Um
dia Alice viu muito bem, estavam no pátio, ninguém lhe contou, o outro mais um
milagre de Marcelle. Os passarinhos pregando a manhã. E Marcelle quieta como em
transe, concentrada num ponto fora do tempo e do espaço, fora do rio, fora da
estrada, um médium incorporando, fora do vento, fora do mar, fora das
capacidades humanas normais, fora de si.
Estavam no
pátio. E assim, como se Marcelle não quisesse nada nada, de súbito, ela fez um
gesto, um desenho no ar com a mão, e como se
o ar livre fosse a tela de pintura, um papel em branco, apareceu um
arco-íris com todas as cores bem dispostas. E essa figura, que só um ser divino
sabe fazer tão bem, se sustentou aí no ar por minutos. Até Marcelle brincar e
brincar, até Marcelle querer e acabar de gostar. E Marcelle gostou:
-
Gosto porque gosto! Tão bom gostar!
Vovó
falou de Marcelle, comentando com Alice:
-
Marcelle não existe, ou então estou sonhando.
E
Alice, com um sorriso de quem viu o milagre pela primeira vez:
-
Não me diga! Que será e que não será?
E
Alice, mãe, não disse mais nada, não pensou mais muita coisa; será que tinha
visto tudo?
Marcelle,
menininha engraçada, não era de milagres o tempo todo, comia pouco e acordava
com olheiras, tinha um dom para coisas dificílimas. Quando não precisava de
milagres, se contentava com o que já vinha na embalagem do comum. Não sabia se
corria, ria, pulava, falava. Marcelle fazia milagres para seu próprio gosto
exclusivo, ficava invisível, atravessava paredes, flutuava, seu poder se
concentrava no coração e saía pelas pontas dos dedos. Acordava com vontade de
falar. E corria, pulava, ria, conversava com as plantas e os insetos.
-
O céu é perto? O céu é bem longe?
Alice
olhava a sério o comportamento da filha. Estava toda mãe. Solicitava que
Marcelle pusesse a língua, repetisse trinta e três, que respirasse fundo.
Consultava os olhos fundos de insônia da menina e se tinha dor de cabeça, se
tinha dor de barriga. O céu estava ali, a cidade ali, o mar um pouco mais lá
para o oceano:
-
Quer passear? Vamos a algum lugar? Diga: trinta e três tigrinhos trigueiros
trilegais num trigal tridimensional.
Era
isso, Alice foi andar, achou melhor caminhar ladeira acima ladeira abaixo,
caminhou e passeou de filósofo com as mãos às costas, bateu perna porque com
certeza lhe pesavam muitas coisas no pensamento. Sim, pois o destino é muitas
vezes engraçado demais. Deixar correr o rio, fluir. O futuro é nosso meio de
vida. Raciocínios que iludem e reclamam. Cidades rios como Rio Pardo, Rio
Negro, Rio Branco, Rio Bonito, Rio Preto. Cidades boas porque sempre inéditas.
Alice nunca achara nada, se olhou por dentro, se viu na vitrina, se viu de
fora. Todos mudam de ideia. Procurar uma cidade qualquer:
-
Ninguém sabe o que irá acontecer.
A
avó se sentou na cadeira de balanço lá fora na sombra da sucupira-da-mata. Se
embalava devagarzinho. A plantação de rosas, orquídeas silenciosas, borboletas,
besouros, joaninhas. E sorria se lembrando de um milagre que Marcelle realizara
a poucos dias. Foi justamente assim: Marcelle olhou um passarinho e quis voar
também, bateu os braços e imediatamente começou a subir no ar, a flutuar, indo
de um lado para outro, e voou até sobre a casa e as árvores do pátio, suou
muito, viu as coisas de um ângulo de helicóptero, ou de beija-flor, ou ainda de
anjo, e parou somente à noitinha quando desceu e foi tomar banho.
Pois, a avó
sabia que a Marcelle só fazia milagres assim para brincar, na maior inocência,
na maior calma, uma menininha inocente, uma passarinha sem prática, uma
libélula doidinha confundida entre os sonhos e as realidades, pensando que
podia o impossível, sem saber o que podia e não podia, olhos de oceano ou de
lagoa sob céu claro, olhos de vento verde. Então, depois de pensar isso, a avó
saiu para esquentar água para um chá de folha de laranjeira ou camomila.
Salvador,
a primeira capital do país. Um carro de som passava todas as ruas, todos os dias
para anunciar a festa. Prédio estilo neoclássico, dois prédios estilo, três
prédios. Alice coberta de abelhas e besouros e colibris na feira livre. As
pessoas chegavam, sorriam, discutiam cores e perfumes.
Todas
as manhãs, as que não choviam - o céu sabia chover chegando do oceano -, a avó
se sentava no pátio debaixo da sucupira-da-mata, se embalava na cadeira, ou
andava entre as flores povoadas de borboletas amarelas, azuis, trêmulas,
azul-clarinhas, e tratava os passarinhos do dia, pintassilgos, corruíras,
sebinhos, coleirinhas-do-brejo...
