sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Alice Para Sempre (romance) Capítulo 13



            Um dia Alice viu muito bem, estavam no pátio, ninguém lhe contou, o outro mais um milagre de Marcelle. Os passarinhos pregando a manhã. E Marcelle quieta como em transe, concentrada num ponto fora do tempo e do espaço, fora do rio, fora da estrada, um médium incorporando, fora do vento, fora do mar, fora das capacidades humanas normais, fora de si.
Estavam no pátio. E assim, como se Marcelle não quisesse nada nada, de súbito, ela fez um gesto, um desenho no ar com a mão, e como se  o ar livre fosse a tela de pintura, um papel em branco, apareceu um arco-íris com todas as cores bem dispostas. E essa figura, que só um ser divino sabe fazer tão bem, se sustentou aí no ar por minutos. Até Marcelle brincar e brincar, até Marcelle querer e acabar de gostar. E Marcelle gostou:
            - Gosto porque gosto! Tão bom gostar!
            Vovó falou de Marcelle, comentando com Alice:
            - Marcelle não existe, ou então estou sonhando.
            E Alice, com um sorriso de quem viu o milagre pela primeira vez:
            - Não me diga! Que será e que não será?
            E Alice, mãe, não disse mais nada, não pensou mais muita coisa; será que tinha visto tudo?
            Marcelle, menininha engraçada, não era de milagres o tempo todo, comia pouco e acordava com olheiras, tinha um dom para coisas dificílimas. Quando não precisava de milagres, se contentava com o que já vinha na embalagem do comum. Não sabia se corria, ria, pulava, falava. Marcelle fazia milagres para seu próprio gosto exclusivo, ficava invisível, atravessava paredes, flutuava, seu poder se concentrava no coração e saía pelas pontas dos dedos. Acordava com vontade de falar. E corria, pulava, ria, conversava com as plantas e os insetos.
            - O céu é perto? O céu é bem longe?
            Alice olhava a sério o comportamento da filha. Estava toda mãe. Solicitava que Marcelle pusesse a língua, repetisse trinta e três, que respirasse fundo. Consultava os olhos fundos de insônia da menina e se tinha dor de cabeça, se tinha dor de barriga. O céu estava ali, a cidade ali, o mar um pouco mais lá para o oceano:
            - Quer passear? Vamos a algum lugar? Diga: trinta e três tigrinhos trigueiros trilegais num trigal tridimensional.
            Era isso, Alice foi andar, achou melhor caminhar ladeira acima ladeira abaixo, caminhou e passeou de filósofo com as mãos às costas, bateu perna porque com certeza lhe pesavam muitas coisas no pensamento. Sim, pois o destino é muitas vezes engraçado demais. Deixar correr o rio, fluir. O futuro é nosso meio de vida. Raciocínios que iludem e reclamam. Cidades rios como Rio Pardo, Rio Negro, Rio Branco, Rio Bonito, Rio Preto. Cidades boas porque sempre inéditas. Alice nunca achara nada, se olhou por dentro, se viu na vitrina, se viu de fora. Todos mudam de ideia. Procurar uma cidade qualquer:
            - Ninguém sabe o que irá acontecer.
            A avó se sentou na cadeira de balanço lá fora na sombra da sucupira-da-mata. Se embalava devagarzinho. A plantação de rosas, orquídeas silenciosas, borboletas, besouros, joaninhas. E sorria se lembrando de um milagre que Marcelle realizara a poucos dias. Foi justamente assim: Marcelle olhou um passarinho e quis voar também, bateu os braços e imediatamente começou a subir no ar, a flutuar, indo de um lado para outro, e voou até sobre a casa e as árvores do pátio, suou muito, viu as coisas de um ângulo de helicóptero, ou de beija-flor, ou ainda de anjo, e parou somente à noitinha quando desceu e foi tomar banho.
Pois, a avó sabia que a Marcelle só fazia milagres assim para brincar, na maior inocência, na maior calma, uma menininha inocente, uma passarinha sem prática, uma libélula doidinha confundida entre os sonhos e as realidades, pensando que podia o impossível, sem saber o que podia e não podia, olhos de oceano ou de lagoa sob céu claro, olhos de vento verde. Então, depois de pensar isso, a avó saiu para esquentar água para um chá de folha de laranjeira ou camomila.
            Salvador, a primeira capital do país. Um carro de som passava todas as ruas, todos os dias para anunciar a festa. Prédio estilo neoclássico, dois prédios estilo, três prédios. Alice coberta de abelhas e besouros e colibris na feira livre. As pessoas chegavam, sorriam, discutiam cores e perfumes.
