Uma
cigarra anônima abria reticências de som no silêncio da tarde. Farrapos de
nuvens brancas errantes pincelavam aqui e ali o azul do céu. O elefante verde
nasceu na Índia e na África como todos podem comprovar. O vento procurou
arrebanhar na linha do horizonte todos os pedacinhos de nuvens sem dono.
Com dois anos
o paquiderme verde já era do tamanho da mãe, comia capim e folhas de árvores. E
nadava no banhado acompanhado de parentes. Nos dias de festa comia cascas de
melancias e abóboras e morangas. E saía já com visto de turista para ruminar no
Brasil.
Elefante verde
andou pelo Pantanal muito desamparado, bondoso, inconcluso. Aí teve muita
canarana para mascar. Pesada e longa sua memória de saudades. E água boa para
beber e barro preto para se espojar e troncos de árvores para se coçar. Bem
mais quieto do que devia estar. Bondoso, quase quieto. E diziam, diziam que
esse quadrúpede era um bicho meticuloso, minucioso, cauteloso e escrupuloso.
O
mamífero podia reclamar com trombadas e trompadas e horríssonos barritos. E
elefantes verdes quase por pouco não existem. Mas para compensar, os elefantes
têm ótima memória, todos se lembram de tudo, todos os tipos de elefantes têm
boa memória. São ainda incríveis caminhantes, caminham toda a vida. E uma vez
se querendo elogiar a memória se diz que a memória é de elefante.
Alguém
sempre poderá duvidar, mas os elefantes verdes mais famosos foram os que
transportaram o ditoso, o iluminado, o sereno, o judicioso, o dileto, o
encantado, o bondoso Siddharta Gautama Buda nas suas jornadas ao redor da
laranja, pelo país do Meio. Sem falar os cem dias pelas montanhas escarpadas e
nevadas da cerâmica milenar chinesa. Até mesmo os vales e as montanhas e os
sopés de montanhas plantadas de cerejeiras do país do sol nascente.
Já
com dois anos e meio o elefante verde fora trabalhar na madeireira clandestina
de um deputado federal, em
pleno Mato Grosso do Sul divisa com Mato Grosso. Essa
serraria se localizava numa região de boa mata de cerrado, e onde hoje há
pastagens com nelores branquíssimos. E que por lá também passa o rio afinado de
nome Guaporé ou Taquari ou Madeira ou Paraná e que nas épocas de inundação já
se alarga inundando mil quilômetros. O elefante verde fora para lá trabalhar e
trocar seu suor por três rações ao dia, sem férias ou domingos, sem namoradas
ou futebol aos domingos. Ele trabalhava por seis ou sete burros de carga.
Apolítico mais do que devia. Não se metia em confusões ou anarquismos,
gritaiadas ou piquetes, panfletagens ou pichações.
Elefante
verde não tinha ideia se o amavam ou o odiavam, etecétera, se era bonito, se
era forte e alto e pesado. Mesmo até porque os elefantes em geral não são de se
abrir, nunca foram de rir, não sonham, não olham para o céu, não olham nem para
os lados. E quando choram é de saudades. Com memória formidável, os elefantes
vão longe, e juntos, em manada pesada.
Então,
o vento vinha dos cantos, o vento vinha do começo do mundo, cabelos ao vento
para trás esticados e tal, parece ou não parece?, parecendo um cavalo alado e
bufando, soprando, murmurando, navegando com as asas abertas e invisíveis sobre
o rio, os rios, sobrevoando o rio Araguaia, subindo o rio Araguaia, tangendo,
sacudindo árvores de nomes variados, bafando, carregando nuvens baixas,
preparando chuvas torrenciais ou dias limpos de muito sol.
Dia
simples, vivo, aberto, preciso, eficiente, inédito, instigante. E o sol
apareceu, subiu, rolou, subiu, rolou e chegou. As águas estavam calmas, apesar
do vento. O mundo amanheceu, três de dezembro, e daí? E agora? A cada cidade a
chance se renovava. De passagem para a cidade de Juti, Estado do Piauí, capital
Vitória.
Alice
e o amigo esotérico estavam no pantanal matogrossense à procura de ervas e
raízes e resinas e cascas que melhorassem, que curassem de vez, que
rejuvenescessem, que prevenissem, que purificassem, que benzessem. E chás da
terra para infusões especiais, garrafadas para curas milagrosas, pomadas
cicatrizantes, óleos medicinais. E pajés que conhecessem plantas e rezas e luas
e dias propícios. E piagas que lessem os voos dos urubus ou dos
gaviões-de-penacho. Até porque existem pessoas que vão até o fim do mundo e até
o fundo do poço para buscar o que acham que merecem.
Assim, Alice e
seu esotérico amigo de plantão, se hospedaram num hotelzinho de Deodápolis para
tomar fôlego da longa viagem, olhar a paisagem. E coisas necessárias no cenário
eram as abelhas buscando mel nas flores pendentes e úmidas, numa disputa
encantadora com colibris, besouros obesos e borboletas de cores salteadas e com
antenas apontando na cabeça. E o vento na tarde carregando um coquetel de
aromas. As flores amarelas não faltaram, não falaram, e usaram um perfume muito
alto. Porque as coisas aconteciam, sim. Um arco-íris roxo, laranja, amarelo,
verde, azul, anil e violeta.
Com
olhos desafogados e um sorriso leve, cabelos sorrindo, Alice falou:
-
Eu amo e adoro árvores. O quê? Eu adoro e amo bichos. O quê?
Ela
mesma tomou o banho, secou os cabelos, vestiu a chinela de borracha de dedo,
abriu a janela. Alice tinha necessidade de um café ou suco de cenoura. O hotel
era pequeno e cheio de sol e poeira e tevê ligada. Lá fora vendedores de
cartões-postais, vendedores de rádios portáteis, de óculos escuros, de bonés de
times de futebol, vendedores de cocares de penas de guará em extinção,
vendedores de água mineral com gás, de gibis, de canetas multicores, de pentes
pequenos de plástico, de chapéus de palha, vendedoras de talismãs.
E a viagem que
Alice ganhou bem foi aquela lá que fez a Porto Velho, Rondônia.
-
Será que vou para Araçuaí? Devo ir até Santa Cruz do Sul? Nunca irei a Rio
Branco? Preciso ir a Macapá? Quantos dias existem sobre Caçapava do Sul ou
Ametista do Sul? Conhecerei Aquiraz? E o parque estadual do Turvo?
-
Rá! Acho que sim, tenho muita esperança.
Alice
tomou suco disso e daquilo. Desde que nascera tomava suco de abacaxi. Todo o
mundo queria ser Alice. Alice e todo o mundo. Alice queria ser todo o mundo.
Ninguém pode ser tudo e todos. Abacaxi e macela e urucum e gravatá e caruru são
produtos naturais muito bons e úteis. Alice bebeu suco de caju e olhou o dia
entrando pela janela.
-
A luz desta parte do mundo, cintilante e resplandecente.
