quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 19




Céu de Altura Azul Mais Ainda

            Aconteceu com meu tio Gavião-Asa-de-Telha e meu outro tio seu irmão Andorinha-de-Testa-Branca. O que vamos fazer?! Isso mesmo na época em que esses ainda nem tinham barba na cara, mas quase. Mesma época, importante impressionante, que Getúlio Vargas ainda vivia e dava ordens neste país dos quatro cantos cardeais. Nem havia biquíni e nem havia futebol via satélite, nem internet ou celular ou biodiesel ou pré-sal.
            As coisas estavam grandes e eternas e dia a dia debaixo do sol puro. Pássaros escolhidos por D cruzavam o ar como flechas interessantes, gavião-pombo-pequeno, garça-real, guarundi-azul, beija-flor-de-banda-branca, galo-da-serra... O céu com nuvem ou sem nuvens.
            Do lado do sol quem fica do lado do céu, nada lhe faltará.
            Pois aqueles dois queridos parentes foram colher laranjas lá para os distantes da capela NSdaSaúde. Minha tia mãe dos dois Sardoá pediu, desejava, sempre recomendou: me tragam umas de umbigo, faz favor! Na verdade um lugar ermo, isolado, deserto de gente, muito mato e capoeira, aquele tempo aquele tempo. Uns diziam que por lá ainda restavam alguns índios charrua entranhados pelos matos e peraus do rio da Prata. Uns diziam que por lá provavelmente aconteciam onças-pardas e jacarés-de-papo-amarelo e famílias de bugios, u-uuuh!, u-uuuh!... Foram colher bergamotas na tapera, antiga casa abandonada desistida da família.
            Saíram da estrada de terra vermelha e entraram no potreiro e foram até a tapera. Se demoraram meia-hora, duas horas, talvez duas horas e meia. Subiram nos pés de guabirobas comeram pitangas e jabuticabas e tarumãs e araticuns-do-sertão... Pios assobios escondidos mocozeados de inhambuxintãs, eupe! eupe!... provavelmente.
            Na volta, ali por perto da escolinha, na estrada de chão batido, subidinha de morro onde os dois moços desceram para empurrar as bicicletas, foram atacados, surpreendidos, barrados por duas moças caprichosas caprichadas. Eles talvez já sabiam de outros carnavais as tais moças, mas assim, de repente, do nada, assaltados... foi no mínimo desconcertante hiperbólico.
E as duas moças invadiram a estradinha de um supetão e nem queriam mais deixar os dois moços prosseguir em paz. Estavam escondidas em cima do barranco entre as moitas de flor-de-babado e pularam no meio da estrada. Uma das moças, a mais loirinha, se rindo sarcasticamente, a boca linda de tirar beijos, rindo ironicamente, lábios úmidos e tenros, falou:
            - Ah ah ah!... Entreguem os pontos e as laranjas! Se entreguem ou... sabem, né?! Escolhem rápido!
            Os meus dois parentes se entreolharam assustados, nem um pouco donos da situação, reféns da paura paura. Largaram as bicicletas no chão, cada uma das magrelas carregada de meio saco de laranjas e outras frutas apetitosas do mato. E os dois moços começaram a temer e a tremer babando de pavor. Meu tio Gavião-Asa-de-Telha ainda teve ânimo para dizer:
            - Sai da frente senão a gente grita! - falou tentando impor um pio, um grasnar, um urro, um esturro de uma autoridade de macho xucro e impertinente.
            Elas, as moças, as duas atacantes, ah ah ah!... riram e casquinaram, se entreolhando, um pouco lá entre elas, divertidas, excitadas, mãos nas cadeiras, peitos empinados, braços cruzados, e que peitos, meu! E deixando sempre bem claro quem mandava e desmandava, e sem receios declararam, deflagraram, a menos loira que falou:
            - Experimentem alardear pra vocês verem só! - ela disse com o olhar duro, fixo num meu tio e depois noutro meu tio, total os dois irmãos meus tios parentes diletos.
            E a outra, a de cabelo mais loiro, batendo palmas e tal:
            - Pla-pla!... Pla-pla!... As laranjas ou... Ocês escolhem e é loguinho, né?! - ela disse batendo também o pé no chão, levantando um pozinho vermelho, autoritária mandona punho fechado.
            O meu tio Andorinha-de-Testa-Branca, que nem bigode tinha naquela altura, falou assim, meio ressabiado, meio desenxabido, já meio zonzo:
            - Melhor ocês sair da frente, gurias! Eu atiro umas pedradas em vocês duas, hem?! - disse isso quase no ritmo do soluço com choro peito nervoso respirando alto ansioso.