            Todas as manhãs, as que não choviam - o céu sabia chover chegando do oceano -, a avó se sentava no pátio debaixo da sucupira-da-mata, se embalava na cadeira, ou andava entre as flores povoadas de borboletas amarelas, azuis, trêmulas, azul-clarinhas, e tratava os passarinhos do dia, pintassilgos, corruíras, sebinhos, coleirinhas-do-brejo...
A avó, então, assim sem querer, parava para pensar, se preocupava, como se lembrasse de algo inédito por acontecer:
            - Será hoje dia de milagres, meu Deus?
            A avó sabia que história de milagres eram coisas de Deus, e de santos.
            - Será Marcelle um anjo de alta categoria? Será Marcelle uma anja de alta voltagem? Será Marcelle uma anja de alta linhagem?
            Marcelle acordava e, pronto, os colibris a cercavam ali no pátio. Marcelle esvoaçava entre as copas das árvores, brincando. Depois aprendia com os colibris a cheirar as flores sem amassá-las. E só em raros dias Marcelle esquecia de fazer os seus milagres. Exatamente nos dias quando as brincadeiras não careciam de inventos miraculosos. Precisando dos milagres ela os realizava na maior sem cerimônia. Anja transparente vestida de saiotes largos e azuis, fita amarela na cabeça, cabelos soltos e quase em fúria. Uma alegria obrigatória e própria lá dela. Voava baixo agitando os braços e não ia longe. Marcelle será sempre esse um ser humano, menininha engraçada e espontânea:
            - Estou até com vontade de rir.
            Alice pensou durante toda uma manhã, em silêncio, ensimesmada, ausente, concentrada, distraída do, zunzunzum!... das abelhas e zangões, trancada em si e, depois, comentou com a avó:
            - Eu acho, sabe, que Marcelle precisa se distrair com coisas concretas. Ou devíamos colocá-la numa universidade. Trocar ideias com doutores, com mestres, com sábios, com espertos. Quem sabe seja menina prodígio.
            - Hoje Marcelle me contou um sonho. E ela me disse ter sonhado um bando de jaós. Foi isso.
            - Um ninhal de jaós?
            - Um bando de jaós com jaozinhos ainda depenados. Foi isso.
            - Estou aqui, estou quieta e só estou imaginando...
            - Aves grandes, pescadoras. Foi isso.
            Marcelle era uma criança já com as primeiras letras e palavras, descobrindo os nomes das geografias, era a fase da repetição muito cansativa das mesmas frases, de perguntar tudo, de falar com bonecas, falar com árvores, falar com espelhos, falar com bichos de estimação, conversar com abelhas ou libélulas que visitam lagoinhas, falar com mãe e avó sem hora marcada, cascatas de perguntas, rir de qualquer coisa e a qualquer hora, tudo tão divertido, e uma certa impaciência se a coisa demorasse:
            - Demora um ano...
            E se a mãe, ou a avó, demorasse mais um pouco:
            - Demora dois anos...
            Demorava mais cinco minutos:
            - Demora três anos...
            O rapaz das rosas amarelas e orquídeas estranhas, continuaria na feira vendendo suas rosas vermelhas, brancas, amarelas, cor-de-rosa e orquídeas lilases, doidas, azuis, brancas, verdes. A avó decidiu que sentia mais saudades dos cuidados do asilo, dos bancos do jardim do asilo, das pitangueiras do asilo, dos bancos de sentar na sombra no pátio do asilo.
Alice e Marcelle foram morar para Brasília, cidade que já se sabia de pessoas sem esquinas, Centro-Oeste brasileiro, praça dos Três Poderes. Alice não sabia o que aconteceria com os milagres de Marcelle. Talvez fosse uma fase. Milagres, quem sabe, fossem somente casos raros que com a idade acabariam por ser esquecidos.
            - O que é que você está vendo, filhinha?
            - Ajuda a olhar, mãe!
            Ela, Alice, escolhia ir por tal caminho, sotavento, e escolheu também outros caminhos. Caminhar, pegar as estradas, se deixar levar aos muitos destinos. E é e será uma maratona. Viajar é surpresa e surpreendente. Somos viajantes: viajamos ou sonhamos viajar. A viagem pode trazer uma solução.
            Quando uma vez, no café da manhã, Marcelle mostrou a mão verde que havia ganho durante a noite, talvez consequência do sonho, Alice acabou por se assustar e correu imediatamente se aconselhar com os esotéricos da cidade satélite de Luziânia. Estes, gente boa e quieta, que habitavam casas de gesso em forma de gota, janelas e portas em forma de gota, esotéricos e purificados, olharam as mãos de Marcelle, olharam os dedos de Marcelle, olharam para os olhos de Marcelle, olharam e reconheceram a garotinha Marcelle. Imediatamente pensaram estar diante de alguém com poderes especiais ou espaciais, alguém que lhes pareceu enviada, alguém que não deviam perder de vista, alguém extra e encantado. E assim encheram mãe e filha de intermináveis hipóteses, cataratas de dúvidas, meses de respostas, séculos de perguntas, profundas questões:
            - Os sonhos são verdes. Os anjos são verdes. O planeta de onde veio é verde. A luz é verde. Verdes são os olhos.