Um
dia, ao certo, de repente, uma manhã festiva, Alice e o esotérico caminhavam aí
conhecendo e olhando, quando se formou aquele atropelo. Um elefante verde arrombou
pela boca da ruazinha. Veio forte e pesado e doido e assustado e derrotando e
esbulhado e sacudindo tudo a sua passagem. A terra tremeu, as árvores se
abraçaram, as pedras se assustaram, as pedras pararam de crescer, as pedras
arrepiaram o pelo. E o ruminante extraviou cercas, gabiotos e palhoças,
galinheiros e chiqueiros, entrou pelas ruelas da cidadezinha detonando barracas
de vendedores ambulantes, acionando a polícia e os vira-latas. Subiu a
escadaria da igreja, desceu a escadaria da igreja e se jogou com sobras de
arrojo no rio, dando a impressão quem sabe de querer se afogar. E nadou
nadou... O povo em pé desse lado olhando tudo. O elefante verde nadou rumo à
outra margem. Não parecia ter tanta prática assim de natação. Então, numa
altura do rio, dando a entender que cansava, retornou, deu volta numa ilha
verde, voltou, saiu da água cabisbaixo, tromba arrastando no chão, cara mesmo
de envergonhado, não falou nada, pingando água, talvez chorasse, entupigaitado,
o povo em pé admirando. Para consolo lhe ofereceram espigas de milho verde,
folhas de alface graúdas, cascas de abóbora paulista, melancias de coração
vermelho, laranjas com casca, cenouras doces. Ninguém riu porque a provocação
era temerária. E nada mais, porque a cidade era modesta, cidade sem jornais ou
emissoras de rádio. O elefante verde ainda desfilou sem querer quase no meio do
constrangimento. Cidade de Terenos com pessoas em pé e olhando e com vontade de
rir, e acabaram rindo, mas somente pelas costas, quando o elefante verde dobrou
a esquina.
O
vento zuniu. Pela noite toda a chuva e o vento continuaram. As pessoas pensam
no que lhes aconteceu, poderia acontecer, ou jamais acontecerá. Alice pensou:
viagem ganha foi mesmo a que fiz a Maceió, Alagoas.
Esotérico
e Alice se preocuparam menos com o elefante verde. O que poderia haver de mais
num elefante verde desembestado? Talvez por ser um animal exótico mereceu toda
essa assistência do povo. Se fosse jacaré-de-papo-amarelo ou vaca roceira ou
cavalo manga-larga ou cavalo quarto-de-milha nem seria percebido. Na Índia, por
bem menos, elefantes verdes são tão comuns na rua, estacionam na calçada,
esperam seus tratadores na sombra das árvores da praça. E vacas também, que
entram em lojas para fazer compras, caminham no trânsito, pedem esmolas nos
semáforos. O que lá mesmo seria exótico só se fosse uma anta, um
tamanduá-bandeira, um bicho-preguiça, um lobo-guará, um calango-verde, um
cágado, um beija-flor-de-garganta-verde.
Alice
se olhou no espelho. E não se viu. Se olhou outras vezes. Insistiu. E sempre
Alice e a Alice. Alice, a Maria. Alice estava atrapalhada. Alice, a Ana Paula.
Os seios ainda bons. Alice, a loura. Alice, a bonita. Alice, uma duas três...
Olhou o céu chovendo e sorriu.
Para
saber do povo, para se acostumar com o povo e o lugar de Tacuru, Alice e o
esotérico circulavam muito, pesquisavam tudo, repassavam várias vezes pelos
mesmos cantos até gravar imagens na mente. E cumprimentavam os reconhecidos. E
havia uma ponte sobre um córrego. Ali mesmo Alice e o esotérico cruzavam quatro
ou seis vezes ao dia. Cidadezinha com mania de domesticar jacarés.
Sentado na
mureta da ponte, sem falhar um dia, todo pedinte, calmo, restava um senhor de
barba hirsuta. O tal senhor sorria quando recebia algo, e que raras vezes
chegava a ser dinheiro, mas podia realmente ser um botão de vestuário, um
cordão de sapato, um prego enferrujado, um seixo rolado e quieto, caderno
escolar preenchido, maço de cigarros vazio e amassado, cigarro solto, pedaço de
barbante, palito de dente, um cartão-postal da ponte Porto de Alencastro.
O velhinho
ficava ali talvez o dia cheio, e vez ou outra tocando uma flauta de taquara,
com ou sem chapéu pantaneiro na cabeça. O velhinho esse tal não aparecia nos
dias chuvosos. Era mal-humorado nos sábados e domingos, pela manhã. Ao
anoitecer chegava um menino para resgatá-lo. Pois o velho mameluco já era quase
cego, a se apoiar numa bengala, segurando o braço do menino, sumindo depois
para o labirinto da vila, sem pressa.
-
Rá! Alice, você também já percebeu que as pessoas falam, riem, cochicham e
cantam. Olhe os que cantam aqui nessa cidade de Ponta Porã. Cantam em festas de
santo, em festas de aniversário ou quando o time ganha. Assobiam uma canção
durante uma tarefa e outra. Assobiam e cantam com o rádio preso à cintura. Cantam
grandes e pequenos; cantam fêmeas e mascotes. Cantam sem dúvida mais pelo fim
da tarde. Cantam nas janelas esperando o namorado. Cantam nos bares numa só
voz. Cantam bem cedinho nas manhãs. Cantam nas serenatas como num resgate
nostálgico dos tempos. Então, se juntarmos o número dos cantadores, todos os que
cantam, faríamos apenas uma pequena fração desta cidade. Uma porcentagem tipo
pouco por cento, e olhe lá, do Estado. Um nadinha de nada desse vasto país.
-
A única igreja que possuem, aqui em Sidrolândia, branca e pequena no alto do
morro, tem um sino que chegou ao Brasil durante a colônia, porto de Santos,
lombo de burros, serra acima, planalto adentro, florestas, pântanos, etecétera,
rios abaixo, rios acima, índios makuxi flechando, quilombolas assaltando,
noites e mosquitos. Um sino precioso que bate toca dobra soa badala bimbalha
repica plange tange ressoa, avisando os fiéis dos acontecimentos, dando as
horas. Principalmente os fiéis gostam dos sábados à noite e domingos pela
manhã. A igreja lota, a nave entope. Chegam fiéis de moto, de ônibus, na
carroceria de caminhonetes e caminhões, nos barquinhos de pesca. Quantos fiéis?
Quantos crentes? O que, no entanto, comparando com o número de habitantes da
cidade, resulta numa tímida minoria. Um nada diante do país. Um bom zero à
esquerda frente ao mundo.
O
caso era que o casal estava receptivo ao achamento de um guru ou um xamã ou um
piauí ou ainda um mágico. Assim, então, descobriram que aquele velho índio
panati, ali sentado na calçada da lotérica, poderia ser esse sábio, seria esse
uirapuru raro. Até porque também queriam crer que o destino se assume, ou ora
se camufla, ora engana e etecétera. Mas um dia o destino se apresenta, o
destino se atravessa no caminho, o destino passa encilhado e nada melhor e mais
importante, e típico, que aquele senhor que via tudo, apesar de cego, ou quase
cego. Mas que ouvia tudo, cheirava tudo, vivera um muito, conhecia cidades como
São Gabriel do Oeste, Selvíria, Itaquiraí, Chapadão do Sul, por exemplo, e de
olhos fechados.
-
Rá! Agora, uma coisa precisamos pensar. Seguinte. Como compreendê-lo? Como
falar na língua lá dele? Como ter a sorte de achá-lo num bom dia, ou seja, bem-humorado,
sóbrio, acordado, falante, inspirado?
Alice
se achou na janela do hotelzinho reparando no teatro que a cidade baixota de
Rio Verde de Mato Grosso fazia por merecer. Cenário de produção apressada e
pobre e independente. Entrada de campo e lavoura ou de parque de preservação
ambiental. E de repente um sorriso de fração no canto da boca. De repente Alice
reconheceu, viu mesmo perdido no cenário, aquele elefante verde suando lá na
serraria, arrastando toras e tábuas. Ainda reparou que o bicho mancava da perna
de trás, a esquerda, o que podia ser o resultado da aventura no rio. Concluiu
assim Alice.
O
bom casal saiu com a ideia de ir até o guru ou pajé. E foram no rastro dessa
intenção, e chegaram perto, observaram por meia hora contadinha no relógio.
Depois, se sentaram do lado, o guru recebia o que os transeuntes deixavam, como
escova de dentes usada, um pé de sandália de couro, um pente quebrado em alguns
dentes, dez centavos de real furado, um prego torto, uma chave de cadeado
perdida, uma maçã passada de madura, duas bananas nanicas e bacanas, troféu do
CTG São Félix do Araguaia, uma fitinha verde do senhor do Bonfim, cartão-postal
da ponte do Guaíba.
