Vinha chegando, veloz e rápido e a jato, um alado uma aladinha. Dia de
voar. Quem diria?! O ar fino puro universal azul plástico. O céu de vidro. Quem
seria? A curiosidade festiva, divertida, alegre e engraçada. Que haveria? O
mundo era este mesmo o de sempre, obrigado obrigada! Quem estaria?
Tupã costuma descansar no domingo o dia todo faça sol faça chuva já foi
para a praia de Jericoacoara lago Janauari cachoeira de Iauaretê viaduto Santa
Ifigênia praça Lobo de Mesquita e Porto de Moz.
Tupã desde sempre. Tupã está em tudo, incontrolavelmente. E Tupã é o
rio a mata o sol a lua o curupira os bichos a tucumã o peixe-cachorro.
Separando muito bem o presente o futuro o passado. Tupã é tudo junto e ao mesmo
tempo.
A veloz pintassilgo entrou pelo quarto de Lilás, aproveitando a janela
aberta, a cortina descerrada, deu uma volta pelo quarto, e surpreendeu a menina
largada na cama, de bobeira, sonolenta, lenta, preguiçosa. Depois de pousar no
parapeito da janela, a aladinha foi falando assim, pipiando, palrou:
- Ei, menina Lilás! Aqui quem fala é sua amiga pintassilgo, natural de
Caxingó! Você que está aí de papo pro ar, de boa, sem fazer nada, não quer sair
comigo?
- Ai, que preguiça!...
- Se mexa, guria! Quer vir comigo?
- Pois é pra onde pra hoje?
- Na mata lá pra região de Maraú. Dentro do mato. Depois do rio, depois
do faxinal, junto de uma restinga.
As perguntas da menina sempre na ponta da língua:
- O quê? Como? Por quê?
- Explico. É que por lá haverá reunião de todos os bichos pra escolha
do rei ou rainha da mata. Vamos?!
- E o que tenho a ver com tal coisa? Não sou bicho. Eles nem mesmo vão
me aceitar como pequena observadora.
- Você poderá ir com um disfarce, hein?! Vai ser diferente.
- Tá bom, tá bom! Que disfarce será esse? Só vendo.
Então, a pintassilgo, manchinhas de preto e verde e amarelo nas penas,
se agarrando na cortina da janela, arregaçou as penas bonitas das asas, se
concentrou e, zuuuuu!... fez a mágica. Transformou a menina Lilás numa
passarinho inédita e lilás. Agora poderiam ir juntas à assembleia dos bichos
sem a menina passar por intrometida, sem ser reparada, sem ser percebida sem
dar vexame. Ninguém desconfiaria.
- O que está feito está feito - disse a pintassilgo.
- O que é perfeito já nasce rio corrente - soube dizer a Lilás.
Feita a metamorfose, feita a transformação, feita a aposta, feita a
reviravolta, partiram para a mata voando alto no céu azul, céu azul muito azul,
dez horas e dez minutos, ar limpo, vento calmo, árvores verdes, umari, araxixá,
tauari, camaçari... azul cem por cento, mundo enorme, céu côncavo.
O trânsito no céu estava ótimo, ou seja, tudo tranquilo passageiro
trafegável cinquenta por hora. As nuvens com feitio de bicicleta vassoura
secador de cabelo cadeira giratória aspirador de pó torre sem asas. O sol
quente espiava o mundo de longe. As árvores faziam sombras, anani, mapati,
camaá, figueira-de-folha-branca... e se mexiam um pouco entortando para o lado
oeste. O dia merecia. Lilás falou, ou melhor, trilou:
- Nossa, que sensação de liberdade!... Isso é que é sorte, uau!... O
vento batendo na cara!... Minhas penas coloridas esbarrando nos fiapos de nuvem!...
Olhando tudo do alto, Tibau, Porto Franco, Camocim, Upanema, Salto Veloso... e
outras cidades. Há tempos eu venho pensando: e se eu não fosse gente, que outro
bicho ou coisa eu seria melhor?
- Gostaria de ser pássaro pra sempre? - cantou a pintassilvo.
- Deixa ver se sei cantar ou gorjear... ffff!... fiiii!... fiu-fiu!...
tchiu! tchiu! tchiu!...
- Tem que afinar o gogó. Você aprende, é só treinar com os mais velhos.
- Vou ter que comer migalhas, brotinhos, frutinhas e sementes.
- E outras coisas engraçadas de comer, quireras, farelos, xeréns, pipocas,
milhos.
- Sabe, sempre tive um sonho arriscado: o de praticar um rasante sobre
a superfície de um açude, de uma sanga, de um lago... como agora...
iauuuuuuuu!... liiiiiipeee!...
- Quer ir longe ou ir embora para longe?
- Um dia de alada é pouco quase nada.
O mato farfalhava folhas de cajazeira, folhas de jupicanga, flores de
mulungu, ramas de meruquiá, o verde tomando conta de tudo. O vento comandando o
tagarelar das folhas, o perfume, o abstrato das cores. Uma paisagem cheia de
paisagens aqui e ali.
Bom ar, bom voo, bom passeio, boa viagem, boa alada. Se tivesse
chovendo também seria bom. E praticamente chegavam ao paraíso.
A notícia tinha sido espalhada pelos pássaros e outros animais
terrestres. Os mamíferos levantaram as orelhas. Os répteis já pularam fora das
tocas. Os anfíbios borbulharam para os peixes e semelhantes.
Perguntaram ao quati:
- Aonde tu vai, quati?
- Vou no comício. E você?
E perguntaram ao tatu-mulita:
- Para donde te bandeias, tatu?
- Para lá, ver o showmício.
Indagaram do bem-te-vi-cinza:
- Aonde vai nesse voo federal?
- Vou conferir a tal disputa eleitoral.
Ficaram sabendo do pássaro arisco e curioso:
- Aonde vai com tanta pressa, cairé?
- Vou votar na eleição para rei e rainha da mata atlântica.
