quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Montanha Roraima (juvenil) primeiro capítulo



            Num país muito iluminado e muito verde, muito distante de nós, claro, e bem muito ao norte do mapa, muito ligado, caminhava um povo de muitos índios ianomâmi entre outros diversos, e que ainda passa por lá. O monte colossal de pedras ou pedreira monumental emparedada num penhasco. Aí se dormia e se acordava, se despertava no dia com tudo no mesmo lugar, tudo bem e ouvindo cantar esticar as vogais semivogais:
            - Oi! - gorjeou mineirinho.
            - Eu! - soprou o piau-da-lagoa.
            - Obrigada! - disse coirana-de-pernambuco.
            - Parabéns! - continuou o quatimundéu.
Uma terra gigante, rios riscando o chão e o solo recoberto plantado de muita floresta, mamoeiros-bravos, amoreira-do-mato, bocaiúvas, ananás-de-raposa, jaborandis... Ali as noites eram amazônicas. Os bichos acoavam por qualquer pretexto. Os animais ligados fixavam olhares, trocavam orelhas, conversavam entre si:
- E aí, tudo bem! - gritou o cauanã.
- Vejam isso! - berrou a ema.
- É possível, é normal! - concluiu a jalapa-vermelha.  
Os índios e índias de pé descalço e de pé no chão, fibras de catolé trançadas em saia caindo pela cintura, tatuados com tinta preta ou vermelha, batoques de madeira enfiados nas orelhas, corriam correr o quarup com pesado tronco de buriti no ombro. E faziam festa todo ano por altos motivos. Puçanguara tomava santo-daime para refrescar a cabeça convocar os espíritos subir às nuvens.
País chamado Roraima, país do verde e azul, e dos rios verdejantes e resplandecentes. Nem se sabia qual era o dia melhor. E ninguém prestava atenção em ninguém nem nada. Dia afora colher mel no mato, noite adentro dançar em roda do fogo. O dia todo cheio de coisas, coisinhas, idas viajantes ou passageiras, tudo num dia só, por tudo. Apontando uma ou outra estrela que caía. Xerimbabo sagui-leãozinho animal gestual expressivo:
- E aêee!... E aêee!...
            Ao tranco, sem pressa, quase sempre, a manhã vinha abrindo, devagar e sonolenta, a porta de ouro novo o portal. Umas nuvens acolchoavam, quase todos os dias, dos lados, o sol branco de amarelo crinas fogaréu.
            - Em tal lugar Paranatinga eu fui ver o rio Vermelho - saltou a jaçanã.
            O sol forte o ano todo, cabeleira dourada inacreditável, dentes de ouro, sorriso quente e amarelo, fazia tremer a natureza em geral e principalmente os alados aladas. Muito sol durante o dia, lua e estrelas na noite. Chovia todo santo dia e era bom. Os rios eram muito grandes; muitos rios corriam por ali; muitos rios procuravam o mar. A floresta suava transpirava de todos os verdes e sombras.
            - Pois é assim! - falou a pomba-de-espelho.
            - Mas olhe! - contou o ingaí.
            - Pois tudo! - jurou a saracura-do-mangue.
            - Diga refece, re-fe-ce!... - cantou o caxinguelê.
            Neste país de verdes tinha havia uma castanheira. A castanheira, árvore mais alta e mais velha, tudo sabia causa que era antiga, tudo via causa que era mais alta e esgalhada. Era a mãe e o pai das árvores da floresta e da floresta das árvores. Era a rainha da mata. Os braços alcançavam os quatro cantos do planeta, sua sombra chegava até o final do mundo, até o fundo dos oceanos, suas raízes aprofundavam o centro da terra, suas folhas falavam com todos os 4 ventos. Conseguia numa perna só e igual como uma ave quando dorme. Sua força apoiada sustentando muito forte. Embalada amparada pelas eras que, conforme o tempo o clima as estações as chuvas, muito pensavam.
            - Isso é uma! - relatou a árvore macaco-patrona.
            - Agora mesmo! - declamou o tracajá.
            - Mesmo a ser! - afirmou a garça-real.
            - 1 pouco! - já o corocoxó.
            Lilás, a menina mais doce e lilás do mundo, pegou a bicicleta e saiu de casa para passear pedalar. Um dia imenso de folga e sei lá. Um dia amarelo e anil. Era domingo e o sol latejava de quente quente. Ela, a bíci e a estrada, a menina totalmente à vontade e solta no mundo os cabelos. A menina foi cedo para chegar no mesmo dia lá do outro lado do mundo, no norte do país, lá no mapa de Roraima da grande soberba floresta tropical. A brisa soltava seus cabelos alargava suas mechas e madeixas.
            - Eu vou indo! Eu própria preciso tenho que viajar! São 10h e 10min já!