A avó, então,
assim sem querer, parava para pensar, se preocupava, como se lembrasse de algo
inédito por acontecer:
-
Será hoje dia de milagres, meu Deus?
A
avó sabia que história de milagres eram coisas de Deus, e de santos.
-
Será Marcelle um anjo de alta categoria? Será Marcelle uma anja de alta
voltagem? Será Marcelle uma anja de alta linhagem?
Marcelle
acordava e, pronto, os colibris a cercavam ali no pátio. Marcelle esvoaçava
entre as copas das árvores, brincando. Depois aprendia com os colibris a
cheirar as flores sem amassá-las. E só em raros dias Marcelle esquecia de fazer
os seus milagres. Exatamente nos dias quando as brincadeiras não careciam de
inventos miraculosos. Precisando dos milagres ela os realizava na maior sem
cerimônia. Anja transparente vestida de saiotes largos e azuis, fita amarela na
cabeça, cabelos soltos e quase em
fúria. Uma alegria obrigatória e própria lá dela. Voava baixo
agitando os braços e não ia longe. Marcelle será sempre esse um ser humano,
menininha engraçada e espontânea:
-
Estou até com vontade de rir.
Alice
pensou durante toda uma manhã, em silêncio, ensimesmada, ausente, concentrada,
distraída do, zunzunzum!... das abelhas e zangões, trancada em si e, depois,
comentou com a avó:
-
Eu acho, sabe, que Marcelle precisa se distrair com coisas concretas. Ou
devíamos colocá-la numa universidade. Trocar ideias com doutores, com mestres,
com sábios, com espertos. Quem sabe seja menina prodígio.
-
Hoje Marcelle me contou um sonho. E ela me disse ter sonhado um bando de jaós.
Foi isso.
-
Um ninhal de jaós?
-
Um bando de jaós com jaozinhos ainda depenados. Foi isso.
-
Estou aqui, estou quieta e só estou imaginando...
-
Aves grandes, pescadoras. Foi isso.
Marcelle
era uma criança já com as primeiras letras e palavras, descobrindo os nomes das
geografias, era a fase da repetição muito cansativa das mesmas frases, de
perguntar tudo, de falar com bonecas, falar com árvores, falar com espelhos,
falar com bichos de estimação, conversar com abelhas ou libélulas que visitam
lagoinhas, falar com mãe e avó sem hora marcada, cascatas de perguntas, rir de
qualquer coisa e a qualquer hora, tudo tão divertido, e uma certa impaciência
se a coisa demorasse:
-
Demora um ano...
E
se a mãe, ou a avó, demorasse mais um pouco:
-
Demora dois anos...
Demorava
mais cinco minutos:
-
Demora três anos...
O
rapaz das rosas amarelas e orquídeas estranhas, continuaria na feira vendendo
suas rosas vermelhas, brancas, amarelas, cor-de-rosa e orquídeas lilases,
doidas, azuis, brancas, verdes. A avó decidiu que sentia mais saudades dos
cuidados do asilo, dos bancos do jardim do asilo, das pitangueiras do asilo,
dos bancos de sentar na sombra no pátio do asilo.
Alice e
Marcelle foram morar para Brasília, cidade que já se sabia de pessoas sem
esquinas, Centro-Oeste brasileiro, praça dos Três Poderes. Alice não sabia o
que aconteceria com os milagres de Marcelle. Talvez fosse uma fase. Milagres,
quem sabe, fossem somente casos raros que com a idade acabariam por ser
esquecidos.
-
O que é que você está vendo, filhinha?
-
Ajuda a olhar, mãe!
Ela,
Alice, escolhia ir por tal caminho, sotavento, e escolheu também outros
caminhos. Caminhar, pegar as estradas, se deixar levar aos muitos destinos. E é
e será uma maratona. Viajar é surpresa e surpreendente. Somos viajantes:
viajamos ou sonhamos viajar. A viagem pode trazer uma solução.
Quando
uma vez, no café da manhã, Marcelle mostrou a mão verde que havia ganho durante
a noite, talvez consequência do sonho, Alice acabou por se assustar e correu
imediatamente se aconselhar com os esotéricos da cidade satélite de Luziânia.
Estes, gente boa e quieta, que habitavam casas de gesso em forma de gota,
janelas e portas em forma de gota, esotéricos e purificados, olharam as mãos de
Marcelle, olharam os dedos de Marcelle, olharam para os olhos de Marcelle,
olharam e reconheceram a garotinha Marcelle. Imediatamente pensaram estar
diante de alguém com poderes especiais ou espaciais, alguém que lhes pareceu
enviada, alguém que não deviam perder de vista, alguém extra e encantado. E
assim encheram mãe e filha de intermináveis hipóteses, cataratas de dúvidas,
meses de respostas, séculos de perguntas, profundas questões:
-
Os sonhos são verdes. Os anjos são verdes. O planeta de onde veio é verde. A
luz é verde. Verdes são os olhos.