O gambá vinha atravessando o rio Maranhão, o peixe muçum perguntou por
perguntar:
- Onde é o babado da votação, seu gambá?
- É para os lados da serra, mais ou menos. Vou seguindo a manada. Não
tá interessado? Vai bicho de Cruzmaltina, de Caxambu, de Baependi...
O lugar da reunião era na beira do rio Retiro. Riozinho preguiçoso e
manhoso saído de banhados, banhadões, barragens, sangas, tanques, represas,
espelhos-d’água açudes... O cipó-timbó enrolado com camboatás, caaeés,
jundiaís, criciúmas, quitocos, avencas, fedegosos, buvas, carrapichos,
guanxumas, javaris, ucuubas, carobas... e outras plantas de verdes confusos
tons balançando aí com o sopro do vento a mata ciliar.
Uma boa e natural plataforma de pedras, já instalada desde o mundo
criado, esperava ali para os discursos dos candidatos ao governo da mata. Em
volta desse pedregulho, todos os animais chegavam para calmamente assistir aos
debates. Vinham aparecendo e se aproximando e se reunindo e se associando todas
as espécies e raças conhecidas. Muitas trilhas e trilhos riscavam de lá pra cá
tecendo uma rede de caminhos. Os ares já cheios numa multidão de asas e pios.
O rio Santa Teresa passa em Água Comprida que é já faz tempo parte da
serra Carnoió, e de onde vinham as pombas-trocal, os ajuruetês, as juritis-da-mata...
O tucano-de-peito-amarelo, seu muiraquitã da sorte pendendo do peito, viajou
desde a cidade de Faro. O inhambu natural de Rio Preto da Eva. Um grupo
tagarela de cujubins com fala típica da região de Parintins. De Santana do
Deserto vinha o casal de carriças.
De um lado da trilha no mato surgiu o graxaim e foi andando, encontrou
a preá que encontraram o ratão-do-banhado que se juntaram ao lobo-guará e ao
jacu. Sempre em frente rumo ao lugar do comício, seguiram encontrando a anta a
cutia a jaguatirica a cobra-coral a lebre. Até a clareira ali junto ao rio
Retiro. E todos chegavam e já era uma boa multidão inquieta e surpreendente.
Que boa paz entre os animais. A saúva levantou as antenas. O borrachudo
zumbiu no ar aberto. A broca ia medindo palmo a palmo. Quero-quero andando
olhando pisando a grama. Um quero-quero com sono de quero-quero. Formiga taoca bocejando
antes da hora. O porco-espinho bebendo a água do rio em sorvos compridos.
Figurinhas, figuras, figurantes, figurões e figuraças.
- É muita reunião. É muita população. É muita multidão - desabafou a
passarinho Lilás.
- Eu tenho o que Deu me deus e ninguém me tira! - foi a fala empolgada
da pintassilgo.
Lilás, olhos grandes e alegres, bico aberto em sorriso sempre sorriso.
Provou, aprovou e repetiu. Faltava pouco para a menina-passarinho ficar
sabendo. E ficou assim por isso mesmo, dizendo:
- Por que motivo, pode me dizer?
- Tanto faz, como tanto fez - trilou a pintassilgo.
Lilás e a amiga pousaram ali por perto, no galhinho de um guamirim. A
plateia ali pelas árvores, sobre pedras, sobre tocos, no gramado, nos tucurus,
espiando da superfície do rio, entre os aguapés, entre os uapés.
Todos os animais juntos, misturados, sem rivalidades e receios, já se
posicionando. No rio Retiro o lambari, a traíra, o jundiá, o cascudo, a
cobra-d’água, o sapo-ferreiro, a jia, o jacaré-de-papo-amarelo, o poraquê ou
peixe-elétrico, o tambaqui, o jaraqui, o curuca... emergiam e imergiam e
emergiam agitados com a expectativa do debate do pinga-fogo.
Pelo ar, em todo canto, ou pousados, zunido de besouro e abelha e
escaravelho e libélula e joaninha e flanar de borboleta e o chão de pegadas de escaravelho
e lacraia e mede-palmos.
De repente caiu uma chuvarada. Todos os bichos e plantas olharam a
chuva cair e deram risadas. Uma chuva necessária. Durou cinco minutos. E parou
de chover logo após passar seis minutos. Um ar de arco-íris e pronto. Grande
noz-moscada-do-brasil agradecia e recomendava. Outras árvores olhavam em
silêncio paradas limpas naturais verdes de perfume aroma tonalidade, amapá,
catuaba-do-mato, matamatá, bacaba, pupunha-piranga, sacambu... e pingando água
da chuva.
Nuvens de branco, despregadas, elásticas, sinuosas, recortadas,
desconjuntadas, confortáveis, do tamanho de navios mercantes, sempre pastando o
azul anil voos de azulões-do-campo, sobrevoos contornados de curicacas.
A gralha-azul falava alto ou cantava, acompanhada da tesoureira do
sabiá-do-campo da araponga da pomba-rola da maitaca-parda da sanã-carijó da
cambaxirra do saurá... O bugio coçava o focinho sentado pacífico numa
faveira-pequena. Grupo de pixoxós chegavam agorinha de Atalaia do Norte. Pois a
jandaia chegara ontem de manhã diretinha de Iranduba acompanhando o rio Uatumã.
Conversas dispersas, conversas paralelas, conversas cruzadas e
entrecruzadas, conversas de bichos, zunido, zumbido, alarido, grunhido, uma
confusão que eles se entendiam nas mímicas e traduções simultâneas ou
legendadas. A andorinha-do-campo finalmente se encontrava com a comadre
balança-rabo-de-chapéu-preto e era já um tempão desde a última vez e foram
falando de tudo um pouco e dos familiares e dos filhotes e dos parentes e cada
uma contava seu pedaço de história e cada qual recomeçava a narrar o que a
outra sufocada interrompia e assim por diante e que eram muitas novidades casos
interessantes longos gralhar interminável e ao mesmo tempo. De Água Fria de
Goiás vinham chegando os periquitões-maracanãs. Da rua Pistóia em Bias Fortes
pulava pra história o tiziu.
