quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Terra Sem Mal (juvenil) cap. 4




            A ave viu o voo. A ave no voo. A ave voou e flutuou e nadou e cantou ou piou. A ave na ponta das asas. Nenhuma nuvem por dentro ou por fora. A ave ou o ovo? A ave segurando as pontas das asas. O céu azul-ferrete se derretendo. Nenhuma nuvem por Deus. O sol de cabelo espetado. O vento contra o tempo.
Então, eram outras aves. Apareceram aves e pássaros e passarinhos. Se reparou ali que havia um muito do que se ver. Aves chegaram em grupos, em bandos, em temporadas, em gritarias, em pares de casais. E chegaram e grasnaram e gracejaram e partiram. A habilidade dos alados pousando aterrissando levantando voo.
A ave botou o ovo. Outro dia foi outro dia. Tardes do mês de maio. Todas as cinco cores do dourado. Algazarras, arapongas, bairaris, acauã, mutuns, juruvas, maguaris, diz-que-diz-ques, pio-pios, gorjeios, que-re-que-quês, bentevis!
                                                                       ***
            Sorro chegou. Todo mundo conhece Sorro por graxaim ou cachorro-do-mato. Sorro chegou. E o pessoal todo de Ivy-Marae, gritou:
            - Seu Sorro chegooou!!... Seu Sorro chegooou!...
            Sorro vinha na companhia amigável da anta de nome Camaquã. E Sorro era magro, pesando 25 quilos, corpo de menos de metro, pelagem cinza-amarela-marrom, olhos grandes e escuros e redondos, cauda felpuda, vestia uma batina branca e um turbante amarelo enrolado em espiral na cabeça para tapar as grandes altas triangulares peludas vigilantes orelhas, focinho estreito e farejador. Nas mãos ou patas segurava uma pedrinha branca, com a qual vivia brincando, jogando-a para o alto, trocando-a de mão ou de pata, etc., como sendo um talismã, como um bichinho de estimação. O peludo sedoso Sorro falou, olhando para a pedrinha branca que estava na palma aberta da sua mão ou patinha direita:
            - Acordei com o pensamento andando sozinho e adiante de mim. Achei que era isso ou aquilo. E era assim mesmo, ou seja, qualquer coisa. Então, paciência. E a hora não interessa. Depois parei para ouvir o pensamento. E ele me disse cada besteira! E o desliguei. Desliguei porque pareceu igual um trem correndo muito veloz na paisagem. Foi foi que naquela altura consegui laçar o pensamento e subir na garupa, de carona. E estou aqui, agora. Quinze para o meio dia. Dia mês ano? Dia dezoito do mês maio do ano presente.
            Sorro, ou graxaim, ou zorro, ainda ergueu a cabeça e olhou o céu cheio de sol forte. Depois voltou a falar com a pedrinha branca companheira predileta inseparável:
            - Eu vi todos os meus dias iguais. Aí, pensei em Tupã... Aí, sonhei e pedi a Tupã uma cangalha, um caminho.
            Porque na verdade vamos dizendo que Sorro já não queria mais contar o tempo, não queria mais contar o tempo. Sorro, o peloso Sorro, mais conhecido como graxaim-do-mato.
            O que era e que aconteceu, foi que Sorro morreu. Quando começou a feder, sua alma resolveu cair fora e procurar outro lugar. Saiu andando procurando não sei o quê. Assim mesmo.
            Quando Sorro apareceu em Ivy-Marae, naquele dia pela manhã, já perto do meio-dia, ali no centro da cidade em torno da praça Triangular, ele já tinha uma idade muito madura e bem avançada. Ninguém sabia ao certo sua idade em números. Nem ele próprio. Mas era já longa e curtida. Tudo bem. Tudo bem e ninguém também tem nada com isso. Aliás, Sorro não desejava mais contar com o tempo. Por isso mesmo era ditoso e rabugento e apreciador de chocolate.
            No outro dia Sorro, o iluminado, se separou da anta Camaquã e foi mergulhar os pés nas águas tranquilas e transparentes do lago. Parou com a água até as canelas. Parou como estátua. Brincou com os aguapés-brancos. Aí, os peixinhos vieram curiosos rondar seus pés ou patinhas. Um lambari, outro jundiá, mais um bagre, um cascudo, uma traíra, um piapara, uma mãe-de-anhã, um pirá-tamanduá. Sorro os olhava... e brincava distraído com a pedrinha branca na mão... e olhava os peixinhos pela sombra dentro da água. Ali mais à frente uma ilha flutuante feita de gravatás e sarandis.
