Como
começar uma história que nem faz parte nem nada nem voa nem caminha? Pergunta. Ninguém
no mundo nem no espaço nem no país nem na cidade... E quem pode ter a ideia
inicial principal capital do Brasil, Brasília, Carmo do Cajuru, Santo Antônio
do Itambé, Camargo, Amajari...
Já avisado
que esta é uma história surreal, ou seja, torre de igreja voando batendo asas e
mais leve que uma pena de udu, etc.
Durante todo o tempo sem saber o que fazer
por onde começar aonde ir...
Tanto tudo quanto pôde até então que, tuque-tuque!... se viu um rastro
de luz... e se viu se ouviu água deslizando corrente, chieee!... e se sentiu se
ouviu vento assobiando, vizzz!...
E mais uma vez e última vez e dessa vez
definitivamente pela centésima vez. Quem quer saber o que estava para acontecer
por começar ou recomeçar, etc., e como é que era uma vez? Bem ali na sala de
aula, dessa vez. Opinou a menina Lilás:
-
O avião foi inventado observando os pássaros no ar no ar. Então, é simplesmente
novo lindo aconchegante.
-
Aconchegante, Lilás? Nem parece melhor usar outra palavra outra expressão? -
argumentou a Rê.
-
Eu achei aconchegante aconchegante. Aconchegante como assistir tevê deitada na
cama, percebe?! - voltou a Lilás.
-
Acho aconchegante palavra sofisticada chique oficial demais, entende? Mas é
possível - insistiu a Rê.
Estas
histórias começam onde e como todas começam, pelo começo. Mesmo assim, nem
sempre vão do começo ao fim passando o-brigatoriamente pelo meio. E quando
acontecer o contrário ninguém duvide: puro palpite pipocando.
Surpreender
o surreal é como também pular de paraquedas. É ir para o lado em vez de ir para
frente, é saber o que ninguém entende, é ver o que ninguém imagina...
Em
boa hora, no começo do mundo, logo no início das coisas, quando as coisas ainda
estavam empedradas, quando as coisas ainda estavam depenadas, quando as coisas
ainda estavam enevoadas, emperradas, quando as coisas ainda estavam
disfarçadas, camufladas, enroladas, quando as coisas ainda estavam por pintar,
nomear, acontecer, distorcer... bem, bem aí... quando as coisas eram ainda mais
ou menos coisas objetos geringonças quinquilharias... então, bem aí... a
história qualquer coisa que era nem era e mais ou menos... já podia ser contada.
Já se podia contar. Já se pode recontar.
Olhe
a situação. Olhe assim. A história era um relógio sem gosto sem cor e sem
cheiro - precisava de palavras para atravessar a rua. Olhe daqui pra trás. D
nem existia e muito menos deusas existiam. D e as deusas viviam num lugar que
nem existia. D nem sabia que seria o Cara dos deuses e das deusas. As deusas
nem sabiam nem tinham como adivinhar que seriam tão poderosas e transparentes e
cabelos longos encachados.
Alguém, que tinha o nome de alguém fidalgo,
chamou do fundo da sala de aula, clamou:
- Lilás! O que você sempre prefere para o
almoço o quê? - a voz pela voz da Junara.
- Bem, já que posso escolher é possível
escolho macarrão com queijo ralado, é suficiente? - respondeu Lilás.
Alguém ou algo tinha de fazer alguma coisa
hoje e alguém. Mas quem, mas o quê? Nem o mundo tinha ideia nem deusas e deuses
existiam. Pensa o quê? Inaugurar um mundo é muito complicado enorme e
esquisito. Vai que dê certo, vai que nem sempre. E as criaturas fazem algum
exercício algum ruído cultural?
A terra e o céu nasceram gêmeos simultâneos
da floresta Amazônica mãe iurará casada com o oceano Atlântico jurará-açu pai.
