sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Alice Para Sempre (romance) Capítulo 14




            Uma cigarra anônima abria reticências de som no silêncio da tarde. Farrapos de nuvens brancas errantes pincelavam aqui e ali o azul do céu. O elefante verde nasceu na Índia e na África como todos podem comprovar. O vento procurou arrebanhar na linha do horizonte todos os pedacinhos de nuvens sem dono.
Com dois anos o paquiderme verde já era do tamanho da mãe, comia capim e folhas de árvores. E nadava no banhado acompanhado de parentes. Nos dias de festa comia cascas de melancias e abóboras e morangas. E saía já com visto de turista para ruminar no Brasil.
Elefante verde andou pelo Pantanal muito desamparado, bondoso, inconcluso. Aí teve muita canarana para mascar. Pesada e longa sua memória de saudades. E água boa para beber e barro preto para se espojar e troncos de árvores para se coçar. Bem mais quieto do que devia estar. Bondoso, quase quieto. E diziam, diziam que esse quadrúpede era um bicho meticuloso, minucioso, cauteloso e escrupuloso.
            O mamífero podia reclamar com trombadas e trompadas e horríssonos barritos. E elefantes verdes quase por pouco não existem. Mas para compensar, os elefantes têm ótima memória, todos se lembram de tudo, todos os tipos de elefantes têm boa memória. São ainda incríveis caminhantes, caminham toda a vida. E uma vez se querendo elogiar a memória se diz que a memória é de elefante.
            Alguém sempre poderá duvidar, mas os elefantes verdes mais famosos foram os que transportaram o ditoso, o iluminado, o sereno, o judicioso, o dileto, o encantado, o bondoso Siddharta Gautama Buda nas suas jornadas ao redor da laranja, pelo país do Meio. Sem falar os cem dias pelas montanhas escarpadas e nevadas da cerâmica milenar chinesa. Até mesmo os vales e as montanhas e os sopés de montanhas plantadas de cerejeiras do país do sol nascente.
            Já com dois anos e meio o elefante verde fora trabalhar na madeireira clandestina de um deputado federal, em pleno Mato Grosso do Sul divisa com Mato Grosso. Essa serraria se localizava numa região de boa mata de cerrado, e onde hoje há pastagens com nelores branquíssimos. E que por lá também passa o rio afinado de nome Guaporé ou Taquari ou Madeira ou Paraná e que nas épocas de inundação já se alarga inundando mil quilômetros. O elefante verde fora para lá trabalhar e trocar seu suor por três rações ao dia, sem férias ou domingos, sem namoradas ou futebol aos domingos. Ele trabalhava por seis ou sete burros de carga. Apolítico mais do que devia. Não se metia em confusões ou anarquismos, gritaiadas ou piquetes, panfletagens ou pichações.
            Elefante verde não tinha ideia se o amavam ou o odiavam, etecétera, se era bonito, se era forte e alto e pesado. Mesmo até porque os elefantes em geral não são de se abrir, nunca foram de rir, não sonham, não olham para o céu, não olham nem para os lados. E quando choram é de saudades. Com memória formidável, os elefantes vão longe, e juntos, em manada pesada.
            Então, o vento vinha dos cantos, o vento vinha do começo do mundo, cabelos ao vento para trás esticados e tal, parece ou não parece?, parecendo um cavalo alado e bufando, soprando, murmurando, navegando com as asas abertas e invisíveis sobre o rio, os rios, sobrevoando o rio Araguaia, subindo o rio Araguaia, tangendo, sacudindo árvores de nomes variados, bafando, carregando nuvens baixas, preparando chuvas torrenciais ou dias limpos de muito sol.
            Dia simples, vivo, aberto, preciso, eficiente, inédito, instigante. E o sol apareceu, subiu, rolou, subiu, rolou e chegou. As águas estavam calmas, apesar do vento. O mundo amanheceu, três de dezembro, e daí? E agora? A cada cidade a chance se renovava. De passagem para a cidade de Juti, Estado do Piauí, capital Vitória.
            Alice e o amigo esotérico estavam no pantanal matogrossense à procura de ervas e raízes e resinas e cascas que melhorassem, que curassem de vez, que rejuvenescessem, que prevenissem, que purificassem, que benzessem. E chás da terra para infusões especiais, garrafadas para curas milagrosas, pomadas cicatrizantes, óleos medicinais. E pajés que conhecessem plantas e rezas e luas e dias propícios. E piagas que lessem os voos dos urubus ou dos gaviões-de-penacho. Até porque existem pessoas que vão até o fim do mundo e até o fundo do poço para buscar o que acham que merecem.
Assim, Alice e seu esotérico amigo de plantão, se hospedaram num hotelzinho de Deodápolis para tomar fôlego da longa viagem, olhar a paisagem. E coisas necessárias no cenário eram as abelhas buscando mel nas flores pendentes e úmidas, numa disputa encantadora com colibris, besouros obesos e borboletas de cores salteadas e com antenas apontando na cabeça. E o vento na tarde carregando um coquetel de aromas. As flores amarelas não faltaram, não falaram, e usaram um perfume muito alto. Porque as coisas aconteciam, sim. Um arco-íris roxo, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta.
            Com olhos desafogados e um sorriso leve, cabelos sorrindo, Alice falou:
            - Eu amo e adoro árvores. O quê? Eu adoro e amo bichos. O quê?
            Ela mesma tomou o banho, secou os cabelos, vestiu a chinela de borracha de dedo, abriu a janela. Alice tinha necessidade de um café ou suco de cenoura. O hotel era pequeno e cheio de sol e poeira e tevê ligada. Lá fora vendedores de cartões-postais, vendedores de rádios portáteis, de óculos escuros, de bonés de times de futebol, vendedores de cocares de penas de guará em extinção, vendedores de água mineral com gás, de gibis, de canetas multicores, de pentes pequenos de plástico, de chapéus de palha, vendedoras de talismãs.
E a viagem que Alice ganhou bem foi aquela lá que fez a Porto Velho, Rondônia.
            - Será que vou para Araçuaí? Devo ir até Santa Cruz do Sul? Nunca irei a Rio Branco? Preciso ir a Macapá? Quantos dias existem sobre Caçapava do Sul ou Ametista do Sul? Conhecerei Aquiraz? E o parque estadual do Turvo?
            - Rá! Acho que sim, tenho muita esperança.
            Alice tomou suco disso e daquilo. Desde que nascera tomava suco de abacaxi. Todo o mundo queria ser Alice. Alice e todo o mundo. Alice queria ser todo o mundo. Ninguém pode ser tudo e todos. Abacaxi e macela e urucum e gravatá e caruru são produtos naturais muito bons e úteis. Alice bebeu suco de caju e olhou o dia entrando pela janela.
            - A luz desta parte do mundo, cintilante e resplandecente.