            Alguém mais falou para outros ouvirem:
            - Marcelle tem idade da ilusão angelical. Ela é extraordinária. Divina e milagreira. Uma enviada. Uma intermediária. Uma interprete. Uma salvadora.
            Brasília e o Distrito Federal no planalto central. O centro da terra. O avião urbanístico. Os cartões-postais muito limpos e de céu azul, esplanada dos ministérios, catedral, viveiros novacap, ipês-amarelos, cataias, açoita-cavalos, jaborandis, apeíbas, dias muito secos, sol cor de canário-da-terra e vice-versa, sol dardejante e abrasador, ruas sensacionais, lugar para pousos de óvnis, cristais de rochas para dar sorte, um caminho para fora do planeta, córrego de pedras lunares, canela-de-ema, narcejas, festa da mangaba.
            Alice caminhava devagar. Caminhava pela calçada. O sol acendendo as cores, principalmente os amarelos. Alice ria sozinha. Não pensava. Pensava. E ria algumas vezes. Alice não era diferente de ninguém. E ela era completamente estranha, desconhecida, náufraga. Chapéu de palha na cabeça. Aprendendo o nome ou número das quadras.
            - E eu mesma quem sou? Onde estou agora?
            Os esotéricos e esotéricas - saias ou calças largas e longas e floridas, brincos de argolas, riscos de índios na pele - não deixaram mais Marcelle voltar para casa. Não, não queriam deixar. E quando deixavam era porque já haviam decidido vigiá-la dia e noite. Marcelle teve obrigações de exames quase diários e minuciosos. Até a cor verde da mão ir embora. E a cor verde da mão sumiu. E nenhum outro fenômeno novo ou fantástico apareceu no lugar. Assim como veio, de súbito, de repente a cor verde da mão sumiu. Ninguém explicou o comportamento, ninguém soube explicar o comportamento. Só mesmo um milagre. E todos os esotéricos da periferia da capital, e de Alexânia, de Cabeceiras, restaram ali de água na boca. Apregoaram aos quatro ventos:
            - Marcelle será nossa estrela guia, e pronto. Ela está adiantada no tempo. Está pronta para entrar em contato com nossos irmãos extraterrestres. E nos levará para longe desse terceiro e terciário planeta.
            - Poderes teleguiados, quase artificiais, virtuais...
            - Há relações coincidentes que nos surpreendem nas pequenas jogadas. Como achar a agulha. Furar o labirinto com a sorte do principiante. Sorte? Destino? A mão divina? Predestinação? Os deuses conspiram a favor. Que um Deus único e total escreve os mistérios e enigmas com chaves de ouro. Tudo trama, teia, rede. Que os movimentos têm começo, meio e fim. O escrito nas estrelas. Jogo de quebra-cabeça? Jogo de cartas marcadas e que, no final dos tempos, vamos rir de toda essa brincadeira.
            - Vou contar uma premonição que aconteceu comigo. Naquela noite sonhei que vivia no campo, que cuidava de cavalos, éguas, muitos cavalos, cavalo cardão, cavalo punaré, cavalo douradilho, cavalo pinhão. Acordei e pensei comigo: que sonho sem pé nem cabeça! Que sonho quadrúpede! Que ideia foi esta, de onde tirei isso, de um livro? Foi de um filme, de um documentário? Isso de cavalos não existe na minha vida, nunca existiu. No entanto, não demoraram três dias, estava lá eu visitando um haras que não sabia que existia, propriedade de um senhor que nunca vira, e que nem por isso somos amigos. E foi isso mesmo: coisas de coincidências, acasos, sonhos, milagres, previsões, sei lá.
            - Quem crê em Deus acha as coincidências movimentos normais. Pistas do divino. Tramas do divino. Pegadas do divino.
            - As coincidências são as pepitas de ouro em meio ao cascalho comum. O tesouro que a gente vai catando no caminho.
            - E isso não é humano, é esquisito.
            - Nada acontece por acaso.
            - E vem tudo do espaço, das estrelas e de mais longe ainda.
            Alice e Marcelle não iam à parte alguma sem a silenciosa escolta dos esotéricos. Silenciosos e sérios e secantes e amigos e vigilantes. Os esotéricos, as esotéricas confiavam que Marcelle fosse realmente a estrela prometida.
            - Mãe! É verdade que sou estrela?
            - É estrela, sim.
            - Tá, então, sou bonita!
            - Estrela nova.
            - Estrela... estrela... estrela...