Estavam bebês filhotes e juntos no trópico de capricórnio quando a gravidade os
separou para sempre. A terra irmã sincrônica então ainda nem tinha nome e o céu
irmão sincrônico ainda nem tinha nome. A terra ficou mais perto do sol, o céu
mais perto da lua.
- É verdade que ocê tinha uma amiga que tinha
medo de chuva, hein, Lilás?! - que pergunta da Keilinha.
Lilás ouviu ficou matutando. Havia de ser
verdade. E disse:
- É verdade que é possível ter amiga que tem
assustada de chuva.
- Mas todo dia chove praticamente neste
hemisfério, uma vez! - complemento da Rê.
Lilás que já tinha aprendido histórias de
deuses e deusas de Iracemas, Marílias, Cecis, Clarissas, Narizinhos, respondeu:
- A minha amiga, que vocês reconhecem, a
minha amiga tem prevenção de chuva quando acompanhada de raios e trovoadas e
pedras de granizo, é sim. Que a desculpem. Tem cisma da chuva quando chuva vem
acompanhada desses acontecimentos, tá certo. E nem consegue dormir e vai deitar
na cama dos pais, é. Chega lá e acorda todo mundo nem adianta desligar a tevê e
tentar argumentar. Ela e o seu cachorrinho Tupi acreditam em temporais do fim
do milênio, oquei.
O que é surreal, então? Surreal é uma coisa
de cabeça para baixo. Quando as coisas são ou andam de cabeça para baixo.
Entendeu? Não! Ótimo, então nem é coisa e é surreal.
A lua fugiu do dia e se escondeu longe na
galáxia mais exótica. Roubou ou ajudou lograr ou auxiliou furtar ou colaborou
abiscoitar a noite que estava presa nos zun-zin-zuns!... dos mosquitos. Se
enfeitou para passear e comprou umas roupas belas leves para desfilar sem
afetação. Se olhou nos espelhos dos lagos, se disfarçou em fases, brincou com o
mar igual uma iemanjá, brincou com o rio igual uma iara ou mãe-d’água, brincou
com os tesouros missioneiros igual uma teiniaguá.
O sol estava aqui embaixo pegando terra e as
deusas o ergueram acima das nuvens. No alto do céu o sol teve vertigem e
resolveu retornar aqui para baixo. Aqui teve assombração da morte e pediu
licença novamente para subir. Agora, em sempre, o sol é assim: com sua longa
barba de ouro, cabelos longos de ouro, todo de ouro, até nas mãos nos dedos nas
unhas de ouro, ouro amarelo atômico pesado puro maciço. Seus olhos continuam
também de ouro ouro.
- Minha tia faz sempre pãozinho de queijo que
é uma ma-ra-vi-lha de bom de comer e com suco de abacaxi, só!, entende? -
explicava a Neuza.
- Eu gosto de pão de queijo estalante
crocante com café da manhã, hum!... eu de pão de queijo - era a Junara.
- O pão de queijo com recheio de marmelada de
caju ou açaí ou abio, né?! - água na boca da Keila.
- E se fosse assim caldo de cana com pão de
queijo na mesma hora da manhã bem cedo, hein?! - era a Lilás.
Pois enquanto isso o mundo, eram os operários
os tais e quais engenheiros ou marceneiros ou ferreiros e mãos a obra. As
árvores iam crescendo com o mundo, os rios iam se revezando com os dias. As
coisas importantes grandes famosas coisas importantes eram criadas, mas eram
muitas coisas bem importantes.
D olhou o
mundo e fez uma re-velação. D, e as deusas artistas do céu, criaram os homens
as mulheres para que fossem trabalhadores. As deusas desocupadas nem
trabalhavam, os humanos trabalhariam por elas. E as deusas sentiam fome e nem
podiam comer, sentiam sede e nem podiam beber. Até que inventaram o ser humano.
Os mortais e as mortais morreriam no lugar das deusas imortais impessoais
universais.
Umas horas
uma semana duas semanas cinco meses um ano e outros anos, o tempo tinha que
passar pois os tempos fazem as coisas crescer e andar, etc.