Sorro era muito brincalhão e alegrão, e também calminho e paciente. Até assobiou coisa do dia, ou de chamar sol ou chamar chuva. Viu um socó, outro biguá, mais um guará, par de quero-queros, casal de juruebas, colhereiros. Sorro tinha calma com os bichos que só vendo.
                                                                       ***
Esse é o mundo vivo e colorido de Ivy-Marae. Quem não conhece ou ouviu falar?! Trânsito livre para todos os seres que vivem no mundo normal, que têm seu tempo normal de tempo e agora só esperam a vinda dos anjos verdes para subir definitivamente aos setecentos e setenta e sete céus.
            E outra coisa é bom que se diga. Antes que esfrie. E já. Quem não conhece a praia do Cassange, lá em Maraú, quem não ouviu falar do rio Taquari, ilha Taperebateua, e de Tupanatinga, de Angelim cidade, de Bom Conselho, de Buíque? A cidade de Ivy-Marae é parecida e tão bonita quanto.
            Choveu a chuva. Choveu. Choveu muito. Choveu um dia e uma noite, mas com a vontade de querer desabar um mundo sobre um outro planeta. Uma chuva que Tupã mandava. Choveu de correr rios. Choveu cascatas cataratas. Choveu cortinas. Choveu de desabar o céu. Choveu tanto que foi de abrir rios no teto azul do céu. Choveu de fazer fumaça no morro. A chuva cantou, ululou, nadou e correu deitada.
            E ali pelas oito horas da manhã o céu limpou que era uma maravilha, e liberando para que o sol viesse se esquentar. Abriu um sorriso no céu. Um arco-íris de ouro de um pote a outro de ouro. Um sol no céu de vidro transparente. Um céu infinito. Onde se encontra o poderoso Deus.
            Um par de quero-queros, provavelmente esposo e esposa, voaram baixo no banhado. Aí, usaram as asas para enroscar no arco-íris e desconjuntar os fios de ouro do sol. As cores se esgarçaram, as cores brincaram, as cores se espicharam, as cores se coloriram. As cores se abriram. As cores do dia se dividiram e se divertiram e cada uma foi para seu lugar de costume. O mundo do dia parou para ver as cores tomando conta e pintando o sete das coisas. As cores tomaram conta e o sol prosseguiu sua estrada azul. As coisas também apareceram e o dia aconteceu.
            Nesse instante despencou do arco-íris na serra do Caraça, a moça dos cabelos absurdamente longos e esvoaçantes. Ela desceu e tinha mesmo aquela cabeleira cheia e esvoaçante como cortina de janela ou capa de super-herói ou cauda de tamanduá-bandeira ao vento. Ela era bela, modelo, cunhantã, contente, tranquila e bonita.
            A moça dos cabelos absurdamente longos e esvoaçantes e avassaladores, longos como os próprios raios do sol, veio à Ivy-Marae para namorar e casar. Desceu com o arco-íris se materializou para namorar e casar. A moça ou banga dos cabelos etc e tal tinha um cabelo amarelo, vermelho, preto, azul, branco, verde. Era filha das lagoas ou nuvens com o sol, depois da chuva. Uma moça feita para ser deslumbrante e feliz.
            A bela moça, dos cabelos levantados para trás, seguia pelo acostamento da estrada. O vento brincava com seus longuíssimos cabelos. Já bem perto de Ivy-Marae que era para não cansar de caminhar. Se pode dizer que o vento lhe fazia um carinho nos cabelos. E o vento cuidava dos cabelos longos da moça dos cabelos longos. A moça acabou falando com a brisa:
            - Ora, Vento! Não puxe meu cabelo. Antes de acordar desse sonho, quero olhar e reconhecer os meus pés.
            O vento assobiou:
            - Psiiiiu!... Deixe que eu carregue seu cabelo como um véu de noiva. Eu quero ser seu escravo, viu, Mãe-d’Água. Não tenho outra pretensão.
            - Ora, ora, Vento! Eu desci do céu para namorar um alguém prometido já comprometido comigo. E esse alguém não será você, um vento que vai e que vem sem pouso certo sem amar ninguém sem ficar com alguém. Antes de acordar desse sonho, quero olhar os meus pés.
            - Hum!... que pena, que pluma, que suspiro...
            O vento continuou a esvoaçar os cabelos da moça, cabelos, aliás, absurdamente longos e alçados como planta xaxim. Tinha os cabelos pesados não mais que o necessário. Os olhos eram dois diamantes impossíveis. Aniversariava seus vinte anos, quase. E ela que ia buscar seu destino final finalíssimo finalmente em Ivy-Marae.