Faltava pouco para tudo começar. Os bichos já olhavam para o sol
molhado das onze e onze da mesma manhã. A passarinho pintassilgo chilrou para a
alada menina bonita Lilás:
- Olhe, repare só, menina... quer dizer, pássara Lilás... a
onça-pintada está chegando.
- É. Será que veio pra beber água?
- Dizem as notícias da mata que a pintada já urra e arrota vitória.
Vitória com v de garra.
A onça-pintada, forte e valente e valentona e invencível e corajosa,
vinha no seu passo lento e confiado. Uma pelagem bonita, toda pintada,
manchinhas pretas e amarelas, camuflada de luz e sombra. Deixava sua marca de
quatro dedos no chão. Parou no meio da clareira, olhou os lados, olhos
amarelos, mostrou os dentes, presas enormes, deu o tradicional rugido,
grrrrrr!... e foi para a plataforma ou monte de pedras esperar o debate. Lilás
perguntou para a amiga mais próxima a pintassilgo:
- Quem é mesmo o nosso candidato de vocês?
- É o gavião-de-penacho, nossa maior ave de rapina. Conhecido e temido
entre os homens como harpia, parente próximo do carcará, carancho, gavião-de-queimada.
Aí, então, se ouviu um ruído de galhos quebrando e coisa e tal. Som de
chios e guinchos e... como se algo ou alguém estivesse arrastando ou sendo
arrastado ou se arrastando mata adentro ou mata afora.
De surpresa, de susto, a jiboia. Vinha toda faceira, mostrando a língua
de forquilha, se arrastando e quebrando gravetos e estalando folhas secas pelo
caminho, abrindo caminho, camuflada de preto e amarelo, cobra boiúna, deixando
rastro de cobra, cobra das grandes, cabeça chata, sorriso largo. Parou no meio
do campestre, bem no limpo, olhou os lados, se contorceu, mostrou a língua de
duas pontas, sorriu sem dentes e se encaminhou para o palanque ou subidinha dos
debates.
E faltavam uns poucos segundos para o início dos discursos. Faltava o
candidato gavião. Todos olhavam o céu, ouvidos atentos, focinhos cheirando,
olhos bem abertos.
Não é que... falando no rabo... aparece o ditado, ou melhor, o próprio
gavião?! De repente, de supetão, assim num estalar de dedos, o legítimo surgiu
dos céus, surgiu do nada, voando veloz, sombra rasteira, e aterrissou direto na
plataforma de pedras ou barranco. Como uma mágica. Vibrando as asas, talalá!
talalá!... apertando as garras, cleque! cleque!... e batendo o pico, titique!
titique!... e um olhar de agulha penetrante feroz.
- Uta! Que susto levei, meu! - reclamou a menina-passarinho Lilás.
- Que aparição o-ri-gi-nal! Digna de um alado poderoso e feito e bem
feito para ser o governador da mata - elogiou a pintassilgo.
O tamanduá-bandeira largou alguns fogos de artifício foguetes fogos de
vista show pirotécnico. A arara-vermelha-grande fechou os ouvidos com as penas
das asas. A garça-azul arrepiou o pescoço e encolheu uma perna. O joão-pobre
subiu uma pedra para ver melhor. O pica-pau-de-cabeça-amarela deixou de procurar
comida no tronco da timboúva. Casal de tucanuçus tirou selfies com a multidão
tripulação e passageiros. Um sanhaço-frade aproveitava a calma para espiar a
namorada. Família de araracangas aproveitava a sombra da jaboticabeira-rajada.
Nesse momento, olhando a passagem do sol, o jabuti-carumbé, bicho
conhecido e terrestre e herbívoro - que foi quem tomou a iniciativa da reunião
ou do debate político -, subiu para a pedra mais alta do monte de pedras, subiu
para o barranco, subiu para o morrinho e se empinou nas patas traseiras, já
pedindo um silêncio geral:
- Psiu!... Silêncio! Atenção! Sossego! Calma, bichos! Meus queridos
animais de todas as espécies, raças, nações e meio ambientes! Estamos aqui, num
esforço sem igual na história do mundo animal, para tentarmos uma eleição na
mata, para elegermos o chefe ou a chefe dos bichos! E por que uma eleição? Porque nossa mata, nossa casa, nosso lar,
nosso mundo, vem sendo dia após dia e noite após noite explorado, diminuído,
cortado, derrubado, derrapado, queimado, roubado, desmatado pelo terrível
predador chamado: homem! E esse tipo conta com ajuda de tecnologias, máquinas
as mais poderosas, tratores, escavadeiras, dinamites, motosserras, e é
organizado, e é inteligente, e é muitas coisas ruins ao mesmo tempo! Ele, o ser
humano mesmo, se diz o preferido de Tupã, nosso criador! É claro que não
compartilhamos desse pensamento! Porém, nós mesmos, ao longo da história, pouco
ou nada fizemos para mudar essa situação perigosa! A ideia, portanto, a partir
dessa eleição, é dar um basta, é mudar essa calamitosa realidade, é nos unirmos
nos organizarmos para combater o inimigo comum!
Aplausos ou vivas. A seguir o jabuti pediu novamente silêncio e
prosseguiu na falação:
- Precisamos nos organizar, nos entender e nos respeitar porque também
entre nós há diferenças, discórdias, raivas, ódios, guerras, brigas,
perseguições, iras e mortes! Uma utopia, um sonho, seria que nos tornássemos
todos vegetarianos!...
Houve aplausos ou vivas, sustos e vaias.
