segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Eleições na Mata (juvenil)





Vinha chegando, veloz e rápido e a jato, um alado uma aladinha. Dia de voar. Quem diria?! O ar fino puro universal azul plástico. O céu de vidro. Quem seria? A curiosidade festiva, divertida, alegre e engraçada. Que haveria? O mundo era este mesmo o de sempre, obrigado obrigada! Quem estaria?
Tupã costuma descansar no domingo o dia todo faça sol faça chuva já foi para a praia de Jericoacoara lago Janauari cachoeira de Iauaretê viaduto Santa Ifigênia praça Lobo de Mesquita e Porto de Moz.
Tupã desde sempre. Tupã está em tudo, incontrolavelmente. E Tupã é o rio a mata o sol a lua o curupira os bichos a tucumã o peixe-cachorro. Separando muito bem o presente o futuro o passado. Tupã é tudo junto e ao mesmo tempo.
A veloz pintassilgo entrou pelo quarto de Lilás, aproveitando a janela aberta, a cortina descerrada, deu uma volta pelo quarto, e surpreendeu a menina largada na cama, de bobeira, sonolenta, lenta, preguiçosa. Depois de pousar no parapeito da janela, a aladinha foi falando assim, pipiando, palrou:
- Ei, menina Lilás! Aqui quem fala é sua amiga pintassilgo, natural de Caxingó! Você que está aí de papo pro ar, de boa, sem fazer nada, não quer sair comigo?
- Ai, que preguiça!...
- Se mexa, guria! Quer vir comigo?
- Pois é pra onde pra hoje?
- Na mata lá pra região de Maraú. Dentro do mato. Depois do rio, depois do faxinal, junto de uma restinga.
As perguntas da menina sempre na ponta da língua:
- O quê? Como? Por quê?
- Explico. É que por lá haverá reunião de todos os bichos pra escolha do rei ou rainha da mata. Vamos?!
- E o que tenho a ver com tal coisa? Não sou bicho. Eles nem mesmo vão me aceitar como pequena observadora.
- Você poderá ir com um disfarce, hein?! Vai ser diferente.
- Tá bom, tá bom! Que disfarce será esse? Só vendo.
Então, a pintassilgo, manchinhas de preto e verde e amarelo nas penas, se agarrando na cortina da janela, arregaçou as penas bonitas das asas, se concentrou e, zuuuuu!... fez a mágica. Transformou a menina Lilás numa passarinho inédita e lilás. Agora poderiam ir juntas à assembleia dos bichos sem a menina passar por intrometida, sem ser reparada, sem ser percebida sem dar vexame. Ninguém desconfiaria.
- O que está feito está feito - disse a pintassilgo.
- O que é perfeito já nasce rio corrente - soube dizer a Lilás.
Feita a metamorfose, feita a transformação, feita a aposta, feita a reviravolta, partiram para a mata voando alto no céu azul, céu azul muito azul, dez horas e dez minutos, ar limpo, vento calmo, árvores verdes, umari, araxixá, tauari, camaçari... azul cem por cento, mundo enorme, céu côncavo.
O trânsito no céu estava ótimo, ou seja, tudo tranquilo passageiro trafegável cinquenta por hora. As nuvens com feitio de bicicleta vassoura secador de cabelo cadeira giratória aspirador de pó torre sem asas. O sol quente espiava o mundo de longe. As árvores faziam sombras, anani, mapati, camaá, figueira-de-folha-branca... e se mexiam um pouco entortando para o lado oeste. O dia merecia. Lilás falou, ou melhor, trilou:
- Nossa, que sensação de liberdade!... Isso é que é sorte, uau!... O vento batendo na cara!... Minhas penas coloridas esbarrando nos fiapos de nuvem!... Olhando tudo do alto, Tibau, Porto Franco, Camocim, Upanema, Salto Veloso... e outras cidades. Há tempos eu venho pensando: e se eu não fosse gente, que outro bicho ou coisa eu seria melhor?
- Gostaria de ser pássaro pra sempre? - cantou a pintassilvo.
- Deixa ver se sei cantar ou gorjear... ffff!... fiiii!... fiu-fiu!... tchiu! tchiu! tchiu!...
- Tem que afinar o gogó. Você aprende, é só treinar com os mais velhos.
- Vou ter que comer migalhas, brotinhos, frutinhas e sementes.
- E outras coisas engraçadas de comer, quireras, farelos, xeréns, pipocas, milhos.
- Sabe, sempre tive um sonho arriscado: o de praticar um rasante sobre a superfície de um açude, de uma sanga, de um lago... como agora... iauuuuuuuu!... liiiiiipeee!...
- Quer ir longe ou ir embora para longe?
- Um dia de alada é pouco quase nada.
O mato farfalhava folhas de cajazeira, folhas de jupicanga, flores de mulungu, ramas de meruquiá, o verde tomando conta de tudo. O vento comandando o tagarelar das folhas, o perfume, o abstrato das cores. Uma paisagem cheia de paisagens aqui e ali.
Bom ar, bom voo, bom passeio, boa viagem, boa alada. Se tivesse chovendo também seria bom. E praticamente chegavam ao paraíso.
A notícia tinha sido espalhada pelos pássaros e outros animais terrestres. Os mamíferos levantaram as orelhas. Os répteis já pularam fora das tocas. Os anfíbios borbulharam para os peixes e semelhantes.
Perguntaram ao quati:
- Aonde tu vai, quati?
- Vou no comício. E você?
E perguntaram ao tatu-mulita:
- Para donde te bandeias, tatu?
- Para lá, ver o showmício.
Indagaram do bem-te-vi-cinza:
- Aonde vai nesse voo federal?
- Vou conferir a tal disputa eleitoral.
Ficaram sabendo do pássaro arisco e curioso:
- Aonde vai com tanta pressa, cairé?