Alguém
mais falou para outros ouvirem:
-
Marcelle tem idade da ilusão angelical. Ela é extraordinária. Divina e
milagreira. Uma enviada. Uma intermediária. Uma interprete. Uma salvadora.
Brasília
e o Distrito Federal no planalto central. O centro da terra. O avião
urbanístico. Os cartões-postais muito limpos e de céu azul, esplanada dos
ministérios, catedral, viveiros novacap, ipês-amarelos, cataias,
açoita-cavalos, jaborandis, apeíbas, dias muito secos, sol cor de
canário-da-terra e vice-versa, sol dardejante e abrasador, ruas sensacionais,
lugar para pousos de óvnis, cristais de rochas para dar sorte, um caminho para
fora do planeta, córrego de pedras lunares, canela-de-ema, narcejas, festa da
mangaba.
Alice
caminhava devagar. Caminhava pela calçada. O sol acendendo as cores,
principalmente os amarelos. Alice ria sozinha. Não pensava. Pensava. E ria
algumas vezes. Alice não era diferente de ninguém. E ela era completamente
estranha, desconhecida, náufraga. Chapéu de palha na cabeça. Aprendendo o nome
ou número das quadras.
-
E eu mesma quem sou? Onde estou agora?
Os
esotéricos e esotéricas - saias ou calças largas e longas e floridas, brincos
de argolas, riscos de índios na pele - não deixaram mais Marcelle voltar para
casa. Não, não queriam deixar. E quando deixavam era porque já haviam decidido
vigiá-la dia e noite. Marcelle teve obrigações de exames quase diários e
minuciosos. Até a cor verde da mão ir embora. E a cor verde da mão sumiu. E
nenhum outro fenômeno novo ou fantástico apareceu no lugar. Assim como veio, de
súbito, de repente a cor verde da mão sumiu. Ninguém explicou o comportamento,
ninguém soube explicar o comportamento. Só mesmo um milagre. E todos os
esotéricos da periferia da capital, e de Alexânia, de Cabeceiras, restaram ali
de água na boca. Apregoaram aos quatro ventos:
-
Marcelle será nossa estrela guia, e pronto. Ela está adiantada no tempo. Está
pronta para entrar em contato com nossos irmãos extraterrestres. E nos levará
para longe desse terceiro e terciário planeta.
-
Poderes teleguiados, quase artificiais, virtuais...
-
Há relações coincidentes que nos surpreendem nas pequenas jogadas. Como achar a
agulha. Furar o labirinto com a sorte do principiante. Sorte? Destino? A mão divina?
Predestinação? Os deuses conspiram a favor. Que um Deus único e total escreve
os mistérios e enigmas com chaves de ouro. Tudo trama, teia, rede. Que os
movimentos têm começo, meio e fim. O escrito nas estrelas. Jogo de
quebra-cabeça? Jogo de cartas marcadas e que, no final dos tempos, vamos rir de
toda essa brincadeira.
-
Vou contar uma premonição que aconteceu comigo. Naquela noite sonhei que vivia
no campo, que cuidava de cavalos, éguas, muitos cavalos, cavalo cardão, cavalo
punaré, cavalo douradilho, cavalo pinhão. Acordei e pensei comigo: que sonho
sem pé nem cabeça! Que sonho quadrúpede! Que ideia foi esta, de onde tirei
isso, de um livro? Foi de um filme, de um documentário? Isso de cavalos não
existe na minha vida, nunca existiu. No entanto, não demoraram três dias,
estava lá eu visitando um haras que não sabia que existia, propriedade de um
senhor que nunca vira, e que nem por isso somos amigos. E foi isso mesmo:
coisas de coincidências, acasos, sonhos, milagres, previsões, sei lá.
-
Quem crê em Deus acha as coincidências movimentos normais. Pistas do divino.
Tramas do divino. Pegadas do divino.
-
As coincidências são as pepitas de ouro em meio ao cascalho comum. O tesouro
que a gente vai catando no caminho.
-
E isso não é humano, é esquisito.
-
Nada acontece por acaso.
-
E vem tudo do espaço, das estrelas e de mais longe ainda.
Alice
e Marcelle não iam à parte alguma sem a silenciosa escolta dos esotéricos.
Silenciosos e sérios e secantes e amigos e vigilantes. Os esotéricos, as
esotéricas confiavam que Marcelle fosse realmente a estrela prometida.
-
Mãe! É verdade que sou estrela?
-
É estrela, sim.
-
Tá, então, sou bonita!
-
Estrela nova.
-
Estrela... estrela... estrela...
