brilho fácil mesmo nessa época do ano, meus lábios cor de café, minha língua com gosto de pêssego em calda, o decote sem manchas e quente quente. Olhe mais, olhe tudo com olhos de senhor idoso e experiente. Pode tocar as minhas pernas, os meus braços feitos para abraçar. Beijar a ponta dos meus dedos? Pode beijar. Tenho muita vida pela frente e pouco deixo para trás. Quero amar muito e sem sombra de dúvidas. E tenho toda a vida deste mundo pela frente. Quando vou partir? O aeroporto fica aqui atrás, pertinho, descendo a avenida Higienópolis. Acha que tenho ar de perdiz desabotoada? Nem eu mesma me reconheço.
            O homem, aquele cara, pai da boa amiga, olhar de burro cansado, passou a mão no queixo e foi descrevendo um desejo, uma fantasia, um quadro surrealista ou abstrato:
            - Não é isto isso aquilo nem nada. O fundo da tela amarelo-azulado dissolvido em água ou em ar, é pálido pálido, quase no limiar. Um pássaro de asas abertas, caindo como se fora atingido por um ataque cardíaco. Um alazão solto no ar, sem asas, montado por uma moça nua da cintura para cima, seios gostosos, calças de artilheira, cabelos estendidos e flutuantes e esticados ao vento. Um ramo de sabugueiro que o homem sustenta equilibrando no dedo indicativo. Este homem sério, veste uma camisa floreada e uma bermuda cáqui, próprias para festas de carnaval. E mais atrás dele, outra mulher, em pé, com a mão na testa como se estivesse pensando ou como se estivesse sentindo um início de pontada de dor de cabeça. Uma lua esfatiada, espatifada. Se é que me entende, Alice.
            Alice espumava pelas comissuras dos lábios de tanto que discursava, e o pai da boa amiga, mão no queixo e cotovelo na mesa, calvo como um jesuíta dos tempos das reduções, óculos na ponta do nariz, ia escutando com pequenos goles de suco de abacaxi, Alice bebericava o guaraná para umedecer a garganta e adocicar as palavras, e as suas palavras tinham cor, peso, som, jogo, correria, nuvem, avião com janelinhas descortinadas.
            Arrastada pela amigona, Alice foi e se candidataram ao concurso da Garota Modelo rio Apucarana. Não faltou chover estrelas das constelações.  Muito de propósito o concurso foi realizado num sábado à noite. Então, Alice tirou o segundo lugar e o trio ganhou as páginas dos badaladíssimos cadernos sociais de todos os jornais e revistas e sites da região.
            Na tarde de sexta, uma sexta-feira com caveira e tíbias limpas e cruzadas por baixo, e céu azul-turquesa, onde imperavam os urubus-reis, caranchos e chimangos...
            - Quá, a cá! Venha cá! Crás!
            Nesse dia um gavião-carijó surgiu e pousou na janela do quarto de Alice. Era de fato a ave ao vivo e não uma figura de retórica. Que essa ave vinha justamente na fase que Alice estava para decidir se ia ao Japão com seu professor-sócio-amante. Ou não, ficando em casa junto com a filhinha e a mãe-avó, cuidando de si e da sua filhinha e da sua mamãe. E a mãe-avó ouviu sem dizer nada, e não queria dizer nada, e não disse nada, e não ia dizer nada, e depois, logo depois, falou, a mãe-avó declarou, palavras correntes:
            - Filha, olhe bem! E onde fica mesmo aquele Japão? Fica na costa da China, no mar da China?
            Justamente naquele dia de tíbias brancas e cruzadas, ao se assustar com a sombra da ave de rapina pousada ali ineditamente na moldura da sua janela, Alice teve dois sentimentos: primeiro se surpreendeu com a sombra da ave como diante de um animal feiticeiro ou pré-histórico ou zodiacal; depois seu corpo congelou enquanto o coração disparou um não, e um Não bem grande; e por último gritou e fez tantos gestos desvairados, aloprados, que pensou que decolaria e espantaria os santos da terra e os deuses da montanha.
            Alice chorou na despedida, até porque ela e a mãe-avó e a filhinha Marcelle eram as Três Marias do céu. E Alice caminhou devagar, o namorado caminhou devagar. As caras todas, todas desbotadas. Um céu londrinense de luz aveludada. Os juruvás conversando com o vento. O vento que achava os cabelos. Alice vestida de azul completo camuflada de céu. Vento tonteando as caraibeiras da rua Sergipe.
            - Por que me amas?
Pegaram o ônibus até a capital Curitiba, e de avião chegaram à megalópolis São Paulo, de trem até porto de Santos, de navio para Tóquio do outro lado do planeta. Foram somando nós pelos enormes oceanos, dias e dias, que do outro lado de lá já era, naquele mesmo exato instante, doze horas mais, e cedo. Japão: era lá que ficavam o famoso Fuji, o sozinho Fujisan, o adormecido Fujiyama, o trem bala, os ideogramas, e a maioria dos japoneses do mundo.

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