Então, naquele passado remoto, para lá e para
cá do tempo, ainda quando as pessoas eram poucas e os animais eram muitos, os
bípedes humanos nem sabiam se defender de ninguém. Os homens e as mulheres nem
sabiam fugir das aves de rapina e das feras de longos dentes afiados e dos
insetos multiplicados em enxames milhares e dos répteis jurássicos e das
piranhas de cardume.
- Um dia desses, se possível ou impossível,
vou viajar para Carazinho. Lá é muito bom de passar o dia a dia pelas ruas pela
praça Caxinauá, etc. - opinião de Keila.
- Ouvi dizer fiquei atenta às coisas da
cidade de Estrela ouvi dizer - conversa de Junara.
- Eu gosto de lugares que tem zoológico ou
horto ou parque. Alguém quer coisa melhor? - disse prestando atenção a Lilás.
- Um lugar bonito de zoo é Picada Café -
falou a Neuza.
- Outro lugar de horto ou jardim botânico
especial escolhido é Petrópolis - testemunhou a Pérola irmã da Esmeralda.
- Cidade verde sem igual de parque com
árvores centenárias gigantescas muitas como Mangaratiba - colaborou a Rê.
O mundo no dia primeiro de janeiro dia
inaugural imediato seguinte e próspero ano novo. Tudo cheirava a queimado, as
florestas se incendiavam, raios caíam dia sim e outro também. Nem existiam
montanhas de nenhum tamanho, nem vales de nenhuma verdura, nem mares ou praias
paradisíacas, muito menos frutas e passarinhos, jogos de futebol na tevê de
plasma. A noite e o dia tiravam par ou ímpar na hora de entrar e de sair. O céu
nem possuía essa bela cor que leva hoje. O sol nem era todo de ouro. E a lua,
num canto qualquer do espaço, olhava esquecida como um satélite artificial. Tantos
seres e entes, caapora, matinta-perera, saci, miridã, ibijara, índio-gigante,
índio-cavaleiro, internet, celular... nem pensar nem pensar.
Nuvens poucas altas brancas leves que as
árvores sonham almejam pulam para alcançar.
Foi nesse ambiente irracional, de
coisas que tais e quais, foi melhor assim, que nasceu Lilás, a menina mais
espetacular que o mundo já conhecera. A menina lilás, aliás, a Lilás e dez
verões dez invernos dez outonos total dez primaveras.
O sol inaugurou cinco para as quatro
o sol surgiu novo elétrico dourado e procurando todas as coisas. Escolheu
cores. Sorteou araras papagaios humaitás periquitos... os mais falantes.
Selecionou jasmim-pipoca, chacrona, fruta-de-condessa, beldroega,
cominho-bravo... entre os mais tenros e verdes. Amanhecia radiante.
E a Lilás, ela mesma, já foi indo,
saindo, caminhando a trilha a rota de acesso ao mundo parcialmente construído
por D e deusas. Seria uma fenômena. Os olhos dela bonitos ativos verdes e sem
parecer que pensava. Todos já diziam autorretrato todas se perguntavam falavam
alto prometiam:
- Esta menina Lilás eu aposto eu
garanto eu quero ver!
E logo Lilás a partir dos seus
primeiros choros, buáaa buáaa!... tudo mudou para bem melhor. Mudou o mundo. A
menina surgiu para o mundo. Precisando
secá-la, enxugá-la, penduraram-na de cabeça pra baixo no varal do pátio
gramado. Ali ela chorou lágrimas de chuva que deram origem às fontes, aos rios,
às piscinas, às águas de coco, aos mares e aos aquários; aos peixes, às algas, aos
barcos, aos navios, aos transatlânticos e aos berros. Cresceram montanhas aos
montes, apareceram aves escapáveis ariscas nos butiazais,
marianinhas-da-cabeça-preta, maitacas, tra-tra-traaa!... cricriós-seringueiros,
teiteis, anambés-pretos... brotaram bibis, abóboras-do-campo, cipós-cruzes,
ervas-do-fogo, capins-gomosos, inhames-cigarras, limãoranas-da-várzea... se
cantou canções se filmou se jogou jogos esportivos recreativos interativos.