-
Como se conversa com um sábio? Você sabe?
-
Rá! Acho e creio que os sábios não gostam de pessoas, gentes e humanos. Os
sábios são geralmente quietos. Se amarram num bichinho de estimação, um
bichinho que os segue e os acompanha, e pronto.
Alguns
turistas em volta do ex-cacique, ou ex-pajé. Não estavam todos sentados, não
estavam todos nada quietos, não estavam todos de olhos fechados ou cerrados,
não estavam de olhos parados. Viagem de Alice que fez foi mesmo a Santa Bárbara
de Goiás, Goiás.
O
dia foi subindo e enrolando algumas nuvens brancas lá para o oeste do Estado. O
vento soprava do leste sem impedimentos. O sol se escondia pouco a pouco. Um
bando, e que bando!, de araras-de-barriga-amarela. Começou a chover.
Parou
de chover. O vento continuou derrubando folhas, varrendo folhas, amontoando
folhas secas de embaúba, muirajuba, cutiúba...
Alice
e o esotérico estavam tímidos ou assustados, esperando o quê. Afinal tentaram
falar, mas o sábio não compreendia a língua, uta! Buscaram um interprete. O
velho ex-rekakê era muito antigo, nunca aprendera a língua de branco, e nem
queria.
-
Tudo isso? Como? Quando? Por quê?
-
Rá! Chegamos de longe longe. Dizem que o senhor conheceu o tal Plácido de
Castro. E subiu e desceu a selva com Rondon. E conviveu vários dias, contou
várias histórias ao seu José de Alencar.
O
sábio pajé, o esclarecido pajé, ergueu o rosto, esfregou as mãos e, filtrado
pelo interprete, falou tranquilamente:
-
Que que são ondas do mar? Como misturaram navios e baleias? Que custa um radinho
com fones de ouvidos? Que custa um celular com musiquinha sertaneja de raiz?
Quando vou assinar o livro de aço dos heróis nacionais?
O
elefante verde já não mancava mais do casco maltratado. Mas a memória marcara,
a memória imprimira. Não apreciava a ração de gado que lhe davam - era dose
para sucuri. E justamente em dias de chuva ele sentia o cheiro do verde e o
gosto do bom e suculento pasto verde, folhas, flores, frutos e frutas. Um
cheiro que chegava do rastro da memória, lá da sua terra natal, lá do vale do
Hindo ou do deserto do Kalahari. Lembrava de tudo como se fosse ontem, comia
flores amarelas do campo, brotos de bambu, tomava banho no rio, banho de lama,
banho de poeira, banho da chuva de verão, banho de folga, banho de rolar na
duna, tirava força nas lutas com os primos da sua idade, chamava pela mãe
quando tinha pesadelos ou ameaça de tempestade, etecétera. E agora, com o
emprego que lhe arrumaram, imigrante que errou e deu um mau passo, hoje em dia
mal e mal levava um banho de mangueira, com água e sabão quando lá uma vez por
semana. Noites altas ficava olhando os vaga-lumes, ouvindo os sapos coaxarem,
ouvindo os grilos, ouvindo as corujas, pressentindo os morcegos atrás das
orelhas, pegava no sono depois das duas. E havia outras coisas que não era bom
lembrar, que era bom lembrar, e que lembrava, e que sacudia a cabeça para não
lembrar.
Alice,
da janela, olhava o elefante verde barritando sob o luar, sob o olhar das
estrelas, sob o olhar de Júpiter. Céu comprido, largo e profundo. Elefante
verde que dava uns passos para cá e outros para lá nos limites do cercado,
voltava para a coberta, deitava no sapê. O luar derramava leite na atmosfera
clareando a cidade baixota de Ribas do Rio Pardo. O elefante verde ou pardo não
sonhava com o futuro. O elefante verde tinha, isso sim, uma memória prodigiosa,
que o fazia recordar e reviver os antigos dias com os parentes. Alice suspirou:
-
Deus fez o mundo, depois andou de tamancos no barro, deixou pegadas
pré-históricas e inscrições rupestres pré-históricas.
-
Rá! Não desprezou o mais raro pormenor.
Outro
dia, cruzando a pracinha, não viram o sábio pajé ou o velho cacique anambé, o
xamã. O dia estava chove-não-molha, pintura inconclusa, então, andaram pela
cidade, entraram em lojinhas, nos mercadinhos, em feiras livres, nos bazares,
nos bricabraques, pelas ruas transversais, becos, pracinhas. E na volta se
alegraram com o céu interessante, com o ocaso. Reencontraram o velho cacique, e
o presentearam com uma calça azul desbotada, um radinho com fone de ouvido,
chapéu de sol, um lenço vermelho de pescoço, calendário do ano anterior,
cartão-postal da ponte Rio Branco. E lhe perguntaram sobre os deuses e os
espíritos e outras coisas finas, assim:
-
Qual o vivente que mais anda viajando e por quê, pajé?
O
velho pajé, o curandeiro, esperou um pouco, ergueu os olhos para as nuvens
perdidas no céu - às vezes resolvia aparecer com periquito no ombro, outras
vezes com cobra trançada ao longo do braço, ainda com um sagui seguro por uma
coleira -, um meio minuto pensou por pura preguiça, voltou a olhar mal e mal
para as figuras que o interrogavam e disse:
-
É o elefante verde. É a anta verde gigante. Mais quietos, muito mais quietos do
que deveriam estar.
Na
terça-feira, Alice e o esotérico, mais um punhado de outros turistas, guiados
por pantaneiros experientes da região, foram visitar os jacarés-de-coroa, as
capivaras, as antas, as pacas... os ninhais de socós, cabeças-secas, tuiuiús,
garças-brancas, seriemas... à beira dos banhados e rios e lagoas e lagos e
corixos.
Ficaram fora
até o final da semana, acampados no mato, surdos de tanto ouvir o piar, o
grasnar, o clarinar, o trilar, o zumbir, o gorjear, o cricrilar, o coaxar...
Com sorte poderiam ouvir o ronco da onça jaguar, da jaguatirica, do
gato-do-mato-grande, da jaguaretê, da jaguarana-pixuna... Caminhos e
caminhadas, veredas, passeios de chalana, cavalo tubiano vermelho, fotos,
muitas e tantas coisas, mosquitos, burra-leiteira, pintados, capivaras,
araras-azuis-grandes, aldeia baenã, nelores, tucanos-do-bico-laranjado,
bem-te-vis-do-gado, jaburus, mangas-largas, quero-queros, piranhas, quixabeira,
mosquitos, manduruvás e mutucas. Principalmente à noite, muitos pernilongos,
muitos e todo tipo de mosquitos, borrachudos, mosquitos aos milhões, ferozes,
enormes, trombeteiros, duros de enxotar, sempre presentes, muitos mosquitos,
quase que só havia mosquitos. E mosquitos deixam pessoas e coisas sem sono,
mal-humoradas o dia todo, e as noites sem dormir. No jantar, em roda do fogo,
dentro da noite, no meio do banhado, por dentro do coaxar dos sapos-martelo:
-
Tudo bem, é o maior banhado do planeta. Chapadas, serras, maciços, morros e
principalmente alagados, baías, lagoas e rios. As águas vêm e vão, sobem e
descem. Aqui chove muito em determinada época do ano.
- Rá! É o
causo de nunca faltar peixe, nunca faltar rios. Mas nunca falta, nunca faltou,
nunca faltará. Não faltarão mosquitos, também.