            Um dia, ao certo, de repente, uma manhã festiva, Alice e o esotérico caminhavam aí conhecendo e olhando, quando se formou aquele atropelo. Um elefante verde arrombou pela boca da ruazinha. Veio forte e pesado e doido e assustado e derrotando e esbulhado e sacudindo tudo a sua passagem. A terra tremeu, as árvores se abraçaram, as pedras se assustaram, as pedras pararam de crescer, as pedras arrepiaram o pelo. E o ruminante extraviou cercas, gabiotos e palhoças, galinheiros e chiqueiros, entrou pelas ruelas da cidadezinha detonando barracas de vendedores ambulantes, acionando a polícia e os vira-latas. Subiu a escadaria da igreja, desceu a escadaria da igreja e se jogou com sobras de arrojo no rio, dando a impressão quem sabe de querer se afogar. E nadou nadou... O povo em pé desse lado olhando tudo. O elefante verde nadou rumo à outra margem. Não parecia ter tanta prática assim de natação. Então, numa altura do rio, dando a entender que cansava, retornou, deu volta numa ilha verde, voltou, saiu da água cabisbaixo, tromba arrastando no chão, cara mesmo de envergonhado, não falou nada, pingando água, talvez chorasse, entupigaitado, o povo em pé admirando. Para consolo lhe ofereceram espigas de milho verde, folhas de alface graúdas, cascas de abóbora paulista, melancias de coração vermelho, laranjas com casca, cenouras doces. Ninguém riu porque a provocação era temerária. E nada mais, porque a cidade era modesta, cidade sem jornais ou emissoras de rádio. O elefante verde ainda desfilou sem querer quase no meio do constrangimento. Cidade de Terenos com pessoas em pé e olhando e com vontade de rir, e acabaram rindo, mas somente pelas costas, quando o elefante verde dobrou a esquina.
            O vento zuniu. Pela noite toda a chuva e o vento continuaram. As pessoas pensam no que lhes aconteceu, poderia acontecer, ou jamais acontecerá. Alice pensou: viagem ganha foi mesmo a que fiz a Maceió, Alagoas.
            Esotérico e Alice se preocuparam menos com o elefante verde. O que poderia haver de mais num elefante verde desembestado? Talvez por ser um animal exótico mereceu toda essa assistência do povo. Se fosse jacaré-de-papo-amarelo ou vaca roceira ou cavalo manga-larga ou cavalo quarto-de-milha nem seria percebido. Na Índia, por bem menos, elefantes verdes são tão comuns na rua, estacionam na calçada, esperam seus tratadores na sombra das árvores da praça. E vacas também, que entram em lojas para fazer compras, caminham no trânsito, pedem esmolas nos semáforos. O que lá mesmo seria exótico só se fosse uma anta, um tamanduá-bandeira, um bicho-preguiça, um lobo-guará, um calango-verde, um cágado, um beija-flor-de-garganta-verde.
            Alice se olhou no espelho. E não se viu. Se olhou outras vezes. Insistiu. E sempre Alice e a Alice. Alice, a Maria. Alice estava atrapalhada. Alice, a Ana Paula. Os seios ainda bons. Alice, a loura. Alice, a bonita. Alice, uma duas três... Olhou o céu chovendo e sorriu.
            Para saber do povo, para se acostumar com o povo e o lugar de Tacuru, Alice e o esotérico circulavam muito, pesquisavam tudo, repassavam várias vezes pelos mesmos cantos até gravar imagens na mente. E cumprimentavam os reconhecidos. E havia uma ponte sobre um córrego. Ali mesmo Alice e o esotérico cruzavam quatro ou seis vezes ao dia. Cidadezinha com mania de domesticar jacarés.
Sentado na mureta da ponte, sem falhar um dia, todo pedinte, calmo, restava um senhor de barba hirsuta. O tal senhor sorria quando recebia algo, e que raras vezes chegava a ser dinheiro, mas podia realmente ser um botão de vestuário, um cordão de sapato, um prego enferrujado, um seixo rolado e quieto, caderno escolar preenchido, maço de cigarros vazio e amassado, cigarro solto, pedaço de barbante, palito de dente, um cartão-postal da ponte Porto de Alencastro.
O velhinho ficava ali talvez o dia cheio, e vez ou outra tocando uma flauta de taquara, com ou sem chapéu pantaneiro na cabeça. O velhinho esse tal não aparecia nos dias chuvosos. Era mal-humorado nos sábados e domingos, pela manhã. Ao anoitecer chegava um menino para resgatá-lo. Pois o velho mameluco já era quase cego, a se apoiar numa bengala, segurando o braço do menino, sumindo depois para o labirinto da vila, sem pressa.
            - Rá! Alice, você também já percebeu que as pessoas falam, riem, cochicham e cantam. Olhe os que cantam aqui nessa cidade de Ponta Porã. Cantam em festas de santo, em festas de aniversário ou quando o time ganha. Assobiam uma canção durante uma tarefa e outra. Assobiam e cantam com o rádio preso à cintura. Cantam grandes e pequenos; cantam fêmeas e mascotes. Cantam sem dúvida mais pelo fim da tarde. Cantam nas janelas esperando o namorado. Cantam nos bares numa só voz. Cantam bem cedinho nas manhãs. Cantam nas serenatas como num resgate nostálgico dos tempos. Então, se juntarmos o número dos cantadores, todos os que cantam, faríamos apenas uma pequena fração desta cidade. Uma porcentagem tipo pouco por cento, e olhe lá, do Estado. Um nadinha de nada desse vasto país.
            - A única igreja que possuem, aqui em Sidrolândia, branca e pequena no alto do morro, tem um sino que chegou ao Brasil durante a colônia, porto de Santos, lombo de burros, serra acima, planalto adentro, florestas, pântanos, etecétera, rios abaixo, rios acima, índios makuxi flechando, quilombolas assaltando, noites e mosquitos. Um sino precioso que bate toca dobra soa badala bimbalha repica plange tange ressoa, avisando os fiéis dos acontecimentos, dando as horas. Principalmente os fiéis gostam dos sábados à noite e domingos pela manhã. A igreja lota, a nave entope. Chegam fiéis de moto, de ônibus, na carroceria de caminhonetes e caminhões, nos barquinhos de pesca. Quantos fiéis? Quantos crentes? O que, no entanto, comparando com o número de habitantes da cidade, resulta numa tímida minoria. Um nada diante do país. Um bom zero à esquerda frente ao mundo.
            O caso era que o casal estava receptivo ao achamento de um guru ou um xamã ou um piauí ou ainda um mágico. Assim, então, descobriram que aquele velho índio panati, ali sentado na calçada da lotérica, poderia ser esse sábio, seria esse uirapuru raro. Até porque também queriam crer que o destino se assume, ou ora se camufla, ora engana e etecétera. Mas um dia o destino se apresenta, o destino se atravessa no caminho, o destino passa encilhado e nada melhor e mais importante, e típico, que aquele senhor que via tudo, apesar de cego, ou quase cego. Mas que ouvia tudo, cheirava tudo, vivera um muito, conhecia cidades como São Gabriel do Oeste, Selvíria, Itaquiraí, Chapadão do Sul, por exemplo, e de olhos fechados.
            - Rá! Agora, uma coisa precisamos pensar. Seguinte. Como compreendê-lo? Como falar na língua lá dele? Como ter a sorte de achá-lo num bom dia, ou seja, bem-humorado, sóbrio, acordado, falante, inspirado?
            Alice se achou na janela do hotelzinho reparando no teatro que a cidade baixota de Rio Verde de Mato Grosso fazia por merecer. Cenário de produção apressada e pobre e independente. Entrada de campo e lavoura ou de parque de preservação ambiental. E de repente um sorriso de fração no canto da boca. De repente Alice reconheceu, viu mesmo perdido no cenário, aquele elefante verde suando lá na serraria, arrastando toras e tábuas. Ainda reparou que o bicho mancava da perna de trás, a esquerda, o que podia ser o resultado da aventura no rio. Concluiu assim Alice.
            O bom casal saiu com a ideia de ir até o guru ou pajé. E foram no rastro dessa intenção, e chegaram perto, observaram por meia hora contadinha no relógio. Depois, se sentaram do lado, o guru recebia o que os transeuntes deixavam, como escova de dentes usada, um pé de sandália de couro, um pente quebrado em alguns dentes, dez centavos de real furado, um prego torto, uma chave de cadeado perdida, uma maçã passada de madura, duas bananas nanicas e bacanas, troféu do CTG São Félix do Araguaia, uma fitinha verde do senhor do Bonfim, cartão-postal da ponte do Guaíba.