- Vou votar na eleição para rei e rainha da mata atlântica.
O gambá vinha atravessando o rio Maranhão, o peixe muçum perguntou por perguntar:
- Onde é o babado da votação, seu gambá?
- É para os lados da serra, mais ou menos. Vou seguindo a manada. Não tá interessado? Vai bicho de Cruzmaltina, de Caxambu, de Baependi...
O lugar da reunião era na beira do rio Retiro. Riozinho preguiçoso e manhoso saído de banhados, banhadões, barragens, sangas, tanques, represas, espelhos-d’água açudes... O cipó-timbó enrolado com camboatás, caaeés, jundiaís, criciúmas, quitocos, avencas, fedegosos, buvas, carrapichos, guanxumas, javaris, ucuubas, carobas... e outras plantas de verdes confusos tons balançando aí com o sopro do vento a mata ciliar.
Uma boa e natural plataforma de pedras, já instalada desde o mundo criado, esperava ali para os discursos dos candidatos ao governo da mata. Em volta desse pedregulho, todos os animais chegavam para calmamente assistir aos debates. Vinham aparecendo e se aproximando e se reunindo e se associando todas as espécies e raças conhecidas. Muitas trilhas e trilhos riscavam de lá pra cá tecendo uma rede de caminhos. Os ares já cheios numa multidão de asas e pios.
O rio Santa Teresa passa em Água Comprida que é já faz tempo parte da serra Carnoió, e de onde vinham as pombas-trocal, os ajuruetês, as juritis-da-mata... O tucano-de-peito-amarelo, seu muiraquitã da sorte pendendo do peito, viajou desde a cidade de Faro. O inhambu natural de Rio Preto da Eva. Um grupo tagarela de cujubins com fala típica da região de Parintins. De Santana do Deserto vinha o casal de carriças.
De um lado da trilha no mato surgiu o graxaim e foi andando, encontrou a preá que encontraram o ratão-do-banhado que se juntaram ao lobo-guará e ao jacu. Sempre em frente rumo ao lugar do comício, seguiram encontrando a anta a cutia a jaguatirica a cobra-coral a lebre. Até a clareira ali junto ao rio Retiro. E todos chegavam e já era uma boa multidão inquieta e surpreendente.
Que boa paz entre os animais. A saúva levantou as antenas. O borrachudo zumbiu no ar aberto. A broca ia medindo palmo a palmo. Quero-quero andando olhando pisando a grama. Um quero-quero com sono de quero-quero. Formiga taoca bocejando antes da hora. O porco-espinho bebendo a água do rio em sorvos compridos. Figurinhas, figuras, figurantes, figurões e figuraças.
- É muita reunião. É muita população. É muita multidão - desabafou a passarinho Lilás.
- Eu tenho o que Deu me deus e ninguém me tira! - foi a fala empolgada da pintassilgo.
Lilás, olhos grandes e alegres, bico aberto em sorriso sempre sorriso. Provou, aprovou e repetiu. Faltava pouco para a menina-passarinho ficar sabendo. E ficou assim por isso mesmo, dizendo:
- Por que motivo, pode me dizer?
- Tanto faz, como tanto fez - trilou a pintassilgo.
Lilás e a amiga pousaram ali por perto, no galhinho de um guamirim. A plateia ali pelas árvores, sobre pedras, sobre tocos, no gramado, nos tucurus, espiando da superfície do rio, entre os aguapés, entre os uapés.
Todos os animais juntos, misturados, sem rivalidades e receios, já se posicionando. No rio Retiro o lambari, a traíra, o jundiá, o cascudo, a cobra-d’água, o sapo-ferreiro, a jia, o jacaré-de-papo-amarelo, o poraquê ou peixe-elétrico, o tambaqui, o jaraqui, o curuca... emergiam e imergiam e emergiam agitados com a expectativa do debate do pinga-fogo.
Pelo ar, em todo canto, ou pousados, zunido de besouro e abelha e escaravelho e libélula e joaninha e flanar de borboleta e o chão de pegadas de escaravelho e lacraia e mede-palmos.
De repente caiu uma chuvarada. Todos os bichos e plantas olharam a chuva cair e deram risadas. Uma chuva necessária. Durou cinco minutos. E parou de chover logo após passar seis minutos. Um ar de arco-íris e pronto. Grande noz-moscada-do-brasil agradecia e recomendava. Outras árvores olhavam em silêncio paradas limpas naturais verdes de perfume aroma tonalidade, amapá, catuaba-do-mato, matamatá, bacaba, pupunha-piranga, sacambu... e pingando água da chuva.
Nuvens de branco, despregadas, elásticas, sinuosas, recortadas, desconjuntadas, confortáveis, do tamanho de navios mercantes, sempre pastando o azul anil voos de azulões-do-campo, sobrevoos contornados de curicacas.
A gralha-azul falava alto ou cantava, acompanhada da tesoureira do sabiá-do-campo da araponga da pomba-rola da maitaca-parda da sanã-carijó da cambaxirra do saurá... O bugio coçava o focinho sentado pacífico numa faveira-pequena. Grupo de pixoxós chegavam agorinha de Atalaia do Norte. Pois a jandaia chegara ontem de manhã diretinha de Iranduba acompanhando o rio Uatumã.
Conversas dispersas, conversas paralelas, conversas cruzadas e entrecruzadas, conversas de bichos, zunido, zumbido, alarido, grunhido, uma confusão que eles se entendiam nas mímicas e traduções simultâneas ou legendadas. A andorinha-do-campo finalmente se encontrava com a comadre balança-rabo-de-chapéu-preto e era já um tempão desde a última vez e foram falando de tudo um pouco e dos familiares e dos filhotes e dos parentes e cada uma contava seu pedaço de história e cada qual recomeçava a narrar o que a outra sufocada interrompia e assim por diante e que eram muitas novidades casos interessantes longos gralhar interminável e ao mesmo tempo. De Água Fria de Goiás vinham chegando os periquitões-maracanãs. Da rua Pistóia em Bias Fortes pulava pra história o tiziu.