O colhereiro se beliscou. A cutia se movimentou para junto da saracura
e da seriema. O macaco-de-cheiro pulou pelos galhos da azeitona-do-mato. O
juparaba piou à vontade. A ema estava enigmática, compenetrada, introspectiva,
completamente quieta calada. O tenenê brincava com o coçar as próprias penas da
asa esticando uma depois a outra. O anambé-vermelho deu um pulo de dois metros
e trocou de galho. O urutau bocejou mas disfarçado com a asa no bico. De
Borrazópolis chegava, atrasado, o grimpeiro.
O Jabuti tossiu de lado, bebeu um gole de água mineral sem gás
engarrafada em Cachoeira Dourada, preparou a garganta e seguiu dizendo:
- Bem, isso deixemos para os candidatos debater e prometer! O que nos
preocupa fundamentalmente, principalmente, isso sim, é nossa relação com o
homem! O ser humano é nosso pior inimigo e é contra ele que todos nós temos de
combater! Contra ele temos de brigar! E para combater um inimigo comum e muito
forte, precisamos, como já disse, de nos organizar, de nos unir, precisamos de
um líder, de um chefe, de um presidente ou uma presidente, de um governador ou
uma governadora, daí a convocação para eleições! Com um guia um chefe ou uma
chefe respeitado e amado por todos, escolhido pela maioria, lutaremos do mesmo
lado, seremos mais fortes e valentes! Só assim poderemos dar combate ao homem!
A união faz a força!!
Aplausos e vivas e uivos. O jabuti foi muito cumprimentado.
O sol forte, e todo o dia levaria tempo para consumir com o baita calor
que fazia. Quantos tarecaís se arrastaram do ensopado lodo do riacho para o
barranco vermelho. De Lidianópolis sorria o casal de tchintchorrintchos. Descia
do dia solar uma alegria uma atmosfera invisível e natural. E marreca-cabocla,
marreca-caneleira, marreca-toicinho, pato-corredor, pato-de-crista...
conversavam, trocavam ideias sobre voos, viagens, lugares, verões, estações,
temporadas, lagos, olhos-d'água, correntes de ventos quentes, ilhas de
veraneio, etc:
- No verão passado eu fui para a ilha Anchieta e gostei imenso.
- Vocês precisam conhecer Nhamundá.
- Passei por Marambaia, Alto Feliz, São Paulo de Olivença, Amaturá,
Taquaritinga, é.
- Eu e minha noiva e a família toda pretendemos atingir a Pedra
Pintada, em Roraima. É reserva dos índios tsunhum-djapá, se não me engano.
- Vou voar para Angra dos Reis, ilha Grande e arredores.
- Conhecem Japeri?
- Estou voltando de São Brás do Suaçuí. Muito simpático. Lá existem
montanhas de pedra parecidas com bichos.
- Pousaremos na altura de Paranaguá. Gostei muito do prato o Barreado
que comi em Morretes e em Antonina.
- Pretendo casar e morar para os devidos fins na altura de Tarrafas,
conhecem, já ouviram?
- Ouvi falar muito bem de Tupaciguara.
- As lagoas de Mundaú e de Manguaba são imperdíveis eu recomendo são
azuis cheias de sol o ano todo e praias ricas ricas.
- Eu gostei imensamente de passear por rio Trombetas, Lajeado Novo,
Caicó, Apodi, Açu...
- No último verão eu e meus parentes próximos e nem tão próximos
fizemos o circuito das frutas, Atibaia, Indaiatuba, Itatiba...
O Jabuti, bebendo um gole de água da pedra, respirando fundo o ar da
mata, batendo os olhos na assistência, continuou, prosseguiu politicamente
correto:
- A nossa lei terá de ser a lei da preservação, da segurança ambiental!
E não poderá ser a lei do mais forte nem a lei do olho por olho e dente por
dente nem a lei das selvas nem do salve-se quem puder!
A frondosa mavevé se agitava toda carregada de anus-pretos,
coleirinhas, sebinhos, joões-de-barro, tico-ticos, curiós, almas-de-gato... um
grupo muito conhecido de conversadores.
O jabuti ergueu a voz e andou com o lero-lero e a trova e a prosa e o
discurso:
- Bem, vamos dar início aos embates! Convidamos o representante de cada
partido a que compareça ao alto das rochas para iniciarmos o debate! Em ordem
alfabética chamamos primeiro o representante das aves do ar, terra e água, os
bicudos, os penosos, nascido do pda: partido dos alados, temos o senhor...
gavião-de-penacho! Aplausos, por favor!
Aplausos ou vivas, indiferenças ou vaias. O jabuti foi em frente
apresentando:
- Para representar os coleantes, os serpenteantes, os sinuosos, os
escamosos, peçonhentos ou não, nascida do pdr: partido dos rastejantes, temos a
senhora... jiboia! Aplausos, por favor!
Aplausos ou vivas, indiferenças ou vaias. O jabuti esperou as
manifestações acalmarem e, logo em seguida, continuou:
- E ainda, para que represente os mamíferos, os peludos, os felinos,
predadores ou não, a candidata nascida do pdq: partido dos quadrúpedes, temos a
senhora... onça-pintada! Aplausos, por favor!
Aplausos ou vivas, indiferenças ou vaias. E para finalizar o seu jabuti
finalizou afinal finalmente e por fim:
- Esses são os representantes dos três partidos que concorrerão ao
cargo maior de nossa mata! Os candidatos estão aí! Um ou uma será o presidente
ou a presidente! Por fim nosso desejo é que os candidatos e os partidos e os
partidários ou correligionários se respeitem mutuamente para o bem das
conversações! Depois votem em quem quiserem! Só isso, e boa sorte a todos, e
bons debates a todos!
Aplausos ou vivas, indiferenças ou vaias. E tudo estava indo tudo muito
bem. Os bichos se olhavam com respeito. Todos ali, mistura de falas e cores e
crenças e feitios e cada macaco no seu galho e cada ser no seu quadrado.
Eram, no horário normal do dia e do céu daquele tipo celeste ideal, os
doze minutos da tarde começando logo após o meio-dia. As raras nuvens chegavam
para abastecer, as nuvens do céu do rio, o rio quase parando para dar de beber.