Passou na ida por Porto Alegre, Camaquã, Ribeirão Preto, Brasília, Araçatuba, Mossoró, Natal, Campinas, Teresina, Treviso, Ji-Paraná, Rio Branco... que mais? A ideia principal e final da menina era conhecer a aldeia dos índios kayapó. E era possível. Bom e possível. Ainda hoje.
- Vou tirar selfies alguma coisa de passagem, tá certo?!
            A menina ia pedalando parecida como uma arvorezinha pedalando, mas nem uma árvore exatamente, e sim menina disfarçada de árvore, planta, arbusto, folhas falantes, igual caapuã e como por exemplo. Cabelos presos em rabo de cavalo, como ela mesmo mais gostava, e longo trançado às vezes.
            - Me deixe contar uma coisa! Vamos ao que importa! Te liga, meu chapa!
            O sol queimava a cabeça, o chão de areia feria as meninas dos olhos da guria, quando Lilás pegou definitivamente a estrada federal BR-101 para Roraima. No caminho viu bandos de aves homônimas, homógrafas, homófonas, e se possível, etc. Piavam almas-de-gato, titicuãs, crocoiós, rabilongas, chocões-carijós... algumas em bando outras em pares inseparáveis casais casados parelhas.
            Por trás das sombras das sombras e folhas da mata fechada, embora, muitos olhos acompanhavam as pedaladas da menina. Quem olhava? Quem via? Olhos tantos de quem? Muitos olhos. Muitos olhos de cores diferentes. Nem olhe agora!
            - Quem? Mas você está aí, nem está?
            Lilás sempre gostou de pequenos mamíferos felinos. Uma ave era sempre mais rápida que uma preá, que uma cutia, que um jacaré-de-papo-amarelo. A menina sempre adorou aves alados bichos do ar. Sempre adorou todas as espécies de plantas que aparecem nas beiras de igarapés igapós. Peixes no rio e no mar oceano. Borboletas, besouros, abelhas, formigas, libélulas e todos que chamam insetos. Por isso sabia que era muito acaso, muita sorte, muito milagre e, então, muito sol ou lua.
            - Que tenho visto! Que tenho de nome de bicho, meu! Já viu sernambi, hein?!
            O pequenino pintinho de quero-quero andava pisando pela primeira vez a terra vermelha natal onde nasceu. Dava uma corridinha e parava todo atônito e chamando pela mãe pelo pai pela família. Parado, olhava em volta, olhava o rasto. Corridinha e parada. Andava meio querendo entender de tudo de uma vez. Andava até ali e voltava preocupado. Se escondia nas touceiras de barba-de-bode, por exemplo. Olhava tudo de olho redondo inédito. E a mãe dele sempre por perto, toda alerta, toda atenta, toda vigilante, piando e ameaçando os estranhos que podiam ameaçar o filhote o pimpolho.
            A anta levantou a cabeça, estava almoçando pasto de erva-de-anta. A mesma roupa de sempre. A anta perguntou, se é que precisava de pergunta às 8h e 16min:
            - Aonde vai?
            - Vou até o rio Guaporé - disse a Lilás.
            - Eu já sabia! - respondeu a anta.
            - Todos são assim! - concluiu a mesma anta.
            Mais perto das onze horas e sol fácil, a menina encontrou o jegue. O burrinho orelhudo a viu e começou a zurrar, zurrar o quê:
            - Zurro e zurro!... - que queria dizer já traduzido: “vem nem vai!...”
            A Lilás aproveitou para perguntar ao matunguinho:
            - Você nem ouviu dizer do jurupari e aí, lá, acolá, em algum lugar?
            A floresta com muita árvore, corticeira, aroeira, coqueiro, tarumã, nhanduvá, sananduva... descendo ou subindo um morrinho de pedregulho, guaçatumas, arimarus, pinheiros-do-paraná... estes eram mais pros lados de Serra da Saudade e sibipiruna, arataciú, açoita-cavalo, dedaleiras-amarelas, pereiro-amarelo, acapus... confederados também em capão e capoeira.
            - Árvores recobertas de verde e musgo e barbas! Olhe ali um o joão-gomes, em!
            Cada macaco no seu poleiro, cada jabuti na sua pedra predileta, cada lebre na sua toquinha camuflada, cada sapo acocorado na sua folha do aguapé, cada peixe lambari no seu bando cardume e em movimento constante.
            A macaca caiarara, comedora de folhas e flores e frutos, guinchou bem do alto e se balançando pra cá pra lá agitada apressada:
            - Guincho e guincho!... - que queria dizer: “vem nem vai!...”
            A guria parou um instante as pedaladas e perguntou à símia de cara assustada:
            - Você viu o caapora, aí?
            Lá mais adiante, lá pelas tantas, quando a menina já estava por dentro da floresta e fazia um tempão, foi que ela mesma viu uma colossal gigantesca... E parou para olhar. E exclamou se perguntando para si mesma:
            - O que é isso, meu?!
            Ela olhava com a mão em pala sobre os olhos, para o sol nem atrapalhar os olhos, para a luz forte do sol nem queimar a cor dos olhos. Ela mesma se respondeu:
            - É uma baita árvore, tá certo!