Sorriso dos pés à cabeça, Lilás sorriso nos lábios nos olhos nos cabelos nos
braços nos pés nas mãos. Tudo anunciando presente contente por sugestão da
menina lilás, como se diz ainda hoje a Lilás.
A
professora bastante Léia Utinga perguntou quem tinha ideia de tema de redação
que sugerisse e algumas sugeriram:
- Eu tenho
uma ideia assim - falou a Esmeralda irmã da Pérola. Podia ser: “A volta dos que
nem foram.” Acho trimassa.
- Eu tenho
um lema legal - sugestão de Rê -, tipo assim: “O Brasil é a terra dos
papagaios”. Dá muito diálogo, entendem?
- Eu nem
sei eu nem tenho ideia melhor mas... - era a fala da Keila - mas seria bom
tentar explicar por que D existe ou nem existe e outros deuses e outras deusas.
Acho bom falar com D e ouvir Dele a resposta entrevistá-lo, eu acho.
- Eu gosto
muito tenho que viajar muito quando crescer e me tornar in-dependente - dizia,
olhar vazio sensacional no horizonte distante, assim a Neuza. Eu gosto de
coisas dos outros lugares coisas lugares enigmáticos. Eu sugiro o título:
“Quero ser povo índio tenharim ou xavante ou ianomâmi até o limite da grande
floresta.”
Depois de
pronta, e nova em folha, cheirinho de couro, cheirinho de borracha nova, a
menina Lilás foi apresentada ao mundo - senhoras e senhores!... - fotografada e
filmada e selfiesada e felicitada. Ela mesma falou aos repórteres que gostava
de salgadinhos de queijo e de sucos e batidas, de sorvetes com cobertura de
caramelo, de frutas todas, chocolates, merengues, rapaduras, torta de
chocolate, sorvete de pitangas, além de perguntar ou responder sobre as todas
várias coisas variadas.
- E com
quem D se parece? - uma menina Pérola irmã da Esmeralda perguntou.
Lilás, os cabelos
até os ombros, cabelos ruivos, pele lilás, corpinho de menina de dez
aniversários, sardentinha, bracinhos independentes, franja impertinente na testa,
respondeu do jeito dela e que D lhe ensinou:
- Certos
dias que D é nuvem, passeia com o vento. E outras vezes é chuva, que pode cair
e virar rio do Carmo corrente pro mar. E ainda quando decide ser o sol, raios
de luz, feixes de cores, arco-de-deus. Já O vi besouro, joaninha, embuá,
lagartixa subindo a parede e árvore ipê-amarelo. D é tudo isso tudo, é tudo
isso tudo, tudo isso tudo, isso tudo, tudo. Ou nem.
- Como é o
outro lado da lua? Conte pra nós. Você já esteve lá, Lilás, você? - foi Junara
menina da altura de uma cadeira sentada.
Lilás
sorriu o de sempre o seu sorriso mais bonito aconchegante. E bastou os dentes sorrir
bonito:
- Até que
enfim, olha ela ali!... Até que enfim, a lua surgiu. Já são essas dezoito
horas, de tardinha, limitando a noitinha, no céu de azulejos limpos. Para falar
a verdade, uma lua prateada, talvez de prato, refletida, redondona, olhuda. Ali
por detrás do pinheiro araucária e seus galhos e suas taças feitas de grimpas.
Coisa toda fantasma. Lua subindo muito rapidinha pela escalada do anoitecer.
Uma árvore
duas outras muitas árvores e plantas, embirataís, buritis-palitos, maniçobas...
que nasceram aí mesmo em território reserva demarcada dos pemom.