Faltava pouco para tudo começar. Os bichos já olhavam para o sol molhado das onze e onze da mesma manhã. A passarinho pintassilgo chilrou para a alada menina bonita Lilás:
- Olhe, repare só, menina... quer dizer, pássara Lilás... a onça-pintada está chegando.
- É. Será que veio pra beber água?
- Dizem as notícias da mata que a pintada já urra e arrota vitória. Vitória com v de garra.
A onça-pintada, forte e valente e valentona e invencível e corajosa, vinha no seu passo lento e confiado. Uma pelagem bonita, toda pintada, manchinhas pretas e amarelas, camuflada de luz e sombra. Deixava sua marca de quatro dedos no chão. Parou no meio da clareira, olhou os lados, olhos amarelos, mostrou os dentes, presas enormes, deu o tradicional rugido, grrrrrr!... e foi para a plataforma ou monte de pedras esperar o debate. Lilás perguntou para a amiga mais próxima a pintassilgo:
- Quem é mesmo o nosso candidato de vocês?
- É o gavião-de-penacho, nossa maior ave de rapina. Conhecido e temido entre os homens como harpia, parente próximo do carcará, carancho, gavião-de-queimada.
Aí, então, se ouviu um ruído de galhos quebrando e coisa e tal. Som de chios e guinchos e... como se algo ou alguém estivesse arrastando ou sendo arrastado ou se arrastando mata adentro ou mata afora.
De surpresa, de susto, a jiboia. Vinha toda faceira, mostrando a língua de forquilha, se arrastando e quebrando gravetos e estalando folhas secas pelo caminho, abrindo caminho, camuflada de preto e amarelo, cobra boiúna, deixando rastro de cobra, cobra das grandes, cabeça chata, sorriso largo. Parou no meio do campestre, bem no limpo, olhou os lados, se contorceu, mostrou a língua de duas pontas, sorriu sem dentes e se encaminhou para o palanque ou subidinha dos debates.
E faltavam uns poucos segundos para o início dos discursos. Faltava o candidato gavião. Todos olhavam o céu, ouvidos atentos, focinhos cheirando, olhos bem abertos.
Não é que... falando no rabo... aparece o ditado, ou melhor, o próprio gavião?! De repente, de supetão, assim num estalar de dedos, o legítimo surgiu dos céus, surgiu do nada, voando veloz, sombra rasteira, e aterrissou direto na plataforma de pedras ou barranco. Como uma mágica. Vibrando as asas, talalá! talalá!... apertando as garras, cleque! cleque!... e batendo o pico, titique! titique!... e um olhar de agulha penetrante feroz.
- Uta! Que susto levei, meu! - reclamou a menina-passarinho Lilás.
- Que aparição o-ri-gi-nal! Digna de um alado poderoso e feito e bem feito para ser o governador da mata - elogiou a pintassilgo.
O tamanduá-bandeira largou alguns fogos de artifício foguetes fogos de vista show pirotécnico. A arara-vermelha-grande fechou os ouvidos com as penas das asas. A garça-azul arrepiou o pescoço e encolheu uma perna. O joão-pobre subiu uma pedra para ver melhor. O pica-pau-de-cabeça-amarela deixou de procurar comida no tronco da timboúva. Casal de tucanuçus tirou selfies com a multidão tripulação e passageiros. Um sanhaço-frade aproveitava a calma para espiar a namorada. Família de araracangas aproveitava a sombra da jaboticabeira-rajada.
Nesse momento, olhando a passagem do sol, o jabuti-carumbé, bicho conhecido e terrestre e herbívoro - que foi quem tomou a iniciativa da reunião ou do debate político -, subiu para a pedra mais alta do monte de pedras, subiu para o barranco, subiu para o morrinho e se empinou nas patas traseiras, já pedindo um silêncio geral:
- Psiu!... Silêncio! Atenção! Sossego! Calma, bichos! Meus queridos animais de todas as espécies, raças, nações e meio ambientes! Estamos aqui, num esforço sem igual na história do mundo animal, para tentarmos uma eleição na mata, para elegermos o chefe ou a chefe dos bichos! E por que uma eleição?  Porque nossa mata, nossa casa, nosso lar, nosso mundo, vem sendo dia após dia e noite após noite explorado, diminuído, cortado, derrubado, derrapado, queimado, roubado, desmatado pelo terrível predador chamado: homem! E esse tipo conta com ajuda de tecnologias, máquinas as mais poderosas, tratores, escavadeiras, dinamites, motosserras, e é organizado, e é inteligente, e é muitas coisas ruins ao mesmo tempo! Ele, o ser humano mesmo, se diz o preferido de Tupã, nosso criador! É claro que não compartilhamos desse pensamento! Porém, nós mesmos, ao longo da história, pouco ou nada fizemos para mudar essa situação perigosa! A ideia, portanto, a partir dessa eleição, é dar um basta, é mudar essa calamitosa realidade, é nos unirmos nos organizarmos para combater o inimigo comum!
Aplausos ou vivas. A seguir o jabuti pediu novamente silêncio e prosseguiu na falação:
- Precisamos nos organizar, nos entender e nos respeitar porque também entre nós há diferenças, discórdias, raivas, ódios, guerras, brigas, perseguições, iras e mortes! Uma utopia, um sonho, seria que nos tornássemos todos vegetarianos!...
Houve aplausos ou vivas, sustos e vaias.