            - Como se conversa com um sábio? Você sabe?
            - Rá! Acho e creio que os sábios não gostam de pessoas, gentes e humanos. Os sábios são geralmente quietos. Se amarram num bichinho de estimação, um bichinho que os segue e os acompanha, e pronto.
            Alguns turistas em volta do ex-cacique, ou ex-pajé. Não estavam todos sentados, não estavam todos nada quietos, não estavam todos de olhos fechados ou cerrados, não estavam de olhos parados. Viagem de Alice que fez foi mesmo a Santa Bárbara de Goiás, Goiás.
            O dia foi subindo e enrolando algumas nuvens brancas lá para o oeste do Estado. O vento soprava do leste sem impedimentos. O sol se escondia pouco a pouco. Um bando, e que bando!, de araras-de-barriga-amarela. Começou a chover.
            Parou de chover. O vento continuou derrubando folhas, varrendo folhas, amontoando folhas secas de embaúba, muirajuba, cutiúba...
            Alice e o esotérico estavam tímidos ou assustados, esperando o quê. Afinal tentaram falar, mas o sábio não compreendia a língua, uta! Buscaram um interprete. O velho ex-rekakê era muito antigo, nunca aprendera a língua de branco, e nem queria.
            - Tudo isso? Como? Quando? Por quê?
            - Rá! Chegamos de longe longe. Dizem que o senhor conheceu o tal Plácido de Castro. E subiu e desceu a selva com Rondon. E conviveu vários dias, contou várias histórias ao seu José de Alencar.
            O sábio pajé, o esclarecido pajé, ergueu o rosto, esfregou as mãos e, filtrado pelo interprete, falou tranquilamente:
            - Que que são ondas do mar? Como misturaram navios e baleias? Que custa um radinho com fones de ouvidos? Que custa um celular com musiquinha sertaneja de raiz? Quando vou assinar o livro de aço dos heróis nacionais?
            O elefante verde já não mancava mais do casco maltratado. Mas a memória marcara, a memória imprimira. Não apreciava a ração de gado que lhe davam - era dose para sucuri. E justamente em dias de chuva ele sentia o cheiro do verde e o gosto do bom e suculento pasto verde, folhas, flores, frutos e frutas. Um cheiro que chegava do rastro da memória, lá da sua terra natal, lá do vale do Hindo ou do deserto do Kalahari. Lembrava de tudo como se fosse ontem, comia flores amarelas do campo, brotos de bambu, tomava banho no rio, banho de lama, banho de poeira, banho da chuva de verão, banho de folga, banho de rolar na duna, tirava força nas lutas com os primos da sua idade, chamava pela mãe quando tinha pesadelos ou ameaça de tempestade, etecétera. E agora, com o emprego que lhe arrumaram, imigrante que errou e deu um mau passo, hoje em dia mal e mal levava um banho de mangueira, com água e sabão quando lá uma vez por semana. Noites altas ficava olhando os vaga-lumes, ouvindo os sapos coaxarem, ouvindo os grilos, ouvindo as corujas, pressentindo os morcegos atrás das orelhas, pegava no sono depois das duas. E havia outras coisas que não era bom lembrar, que era bom lembrar, e que lembrava, e que sacudia a cabeça para não lembrar.
            Alice, da janela, olhava o elefante verde barritando sob o luar, sob o olhar das estrelas, sob o olhar de Júpiter. Céu comprido, largo e profundo. Elefante verde que dava uns passos para cá e outros para lá nos limites do cercado, voltava para a coberta, deitava no sapê. O luar derramava leite na atmosfera clareando a cidade baixota de Ribas do Rio Pardo. O elefante verde ou pardo não sonhava com o futuro. O elefante verde tinha, isso sim, uma memória prodigiosa, que o fazia recordar e reviver os antigos dias com os parentes. Alice suspirou:
            - Deus fez o mundo, depois andou de tamancos no barro, deixou pegadas pré-históricas e inscrições rupestres pré-históricas.
            - Rá! Não desprezou o mais raro pormenor.
            Outro dia, cruzando a pracinha, não viram o sábio pajé ou o velho cacique anambé, o xamã. O dia estava chove-não-molha, pintura inconclusa, então, andaram pela cidade, entraram em lojinhas, nos mercadinhos, em feiras livres, nos bazares, nos bricabraques, pelas ruas transversais, becos, pracinhas. E na volta se alegraram com o céu interessante, com o ocaso. Reencontraram o velho cacique, e o presentearam com uma calça azul desbotada, um radinho com fone de ouvido, chapéu de sol, um lenço vermelho de pescoço, calendário do ano anterior, cartão-postal da ponte Rio Branco. E lhe perguntaram sobre os deuses e os espíritos e outras coisas finas, assim:
            - Qual o vivente que mais anda viajando e por quê, pajé?
            O velho pajé, o curandeiro, esperou um pouco, ergueu os olhos para as nuvens perdidas no céu - às vezes resolvia aparecer com periquito no ombro, outras vezes com cobra trançada ao longo do braço, ainda com um sagui seguro por uma coleira -, um meio minuto pensou por pura preguiça, voltou a olhar mal e mal para as figuras que o interrogavam e disse:
            - É o elefante verde. É a anta verde gigante. Mais quietos, muito mais quietos do que deveriam estar.
            Na terça-feira, Alice e o esotérico, mais um punhado de outros turistas, guiados por pantaneiros experientes da região, foram visitar os jacarés-de-coroa, as capivaras, as antas, as pacas... os ninhais de socós, cabeças-secas, tuiuiús, garças-brancas, seriemas... à beira dos banhados e rios e lagoas e lagos e corixos.
Ficaram fora até o final da semana, acampados no mato, surdos de tanto ouvir o piar, o grasnar, o clarinar, o trilar, o zumbir, o gorjear, o cricrilar, o coaxar... Com sorte poderiam ouvir o ronco da onça jaguar, da jaguatirica, do gato-do-mato-grande, da jaguaretê, da jaguarana-pixuna... Caminhos e caminhadas, veredas, passeios de chalana, cavalo tubiano vermelho, fotos, muitas e tantas coisas, mosquitos, burra-leiteira, pintados, capivaras, araras-azuis-grandes, aldeia baenã, nelores, tucanos-do-bico-laranjado, bem-te-vis-do-gado, jaburus, mangas-largas, quero-queros, piranhas, quixabeira, mosquitos, manduruvás e mutucas. Principalmente à noite, muitos pernilongos, muitos e todo tipo de mosquitos, borrachudos, mosquitos aos milhões, ferozes, enormes, trombeteiros, duros de enxotar, sempre presentes, muitos mosquitos, quase que só havia mosquitos. E mosquitos deixam pessoas e coisas sem sono, mal-humoradas o dia todo, e as noites sem dormir. No jantar, em roda do fogo, dentro da noite, no meio do banhado, por dentro do coaxar dos sapos-martelo:
            - Tudo bem, é o maior banhado do planeta. Chapadas, serras, maciços, morros e principalmente alagados, baías, lagoas e rios. As águas vêm e vão, sobem e descem. Aqui chove muito em determinada época do ano.
- Rá! É o causo de nunca faltar peixe, nunca faltar rios. Mas nunca falta, nunca faltou, nunca faltará. Não faltarão mosquitos, também.