                                                                       ***
Gavião-Carijó entrava em Ivy-Marae de carona no ônibus. A ave reconheceu a cidade, o ônibus reconheceu a cidade. E os dois ficaram sem o que fazer. Por quê? Porque em Ivy-Marae não era preciso fazer nada. Só curtir e esperar e passear pela cidade. Ruas novas ou antigas como em Nísia Floresta, Ijuí, São Luís Gonzaga, São José de Mipibu. E esperar que os anjos verdes viessem convidar para o céu. Céu do divino.
            Aí, o rapina já estava por conta própria andando nas ruas de Ivy-Marae. Casas comuns de Ivy-Marae, calçadas comuns, sol comum, cidade doce de Ivy-Marae. No banco da praça Triangular, G-C viu um moço fazendo gestos, rodeado de um povo. Gavião se interessou e chegou perto para ouvir o sabiá poeta cantar ou trovar ou declamar ou recitar suas composições inspiradas. O moço era muito jovem para ser um grande poeta, mas se esforçava. E falava suas poesias acompanhado os gestos das mãos e dos braços, mais seus lisos cabelos ou penas, e procurando o olhar das pessoas. O moço cantou assim, muito satisfeito por merecer um público como aquele, disse:
            - O sabiá-laranjeira entica por causa da sua namorada! Ninguém vê, eu vi! Todo mundo vê!
            O rapaz, quase totalmente inexperiente, todo de penas caídas para as costas, penas do pescoço encaracoladas, prosseguiu assobiando:
            - O sabiá-laranjeira em pleno ar! Ou entre galhos e folhas verdes! Na piscina de poeira vermelha! Mede seu território para conquistar a amada.
            O poeta não gosta de carnaval, de festival da canção, show de boi-bumbá, de espetáculo de orquestra, de festa de aniversário, de jogo de futebol. Prefere a improvisação ao ar livre, o cordel, e apitou:
            - O sabiá-laranjeira assobia para a namorada! Ninguém vê, eu vi! Os bem-te-vis as corruíras os quiruás ficam ouvindo.          
            Alguém perguntou ao jovem poeta, de repente ou de abrupto ou de chofre, indagou:
            - Mas querido poeta! Isto é poesia ou é caminho?
            O rapaz logo logo respondeu de imediato com um quase poema na ponta da língua, trilou:
            - O sabiá-laranjeira pega-pega o amanhecer! Cisca no ninho imitando a hora de levantar! Canta como encanta para todos acordar!
            Chegou o Sorro, também ele quase distraído com sua pedrinha branca de brincar, e interrogou:
            - Jovem pássaro poeta! Isto que você diz é poesia ou é caminhada?
            O moço das penas lisas e lustrosas, e lavadas do tanque por opção, resolveu imitar a ele mesmo, trissou:
            - O sabiá-laranjeira briga com a namorada! Ninguém vê, eu vi! Os tico-ticos as juritis os guarubas também vêem!
            Embora todos os dias de Ivy-Marae fossem felizes, faustos e iguais, o cantor poeta ainda encontrava tempo para cantar mais satisfeito, dublou:
            - O sabiá-laranjeira bate as asas! Troca agarrões! Faz greve de silêncio! Dá prazo para a tarde chegar! Decora a trilha sonora! Canta imitando todos os cantores do dia! É este o sabiá-laranjeira que todos reconhecem!
            Um quero-quero ou tero-tero ou téu-téu ou gaivota-preta de peito preto, barriga branca, costas das asas escuras e o resto cinzento, crista na cabeça e pernas longas e vermelhas, pés vermelhos, pousou ali perto e ouviu:
            - O sabiá-laranjeira perde a namorada! Ninguém vê, eu vi! Os pintassilgos os guainambés os ajurucuraus vêem também!
            Quando todos pensavam que o rapaz cansava, estivesse de garganta ressequida e pedindo água, ele prosseguiu irradiando, debateu:
            - O sabiá-laranjeira muda o verão! Muda a geração! Sai do seu fofo copé! Muda o coração! Muda a emoção! Muda a modulação! Muda o mundo!
            Rê se aproximou do bolo de pessoal em volta do poeta iniciante, e ouviu. O sabiá pássaro discursava ou pregava ou chilreava, e filosofou:
- O sabiá-laranjeira briga com a idolatrada! Ninguém vê, eu vi! As corruíras os arumarás as arirambas-da-mata também!
            Aí, a Rê fez a pergunta que não queria calar, indagou:
            - Me diga, poeta! Isto é caminho de ida ou poesia?
            O rapaz olhou para ela com carinho, com caridade, com pena, e resolveu imitar, grinfou:
            - O sabiá-laranjeira ouve andorinhas zinzilular! Olha lá para fora do butiazal! Vai volta correndo voando! Olha que passa no alto entre nuvens um bando de maritacas conversadeiras!