O colhereiro se beliscou. A cutia se movimentou para junto da saracura e da seriema. O macaco-de-cheiro pulou pelos galhos da azeitona-do-mato. O juparaba piou à vontade. A ema estava enigmática, compenetrada, introspectiva, completamente quieta calada. O tenenê brincava com o coçar as próprias penas da asa esticando uma depois a outra. O anambé-vermelho deu um pulo de dois metros e trocou de galho. O urutau bocejou mas disfarçado com a asa no bico. De Borrazópolis chegava, atrasado, o grimpeiro.
O Jabuti tossiu de lado, bebeu um gole de água mineral sem gás engarrafada em Cachoeira Dourada, preparou a garganta e seguiu dizendo:
- Bem, isso deixemos para os candidatos debater e prometer! O que nos preocupa fundamentalmente, principalmente, isso sim, é nossa relação com o homem! O ser humano é nosso pior inimigo e é contra ele que todos nós temos de combater! Contra ele temos de brigar! E para combater um inimigo comum e muito forte, precisamos, como já disse, de nos organizar, de nos unir, precisamos de um líder, de um chefe, de um presidente ou uma presidente, de um governador ou uma governadora, daí a convocação para eleições! Com um guia um chefe ou uma chefe respeitado e amado por todos, escolhido pela maioria, lutaremos do mesmo lado, seremos mais fortes e valentes! Só assim poderemos dar combate ao homem! A união faz a força!!
Aplausos e vivas e uivos. O jabuti foi muito cumprimentado.
O sol forte, e todo o dia levaria tempo para consumir com o baita calor que fazia. Quantos tarecaís se arrastaram do ensopado lodo do riacho para o barranco vermelho. De Lidianópolis sorria o casal de tchintchorrintchos. Descia do dia solar uma alegria uma atmosfera invisível e natural. E marreca-cabocla, marreca-caneleira, marreca-toicinho, pato-corredor, pato-de-crista... conversavam, trocavam ideias sobre voos, viagens, lugares, verões, estações, temporadas, lagos, olhos-d'água, correntes de ventos quentes, ilhas de veraneio, etc:
- No verão passado eu fui para a ilha Anchieta e gostei imenso.
- Vocês precisam conhecer Nhamundá.
- Passei por Marambaia, Alto Feliz, São Paulo de Olivença, Amaturá, Taquaritinga, é.
- Eu e minha noiva e a família toda pretendemos atingir a Pedra Pintada, em Roraima. É reserva dos índios tsunhum-djapá, se não me engano.
- Vou voar para Angra dos Reis, ilha Grande e arredores.
- Conhecem Japeri?
- Estou voltando de São Brás do Suaçuí. Muito simpático. Lá existem montanhas de pedra parecidas com bichos.
- Pousaremos na altura de Paranaguá. Gostei muito do prato o Barreado que comi em Morretes e em Antonina.
- Pretendo casar e morar para os devidos fins na altura de Tarrafas, conhecem, já ouviram?
- Ouvi falar muito bem de Tupaciguara.
- As lagoas de Mundaú e de Manguaba são imperdíveis eu recomendo são azuis cheias de sol o ano todo e praias ricas ricas.
- Eu gostei imensamente de passear por rio Trombetas, Lajeado Novo, Caicó, Apodi, Açu...
- No último verão eu e meus parentes próximos e nem tão próximos fizemos o circuito das frutas, Atibaia, Indaiatuba, Itatiba...
O Jabuti, bebendo um gole de água da pedra, respirando fundo o ar da mata, batendo os olhos na assistência, continuou, prosseguiu politicamente correto:
- A nossa lei terá de ser a lei da preservação, da segurança ambiental! E não poderá ser a lei do mais forte nem a lei do olho por olho e dente por dente nem a lei das selvas nem do salve-se quem puder!
A frondosa mavevé se agitava toda carregada de anus-pretos, coleirinhas, sebinhos, joões-de-barro, tico-ticos, curiós, almas-de-gato... um grupo muito conhecido de conversadores.
O jabuti ergueu a voz e andou com o lero-lero e a trova e a prosa e o discurso:
- Bem, vamos dar início aos embates! Convidamos o representante de cada partido a que compareça ao alto das rochas para iniciarmos o debate! Em ordem alfabética chamamos primeiro o representante das aves do ar, terra e água, os bicudos, os penosos, nascido do pda: partido dos alados, temos o senhor... gavião-de-penacho! Aplausos, por favor!
Aplausos ou vivas, indiferenças ou vaias. O jabuti foi em frente apresentando:
- Para representar os coleantes, os serpenteantes, os sinuosos, os escamosos, peçonhentos ou não, nascida do pdr: partido dos rastejantes, temos a senhora... jiboia! Aplausos, por favor!
Aplausos ou vivas, indiferenças ou vaias. O jabuti esperou as manifestações acalmarem e, logo em seguida, continuou:
- E ainda, para que represente os mamíferos, os peludos, os felinos, predadores ou não, a candidata nascida do pdq: partido dos quadrúpedes, temos a senhora... onça-pintada! Aplausos, por favor!
Aplausos ou vivas, indiferenças ou vaias. E para finalizar o seu jabuti finalizou afinal finalmente e por fim:
- Esses são os representantes dos três partidos que concorrerão ao cargo maior de nossa mata! Os candidatos estão aí! Um ou uma será o presidente ou a presidente! Por fim nosso desejo é que os candidatos e os partidos e os partidários ou correligionários se respeitem mutuamente para o bem das conversações! Depois votem em quem quiserem! Só isso, e boa sorte a todos, e bons debates a todos!
Aplausos ou vivas, indiferenças ou vaias. E tudo estava indo tudo muito bem. Os bichos se olhavam com respeito. Todos ali, mistura de falas e cores e crenças e feitios e cada macaco no seu galho e cada ser no seu quadrado.
Eram, no horário normal do dia e do céu daquele tipo celeste ideal, os doze minutos da tarde começando logo após o meio-dia. As raras nuvens chegavam para abastecer, as nuvens do céu do rio, o rio quase parando para dar de beber.