            Por aí, provocadas, as duas se aproximaram mais dois passos. Olhos e cenhos mais interrogativos ou desafiadores. Cresceram para os rapazes. Subiram para perto dos dois bobos e olho no olho. Estufaram os peitos, que já nem eram qualquer coisa, e que força de conjunto, meu! As duas ali em frente do céu anil e de frente pro resto. E gargalharam, ah ah ah!... chegando estremecer trincar estilhaçar, ah ah ah!... os vidros do céu e o céu peremptório. A menos loira ainda perguntou, querendo abraçar abraçar um meu tio:
            - Sim sim, como é que é como é que é, hein, gentes?!
            A outra guria a mais loira também quis saber de perto e querendo abraçar abraçar outro meu tio:
            - Nem entendi, me expliquem melhor, se o quê se o quê, povos?!      
            Tio Gavião-Asa-de-Telha estava tremendo todo o de sempre e de alto a baixo. Tio Andorinha-de-Testa-Branca estava azedando para toda a sorte sorteada sortida por dentro e por fora. Os dois nem sentiam mais os próprios pés, as próprias mãos, os próprios inteiros íntimos corpos completos. Sabiam que estavam presos como numa camisa-de-força, numa teia de aranha, numa esparrela, num beco sem saída. Tipo assim, se correr a caamanha pega, e se ficar o curupira come. Os seres entes extraordinários, para o caso dos dois assustados, eram as duas gurias e irmãs. Meus tios podiam até ficar traumatizados, quem sabe.
            Muitas árvores e plantas passavam ali de repente e então de perfumes aromas como que variados e de flores também diferentes as cores escolhidas locais.
            E os dois marmanjos observavam as atitudes das lindinhas. E as duas que muito cuidavam de espreitar os dois. Eram mesmo times adversários inimigos se estudando. Um time querendo enganar ou ganhar o outro. Valia tudo naquela luta naquela horinha. Um time nem dava as costas ao outro. Nem se previa uma solução amigável ou esportiva.
            A menos loira provocou meu tio Andorinha-de-Testa-Branca, ela disse, se rindo:
            - Ah! ah! ah!... gotosinho gotoso gotosão! - e novamente tentou abraçá-lo abraçá-lo.
            Meu tio esse nem falou nada nem piou nem quis olhar nos olhos perigosos. E meu tio Andorinha-de-Testa-Branca começou o chororô. Se sentou no chão, cruzou os braços sobre os joelhos, sentado a beira da estradinha, apoiou a cabeça nos braços e chorou. Assustando até os passarinhos da beira do barranco da estrada, ararinhas-de-fronte-castanha, principalmente. Chorava sem ver mesmo nada, coitado. Mais primitivo impossível.
            É, um lado nem acreditava no outro. Ninguém entendia de morte, mas todos tiveram receio de que era a hora h. As moças um pouco menos, foi verdade. O drama chegava ao fim de uma curva de uma era, talvez.
             A mais loira provocou o outro tio, Gavião-Asa-de-Telha, e descolou, imprimiu, se rindo hilária:
            - Ah! ah! ah!... pai-de-santo pai-de-terreiro babalorixá!
            E esse meu tio nem falou nada, fechado em si e temendo. O santo predileto do meu tio Gavião-Asa-de-Telha era o são Cristóvão. Por quê? Ele nascera no dia do santo padroeiro dos viajantes. O santo predileto do meu tio Andorinha-de-Testa-Branca era santo Antônio. Por quê? Ele nascera no dia do santo e tinha o pai que também se chamava Antônio por causa do santo padroeiro dos pobres. A moça mais loira tinha a santa predileta, que era a santa Clara. Por quê? Fora promessa da mãe dela dar o nome da santa madrinha das causas boas para a filha mais clarinha. E a moça menos loira tinha a santa Luzia como preferida. Por quê? Ela nascera no dia da santa madrinha dos bons olhos bons olhares olhos lindos e esmeraldados.
            Naquela altura do campeonato foi a vez do meu tio Gavião-Asa-de-Telha nem aguentar mais e se mijar nas calças. Calças nem, na bermuda encardida cheia de bolsos enfeitada de fivelas sem cinto quase caindo da bunda. E ele olhou aquilo e morreu de vergonha de desgosto frustrado desgostoso. E as moças olharam aquilo e já se mijaram de rir, o rio correndo no chão de poeira, e nem acreditaram que precisava tanto ou quanto. Meu tio Andorinha-de-Testa-Branca até parou de chorar, começou a esfregar os olhos vermelhos, os rios de lágrimas no rosto maquilado de poeira.