Os
jacarés estavam por toda parte, se postavam na praia ou no lajeado ou
camuflados nos aguapés ou entre os gravatás, à boa distância da curiosidade dos
turistas, dormindo na correnteza aguardando os peixes que vinham descendo
inocentes, papo aberto só esperando. E dos ninhais á beira-rio vinham
algazarras em vários idiomas e cores, todo tipo de pios, xingos, berros, risos,
gargalhadas que atravessavam o dia, atravessavam a noite, algazarras
ensurdecedoras atravessavam o verão todo. Turistas alemães e portugueses e
finlandeses e turcos tiravam fotos de jacarés apoquentados, gordos, papudos,
embalsamados, sonolentos, fingidos. A paisagem sofria com as velhas e baixas e
nervosas árvores folclóricas ou típicas do cerrado. Nos rasos dos rios, turmas
e turmas de piranhas buscavam o café da manhã, buscavam o almoço e o jantar.
Não adiantava só olhar, necessário era tirar fotos para reter o milagre do
jaburu pousando no angico, e outras aves, ou do gavião-carijó perseguido pelas
tesoureiras. Mas nas noites o que valia, e muito acontecia e não escapava outro
jeito, eram os ataques multiplicados dos mosquitos. Terra dos mosquitos.
Mosquitos e o fim da picada.
Viagem
muito proveitosa, e boa em vários segmentos de interesse, em vários idiomas,
foi aquela feita uma vez que fez Alice à cidade de Rio Acima, Minas Gerais.
Aí,
então, assim, Alice e esotérico partiram no jornal da manhã do dia seguinte um
domingo. Foram de ônibus até o próximo município de Porto Murtinho, mesmo
pantanal e Estado da federação. E nada do cenário mudar nas ruas, nas casas e
prédios, na cidade baixota, nas ruas de motos e bicicletas e cavalos baios ou
zainos. O povo com seu destino anfíbio, casas de calças arregaçadas ou saias
levantadas até as coxas e canoa no quintal e jacaré no banhado e jaburu
empoleirado e zebu comendo pasto atrás do arame farpado.
Numa
cidade Mundo Novo, sem milagres, numa cidade de Naviraí, que parecia uma aldeia
nova, o casal arrumou por sorte um hotelzinho com cara de pensão de boiadeiros,
pouso de mochileiros, parada de caminhoneiros, Alice:
-
Existem feiticeiros e feiticeiras, bruxos e bruxas por acá?
A
dona da pensão respondeu, contando:
-
Um santo andarilho, talvez velho índio paraúna - chamavam-no de O Peregrino -,
passava de cidade em
cidadezinha. E chegou num lugar naquele justo dia, lugar
chamado Nova Andradina. Veio de onde menos se espera, de onde não se sabe e não
importa. Os passarinhos assobiavam nas guararemas, que-te-guê! que-te-guê! ou
ti-ro-li ro-li! ti-ro-li ro-li! ainda, ri-qui-ti-ti! ri-qui-ti-ti!...
“O Peregrino,
vou lhes contando, tinha a missão de ensinar ao povo uma tradição. Então, ali,
foi ensinando a fazer canoinhas e bonecos de pano nas cores escarlate, roxa,
lilás e com enchimentos de algodão. Alguns poucos dias os bonecos e as
canoinhas ficaram prontos. Uma turma de caboclos remou rio Cuiabá acima para
largar as canoinhas de brinquedo. Noite de lua perfeita. Os homens subiram o
rio em três quilômetros, mais ou menos. Lá em cima, então, os caboclos soltaram
as canoas de brinquedo, cada uma pilotada por um boneco, vela acesa. As
canoinhas de brinquedo desceram mais devagar a correnteza. Toda a cidade
esperou na beira da praia. Noite de lua e estrelas. Horas depois, as canoinhas
largadas lá no alto Cuiabá, soltas e sozinhas e iluminadas e sem pressa, já
cruzavam pela frente da cidadezinha. As canoinhas, os bonecos nas canoinhas,
cada boneco com uma vela acesa, desciam ao sabor da correnteza. Era maravilhoso
só olhar. E a cidade viu e festejou aquela passagem dos barquinhos. A cidade
toda enfeitada de flores, enfeitada de músicas, enfeitada de toda gente alegre,
enfeitada de fogos, enfeitada de turistas, enfeitada de auês!, enfeitada de
bailes, enfeitada de atabaques, enfeitada de desfiles de carnaval, enfeitada de
cervejas e espetinhos de carne assada na brasa ali mesmo na calçada da rua. A
procissão silenciosa dos bonecos de pano em canoinhas cruzou pela cara da
empolgada cidade. Sozinhas e acesas, as canoinhas foram passando, indo, indo
até desaparecer, acompanhando o rio lá pra baixo. As pessoas olharam até que
puderam, até cansar a vista, até não ver mais nada. As canoinhas sumiram rio
abaixo. As pessoas comentaram. A manhãzinha veio. As pessoas voltaram para as
suas casas. Ficaram as flores enfeitando os lugares, até que murcharam e
apodreceram. Mas, ano seguinte, então, o povo da cidadezinha já sabia. Ninguém
mais precisava explicar ou ensinar. Manteriam a festa. O Peregrino, mala e
cuia, pegou outra estrada e seguiu para outra cidade, que tal a cidade de Água
Boa?, etecétera. E seguia de cidade em cidadezinha, não sossegava, sua missão
talvez fosse caminhar eternamente e ensinar a tradição dos bonecos canoeiros.”
Alice
exercitava tai chi chuan na laje do hotelzinho, pensão com feitio de pousada
miserável ou quebrada. Viagem também muito boa foi aquela outra a Olindina,
Bahia. Abriu os olhos com o canto ou assobio de um passarinho. Era passarinho
ou estaria redondamente enganada?
Alice
espertou, olhou em volta, desceu da laje até o pátio atrás do prédio, olhou
para todos os lados, o canto insistia. O canto vinha de dentro das árvores?
Hum!, não se sabia. Parecia mesmo que vinha de um sonho ou de um mistério.
Talvez do meio das ervas rasteiras, das ervas daninhas? Das nuvens ligeiras?
Talvez de um sonho? De um espírito perdido? De um aquário? O vento sacudia as
árvores copadas, as sombras caíam desequilibradas entre as folhas
desequilibradas, etecétera. Alice investigava pé ante pé, e árvore por árvore.
O canto suave hipnotizava, estava difícil, estava aqui, ali. Que encanto era
aquele? Uma fantasia da infância? Quem cantava? Seria um ser invisível? Seria
um jabuti? Um peixinho mergulhado no aquário? Talvez uma cigarra ou um grilo ou
um gafanhoto ou louva-a-deus. Já demorava. Parecia vir do alto, ou do chão, da
cabeça de quem ouvia, hum!... ainda não. Alice continuou a investigar, mas nada
de sinal, nada de passarinho, nada de inseto, o canto ou assobio não calava,
estava quente ou estava frio, assim ali, atrás do largo cajueiro, opa!, o canto
parou. Alice se deparou descobrindo surpresa o elefante verde.
-
É você que vem cantando esse canto encantador? Pelo canto se conhece a ave.
O
canto silenciado, o pio silenciado, não seria possível fosse o elefante verde,
quem sabe tenha sido tudo a ilusão, foi mesmo um canto ou um assobio ou um
gorjeio? O elefante verde não falou. Não falaria.
Tudo
corria como era de se esperar. Tudo não corria como não era de se esperar. Tudo
corria como não era de se esperar. Tudo não corria como era de se esperar.
Sol
bonito, águas bonitas, céu bonito, vento bonito, barlavento, Alice bonita.
Viagem ganha mesmo assim, muito tempo antes ou depois, foi aquela que fez a
Muaná, Pará.
E
era isso, o elefante verde olhou Alice e não disse nada, nem quase parou o que
estava fazendo, não fazia nada de original, talvez descansasse ali na sombra
aproveitando a sombra e umas ervas verdes, mastigando pasto verde, o canto
silenciado, o assobio silenciado, Alice se dirigiu ao elefante verde:
-
Onde aprendeu essa arte de encantamento?