Uma ariranha emergiu curiosa ali junto no boiadouro. Jaritataca chegou. O jacaçu pousou dentro da caparrosa. Suaçuapara não resistiu e foi cheirar as folhas da erva-paina. E cobra-capim se enrolou na trapoerabarana.
A menina-pássaro Lilás e a pintassilgo, ainda pousadas nos galhos curvados da jará-açu, pensaram alto:
- Estou sentindo um calorão! - suspirou a Lilás.
- O mundo inteiro começa agora - disse, enigmaticamente, a pintassilgo.
Umas plantas bebiam do rio Retiro, majuba, bucaré, chá-mineiro, cipó-em, jarina, quina-branca, curuatá, ananá-de-raposa... Pegavam o verde emprestado do sol, adquiriam o fôlego no vento e não pensavam em sair do lugar do lugar.
O gavião-real - seus dois olhos amarelos naturais -, o primeiro a falar, subiu na pedra mais alta do monte de pedras, esticou o pescoço, abriu as imensas asas para mais de dois metros, simplesmente fantástico!, mostrou as garras poderosas, preparou a garganta, arrepiou as penas do pescoço, abriu o bico e grasnou:
- Crou! crou! crou!... Obrigado pelos aplausos e vivas! Lá de cima vejo tudo e não escondo nada, sumo no ar ou apareço de repente! Bicharada que me ouve e me vê, o que tenho a dizer é muito simples, direto, direito e verdadeiro! Minha proposta é, primeiramente, acabar com as discriminações e medos entre as várias espécies de bichos! Prometo lutar para que nenhum animal almoce o outro! Prometo fazer regras e leis para que nenhum bicho jante o vizinho! Prometo também me empenhar na luta feroz, incansável, vinte e quatro horas por dia, dia e noite, contra nosso monstruoso inimigo: o homem! Afinal, quantos de nós já viram parentes, aderentes e amigos serem massacrados por esse terrível predador, por esse terrível mapinguari? Tenho em minhas garras muitas estatísticas que comprovam o que digo! Prometo não parar um segundo até tirar definitivamente esse inimigo assustador do nosso mato! E nós, aves e pássaros, somos privilegiados nesse tipo de empreitada! Nós somos, comprovadamente, imbatíveis no ar, e podemos agir com mais segurança e clareza e certeza! Por hora é isso, muito obrigado!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
É. E o gavião queria porque queria ser o rei da mata. Fez o seu discurso pedindo votos. E isso passou pelos ouvidos de todos. Muitos passarinhos, pássaros e aves bateram palmas, bateram as asas no peito. A pintassilgo não se conteve e piou bem alto:
- É nóis, u-huuu!...
A cigarra não parava de azucrinar, cantando aleluias, tonta de mormaço, pendurada no tronco da carrapeta-verdadeira. O sapo-pipa balançava o papo no chão molhado da beira do riacho. O rio Retiro estava ali presente, pequeno ainda, passando como sempre, e lá na frente chegaria a desaguar no rio das Antas, depois rio Jacuí, ainda estuário Guaíba lagoa dos Patos e o oceano. O rato curu-curu perguntou para alguém ali por perto:
- Você é de onde, se me permite a curiosidade, dona tubaiaiá?
- Eu sou de Pontal da Barra, Maceió. Mas também andei por meio mundo e Maracanaú, Mar Vermelho, Corumbaíba, Morro do Chapéu, Ipecaetá... e ultimamente venho de Várzea Nova. Vou para o oeste, para São José da Laje ou ilha de Santa Rita.  Viajo muito e é o que mais me faz feliz. E ocê?
- Eu viajo pouco e pouco viajei ou nada andei. Nasci em Muritiba e estou para Buritizal de onde não me ausento por muito tempo e me acomodei.
A seguir, foi a vez da jiboia, olhos feiticeiros, hipnotizantes, escamas pretas e amarelas rebrilhando ao sol, muito senhora de si nas beiras de rio ou nos galhos das árvores e que pode andar pela terra firme como por dentro da água. Gosta de se camuflar no pasto do banhado, meio corpo na água e cabeça de fora se fingindo de dorminhoca. Ela se ergueu, esticou a cabeça bem para o alto, espantosamente, mostrando toda sua elasticidade e força nos oito metros que possuía, mostrou a língua, abriu bem a bocarra sem dentes, bafou, e chiou:
- Cheeei! cheeei! cheeei!... Agradecida pela ótima acolhida! Estico, dobro, desdobro, desenrolo, rolo, estrangulo, aperto e trituro, meu abraço é fogo, não sobra bom osso! Como representante maior de todos os animais que rastejam, que esfolam suas barrigas pelas pedras e espinhos e urtigas da mata (risos!), venho pedir que votem em mim! Tenho propostas sérias, honestas, verdadeiras para nossa vida em comum! Se eleita for, quero que saibam que jamais, em hipótese alguma, comerei ou engolirei sapo ou outro bicho da mata! Nossa dieta a partir de hoje será o ser humano, única e exclusivamente! Outra coisa! Vamos criar ou nomear representantes em todas as espécies, raças, tenham lá o tamanho que tiverem, para que tragam até nós, poder eleito, os problemas e as dúvidas dos habitantes da mata! Juntos, então, trabalharemos para acabar com todas as injustiças, todas as caçadas, todas as perseguições, principalmente a supremacia do homem! Por enquanto, tenho dito!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
A jiboia, linguaruda, filha dos rios, mãe dos rios, uma lenda dos grandes rios, boiúna, parecida com os rios da mata, pediu votos e mais votos, e todos ouviram.