Marcelle
brincava com cristais, crescentes, budas de mármore, cruzes de ouro, elefantes
de jade, móbiles dourados em forma de pássaros dourados, sacis filhos do vento,
pedras verdes com forma de sapo, peixes de metal balançando ao vento, e
conversava com o anjo da guarda, brincava e dormia e sonhava e comia e tudo que
quisesse sob o teto de casas em forma de gota ou com teto em forma de pirâmide
e num chão de terra riscado de figuras mágicas, números cabalísticos.
A menininha
Marcelle seria a futura mãe de um novo e definitivo planeta. Marcelle não era o
comum canudinho de engolir e desengolir como os simples mortais. Marcelle,
então, já estava como que inserida nas profecias, e as coincidências levavam a
crer e tudo a ver. Marcelle não seria uma pessoa comum, um zumbi como noventa e
nove por cento da população.
Aí,
então, pronto, outra oportunidade Marcelle fez chover. Levitou durante um
exercício de ioga e fez chover dentro da casa em forma de gota. Surpreendendo,
já que os milagres bem feitos sempre surpreendem. E os esotéricos, então,
empolgados, presentearam Marcelle com túnicas que levavam inscrições e cifras
chinesas e egípcias, presentearam Marcelle com o martelo de ouro, o chapéu de
couro, o medalhão do zodíaco criado pelos maias, o muiraquitã das índias
amazonas, e pintaram seu rosto e braços com estrelas importantes, crescentes,
decrescentes, meteoros de vassoura e planetas de bambolê, Marcelle estava um
mapa do tesouro, pintada de urucum ou jenipapo para a guerra ou a festa na
tribo.
Apesar
de calmos e quietos e pacíficos e integrados, os esotéricos ali se empolgaram.
E bradaram bradaram com eco e sortilégio:
-
Dragão verde, pássaro vermelho, tigre branco, tartaruga negra!
-
Santos, patriarcas, profetas, inocentes, apóstolos, evangelistas, discípulos,
mártires, missionários, confessores!
-
Buda, Brahma, Maomé, Krishna, Cristo!
-
A divindade que existe em mim reconhece a divindade que existe em você!
-
Pajé, xamã, feiticeiro, alquimista, curandeiro, bruxo, caraí, mago!
-
Ambiguidades, não-ditos, trocadilhos, nuances, insinuações, sutilezas,
dubiedades, enigmas, malícias, labirintos, jogos de palavras ou figuras!
-
Quero sonhos, intuições, segunda vista, lembranças, subconsciente!
-
Três mil trezentos e trinta e três deuses indianos!
-
Oitenta e oito constelações!
-
Oitenta e seis sabores de sorvetes!
-
Os muito leves como fadas, iaras, silfos e sílfedes, sacis, duendes, musas,
princesas, anjos, curupiras, boitatás, teiniaguás, ondinas, elfos, nereidas,
cucas, ninfas, huris, peris!
-
Oxalá, xangô, oxóssi, iansã, iemanjá, ogum!
Os
domingos eram mais calmos e tranquilos com menos ecos. Os domingos eram de
turistas vestidos de roupas leves e folgadas e coloridas. Os domingos eram de
reuniões na capoeira, nas pedras, na montanha. Os domingos eram geralmente de
sol o dia todo e de óvnis à noite. Os domingos à tarde eram de tesoureiras,
bem-te-vis-de-três-riscas, raríssimos tico-ticos, anus-pretos, beija-flores. E
tinha um cãozinho satisfeito de nome Curiboca: gostava de latir para vaiar,
aplaudir, cumprimentar, despedir, ofender, elogiar, mendigar, iludir,
chalacear.
Alice
já usava um turbante de algodão do Rio Grande do Norte. Gostava de confiar nas
estradas, nos rios, nos ventos. Quem tinha pressa de chegar? O mundo sempre
será confuso. Alice não tirava licença de ser mãe:
-
Marcelle é inocente. Essa sensibilidade para prodígios e milagres é só uma
fase, é só o início, logo ela esquece, logo logo passa. Marcelle realiza seus
desejos e sonhos em milagres, mas é sem querer. Acaba o interesse, ela esquece.
Ela adora passarinho, flores do campo, árvores verdes, cores, chuva. Ama
passear no zoológico e no jardim botânico. Marcelle vê os passarinhos voar e
quer ir junto. Um dia, porém, ela adquire o medo de altura, o medo de voar, e
já não se importará mais. Nem mais vai sonhar em ser anja ou passarinha. Poderes
de criança não são para sempre, quase não duram nada, logo logo acabam.
Alice
levava uma vida de mãe com uma filha milagreira em casa. Quando , então,
foi um meio-dia, um esotérico, década de vantagem, veio, chegou, olhou a Alice
nos olhos e arriscou pegá-la pela mão. E ele disse como um poeta acostumado com
a lua, as estrelas, o sol se pondo, manhãs de chuva rala, o cerrado povoado de
gorjeios, e o céu azul:
-
Rá! Ouça!... Escute!... São os sabiás-laranjas.