            Marcelle brincava com cristais, crescentes, budas de mármore, cruzes de ouro, elefantes de jade, móbiles dourados em forma de pássaros dourados, sacis filhos do vento, pedras verdes com forma de sapo, peixes de metal balançando ao vento, e conversava com o anjo da guarda, brincava e dormia e sonhava e comia e tudo que quisesse sob o teto de casas em forma de gota ou com teto em forma de pirâmide e num chão de terra riscado de figuras mágicas, números cabalísticos.
A menininha Marcelle seria a futura mãe de um novo e definitivo planeta. Marcelle não era o comum canudinho de engolir e desengolir como os simples mortais. Marcelle, então, já estava como que inserida nas profecias, e as coincidências levavam a crer e tudo a ver. Marcelle não seria uma pessoa comum, um zumbi como noventa e nove por cento da população.
            Aí, então, pronto, outra oportunidade Marcelle fez chover. Levitou durante um exercício de ioga e fez chover dentro da casa em forma de gota. Surpreendendo, já que os milagres bem feitos sempre surpreendem. E os esotéricos, então, empolgados, presentearam Marcelle com túnicas que levavam inscrições e cifras chinesas e egípcias, presentearam Marcelle com o martelo de ouro, o chapéu de couro, o medalhão do zodíaco criado pelos maias, o muiraquitã das índias amazonas, e pintaram seu rosto e braços com estrelas importantes, crescentes, decrescentes, meteoros de vassoura e planetas de bambolê, Marcelle estava um mapa do tesouro, pintada de urucum ou jenipapo para a guerra ou a festa na tribo.
            Apesar de calmos e quietos e pacíficos e integrados, os esotéricos ali se empolgaram. E bradaram bradaram com eco e sortilégio:
            - Dragão verde, pássaro vermelho, tigre branco, tartaruga negra!
            - Santos, patriarcas, profetas, inocentes, apóstolos, evangelistas, discípulos, mártires, missionários, confessores!
            - Buda, Brahma, Maomé, Krishna, Cristo!
            - A divindade que existe em mim reconhece a divindade que existe em você!
            - Pajé, xamã, feiticeiro, alquimista, curandeiro, bruxo, caraí, mago!
            - Ambiguidades, não-ditos, trocadilhos, nuances, insinuações, sutilezas, dubiedades, enigmas, malícias, labirintos, jogos de palavras ou figuras!
            - Quero sonhos, intuições, segunda vista, lembranças, subconsciente!
            - Três mil trezentos e trinta e três deuses indianos!
            - Oitenta e oito constelações!
            - Oitenta e seis sabores de sorvetes!
            - Os muito leves como fadas, iaras, silfos e sílfedes, sacis, duendes, musas, princesas, anjos, curupiras, boitatás, teiniaguás, ondinas, elfos, nereidas, cucas, ninfas, huris, peris!
            - Oxalá, xangô, oxóssi, iansã, iemanjá, ogum!
            Os domingos eram mais calmos e tranquilos com menos ecos. Os domingos eram de turistas vestidos de roupas leves e folgadas e coloridas. Os domingos eram de reuniões na capoeira, nas pedras, na montanha. Os domingos eram geralmente de sol o dia todo e de óvnis à noite. Os domingos à tarde eram de tesoureiras, bem-te-vis-de-três-riscas, raríssimos tico-ticos, anus-pretos, beija-flores. E tinha um cãozinho satisfeito de nome Curiboca: gostava de latir para vaiar, aplaudir, cumprimentar, despedir, ofender, elogiar, mendigar, iludir, chalacear.
            Alice já usava um turbante de algodão do Rio Grande do Norte. Gostava de confiar nas estradas, nos rios, nos ventos. Quem tinha pressa de chegar? O mundo sempre será confuso. Alice não tirava licença de ser mãe:
            - Marcelle é inocente. Essa sensibilidade para prodígios e milagres é só uma fase, é só o início, logo ela esquece, logo logo passa. Marcelle realiza seus desejos e sonhos em milagres, mas é sem querer. Acaba o interesse, ela esquece. Ela adora passarinho, flores do campo, árvores verdes, cores, chuva. Ama passear no zoológico e no jardim botânico. Marcelle vê os passarinhos voar e quer ir junto. Um dia, porém, ela adquire o medo de altura, o medo de voar, e já não se importará mais. Nem mais vai sonhar em ser anja ou passarinha. Poderes de criança não são para sempre, quase não duram nada, logo logo acabam.
            Alice levava uma vida de mãe com uma filha milagreira em casa. Quando, então, foi um meio-dia, um esotérico, década de vantagem, veio, chegou, olhou a Alice nos olhos e arriscou pegá-la pela mão. E ele disse como um poeta acostumado com a lua, as estrelas, o sol se pondo, manhãs de chuva rala, o cerrado povoado de gorjeios, e o céu azul:
            - Rá! Ouça!... Escute!... São os sabiás-laranjas.