Alice
se virou para ir, então foi, e o canto recomeçou, o assobio reiniciou, Alice
parou estátua, girou devagarzinho nos calcanhares para olhar o elefante verde,
e o olhou, o canto novamente silenciado, o elefante verde mastigando de boca
cheia, Alice pensou um pouco, contou até dez, seria o elefante verde um
ventríloquo? Se fosse, ela deveria lhe dar os parabéns.
-
Se me distraio, o canto recomeça; se olho, o canto cessa.
Talvez
o elefante verde estivesse brincando, o dia realmente estava muito bonito,
impossível, cintilante, seria sonho?, era verdade? Porque as coisas acontecem,
sim.
Alice
encarou o elefante verde e este lhe devolveu. Alice olhou os olhos castanhos do
paquiderme, olhos de mel, olhos doces, olhos como cor de areia de beira de rio,
olhos castanhos... talvez verdes, impossível ter certeza. Alice fingiu se virar,
deu uns passos, pronto!, o canto recomeçou. Rápida como um raio, então, como um
raio doce, Alice se voltou, pronto!, o canto silenciado. E não deu tempo para
perceber se fora o elefante verde ou um coleirinha esperto ali por perto entre
enfiado no paratudal.
O
casal circulava pela cidade de Miranda, conhecendo a nova cidadezinha, a
aldeola dos índios caiapó-mecranoti, era o mesmo pessoal anfíbio das cidades
anteriores, as mesmas coisas à venda e por fazer, o casario baixote, as mesmas
caras, na pracinha uns poucos canteiros e o busto de um bandeirante - ou o que
for - de arcabuz nas mãos, chapéu de vaqueiro pantaneiro, botas grandes. E
sentado no degrau da capela... era isso mesmo?, um velho pajé esperando
turistas, veranistas. O xamã velhinho agradecia batendo a cabeça, só falava na
língua lá dele de índio, guardava quase sem olhar o que lhe presenteavam, como
bolinhas de gude, etiquetas raras de vestuários caros, prego de duas pontas,
cds sertanejos pirateados, revistas pornôs de capa rasgada, abotoaduras de
plástico, bexigas de festa, moedinhas de cinco e dez centavos de real, um
óculos escuro sem uma perna, cartão-postal da ponte Colombo Sales. Primeiro o
esotérico:
-
Rá! Qual a melhor perfeição: o sonho ou a fantasia?
Depois,
Alice:
-
Olha, esclarecido pajé. A sabedoria está por um fio? A sabedoria está sozinha?
A sabedoria passou sem a natureza saber? A sabedoria está cansada de subir e
descer montes e montanhas? A sabedoria caminha como um peregrino? A sabedoria
amadurece e cai? A sabedoria inventa tradições e carnavais? A sabedoria procura
a alma de cada ser? A sabedoria se esconde no muiraquitã com cara de sapo?
O
pajé careceu que o interprete cochichasse. O pajé também se ocupava com posar
para fotos com os turistas. O velhíssimo pajé vendia sementes de guaraná, açaí,
sucupira, jenipapo. O velho cacique batia a cabeça agradecido com os presentes,
como cds de axé e de forró, grampos de cabelo, biscoitos de milho, caixinha de
lenços descartáveis vazia, pastilhas de hortelã ou morango, chaveiro de
garrafinha de refrigerante, toalhinha para o calor, jornal do dia seguinte,
cartão-postal da ponte Aricanduva. E Alice se dirigindo ao amigo esotérico:
-
Deus sabe onde estamos, pois não?!
-
Rá! Bem, estamos à procura de disco voador, pirâmide enterrada, montanha de
ouro, cratera de meteorito, inscrição rupestre pré-histórica, pegadas de dino,
cemitério de conchinhas, a chave de ouro de Atlântida, fóssil de preguiça
gigante, um ossinho de sacissauro, pote de cerâmica marajoara, sítio de
Calçoene, raízes ou óleos ou gomas ou folhas para o rejuvenescimento,
cogumelos, cipó pra fazer o santo daime, barbatimão.
A
paciência de uma árvore silenciosa é silenciosa. Quem pinta o sol que pinta o
dia todos os dias? Quem pensou regar a terra com cortinas de água das nuvens? A
árvore que dá sombra move o vento, a chuva, o sol, o tempo e não sai do lugar.
Viagem de Alice foi aquela que fez a Nazarezinho, Paraíba.
A
região do pantanal vivia pastando nos campos verdes-líquidos e céus azuis, um
baita lugar azul de luz e ar. A cidade de Maracaju não via uma montanha desde
sempre. Mas rios Piquiri, São Lourenço, Taquari, e rios e águas e chuvas
ofereciam outros mistérios muito cheios. E os bichos dessas águas também. E por
falar, diziam de uma salamandra escondida e encantada sob uma cascata véu de
noiva. Existia uma teiniaguá cuidando de um tesouro jesuíta. Ainda do tempo
colonial. Coisa antiga e misteriosa, ou até sobrenatural, ou extraterrestre.
A notícia
desse mistério rico em ouro e prata e pedras preciosas provocou uma corrida de
aventureiros, turistas, veranistas, muita gente atrás de novidades, e de
ecologistas com camisetas de ônguis, repórteres de tevê a cabo. Contrataram
guias, mateiros, tabajaras. E partiram numa manhã de luz excessiva. O elefante
verde fechou a fila ou abriu a fila, carregando a parte mais pesada dos
equipamentos da equipe de tevê.
Os
turistas acreditavam no tesouro escondido, Alice e esotérico acreditavam no
tesouro inédito, o elefante verde conseguia acreditar no tesouro oculto, os
guias acreditavam no tesouro encantado.
-
Dizem que era uma princesa que se transformou em iguana fêmea. Ou uma iguana
fêmea que se transformou em
princesa. Uma iguana fêmea que criou pedra preciosa na testa.
Como sempre um amor proibido de uma índia charrua de treze anos com um padre
jesuíta dos seus trinta e três ou trinta e quatro. Não se tem certeza de nada,
faz um tempo absurdo. Na época do Brasil Colônia toda a terra sofria de
encantamento. O tratado de Tordesilhas não valia mais nada, não valia mais. E
se dizia que o tal jesuíta, flagrado namorando a índia charrua ou minuano, fora
mandado de volta para a Europa, para as bibliotecas de Roma ou Coimbra ou
Madrid. Não se ouviu mais falar dele, coitado. A indiazinha minuano ou coroado
chorou as pitangas e as gabirobas e as azedinhas amarelas. A gruta véu de noiva
era o esconderijo dos amantes. Um dia marcado ela esperou, esperou. Ele não
apareceu. Nem retornou mais. Aí, dizem que a indiazinha xirianá morreu
esperando. Que se terminou em lágrimas quentes. Assim, então, pareceu que
aconteceu um milagre raro. Talvez uma mágica, uma feitiçaria, uma bonita
fantasia. Alguma coisa inexplicável aconteceu, com certeza. Uns querem teimar
que foram as lágrimas tristes da pobrezinha tupi-guarani que viraram pedras
preciosas. Outros que o padre jesuíta roubava o ouro e as pedras preciosas da
Redução e as escondia na gruta. Ainda existem os que pensam em tesouro que
bandeirante enterrou. Os namorados foram então descobertos. O padre foi mandado
embora, campo afora, ínvios caminhos, em lombo de matungo. E a indiazinha
coroado ou charrua ficou esperando pelo amado, e cuidando do tesouro, e
chorando quase sempre. Até hoje é assim. A teiniaguá tem esperança de ver o
amante chegar. E viverem felizes para sempre. Mas... tudo bem, isso é lenda. E
bandeirante nunca que enterraria tesouro. Talvez jesuítas enterrassem.