Volta e
meia, por ali por perto, na paisagem ou no fundo do cenário ou por trás das
pessoas comuns, circulavam pessoas estranhas andando de costas como os
caranguejos na praia. Nem pareciam pertencer nem eram originais nem naturais de
Feira de Santana. Ninguém mais falava isto ou aquilo e isso era o principal.
Total e resumindo... surreal surreais.
A Rê guria
ótima, uma das melhores amigas da menina Lilás, já estava ali fazia uma cara garotinha
simpática os cabelos brilhavam ao sol, e perguntou:
- Deixa te
perguntar uma coisa, Lilás. Você é prima irmã parente dos autóctones teneteara
ou dos gavião ou dos iauanauá?
- Sim pode
fazer a pergunta que preparar a sua cabeça preparar, Rê. Uma vez eu fui cunhantã
da tribo nahukwá e foi muito bom. Me comentaram me contaram lendas que adoço a
ima até hoje. Pintei o corpo de urucum e fiz miçanga para o pulso e o
tornozelo. Faz tempo, faz que nada, mas eu sim era uma vez... eu era da lenda,
imagine. Então, por isso, achei tua pergunta muito aconchegante. Nada melhor
que ser da tribo e viver uma lenda para sempre. Eu te digo e te garanto.
Uma pequena
de nome Keilinha quis saber abriu os braços em louvor e perguntou:
- O que é
que é o pensa-mento?
Lilás foi
pensar pensou antes de responder. E cantou até dez para falar:
- Quando a
gente quer muito aí a gente ima. O tanto que se imagina pois é que se faz a
ideia. E a ideia vira rotina quando até esquecemos que é pensamento.
Um dia a
amiguinha e vizinha e coleguinha Rê, esta mesma, menininha do cabelo rebelde e
olhos muito brilhantes e boca de amora-branca derretida, perguntou para a Lilás,
cabelos ao vento da Rê, tatuagem em chinês logo abaixo da orelha esquerda,
perguntou:
- Como é
que você sobe tão bem em árvores?
- Tem muita
graça, comadre Rê! Estão lá em cima as pitangas, os tarumãs, os guabijus, as
guabirobas... e então se aprende a subir por si só ou por cipó-de-copacabana.
Quando tão maduras, bem da realidade!
Uma hora e
vinte depois, uma menina amiga de nome Neuza, brilho controlado sorriso
esmaltado, teve esta pequena dúvida e pergunta, e descarrilou:
- E quem
que já duvida de D já é pecador já é malfeitor já é inelegível?
Lilás nem
duvidou da pergunta. Entendeu que a Neuza tinha um nome muito trilegal. Tentou
negociar, confessou:
- Ninguém
duvida que seu nome é lindo. Eu até poderia me chamar Neuza e seria ótima Neuza.
Gostaria me chamassem Neuza e me sentiria linda. Sem dúvida.
Veja uma
narrativa surreal, caso se queira ver. Nem dá para acreditar. Mas é tudo
conforme já se disse e explicou, surreal de ponta cabeça. E nem entender faz
parte do sobrenatural: Lá pelas tantas era alguém anônimo estranho diferente
das pessoas comuns, que ia ali chegava na árvore e abraçava a planta com toda
confiança e consideração, abraçava a árvore da rua da praça nada se importando
com as pessoas comuns desejando felicitações abraçava a árvore pela passagem do
ano novo beijava a árvore na casca desejando os verdes anos por vir. Nem
parecia ser nem era original de Lençóis. Ninguém mais falava nisso e isso era o
principal.
O sol
astro medindo as sombras escalando as horas esticando as sombras das
goiabeiras-bravas, frutas-de-coruja, jacarandás-de-espinho...
A amiga
Pérola irmã da Esmeralda perguntou para a amiga Lilás num abraço apertado com
balanço pros lados e murmúrios de sentimento e calor junto à orelha e no
sumidouro do ouvido:
- Upa, Lilás!
O que que você vai fazer amanhã de manhãzinha depois do café da manhã?