-
Ou uirapurus-laranjas.
Alice
não precisava aceitar o aperto de mão, mas aceitou. Não precisava assim de
repente, mas aceitou. Não gostava ser escolhida, mas escolheu aceitar. Não ia a
lugar nenhum mesmo! E havia uma pitangueira e uma jabuticabeira em frente da
casinha de gota. Alice ainda olhou para os lados e viu orquídeas e rosas
amarelas e flores do campo. Alice, lá ela, tinha já vacinada a idade dos dois
dígitos dos trinta anos, ou até menos; e quando mais, só pela segunda-feira de
manhã. Alice da boca de mangaba molhada no orvalho. Alice dos cabelos
cacheados. O esotérico chilreou:
-
Rá! Os discos voadores encherão a face da terra, Alice. Precisamos recebê-los.
Precisamos estar preparados, ou seja, evoluídos.
-
Marcelle não nasceu para ser santa, ela não merece, ninguém merece. Será só uma
fase. Marcelle só faz uns milagrezinhos para ela mesma brincar, pro seu dia a
dia, sem querer, só para o gasto. É uma canudinha engraçada atirada aos quatro
ventos.
-
Rá! Mas nós vimos primeiro. Somos os primeiros da fila. Por enquanto Marcelle
faz esses milagres inocentes, tímidos, bonitos e doces como desenho de criança.
Mas um dia... Nesse dia futuro Deus falará pela sua boca lá dela. Precisamos
estar atentos e por perto, morô?!
Uma
manhã cedo - porque essas coisas de passar os limites sempre acontecem durante
a noite -, Marcelle correu se mostrar para Alice. As palavras saltando da boca
antes de chegar:
-
Mamãe! Mãe, olha, olha só!
-
Como? Você virou mesmo uma anja com asas e tudo?!
-
Como uma passarinha, uma colibri ou uma libélula. É divertido!
-
Isso não estava nos meus planos sonhados, fia!
Pois
aconteceu de vez: o surgimento de asas nas costas e asinhas nos calcanhares de
Marcelle. Esse fenômeno divino que veio para mudar muito a vida das duas, mãe e
filha. O que alimentaria, certamente, muita euforia na comunidade esotérica. Um
anjo da guarda de asas de ganso, uma anja anunciadora saída das páginas das
escrituras. Isso sim confundiria até os mais céticos, os mais alheios, os mais
indiferentes.
Marcelle,
pulando pela sala, alegre, rindo, se equilibrando nas asas, ensaiando uns
pulinhos, pipilou:
-
Mãe! Posso ir lá fora voar?
-
Não vá muito alto. Não brinque tudo num dia. Deixe um pouco para amanhã e
depois. Cuidadíssimo com os fios de alta tensão. Hoje é quinta-feira e o
tráfego aéreo de Brasília está saindo todo, um perigo, um escândalo.
Quando
chovia Alice olhava, então, a chuva, assim era do seu gosto. Ficava pensando a
sua parte para ela mesma, ao mesmo tempo que educava a filhinha:
-
Não pode sair na chuva, minha anja. Asas ensopadas não batem nem flutuam.
Alice
olhava uma nuvem parecida com continente sulamericano. Era um prazer de horas
na janela, na área, o coração contente, quente, silencioso, o corpo todo com
vontade de se enrolar no lençol, procurar os sonhos, ouvir a chuva e o vento
rebatendo e ricocheteando no telhado, nas árvores, olhava de novo e via uma
nuvem parecida com chapéu de boiadeiro, o sol soberano, olhava outra vez e era
já uma nuvem com feitio de coração trespassado, pingando gotas de pôr do sol,
vermelho, alaranjado, amarelo. E por isso mesmo os seus suspiros não eram nada
ou pouco menos que nada. Coisas que se passavam nos dias.
Daí
uma primeira vez, na subida da escada, o esotérico repetiu o pedido:
-
Rá! Me deixe te carregar, Alice? Quero muito saciar minha sede na tua carne
macia.
Alice
não precisava responder, e nem tinha pronta resposta, nem respondeu. Seu rosto
branco ficou tomate. Enquanto pensava o básico, os braços cruzados com as mãos
agarradas aos ombros, o esotérico a recolheu escada acima. Aí, foi que Alice se
sentiu rir. E o esotérico a levou direito ao quarto, coisa de vaidade. Então,
por acaso, Marcelle escutou, ouviu os risos dos risos e risos, foi também ao
quarto, chegou e cruzou a parede como um fantasma. Mas tudo só por pouco, pouco
mesmo, pois aquele dia findou ali naquela hora, quase quase no flagra.