Uma ariranha emergiu curiosa ali junto no boiadouro. Jaritataca chegou.
O jacaçu pousou dentro da caparrosa. Suaçuapara não resistiu e foi cheirar as
folhas da erva-paina. E cobra-capim se enrolou na trapoerabarana.
A menina-pássaro Lilás e a pintassilgo, ainda pousadas nos galhos
curvados da jará-açu, pensaram alto:
- Estou sentindo um calorão! - suspirou a Lilás.
- O mundo inteiro começa agora - disse, enigmaticamente, a pintassilgo.
Umas plantas bebiam do rio Retiro, majuba, bucaré, chá-mineiro,
cipó-em, jarina, quina-branca, curuatá, ananá-de-raposa... Pegavam o verde
emprestado do sol, adquiriam o fôlego no vento e não pensavam em sair do lugar
do lugar.
O gavião-real - seus dois olhos amarelos naturais -, o primeiro a
falar, subiu na pedra mais alta do monte de pedras, esticou o pescoço, abriu as
imensas asas para mais de dois metros, simplesmente fantástico!, mostrou as
garras poderosas, preparou a garganta, arrepiou as penas do pescoço, abriu o
bico e grasnou:
- Crou! crou! crou!... Obrigado pelos aplausos e vivas! Lá de cima vejo
tudo e não escondo nada, sumo no ar ou apareço de repente! Bicharada que me
ouve e me vê, o que tenho a dizer é muito simples, direto, direito e
verdadeiro! Minha proposta é, primeiramente, acabar com as discriminações e
medos entre as várias espécies de bichos! Prometo lutar para que nenhum animal
almoce o outro! Prometo fazer regras e leis para que nenhum bicho jante o
vizinho! Prometo também me empenhar na luta feroz, incansável, vinte e quatro
horas por dia, dia e noite, contra nosso monstruoso inimigo: o homem! Afinal,
quantos de nós já viram parentes, aderentes e amigos serem massacrados por esse
terrível predador, por esse terrível mapinguari? Tenho em minhas garras muitas
estatísticas que comprovam o que digo! Prometo não parar um segundo até tirar
definitivamente esse inimigo assustador do nosso mato! E nós, aves e pássaros,
somos privilegiados nesse tipo de empreitada! Nós somos, comprovadamente,
imbatíveis no ar, e podemos agir com mais segurança e clareza e certeza! Por
hora é isso, muito obrigado!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
É. E o gavião queria porque queria ser o rei da mata. Fez o seu
discurso pedindo votos. E isso passou pelos ouvidos de todos. Muitos
passarinhos, pássaros e aves bateram palmas, bateram as asas no peito. A
pintassilgo não se conteve e piou bem alto:
- É nóis, u-huuu!...
A cigarra não parava de azucrinar, cantando aleluias, tonta de mormaço,
pendurada no tronco da carrapeta-verdadeira. O sapo-pipa balançava o papo no
chão molhado da beira do riacho. O rio Retiro estava ali presente, pequeno
ainda, passando como sempre, e lá na frente chegaria a desaguar no rio das
Antas, depois rio Jacuí, ainda estuário Guaíba lagoa dos Patos e o oceano. O
rato curu-curu perguntou para alguém ali por perto:
- Você é de onde, se me permite a curiosidade, dona tubaiaiá?
- Eu sou de Pontal da Barra, Maceió. Mas também andei por meio mundo e
Maracanaú, Mar Vermelho, Corumbaíba, Morro do Chapéu, Ipecaetá... e ultimamente
venho de Várzea Nova. Vou para o oeste, para São José da Laje ou ilha de Santa
Rita. Viajo muito e é o que mais me faz feliz.
E ocê?
- Eu viajo pouco e pouco viajei ou nada andei. Nasci em Muritiba e
estou para Buritizal de onde não me ausento por muito tempo e me acomodei.
A seguir, foi a vez da jiboia, olhos feiticeiros, hipnotizantes,
escamas pretas e amarelas rebrilhando ao sol, muito senhora de si nas beiras de
rio ou nos galhos das árvores e que pode andar pela terra firme como por dentro
da água. Gosta de se camuflar no pasto do banhado, meio corpo na água e cabeça
de fora se fingindo de dorminhoca. Ela se ergueu, esticou a cabeça bem para o
alto, espantosamente, mostrando toda sua elasticidade e força nos oito metros
que possuía, mostrou a língua, abriu bem a bocarra sem dentes, bafou, e chiou:
- Cheeei! cheeei! cheeei!... Agradecida pela ótima acolhida! Estico, dobro,
desdobro, desenrolo, rolo, estrangulo, aperto e trituro, meu abraço é fogo, não
sobra bom osso! Como representante maior de todos os animais que rastejam, que
esfolam suas barrigas pelas pedras e espinhos e urtigas da mata (risos!), venho
pedir que votem em mim! Tenho propostas sérias, honestas, verdadeiras para
nossa vida em comum! Se eleita for, quero que saibam que jamais, em hipótese
alguma, comerei ou engolirei sapo ou outro bicho da mata! Nossa dieta a partir
de hoje será o ser humano, única e exclusivamente! Outra coisa! Vamos criar ou
nomear representantes em todas as espécies, raças, tenham lá o tamanho que
tiverem, para que tragam até nós, poder eleito, os problemas e as dúvidas dos
habitantes da mata! Juntos, então, trabalharemos para acabar com todas as
injustiças, todas as caçadas, todas as perseguições, principalmente a
supremacia do homem! Por enquanto, tenho dito!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
A jiboia, linguaruda, filha dos rios, mãe dos rios, uma lenda dos
grandes rios, boiúna, parecida com os rios da mata, pediu votos e mais votos, e
todos ouviram.