- Amanhã é
dia de domingo. O café da manhã vai até as 10h. Todos os domingos amanhecem
ensolarados. Menos os que chovem o dia todo. Gosto de pedalar de bicicleta. Eu
nem tenho susto de chuva, uma vez - disse a guria Lilás.
Mirim, um
guaipequinha arisco e amigo constante engraçado de Neuza, perguntou latindo
sacudindo a cauda mostrando a língua, querendo fugir querendo saber querendo
ser importante:
- Peixe de
rio tem frio?
Lilás nem
podia nem queria deixar sem resposta e respondeu ao vira-latinha:
- Somente
quando assaltam fora do rio e nas águas quentes. E nem é apenas isso. Acontecem
peixes que vão de volta para a fonte em nascente e outros que vão de saída para
a foz em delta. E nem é apenas isso. Mas existem peixes de escamas e peixes de
couro que respiram fundo dentro da água fresca. E nem é para isso. Alguns comem
pontas de raízes brotos e frutas que caem ou jogadas das árvores.
Por isso
todos percebiam. Todos que a viam já ficavam sabendo. Todas já ganhavam com
isso. A menina Lilás era assim, cabelo trançado, tênis ou sandálias, e
paciência. Garotinha de sempre muito papo. Guria muito papo de sempre. Menina
de papo sempre muito. Guria engraçada até na cor do nome.
Um dia uma
senhorita de nome Juruva. Longe distante e tão longe que nem chegou a se
encontrar. Saiu da praça Uapixana pegou as ruas misturadas em labirinto e se
perdeu no lugar. Aí, o que ela fez? Vendeu o sol as poucas caras raras nuvens
brancas o ar invisível os rios que corriam no Estado do Pará vendeu vendeu sem
parar. E vendeu frutas e comprou um chapéu de asa larga.
Quanto
muito, mas bastante tempo mesmo, todo tempo possível do mundo, que nem aparecia
menina Lilás deste tipo em o mundo. Mangabeira balançou essência perfume aroma
falou: “Eu estou aqui!”, peixe do rio Paraguaçu bacu-de-pedra, blu-blu!...
rodeando pedras do fundo falou: “Eu estou aqui!”, ave rolinha-branca cantou,
ruuu!... encantada com as quirerinhas pelo chão falou: “Eu estou aqui!”, lento
conforme o jabuti-carumbé, te-te-tê!... picuá nas costas cheio de pinhão falou:
“Eu estou aqui!”
O colégio
NSAparecida comentou o acontecimento. Foram para a aula comentando. Durante o
intervalo comentaram. Depois, para casa em grupos, na parada do ônibus, somente
falaram trocando os comentários. Trocaram ideias conversando comentando:
- Isto nem
é menina, é Lilás.
- Isto nem
é água, é rio.
- Isto nem
é pedra, é rocha.
- Isto nem
é sombra, é meio-dia.
- Isto nem
é árvore, é jabuticaba.
- Isto nem
é Nazaré da Mata, é Nova Prata.
A
garotinha Esmeralda irmã da Pérola, sujeitinha leve e querida e aquecida e
cabelos mexidos em revolta, saiu com uma pergunta difícil que lera num livro e
nem tinha entendido, indagou, antes de indagar perguntou:
- Menina Lilás!
Olhe bem olhe bem. Você queria ser, já sonhou ser uma farinha-seca? Ah!, só
aceito resposta como resposta.
Lilás foi
pega de surpresa de repente realmente. Uma pergunta ensaiada nem se pode dar
resposta madura. Uma pergunta encontrada somente achada em livros de leitura
sem diálogo. Mas nem tanto impossível que Lilás nem pudesse responder. E respondeu
com figuras coloridas em todas as páginas:
- Uma
montanha é uma montanha, mesmo disfarçada de serra da Capivara. Um colibri
topázio-vermelho também é beija-flor. E quando eu sonho nem penso duas vezes,
eu já quero porque quero ser quero-quero.