            Os jacarés estavam por toda parte, se postavam na praia ou no lajeado ou camuflados nos aguapés ou entre os gravatás, à boa distância da curiosidade dos turistas, dormindo na correnteza aguardando os peixes que vinham descendo inocentes, papo aberto só esperando. E dos ninhais á beira-rio vinham algazarras em vários idiomas e cores, todo tipo de pios, xingos, berros, risos, gargalhadas que atravessavam o dia, atravessavam a noite, algazarras ensurdecedoras atravessavam o verão todo. Turistas alemães e portugueses e finlandeses e turcos tiravam fotos de jacarés apoquentados, gordos, papudos, embalsamados, sonolentos, fingidos. A paisagem sofria com as velhas e baixas e nervosas árvores folclóricas ou típicas do cerrado. Nos rasos dos rios, turmas e turmas de piranhas buscavam o café da manhã, buscavam o almoço e o jantar. Não adiantava só olhar, necessário era tirar fotos para reter o milagre do jaburu pousando no angico, e outras aves, ou do gavião-carijó perseguido pelas tesoureiras. Mas nas noites o que valia, e muito acontecia e não escapava outro jeito, eram os ataques multiplicados dos mosquitos. Terra dos mosquitos. Mosquitos e o fim da picada.
            Viagem muito proveitosa, e boa em vários segmentos de interesse, em vários idiomas, foi aquela feita uma vez que fez Alice à cidade de Rio Acima, Minas Gerais.
            Aí, então, assim, Alice e esotérico partiram no jornal da manhã do dia seguinte um domingo. Foram de ônibus até o próximo município de Porto Murtinho, mesmo pantanal e Estado da federação. E nada do cenário mudar nas ruas, nas casas e prédios, na cidade baixota, nas ruas de motos e bicicletas e cavalos baios ou zainos. O povo com seu destino anfíbio, casas de calças arregaçadas ou saias levantadas até as coxas e canoa no quintal e jacaré no banhado e jaburu empoleirado e zebu comendo pasto atrás do arame farpado.
            Numa cidade Mundo Novo, sem milagres, numa cidade de Naviraí, que parecia uma aldeia nova, o casal arrumou por sorte um hotelzinho com cara de pensão de boiadeiros, pouso de mochileiros, parada de caminhoneiros, Alice:
            - Existem feiticeiros e feiticeiras, bruxos e bruxas por acá?
            A dona da pensão respondeu, contando:
            - Um santo andarilho, talvez velho índio paraúna - chamavam-no de O Peregrino -, passava de cidade em cidadezinha. E chegou num lugar naquele justo dia, lugar chamado Nova Andradina. Veio de onde menos se espera, de onde não se sabe e não importa. Os passarinhos assobiavam nas guararemas, que-te-guê! que-te-guê! ou ti-ro-li ro-li! ti-ro-li ro-li! ainda, ri-qui-ti-ti! ri-qui-ti-ti!...
“O Peregrino, vou lhes contando, tinha a missão de ensinar ao povo uma tradição. Então, ali, foi ensinando a fazer canoinhas e bonecos de pano nas cores escarlate, roxa, lilás e com enchimentos de algodão. Alguns poucos dias os bonecos e as canoinhas ficaram prontos. Uma turma de caboclos remou rio Cuiabá acima para largar as canoinhas de brinquedo. Noite de lua perfeita. Os homens subiram o rio em três quilômetros, mais ou menos. Lá em cima, então, os caboclos soltaram as canoas de brinquedo, cada uma pilotada por um boneco, vela acesa. As canoinhas de brinquedo desceram mais devagar a correnteza. Toda a cidade esperou na beira da praia. Noite de lua e estrelas. Horas depois, as canoinhas largadas lá no alto Cuiabá, soltas e sozinhas e iluminadas e sem pressa, já cruzavam pela frente da cidadezinha. As canoinhas, os bonecos nas canoinhas, cada boneco com uma vela acesa, desciam ao sabor da correnteza. Era maravilhoso só olhar. E a cidade viu e festejou aquela passagem dos barquinhos. A cidade toda enfeitada de flores, enfeitada de músicas, enfeitada de toda gente alegre, enfeitada de fogos, enfeitada de turistas, enfeitada de auês!, enfeitada de bailes, enfeitada de atabaques, enfeitada de desfiles de carnaval, enfeitada de cervejas e espetinhos de carne assada na brasa ali mesmo na calçada da rua. A procissão silenciosa dos bonecos de pano em canoinhas cruzou pela cara da empolgada cidade. Sozinhas e acesas, as canoinhas foram passando, indo, indo até desaparecer, acompanhando o rio lá pra baixo. As pessoas olharam até que puderam, até cansar a vista, até não ver mais nada. As canoinhas sumiram rio abaixo. As pessoas comentaram. A manhãzinha veio. As pessoas voltaram para as suas casas. Ficaram as flores enfeitando os lugares, até que murcharam e apodreceram. Mas, ano seguinte, então, o povo da cidadezinha já sabia. Ninguém mais precisava explicar ou ensinar. Manteriam a festa. O Peregrino, mala e cuia, pegou outra estrada e seguiu para outra cidade, que tal a cidade de Água Boa?, etecétera. E seguia de cidade em cidadezinha, não sossegava, sua missão talvez fosse caminhar eternamente e ensinar a tradição dos bonecos canoeiros.”
            Alice exercitava tai chi chuan na laje do hotelzinho, pensão com feitio de pousada miserável ou quebrada. Viagem também muito boa foi aquela outra a Olindina, Bahia. Abriu os olhos com o canto ou assobio de um passarinho. Era passarinho ou estaria redondamente enganada?
Alice espertou, olhou em volta, desceu da laje até o pátio atrás do prédio, olhou para todos os lados, o canto insistia. O canto vinha de dentro das árvores? Hum!, não se sabia. Parecia mesmo que vinha de um sonho ou de um mistério. Talvez do meio das ervas rasteiras, das ervas daninhas? Das nuvens ligeiras? Talvez de um sonho? De um espírito perdido? De um aquário? O vento sacudia as árvores copadas, as sombras caíam desequilibradas entre as folhas desequilibradas, etecétera. Alice investigava pé ante pé, e árvore por árvore. O canto suave hipnotizava, estava difícil, estava aqui, ali. Que encanto era aquele? Uma fantasia da infância? Quem cantava? Seria um ser invisível? Seria um jabuti? Um peixinho mergulhado no aquário? Talvez uma cigarra ou um grilo ou um gafanhoto ou louva-a-deus. Já demorava. Parecia vir do alto, ou do chão, da cabeça de quem ouvia, hum!... ainda não. Alice continuou a investigar, mas nada de sinal, nada de passarinho, nada de inseto, o canto ou assobio não calava, estava quente ou estava frio, assim ali, atrás do largo cajueiro, opa!, o canto parou. Alice se deparou descobrindo surpresa o elefante verde.
            - É você que vem cantando esse canto encantador? Pelo canto se conhece a ave.
            O canto silenciado, o pio silenciado, não seria possível fosse o elefante verde, quem sabe tenha sido tudo a ilusão, foi mesmo um canto ou um assobio ou um gorjeio? O elefante verde não falou. Não falaria.
            Tudo corria como era de se esperar. Tudo não corria como não era de se esperar. Tudo corria como não era de se esperar. Tudo não corria como era de se esperar.
            Sol bonito, águas bonitas, céu bonito, vento bonito, barlavento, Alice bonita. Viagem ganha mesmo assim, muito tempo antes ou depois, foi aquela que fez a Muaná, Pará.
            E era isso, o elefante verde olhou Alice e não disse nada, nem quase parou o que estava fazendo, não fazia nada de original, talvez descansasse ali na sombra aproveitando a sombra e umas ervas verdes, mastigando pasto verde, o canto silenciado, o assobio silenciado, Alice se dirigiu ao elefante verde:
            - Onde aprendeu essa arte de encantamento?