Aí,
toda a cambada, indefinível os tipos e vontades e esperanças e profissões e
estilos de vida, entrou na caverna da teiniaguá. Do lado de fora restou sozinho
o elefante verde e seus olhos de campo afora. Ele e muitos equipamentos de
escavar. Ele e a cuia e a erva-mate e a água gelada para o tererê. Ele e o
ecossistema pantaneiro, que não era pouco como ainda é muito, árvores baixas,
nervosas, fortes, atarracadas, oitizeiros, juás, e mosquitos, mosquitos nem se
fala, borboletas vermelhas, verdes, brancas, besouros e aves que não se podiam
contar, se ouviam cantar, os cantos dos bem-te-vis-do-gado, dos
tucanos-de-bico-preto, dos quero-queros alertas, das araras-azuis-grandes,
emas, jaçanãs, perdizes, japiins...
A capivara ou
a anta verde gigante olhou o campo aberto. E suspirou e não disse nada e
continuou mastigando os tufos de canarana. No rio corrente os peixes dourados
ou vermelhos ou amarelos ou metálicos assim parecendo um sonho de outros
passarinhos que viviam num outro elemento, que batiam barbatanas em vez de
asas. Os beija-flores também metálicos, as flores anônimas do campo, flores
amarelas, orquídeas luxuosas. Às vezes um espelho que se confundia com a cara
do céu azul, um mundo redondo, circular e esférico. O vento passava sem tempo
fixo, o vento nas folhas das árvores tagarelas, embaúbas, carandás, buritis. Um
casal de passarinhos esquivos ou tímidos ou ressabiados, ele macho de penugem
amarela por baixo e cinzento nas costas e ela fêmea toda de marrom ou
marronzinho. Enfim, coisas para se olhar, repassar, aí ou não.
O elefante
verde e sua paciência sem desgaste e sem limites. Pastava muito, não pensava
muito, tinha sua memória que era o tempo. Pois o elefante verde sobrou ali fora
da gruta e da aventura do tesouro. Sobrou sozinho o dia todo, descansou na
sombra e até cochilou deitado no taiobal. As nuvens se empurravam com os
ombros, pareciam brincar, pareciam tantas, pareciam ligeiras, pareciam
cogumelos gigantes ou manadas de antas gordas, enigmas brancos ou cinzentos. E
manadas de antas lhe provocaram saudades.
A noite
engoliu o elefante verde. Então, ele se sentiu mais calmo. Nem tudo quieto e
silencioso. Se deitou perto da furna, ouvindo o chuá da cascatinha véu de
noiva. Dormiu com um olho aberto, ouvindo também insetos zunzinar, cricrilar,
cracralar.
No dia
seguinte acordou com os pássaros, antes do sol, e já faminto. Tomou banho de
cascatinha. Toda aquela sua força de vida o puxou para o capim e as folhas
verdes, quem sabe umas frutas silvestres, uns araçás ou umas goiabas-do-mato.
Andou uns bons metros para lá. O sol surgiu para as bandas de Aparecida do
Taboado. Até aí, não acontecera nada que pudesse deixar o elefante verde
preocupado ou com sorte. O elefante verde nem tinha intenção de voltar sozinho
para a cidade ou mesmo fugir. Então, continuou aguardando os acontecimentos e
mascando ali o capim do dia, endireitava a cabeça para saber da paisagem, um ou
dois chupins subiram no seu ombro, mosquitos do dia, a paisagem evaporava sob o
sol de vulcão, o vento soprando a paisagem para um lado.
Depois,
um dia de chuvisco, mês das águas, a paisagem adorando tudo, a tarde apreciando
o chuviscar, Alice e o esotérico pegaram o trem transpantaneiro lotado de
gentes, galinhas, porcos, trouxas, malas, amarras e cheiros. Seguiram uma
cidadezinha de Jauru, mais para o sudoeste.
Pronto, já
chovia muito, era época das águas tomarem conta da planície, e da terra toda,
as estradas já estavam afogadas. As pessoas com a água pela cintura, ilhas
verdes, as casas com água pelas canelas, o transporte em canoas, botes, balsas,
dingues, chalanas. O casal de aventureiros ia para o rumo da pequena cidade que
já sofria inundação. Partiram pela tarde do dia seguinte.
Na cidadezinha
de Rio Brilhante, uma praça, uma rua, só restava a igreja no alto do morro onde
a água ainda não bebera. Ali chovia muito. Para lá se refugiou o povo, os
turistas, o gado vacum, o gado equino, o gado lanígero, o gado alado, o gado
rastejante, o gado zumbidor. Viagem bem ganha fora aquela para Tupi, São Paulo,
uma vez.
O
pantanal, a grande planície alagadiça, já parecia um imenso arquipélago, aqui e
ali matinhos verdes recebendo canoas, gentes e bichos, parecia ainda como
aqueles países perdidos no imenso oceano, verdes jogados no mar como búzios,
milhares de pequenas ilhas precárias, como se fosse, e jacarés de olhos de fora
espreitando tudo tudo. Nuvens com ideia de montanha, os raios se quebrando em
galhos, os trovões sacudindo o planeta.
-
Aqui tem muito jacaré, jacaré bebe muita água, jacaré precisa de muita água,
jacaré vive onde tem muita água, jacaré se diverte muito na água, e onde tem
muita água chove muito e tem muito jacaré.
Molhada
dos pés à cabeça, cabelo escorrendo, olhos úmidos, quase gripada, Alice por
pouco não acabou se resfriando:
-
Vou seguir os caminhos, e a esperança por consolo.
-
Rá! Mas as pessoas não são, e não são simples como a gente quer e imagina.
-
O que muxiba? O que nutar? O que jacuba? O que simonia?
A
capela estava tomada das gentes e bichos domésticos e trouxas. Canoas como no
ponto de táxi. Num canto o velho pajé, sentado, fumando seu cachimbo de barro,
já estendera uma toalhinha para receber as ofertas, pena de galinha, prego
torto, copo descartável, carrinho de madeira, aviãozinho de plástico, pedrinha
lisa, taça de cristal rachado, cigarro solto, tampinhas de cerveja e guaraná,
santinho de candidato a deputado estadual, meio livro de O Guarani, anel de
fantasia, cartão-postal da ponte Ernesto Dornelles.
O altar da
igrejinha todo encolhido no cantinho, pequeno e pintadinho de azul, mal
iluminado pelas janelas de basculantes de vidro batido, brilhando mal e mal com
as pequenas e poucas velas acesas, umas estampas de santos e santas, um Cristo
na cruz, os poucos anjos barrocos olhando o alto. Não, não restava mais espaço
no templo. Andorinhas e corruíras revoavam perto do teto. Andorinhas são
pássaros urbanos? A água vermelha chegava no limite de entrar e alagar tudo.
Lá fora as
pessoas improvisavam reuniões acocoradas nos galhos das árvores, amarradas nos galhos
para não cair de sono, fumando debaixo do guarda-chuva. Eram macacos-pregos. E
os dias seriam longos, semanas e até alguns meses. Naturalmente alguns meses.
Nuvens de dois andares. Chuva constante. Grandes árvores viravam salão de
bailes, sala de jogos, praça de passeios, paineiras, ipês-amarelos, embaúbas...
As pessoas e os bichos domésticos pegavam cor verde na pele, no pelo, nas
penas, na sola do pé em primeiro lugar, nas orelhas e depois nas escleróticas.
Com o passar dos dias verdejava tudo, umas feições anfíbias, batráquias, sem
cauda. Os jacarés-de-coroa dando sopa, olhos asiáticos, olhos de fogo frio. As
curicacas falavam alto:
-
Gra-gra-grá!... Gra-gra-grá!...
O
esotérico preocupado com os dias úmidos de Alice:
-
Rá! Cem, quem, ninguém.
-
Grilo não faz sombra.