O vento descabelado tropeçava nas árvores, muirapiranga, javari,
uirari, icó, avenca-de-espiga... o vento desgrenhado atropelava tudo. O vento
apostando corrida com a chuva. Era sinal de chuva. O inhambu-galinha trocou o
lava-pratos por uma posição melhor na rosa-do-campo. Bugio espiou seus olhos
negros brilhantes umedecidos. O rio cantava uma canção desconhecida. Canção de
pedras e paus por onde andava. Os jaburus se balançavam nas verônicas-do-igapó.
E faziam que iam voar, mas não voavam agora. Piavam, isso sim. Sacudiam as
sombras. E o rio Retiro deitado no leito de sempre morro abaixo. Mil espécies
de aves em alarido de alagado. O rio corrente de si. O rio murmurante.
Um raio riscou trovoou assustando meio mundo. Sem muitos avisos caiu
uma bomba de água. Chuva torrencial com vento na vanguarda, durante e depois.
Chuva aos borbotões. A chuva caía assim fragorosamente. De muita chuva. De
muito alto. Que tudo durou uma meia hora. O coaxar do sapo-martelo. Durante o
aguaceiro fuzilante, uns animais procuraram abrigo debaixo das árvores dentro
dos ocos das árvores dando vontade de dormir, outros animais simplesmente
adoraram e brincaram na chuva nas poças na lama penas impermeáveis.
O vento uivava vantagens de correr o mundo, tocando tké-yá que
aprendera com os índios botocudo, soprou:
- Por onde eu passo eu viajo com a chuva no fim do dia, Cametá,
Limoeiro do Ajuru, Mossoró, Mauá, Flores da Cunha...
O caburé-cupim sacudia as penas. Um tiê-de-peito-vermelho comia merenda
na sete-capotes. O garrinchão-de-bico-grande dialogava e trocava impressões com
o cururuá. Já o tucuxi apareceu se esbaldando no rio e rindo de felicidade. A
araçari esfregava o ouvido esquerdo com a garra esquerda.
A seguir veio a onça-pintada - olhos amarelos e brilhantes -, que
escalou a pedra mais alta do monte de pedras, se ergueu nas patas traseiras,
socou o ar, abriu a bocarra de dentes terríveis e certinhos, soltou a língua,
salivou, espumou, cuspiu, e urrou:
- Rrrrrrr! rrrrrrr! rrrrrr!... Obrigada meus belos e belas animais!
Obrigada bípedes, quadrúpedes e centopeias! Corro, pulo, nado, escalo, agarro,
abocanho e arranco pedaços em um segundo! O som dos meus gritos e de minha voz
cala toda a mata! Mas nada temam! Daqui pra frente, como governadora que serei
de todos, minha força e agilidade será para defendê-los! Podem deixar comigo o
tal de ser humano! Ele já me teme, eu sei! Fui, sou e serei a melhor
exterminadora de homens! Pra mim tanto faz trabalhar de dia ou à noite! Comerei
um no café da manhã, outro no lanche das dez, no almoço, no lanche das
dezesseis, na janta das vinte e duas antes de ir deitar! E entre uma refeição
ou lanche, caçarei quantos eu quiser para dar aos meus amigos eleitores! Comigo
no poder essa mata nunca mais verá aquele tipo, nem mesmo camuflado ou
disfarçado de pesquisador estudioso cientista acadêmico! Não temo e não temerei
espreitar, pular e estraçalhar qualquer homem que cruzar o meu caminho ou pisar
essas terras! E se eles não vierem aqui por medo, eu mesma irei até a cidade e
lá, no mundo deles, os caçarei! Tenho dito!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
Onça sabida, linda e perigosa. Não conseguia ficar quieta sentada na
sua pedra. Essa também pediu os votos. E todos ouviram, viram e cheiraram.
Outros felinos da mata também estavam presentes e aplaudiram a
onça-pintada, era a onça-preta, era a onça-parda, era a onça-vermelha, era a
onça-d’água, era a suçuarana, era o gato-do-mato, era a jaguatirica.
- É, parece que tá meio parelha a disputa - suspirou, cansada, a menina
Lilás.
- Pois é, amiguinha. A onça-pintada apelou para o seu poderio em terra,
é a mais perigosa, mostrou suas garras, mas não é o bicho. Vai perder.
- Mas aí que tá o ponto. Onça nenhuma sabe perder.
- Se não aceitar a derrota, todos os outros bichos ficarão contra ela.
Contra todos nada poderá fazer - trilou a pintassilgo.
- E quanto à jiboia?
- A jiboia, essa enroladona, só faz rastejar e mostrar a língua de duas
pontas. É um bicho que não nasceu para mandar ou liderar e ser obedecido.
O periquito-rico e a jandaia e o papagaio-da-serra trocavam
preferências e gostos e impressões:
- Acho que vai vencer a onça-pintada.
- Prefiro que vença a jiboia.
- Eu fico em cima do muro, quer dizer, em cima da pitombeira.
E o trio riu as três gargalhadas esfarrapadas desbandeiradas
descadeiradas destrambelhadas desbragadas.
O jabuti, que adorava jabuticaba no café da manhã, bebendo um gole de
chá de tiririca sem açúcar, retomou a ordem da palavra, pediu atenção da
plateia e recomeçou a segunda rodada de debates ou discursos:
- Nessa segunda rodada o candidato terá direito à replica e à tréplica.
Mais uma vez, e sempre em ordem alfabética, começaremos com o senhor
gavião-de-penacho.