            Uma folha seca caiu do galho daquela árvore de angico, nadou um ou dois segundos no ar e pousou no chão. Repare só o cantador o que foi reclamar, e conversou:
            - O sabiá-laranjeira beija a namorada! Todo mundo vê, eu vi! Ninguém vê!
            Camaquã, a anta elegante e amiga de Sorro, barritou, berrou:
            - Jovem engenhoso poeta dos bons, não se incomode, mas isto que você canta é caminho de vinda ou poesia de volta?
Então, o jovem das penas soltas e lisas e despenteadas, improvisou:   
            - O sabiá-laranjeira canta na timbaúva! Canta na manhã de sexta-feira! Canta no verão de sabão! Canta do fundo do pulmão! Canta como o verão nunca viu!
            O moço, bem mais poeta e tranquilo, descansou um pouco, sentou na grama. Porco-espinho perguntou uma coisa, assim, e que ele foi responder lá em seguida, flauteou:
            - Que estrada é esta, ou que poesia é esta, poeta? Você pertence à espécie dos jaguarabas ou dos caraís?, pergunta.
            O poeta voz de cantor não deixou sem uma trilada, que destampou:
            - O sabiá-laranjeira voa no quintal! Aterrissa no muro da divisa! Afia o pico no tijolo! E sonha com valentias estripulias!
            Uma senhora para um senhor, que os dois ouviam o declamar do poeta emplumado, discou:
            - O nosso poeta não parece aquele moço poeta... o poeta Olavo Alves Gonçalves?
            O senhor para a senhora sua esposa em resposta, certificou:
            - Não só parece como pode ser réplica quase perfeita. Estou de acordo.
            Bem certa hora da tardezinha, depois das sombras e das andorinhas, surgiu a noite, surgiu o crepúsculo, boitatá, caracará, surgiu a estrela-d’alva. A escuridão veio a partir das plantas arbustos árvores e foi subindo se alastrando tomando tintura de preto, negro e escuro. Um pouco da noite veio do meio da vegetação das sombras das árvores, outro tanto dos buracos grotões e cavernas e locas, mais um pouco do porão das casas garagens dos prédios viadutos e túneis. Juntou tudo e a noite cresceu e existiu. Dentro da noite mesmo estavam as estrelas a lua o saci os sonhos e os fantasmas.
            E a cidade de Ivy-Marae era mesmo perto de tudo. E longe do céu só um pouquinho ou um instantezinho. Tenhamos paciência!
                                                                       ***   
            Rê tentava aprender piano às quintas-feiras pela tarde e aos sábados pela manhã. Sempre na casa da madrinha Nhandecy Pocema. Mas o que Rê gostaria mesmo era de ser um peixe uma surubim-lima uma abotoado uma mandi, por ex. Às vezes se imaginava um peixe do rio da Prata, outras um peixe da lagoa Mirim, outras do mar grande oceano. Nunca quis ser um peixe de aquário.
            Rê disse isso uma vez:
            - Madrinha Nhandecy, eu já decidi. Eu vou ser um peixe de rio de água doce e límpida, quando eu crescer, quando eu for dona do meu nariz, quando eu puder me transformar em peixe, quando Deus quiser.
            A madrinha Nhandecy olhou o piano, olhou Rê, olhou os olhos escuros e o nariz pequeno de Rê e suspirou e disse:
            - Mas que tipo ou espécie de peixe? De escamas ou de couro?
            - Hum!... Talvez dourado, lambari.
            - Morando no rio Madeira, hein?!
            Rê pensou o que responder. E não achou. Aí, perguntou:
            - Peixe bebe muita água?
            - Claro... que não.
            - Não mesmo?
            - Não, imagine. Peixe não bebe tanta água. Peixe respira água.
            - Não faço ideia nem tenho noção.
            - Enquanto o pássaro voa e respira ar, o peixe nada e respira água.
            Depois da aula de piano, Rê retornou para casa. Morava ali pertinho. Foi pensando na vida de peixe que poderia ter, que poderia ousar, que sonhava ter e viver. Disse para si mesma, já em voz alta, blu-blu-blu!
            - Bem que gostaria mesmo de ter nascido uma peixe. Já que não nasci, que me transforme em uma. E o mais rápido possível. Porém, não uma peixinho de aquário. Quero mesmo é ser uma peixe de rio de água doce, tá certo, tipo rio das Antas, rio Retiro, rio dos Sinos, até mesmo outros rio Guaxindiba, rio Urucuia.