            Alice se virou para ir, então foi, e o canto recomeçou, o assobio reiniciou, Alice parou estátua, girou devagarzinho nos calcanhares para olhar o elefante verde, e o olhou, o canto novamente silenciado, o elefante verde mastigando de boca cheia, Alice pensou um pouco, contou até dez, seria o elefante verde um ventríloquo? Se fosse, ela deveria lhe dar os parabéns.
            - Se me distraio, o canto recomeça; se olho, o canto cessa.
            Talvez o elefante verde estivesse brincando, o dia realmente estava muito bonito, impossível, cintilante, seria sonho?, era verdade? Porque as coisas acontecem, sim.
            Alice encarou o elefante verde e este lhe devolveu. Alice olhou os olhos castanhos do paquiderme, olhos de mel, olhos doces, olhos como cor de areia de beira de rio, olhos castanhos... talvez verdes, impossível ter certeza. Alice fingiu se virar, deu uns passos, pronto!, o canto recomeçou. Rápida como um raio, então, como um raio doce, Alice se voltou, pronto!, o canto silenciado. E não deu tempo para perceber se fora o elefante verde ou um coleirinha esperto ali por perto entre enfiado no paratudal.
            O casal circulava pela cidade de Miranda, conhecendo a nova cidadezinha, a aldeola dos índios caiapó-mecranoti, era o mesmo pessoal anfíbio das cidades anteriores, as mesmas coisas à venda e por fazer, o casario baixote, as mesmas caras, na pracinha uns poucos canteiros e o busto de um bandeirante - ou o que for - de arcabuz nas mãos, chapéu de vaqueiro pantaneiro, botas grandes. E sentado no degrau da capela... era isso mesmo?, um velho pajé esperando turistas, veranistas. O xamã velhinho agradecia batendo a cabeça, só falava na língua lá dele de índio, guardava quase sem olhar o que lhe presenteavam, como bolinhas de gude, etiquetas raras de vestuários caros, prego de duas pontas, cds sertanejos pirateados, revistas pornôs de capa rasgada, abotoaduras de plástico, bexigas de festa, moedinhas de cinco e dez centavos de real, um óculos escuro sem uma perna, cartão-postal da ponte Colombo Sales. Primeiro o esotérico:
            - Rá! Qual a melhor perfeição: o sonho ou a fantasia?
            Depois, Alice:
            - Olha, esclarecido pajé. A sabedoria está por um fio? A sabedoria está sozinha? A sabedoria passou sem a natureza saber? A sabedoria está cansada de subir e descer montes e montanhas? A sabedoria caminha como um peregrino? A sabedoria amadurece e cai? A sabedoria inventa tradições e carnavais? A sabedoria procura a alma de cada ser? A sabedoria se esconde no muiraquitã com cara de sapo?
            O pajé careceu que o interprete cochichasse. O pajé também se ocupava com posar para fotos com os turistas. O velhíssimo pajé vendia sementes de guaraná, açaí, sucupira, jenipapo. O velho cacique batia a cabeça agradecido com os presentes, como cds de axé e de forró, grampos de cabelo, biscoitos de milho, caixinha de lenços descartáveis vazia, pastilhas de hortelã ou morango, chaveiro de garrafinha de refrigerante, toalhinha para o calor, jornal do dia seguinte, cartão-postal da ponte Aricanduva. E Alice se dirigindo ao amigo esotérico:
            - Deus sabe onde estamos, pois não?!
            - Rá! Bem, estamos à procura de disco voador, pirâmide enterrada, montanha de ouro, cratera de meteorito, inscrição rupestre pré-histórica, pegadas de dino, cemitério de conchinhas, a chave de ouro de Atlântida, fóssil de preguiça gigante, um ossinho de sacissauro, pote de cerâmica marajoara, sítio de Calçoene, raízes ou óleos ou gomas ou folhas para o rejuvenescimento, cogumelos, cipó pra fazer o santo daime, barbatimão.
            A paciência de uma árvore silenciosa é silenciosa. Quem pinta o sol que pinta o dia todos os dias? Quem pensou regar a terra com cortinas de água das nuvens? A árvore que dá sombra move o vento, a chuva, o sol, o tempo e não sai do lugar. Viagem de Alice foi aquela que fez a Nazarezinho, Paraíba.
            A região do pantanal vivia pastando nos campos verdes-líquidos e céus azuis, um baita lugar azul de luz e ar. A cidade de Maracaju não via uma montanha desde sempre. Mas rios Piquiri, São Lourenço, Taquari, e rios e águas e chuvas ofereciam outros mistérios muito cheios. E os bichos dessas águas também. E por falar, diziam de uma salamandra escondida e encantada sob uma cascata véu de noiva. Existia uma teiniaguá cuidando de um tesouro jesuíta. Ainda do tempo colonial. Coisa antiga e misteriosa, ou até sobrenatural, ou extraterrestre.
A notícia desse mistério rico em ouro e prata e pedras preciosas provocou uma corrida de aventureiros, turistas, veranistas, muita gente atrás de novidades, e de ecologistas com camisetas de ônguis, repórteres de tevê a cabo. Contrataram guias, mateiros, tabajaras. E partiram numa manhã de luz excessiva. O elefante verde fechou a fila ou abriu a fila, carregando a parte mais pesada dos equipamentos da equipe de tevê.
            Os turistas acreditavam no tesouro escondido, Alice e esotérico acreditavam no tesouro inédito, o elefante verde conseguia acreditar no tesouro oculto, os guias acreditavam no tesouro encantado.
            - Dizem que era uma princesa que se transformou em iguana fêmea. Ou uma iguana fêmea que se transformou em princesa. Uma iguana fêmea que criou pedra preciosa na testa. Como sempre um amor proibido de uma índia charrua de treze anos com um padre jesuíta dos seus trinta e três ou trinta e quatro. Não se tem certeza de nada, faz um tempo absurdo. Na época do Brasil Colônia toda a terra sofria de encantamento. O tratado de Tordesilhas não valia mais nada, não valia mais. E se dizia que o tal jesuíta, flagrado namorando a índia charrua ou minuano, fora mandado de volta para a Europa, para as bibliotecas de Roma ou Coimbra ou Madrid. Não se ouviu mais falar dele, coitado. A indiazinha minuano ou coroado chorou as pitangas e as gabirobas e as azedinhas amarelas. A gruta véu de noiva era o esconderijo dos amantes. Um dia marcado ela esperou, esperou. Ele não apareceu. Nem retornou mais. Aí, dizem que a indiazinha xirianá morreu esperando. Que se terminou em lágrimas quentes. Assim, então, pareceu que aconteceu um milagre raro. Talvez uma mágica, uma feitiçaria, uma bonita fantasia. Alguma coisa inexplicável aconteceu, com certeza. Uns querem teimar que foram as lágrimas tristes da pobrezinha tupi-guarani que viraram pedras preciosas. Outros que o padre jesuíta roubava o ouro e as pedras preciosas da Redução e as escondia na gruta. Ainda existem os que pensam em tesouro que bandeirante enterrou. Os namorados foram então descobertos. O padre foi mandado embora, campo afora, ínvios caminhos, em lombo de matungo. E a indiazinha coroado ou charrua ficou esperando pelo amado, e cuidando do tesouro, e chorando quase sempre. Até hoje é assim. A teiniaguá tem esperança de ver o amante chegar. E viverem felizes para sempre. Mas... tudo bem, isso é lenda. E bandeirante nunca que enterraria tesouro. Talvez jesuítas enterrassem.