            A moça mais loira discursou para meu tio Gavião-Asa-de-Telha, ela disse, foi falando e gestos acompanhando como uma coreografia:
            - Você já viu o sol desaparecer, meu?!
            Esse meu tio bem ali nem falou nada. Nem pensou nada, nem dúvida, nem nada nos bolsos.
            De sua parte a moça menos loira olhou o outro meu tio Andorinha-de-Testa-Branca e também falou e com floreios de gestos e ameaças com as mãos os pés a cabeçada, etc., disse:
            - Você hoje mesmo está indiferente, hein, guri?!
            E esse meu tio também nem falou nada e até baixou a cabeça olhando os pés de unhas grossas e compridas fora das sandálias de tiras pretas de couro cru. Pensou que aquela mesma estradinha levava muito longe longe até Fagundes Varela, General Carneiro, Curvelo, Montes Claros, Caeté, Itaboraí, Vespasiano, Rio Bonito, São Félix... e mais até para lá ainda se houver.
            Uma das moças, a mais loirinha vai, e mansa, aparentemente calma e mansa, caminhou para o lado do meu tio Gavião-Asa-de-Telha. O meu tio, se vendo em situação extrema, se mandou correndo para a capoeira. Foi o que restou fazer. Largou a bicicleta e subiu o barranco de terra vermelha, cruzou o arame farpado qual fosse idêntico um aflito jacuguaçu e se mandou pela capoeira inóspita. E correu mesmo para a charneca. A moça foi atrás, correndo também. O caçado e a ca-ça-do-ra.
            Enquanto isso ocorria ali, a menos loirinha tentou se aproveitar do meu tio Andorinha-de-Testa-Branca. Foi, como quem nem queria nada, coisa e tal, se aproximando sorrateiramente, pé ante pé, meio que assoviando, vuuu-ruuu-ruuu! vuuu-ruuu-ruuu!... disfarçando, e quando ergueu o braço para pôr a mão no ombro do meu tio Andorinha-de-Testa-Branca, esse correu também, largando a bicicleta, e se mandou em desabalada carreira para o outro lado da capoeira áspera. Foi o que restou fazer. Subiu o barranco de terra vermelha, lado oposto, como subisse igual teiú acossado, e cruzou os arames farpados e se mandou pelo meio da caatinga. A moça correu na cola dele. E assim todos se enfiaram no capoeirão. O faminto e a vontade de... comer.
Uma dupla para um lado, a outra dupla para o outro lado da estrada. Estrada que guiava para o litoral a serra a campanha, bem que se podia comparar e escolher. A via sem começo sem fim e de ir quanto antes. Brincadeiras das gatas e dos ratos.
            O sol dançava com sombras das árvores, caajuçaras, inhaíbas, goiabas-de-espinho, cravos-do-campo, candeias, arapocas, ivaís, figueiras-bravas... Depois a nuvem esgarçada. Um pouco de céu com bando de papagaios-do-peito-roxo, crieeé!... para o leste voltando, serra da Piedade. A tarde com coros vocálicos encontros vocacionais.
            A menos loira alcançou meu tio Andorinha-de-Testa-Branca fácil fácil. Foi assim. Meu tio Andorinha-de-Testa-Branca corria meio doido por entre as plantinhas de todo tipo do carrascal. Era difícil se movimentar ali, e meu tio se atrasava todo instante. Assim, a moça ganhou terreno, mais ágil e esperta, e se aproximou perigosamente. Uma hora a moça menos loira se pinchou como uma goleira nas pernas do meu tio Andorinha-de-Testa-Branca e o segurou bem firme com ambas as mãos. Meu tio até quis negociar:
            - Tudo bem, moça. Eu me rendo. Só nem carece de que me machuque.
            - Calma, carinha. Não grite. Nem chore. Nem precisa se apavorar. Vamos conversar conversar, tá bem? Conversando a gente chega onde se quer, né?! - ela disse isso e deu um tapinha, tafe!... na carinha aterrorizada do meu tio Andorinha-de-Testa-Branca.
            Meu tio engoliu em seco. Mas a coisa só estava recomeçando. A moça menos loira principiou a tirar a roupa assim lá dela. Sacou fora a camiseta, o short e a calcinha, tudo que tinha na horinha. As pontas dos seios bem altas e firmes e rosadas. E recomendou com uma voz rouca e um olhar úmido, uns olhos vidrados de esperança no por vir:
            - Sua vez, ratinho mocó. E é pra já. Quero ver a minha borduna balançar ao vento guasca de fora. Se mexa, meu!