            E Rê seguiu para casa pensando o que seria de bom se fosse um peixe. E Rê passou em frente da pizzaria e tinha dinheiro para entrar e consumir; passou em frente à sorveteria e tinha dinheiro para entrar e degustar; passou em frente da loja de sapatos e tinha dinheiro para entrar e escolher. Passou, tá certo, em frente a todas as lojas e não deu a mínima bola. Rê era forte e merecia os parabéns. A guria, ainda assim, tinha a qualidade de querer ser um peixe de água doce. Ia mascando chiclete porque era bom e mania, isso mesmo, pela rua Santos Dumont.
            Rê viu a rua e a rua tinha muitas coisas sortidas. Passava homem lendo jornal, passava menino de bermuda e bicicleta, passava caminhão de mudança, passava besouro de quatro asas acesas, passava índio da tribo camaiurá, passava boi e vaca e terneiro família zebu, passava maracajá. Toda a rua cheia de muitos assuntos e conversas e risos e ruídos daqui pra lá e de lá pra cá.
            A menininha parou, discou um número de telefone e falou com a Lilás. Falou andando, telefone no ouvido e cuidado para não tropeçar:
            - Olha, Lilás! Já me decidi. Vou me tornar uma peixe. Em Ivy-Marae tudo é tranquilo é organizado, mas no céu tudo é possível. Deus vai me devolver para a terra na forma de peixe ou peixa.
            E Lilás, respondeu:
            - Chiiii!... Será que vou ver você nadar? Será que ainda é impossível? Você tem essa obsessão?
            - Acho que a qualquer momento vou para o céu. Quem sabe se o meu querer desesperado não ajuda, hein?!
            - Talvez você aguarde a próxima subida aos céus e uma reencarnação! A próxima vinda a terra pode ser na forma de tal peixe piapara!
            - Será esperar uma eternidade, mas vai acontecer.
            Lilás ficou confusa, e foi obrigada a dizer:
            - Peixe toca piano?
            Rê, respondeu:
            - Tá certo que... jamé!
            Assim então se faz o tempo em Ivy-Marae. Ali passa boi passa boiada, quem arrisca corre risco, morrer é nascer para a eternidade.
            Como ver o vento mexer com as folhas verdes das árvores altas, como ver as pedras deitadas sonhar à beira do lago, como ver o sol ricochetear resplandecer na água azul transparente da lagoa.
            As árvores se mostrando, as folhas faladeiras rindo dando tchau os galhos de abraços e braços para o alto, casca-preciosa, pé-de-perdiz, pitombeira, maúba-amarela, balata, malva-branca, guibá, carrapeta, arumã, jetirana. E macambira que procurava morar de frente para o sol.
                                                                       ***
O lugar, a cidade de Ivy-Marae, é um sítio escolhido, organizado, confiável, próprio para gentes e bichos e plantas e outras coisas, e inteiramente grátis. Um mundo à parte, saudável e plano que faz bem aos pulmões. Ninguém que vive ali se sente por fora, desprestigiado, descartado, sem graça ou sem serventia. Até as pedras têm energia de sobra, e para ver.
            Um dia desses. Hipocampo encontrou o Jabuti na praça Triangular. Hipocampo achou Jabuti muito sonhador e..., sonhador não, pensativo, e lhe perguntou:
            - Você é distraído, é filósofo, é santo ou é anjo barroco?
            - Hã?! Olha. Eu, por mim, prefiro ser santo ou anjo. Mas ser um quelônio distraído não é tão ruim como dizem, não. Até posso experimentar namorar uma nuvem em forma de carapaça, tá bom ou quer mais?
            - Sei lá, meu! Cada um cada um! E cada uma!!
            Mas a praça estava povoada de crianças gritando, correndo, buscando. Gritavam não sabiam bem por quê. Berravam numa língua que não era o português. Mas eram gritos sem desespero. Eram gritos soltos e alegres e absurdos. E a praça, então, tinha ali e agora uma quantidade de passarinhos que trabalhavam à procura de alimento os mais variados, guácharo, ipecuacamirá, catirumbava, urumutum.
E olhando bem, havia muitas formigas espalhadas pelo chão à procura de migalhas e pedacinhos de folhas verdes. Uma vaca malhada olhava, mastigando, lá do outro lado da avenida Presidente Vargas, num pequeno campinho de potreiro. Um galo cantou que-que-quê!..., galos responderam sem que nem para quê. O Jabuti falou para Hipocampo, narrou:
            - Depois que morei em Baliza cidade aprendi muitas outras coisas.
            - Aprendeu alguns enigmas?
- Enigmas não somente, oquei?! Foi bom. Também enigmas ignorâncias superstições coincidências pressentimentos.
            E Hipocampo pensou só um pouquinho e descobriu que o Jabuti falava com emoção. Mas o jeito era ir curtindo a cidade e passear para distrair. Cidade toda grátis e exemplar.