            Aí, toda a cambada, indefinível os tipos e vontades e esperanças e profissões e estilos de vida, entrou na caverna da teiniaguá. Do lado de fora restou sozinho o elefante verde e seus olhos de campo afora. Ele e muitos equipamentos de escavar. Ele e a cuia e a erva-mate e a água gelada para o tererê. Ele e o ecossistema pantaneiro, que não era pouco como ainda é muito, árvores baixas, nervosas, fortes, atarracadas, oitizeiros, juás, e mosquitos, mosquitos nem se fala, borboletas vermelhas, verdes, brancas, besouros e aves que não se podiam contar, se ouviam cantar, os cantos dos bem-te-vis-do-gado, dos tucanos-de-bico-preto, dos quero-queros alertas, das araras-azuis-grandes, emas, jaçanãs, perdizes, japiins...
A capivara ou a anta verde gigante olhou o campo aberto. E suspirou e não disse nada e continuou mastigando os tufos de canarana. No rio corrente os peixes dourados ou vermelhos ou amarelos ou metálicos assim parecendo um sonho de outros passarinhos que viviam num outro elemento, que batiam barbatanas em vez de asas. Os beija-flores também metálicos, as flores anônimas do campo, flores amarelas, orquídeas luxuosas. Às vezes um espelho que se confundia com a cara do céu azul, um mundo redondo, circular e esférico. O vento passava sem tempo fixo, o vento nas folhas das árvores tagarelas, embaúbas, carandás, buritis. Um casal de passarinhos esquivos ou tímidos ou ressabiados, ele macho de penugem amarela por baixo e cinzento nas costas e ela fêmea toda de marrom ou marronzinho. Enfim, coisas para se olhar, repassar, aí ou não.
O elefante verde e sua paciência sem desgaste e sem limites. Pastava muito, não pensava muito, tinha sua memória que era o tempo. Pois o elefante verde sobrou ali fora da gruta e da aventura do tesouro. Sobrou sozinho o dia todo, descansou na sombra e até cochilou deitado no taiobal. As nuvens se empurravam com os ombros, pareciam brincar, pareciam tantas, pareciam ligeiras, pareciam cogumelos gigantes ou manadas de antas gordas, enigmas brancos ou cinzentos. E manadas de antas lhe provocaram saudades.
A noite engoliu o elefante verde. Então, ele se sentiu mais calmo. Nem tudo quieto e silencioso. Se deitou perto da furna, ouvindo o chuá da cascatinha véu de noiva. Dormiu com um olho aberto, ouvindo também insetos zunzinar, cricrilar, cracralar.
No dia seguinte acordou com os pássaros, antes do sol, e já faminto. Tomou banho de cascatinha. Toda aquela sua força de vida o puxou para o capim e as folhas verdes, quem sabe umas frutas silvestres, uns araçás ou umas goiabas-do-mato. Andou uns bons metros para lá. O sol surgiu para as bandas de Aparecida do Taboado. Até aí, não acontecera nada que pudesse deixar o elefante verde preocupado ou com sorte. O elefante verde nem tinha intenção de voltar sozinho para a cidade ou mesmo fugir. Então, continuou aguardando os acontecimentos e mascando ali o capim do dia, endireitava a cabeça para saber da paisagem, um ou dois chupins subiram no seu ombro, mosquitos do dia, a paisagem evaporava sob o sol de vulcão, o vento soprando a paisagem para um lado.
            Depois, um dia de chuvisco, mês das águas, a paisagem adorando tudo, a tarde apreciando o chuviscar, Alice e o esotérico pegaram o trem transpantaneiro lotado de gentes, galinhas, porcos, trouxas, malas, amarras e cheiros. Seguiram uma cidadezinha de Jauru, mais para o sudoeste.
Pronto, já chovia muito, era época das águas tomarem conta da planície, e da terra toda, as estradas já estavam afogadas. As pessoas com a água pela cintura, ilhas verdes, as casas com água pelas canelas, o transporte em canoas, botes, balsas, dingues, chalanas. O casal de aventureiros ia para o rumo da pequena cidade que já sofria inundação. Partiram pela tarde do dia seguinte.
Na cidadezinha de Rio Brilhante, uma praça, uma rua, só restava a igreja no alto do morro onde a água ainda não bebera. Ali chovia muito. Para lá se refugiou o povo, os turistas, o gado vacum, o gado equino, o gado lanígero, o gado alado, o gado rastejante, o gado zumbidor. Viagem bem ganha fora aquela para Tupi, São Paulo, uma vez.
            O pantanal, a grande planície alagadiça, já parecia um imenso arquipélago, aqui e ali matinhos verdes recebendo canoas, gentes e bichos, parecia ainda como aqueles países perdidos no imenso oceano, verdes jogados no mar como búzios, milhares de pequenas ilhas precárias, como se fosse, e jacarés de olhos de fora espreitando tudo tudo. Nuvens com ideia de montanha, os raios se quebrando em galhos, os trovões sacudindo o planeta.
            - Aqui tem muito jacaré, jacaré bebe muita água, jacaré precisa de muita água, jacaré vive onde tem muita água, jacaré se diverte muito na água, e onde tem muita água chove muito e tem muito jacaré.
            Molhada dos pés à cabeça, cabelo escorrendo, olhos úmidos, quase gripada, Alice por pouco não acabou se resfriando:
            - Vou seguir os caminhos, e a esperança por consolo.
            - Rá! Mas as pessoas não são, e não são simples como a gente quer e imagina.
            - O que muxiba? O que nutar? O que jacuba? O que simonia?
            A capela estava tomada das gentes e bichos domésticos e trouxas. Canoas como no ponto de táxi. Num canto o velho pajé, sentado, fumando seu cachimbo de barro, já estendera uma toalhinha para receber as ofertas, pena de galinha, prego torto, copo descartável, carrinho de madeira, aviãozinho de plástico, pedrinha lisa, taça de cristal rachado, cigarro solto, tampinhas de cerveja e guaraná, santinho de candidato a deputado estadual, meio livro de O Guarani, anel de fantasia, cartão-postal da ponte Ernesto Dornelles.
O altar da igrejinha todo encolhido no cantinho, pequeno e pintadinho de azul, mal iluminado pelas janelas de basculantes de vidro batido, brilhando mal e mal com as pequenas e poucas velas acesas, umas estampas de santos e santas, um Cristo na cruz, os poucos anjos barrocos olhando o alto. Não, não restava mais espaço no templo. Andorinhas e corruíras revoavam perto do teto. Andorinhas são pássaros urbanos? A água vermelha chegava no limite de entrar e alagar tudo.
Lá fora as pessoas improvisavam reuniões acocoradas nos galhos das árvores, amarradas nos galhos para não cair de sono, fumando debaixo do guarda-chuva. Eram macacos-pregos. E os dias seriam longos, semanas e até alguns meses. Naturalmente alguns meses. Nuvens de dois andares. Chuva constante. Grandes árvores viravam salão de bailes, sala de jogos, praça de passeios, paineiras, ipês-amarelos, embaúbas... As pessoas e os bichos domésticos pegavam cor verde na pele, no pelo, nas penas, na sola do pé em primeiro lugar, nas orelhas e depois nas escleróticas. Com o passar dos dias verdejava tudo, umas feições anfíbias, batráquias, sem cauda. Os jacarés-de-coroa dando sopa, olhos asiáticos, olhos de fogo frio. As curicacas falavam alto:
            - Gra-gra-grá!... Gra-gra-grá!...
            O esotérico preocupado com os dias úmidos de Alice:
            - Rá! Cem, quem, ninguém.
            - Grilo não faz sombra.