            - Ou uirapurus-laranjas.
            Alice não precisava aceitar o aperto de mão, mas aceitou. Não precisava assim de repente, mas aceitou. Não gostava ser escolhida, mas escolheu aceitar. Não ia a lugar nenhum mesmo! E havia uma pitangueira e uma jabuticabeira em frente da casinha de gota. Alice ainda olhou para os lados e viu orquídeas e rosas amarelas e flores do campo. Alice, lá ela, tinha já vacinada a idade dos dois dígitos dos trinta anos, ou até menos; e quando mais, só pela segunda-feira de manhã. Alice da boca de mangaba molhada no orvalho. Alice dos cabelos cacheados. O esotérico chilreou:
            - Rá! Os discos voadores encherão a face da terra, Alice. Precisamos recebê-los. Precisamos estar preparados, ou seja, evoluídos.
            - Marcelle não nasceu para ser santa, ela não merece, ninguém merece. Será só uma fase. Marcelle só faz uns milagrezinhos para ela mesma brincar, pro seu dia a dia, sem querer, só para o gasto. É uma canudinha engraçada atirada aos quatro ventos.
            - Rá! Mas nós vimos primeiro. Somos os primeiros da fila. Por enquanto Marcelle faz esses milagres inocentes, tímidos, bonitos e doces como desenho de criança. Mas um dia... Nesse dia futuro Deus falará pela sua boca lá dela. Precisamos estar atentos e por perto, morô?!
            Uma manhã cedo - porque essas coisas de passar os limites sempre acontecem durante a noite -, Marcelle correu se mostrar para Alice. As palavras saltando da boca antes de chegar:
            - Mamãe! Mãe, olha, olha só!
            - Como? Você virou mesmo uma anja com asas e tudo?!
            - Como uma passarinha, uma colibri ou uma libélula. É divertido!
            - Isso não estava nos meus planos sonhados, fia!
            Pois aconteceu de vez: o surgimento de asas nas costas e asinhas nos calcanhares de Marcelle. Esse fenômeno divino que veio para mudar muito a vida das duas, mãe e filha. O que alimentaria, certamente, muita euforia na comunidade esotérica. Um anjo da guarda de asas de ganso, uma anja anunciadora saída das páginas das escrituras. Isso sim confundiria até os mais céticos, os mais alheios, os mais indiferentes.
            Marcelle, pulando pela sala, alegre, rindo, se equilibrando nas asas, ensaiando uns pulinhos, pipilou:
            - Mãe! Posso ir lá fora voar?
            - Não vá muito alto. Não brinque tudo num dia. Deixe um pouco para amanhã e depois. Cuidadíssimo com os fios de alta tensão. Hoje é quinta-feira e o tráfego aéreo de Brasília está saindo todo, um perigo, um escândalo.
            Quando chovia Alice olhava, então, a chuva, assim era do seu gosto. Ficava pensando a sua parte para ela mesma, ao mesmo tempo que educava a filhinha:
            - Não pode sair na chuva, minha anja. Asas ensopadas não batem nem flutuam.
            Alice olhava uma nuvem parecida com continente sulamericano. Era um prazer de horas na janela, na área, o coração contente, quente, silencioso, o corpo todo com vontade de se enrolar no lençol, procurar os sonhos, ouvir a chuva e o vento rebatendo e ricocheteando no telhado, nas árvores, olhava de novo e via uma nuvem parecida com chapéu de boiadeiro, o sol soberano, olhava outra vez e era já uma nuvem com feitio de coração trespassado, pingando gotas de pôr do sol, vermelho, alaranjado, amarelo. E por isso mesmo os seus suspiros não eram nada ou pouco menos que nada. Coisas que se passavam nos dias.
            Daí uma primeira vez, na subida da escada, o esotérico repetiu o pedido:
            - Rá! Me deixe te carregar, Alice? Quero muito saciar minha sede na tua carne macia.
            Alice não precisava responder, e nem tinha pronta resposta, nem respondeu. Seu rosto branco ficou tomate. Enquanto pensava o básico, os braços cruzados com as mãos agarradas aos ombros, o esotérico a recolheu escada acima. Aí, foi que Alice se sentiu rir. E o esotérico a levou direito ao quarto, coisa de vaidade. Então, por acaso, Marcelle escutou, ouviu os risos dos risos e risos, foi também ao quarto, chegou e cruzou a parede como um fantasma. Mas tudo só por pouco, pouco mesmo, pois aquele dia findou ali naquela hora, quase quase no flagra.