Marcelle
tinha que aprender sozinha certas coisas. Como se fosse um filhote de albatroz
no penhasco. Gostava de passarinho, gostava de outras coisas. Gostava de flores
dispostas e lavadas da chuva, música, frutas doces e agridoces, pipocas, pés de
moleque, beijinhos, salgadinhos, suco de caju. E quando, então, via uma ave
queria logo logo ir junto. Voar como as araracangas, pular de árvore em árvore,
falar na língua das aves e pássaros, olhar como eles olham, seguir os exemplos,
dar rasantes no lago Paranoá, abraçar os amiguinhos no ar, pousar nos galhos de
flores coloridas, experimentar os frutos mais altos e cantar assobiando, cantar
gritando.
Uma
tarde de terça-feira - porque não?! -, quando os três passeavam à beira do
Paranoá, jaós, colhereiros, seriemas, garças-brancas, biguás... o vento ali já
soprava de leve os cabelos, vento de popa a vinte nós, um verde que parecia
chuva e vento, um quati pulava, deitava, rolava e até se engasgava de alegria,
os três iam a pé para demorar de chegar e passear umas voltas, não foram de
trem nem de helicóptero nem de metrô, iam a pé e não foram de carro, Marcelle
voando no alto ao lado - parecia ou não uma pandorga?! - o esotérico se voltou
para Alice e falou:
-
Rá! Sabe, Alice?! Marcelle pode mesmo ter sido abduzida. Os sintomas, os
sintomas.
Em
meio minuto começou uma chuva forte e gelada. E o céu começou a jorrar, a
derreter, a cair, a chiar. Uma dessas pancadas de verão com a água voltando
para a terra num novo filme do dilúvio. Marcelle, rapidamente como um
passarinho novo, baixou fechando as asas às costas. E os três deitaram o
cabelo, riscaram o chão, divertidos, procurando um abrigo seguro. Aquela era
uma região de raios, não podiam se abrigar sob as árvores. As pernas pulavam e
quase voavam, muito engraçado. Chovia uma chuva grossa e amazônica. Muito
engraçado correr na chuva, sob a chuva, encharcados e tal. Aguardaram uns 15
minutos numa parada de ônibus. Olharam admirados cair a chuva por tudo.
Marcelle pensou em beijar a chuva, mas aí já era tarde.
E pronto,
parou a chuva, o sol se abriu festejado por dois mil pássaros, e as borboletas
amarelas, outras tão brancas e ainda os arco-íris de vários tamanhos e risos.
Enquanto mosquitos e formigas aladas arriscavam a vida, ou libélulas
translúcidas eram vítimas da própria beleza, árvores de todos os tamanhos se
secavam no resto do sol caindo na tarde, buritis, pindaíbas, ipês-amarelos,
castanheiras, jequitibás, louros-brancos, guaporangas... Marcelle queria olhar
para tudo ao mesmo tempo e rindo:
-
Quero um arco-íris. Não posso? Posso?
-
Rá! Vá e pegue, se delicie. Seja rápida antes que subam, se evaporem e se vão.
Marcelle
alcançou pelo menos um, ali sobre a copa das primeiras árvores macias e úmidas.
Eram árvores tipo araucárias, caneleiras, xinxins. Arco-íris em faixas de cores
leves mais que o ar, sorrisos abertos para cada cor. Marcelle, exercitando as
asas novas, deslizou por eles como num tobogã até a superfície do lago. Riu
muito com a proeza. Chamou muito atenção com a exibição. Mais alguns minutos.
Então, os feixes de luzes foram se esgotando, se enxugando, e acabaram sumindo
como por evaporação. Céu azul lavado, cavado.
Uma
manhã de muito vento... Vento sul. Fila indiana de formigas todas passando ao
lado do chapéu-de-sol-de-sapo. Parecia que o mundo dançava na canção do tempo.
Se ouvia o centro da terra estalar estalar...
Alice
não tinha nenhuma referência de como tratar de Marcelle. Deixava-a brincar no
pátio, voando baixo. Agradecia todo tipo de conselho, mas não levava nada muito
a sério. Porém, os esotéricos exigiam que ela prestasse atenção, escrevesse
relatórios diários e etecétera.
-
Rá! Alice, deixe Marcelle com a gente. Vamos educá-la na tradição. Aprenderá a
desenhar, a ler estrelas, a meditar, a recitar mantras o dia todo,
nhã-nhã-nhã!... acreditar em discos voadores, em etês, cristais mágicos, não
comerá carne de jeito nenhum, debaterá filosofias com os magos e astrônomos e
astrólogos, se isolará da cidade longe dos shopping centers e da internet e dos
joguinhos eletrônicos e celulares, reparará que as pedras tendem a crescer, que
as pedras riem, que as árvores cantam na língua do flaflar, que os passarinhos
cantam por um motivo e têm território, que os sapos são fundamentais para o
equilíbrio de todo o ambiente, que as borboletas têm uma semana de vida ou uma
trepadinha de vida.