            - Rá! Muito xarope de mel de jati e agrião e cachaça com alho moído.
            À noite as pessoas e os bichos se entupiam na nave do templo, se empurravam, se estreitavam, se acotovelavam, se agarravam para dormir, se aninhavam, se cheiravam, se comiam, quase se comiam. As noites eram longas e úmidas, cheias de tosse tosse. Outros ainda ficavam lá fora nas árvores, dormindo nos galhos, redes penduradas nos ramos, guarda-chuva aberto, capa impermeável amarela.
Chovia sem pressa de parar, e chovia muito, e ainda chovia pouco. Nas manhãs muitos mortos boiavam sobre as águas nebulosas e barrentas. O céu fechado, sombrio, pesado, baixo. Pedaços de casas lá iam embora, troncos de árvores nadando ao sabor da correnteza, ilhas ambulantes. Chovia todo dia e todas as pessoas sabiam que carecia chover muito mais. Pois chovia pouco. E era comum chover muito nessa época. E o céu precisava chover. E não parava de cair água.
            Alice lembrou muito bem da viagem maravilhosa que fizera à terra do Maranhão, passeando pelos Lençóis Maranhenses.
            Árvores molhadas, árvores até o pescoço, árvores altas afogadíssimas até o pescoço, ilhas verdes, águas, pontilhões submersos, águas e correntezas, dois andares de águas.
            O pajé ficava permanentemente no seu lugar predileto debaixo da porta da igrejinha. Sentado no chão frio com as pernas trançadas. Pegava o violão de vez em quando e tocava músicas gospel. O mar de água doce arrastando todas as espécies de coisas. Os dias e dias descendo rios abaixo... Homens empoleirados nos galhos das árvores, de guarda-chuva, esperando pacus, dourados, piraputangas, jaús, piaus... e dali mesmo telefonavam, ali mesmo gesticulavam, urinavam, sempre hipnotizados pelo grande lago em que se transformara o mundo. E os rios? Que rios? Rio Aquidauana, Miranda, Apa, Cuiabá, Taquari...
Os jacarés com limo nos olhos, olhos verdes e fixos. Todos os viventes desanimados com a vontade do céu, sem nunca poderem fugir, nadar para onde?, não ter onde ir. E os jacarés espreitando, os olhinhos de fora por trás das folhas das árvores, por entre a galharia, debaixo do temporal. E não passava dia sem que se ouvisse notícia de jacaré apresando gente, gente caindo na água e desaparecendo, jacaré passando bem, gente sumindo.
E o pajé uru-eu-uau-uau esperava com sua costumeira paciência, ouvia rádio, aprendera com a paisagem alagada, ligava o rádio e o punha no ombro junto ao ouvido, tocava samba, forró, balada romântica e suspirosa e melosa, uma mpb virtuosa, maxixe, gauchesca, axé, baião, toada... Alice e o esotérico aguardavam com suspiros e sem sorte tocasse o que nunca tocou e nem nunca tocaria qual seja a protofonia da grande floresta tropical.
Alice lembrou Marcelle numa menininha que sempre, por esses dias chuvosos, acompanhava o pajé. E quando Alice se aproximou a garotinha começou a rir - visse só como ria! Alice olhava a menininha rindo e a garotinha rindo olhava Alice. Alice lembrou, claro e óbvio, de Marcelle. Marcelle sonhada pelos índios goitacás? Mas a menininha, provavelmente netinha do pajé, ainda por cima ria sem parar, sem freios. Uma menininha branca, alva, alvíssima, sardenta, tempestade de marfim, e também linda, sorriso liso, gargalhada explosiva e falar falava sons gorjeantes. O pajé pescava um sono meio entregue, balangando, cabeceando ali sentado, talvez no sonho. Alice, recuperando ou tentando recuperar o moral:
            - Que que quer, menininha? Nunca te viu?
            A menininha, talvez mascote do pajé, talvez netinha, talvez filhinha, talvez cunhantaim sapuiá-quiriri, não conseguia passar de rir, se contorcia atacada de cócegas, segurava a barriga, coçava as costelas onde provavelmente apontariam asas, rolava no piso úmido do templo, lagrimejava de tanto doer de rir, sem parar de rir. Que estoure de rir, então!
            O pajé acordou, mas acordou perplexo, como se ressuscitasse e, meio às tontas, quis pegar o rumo das coisas. Esquecido olhou ao redor, olhou em volta até encontrar apoio, passou em revista as ofertas do dia, uma caixa de sapatos vazia, um cinzeiro trincado, uma calculadora a pilha sem pilha, um calendário do mês passado com uma estampa de montanha apontando o dedo, um prego com uma fita vermelha, um pé de sandália de alças de couro pintadas de vermelho, cartão-postal da ponte do Potenji, e daí, então, ele caiu em si, se recuperou, olhou Alice para dizer:
            - É tudo coisa da idade, esta menininha. Assim como se ri, pode virar em choro ou sono, esta menininha.
            A menininha ainda não podia parar de rir, e não se sabe se preferia ou gostaria parar de rir. Alice já achava que a garotinha podia estourar de tanto rir. Então, Alice virou as costas e saiu embora, deixou que a tal menininha se derretesse de muito rir.
            Chuva eterna, planeta água, nunca mais o sol, restos e pedaços e sobras na correnteza, o pajé tonto de sono recebia as ofertas, como corte de tecido xadrez vermelho com amarelo, prego pintado de azul, chapéu de palha desfiado na aba, lata de leite em pó vazia, boneca com cara de estrela de tevê sem uma perna, livrinho com hinos e orações manchado de chuva, animais de estimação abandonados ou órfãos ou aleijados ou doentes: um gatinho, um cãozinho, um pintinho amarelo, um mede-palmo, um gafanhoto verde, e o cartão-postal da ponte Costa e Silva.
Todas as pessoas ali atiradas e cansadas, atulhando a nave, rezando pelos desaparecidos, pelos afogados, pelos incorporados aos jacarés, etecétera, sem esperança de um dia reavê-los, reconhecê-los, enterrá-los e rezá-los.
            - Rá! Não tenho como provar, está fora longe de mim, mas essa parte do país deve mesmo ficar logo abaixo das lágrimas do Senhor.
            - Gosto de ver a chuva cair. Sempre é bom. Não toda de uma vez, como esses dias, uma vez.
            E Alice se desgostou, se desgostava do clima, do isolamento, da falta de Marcelle. Lembrou de Uruguaiana, Rio Grande do Sul, onde chegou certo dia de verão tórrido.
            - Tô com saudade de Marcelle lá deslumbrada com os índios jurunas.
            - Rá! Os índios antigos sempre fizeram inscrições lá pelas grutas e pedras de Sete Cidades. E outras grutas de Goiás, Minas Gerais, Bahia, Sergipe...
            O receio maior era nunca mais rever o sol. As pessoas tinham o templo lotado ou os galhos escorregadios das árvores, manhãs invariavelmente nubladas, chuvosas e frias. Viam-se homens boiando na correnteza, caídos de maduros ou de sono ou de cansaço ou de preguiça. O limo verde pegava a palma da mão, atrás das orelhas, descia pela garganta. Os jacarés-de-coroa bem gordos e sempre à espreita, cuidadosos, famintos, olhando detrás da copa das árvores.
            Alice e o esotérico chegaram para o pajé ali sentado sob a aba do templo, e o interprete traduziu:
            - Rá! Como? O quê? Por quê?
            O velho velhinho, declarou, traduzido:
            - Então, escolham e olhem por uma das árvores mais altas. Uma castanheira, quem sabe. A sumaúma, quem sabe. O umbu, quem sabe. O babaçu, quem sabe.