            Agora, por exemplo, brincavam aí por perto, num chão de areia do parque, um número de garotos e de garotas jogando bola. A bola quicava para lá e os gritos corriam para o mesmo lado. A bola furava as redes do gol e era uma debandada de garotos e de garotas para abraçar o artilheiro. No céu quase todo igual no azul, um avião cruzou rasgando o ar de sons fortes. Aí, alguns passarinhos, na maioria andorinhas, voaram para outro lugar. E também havia muitos insetos encontrados pelo espaço, parecendo cheios de zunidos e procurando o que fazer. Uma menina de cabelo em duas tranças brincava de perna-de-pau, tuque! tuque!... para lá de dois metros e vinte de altura.
            - Na minha viagem a Itamarati de Minas cidade choveu tanto foi pra lá de barbaridade - colocou o Jabuti.
            - Os dias passam num átimo, digo, numa rapidez de jato supersônico - foi o Hipo.
            - Viajava eu na janela. E ia rapidamente pronunciando os nomes das plantas que surgiam na paisagem, angico-rajado, tinhorão, antúrio, jarrinha-bico-de-passarinho, erva-de-bicho, amapá, corticeira, cipó-de-imbé...
            - O que as árvores iam pensando ou falando? Era muito?
            - Em aventuras venturas desventuras.
            Jabuti lembrou de algo que fazer e foi atrás. Hipocampo ficou meio perdido ali sozinho e olhou em volta procurando com quem conversar. Olhou e ninguém lhe chamou muito a atenção.
            Hipocampo então caminhou subiu uma colina para talvez olhar toda a paisagem e de uma vez só toda a cidade de Ivy-Marae. Chegou no alto e de fato ficou ali olhando a paisagem. Não demorou muito percebeu um grupo de pessoas conversando na sombra debaixo de uma capororoca. Foi até lá muito curioso. Era Gavião-Carijó e seus camaradas ouvintes.
            Hipocampo se aproximou muito mais. E se misturou com os ouvintes. Todos estavam ouvindo Gavião-Carijó discursar. Gavião-Indaié contava uma história, uma poranduba, uma maranduba, desfiava assim:
            - Quando acordei, a bem dizer, eu estava no labirinto da noite ou da mata ou do ouvido. Olhei em volta, e tudo era muito escuro tenebroso. Tudo muito trançado, enredado, enleado, secreto, desconhecido. Olhei para o alto, as estrelas mais bonitas acompanhavam o rolar da lua de marfim. E a lua espalhava seu eterno véu de luar. Mas ainda assim estava muito escuro no labirinto do meu ouvido esquerdo.
            “A resposta da noite? O silêncio. E mais para lá do silêncio uns grilos cortando vidro, uns vaga-lumes alumiando verde, casal de saruês namorando, um curiango-tesoura assobiando, uma ou outra cigarra serrado madeira de árvore guararema. Paguei para ver.
            “O luar brilhava no chão das trilhas, picadas, carreiros, caminhos e atalhos. O labirinto do jardim. A encruzilhada era minha. Pensei: se eu fugir, a onça-pintada bebe da água; se eu ficar, a canguçu pega o pato no ninho. Eu pensei outra vez: estou no mato sem o meu sinal da cruz, sem o meu escapulário e sem o meu patuá, sem o meu talismã e sem o meu muiraquitã de pedra verde cara de sapo.
            “Não foi muito tempo, apareceu uma luz muito forte ou um fantasma ou ainda um espírito de índio piratapuia ancestral. Também desconfiei que era Deus ou Tupã, o meu querido pai. Ali sentado na pedra, as mãos segurando os joelhos, ele ria muito de mim, me debochando. Eu estourei:
            - Eu fora, meu!
            “Deus, o meu próprio e mandão pai-pai, sorria e foi e me jogou uma pedra no calcanhar. Eu gritei tanto de dor:
            - Aiaiai!...
            “Fiquei quicando como o saci e logo caí no chão, coçando o calcanhar atingido e ferido e contundido. Deus, o pai, ria e foi desaparecendo como névoa. Pensei alto, só para não perder o costume:
            - Falou, tá falado! 
            “A teia do luar iluminava as trilhas e caminhos e estradinhas e varadouros e furos e travessões. Labirinto do fundo do rio. Que catega de noite! A resposta da noite? O silêncio. E mais para lá do silêncio umas corujas tipo caburé-de-orelha que piavam, assim... inhau! inhau!... e uns morcegos que rasgavam roupa, assim... traaaache! traaaache!... Paguei para ver.