O gavião levantou a crista, ave mais forte do mundo, bateu as asas no
peito, poque! poque! poropopoque!... dois metros de ponta de asa a ponta de
asa, abriu o curvado bico, e guinchou:
- Crou! crou! crou!... Quem ouviu a falação dos meus nobres adversários
percebeu tranquilamente que estão mentindo, que prometeram coisas que jamais
saberão cumprir! Pois somente eu, no ar ou em terra, poderei combater o
terrível, o sanguinário, o monstruoso ser humano! Só eu poderei medir forças
com ele de igual pra igual! Eu, meus bichos, sou o mais completo dos animais,
sou o mais competente, o que voa, meus queridos!, o que voa!... Ninguém me
alcança, ninguém me vê e eu apareço de repente, apareço antes da sombra, onde
bem quero! Caio sobre minhas presas de supetão! Tudo posso fazer! Portanto, meus
queridos bichos, votem no animal certo, votem em quem de fato pode lhes ajudar,
votem em mim: o guiraçu! Por hora me basta!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
A pássaro pintassilgo, eufórica, entusiasmada, dobrou o trinado para a
Lilás:
- Nossa, que discurso... uau! Esse é o nosso uiruuetê! Já ganhou!
E a pintassilgo cantou junto com os partidários:
- É gavião! É gavião! É gavião-real!...
Era a vez da sinuosa e coleante e serpentina e serpenteante e serpeante
jiboia, que assobiou:
- Tchiii! tchiii! tchiii!... Estou assustada e assombrada de ouvir
tanta besteira, tanta mentira, tanta piração, tanta fantasia! É brincadeira,
meus bichos! Se todos queremos combater e vencer esse inimigo monstruoso que é
o homem, como é que, pergunto eu, poderemos confiar esse encargo a um pobre
gavião comedor de pinto, hein?!, meus
amigos e amigas! E então, meus bichos, como poderemos confiar esse encargo a um
pobre bípede penoso das alturas? Ridículo, não, meus bichos?! Yes, ridículo,
uma brincadeira sem graça! Agora peço que olhem para mim, olhem meus
músculos... veem? Acham que algum homem pode escapar vivo do meu abraço? Mandem
essa penosa toda assustada e voadora para o ar que a carregue, que vá comer
semente de abóbora no cume da mais alta montanha da serra dos Órgãos, se
quiser! Quanto à onça-pintada, todo mundo conhece as suas mentiras, as suas
gabolices! Já vi muita onça virar tapete na sala de visitas do caçador! E
quando presa numa armadilha chora mais que filhote desmamado! Portanto, que não
venham esses dois cantar de galo, aliás, o galo é outro vencido, que come milho
na mão do homem! E digo e faço e aconteço e ultrapasso: só uma jiboia causa
terror a um homem! Por agora fico aqui!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
Muitos partidários da suaçu silvaram e cantaram, em coro, assim:
- Jiiiiiiiiiibooooooiiiiiiiiiaaaaaa!...
Já a onça-pintada ou canguçu, ferida nos seus brios, cutucada com vara
curta, virou uma fera, virou o bicho, virou onça, espumou e destilou ira, a
onça virou onça, e largou faíscas pelos olhos amarelos, bramiu, e esturrou:
- Rrrrr! rrrrr! rrrrr!... Tudo inverdades, meus bons eleitores e
eleitoras! Tudo ilusão, fumaça para atrapalhar a visão e enganar os ingênuos!
Sim, é ilusão que uma pobre ave bicuda, comedora de sementes e quirera, possa
vir a ser alguém importante na vida! Quem tem medo do seu pio? Só o pobre e
pequenino filhotinho pintinho da galinha Mariquinha! Com um simples bodoque até
o menor dos homens o derrubará! Quanto à jiboia, essa sonsa sem dentes e sem
patas, que passa a vida enrolada e enrolando no tronco de uma guajuvira ou
guaçatunga ali por perto, só consegue mesmo engolir mosca! Eu me enojo só em
pensar que existe sobre a terra bicho tão inútil e traiçoeiro e repugnante!
Aliás, até o homem, aquele terrível monstro, tem é mais nojo que medo desse
réptil preguiçoso! Eu não, pelo contrário, quando quero algo vou à caça, ando,
nado, procuro, espreito, acho, pulo, mato, mastigo mastigo mastigo e, glupe!...
engulo! Tenho dito!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
A torcida da onça-pintada miou e uivou e rugiu em coro:
- É o bicho é o bicho é o bicho, vou te devorar! É o bicho é o bicho é
o bicho, vou te devorar!...
Alguns animais pensavam e conversavam e queriam mesmo outras espécies
concorrendo ao cargo de governo da mata. E numa roda de contraparentes, o
muriqui, o mico-leão-dourado, o macaco-prego, a sagui-imperador idealizavam o
jabuti como candidato.
- Eu prefiro o jabuti como candidato a presidente.
- Também acho e estou de acordo.
- Muito mais calmo e sábio e amigo que esses três metidos a
mandachuvas.
Já em outro grupo, o escolhido parecia ser outro outra ou outros:
- Eu mesmo gostaria de votar no tucano-de-peito-amarelo - disse a
inhapupê.
- Que nada, dona. O melhor podia ser o teiú - opinou o azulão.
- Gosto muito do cachorro-do-mato-vinagre - pipiou saíra-sapucaia.
O bicho-preguiça, agarrado no tronco da juruvá, desandava de sono. O
tinguaçu também.