O vento descabelado tropeçava nas árvores, muirapiranga, javari, uirari, icó, avenca-de-espiga... o vento desgrenhado atropelava tudo. O vento apostando corrida com a chuva. Era sinal de chuva. O inhambu-galinha trocou o lava-pratos por uma posição melhor na rosa-do-campo. Bugio espiou seus olhos negros brilhantes umedecidos. O rio cantava uma canção desconhecida. Canção de pedras e paus por onde andava. Os jaburus se balançavam nas verônicas-do-igapó. E faziam que iam voar, mas não voavam agora. Piavam, isso sim. Sacudiam as sombras. E o rio Retiro deitado no leito de sempre morro abaixo. Mil espécies de aves em alarido de alagado. O rio corrente de si. O rio murmurante.
Um raio riscou trovoou assustando meio mundo. Sem muitos avisos caiu uma bomba de água. Chuva torrencial com vento na vanguarda, durante e depois. Chuva aos borbotões. A chuva caía assim fragorosamente. De muita chuva. De muito alto. Que tudo durou uma meia hora. O coaxar do sapo-martelo. Durante o aguaceiro fuzilante, uns animais procuraram abrigo debaixo das árvores dentro dos ocos das árvores dando vontade de dormir, outros animais simplesmente adoraram e brincaram na chuva nas poças na lama penas impermeáveis.
O vento uivava vantagens de correr o mundo, tocando tké-yá que aprendera com os índios botocudo, soprou:
- Por onde eu passo eu viajo com a chuva no fim do dia, Cametá, Limoeiro do Ajuru, Mossoró, Mauá, Flores da Cunha...
O caburé-cupim sacudia as penas. Um tiê-de-peito-vermelho comia merenda na sete-capotes. O garrinchão-de-bico-grande dialogava e trocava impressões com o cururuá. Já o tucuxi apareceu se esbaldando no rio e rindo de felicidade. A araçari esfregava o ouvido esquerdo com a garra esquerda.
A seguir veio a onça-pintada - olhos amarelos e brilhantes -, que escalou a pedra mais alta do monte de pedras, se ergueu nas patas traseiras, socou o ar, abriu a bocarra de dentes terríveis e certinhos, soltou a língua, salivou, espumou, cuspiu, e urrou:
- Rrrrrrr! rrrrrrr! rrrrrr!... Obrigada meus belos e belas animais! Obrigada bípedes, quadrúpedes e centopeias! Corro, pulo, nado, escalo, agarro, abocanho e arranco pedaços em um segundo! O som dos meus gritos e de minha voz cala toda a mata! Mas nada temam! Daqui pra frente, como governadora que serei de todos, minha força e agilidade será para defendê-los! Podem deixar comigo o tal de ser humano! Ele já me teme, eu sei! Fui, sou e serei a melhor exterminadora de homens! Pra mim tanto faz trabalhar de dia ou à noite! Comerei um no café da manhã, outro no lanche das dez, no almoço, no lanche das dezesseis, na janta das vinte e duas antes de ir deitar! E entre uma refeição ou lanche, caçarei quantos eu quiser para dar aos meus amigos eleitores! Comigo no poder essa mata nunca mais verá aquele tipo, nem mesmo camuflado ou disfarçado de pesquisador estudioso cientista acadêmico! Não temo e não temerei espreitar, pular e estraçalhar qualquer homem que cruzar o meu caminho ou pisar essas terras! E se eles não vierem aqui por medo, eu mesma irei até a cidade e lá, no mundo deles, os caçarei! Tenho dito!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
Onça sabida, linda e perigosa. Não conseguia ficar quieta sentada na sua pedra. Essa também pediu os votos. E todos ouviram, viram e cheiraram.
Outros felinos da mata também estavam presentes e aplaudiram a onça-pintada, era a onça-preta, era a onça-parda, era a onça-vermelha, era a onça-d’água, era a suçuarana, era o gato-do-mato, era a jaguatirica.
- É, parece que tá meio parelha a disputa - suspirou, cansada, a menina Lilás.
- Pois é, amiguinha. A onça-pintada apelou para o seu poderio em terra, é a mais perigosa, mostrou suas garras, mas não é o bicho. Vai perder.
- Mas aí que tá o ponto. Onça nenhuma sabe perder.
- Se não aceitar a derrota, todos os outros bichos ficarão contra ela. Contra todos nada poderá fazer - trilou a pintassilgo.
- E quanto à jiboia?
- A jiboia, essa enroladona, só faz rastejar e mostrar a língua de duas pontas. É um bicho que não nasceu para mandar ou liderar e ser obedecido.
O periquito-rico e a jandaia e o papagaio-da-serra trocavam preferências e gostos e impressões:
- Acho que vai vencer a onça-pintada.
- Prefiro que vença a jiboia.
- Eu fico em cima do muro, quer dizer, em cima da pitombeira.
E o trio riu as três gargalhadas esfarrapadas desbandeiradas descadeiradas destrambelhadas desbragadas.
O jabuti, que adorava jabuticaba no café da manhã, bebendo um gole de chá de tiririca sem açúcar, retomou a ordem da palavra, pediu atenção da plateia e recomeçou a segunda rodada de debates ou discursos:
- Nessa segunda rodada o candidato terá direito à replica e à tréplica. Mais uma vez, e sempre em ordem alfabética, começaremos com o senhor gavião-de-penacho.