            “Caminhei à vontade, sem pressa e sem saber para onde. Topei com uma vaca de duas cores separadas, ou seria um touro dos nervosos, e até quem sabe podia mesmo ser um rinoceronte fugido do zoológico de Sapucaia do Sul. Pois o bicho lia um livro bem sentadão na esquina, com a colaboração dos raios lunares e a luz do alto do poste. Desviei e me fui. O silêncio batia no meu coração solitário, tuque!... tuque!... O vento soprava meus cabelos ao contrário. Pode ser, poder ser, me deixe ver!
            “A resposta da escuridão? O silêncio. E mais para lá do silêncio uns morcegos-pescadores rasgando roupa escura e pesada, assim... rrraupe! rrraupe!... e um mutante uivando, desse jeito... uaaaaahu! uaaaaahu!... Paguei para ver.
            “A rede lívida do luar, dona Jaci, apontava as várias opções ou trilhas ou atalhos ou veias ou corredores ou carreiros ou estradas que eu poderia optar. O labirinto das linhas da mão. A fechada mata das margens.
            “Não durou o tempo do nada, apareceu uma luz presa ao chão, concentrada ao chão, assentada na pedra do caminho. Era Deus ou Tupã, o meu onipotente e vaidoso pai. E ele ria a bom rir. Ria de rolar, ria de se engasgar, ria de tossir, ria de se jogar para trás. Eu falei democraticamente:
            - Eu fora, meu!
            “Deus, o nosso pai, se ria, pegou de uma pedrinha solta por aí e me acertou violentamente. E me lascou o calcanhar. E me matou o calcanhar. E me arrebentou o calcanhar. Doeu uma barbaridade, doeu de cair desacordado, doeu de ajoelhar de tanta dor:
            - Aiaiai!...
            “Me joguei no chão de tanta tanta dor e desilusão. Não pude segurar a mágoa entre os dentes. Cheguei a lacrimejar e a suar frio. Tive febre e bati os dentes. Deus, o sem tempo, ria alto e, pofe!... desapareceu como um sopro e por mágica. Falei outra vez com a minha voz já um pouco rouca:
            - Falou, tá falado!
            “Eu poderia ficar e esperar a manhã clarear no novo dia e decidir por mim. Porém, resolvi seguir em frente com a noite e seu labirinto de segredos nas costas. Ali mesmo em volta vi uma preguiça-de-coleira, talvez até fosse mesmo uma borboleta pré-histórica. Pois o bicho bateu os braços ou as orelhas ou as asas, subiu com estilo e se apagou na escuridão nublada. Não tive medo ou susto, mas me senti perdido e sem futuro. Na verdade eu não sabia escolher meu caminho. E meu pai, o senhor Tupã, não colocara uma sinalização adequada ou perceptível ou comestível ou iluminada para eu seguir sem dúvidas.
            “O silêncio. O silêncio era frio, já percebia. E o silêncio era a resposta que se ouvia toda a noite. Para lá do silêncio uns pássaros piando noturnos, assim... miiiiau! miiiiau!... e uma mula-sem-cabeça pisando nas folhas secas do caminho, assim... pleees!... pleees!... Paguei para ver.
            “De repente apareceu a luz que eu já esquecera, mas que já conhecia de vista, e era de Deus, o patrão, e com rastro de sol. Pousou numa ilha, ou melhor, numa pedra, se assentou como uma pluma. E Deus já me olhava e ria às gargalhadas. O ruído da gargalhada só espantava o silêncio, carrrracacá!!... carrrracacá!... Eu tossi de nervoso e resmunguei:
            - Eu fora, meu!
            “O paizão, senhor Deus de tudo, se ria de mim, larrrrralixa!... larrrrralixa!... Segurava a barriga para rir. Será que eu estou mesmo tão engraçado?, pensei. E ele catou uma pedra solta do chão e me jogou com força, me acertando em cheio aqui no calcanhar já machucado e arrombado e destroçado. Doeu e não parou tão cedo de doer, lati:
            - Uiuiui!...
            “Senti um tal golpe de maus tempos que me joguei no chão. Não era só a dor o que eu sentia, era muito mais que o vexame, o desprezo, era mais que o vazio no coração, e o tudo da desilusão, do fracasso. Vi estrelas na consciência. Vi ou não vi estrelas nos sonhos. Cheguei mesmo a miar ou latir ou grunhir, quer ver... nhaque! nhaque!... E Deus, meu próprio, primeiro e último pai, ria, ria mesmo e por último e por favor, tarrrrrataquá!... tarrrrrataquá!... Sem mais nada e, pofe!... escapou, se escafedeu, se desintegrou. Falei assim mesmo com essas minhas boas palavras:
            - Falou, tá falado!