            Marcelle tinha que aprender sozinha certas coisas. Como se fosse um filhote de albatroz no penhasco. Gostava de passarinho, gostava de outras coisas. Gostava de flores dispostas e lavadas da chuva, música, frutas doces e agridoces, pipocas, pés de moleque, beijinhos, salgadinhos, suco de caju. E quando, então, via uma ave queria logo logo ir junto. Voar como as araracangas, pular de árvore em árvore, falar na língua das aves e pássaros, olhar como eles olham, seguir os exemplos, dar rasantes no lago Paranoá, abraçar os amiguinhos no ar, pousar nos galhos de flores coloridas, experimentar os frutos mais altos e cantar assobiando, cantar gritando.
            Uma tarde de terça-feira - porque não?! -, quando os três passeavam à beira do Paranoá, jaós, colhereiros, seriemas, garças-brancas, biguás... o vento ali já soprava de leve os cabelos, vento de popa a vinte nós, um verde que parecia chuva e vento, um quati pulava, deitava, rolava e até se engasgava de alegria, os três iam a pé para demorar de chegar e passear umas voltas, não foram de trem nem de helicóptero nem de metrô, iam a pé e não foram de carro, Marcelle voando no alto ao lado - parecia ou não uma pandorga?! - o esotérico se voltou para Alice e falou:
            - Rá! Sabe, Alice?! Marcelle pode mesmo ter sido abduzida. Os sintomas, os sintomas.
            Em meio minuto começou uma chuva forte e gelada. E o céu começou a jorrar, a derreter, a cair, a chiar. Uma dessas pancadas de verão com a água voltando para a terra num novo filme do dilúvio. Marcelle, rapidamente como um passarinho novo, baixou fechando as asas às costas. E os três deitaram o cabelo, riscaram o chão, divertidos, procurando um abrigo seguro. Aquela era uma região de raios, não podiam se abrigar sob as árvores. As pernas pulavam e quase voavam, muito engraçado. Chovia uma chuva grossa e amazônica. Muito engraçado correr na chuva, sob a chuva, encharcados e tal. Aguardaram uns 15 minutos numa parada de ônibus. Olharam admirados cair a chuva por tudo. Marcelle pensou em beijar a chuva, mas aí já era tarde.
E pronto, parou a chuva, o sol se abriu festejado por dois mil pássaros, e as borboletas amarelas, outras tão brancas e ainda os arco-íris de vários tamanhos e risos. Enquanto mosquitos e formigas aladas arriscavam a vida, ou libélulas translúcidas eram vítimas da própria beleza, árvores de todos os tamanhos se secavam no resto do sol caindo na tarde, buritis, pindaíbas, ipês-amarelos, castanheiras, jequitibás, louros-brancos, guaporangas... Marcelle queria olhar para tudo ao mesmo tempo e rindo:
            - Quero um arco-íris. Não posso? Posso?
            - Rá! Vá e pegue, se delicie. Seja rápida antes que subam, se evaporem e se vão.
            Marcelle alcançou pelo menos um, ali sobre a copa das primeiras árvores macias e úmidas. Eram árvores tipo araucárias, caneleiras, xinxins. Arco-íris em faixas de cores leves mais que o ar, sorrisos abertos para cada cor. Marcelle, exercitando as asas novas, deslizou por eles como num tobogã até a superfície do lago. Riu muito com a proeza. Chamou muito atenção com a exibição. Mais alguns minutos. Então, os feixes de luzes foram se esgotando, se enxugando, e acabaram sumindo como por evaporação. Céu azul lavado, cavado.
            Uma manhã de muito vento... Vento sul. Fila indiana de formigas todas passando ao lado do chapéu-de-sol-de-sapo. Parecia que o mundo dançava na canção do tempo. Se ouvia o centro da terra estalar estalar...
            Alice não tinha nenhuma referência de como tratar de Marcelle. Deixava-a brincar no pátio, voando baixo. Agradecia todo tipo de conselho, mas não levava nada muito a sério. Porém, os esotéricos exigiam que ela prestasse atenção, escrevesse relatórios diários e etecétera.
            - Rá! Alice, deixe Marcelle com a gente. Vamos educá-la na tradição. Aprenderá a desenhar, a ler estrelas, a meditar, a recitar mantras o dia todo, nhã-nhã-nhã!... acreditar em discos voadores, em etês, cristais mágicos, não comerá carne de jeito nenhum, debaterá filosofias com os magos e astrônomos e astrólogos, se isolará da cidade longe dos shopping centers e da internet e dos joguinhos eletrônicos e celulares, reparará que as pedras tendem a crescer, que as pedras riem, que as árvores cantam na língua do flaflar, que os passarinhos cantam por um motivo e têm território, que os sapos são fundamentais para o equilíbrio de todo o ambiente, que as borboletas têm uma semana de vida ou uma trepadinha de vida.