            Os dois semoventes presentearam o pajé com uma pena de pavão, um isqueiro multichama, um chapéu pantaneiro com fita verde, uma guaiaca de couro, um canivete com cortador de unha e lixa de unha, um par de tênis usado com fecho de velcro, um cartão-postal da ponte Jurubatuba, e saíram fora, vazaram, os dois.
Embarcaram na canoa ou no bote de borracha, dois remos, nenhum colete salva-vidas, nem boias, nem capa impermeável, nem bornal de comida. Procuravam pela árvore altíssima, uma árvore-mãe, uma árvore-rainha, procuravam olhando o alagado sem fim. Quem sabe um jerivá, um jequitibá, um açaizeiro, um pinheiro-do-paraná. Caía a chuva continuada, séria, e ainda chovia pouco, bem que podia chover mais, chovia o que o céu mandava e não cabia mais. Não se percebia os horizontes por estarem encobertos pela neblina e pela cortina da chuva, o teto muito baixo, carregado e pesado de nuvens negras, nuvens de dois andares, parecia divertido. Divertido para os jacarés-de-coroa!
            - Rá! É como não encontrar sapo num alagado.
            O reino vegetal naufragara, se afogara, praticamente. A árvore-mãe podia ser um jequitibá, um buriti, uma castanheira, um umbu, uma cabriúva. Que não se via aqui, ali, acolá. Uma tristeza de mundo interrompido. A dupla já estava perdida. Muito tranquilamente se perderam. Nenhuma referência. Percebiam pessoas acocoradas como galinhas ou como macacos-pregos nos galhos e nas coberturas das casas afogadas. Chuva forte, chuva natural da estação. Reconheceram já cem vezes que estavam perdidos. Só o acaso os faria topar com a árvore-mãe. Estavam prisioneiros do alagado, afogados no labirinto, cobertos pela cerração. Remar ou não remar estava no mesmo. Entregavam os pontos. Viam raios e ouviam trovões. Entregavam os pontos? Alice recordou a boa viagem a Chapecó, Santa Catarina, aquele verão de dois mil e dez, verão de dois andares.
            - Estou verde, isso sim.
            - Rá! Estou anfíbio, isso também.
            Muitas horas após, ou dias, em meio ao nevoeiro e a chuva fria, Alice e o esotérico escutaram um assobio, ou um trilo, ou um pio, ou um casquinar. Era um chamado? Era um convite? Era um canto? Era um chamado ou um aviso ou uma mensagem ou uma risada. Remaram curiosos seguindo o assobio, ou seria mesmo um gorjeio, mesmo um tilintar, um chilreio, foram remando na perseguição, durante o mundo aquático, naquele sentido do chamado.
            - É o que me parece? Escuto bem?
            - Rá! Escuto, ouço e obedeço.
            Era para ser um carcará, um porco-do-mato que sabia nadar, uma piranha, um bugio, uma onça-preta, um gravatá, mas podia ser qualquer outra coisa, até mesmo um sonho, mesmo um homem tocando flauta, estava difícil, custava encontrar o fenômeno.
            - Será o pé da cobra?
            - Rá! Uma distância desconhecida entre o perto e o longe.
            Uma feita subiram num interessante carandá para ver mais além. Tiveram, assim, uma ideia melhor e mais além do labirinto. Não se via muito longe, não se via muito bem. Viram um elefante verde parado, meio aborrecido, pastando as folhas sobre as águas, nadando com calma entre a copa das árvores. Podia mesmo ser elefante verde alado, ou uma anda verde gigante alada. Também o elefante verde estava perdido.
            - Rá! Um elefante verde pode nos reconhecer e assobiar quando está perdido.
            - Um elefante verde tem memória suficiente para não depender de ninguém. Mas pode salvar as pessoas.
            E o assobio cessara. O elefante verde silenciou? O elefante verde olhou os dois, depois, por uma ordem estranha e interior, se aproximou da palmeira. Alice e o esotérico deslizaram para a cacunda do elefante verde. Aí, os três seguiram um rumo qualquer. Como saber? Alice achou boa e ótima aquela viagem à cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte, certa feita, pouco tempo atrás.
            O elefante verde e o casal foram por aí de uma vez, o nevoeiro não deixava saída, não dava conforto. O elefante verde, ou anta verde gigante, parou uma vez ou outra para mascar algumas folhas, quase mergulhado no rio, chovia muito, e chovia pouco. O elefante verde parava para cochilar ou para olhar a sua própria memória, mascava folhas tenras e apetitosas, ria sozinho, Alice temperou:
            - Não acho que seja o fim do mundo.
            - Rá! Tudo bem que estamos perdidos...
            O elefante verde não falava, não assobiava, mascava, se deslocava devagar no alagado. E quando não dormia, ou quando não comia, então nadava para um rumo desconhecido, seguia, seguia. Vinte horas depois, foram entrando para uma região de menos chuva, principalmente.
Uma manhã entraram no lugar da não chuva. O sol cegava, tudo cintilava, verberava. Tudo que pudesse cintilar cintilava. Saudaram o sol como coisa rara, como deus de quinhentos milhões de anos. O sol forte e o céu limpo com espelho azul na terra alagada. Mas a terra ainda estava alagada. Havia horizontes e montanhas e aves piando no trânsito do alto, insetos arriscando a vida, sons de todas as cores, arbustos desafogados.
- Rá! Parabéns ao elefante verde que encontrou o buraco da agulha!
            Num remanso do alagado, um martim-pescador, seria isso?, sozinho, olho sério, parado, mãos às costas, esperando, canelas secas, observando, pé ante pé sobre uma vitória-régia, pescando, aguardando os acontecimentos, chuleando no mais. 
E logo no dia seguinte já viram a terra debaixo dos pés, sequinha em vários pontos e acidentes, umas formigas, uns rastos de lagarto. Os três caminhando a pé, então, seguiram quase muito perto um do outro, elefante verde caminhando na frente. Descobriram a terra novamente. O elefante verde estava o mais sério, talvez porque fosse do seu jeito parecer sério, ou porque sua excelente memória, sua saudade sem fim, fosse uma carga que só ele podia carregar.
            - Vamos segui-lo, até que diga chega.
            - Rá! Porque a ideia de qualquer elefante verde é até sem desistir nunca.
            E os emes correndo, e os erres murmurando, e os erres e esses sussurrando. Alice engolia bem a viagem que já fizera até a terra da cidade amazônica de Santo Antônio do Içá.
            No início das eras, o planeta Terra era branco, da cor branca. Branco era tudo branco. Veio outra era e o planeta Terra ficou preto ou negro. Negro como a noite. Mais uma era e o vento levantou poeiras e cinzas. E já o planeta estava na era do vermelho. Vermelho como um lenço vermelho de pescoço. E assim por diante. Agora, ultimamente, está tudo normal como sempre tinha que ser. Céu azul bem limpo.
            Era o fim das chuvas, as chuvas ficaram para trás, as neblinas sumiram, mas as chuvas são bem vindas. Alice, por exemplo, gostava da chuva, olhar a chuva cair, olhar a água correr. Podia chover com calma ou com vento no meio, que ela já achava engraçado. O céu mandava chover, que chovesse o que fosse, que chovesse de uma vez, e que chovesse com poder. O sol também era melhor.
            Alice estava quieta, estava em paz. O pantanal começava tudo de novo. O sol pintava mesmo daquele lado de Amambaí. Teiús encontraram as pedras. Alice testemunhou:
            - Viagem ao fim do mundo, já viu? Viagem ao início do mundo, já se viu?
            - Rá! E nada mais do que pouco mais do que nada, praticamente nada.

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