- Já
pensou nem encontrar a saída entrar numa caverna passar tantos dias no escuro
profundo com frio? Me reparte tua opinião, Lilás, me reparte - apartou a Junara
ali pertinho.
- É como
cair num buraco e ouvir o silêncio. Para donde se bandeou o mundo todo?! -
declarou Lilás, o vento fazendo dançar os seus cabelos os seus cabelos.
Mais uma
história surreal das bem super mega hiper esquisitas: Durante a chuvarada na
rua na rua se possível entre as pessoas comuns aparecia uma pessoa incomum
diferente sem guarda-chuva e que pulava gigantescamente as poças de água pulos
de oito a dez metros de distância como fazem as bailarinas em câmera lenta como
fazem os felinos para almoçar pernas longas em o teatro Municipal do Rio de
Janeiro. Nem parecia ser nem era original de Igarassu. Ninguém mais falava
nisso e isso era o principal.
A dezoito
séculos de distância e os muitos quilômetros nasceu Carolina na cidade do mesmo
em o Maranhão. E seu belo nome já estava escrito descrito nos olhos dos
pássaros no vento que nem para nas estrelas que nem se apagam nas ibabirabas
nos rios nas cavernas e grutas ancestrais.
Um guaipé
marrom-claro baixinho tanto compridinho como baixinho muito contente, cauda
intermitente, contente era bom!, de nome Mirim, indagou:
- Você já
caiu num buraco e já ficou lá para sempre, Lilás?
- Onde
foi? Será que me lembro? E já faz alguns tempos. Pois naquela fase da minha
sorte eu era um sapo ou uma jia. E passei frio e passei coaxando, croáaa!...
Todos
ficaram olhando a Lilás nem só o cusquinho. Depois riram, depois lamberam.
Acharam engraçado. Acharam que Lilás nem falava, que tava de brincadeira. E
continuaram rindo, latindo, lambendo. Apenas Lilás nem ria pois falava,
confessou:
-
Honestamente. Eu já fui de tudo um pouco nessas tantas sortes e vindas. Subi
diversas vezes aos céus aos céus em linha vertical reta. Fui peixe, fui
jeniparana, fui suia, fui sapo-martelo, fui avari, fui tico-tico, fui piracuí...
ia e voltava do céu para a terra.
- E é
longe? - dúvida de Pérola irmã da Esmeralda.
- O bem
bom de uma excursão de uma reencarnação de uma transfiguração de uma
metamorfose é que é longe e para lá de Plutão, no mínimo - saída de Lilás.
Tinha carinha
que nem perguntava, ficava de lado, disfarçava, conversava paralelo gesticulava
comentava se fingia murmurava para a amiga mais próxima ao pé do ouvido, e
discordava:
- E ela é
filha de peixe matrinxã, é!
- Pode ser
amiga da cutia, né!
- É
parente descendente das guaricangas-de-bengala, quem sabe!
- Tem
mania coleciona planta e replanta aquelas plantas as tais chuvas-de-ouro em
vasos pintados de branco, confere?!
- De
repentemente é índia cunhantã dos macuxi da terra serra Tepequém, pode ser!
Quando foi
por esses dias, meses, a menina Lilás pôde, enfim, entrar para a escola.
Escolha, escova, escora, escore, estuda, escola. No recreio, levava uma tunda
trabalhosa atendendo isso e aquilo de todos. E como sempre, gostou dos mimos e
paparicos e presentes e convites. Precisou ser simpática, compreensiva,
distinta, meiga, camarada, acessível, esportiva.
- Lilás,
você é a menina mais colorida e sonora que reconheço - falou a Keila.
- Obrigada
pelo bombom - respondeu Lilás.
- De onde
você veio? Dizem que é uma etê, verdade? - perguntou mais uma pergunta de fã,
chamada Neuza.
- Dizem
que você foi maquiada para estrelar uma série de tevê, é correto? - pergunta do
cãozinho Mirim.