            E meu tio, aquele lá, o Andorinha-de-Testa-Branca, nem queria e nem queria. Até levar uns tapas, tafe! tafe!... bem no pé do ouvido e querer. E a verdade foi que os dois fizeram amor grudadinho. E foi lá mesmo no chão, numa clareirinha da capoeira, assustando os passarinhos, corruíras, tico-ticos-do-mato, e alguns insetos coloridos e outros bichinhos rastejantes incidentais e perigosamente se enrolando se arrastando por perto de uns pés de gravatá.
            Enquanto isso pra lá, a outra dupla, mesma hora, outra banda da estrada, em plena capoeira, corpo e alma, também recorriam uma atrás do outro. Meu tio Gavião-Asa-de-Telha na frente, a moça mais loira atrás. Até que meu tio subiu numa lobeira. A natureza tinha plantado a lobeira ali. Tudo bem. Coisa nem tão rara assim, bem possível, vá vamos lá, em!
            Meu tio Gavião-Asa-de-Telha subiu na árvore e achou que estava livre da perseguição ou pelo menos do assédio da moça, distante das garras e dos dentes da moça. Qual o quê, meu! Ela até riu:
            - Ora ora, meu, ah ah ah!... Que o difícil até tem mais graça e concordo, meu!
            Meu tio subiu bem alto mais alto. Lá para os galhos altos, a ponta dos galhos altos envergando envergando. E a moça o olhou com sorriso nos lábios úmidos apetitosos boca pequena língua apontando no canto da boca. Até esfregou as mãos, louca por aventura, louca dos cabelos desgrenhados, louca de gritar. E começou a subir, trepar, escalar, galgar como a cuíca-lanosa. E prometendo para e exigindo do meu tio, língua de fora, boca seca sequíssima:
            - Vou subir e te beijar na boca, hem! Nem, nem se mexa! Vai querer cair e se precipitar ao chão, meu?! Fique me esperando! Quero ver a minha tangapema vibrar ao ar livre guasca de fora. Eu nem vou te morder!
            E meu tio nem teve outro remédio a não ser esperar porque nem podia ir para outro lugar. Estava encurralado, sem asas, como bicho-preguiça pendurado no galho da tucaneira. Se pulasse podia torcer o tornozelo, no mínimo. Se ficasse, e ficou, seria pego como um filhotinho de bicho-preguiça-de-máscara. E foi mesmo esta a conclusão.
            Quando chegou bem perto, lá no alto do galho, bem perto do meu tio, a moça disse numa voz resfolegante, o hálito de folha de pitangueira, o galho se inclinando perigosamente até quase o chão, rosto afogueado afogueado, garganta seca, língua batendo nos dentes certinhos:
            - Hum... que guri nervoso e arteiro e brincalhão. Nem precisa de terror, meu! É só um beijo. Vá, talvez um beijo com abraço. Quem sabe chegaremos a um beijo com abraço e apertão por baixo. Mas nada de muito difícil, meu! Nem, nada de muito agitado que de repente o galho quebra, meu!
            Meu tio, apesar de ter receio de cair do galho, fechou os olhos, apertou os dentes. A moça mais loira ainda teve uma ideia extra:
            - Isso, feche os olhos e faz biquinho. Vamos. Faça beicinho sem falta, meu! Relaxe. Nem vou te derrubar da árvore. Nem vou te apertar, nem vou te deixar manchas roxas. Deixa tudo por minha conta meus planos e meus dedos de pluma.
            E meu tio Gavião-Asa-de-Telha abriu os olhos, olhou com horror para a moça, olhou depois com receio para baixo, ficou com pavor da moça e com medo de cair. Fechou os olhos de novo e nem queria mais pensar em nada. Só queria nascer de novo noutro lugar e num outro corpo, tipo uma samambaia, tipo uma enxada com cabo, tipo um carrinho de brinquedo de plástico. Quem sabe nascer uma pedra jogada ali na rua, um macuquinho-pintado, um louva-a-deus cor marrom mimetizado e do outro lado do mundo lá na Amazônia lá na Canavieiras lá na Barro Alto lá na Pingo-d’Água lá na Moema... Ele ainda tremia, suava frio, chorava lento lento por um olho.
            A moça mais loira chegou mais perto, muito mais perto. Foi tentando acalmar o meu tio:
            - Nem receie nada, meu nego! Nem vou te derrubar da árvore. Mas você tem que ser bonzinho e tal. Tem que colaborar e nem teimar. Tire a camisa. Eu te ajudo. Sossegue. Relaxe. Passe a mão no meu queixo e me beije...
            Meu tio reclamou:
            - Me deixe!
            E insistiu:
            - Me deixe mesmo!