-
Rá! Muito xarope de mel de jati e agrião e cachaça com alho moído.
À
noite as pessoas e os bichos se entupiam na nave do templo, se empurravam, se
estreitavam, se acotovelavam, se agarravam para dormir, se aninhavam, se
cheiravam, se comiam, quase se comiam. As noites eram longas e úmidas, cheias
de tosse tosse. Outros ainda ficavam lá fora nas árvores, dormindo nos galhos,
redes penduradas nos ramos, guarda-chuva aberto, capa impermeável amarela.
Chovia sem
pressa de parar, e chovia muito, e ainda chovia pouco. Nas manhãs muitos mortos
boiavam sobre as águas nebulosas e barrentas. O céu fechado, sombrio, pesado,
baixo. Pedaços de casas lá iam embora, troncos de árvores nadando ao sabor da
correnteza, ilhas ambulantes. Chovia todo dia e todas as pessoas sabiam que
carecia chover muito mais. Pois chovia pouco. E era comum chover muito nessa
época. E o céu precisava chover. E não parava de cair água.
Alice
lembrou muito bem da viagem maravilhosa que fizera à terra do Maranhão, passeando
pelos Lençóis Maranhenses.
Árvores
molhadas, árvores até o pescoço, árvores altas afogadíssimas até o pescoço,
ilhas verdes, águas, pontilhões submersos, águas e correntezas, dois andares de
águas.
O
pajé ficava permanentemente no seu lugar predileto debaixo da porta da
igrejinha. Sentado no chão frio com as pernas trançadas. Pegava o violão de vez
em quando e tocava músicas gospel. O mar de água doce arrastando todas as
espécies de coisas. Os dias e dias descendo rios abaixo... Homens empoleirados nos
galhos das árvores, de guarda-chuva, esperando pacus, dourados, piraputangas,
jaús, piaus... e dali mesmo telefonavam, ali mesmo gesticulavam, urinavam,
sempre hipnotizados pelo grande lago em que se transformara o mundo. E os rios?
Que rios? Rio Aquidauana, Miranda, Apa, Cuiabá, Taquari...
Os jacarés com
limo nos olhos, olhos verdes e fixos. Todos os viventes desanimados com a
vontade do céu, sem nunca poderem fugir, nadar para onde?, não ter onde ir. E
os jacarés espreitando, os olhinhos de fora por trás das folhas das árvores,
por entre a galharia, debaixo do temporal. E não passava dia sem que se ouvisse
notícia de jacaré apresando gente, gente caindo na água e desaparecendo, jacaré
passando bem, gente sumindo.
E o pajé
uru-eu-uau-uau esperava com sua costumeira paciência, ouvia rádio, aprendera
com a paisagem alagada, ligava o rádio e o punha no ombro junto ao ouvido,
tocava samba, forró, balada romântica e suspirosa e melosa, uma mpb virtuosa,
maxixe, gauchesca, axé, baião, toada... Alice e o esotérico aguardavam com
suspiros e sem sorte tocasse o que nunca tocou e nem nunca tocaria qual seja a
protofonia da grande floresta tropical.
Alice lembrou
Marcelle numa menininha que sempre, por esses dias chuvosos, acompanhava o
pajé. E quando Alice se aproximou a garotinha começou a rir - visse só como
ria! Alice olhava a menininha rindo e a garotinha rindo olhava Alice. Alice
lembrou, claro e óbvio, de Marcelle. Marcelle sonhada pelos índios goitacás?
Mas a menininha, provavelmente netinha do pajé, ainda por cima ria sem parar,
sem freios. Uma menininha branca, alva, alvíssima, sardenta, tempestade de
marfim, e também linda, sorriso liso, gargalhada explosiva e falar falava sons
gorjeantes. O pajé pescava um sono meio entregue, balangando, cabeceando ali sentado,
talvez no sonho. Alice, recuperando ou tentando recuperar o moral:
-
Que que quer, menininha? Nunca te viu?
A
menininha, talvez mascote do pajé, talvez netinha, talvez filhinha, talvez cunhantaim
sapuiá-quiriri, não conseguia passar de rir, se contorcia atacada de cócegas,
segurava a barriga, coçava as costelas onde provavelmente apontariam asas,
rolava no piso úmido do templo, lagrimejava de tanto doer de rir, sem parar de
rir. Que estoure de rir, então!
O
pajé acordou, mas acordou perplexo, como se ressuscitasse e, meio às tontas,
quis pegar o rumo das coisas. Esquecido olhou ao redor, olhou em volta até
encontrar apoio, passou em revista as ofertas do dia, uma caixa de sapatos
vazia, um cinzeiro trincado, uma calculadora a pilha sem pilha, um calendário
do mês passado com uma estampa de montanha apontando o dedo, um prego com uma
fita vermelha, um pé de sandália de alças de couro pintadas de vermelho,
cartão-postal da ponte do Potenji, e daí, então, ele caiu em si, se recuperou,
olhou Alice para dizer:
-
É tudo coisa da idade, esta menininha. Assim como se ri, pode virar em choro ou
sono, esta menininha.
A
menininha ainda não podia parar de rir, e não se sabe se preferia ou gostaria
parar de rir. Alice já achava que a garotinha podia estourar de tanto rir.
Então, Alice virou as costas e saiu embora, deixou que a tal menininha se
derretesse de muito rir.
Chuva
eterna, planeta água, nunca mais o sol, restos e pedaços e sobras na
correnteza, o pajé tonto de sono recebia as ofertas, como corte de tecido
xadrez vermelho com amarelo, prego pintado de azul, chapéu de palha desfiado na
aba, lata de leite em pó vazia, boneca com cara de estrela de tevê sem uma
perna, livrinho com hinos e orações manchado de chuva, animais de estimação
abandonados ou órfãos ou aleijados ou doentes: um gatinho, um cãozinho, um
pintinho amarelo, um mede-palmo, um gafanhoto verde, e o cartão-postal da ponte
Costa e Silva.
Todas as
pessoas ali atiradas e cansadas, atulhando a nave, rezando pelos desaparecidos,
pelos afogados, pelos incorporados aos jacarés, etecétera, sem esperança de um
dia reavê-los, reconhecê-los, enterrá-los e rezá-los.
-
Rá! Não tenho como provar, está fora longe de mim, mas essa parte do país deve
mesmo ficar logo abaixo das lágrimas do Senhor.
-
Gosto de ver a chuva cair. Sempre é bom. Não toda de uma vez, como esses dias,
uma vez.
E
Alice se desgostou, se desgostava do clima, do isolamento, da falta de
Marcelle. Lembrou de Uruguaiana, Rio Grande do Sul, onde chegou certo dia de
verão tórrido.
-
Tô com saudade de Marcelle lá deslumbrada com os índios jurunas.
-
Rá! Os índios antigos sempre fizeram inscrições lá pelas grutas e pedras de
Sete Cidades. E outras grutas de Goiás, Minas Gerais, Bahia, Sergipe...
O
receio maior era nunca mais rever o sol. As pessoas tinham o templo lotado ou
os galhos escorregadios das árvores, manhãs invariavelmente nubladas, chuvosas
e frias. Viam-se homens boiando na correnteza, caídos de maduros ou de sono ou
de cansaço ou de preguiça. O limo verde pegava a palma da mão, atrás das
orelhas, descia pela garganta. Os jacarés-de-coroa bem gordos e sempre à
espreita, cuidadosos, famintos, olhando detrás da copa das árvores.
Alice
e o esotérico chegaram para o pajé ali sentado sob a aba do templo, e o
interprete traduziu:
-
Rá! Como? O quê? Por quê?
O
velho velhinho, declarou, traduzido:
-
Então, escolham e olhem por uma das árvores mais altas. Uma castanheira, quem
sabe. A sumaúma, quem sabe. O umbu, quem sabe. O babaçu, quem sabe.