            Marcelle era uma anja amiga, mensageira. Não chegara, ainda, até as nuvens porque Alice tinha receios de desastres. Os esotéricos mesmo ensinavam a menininha a ouvir poesia, música indiana, tocar flauta-doce, se enfeitar com colares, pulseiras, cangas, tornozeleiras, desenhos de índio no rosto. Marcelle sentava no chão com as pernas cruzadas, ou pousava como alma-de-gato no galho da árvore, na aba da casa, e tocava flauta-doce muito e ouvia e aprendia tanto que só vendo. Marcelle tocava sentada no sofá, na cama, na mesa de refeições. Decorava versos ou poemas inteiros, praticava teatro. Aprendia tudo rapidinho e gostava, tocava harpa caminhando pela casa, pelo pátio, recitando e caminhando pelos passeios assombrando os passarinhos, seguida pelas borboletas azuis de olhos negros nas asas, a ideia dela meio que ausente de coisas fortes, mais para ideias passageiras.
            - Não voe alto. E não caminhe sobre o lago.
            Difícil de entender o ritmo mágico de Marcelle. Ela podia muito bem desenhar um beija-flor no papel e este sair voando quando quisesse. Ou chorar, caso ela mesma não soubesse desenhar as asas. Às vezes ainda Marcelle não sabia a exata cor da flor, uma margarida maior que a casa, o sol preso ao fio qual uma pandorga. Abria a mão e aparecia uma estrela-do-mar em pleno cerrado: uma estrela-do-mar do tamanho da mão, cinco braços, sem perninhas e com vontade de voar, a cor variando conforme o que seja ou o que for, comendo todo tipo de frutas e doces e sorvetes.
Alice deixava rolar. Os esotéricos não largavam a menina, tomavam as lições, e isso era sempre. Alice se sentia espectadora. Alice queria a filha debaixo da sua asa. Alice queria a filha para passear no shopping, comer pipoca caminhando ao redor do lago, ler uma história de livro ilustrado, aprender geografia com o dedo no mapa colorido. Os esotéricos tinham planos, tinham visões, tinham esperança de eternidade nos olhos, tinham pressa, tinham insônias:
            - Rá! Alice, sua filha Marcelle nasceu para libertar a humanidade, nos dar um sentido universal de fato.
            Os dias sucediam os dias. As pessoas humanas e anônimas, todo o mundo que trabalha, indo e vindo do lado do pega. O mundo girando, dizem. O rio correndo na direção, no sentido, no juízo e no juízo do mar. O vento que vinha sempre do lado que vem a chuva. O lado da árvore que chove mais. 
            Lá vinha o esotérico caminhando como homem. Lá vinha ele, separado por duzentos metros a olho nu. De longe não parecia ser um galego atrapalhado. E de perto, falou:
            - Rá! Os tais discos voadores, as estrelas cadentes, as pirâmides dos maias, a pedra da Gávea, a cidade de Atlântida.
            Acreditavam que um dia viria uma estrela de uma distante estrela para recolher os eleitos. E estes eleitos estariam prontos e doces e seriam eles.
            - Rá! Breve estaremos aptos para a salvação. Se já não estamos.
            Alice abriu o livro numa página casual, sentou ali fora no degrau perto do canteiro de flores, sentiu uma vontade de ler, abriu o livro do Quintana, do Manuel, da Clarice e começou a ver uma história de índios pintados e emplumados, e os índios tinham sede de supermercado, todos vestidos para as compras, e de repente esses índios se chamavam xavante, eram brabos porque queriam picapes vermelhas, de supetão invadiram o planalto central, eram tantos que vinham todos os canela, os gavião, os arara, os boca-preta, os orelha-de-pau, os beiço-de-pau... sendo que Alice se viu mesmo cercada, ouviu gritos de folia, desfile de índios e índias, as lojas do shopping invadidas, as concessionárias tomadas, os cafés muito cheios, uma indiazinha pintada de urucum segurava no colo um cachorrinho felpudo de orelhas enormes e cor amarelo-torrado e vivo e anônimo, outro índio experimentava o tênis com luzinha no solado, outra índia experimentava um carrinho de bebê, outro índio olhava um celular, o cachorrinho da indiazinha era tão felpudo e simpático, cara de pedinte, que Alice voltou novamente para ele sua atenção, era sim um cãozinho tímido que não sabia se colocar na loja de mil objetos de vender, e de olhar pedinte, mas pedindo o quê?, e a indiazinha tinha idade para ser Marcelle?, e pronto, o cãozinho já podia ser amado e acariciado, podia ouvir interjeições e receber agrados, podia rolar no chão e se sufocar de alegria, pelo felpudo, orelhas grandes que podiam muito bem cobrir a cara se quisesse, podia ser alisado, pego no colo, tratado com biscoito, e Alice parou de ler, ergueu os olhos do livro para o nada a sua frente, pensou, olhar sonhador de não saber nada, foi pensando, olhar de pensar poesias, quem tem pressa de chegar?, querendo mesmo ter um cachorrinho que se chamasse Tapuio.