            A moça mais loira foi levando no papo o meu tio. E meu tio nem teve outra alternativa. E eles se amaram ali mesmo durante os galhos da lobeira. No balanço dos galhos, no embalo dos galhos, na brisa da tarde benfazeja. Ela passando a mão no cabelo dele, o galho perigosamente, ele com receio de morder os lábios carnudos dela. Assustando os passarinhos donos do território, um atônito casal de pichororés.
            Às 17h e 30min já nem fazia aquele calor. Mas o capoeirão estalava e pegava fogo, em outro sentido mais esportivo ou festivo e consagrado.
                                                                       ***
            Me apropriei de um litrão de pinga aguardente caninha lá de casa. Uma mão no gargalo segurando outra pelo fundo abraçado de encontro ao peito varonil. E, àquela horinha, tinha duas alternativas: pular a janela e quebrar a laje da calçada com a moringa ou medir a mardita e consumi-la gole a gole. Preferi consumi-la e líquida. Assim aproveitei melhor e fiz uns exercícios de levantamento. E bebi todinha junto comigo mesmo naquela noite. Bebi sem gelo como um gambá e fumei muito como um morcego. Piando como coruja-carijó. Conversando com o espelho do banheiro. Meu rosto cara de iurumi no reflexo. É, minha cara de vira-lata cachorro baio tamanho médio.
            Enigmática era a minha filosofia, o meu pensamento, o meu mundo, a minha mania. Tomara todo o meu penúltimo passado. E tomava aquele meu presente. Talvez meu futuro nem escapasse sem a cor e o cheiro dela, pensei. Sem a tempestade dos seus cabelos de guria.
            Nada respirava sem perguntas. As palavras preenchiam o dia. E meu dia a dia começava ao acordar e terminava duas da tarde, hora do pega. Nunca tinha sorte durante as horas da pharmacia.
            Meu rio atravessava uma ponte sem pé nem cabeça. Rua onde ninguém mais ou outros menos ainda passavam. Terra de monumentos ao desperdício, uns elefantes pesados e brancos e desequilibrados. E paisagem de árvores sem sombra.
            Andava mesmo pensando e falando muito mal de mim mesmo, uei! Nem enxergava a porta, uei! Tentava ver identificar ratos passando ligeiros na sombra dos meus olhos, uei! Uma superstição de três toques na madeira, pé direito no degrau, uei!
            Amburana, de cabelos longos até o meio das costas, negros, lisos, os dois pomos dourados soltos dentro da blusinha com decote. É, ela deixou que aparecessem. Uma bermuda azul até o joelho, esgarçada nas pernas, bolsos virados, apertada apertada. Um tamanco estilizado com florzinhas de erva caruru-de-sapo. Unhas dos pés pintadas de verde. Pois ela era só uma ideia de flor que caminhava. Uma marreca-pé-na-bunda das mais graciosas. Porque embora fosse bom sempre gostou de provar o sorvete de tapioca.
            Já a irmã do Carapibus, de codinome Upanema, nem tinha atrativo algum. Mas ela me convidava sempre para dançar. Mas ela tinha alma. E me olhava com olhos dela, olhos lustros, olhos de canela, uma correntinha de ouro costume dela sempre mastigando, olhos transpassados de carícias, olhos de quilômetros longe longe.
                                                                       ***
            O cachorrinho Pitu chegou e se deitou na soleira da porta da farmácia. Escorregou no soalho já fechando os olhos. O patrão, farmacêutico formado na faculdade de Barbacena, percebeu o caso e apontou o dedo. Eu, acostumado a entender os sinais e gestos e a obedecer com um simples murmúrio ou estalar de dedos, obedeci. Fui até o animalzinho e já pronto e disposto a enxotá-lo. Fui modestamente tentar, pelo menos. Vamos ver.
            Amanhecera uma boa segunda-feira. Bem melhor se fosse já uma terça uma quarta. Dependendo do ponto de vista, era melhor ficar mesmo ainda com o domingo ensolarado junto à praça no bar sentado olhando as moças cerveja no copo passar na calçada.
            - Pois não, seu Pitu! Eu já te conheço e nem é de hoje. Nem pode ficar aí deitado, deitado nesse lugar, na entrada da farmácia, precavendo os possíveis clientes da loja. É, nem pode. Você nem toma jeito, é isso. Você nem toma banho, é isso.
            O cãozinho me olhou com um olhar de dúvida, uns olhos marrons, ou cor de mel, por aí, um sorriso repousado, um olhar de nem me reconhecer, nem se amolar. Eu insisti:
            - Vai, se mexa! Pode se retirar! Pode ir para o olho da rua Dom Pedro I!