Os
dois semoventes presentearam o pajé com uma pena de pavão, um isqueiro
multichama, um chapéu pantaneiro com fita verde, uma guaiaca de couro, um
canivete com cortador de unha e lixa de unha, um par de tênis usado com fecho
de velcro, um cartão-postal da ponte Jurubatuba, e saíram fora, vazaram, os
dois.
Embarcaram na
canoa ou no bote de borracha, dois remos, nenhum colete salva-vidas, nem boias,
nem capa impermeável, nem bornal de comida. Procuravam pela árvore altíssima,
uma árvore-mãe, uma árvore-rainha, procuravam olhando o alagado sem fim. Quem
sabe um jerivá, um jequitibá, um açaizeiro, um pinheiro-do-paraná. Caía a chuva
continuada, séria, e ainda chovia pouco, bem que podia chover mais, chovia o
que o céu mandava e não cabia mais. Não se percebia os horizontes por estarem
encobertos pela neblina e pela cortina da chuva, o teto muito baixo, carregado
e pesado de nuvens negras, nuvens de dois andares, parecia divertido. Divertido
para os jacarés-de-coroa!
-
Rá! É como não encontrar sapo num alagado.
O
reino vegetal naufragara, se afogara, praticamente. A árvore-mãe podia ser um
jequitibá, um buriti, uma castanheira, um umbu, uma cabriúva. Que não se via
aqui, ali, acolá. Uma tristeza de mundo interrompido. A dupla já estava
perdida. Muito tranquilamente se perderam. Nenhuma referência. Percebiam
pessoas acocoradas como galinhas ou como macacos-pregos nos galhos e nas
coberturas das casas afogadas. Chuva forte, chuva natural da estação.
Reconheceram já cem vezes que estavam perdidos. Só o acaso os faria topar com a
árvore-mãe. Estavam prisioneiros do alagado, afogados no labirinto, cobertos
pela cerração. Remar ou não remar estava no mesmo. Entregavam os pontos. Viam
raios e ouviam trovões. Entregavam os pontos? Alice recordou a boa viagem a
Chapecó, Santa Catarina, aquele verão de dois mil e dez, verão de dois andares.
-
Estou verde, isso sim.
-
Rá! Estou anfíbio, isso também.
Muitas
horas após, ou dias, em meio ao nevoeiro e a chuva fria, Alice e o esotérico
escutaram um assobio, ou um trilo, ou um pio, ou um casquinar. Era um chamado?
Era um convite? Era um canto? Era um chamado ou um aviso ou uma mensagem ou uma
risada. Remaram curiosos seguindo o assobio, ou seria mesmo um gorjeio, mesmo
um tilintar, um chilreio, foram remando na perseguição, durante o mundo
aquático, naquele sentido do chamado.
-
É o que me parece? Escuto bem?
-
Rá! Escuto, ouço e obedeço.
Era
para ser um carcará, um porco-do-mato que sabia nadar, uma piranha, um bugio,
uma onça-preta, um gravatá, mas podia ser qualquer outra coisa, até mesmo um
sonho, mesmo um homem tocando flauta, estava difícil, custava encontrar o
fenômeno.
-
Será o pé da cobra?
-
Rá! Uma distância desconhecida entre o perto e o longe.
Uma
feita subiram num interessante carandá para ver mais além. Tiveram, assim, uma
ideia melhor e mais além do labirinto. Não se via muito longe, não se via muito
bem. Viram um elefante verde parado, meio aborrecido, pastando as folhas sobre
as águas, nadando com calma entre a copa das árvores. Podia mesmo ser elefante
verde alado, ou uma anda verde gigante alada. Também o elefante verde estava
perdido.
-
Rá! Um elefante verde pode nos reconhecer e assobiar quando está perdido.
-
Um elefante verde tem memória suficiente para não depender de ninguém. Mas pode
salvar as pessoas.
E
o assobio cessara. O elefante verde silenciou? O elefante verde olhou os dois,
depois, por uma ordem estranha e interior, se aproximou da palmeira. Alice e o
esotérico deslizaram para a cacunda do elefante verde. Aí, os três seguiram um
rumo qualquer. Como saber? Alice achou boa e ótima aquela viagem à cidade de
Mossoró, Rio Grande do Norte, certa feita, pouco tempo atrás.
O
elefante verde e o casal foram por aí de uma vez, o nevoeiro não deixava saída,
não dava conforto. O elefante verde, ou anta verde gigante, parou uma vez ou
outra para mascar algumas folhas, quase mergulhado no rio, chovia muito, e
chovia pouco. O elefante verde parava para cochilar ou para olhar a sua própria
memória, mascava folhas tenras e apetitosas, ria sozinho, Alice temperou:
-
Não acho que seja o fim do mundo.
-
Rá! Tudo bem que estamos perdidos...
O
elefante verde não falava, não assobiava, mascava, se deslocava devagar no
alagado. E quando não dormia, ou quando não comia, então nadava para um rumo
desconhecido, seguia, seguia. Vinte horas depois, foram entrando para uma
região de menos chuva, principalmente.
Uma manhã
entraram no lugar da não chuva. O sol cegava, tudo cintilava, verberava. Tudo
que pudesse cintilar cintilava. Saudaram o sol como coisa rara, como deus de
quinhentos milhões de anos. O sol forte e o céu limpo com espelho azul na terra
alagada. Mas a terra ainda estava alagada. Havia horizontes e montanhas e aves
piando no trânsito do alto, insetos arriscando a vida, sons de todas as cores,
arbustos desafogados.
- Rá! Parabéns
ao elefante verde que encontrou o buraco da agulha!
Num
remanso do alagado, um martim-pescador, seria isso?, sozinho, olho sério,
parado, mãos às costas, esperando, canelas secas, observando, pé ante pé sobre
uma vitória-régia, pescando, aguardando os acontecimentos, chuleando no
mais.
E logo no dia
seguinte já viram a terra debaixo dos pés, sequinha em vários pontos e
acidentes, umas formigas, uns rastos de lagarto. Os três caminhando a pé,
então, seguiram quase muito perto um do outro, elefante verde caminhando na frente.
Descobriram a terra novamente. O elefante verde estava o mais sério, talvez
porque fosse do seu jeito parecer sério, ou porque sua excelente memória, sua
saudade sem fim, fosse uma carga que só ele podia carregar.
-
Vamos segui-lo, até que diga chega.
-
Rá! Porque a ideia de qualquer elefante verde é até sem desistir nunca.
E
os emes correndo, e os erres murmurando, e os erres e esses sussurrando. Alice
engolia bem a viagem que já fizera até a terra da cidade amazônica de Santo
Antônio do Içá.
No
início das eras, o planeta Terra era branco, da cor branca. Branco era tudo
branco. Veio outra era e o planeta Terra ficou preto ou negro. Negro como a
noite. Mais uma era e o vento levantou poeiras e cinzas. E já o planeta estava
na era do vermelho. Vermelho como um lenço vermelho de pescoço. E assim por
diante. Agora, ultimamente, está tudo normal como sempre tinha que ser. Céu
azul bem limpo.
Era
o fim das chuvas, as chuvas ficaram para trás, as neblinas sumiram, mas as
chuvas são bem vindas. Alice, por exemplo, gostava da chuva, olhar a chuva
cair, olhar a água correr. Podia chover com calma ou com vento no meio, que ela
já achava engraçado. O céu mandava chover, que chovesse o que fosse, que
chovesse de uma vez, e que chovesse com poder. O sol também era melhor.
Alice
estava quieta, estava em paz. O
pantanal começava tudo de novo. O sol pintava mesmo daquele lado de Amambaí.
Teiús encontraram as pedras. Alice testemunhou:
-
Viagem ao fim do mundo, já viu? Viagem ao início do mundo, já se viu?
-
Rá! E nada mais do que pouco mais do que nada, praticamente nada.