O gavião levantou a crista, ave mais forte do mundo, bateu as asas no peito, poque! poque! poropopoque!... dois metros de ponta de asa a ponta de asa, abriu o curvado bico, e guinchou:
- Crou! crou! crou!... Quem ouviu a falação dos meus nobres adversários percebeu tranquilamente que estão mentindo, que prometeram coisas que jamais saberão cumprir! Pois somente eu, no ar ou em terra, poderei combater o terrível, o sanguinário, o monstruoso ser humano! Só eu poderei medir forças com ele de igual pra igual! Eu, meus bichos, sou o mais completo dos animais, sou o mais competente, o que voa, meus queridos!, o que voa!... Ninguém me alcança, ninguém me vê e eu apareço de repente, apareço antes da sombra, onde bem quero! Caio sobre minhas presas de supetão! Tudo posso fazer! Portanto, meus queridos bichos, votem no animal certo, votem em quem de fato pode lhes ajudar, votem em mim: o guiraçu! Por hora me basta!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
A pássaro pintassilgo, eufórica, entusiasmada, dobrou o trinado para a Lilás:
- Nossa, que discurso... uau! Esse é o nosso uiruuetê! Já ganhou!
E a pintassilgo cantou junto com os partidários:
- É gavião! É gavião! É gavião-real!...
Era a vez da sinuosa e coleante e serpentina e serpenteante e serpeante jiboia, que assobiou:
- Tchiii! tchiii! tchiii!... Estou assustada e assombrada de ouvir tanta besteira, tanta mentira, tanta piração, tanta fantasia! É brincadeira, meus bichos! Se todos queremos combater e vencer esse inimigo monstruoso que é o homem, como é que, pergunto eu, poderemos confiar esse encargo a um pobre gavião comedor de pinto,  hein?!, meus amigos e amigas! E então, meus bichos, como poderemos confiar esse encargo a um pobre bípede penoso das alturas? Ridículo, não, meus bichos?! Yes, ridículo, uma brincadeira sem graça! Agora peço que olhem para mim, olhem meus músculos... veem? Acham que algum homem pode escapar vivo do meu abraço? Mandem essa penosa toda assustada e voadora para o ar que a carregue, que vá comer semente de abóbora no cume da mais alta montanha da serra dos Órgãos, se quiser! Quanto à onça-pintada, todo mundo conhece as suas mentiras, as suas gabolices! Já vi muita onça virar tapete na sala de visitas do caçador! E quando presa numa armadilha chora mais que filhote desmamado! Portanto, que não venham esses dois cantar de galo, aliás, o galo é outro vencido, que come milho na mão do homem! E digo e faço e aconteço e ultrapasso: só uma jiboia causa terror a um homem! Por agora fico aqui!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
Muitos partidários da suaçu silvaram e cantaram, em coro, assim:
- Jiiiiiiiiiibooooooiiiiiiiiiaaaaaa!...
Já a onça-pintada ou canguçu, ferida nos seus brios, cutucada com vara curta, virou uma fera, virou o bicho, virou onça, espumou e destilou ira, a onça virou onça, e largou faíscas pelos olhos amarelos, bramiu, e esturrou:
- Rrrrr! rrrrr! rrrrr!... Tudo inverdades, meus bons eleitores e eleitoras! Tudo ilusão, fumaça para atrapalhar a visão e enganar os ingênuos! Sim, é ilusão que uma pobre ave bicuda, comedora de sementes e quirera, possa vir a ser alguém importante na vida! Quem tem medo do seu pio? Só o pobre e pequenino filhotinho pintinho da galinha Mariquinha! Com um simples bodoque até o menor dos homens o derrubará! Quanto à jiboia, essa sonsa sem dentes e sem patas, que passa a vida enrolada e enrolando no tronco de uma guajuvira ou guaçatunga ali por perto, só consegue mesmo engolir mosca! Eu me enojo só em pensar que existe sobre a terra bicho tão inútil e traiçoeiro e repugnante! Aliás, até o homem, aquele terrível monstro, tem é mais nojo que medo desse réptil preguiçoso! Eu não, pelo contrário, quando quero algo vou à caça, ando, nado, procuro, espreito, acho, pulo, mato, mastigo mastigo mastigo e, glupe!... engulo! Tenho dito!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
A torcida da onça-pintada miou e uivou e rugiu em coro:
- É o bicho é o bicho é o bicho, vou te devorar! É o bicho é o bicho é o bicho, vou te devorar!...
Alguns animais pensavam e conversavam e queriam mesmo outras espécies concorrendo ao cargo de governo da mata. E numa roda de contraparentes, o muriqui, o mico-leão-dourado, o macaco-prego, a sagui-imperador idealizavam o jabuti como candidato.
- Eu prefiro o jabuti como candidato a presidente.
- Também acho e estou de acordo.
- Muito mais calmo e sábio e amigo que esses três metidos a mandachuvas.
Já em outro grupo, o escolhido parecia ser outro outra ou outros:
- Eu mesmo gostaria de votar no tucano-de-peito-amarelo - disse a inhapupê.
- Que nada, dona. O melhor podia ser o teiú - opinou o azulão.
- Gosto muito do cachorro-do-mato-vinagre - pipiou saíra-sapucaia.
O bicho-preguiça, agarrado no tronco da juruvá, desandava de sono. O tinguaçu também.
O gavião, por sua vez, voltou a piar, gazear, atacar, e gloterou:
- Crou! crou! crou!... Vai dar gavião na cabeça! Nem couro para fazer sapato ou para fazer bolsa de madame, nem tapete para sala de visitas ou troféu na parede! Vai dar é gavião na cabeça! Sou o mais honesto, o mais confiável, o mais dinâmico! Como disseram as minhas nobres adversárias, nós comemos sementes, frutinhas, mas elas... elas comem é outros bichos, filhotinhos seus, meus caros eleitores, parentes seus e meus, caros amigos e caras amigas! Quem nunca teve problema com onça e jiboia, hein?! Somente eu, o gavião-real, posso lutar e fazer um mundo melhor pra todos nós! Não nego a palavra empenhada, respeito todos, todo mundo confia em mim, não é mesmo? Sim, e vocês veem que tenho estirpe, que lá no céu já sou rei, posso ser também aqui na terra! Quem sabe olhar lá de cima, quem pode ver tudo do alto, enxerga melhor o perigo na terra! Vejo longe, vejo amplamente, meus amigos e amigas eleitores! Eu voo veloz, faço quilômetros e quilômetros num piscar de olhos! A jiboia, ao contrário, lenta e enrolona como ela só, não se arrasta vinte metros no tempo de um dia! E a onça-pintada? Bem, essa se entoca perto de um bebedor, de um córrego, de uma sanga, e ali passa a vida toda, envelhece sem botar o focinho pra fora do seu sítio do seu grotão! É com um desses dois animais que querem contar? Esqueçam! É nesses animais limitados, que só tem tamanho, que vocês, meus queridos e queridas eleitores, pretendem depositar todos os seus sonhos, sonhos de uma vida melhor no futuro, vida preservada, vida mais espaçosa e tranquila, vida cheia de mato para vocês e seus parentes? Não e não! Pensem nisso! Obrigado!