Marcelle
era uma anja amiga, mensageira. Não chegara, ainda, até as nuvens porque Alice
tinha receios de desastres. Os esotéricos mesmo ensinavam a menininha a ouvir
poesia, música indiana, tocar flauta-doce, se enfeitar com colares, pulseiras,
cangas, tornozeleiras, desenhos de índio no rosto. Marcelle sentava no chão com
as pernas cruzadas, ou pousava como alma-de-gato no galho da árvore, na aba da
casa, e tocava flauta-doce muito e ouvia e aprendia tanto que só vendo.
Marcelle tocava sentada no sofá, na cama, na mesa de refeições. Decorava versos
ou poemas inteiros, praticava teatro. Aprendia tudo rapidinho e gostava, tocava
harpa caminhando pela casa, pelo pátio, recitando e caminhando pelos passeios
assombrando os passarinhos, seguida pelas borboletas azuis de olhos negros nas
asas, a ideia dela meio que ausente de coisas fortes, mais para ideias
passageiras.
-
Não voe alto. E não caminhe sobre o lago.
Difícil
de entender o ritmo mágico de Marcelle. Ela podia muito bem desenhar um
beija-flor no papel e este sair voando quando quisesse. Ou chorar, caso ela
mesma não soubesse desenhar as asas. Às vezes ainda Marcelle não sabia a exata
cor da flor, uma margarida maior que a casa, o sol preso ao fio qual uma
pandorga. Abria a mão e aparecia uma estrela-do-mar em pleno cerrado: uma
estrela-do-mar do tamanho da mão, cinco braços, sem perninhas e com vontade de
voar, a cor variando conforme o que seja ou o que for, comendo todo tipo de
frutas e doces e sorvetes.
Alice deixava
rolar. Os esotéricos não largavam a menina, tomavam as lições, e isso era
sempre. Alice se sentia espectadora. Alice queria a filha debaixo da sua asa.
Alice queria a filha para passear no shopping, comer pipoca caminhando ao redor
do lago, ler uma história de livro ilustrado, aprender geografia com o dedo no
mapa colorido. Os esotéricos tinham planos, tinham visões, tinham esperança de
eternidade nos olhos, tinham pressa, tinham insônias:
-
Rá! Alice, sua filha Marcelle nasceu para libertar a humanidade, nos dar um
sentido universal de fato.
Os
dias sucediam os dias. As pessoas humanas e anônimas, todo o mundo que
trabalha, indo e vindo do lado do pega. O mundo girando, dizem. O rio correndo
na direção, no sentido, no juízo e no juízo do mar. O vento que vinha sempre do
lado que vem a chuva. O lado da árvore que chove mais.
Lá
vinha o esotérico caminhando como homem. Lá vinha ele, separado por duzentos
metros a olho nu. De longe não parecia ser um galego atrapalhado. E de perto,
falou:
-
Rá! Os tais discos voadores, as estrelas cadentes, as pirâmides dos maias, a
pedra da Gávea, a cidade de Atlântida.
Acreditavam
que um dia viria uma estrela de uma distante estrela para recolher os eleitos.
E estes eleitos estariam prontos e doces e seriam eles.
-
Rá! Breve estaremos aptos para a salvação. Se já não estamos.
Alice
abriu o livro numa página casual, sentou ali fora no degrau perto do canteiro
de flores, sentiu uma vontade de ler, abriu o livro do Quintana, do Manuel, da
Clarice e começou a ver uma história de índios pintados e emplumados, e os
índios tinham sede de supermercado, todos vestidos para as compras, e de
repente esses índios se chamavam xavante, eram brabos porque queriam picapes
vermelhas, de supetão invadiram o planalto central, eram tantos que vinham
todos os canela, os gavião, os arara, os boca-preta, os orelha-de-pau, os
beiço-de-pau... sendo que Alice se viu mesmo cercada, ouviu gritos de folia,
desfile de índios e índias, as lojas do shopping invadidas, as concessionárias
tomadas, os cafés muito cheios, uma indiazinha pintada de urucum segurava no
colo um cachorrinho felpudo de orelhas enormes e cor amarelo-torrado e vivo e
anônimo, outro índio experimentava o tênis com luzinha no solado, outra índia
experimentava um carrinho de bebê, outro índio olhava um celular, o cachorrinho
da indiazinha era tão felpudo e simpático, cara de pedinte, que Alice voltou
novamente para ele sua atenção, era sim um cãozinho tímido que não sabia se
colocar na loja de mil objetos de vender, e de olhar pedinte, mas pedindo o
quê?, e a indiazinha tinha idade para ser Marcelle?, e pronto, o cãozinho já
podia ser amado e acariciado, podia ouvir interjeições e receber agrados, podia
rolar no chão e se sufocar de alegria, pelo felpudo, orelhas grandes que podiam
muito bem cobrir a cara se quisesse, podia ser alisado, pego no colo, tratado
com biscoito, e Alice parou de ler, ergueu os olhos do livro para o nada a sua
frente, pensou, olhar sonhador de não saber nada, foi pensando, olhar de pensar
poesias, quem tem pressa de chegar?, querendo mesmo ter um cachorrinho que se
chamasse Tapuio.