            Fui enérgico, garanto. E pensei até, para falar a verdade, em empurrá-lo ou cutucá-lo com o pé. Só nem fiz porque adoro cachorro. E nem sabia exatamente se todos os cachorros me adoravam. Adorava, adoro, mas nem adotava, nem adoto, explico.
            Pois era. E mesmo assim o cachorro nem se mexeu, ou nem me entendeu. Fiquei preocupado e olhei em volta. Sim porque, de repente, vou ter que brigar com o cão para obedecer à vontade do meu patrão, pensei. Aquilo era muita palhaçada, certo?! Falei novamente e mais uma vez. Aliás, a minha paciência...
            - Quer fazer o favor de deitar noutra parte noutra freguesia que lhe agrade e nem na entrada da farmácia, amigão!
            Então, Pitu bem entendido, se levantou se esticou todo se espreguiçou todo botou e recolheu a língua me olhou com olhos fumegantes e ar de desprezo e disse em latim traduzido:
            - Nem precisa lançar perdigotos, meu!
                                                                       ***
            Apareceu o dia do grande sol e de festa.
Nasci no ano que os chineses dizem do escorpião. Nem há escorpião no horóscopo chinês? Duvido. Então, nasci mesmo foi no ano do porco, pronto.
            Naquele tempo, eu vejo fotos em preto e branco, eu tinha uns meus olhos de terra plana aeroplano por cima da paisagem verde e tenra. Aqueles tempos nem se cogitavam, meu! Eu subia em árvores. Eu colecionava pedras cristal catadas lá no terrão do aeródromo. Eu via a Caaxió irmã do Candiru passar de bicicleta e morria de imobilidades.
            E Caaxió cheia de penas bem macia flexível e das mais irisadas e desde os começos dos meus assuntos. Estava mais bonita que antes e em toda parte.
            Eu mesmo tinha até um IMC (índice de massa corporal) até exagerada e desnecessária. Eu queria contar os dinheiros do pé de molongó. Eu precisava correr muito muito. Eu queria saber os nomes de todas as estrelas do céu da bandeira do firmamento as estrelas se parecendo como irmãs mais de dez ou como filhas se repetindo ou mães ou etc.  
            - Corra corra... meu!
                                                                       ***
            Lembro do viaduto Obirici, bairro Passo-d’Areia, igual como um arco de flecha, capital Porto Alegre. A Obirici chegara ali e chorara. Como era uma vez. Um mundo de caponete, uns pios de pássaros de todo tipo, bem-te-vi-do-bico-largo, sabiá-laranja, mãe-da-taoca, tanatau, limpa-folha-coroado, ariramba... o vento que vinha do nordeste, borboletas variadas e ela mesma. Ela chegara ali e ficara se sentindo perdida. Olhava o nada em volta. Nem reconhecia nada. Nem ouvia nem sabia o próprio pensamento, que era fundo, que era só dela, que era nada. Muito perto dela, sem ela ver, uma flor verde, umas abelhas guarupus incansáveis, uns quero-queros expectantes expectadores.
            A índia Obirici se deitou no chão e olhando olhou o céu meio aguado das suas próprias nuvens baixas. Talvez fosse chover, desabar, ela nem pensou. Ela continuou um meio gemido de autocomiseração:
            - Mim, pi-pi-pi!...
            Inúmeras capivaras, uma grande família de capivaras pastava ali na beira da sanga. Pastavam e roncavam e olhavam com curiosidade a índia chorosa. Um casal de seriemas levantava a cabeça, escolhia qualquer coisa do chão, levantava a cabeça, caminhava muito atento, na cabeça uma crista um enfeite de penas.
            - Mim, pi-pi-pi!...
            A Obirici pensava no seu ex-namorado ou ex-pretendente a namorado. E deitava lágrimas de autopiedade. Grunhia com soluços longos arrastados. O riachinho corria, mais crescido, mais blu-blu-blu!...
            Um outro beija-flor-de-garganta-verde e olhar suspicaz veio farejar a flor verde. O colibri piou um pio, viiipe! viiipe!... simples e rápido de asas, veeee!... e até de logo mais, quem sabe.
            Obirici sentia muito. Chorou o dia todo que durou horas. E encheu aquele lugar de água e um rio correu para o Guaíba um riacho homônimo correu encher lá embaixo o encontro das águas. Inundando todo o lugar do rincão. Rio diferente feito de autobiografia. 
                                                                       ***
            Sonhei que jogava bola e nem conseguia chegar perto da bola e a bola nem me procurava e ninguém me passava a bola ou me dava bola. Eu, do outro lado do campo de jogo, livre livre, pedia a bola, erguia a mão e acenava. E a bola nem vinha. Eu estava livre, pedindo bola e ninguém se lembrava ou me olhava para passar a redonda. Eu podia fazer o gol. Eu podia driblar oito ou nove e fazer um gol de placa de letra de bicicleta de voleio.
            Eu estava sentado em frente de casa. Conversava comigo e olhava o pouco movimento da rua Itália, horas da manhã. A rua era quase parada. Eu nem olhava a rua com interesse e os gorjeios de canários-da-terra, pintassilgos, joões-de-barro... As mães e senhoras ouviam música com noticiário local e tocavam o almoço a roupa no tanque a vassoura na varanda os travesseiros na janela.
Mas daí um tempo passou o Tambaba. Ele levava uns caniços de pesca e linhas e outros apetrechos a tiracolo. Uma sacolinha maneira desenhada com motivos tipo os nordestinos paraíbas. Eu esperei ele se aproximar mais e então perguntei:
            - Nem me diga que vai pescar com essa lua?
            - Não, nem lhe digo nada. Tente adivinhar.
            O que se passava em Rio Branco aquela mesma horinha, em São Carlos, em Lençóis, em Serra da Saudade, em Central de Minas.
            - Bem, então, você vai pescar mesmo assim, com esse dia solto e tudo? Vai pescar com vontade de dormir na sombra da coajinguva, é?
            - É, eu vou e ninguém tem nada com isso, obrigado, me esquece, tchau, como vai a parentada?, fui!
            E lá se foi o Tambaba para a sua pescaria de terça-feira. Mas eu nem senti maiores interesses. Nunca gostei de pescar e ficar pescando. E achava que pescar era coisa para sujeito modesto e sem fé e sem time de futebol. Era programa de casado com numerosa prole em escadinha, etc. Eu tinha outras coisas mais importantes para imaginar. Mas àquela horinha nem pensava em nada, deixava para lá. Àquela horinha nem porque nada me vinha, ainda bem.
            A manhã estava tão calma que eu, pensei, podia ir pescar com o Tambaba, se quisesse, é. Mas àquela horinha era tarde. Nem ia também correr atrás. Se ele tivesse me convidado e insistido... Talvez aí eu aceitasse ou recusasse dependendo da minha intuição.
            Se eu fosse até o bar Coari jogar um carteado, bicar um martelo da branquinha ao butiá?, pensei. Era uma ou duas. Se eu fosse tirar a barba que me coça a cara? Era outra a terceira. Mas àquela horinha era cedo para tudo aquilo, é. Cedo ou tarde, dependendo.
            Achava diferente elegíveis os carros de passeio dos lados de São Lourenço da Mata comparando com os carros de passeio movidos a biodiesel dos lados de Chã de Alegria, pensava. Inclusive a primeira cidade tinha um rio Iguatemi e a segunda uma estação ferroviária de nome Pinto Bandeira. E de comum repartida a serra de Maracaju.
            Meio dia e tanto. Lá de sobra já vinha de volta o Tambaba e cedo. Nem devia ter ido muito longe com seus apetrechos de pesca para fingir que ia pescar. Parecia que trazia peixe muito jogado nas costas. Segurava uns doze peixes enormes com um gancho de arame. É, pescou mesmo, o sujeito modesto, pensei. Ele vinha vindo, chegava para passar na minha frente, passando, então, perguntei:
            - Hum... Então, com o quê, pescou, é, meu?!
            - Pois é. É isso aqui, olha só. Obrigado.
            Ele mostrou os peixes desarvorados. Eram seis peixes oito ou nove dos baitas jundiás. Pesavam, calculei de meio distante e a olho, vinte quilos cada um. Talvez vinte os dez. Eram escorregadios e brilhavam ao sol da tarde ainda quente. E interrompidos. E boquiabertos. E esbugalhados. Brilhando ao sol forte das 14h e pouco.
            - Quer ir lá em casa? Vamos lá fazer uma frita, meu?!
            Aceitei com a maior boa vontade de comer peixe frito. E comeríamos um peixe e beberíamos umas cervejas, eu pensei rápido. Eu ainda quis prevenir:
            - Você sabe lidar com os peixes, descamar, fritar, essas coisas, meu?!
            - Pô, meu! Deixa que eu me viro.
            Eu nem disse mais nada na hora, mas pensei: só espero comer um bom e bem preparado prato de peixe frito. Continuei pensando: só comerei se for bem temperado e bem fritado. Pensei ainda: se tiver um acompanhamento de polenta com folhas de alface já serve.
            Chegamos na casa da família do amigo Tambaba. A irmãzinha dele estava borboleteando por ali. Ela era uma sujeita baixinha, de peitos firmes e avantajados. E aquilo tudo, no caso, querendo saltar do tomara-que-caia. Nem me lembro quem namorava, parecia que nem. Uns treze anos ou quatorze ou quinze. Nunca fui bom de calcular a pessoa pela cara. Coxas grossas, short curto, apertadinho, valorizando a cavinha v. E ela, a Pititinga, queria e até se interessou muito em fritar os peixes e riu e rebolou e ergueu os braços para D ao mesmo tempo que falava mentindo:
            - Eu frito, então, que acham? Como junto e frito eu mesma, oquei?!
            O Tambaba nem gostou e ainda disse, torcendo o nariz:
            - Que nada. Com licença! Deixa que eu me viro, uma vez.
            E o mundo foi por muitos lados. O mundo nem era só ali e mais nada. Eu cuidei de esperar os peixes fritos e bem caprichados e até acompanhados de polenta com tenras folhas verdes. Eu cuidei também da irmãzinha do Tambaba. Cruzei os braços muito cômodo acomodado. Ela borboleteava por ali. E até que ela também ficava de olho em mim. Ela disfarçava e ficava me olhando com o rabo do olho, um olho em mim e outro nos peixes que iam de frigideira. Nem me lembro mais se namorava um cara lá de Nova Bassano ou Paraí.
            Ela, a Pititinga, meio que cantarolava, meio que olhava e ria das frituras de peixe do irmão, meio que me olhava de soslaio, meio que se apoiava na janela para mostrar ou apresentar a bundinha, meio que molhava os lábios com a ponta da língua e nem me olhava diretamente nos olhos, meio que me olhava de atravessado de través e ria sem mostrar todos os dentes. Não, ela nem ria, ela gorjeava como fazem as saíras-de-sete-cores. Menina que queria muito muito passear de moto por aí àquela hora, pensei. Que daria tudo para ir umas férias na praia de Balneário Pinhal, pensei.
            Tambaba esquentou a água e ela riu muito. Quase se afogou de tanto rir. Depois de voltar à tona, disse:
            - Mas por que ferver água, meu irmão?!
            - Ah, nem vem! Me esquece! Pode deixar que eu me viro, uta!
            A fritura continuou. Saía até um cheiro de alho difícil de olhar. As cervejas apareceram e desapareciam sistematicamente. A Pititinga rebolava, solfejava, dançava sozinha com música da FM de Carlos Barbosa, se oferecia e sacudia os peitos firmes mágicos. Muito peito para a idade, isso sim, pensei. Eu torcendo que o tomara-que-caia caísse desbarrancasse. Porém, ela nem se importava e parecia uma ave rara que podia dançar bem no alto dos galhos. E se fingia de menina aventureira dançante flutuante fatal pega em cima e põe embaixo.
            Pensei e nem disse nada: que a irmãzinha do Tambaba poderia ser minha amiga, ou minha noivinha, ou minha namorada, ou meu caso secreto. E por que a felicidade felicíssima olhava aquela sobremesa dando sopa e voltava de mãos abanando, hein?!
            Sentamos na mesa com vontade de cantar, eu meio bêbado, todos com esperança de um bom peixe frito com polenta e verdura colhida ali mesmo na horta atrás da casa. Nem sei se o peixe estava tão bom assim. Me esforcei para nem cair de bêbado e vomitar. Se caísse de bêbado, vomitando, então, seria um fiasco sem explicação sem precedentes. Bebi muito imaginei muito olhei muito experimentei pouco ou quase nada.
            Os catuquinaru se juntaram aos jacaré e mais os quiriri para impedir a hidroelétrica do rio Jangada porque dizem as línguas que ia fazer ia haver muita água e estragaria tudo.  
            Esfreguei cem vezes a perna direita, ou esquerda, na coxa lisinha da irmãzinha do Tambaba. Aí, escutei um grito que me ensurdeceu, já deste lado. Do lado do sol nascente. Era ela mesma que gritava ou zurrava ou berrava. Gritava por que queria e por causa da minha esfregadinha? E o grito era enorme, era ensurdecedor, era arrasa quarteirão, era uma bomba atômica feito cogumelo. Me arrepiei até por inteiro a medula. Ela, a Pititinga, irmãzinha do Tambaba, me ensurdeceu e continuou gritando. Meu pensamento inicial seja o que for e descendo a escada. E ela foi gritar para muitos dias de enjoo e o mundo por dentro e por fora da casa. Fiquei até com pena de desperdiçar a nossa amizade a minha com o meu amigo Tambaba.
            E se um avião jumbo tivesse caído ali mesmo na cozinha da casa da família do Tambaba nem causaria tanto estrago e auê. Foi mesmo.



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