Aplausos ou vivas, indiferenças e vaias.
A vez da falação seguinte caberia, pela ordem, à jiboia, mas a onça, nervosa por demais e por natureza, esturrou, gruaaaaaaauuu!... e pulou na frente, babando, suando. A onça-pintada ou jaguaretê, 1,80m, e 160kg, seus dois olhos naturais em amarelo, desafiou os adversários, quebrando o protocolo, rugindo:
- Rrrrr! rrrrr! rrrrr!... Pois eu desafio quem for e quem quiser para agora, já, ali no terreiro, naquele campestrezinho, naquele limpo, naquela graminha verdinha ou na sombra daquele bom umbu, disputar essa droga de governo no braço! Tem bicho aí que quer encarar? Alguém topa? Estou cheia dessa falação! Vou tirar couro de cobra... Vou depenar carancho... Ouvi alguém piar, alguém mostrar a língua, hein?! Pulem pra cá seus papudos!
Foi um erro desrespeitoso esse desafio essa provocação. A jiboia, que não gostou mesmo, que não levava desaforo para o atoleiro do sumidouro, roncou, ruuuooouuu!... e avançou também. Uma e outra, já esquecidas de que a disputa era no gogó, no papo, no lero-lero, no convencimento da palavra prometida, no fazer promessas, partiram para o encontro para o combate. As duas partiram para os abraços. Partiram para a brigaiada.
O jabuti, ajuizado quelônio, carapaça nos ombros, movimentos lentos, sábio e entendido, entrou com a conversa para ver se suavizava a pendenga, serenava os ânimos, acalmava os nervos dos debatedores brigões, e disse:
- Calma calma, bichos! Não vamos perder a cabeça, não vamos baixar o nível, por favor! Controlem-se! Vamos ter calma, respeitar cada um a opinião do!...
Não adiantou nada o bom e inteligente jabuti chamar os candidatos à razão à ordem. Pedir calma nessa hora foi até pior. E nem os amigos-do-deixa-disso conseguiram fazer nada ou alguma coisa.
Assim, então, o que se viu, foi a jiboia que pulou sobre a onça-pintada e, ambas emboladas, abraçadinhas ou enroladinhas, engalfinhadas, rolaram rochas abaixo, morrinho abaixo. O gavião-real, também perdendo a pose, topete altivo, garras potentes capazes de capturar grandes mamíferos, gruiu, crocitou, crooouuu!... e se enroscou também no rolo. A onça-pintada, a jiboia e o gavião-de-penacho, os três numa bola só, se pegaram, se grudaram no salve-se quem puder.
Bem, daí por diante ninguém mais se entendeu. A poeira levantou e escureceu o céu até lá em cima. Ainda hoje é assim. Levantou poeira e folhas secas e ciscos e gravetos, saiu lasca e pedras para todo lado. Não houve como controlar a ordem novamente. Todos voltaram aos seus velhos ódios e medos e arrepios. Todos contra todos. Muita correria. Era bicho fugindo, era bicho perseguindo capturando morrendo correndo berrando piando, enfim, cavaco para todos os lados e salve-se quem puder. Muito bicho se escondeu pelos taquaruçus, subiu em guamixingas, sumiu em guajarás, voou para bem longe, mergulhou no rio. Era a já antiga luta da sobrevivência. A roda da cadeia alimentar se formou se movimentou outra vez. O menor fugindo do maior. Cada um por si e Tupã por todos.
O jabuti, por seu lado, lamentando, pulou no rio e desapareceu entre os pés de baronesa. Falou só uma palavra, fechando com chave aquele caso todo:
- Fui!...
Um fiasco de comício. Um vexame de eleição. Um desencontro de opiniões. Um empurra-empurra de emoções.
Eram o quê?, treze e treze de uma boa tarde, boa tarde. Boa tarde! Passeava sem nervoso, calmamente, uma tropa de nuvens brancas pelo azul do imenso céu.
Já se sabe onde fica a cidade de São Miguel das Missões. Mas não foi para aqueles lados, não. Não se sabe onde fica as cidades de Igaratá, Feira de Santana, Irajuba, Mangaratiba, Tanquinho, Caraúbas do Piauí... Um pouco pra cá que aconteceu, mais ou menos, esta história, esse causo, aquela peleia, essa lenda.
Em breve o riacho Retiro suspirou de cansaço ali na prainha branca feita de cristais brancos. Borboletas brancas catavam mel na areia. Um peixe-boi de água doce ainda pastava ali. O rio fazia uma curva para a direita. Era bonito mas ninguém ouvia elogio nada. Os japus pulavam nos poleiros. O rio tinha razão. E descia. Um tracajá pedalou no raso.
E bem para lá do imenso universo já dentro do céu, Deus-Tupã o Todo-Poderoso Onipotente Onipresente - e que não tinha nada com isso com aquilo não estava nem aí não tinha nem olhado a Terra aquele dia -, jogava bola com gols e planetas jogava futebol com planetas de cores uns melhores que outros.


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