-
Tapuio ladraria inadvertidamente. Tapuio me acompanharia, e à Marcelle, por
onde a gente fosse. Tapuio me reconheceria. Tapuio me olharia com a cabeça meio
de lado. Tapuio me olharia com admiração e amor. Mandaria Tapuio sentar e ele
imediatamente atenderia sentando. Mandaria deitar e ele deitaria com um bocejo
de sono.
A
ansiedade dos esotéricos olhava, reparava, aguardava o calendário. E o tempo
dizia que as almas vão às estrelas, as saudades vão às estrelas, os sonhos da
infância vão às estrelas, os objetos extraviados vão às estrelas. Embora também
se sonhe que o tempo por lá, entre estrelas incontáveis, não tenha pressa, não
corra, não voe, não calcule e, se pode dizer também, que nem é levado a sério.
E os objetos perdidos também irão parar lá entre elas, as estrelas, sem que
ninguém fique sabendo, sem que ninguém reclame. E os grilos também nascem entre
as mesmas estrelas, sem que se saiba o poraquê.
Alice
e esotérico vagando pela cidade planejada, num dia de feriado parlamentar.
-
Quantos palácios! Que beleza!
-
Rá! Nesta mesma praça, cinco anos atrás, havia um cartão-postal. Hoje, você vê
e se deslumbra, há três cartões-postais.
Bando
de araras-azuis-grandes em sintonia com os agrupamentos de buritis. Tesoureiras
com ipês-amarelos. Bem-te-vis com paineiras. Andorinhas nos fios elétricos.
Namorados pedindo para tirar fotos. Amiguinhas juntando a cabeça e tirando foto
no celular. E alguma coisa precisava ser feito. Uma família de capivaras
tomando banho no espelho de água. E outros bichos, o gambá, o tatu, o
bicho-preguiça, a anta. Raríssimos palácios com gramado em volta, palácio da
Alvorada, palácio do Planalto, palácio do Itamaraty. Um avião da FAB voando
baixo. Todo mundo andando pelos caminhos para ver se acontecia alguma coisa.
À
noite Alice retomou a leitura. Além dos índios cinta-larga, havia outros,
xikrín, tenetehára, kayapó, apinayé, xerente, bororo... e bastava Alice seguir
a história, passar as páginas, os índios e índias queriam cestas básicas e
ônibus com horários regulares na aldeia, queriam um canal de tevê, queriam
derrubar torre de alta tensão, queriam vender mina de diamantes, queriam
participação na usina hidroelétrica, queriam um Estado da federação, e mais
tribos de distantes plagas como os parintintim, terena, nambiquara, kaingang,
mehináku, kaxarari, jarauára, guajajara, potiguara... e queriam fazer time de
futebol, casas com banheiro e tevê no quarto, poligamia, cartão de crédito,
computador, celular, viagens ao exterior, mergulhos no atol das Rocas, férias
na enseada de Mucuripe.
Alice
ouviu um auê!... um buê!... vindo do pátio. Marcelle estava no pátio em voos
baixos, calmos e curtos. O Tapuio latia e acoava. Alice foi conferir. Era
Marcelle que punha o cachorrinho tenso porque ele já não conseguia voar junto
dela. Marcelle jogava um graveto que Tapuio ia buscar pressuroso, sem fôlego,
coração mais rápido que as pernas. E Tapuio queria ainda agarrar borboletas no
ar, dava pulos com latidos e outras cenas da tarde.
Daí a
pouco, Marcelle desenhava na folha de caderno árvores verdes ao lado de árvores
vermelhas e outras amarelas, sentada no chão, o caderno entre as perninhas,
Marcelle desenhava uma floresta com todas as cores, o Tapuio farejando a areia
de um rio, depois o cão aparecendo no meio do capão, nos galhos mais altos
também, talvez mesmo nas nuvens, e nadando no rio, ali era outra coisa, como
uma aldeia no Xingu, os índios assistindo tevê na casa dos homens, e foi nesse
mesmo momento que a menininha Marcelle, de asas às costas, entrou na aldeia,
ela ainda vinha carregando o cãozinho Tapuio debaixo do braço, a cauda lá dele
espetada no ar, as orelhas lá dele como parabólicas pesquisando o entorno, os
índios cheios de perguntas, logo logo os dois cercados pelos índios da tribo, a
tribo inteira enfeitada de relógios digitais, bonés de marca, calções vermelhos
ou azuis, o som de um forró no rádio, mulheres com sutiãs e minissaia, curumim
com bola debaixo do braço, cunhantaim com boneca de pano nos braços, toda a
tribo cercou os dois visitantes incautos, parecia que o mundo ia parar, mas não
parou, porém quase parou.
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