O gavião, por sua vez, voltou a piar, gazear, atacar, e gloterou:
- Crou! crou! crou!... Vai dar gavião na cabeça! Nem couro para fazer
sapato ou para fazer bolsa de madame, nem tapete para sala de visitas ou troféu
na parede! Vai dar é gavião na cabeça! Sou o mais honesto, o mais confiável, o
mais dinâmico! Como disseram as minhas nobres adversárias, nós comemos
sementes, frutinhas, mas elas... elas comem é outros bichos, filhotinhos seus,
meus caros eleitores, parentes seus e meus, caros amigos e caras amigas! Quem
nunca teve problema com onça e jiboia, hein?! Somente eu, o gavião-real, posso
lutar e fazer um mundo melhor pra todos nós! Não nego a palavra empenhada,
respeito todos, todo mundo confia em mim, não é mesmo? Sim, e vocês veem que
tenho estirpe, que lá no céu já sou rei, posso ser também aqui na terra! Quem
sabe olhar lá de cima, quem pode ver tudo do alto, enxerga melhor o perigo na
terra! Vejo longe, vejo amplamente, meus amigos e amigas eleitores! Eu voo
veloz, faço quilômetros e quilômetros num piscar de olhos! A jiboia, ao
contrário, lenta e enrolona como ela só, não se arrasta vinte metros no tempo
de um dia! E a onça-pintada? Bem, essa se entoca perto de um bebedor, de um
córrego, de uma sanga, e ali passa a vida toda, envelhece sem botar o focinho
pra fora do seu sítio do seu grotão! É com um desses dois animais que querem
contar? Esqueçam! É nesses animais limitados, que só tem tamanho, que vocês,
meus queridos e queridas eleitores, pretendem depositar todos os seus sonhos,
sonhos de uma vida melhor no futuro, vida preservada, vida mais espaçosa e
tranquila, vida cheia de mato para vocês e seus parentes? Não e não! Pensem
nisso! Obrigado!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
A vez da falação seguinte caberia, pela ordem, à jiboia, mas a onça,
nervosa por demais e por natureza, esturrou, gruaaaaaaauuu!... e pulou na
frente, babando, suando. A onça-pintada ou jaguaretê, 1,80m, e 160kg, seus dois
olhos naturais em amarelo, desafiou os adversários, quebrando o protocolo,
rugindo:
- Rrrrr! rrrrr! rrrrr!... Pois eu desafio quem for e quem quiser para
agora, já, ali no terreiro, naquele campestrezinho, naquele limpo, naquela
graminha verdinha ou na sombra daquele bom umbu, disputar essa droga de governo
no braço! Tem bicho aí que quer encarar? Alguém topa? Estou cheia dessa
falação! Vou tirar couro de cobra... Vou depenar carancho... Ouvi alguém piar,
alguém mostrar a língua, hein?! Pulem pra cá seus papudos!
Foi um erro desrespeitoso esse desafio essa provocação. A jiboia, que
não gostou mesmo, que não levava desaforo para o atoleiro do sumidouro, roncou,
ruuuooouuu!... e avançou também. Uma e outra, já esquecidas de que a disputa
era no gogó, no papo, no lero-lero, no convencimento da palavra prometida, no
fazer promessas, partiram para o encontro para o combate. As duas partiram para
os abraços. Partiram para a brigaiada.
O jabuti, ajuizado quelônio, carapaça nos ombros, movimentos lentos,
sábio e entendido, entrou com a conversa para ver se suavizava a pendenga, serenava
os ânimos, acalmava os nervos dos debatedores brigões, e disse:
- Calma calma, bichos! Não vamos perder a cabeça, não vamos baixar o
nível, por favor! Controlem-se! Vamos ter calma, respeitar cada um a opinião
do!...
Não adiantou nada o bom e inteligente jabuti chamar os candidatos à
razão à ordem. Pedir calma nessa hora foi até pior. E nem os amigos-do-deixa-disso
conseguiram fazer nada ou alguma coisa.
Assim, então, o que se viu, foi a jiboia que pulou sobre a onça-pintada
e, ambas emboladas, abraçadinhas ou enroladinhas, engalfinhadas, rolaram rochas
abaixo, morrinho abaixo. O gavião-real, também perdendo a pose, topete altivo,
garras potentes capazes de capturar grandes mamíferos, gruiu, crocitou,
crooouuu!... e se enroscou também no rolo. A onça-pintada, a jiboia e o
gavião-de-penacho, os três numa bola só, se pegaram, se grudaram no salve-se
quem puder.
Bem, daí por diante ninguém mais se entendeu. A poeira levantou e
escureceu o céu até lá em cima. Ainda hoje é assim. Levantou poeira e folhas
secas e ciscos e gravetos, saiu lasca e pedras para todo lado. Não houve como
controlar a ordem novamente. Todos voltaram aos seus velhos ódios e medos e
arrepios. Todos contra todos. Muita correria. Era bicho fugindo, era bicho
perseguindo capturando morrendo correndo berrando piando, enfim, cavaco para
todos os lados e salve-se quem puder. Muito bicho se escondeu pelos taquaruçus,
subiu em guamixingas, sumiu em guajarás, voou para bem longe, mergulhou no rio.
Era a já antiga luta da sobrevivência. A roda da cadeia alimentar se formou se
movimentou outra vez. O menor fugindo do maior. Cada um por si e Tupã por
todos.
O jabuti, por seu lado, lamentando, pulou no rio e desapareceu entre os
pés de baronesa. Falou só uma palavra, fechando com chave aquele caso todo:
- Fui!...
Um fiasco de comício. Um vexame de eleição. Um desencontro de opiniões.
Um empurra-empurra de emoções.
Eram o quê?, treze e treze de uma boa tarde, boa tarde. Boa tarde!
Passeava sem nervoso, calmamente, uma tropa de nuvens brancas pelo azul do
imenso céu.
Já se sabe onde fica a cidade de São Miguel das Missões. Mas não foi
para aqueles lados, não. Não se sabe onde fica as cidades de Igaratá, Feira de
Santana, Irajuba, Mangaratiba, Tanquinho, Caraúbas do Piauí... Um pouco pra cá
que aconteceu, mais ou menos, esta história, esse causo, aquela peleia, essa
lenda.
Em breve o riacho Retiro suspirou de cansaço ali na prainha branca
feita de cristais brancos. Borboletas brancas catavam mel na areia. Um
peixe-boi de água doce ainda pastava ali. O rio fazia uma curva para a direita.
Era bonito mas ninguém ouvia elogio nada. Os japus pulavam nos poleiros. O rio
tinha razão. E descia. Um tracajá pedalou no raso.
E bem para lá do imenso universo já dentro do céu, Deus-Tupã o Todo-Poderoso
Onipotente Onipresente - e que não tinha nada com isso com aquilo não estava
nem aí não tinha nem olhado a Terra aquele dia -, jogava bola com gols e
planetas jogava futebol com planetas de cores uns melhores que outros.
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