            “Pensei arrumar uma escora, uma bengala, um apoio, cajado, pois o calcanhar estava para lá de lesionado. Como estava escuro, não consegui encontrar nada satisfatório, e nada em que me pudesse apoiar, nada em quem pudesse confiar.
“Mas ainda continuei com a força que não tinha. Arrastei aquele pé machucado. O labirinto do presente era minha prisão de alta segurança. Vi um cavalo, ou seria a esposa dele, e esperei por uma leve esmola de ajuda. Se eu puder convencer o cavalo a me tirar daqui!, pensei. Mas o bicho não me ouviu. Nem quis me ver de perto. Talvez o bicho alazão-ruano não me adivinhou. Mal me aproximei do cavalo e ele se transformou numa árvore enorme e distante e fria e para lá das nuvens, um pé de pente-de-macaco. A árvore subiu tanto que ficou impossível conversar. Não se mexeu mais do lugar ali bem plantada, enraizada.
            “O pólen finíssimo do luar apontava várias trilhas, trechos, cruzadas, passos ou estradinhas de porcos-do-mato ou de tatus ou de tuco-tucos, ali entre as plantas. Aliás, umas árvores tinham caras de espantalhos, outras de bichos pré-históricos, e ainda as que tinham um jeito de morcegos gigantes. As árvores que faziam sombra no escuro cheiravam os seus aromas, condurango, ipecacuanha-preta, cipó-chumbo, candeia, maçaranduba, jaracatiá.
“E o silêncio só. Para lá e para cá do silêncio somente o ruído de vaga-lumes com suas lanternas de acender e apagar e acender, assim... prrrris! prrrris!... caburés-de-orelha espiando e piando e sacudindo as orelhas de plumas, assim... firiiiiu!... firiiiiu!... e ouriço-cacheiro espiando debaixo dos gravetos e folhas amarelas ciciando, rilili!... rilili!... Paguei para ver.
            “De supetão apareceu aquela luz muito viva e branca e fenomenal. Era o meu precioso e perigoso e todo-poderoso senhor pai. Pois se sentou na pedra inaugural, e riu, barrrrritatá!... barrrrritatá!... e rindo de se dobrar em dois desse aqui que vos fala. Eu explodi um berro para o ar noturno e soturno, alardeando:
            - Eu fora, meu!
            “Deus olhou de lado à procura talvez de uma pedra, olhou para outra banda talvez à procura de outra pedra ou pedaço de pau, que afinal todo mundo sabe que queria me jogar no calcanhar. Foi aí que, acho eu não sei ao certo, ele, o meu próprio pai mandão, teve uma outra ideia luminosa e perfeita e criativa. Em vez de jogar a pedra, ou rir com gosto, ou me sacanear, o que ele fez? O que ele fez? O que um pai faria, é claro. Me perdoou. Ah, e como isso me doeu. Resmunguei:
            - Nhanhanhai!...
            “Foi aí também que eu vi que já era tarde, ou seja, Deus, o meu senhor, tinha me perdoado e pronto. Não havia nada que eu pudesse fazer ou desfazer. Era o perdão e mais nada. Meu poderoso pai me perdoava e eu perdoava meu divino pai por me perdoar. Eu mesmo não sabia se queria ser perdoado ou merecia ser abençoado. Eu completei dizendo num só tom de voz:
            - Falou, tá falado!
            “Então, para completar... não sei se foi o tempo, a esperança, a sorte de principiante, só sei que as coisas me fizeram chegar ao fim da noite, ao fim do labirinto do mato, ao fim da mata, ao início do caminho traçado. E eu saí para o dia. O sol raiava. E eu saí para o limpo. A estrada estava ali. O sol me chamava. A estrada estava aberta.
            “E, já no território do sol, vi o meu pai único, sentado ali me esperando. Sentado na pedra como um ás de ouro, como um herói dos tempos bíblicos. E Deus dessa feita vinha em forma de barra de gelo, parecendo um cubo um iceberg de ouro. Estava suando ou derretendo. Antes que se fosse, ele, o pai dos pais, me deu os parabéns e me vivou e me aplaudiu. Ao me aplaudir se quebrou todo em milhões de pedacinhos e centenas de fragmentos ou pingos doces de gelo.
            “E eu fecho a minha história com um problema e uma pergunta:
            - Vocês também me perdoam?”
            Dizendo isso, Gavião-Carijó se ergueu de onde estava sentado, bateu a poeira e começou a andar por aí. Queria desenferrujar as penas as asas as garras as pernas.
E os outros ouvintes também começaram a circular, uns por perto, outros para ali ou aqui. Parecendo todos, afinal, como peixes pequenos em semivoltas pelo aquário.

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