            - Tapuio ladraria inadvertidamente. Tapuio me acompanharia, e à Marcelle, por onde a gente fosse. Tapuio me reconheceria. Tapuio me olharia com a cabeça meio de lado. Tapuio me olharia com admiração e amor. Mandaria Tapuio sentar e ele imediatamente atenderia sentando. Mandaria deitar e ele deitaria com um bocejo de sono.
            A ansiedade dos esotéricos olhava, reparava, aguardava o calendário. E o tempo dizia que as almas vão às estrelas, as saudades vão às estrelas, os sonhos da infância vão às estrelas, os objetos extraviados vão às estrelas. Embora também se sonhe que o tempo por lá, entre estrelas incontáveis, não tenha pressa, não corra, não voe, não calcule e, se pode dizer também, que nem é levado a sério. E os objetos perdidos também irão parar lá entre elas, as estrelas, sem que ninguém fique sabendo, sem que ninguém reclame. E os grilos também nascem entre as mesmas estrelas, sem que se saiba o poraquê.
            Alice e esotérico vagando pela cidade planejada, num dia de feriado parlamentar.
            - Quantos palácios! Que beleza!
            - Rá! Nesta mesma praça, cinco anos atrás, havia um cartão-postal. Hoje, você vê e se deslumbra, há três cartões-postais.
            Bando de araras-azuis-grandes em sintonia com os agrupamentos de buritis. Tesoureiras com ipês-amarelos. Bem-te-vis com paineiras. Andorinhas nos fios elétricos. Namorados pedindo para tirar fotos. Amiguinhas juntando a cabeça e tirando foto no celular. E alguma coisa precisava ser feito. Uma família de capivaras tomando banho no espelho de água. E outros bichos, o gambá, o tatu, o bicho-preguiça, a anta. Raríssimos palácios com gramado em volta, palácio da Alvorada, palácio do Planalto, palácio do Itamaraty. Um avião da FAB voando baixo. Todo mundo andando pelos caminhos para ver se acontecia alguma coisa.
            À noite Alice retomou a leitura. Além dos índios cinta-larga, havia outros, xikrín, tenetehára, kayapó, apinayé, xerente, bororo... e bastava Alice seguir a história, passar as páginas, os índios e índias queriam cestas básicas e ônibus com horários regulares na aldeia, queriam um canal de tevê, queriam derrubar torre de alta tensão, queriam vender mina de diamantes, queriam participação na usina hidroelétrica, queriam um Estado da federação, e mais tribos de distantes plagas como os parintintim, terena, nambiquara, kaingang, mehináku, kaxarari, jarauára, guajajara, potiguara... e queriam fazer time de futebol, casas com banheiro e tevê no quarto, poligamia, cartão de crédito, computador, celular, viagens ao exterior, mergulhos no atol das Rocas, férias na enseada de Mucuripe.
            Alice ouviu um auê!... um buê!... vindo do pátio. Marcelle estava no pátio em voos baixos, calmos e curtos. O Tapuio latia e acoava. Alice foi conferir. Era Marcelle que punha o cachorrinho tenso porque ele já não conseguia voar junto dela. Marcelle jogava um graveto que Tapuio ia buscar pressuroso, sem fôlego, coração mais rápido que as pernas. E Tapuio queria ainda agarrar borboletas no ar, dava pulos com latidos e outras cenas da tarde.
            Daí a pouco, Marcelle desenhava na folha de caderno árvores verdes ao lado de árvores vermelhas e outras amarelas, sentada no chão, o caderno entre as perninhas, Marcelle desenhava uma floresta com todas as cores, o Tapuio farejando a areia de um rio, depois o cão aparecendo no meio do capão, nos galhos mais altos também, talvez mesmo nas nuvens, e nadando no rio, ali era outra coisa, como uma aldeia no Xingu, os índios assistindo tevê na casa dos homens, e foi nesse mesmo momento que a menininha Marcelle, de asas às costas, entrou na aldeia, ela ainda vinha carregando o cãozinho Tapuio debaixo do braço, a cauda lá dele espetada no ar, as orelhas lá dele como parabólicas pesquisando o entorno, os índios cheios de perguntas, logo logo os dois cercados pelos índios da tribo, a tribo inteira enfeitada de relógios digitais, bonés de marca, calções vermelhos ou azuis, o som de um forró no rádio, mulheres com sutiãs e minissaia, curumim com bola debaixo do braço, cunhantaim com boneca de pano nos braços, toda a tribo cercou os dois visitantes incautos, parecia que o mundo ia parar, mas não parou, porém quase parou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário