terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 24




E o Rir Normal e o Pode Ser e o Trivial

            As fantasias... Eu sonhos nem diria. Eu diria as ideias de viagem que eu tinha. E como tinha partir! E tinha. E tenho.
            Meu tio Açu estava na calçada da rua Tuvira, em frente de casa, a casa lá dele, o nosso bairro São Cristóvão - que é tudo de bom - a par do parque da Jureia-Itatins. Estava mesmo, ali de bobeira, parado, esperando nem sei o quê. Esperando cair a mala do céu? Eu cruzei por ele, etc e tal, cumprimentando-o:
            - Ti-tio! A la putcha, tchê!
            - Buena, guri!
Até aqui eu sonhara, a partir daí eu fiquei pensando quando já acordado. O quarto ainda na sombra, o meu desassossego aos sabiás-laranjeiras, tuís, pipiras, corruíras, chupins, bem-te-vizinhos-de-asa-ferrugínea...
Meu tio Açu era aposentado. Minha tia Mandi era dona-de-casa aposentada e costurava pra fora. Minhas duas primas: a Bodoquena, a mais velha, loura, casada, dois filhos, uma menina e um menino. A outra prima era a Jiqui, loura também, separada, três filhos, duas meninas e um menino. Ambas as duas moravam de aluguel nem sei onde, uma no bairro Santa Cruz e outra a Jiqui em a cidade vizinha de Vila Flores.
            Conversávamos eu e tio. Havia um circo na vizinhança e meu tio parecia querer ir lá bisbilhotar. Ele me disse assim:
            - É, chegou o circo. Vem comigo, guri.
            Rodeamos o Grande Circo Piracanjuba bem no terreno desocupado de uma rua dos Tupinambá. Os animais eram diferentes e de outros planetas. Dois tigres de bengala: os dois na jaula imunda: um deitado e dormindo ou quase dormindo e a outra indo e vindo: esta parecia meio doida. Outra jaula sujesmunda: dois avestruzes: olhos grandes: olhares desamparados: caras de aloprados. Outra jaula encardida: um urso preto: balançava a cabeça como em badalo tremia o corpo todo parecendo um bêbado: todo lelé da cuca. Nas baias emporcalhadas os camelos, lhamas, cavalos, burros, pôneis, bodes, ovelhas... Numa corrente comprida arrastada enrolada num poste um macaco asiático com nariz diferente, esqueci a espécie. Nem, acho que nem era babuíno. Nem sei se era o mandril. Devia de ser uma espécie original tailandesa ou vietnamita ou laosiana ou cambojana ou mianmarense.  
            Meu tio esse gostava de contar piadas. Especialidades: piada de bêbado e piada de corno (melhor de bêbado corno ou corno bêbado): uma era mais pornô que a outra, dependendo do ambiente e do público. Mas era muito talentoso e ainda esforçado. Fazia toda sorte que contava piada e eu o achava especialista. Se aposentou trabalhando de gerente numa madeireira que faliu por falta de matéria-prima araucária que dizimaram na região toda começando lá desde o princípio início do século XX. Aquela horinha as serrarias estavam falindo por falta de madeira regulamentada. Nem perguntei se meu tio fora bem muito bem ótimo ou por um triz ou mais ou menos com tanta idade na madeireira serraria Bacupari dos irmãos Carapitaia. Talvez meu tio nem soubesse mesmo o que era sonhar com outra sorte. E foi levando até ali, nem é?! Levou levando a sorte que o levava. Deixou de fumar quando o médico o assustou com umas fotografias de pulmão escuro nublado malhado amarrotado. Tio Açu compreendeu que nem podia beber e fumar do mesmo jeito na mesma medida e proporção que fazia desde adolescente. Aí, parou de fumar. Beber ainda bebia seus vinhos durante as refeições seus martelinhos ali no boteco da esquina o Itariri propriedade do seu Tóni Sapopema. Dizia pra mim pros outros que o vinho era coisa do céu e fazia bem o médico até indicara recomendara liberara um copo de vinho em cada refeição.
            Minha tia Mandi natural de Ibimirim sempre fora uma pessoa de falar baixo porque nem era surda. Quando ria ela segurava o riso para nem se sacudir toda embora também nem fosse grande. Mas ela, apesar de boa gente, nem era engraçada. Passava se queixando, naqueles últimos tempos, de dores na coluna, dores de cabeça, cansaço, inchaço das pernas e pois bem continuava costurando pra fora. Nem queria pedir dinheiro ao marido para aquelas pequenas coisinhas, dizia. E o dinheiro andava raro e raso e difícil e arisco e desconfiado. Assistia televisão à noite novela bíblica depois da janta. Nem costurava à noite porque fazia mais mal pros olhos do que bem pro bolso.
            Bodoquena nem sei se estava amando ainda e vice-versa o mesmo bagaceira. Nem era muito íntimo para procurar saber das fofocas e nem queria ou nem precisava. Aquela prima em aquela altura - nunca se sabia até onde ia o amor ou a vontade de amar -, com o Tijuca. Eles tiveram dois filhos, o Pium e a Jericoacoara. Bodoquena vivia muito em casa, para as coisas da casa e do marido e dos filhos. Quase nem se divertia. Nem, nem se divertia, a nem ser com a tevê ou o maridozinho. Eu achava que a sorte poderia ser menos tediosa, se ela procurasse. Era toda para os filhos. Nem tinha sonhos próprios. Esperança de ir andando até os noventa anos. Então, faltavam mais quarenta e cinco.
            Já a outra prima, a Jiqui, se separara a pouco tempo e trocava constantemente a cor do cabelo. Um ano, um ano e dois meses, por aí. Estava descasada do Ubatuba. Os três filhos do casal já foram os sonhos dos sonhos: a Jatobá, a Araçagi e o Cáceres. Jiqui trabalhava no colégio Tiradentes nos dois períodos da manhã e da tarde. Era bibliotecária e nem tinha tempo de ler os livros que dizia interessantes e honestos. Fez faculdade de biblioteconomia em Caxias do Sul e tudo tal e qual quando ia lá três dias por semana durante oito anos. Legal, mesmo. Tempos atrás de onde eu lembro, era a mais alegre da família do meu tio, fazia perguntas engraçadas, dançava ouvindo o rádio, parecia ser muito ativada, era uma promessa incomum de sucesso raro na família talvez até uma menina prodígio. Quando eu era pequeno eu a seguia às matines do cinema. Muitas vezes. Era a minha prima favorita e doce e comprava sorvete seco pipoca puxa-puxa balas de castanha-do-pará... Depois o tempo falou mais alto, sabe como é. Jiqui nem pensava mais em casar. Queria conhecer outras terras e outros hemisférios e Peruíbe e o portal dimensional Pedra da Serpente e a praia de Caramborê e assim por diante. Nem sei se de vez em quando voltava e passava uma noite com o ex. Acho que sim. Que que tenho com isso! Aquela prima era mesmo muito desamparada cabeça de vento. Queria ser forte, mas nem podia sozinha. Três filhos nem era pra qualquer uma. E, me recordo agora, e ela era muito alegre e festiva na infância adolescência, brincava de balanço, adorava carnaval e saía fantasiada de pirata ou beduíno ou índio pariqui. Quando a revi tentava disfarçar os cabelos que já vinham brancos com cores engraçadas e até surpreendentes. Mas tinha um corpo em forma, seco, duro, pura madeira de lei, como guamirim, cambuim, peroba, jacarandá-da-bahia... O filho mais velho devia ter em torno de quinze anos àquela horinha. Eu apostava que se arrependera de ter tido tantos filhos. E também de ter casado com o Ubatuba. Os sonhos dela passaram a ser os dos filhos. Então, deixa eu perguntar, eu pergunto e o que conto com isso:
            O Tijuca, esposo de dona Bodoquena, era um cara meio quieto. Tinha uns anos a mais que ela e um metro e setenta e poucos. Nem terminara de crescer. Eu nem lembro onde a prima o arranjara, Itariri ou Itanhaém ilha de Queimada Grande onde vive a Jararaca-Ilhoa sei lá. Ou se foi ele que a descobriu. Um dia vi falar que iam casar. E de lá uns dois meses casaram. Fui na festa e me lembro e tudo era uma bagunça. Mas festa de casamento é festa esquisita e pronto. E o tal e qual Tijuca era o cara que comia e ia comendo muito a minha prima. Nem tinha nada com o caso, e nem nada que me interessasse. Mas também nem achei nada engraçado. Tijuca trabalhava com o velho dele, o seu Jirau. Marceneiros desde sempre e para todo o sempre e após todas as reencarnações. Dava para fazer um bom dinheiro no ritmo das formiguinhas. Tijuca seguiu o ofício do pai assim mesmo naturalmente. Tijuca, eu olhava o cara, e esse tipo era que comia a minha prima e ia comendo pintchando talvez quase todos os dias insistindo durante horas a fio. Mas vai aonde, meu?! E o queco?! Tijuca sempre trabalhou mais o pai dele. Brigaram várias vezes, mas nunca se separaram. Teve uma vez que quase, mas aí entraram os parentes, a mãe Manacaparu, e tudo se ajeitou. O velho queria entregar tudo de mão-beijada ao filho e se mandar vender tudo se mudar ou dar a parte dele e ir para outro lugar quem sabe pescar surubis no rio Guaraú morar noutro Estado quem sabe em Manhumirim ou Cerro Azul ou Tenente Portela... Mas foi só um momento repentino de insolação. Ainda bem.
            O Ubatuba trabalhava com o jogo do bicho. Era uma coisa muito incerta e ilegal na verdade. Às vezes os da doze caíam em cima, o que eu já acho certo - afinal qual que é do jogo de azar, né?! E o Ubatuba saía pela cidade, repartições, consultórios, bares, barbearias, padarias, cafés, principalmente nos botecos frequentados por desocupados esses os apostadores mais certos. Fazia, nem sei se faz ainda. Uma cara que nem mais o vejo por aí, por ali, por acolá. Um preguiçoso, na real. Minha prima já me dissera uma vez que Ubatuba era um frustrado. Eu perguntei frustrado de quê? E ela respondeu: frustrado de nem poder ter sido um grande jogador de futebol. Bem que ele tentou, jogou na escolinha do clube Bossoroca lá de Vacaria, jogou futsal aqui no próprio União, arriscou a sorte nas peneiras dos clubes mega da capital, depois os de Caxias do Sul, depois ainda os de Pelotas e Santa Maria. Mas, quando nem é pra ser nem acontece, fazer o quê. Quando D quer ele mesmo aponta o dedo e nem precisa que ninguém. Últimos anos deu pra beber e brigar com as pessoas por motivos de política, motivos fúteis, motivos aleatórios. O irmão dele o Mucujê fora deputado estadual pelo PDT na época da volta da democracia. Brigar sempre brigava, mas beber só nesses últimos tempos. Tinha mês numa birosca e outro na outra e depois na outra e assim por diante passou e repassou toda a cidade e todos os botecos e todos os desocupados já o conheciam de nome e apelidos. Uma vez ou outra ia até em casa, via os filhos, via a ex e dava uma, conforme, né e tal. Mas ele já enganava bem com uma tal moreninha chamada Curiúva. Quando porém nem se toleravam sob um mesmo teto, nem.
            Os filhos de Bodoquena e Tijuca eram crianças normais, aceitáveis, chatas, buliçosas, e graças aos céus, muito destruidoras, uns tsunamis por onde passavam e isso era saúde de corpo e espírito. O tempo faz quebra-cabeça na minha cuca, é a verdade. Pium, o primeiro, e por ser menino, era e era o mais mandão, o mais parecido com capeta com curupira com jurupari. A guriazinha, a Jericoacoara, muito bonitinha e fofinha e fingida, chorava por qualquer coisa e jogava o que tinha na mão. Assim de longe e já limpinha, de roupa limpa, perfumadinha, parecia gente muito boa e até promissora podia ser no futuro o que quisesse uma modelo uma atriz uma interprete da mpb. Pareciam até umas iaras ou sacis de conto de vovó, coisa bonita, preciosa, bonita mesmo. Pium já ia à escola e jogava bola com a camisa do clube mega da capital. Sabia tudo a respeito. Jericoacoara, um pouco menor, ainda nem ia ao colégio, frequentava uma creche e desenhava e pintava e armava. Já sabia ler, pintar, contar até uma certa altura. E sabia xingar quase como o irmão.
            Os rebentos de Jiqui e Ubatuba eram mais espalhados e mais confiantes. Pais separados sempre contribuem e bastante para piorar os filhos. Criança ou adolescente já era sempre dureza, já era coisa braba e mais pais separados, hein?, tá brincando, nem é! Então, tenho a dizer que Jatobá era muito pertencida. Novinha e cheia de frescuras e gritinhos. Tinha uma pose ensaiada, dura, como se tivesse engolido uma espada de metal. Quer dizer, nem sempre, que essas coisas só se faz quando se lembra. A Araçagi, que detestava e brigava quem a chamasse de araçá-do-campo!, um pouco mais crescidinha que a irmã, já tinha o seu ficante e era o Caoba. Namoravam só no colégio e olhe lá, que os pais dela nem toleravam tão cedo os beijinhos pra cá e pra lá. O Cáceres, mais velho, um dia pretendera cuidar e pajear as irmãs. Levou um fora, brigou mesmo um dia com a araçá-do-campo!, e nunca mais quis saber de nada. E dizia a plenos pulmões: que sumam da minha frente ou o quê! Mas Cáceres queria mesmo ser piloto de caça da força aérea a FAB. Parece que tinha um curso na base aérea de Canoas e ele queria voar e haja dinheiro. Vira certa vez um documentário e nem esqueceu e queria muito ser um piloto de caça só para dar banda pelaí e fazer barulho no céu. Namorava a Sucupira a doida a biruta (segundo a visão da Araçagi) se beijavam com chicletes e tudo na boca, no mínimo.
            Meu tio Açu, então tá!, era sempre a mesma figura. Igual igual até na frente das visitas:
            - E você, guri! Tá pintchando? Ó, hein?!
            - Positivo positivo!
            - Quando eu era da tua idade eu entregava leite e até fazia em troca, é.          
***
            O sol novamente se aprontou moderno e se esparramou desde o início dos nossos primeiros aniversários. As plantas começaram a pipocar, timboúva, uruá, jatobá-do-campo, baru, vinhático, barbatimão, embiri, coriana-branca... As aves e pássaros começaram a participar no espaço aéreo para outros lugares, jaó, sofrê, catirumbava, arara-de-barriga-amarela, papagaio-do-mangue, pica-pau-de-penacho... a gralha-azul grasnou riu fantasiosa... mesmo o tesourão símbolo do Pernambuco. O vento carregava esses ruídos todos.
            O que que é o sol, pessoal?!
            Uma beleza de luz o dia no meio as aves em silêncio de calor. Uma monotonia de mormaço. Nem abelhas nem arabés nem borboletas. Cigarras serrando a sombra no pé de velame.
            Depois o rio. O rio Piqueri caminhando dentro de si ensimesmado e todo ele comprido como a estrada como o rio. Os mosquitos-pólvora em enxame na praia bonita entardecer. As garças-brancas subindo os degraus secos dos ribeirinhos juqueris.
            Foi ali foi aqui que D iniciou...
            Assim de acordo com isso, a ave xenxém olhou e pensou árvores. Uma árvore conversava com congonhas, catiguás, angelicós, cutúbeas, tarumãs-tuíras, bicuíbas...
            Cunhantaim tupiniquim Juriti saiu cedo conforme e se despediu dos seus pessoais. Na tribo dos arara-do-aripuanã parou para comer tapioca com cobertura de formiga-quenquém.
            Alguém aí falou beiju ela ouviu atenta ela ouviu.
            Pronto, cruzou o rio Japurá, rio banzeiro, foi visitar os catauixi. Estes estavam em festa do milho o abati e rodavam em volta da fogueira dia e noite tocavam um tambor feito de tronco oco de tururi. Nem deu para dormir direito no espesso alto das folhagens da tabebuia.
            Amiga do vento gostava de cata-vento e asas abertas ao vento. E nem desperdiçava um evento. Amiga do vento e da manhã nova amiga do rio feita de perguntas dona da estrada dos ares amiga das árvores sócia do rio se despediu da tribo se despediu por hoje por enquanto pegou o espaço baixo entre nuvens brancas também passageiras.
            - A lua Jaci protetora dos vegetais.
            Ainda mais alguns meses e foi pousar no país dos ofaié-xavante. Chegou pelo ar na terra dos ofaié-xavante.
            - Aqui que tem escola de paraquedismo?
            Caiu do alto a chuva amanda cantante chuva comum do dia a dia. Os rios se encheram de soluços. A arapaçu-de-listras-brancas piou o normal, o caneleiro-cinzento silencioso. A uru-do-campo voou rasante, o caminheiro zumbiu balançou os galhos finos do araçá-pedra. E Juriti só queria conhecer a terra olhando de cima.
            A cunhataim Juriti mais dias menos dias alçou desceu a serra da Tormenta e encontrou aterrissou no campo dos guticraque. Os aruanás subindo a areia branca da enseada. O rio Grajaú quebrado de espelhos de vidrinhos estilhaços ao sol.
            - É aqui que inicia a parte da frente do sol?
            O tempo-oceano rola pedra, o rio-montanha rola pedras esmeraldas, o vento-árvore rola poeiras vermelhas das pedras brancas.
            - E é aqui que inicia a parte descendente da chuva?
            Num dia de chuva já se desfazendo numa semana que ela morava de grátis na oca dos xipaia. Comia amora-do-mato no café da manhã coisa para ninguém acreditar.
            Índia antiga dona Mara xipaia conversava de noite volta da fogueira alma anga solta olhos além anomati perdidos. Naquela noite contou o que já ouvira das avós. Apontou o dedo quá para o fogo e disse:
            - Olhem lá a cunhantã Chiú. Tinha esse nome porque chorava muito quando criança e deva muito trabalho para as avós. Era tão bela quando cunhantã, era tão bela que chegava a parar o sol e o sol vinha todo dia apenas para vê-la de perto. O sol vinha lá de fora todo dia chuva ou faça sol somente para admirá-la. E ficava parado no meio-dia todo dia mirando a beleza da cunhantã. Então, um belo dia, Chiú foi para o mato e nem nunca mais voltou nem nunca mais foi vista. Dizem que preferiu virar colibri imortal. Dizem que nem preferiu mais ser gente de decidiu virar beija-flor-de-fronte-violeta. Dizem que virou guanumbi de voos velozes e que podia pairar no ar igual cuitelinho. Bastava cunhantã Chiú tocar nas árvores para elas crescer rápido rapidíssimo.
            A Juriti tinha de piar e conversar e rir e perguntar qualquer coisa ser vivo ouvir coisas precisava mesmo.
E o rir inconfundível e o muito pessoal e o intransferível.
***
Se me calar, consinto; se me ausentar, perco a bolada: e pois assim justamente o quanto nem saberei de nada.
Se eu erro, aprendo; se as coisas me erram, desaprendo: e pois então sou uma sucessão de erratas nesta instância superior da era.
Estamos na superfície do céu e já no futuro efeito estufa do talvez quase quem sabe do modo subjuntivo.
E dá vontade de rir. E sei que isso de rir também sou eu é meu. Então nem rio nem lago nem oceano nem céu espelhado no mar.
Pronto, percebia. Graças aos santos ou às santas, percebia que - e já fazia uns meses, hein?!, e estávamos nesse mesmo barco - que a Enigmática escrevia com a canhota. E se achava. E eu tinha mesmo certeza que se comportava com isso. Escrevia com a esquerda enquanto o cabelo caía cascata para o lado assim cachoeira deslizando.
            Eu nem tinha consciência do que estava perto de mim, ou longe de mim, ainda mais distante, se existia jeito de futuro. Nem tinha consciência que o tempo nem passando passava.
            E assim por diante. No começo eram cataratas que viraram árvores. Que viraram macacos e papagaios. Depois vieram as pacas os quatis e os jabutis. Os peixes nem podiam faltar na mecânica do progresso. E assim por diante. Lá embora pelos fins dos 400 milhões de anos apareceram os humanos. O que o casal de h foi almoçar no restaurante do futuro. E assim por diante. Porque após os humanos já vieram as estrelas muito para lá de distantes. E assim por diante. E os homens se atiraram de joelhos nas escadarias de pedras rolaram no chão e adquiriram asas de tamanho a escolher. Os h sobrevoaram longas praças e visualizaram algumas cidades, São José de Piranhas, Serra Grande, Pitimbu, Campo Alegre de Lourdes, Adrianópolis... Os olhos os olhares os sorrisos complacentes. E assim por diante.      
            Meu lugar de ilusões, de miragens... e me perguntava:
            - Que estou e para que vou, hem?!, hem?!...
            E Enigmática, espantosamente para uma guria linda, era muito boa de notas. Gostava de todas as matérias, até onde se podia perceber, até onde eu podia alcançar. Concentrada, esperta, deveres de casa sempre em dia copiava tudo do quadro-negro. A melhor e a mais linda, só isso. Muito apreciada pela torcida uniformizada. Intocável, me parecia. E doce, me apetecia. A beleza tinha novidades, se modificava com as horas, a luz as luzes, com os dias, com o curso de inglês, com a noite, conforme o verão ou o inverno. Uma menina bela tem cores, tem luz própria, tem ímã, tem carisma, tem dedo de D. Tem mundo próprio e distante e enigmático.
            E o rir tratável e o confortavelmente condicionado e o disponível e o normal.
            Que tipo de cara Enigmática estaria procurando pensando? Seria eu, no caso? Isso muito me preocupava me abalava. Porque todo mundo procura e está à procura de alguém de algo do que pensar ou do que fazer, certo?! E ela procurava procurava, eu tinha certeza. Se é que já nem encontrara, né!
            Quanto pairar, voar, contornar, sobrevoar no céu de Enigmática? Tive uma esperança, perfeitamente, ora! Tinha uma esperança, e clara, ora!
            Esse labirinto todo, e então tá, foi antes do ano 86 durante o ano de 85.
            O sol tem o dever dos rios, os rios dos animais, os animais das plantas, as plantas dos ventos, os ventos dos homens, os homens da compra e venda e financia com os aviões barcos carros bicicletas. A paisagem toda ocupada.
            Esta árvore tem ego, esta cidade tem ego.
            A realidade tinha seus fatos ou suas dez provas obrigatórias provas de fogo rede de intrigas. O real, seu exercício diário e claro, era para a sorte toda. Fazia de conta que tolerava e ia em frente. Queria me ver cheio de recursos e esbanjar os poderes totais. Enfim, coisas que eu nem sabia definir direito.
                                                                       ***
            Na local e natural cidade de Nova Prata, ao primeiro dia do mês de novembro do ano de mil novecentos e oitenta e nove, centésimo nonagésimo quinto aniversário da independência e centésimo primeiro aniversário da república. E outras coisas que fiquei sabendo somente mais tarde.
            Eu, sempre eu mesmo, o meu primo Mbéru, sempre ele mesmo, focamos o boteco tia Guapira e entramos. Cheio de maloqueiros que pelo amor de D! Todos os maloqueiros da paróquia, da comarca, da freguesia e comportava mais. Todos os bagaços desta parte da cidade e reunidos no mesmo lugar e horas inúteis.
            O primo Mbéru chegou chegando e já foi cumprimentando o primeiro cara que achou pela proa, um cara ali todo faceiro e distraído, de costas para a porta. O cumprimento? Um tapa nas costas de doer até a alma do sapato. Assim mesmo, taaaaau!...  O cumprimentado, que eu nem conhecia, andou assim como que um pato-do-mato com faca nas costas. Depois ele parou, ficou sentindo muito, olhos revirados, se voltou para o dono do cumprimento, nem riu, fez careta, fez cicatriz na boca, esqueceu o trago que bebia, reconheceu o amigo da onça meu primo e nem disse nada na hora escorria do canto da boca uma gosma um fio verde-violeta de baba.
            Há como tem pessoal e como acontece gente no mundo que pergunta por que D inventou de projetar na face do planeta a barata a lesma o piolho o caranguejo a segunda-feira o senador brasileiro...
            O boteco era isso mesmo. Uma casinha de madeira na beira do asfalto da RS-470 hoje BR-470, uma varanda na frente, o banheiro, um salãozinho com lâmpadas fluorescentes, uma tevê no alto com campeonato nacional, quatro cinco mesinhas com cadeiras de plástico da cervejaria um balcão de fórmica azul e vitrine de pastéis sanduíches sonhos cartuchos de bolachas doces e salgadas atrás do balcão uma parede com abertura para uma cozinha onde se preparava o melhor mondongo da periferia. Gente de bando que vinha chegava de madrugada do baile tortos de trago comer o mondongo e queijo ralado com pão de padaria da tia Guapira.
            Governado o boteco pela própria dona e mais a Pacu duas senhoras de além 70 e aquém 90 uma ou duas gurias atendiam os fregueses nas mesas conforme o dia da semana dependendo do acaso além dos 40 e aquém dos 60. Esse o lugar entre dois postos de gasolina ali na boca da noite até as seis da matina beira da faixa e entrada estrada Pinheiro Machado para os distritos ou bairros do Gramadinho e do Gramado nem sei mais qual vem primeiro, etc.
            Todas as noites, para marcar presença, chegavam os brigadianos paramentados num carro verde, 2 ou 3 polícias, ninguém dava por eles, a babel babilônia continuava na mesma zoada chegavam, vinham até o balcão, cumprimentavam a tia Guapira e a Pacu com um aceno leve, tomavam um cafezinho por conta dez minutos mais cinco minutos iam embora.
            No salãozinho cheio e apinhado e mal cheiroso e relaxado e mal acostumado, um mundo de pelos-duros, dentes-secos, bocas-de-lobo, cabeças-de-porco, amarra-cachorros, casacas-de-ferro, bichos-de-sete-cabeças, a tevê passando futebol do regional, um e outro dormindo bêbado na cadeira com a cabeça no braço sobre a mesa, e bate-papo e bate-boca e assobios de bugio gargalhadas de bode grasnados de carancho risadas de cavalo guinchos de papagaio-charão gritos de curicaca pios de pato-mergulhão.
            Aí, no dia daquela mesma noite, o mesmo famigerado cara que havia sido cumprimentado pelo meu primo quando entramos, chegou por trás e na moita e largou um tapão nas costas do desinfeliz do meu primo Mbéru, taaaaauuu!... Eu mesmo senti o tapa e achei que fora mais forte que o do meu primo, muito mais forte, deu até para ouvir de longe que eu tava e foi mesmo um cumprimento de levantar a alma do sapato.
            Quando chega quando parte os aviões estremecem o bairro. De dia a pessoa param para olhar de noite acordam para escutar. Quando o avião está no chão quando está longe os cães continua a latir.
            Que fazer se o mundo é assim mesmo, hem?
            E meu primo deu oito ou nove passos para a frente cinco ou seis para o lado de lá olhos arregalados para o alto a língua de fora como do totó as costas como de um pato-bravo com faca nas costas. Acho que meu primo nem chorou de grande vontade que teve aí na hora agá de desistir sim de tudo e virar em nem sei o quê. Nem uivou por falta de fôlego. Nem tossiu por falta de memória. Nem desmaiou porque a multidão sem querer o amparou. Nem se urinou mesmo com toda a cerveja nos cornos por falta de nem sei mais o que diga. E meu primo ficou andando e andou mais de nove metros empurrado pra cá e pra lá assim mesmo como um marreco com faca nas costas. Se voltou, olhou o algoz, riu com um riso de aço, suspirou muito, sentindo muito, as cadeiras fracas imagino, um sorriso de gelo com limão e cachaça demorou mesmo dez minutos para falar as primeiras palavras de um pato-de-crista esfaqueado pelas costas:
            - Essa nem nem, meu!
            E continuava sem parar um barulho ambiente de conversas um mercado livre público de bebuns urros de anta grunhidos de porcos-do-mato berros de capincho chirriar de jacu ulular de lobo-guará grulhar de mãe-da-lua tevê no jogo que gol de quem e ninguém nem tava nem aí nem nada.
***
            Nem acredito nesses milênios e anos com números coincidentes e tais e quais. Quando quanto sei que o mundo precisa acabar e recomeçar nem sei. Agora comigo eu sei que o mundo começou num dia claro claro no meio da floresta depois da chuva com as árvores molhadas tocaris, camboatãs-da-serra, canudeiros, sete-cascas, sete-sangrias... rio Ribeira de Iguape passarinhos piando e voando em trigonometrias arriscadas os tais e quais chauás, surucuás-de-cauda-preta, arumarás, marrecas-pé-vermelho... e os serelepes sempre ativos saguis-de-duas-cores e os sorrateiros espertos mocós, etc.
Apontaram disseram elegeram a ele o cacique da tribo. Deixaram ele rodeado no círculo no meio do povo que o queriam como líder batiam nas suas costas chamavam-no de ru ou pai. Construíram uma oca melhor e mais espaçosa com abertura no teto para sair a fumaça. Aprovaram que tivesse mais de duas cunhãs quem sabe três ou quatro. E ele escolheu três cunhantãs lindas e um casal de papagaios-de-cara-branca como mascotes.
            Depois pediram que falasse ao pessoal o que ele sentia o que ele pretendia o que ele achasse e ele falou. No centro da ocara tinha uma centenária castanheira-do-maranhão. Ele disse que ia se recostar enquanto o povo voltaria ao trabalho do dia a dia. Recomendou que era bom pescar o suficiente para aquele dia e noite e que desse para toda a tribo se alimentar. E todos obedeceram sem um pio sem um olhar sem um gesto.
            As mulheres foram fazer potes de barro como sempre faziam. Foram na capoeira fazer coivara para abrir roça. Foram plantar milho. Foram colher mandioca. E cuidar da curuminzada. Os homens foram caçar no mato e preparar pari para peixes. E preparar arcos e flechas. E derrubar árvore para fazer ubá. A curuminzada foi subir em árvore nadar no rio procurar jiquitaia tanajura.
            Um dia se juntaram e foram até a montanha buscar mel. Lá também encontraram umas cascatas e umas piscinas. Dormiram ali passaram a noite olhando estrelas a lua e escutando o céu escuro. Pajé piaga contou história e outras histórias e que vinham já desde os ancestrais:
            - E aconteceu que as coisas sumiram no deserto, que do deserto voltaram todas as coisas já como estavam durante o dia e sem tirar nem pôr...
            - Quem passeia aqui somos a gente e de noite é a onça-parda o curupira de cabelão vermelho pitanga...
            - Tupã habita a terra viaja no sol respira no vento fala pelas águas e chuvas e cascatas e rios e mortos manus...
            - Quem mais corria era o sol... em seguida logo logo atrás vinha a lua...
            Daí por diante o cacique o pajé os velhos as velhas da tribo faranacaru passaram a nomear os astros em primeiro lugar os entes sobrenaturais os bichos do chão as árvores as aves os peixes os lugares de atração turística...
            Muitos dias se passaram. Os dias seguiam as noites e estas àqueles e assim por diante então parecia que havia ligação entre as coisas entre as coisas todas coisa com coisas. O sol a lua os planetas as estrelas tinham tudo a ver com tudo isso. O mundo se movia contínuo para nem parar mais.
            Quando conseguiam algum triunfo algum feito uma boa caça uma boa pesca festejavam o aruanã e dançavam em volta da fogueira a noite toda durante três dias e três noites.
            O povo o pessoal comia os bichos e as plantas e era obrigado a memorizá-los e imitá-los e sonhá-los e saber o que os bichos e as árvores queriam ou nem queriam.         
                                                                       ***
            Nuvens amazônicas trovejaram no teto neopratense e nem sobrou mais céu algum caiu toda a água de uma vez alagou veio de vendaval levou de enxurrada.
Depois, na altura da noite, choveu muito, choveu como sempre, choveu e ventou barbaridade fazendo os tais e quais assobios uivos zunidos. Choveu ainda mais e rajadas de vento a cento e vinte por hora atravessando abalroando obstáculos da geografia.
            Foi assim que nasceu Capoeiras, antigo nome da cidade. E um temporal em rebuliço em turbilhão dizem que derrubou tudo pela frente e só foi renascer e parar nos capoeirões.
Oitenta e sete casas destelhadas pelo bairro já no outro dia e árvores deitadas na rua mais outros destroços entulhos restos espalhados como em guerra firme.  
            Dia novo, dia claro, dia de ar compenetrado. E assim o azul era esplêndido. E as coisas quietas todas meio desarvoradas descabeladas desbragadas esperavam socorro e reparos.
            Os moradores se encontraram na rua todos se perguntaram era só uma a pergunta sem resposta pronta:
            - Que será que é essa lua, hem?
                                                                       ***
            Os imortais passados se empenharam muito e muitos anos na engorda dos diferentes animais existentes na natureza, cutias, jacarés-de-papo-amarelo, peixes diversos, tatus, seriemas, xem-xens... Os campos eram amplos e o pasto farto farto de capim-rei. Todo bicho se desenvolvia. As aves sempre planando sem velocidade olhando as cascatas contornando os pés-de-serra acompanhando o rastro do rio Açungui. E nem era mais possível inventar mais nada e outras e algumas coisas para colorir.
            Então, um dia todos os mortais h resolveram de-boa fazer uma festa, sacrificar os animais abundantes, comer carne à vontade e beber fermentado de milho e até cair. Uma festa grande, uma festa total, para comemorar a fartura de comida e bebida e que atravessava as coxilhas dos pampas.
            E os mortais h comeram as partes mais macias e apetitosas dos animais. A gordura e os ossos puseram fogo para dar fumo aos imortais passados e que já moravam nas nuvens.
            Uma tal mortal h ex-árvore araticum-folha-de-salgueiro voltou encarnou e já era sua sexta vez na terra. Agora foi viver pessoalmente em a cidade de Monte Horebe e que gostava de colecionar pedras enfeitava a casa com as mais diversas pedras encontradas. Amontoava dinheiro para nas férias do fim do ano viajar ao país do caldo de cana lá no continente dos dias sempre renovados e por vir. Todos os dias raiando o sol ou caindo a chuva saía de casa o apê do prédio Juri antes de chegar à rua entre o saguão e o portão se abraçava com a carnaubeira. Abraçava durante uns poucos minutos suficientes olhava para as folhas longas farfalhantes olhava o céu através dos galhos em arco e murmurava e sorria e então partia para o trampo e etc.    
            Os esses imortais passados, por terem sido enganados no churrasco com a pior parte dos animais, se revoltaram com os mortais h e prometeram e queriam e resolveram vingança e se vingar.
            Os imortais passados eram muitos e muito poderosos e mágicos e todos ficaram zangadíssimos e precipitados afobados atropelados com muita ira. Furiosos e violentos, os imortais passados cuspiram marimbondos e vespas e zangões, trescalando alhos pelos olhos, raios pelos bugalhos, chispas pelas órbitas. Os imortais passados só pensavam em fazer maldades contra a terra e seus habitantes mortais h, bobos mortais h, lerdos mortais h, inúteis mortais h, processadores de bosta mortais h.
            Os mortais h, percebendo que a coisa nem ia bem e podia piorar, pensaram então num bom sacrifício de animais para agradar aos imortais passados. Talvez animais inteiros e domésticos? Nem deu certo. Talvez crianças mortais h com efeitos especiais? Nem deu certo. Talvez meninas-moças mortais h bonitas singelas perfumadas tangalantes? Nem deu certo. Mas porém essa atitude já ia tarde e o caso nem podia mais ser revertido.
            Foi assim que na calada da noite, sem ruídos, sem grilos, sem pio de caburés, sem suspeitas, entraram no mundo muitas coisas graves e outras ainda mais horrorosas. Os ventos, antes calmos e ordeiros, viraram do avesso e sopraram com furor em todas as direções em redemoinho. As montanhas explodiram e despejaram lama e lava incandescente. Os terremotos racharam a terra e derrubaram as casas as árvores no passeio público e incitaram os tsunamis. O chão se abriu em dolinas afundamentos sumidouros cavernas. O dilúvio invadiu agricultura e matas e cidades e repartições públicas, inundou tudo, matando muitos animais domésticos animais selvagens derrubando árvores inutilizando construções e empobrecendo e diminuindo ainda mais os mortais h.
            E assim como veio a tempestade parou porque assim são as explicações.
            E quando tudo parecia perdido, foi que surgiu um imortal passado arrependido ou condoído. Com dó dos fracos e tolos mortais h. E esse imortal passado tapou as maiores cachoeiras do céu e acendeu o fogo brando e azul do sol.
            Cada mortal h se orientou movimentou pelo surgir renascer dirigir subir do sol. As terras do calor das palmeiras dos cipós das árvores tiraram frutas passaram a dar mais frutos pássaros sombras remédios das suas faculdades mentais.
            Assim mesmo, de lá para hoje, os mortais h vêm pisando em ovos os crus e as omeletes.
  

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