- É, dizem
que apareci de filme de efeitos especiais de uma galáxia distante. Mas como
sabem já me recuperei do tombo. Hoje ainda tenho saudades dos lugares que nem
conheço apenas ouvi falar e admiro muito, Araguaína, Filadélfia, São Marcos,
Imperatriz, Vista Alegre do Prata, Alvorada...
Lilás
nascera fazia dez anos. E nascera sem praia sem aldeia sem trem sem montanha.
Depois, com pouco tempo, já começou a sonhar com praia trem montanha aldeia
buritiguara tribo beaquéo reserva panará... Agora, ultimamente, sempre que pode
aproveita oportunidade para viajar veranear acampar escalar navegar...
Certo
tempo, num caminho, quando andando, Lilás encontrou com Rê e mais o pai da Rê e
ainda mais a mãe da Rê e o avô da Rê. A menina perguntou a Rê:
- Quero
chegar hoje mesmo na praça Candimba, amiga Rê. Que caminho devo seguir para
chegar mais rápido, hein!, você conhece?
- Procure
ir de barco a vela pelo rio Taquari - resposta da Rê.
- Também
pela beira da rua Chica da Silva na calçada - disse a mãe da Rê.
- Acho
melhor ir pela BR-040 que tem asfalto novo - resposta do pai da Rê.
- Que
nada. Cruze a montanha 31 de Março e você chegará lá em duas horas e meia,
garanto - resposta do avô da Rê.
No mundo do
surreal tem personagem surreal tem coisa surreal tem história incrível de tão
suprarreal: Coisas difíceis acontecem e de repente como de supetão aparece um
tipo humanoide metido a muito alto altíssimo acima dos 2m e 40 mais o chapéu e
passa caminha circula anda seria uma girafa ou homem de circo nas pernas de pau
pela calçada da avenida Carapirá entre pessoas comuns se fazendo se fazendo
passar. Nem parecia ser nem era original de Itaberaba. Ninguém mais falava
nisso e isso era o principal.
- Quando
iremos até as estrelas, Lilás? Ou seria melhor os planetas primeiro, menina
Lilás? Eu gosto muito de cometas - agora umas perguntas de Pérola irmã da
Esmeralda.
- Muitas
vezes eu já me perguntei me respondi isto. E me disseram com razão que as
estrelas são fogueiras de São João ou vaga-lumes distantes - fabulou em
resposta a menina Lilás.
Lilás é a
menina mais terramarear que já se viu que se conhece neste universo sem fundo.
É bom se preparar e olhar todos os equipamentos, ferramentas, mapa, documentos,
gps, e-mails, cinto de segurança, porque lá vem Lilás, que passa batom conforme
a moda, unhas bem cortadas rente, roupas da estação, ajeita os cabelos da hora
e sai pelo mundo das aventuras esportivas e engraçadas.
- Por que
você tanto olha o quê, menina Lilás, por quê? - perguntou uma garotinha da
idade de dez chamada Junara.
Lilás se
já se convencia que tinha de responder, respondia, respondeu:
- Eu gosto
de olhar o amarelo o azul o verde. Encontro por aí. Eu gosto do sol amarelo. Eu
gosto do céu azul-azul. Eu gosto dos peixes verdes. Eu gosto do pequi amarelo.
Eu gosto dos bichos das aves dos rios das estátuas. Eu gosto das árvores verdes.
Eu adoro amarelo com sorvete de abacaxi. Ando de trem e olho a paisagem
acelerar acelerar. Ando de avião e vejo a paisagem em figuras geométricas. Por
isso eu olho o amarelo o azul o lilás o verde. Que me fazem bem. E nem tem
jeito mesmo. E o lilás é minha cor e tem tudo a ver e vem comigo.
Lilás disse estas cores e em pós continuou à
disposição curiosidades das perguntas com respostas. Como uma flor de cor que
fica na areia ao sol da praia pegando cor pigmento de melanina.
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