            Então a menina Lilás chegava ao país de Roraima, no território dos índios krahó. E conhecia de vista, de longe, a grande árvore imensa castanheira, à vista. E somando o sol, os pássaros, a castanheira, a manhã de domingo, o total era uma hora do dia do dia muito bonito e aconchegante. O mundo muito útil.
            - Os sinais!... Os sinais!...
            E continuou pedalando com energia. Já ouvia os índios da tribo tucano tocando urucá dançando o ticumbi. Virou uma curva do caminho de terra vermelha bem entre a floresta. Viu a aldeia dentro de um circulo de terra batida. Pedalando sem pressa e o coração cheio de alegria. O sorriso estampado de contente. Os cabelos tocando o vento calmo. Entrou pela aldeia dos mauaiana. Muitos indiozinhos e indiazinhas a seguiram, muitos cachorrinhos e macaquinhos e saguizinhos e periquitinhos também os tais e quais mumbavos. A menina finalmente parou a bíci no centro da taba, rindo satisfeita e na emoção. Hora certa e em pontas e braços abertos, 14h e 42min.
            - Agora hoje eu você e todos nós! Mais os símbolos!
            Aí todos correram mais a menina todos para o rio Jaguarão. Se largaram na água de tchibum!... E tomaram banho, e nadaram, e brincaram na água umas horas. Todos gritando muito os risonhos. Rolavam do barranco para dentro da água. Era um outro mundo surreal. Espanavam e espadanavam água uma no outro. Nadavam competindo. Nadavam de comprido. Nadavam o nado livre.
            - E o que tem de bom!
            - Esta é que é!
            - É preciso isso sim!
            O sol nem podia parar nem andava devagar nem tinha interesse, e por que parar? nem reclamar de correr tanto e pra cima pra baixo.
            - Eu vim por Altaneira, é!
            - Onde fica Rosário Oeste, hem?!
            A menina, meia hora depois, pouco mais tarde, já adorava muito toda a tribo caiapó-quicretum e, ao mesmo tempo e do mesmo modo, toda a tribo já a adorava. As mais velhas faziam cauim preparavam nos recipientes cauabas amassavam grãos de milho colorido milho tradicional.
            Lilás conversava animadamente com Janaína. Janaína, adolescente índia de cinco anos mais que Lilás, uns quinze anos, queria andar de bicicleta. Uma aracuã voou por cima de tudo e piando, tiiiiriu!... Lilás e Janaína cunhantã brincaram de andar de bicicleta pela taba inteira, a tarde inteira, o mundo inteiro e outros lugares pares ímpares.
            - Sobre o quê!
            - Quer me ouvir? Me lembro...
            À noite, Janaína cantava perto da beira do rio das águas correntes. De noite cantava e se penteava no barranco do rio. Janaína era muito linda e sabia disso. Os guerreiros da tribo sabiam disso. Às vezes, noite de lua, Janaína conversava com sua mãe fantástica, a dona Iara. De dia Janaína se penteava e se olhava e pegava uma cor nas águas nas praias quase calmas do rio Doce. Depois era janeiro depois era sábado.
            O gavião-pescador, do galho alto da árvore mututi-da-terra-firme, piou, guinchou:
            - Piré!... Piré!...
            Os papagaios-de-cabeça-amarela passaram por cima da aldeia palrando em bando:
            - Arenga!... Arenga!...
            Muitos macacos-prego, comedores de frutas e brotos e raízes e flores, chiaram, gritaram:
            - Guincho!... Guincho!...
            As nhandus engoliam tudo tudo que viam pela frente e achavam muita comida espalhada. Um macaco bugio-ruivo pegou um cipó e despencou mergulhando da árvore. O bem-te-vi-de-três-riscas abriu o bico e bateu as asas. O saracura gritou assim mesmo:
            - Quem-quem?!... Quem-quem?!...
            O rato-do-banhado correu por uma trilha de rato no meio do capim-rabo-de-boi encharcado molhado, apregoando:
            - Cuim-cuim!... Cuim-cuim!...
            Os sapos-aru do alagado respondiam coaxando, com água na boca, com insistência:
            - Ah, é, nem é?!...
            Bando de saurás, voando baixo, procurando pouso, ralhava, ralhavam:
            - Quiriri!... Quiriri!...
            Pronto, o dia se encheu de nuvens baixas, estranhas e carregadas de faíscas. Vieram de longe na carona dos ventos mais longos. Os animais todos da floresta ficaram de orelha em pé, de penas arrepiadas, de olhos no céu. Bichinhos de patas escondiam a cara com as patas, bichinhos que voavam pousavam e escondiam a cara com as asas. Todos os índios da aldeia tapimirim olhavam o tempo, olhavam as nuvens, olhavam as árvores se sacudindo, olhavam de olhos parados e em respeito. E a barulheira da tempestade se fez anunciar e começou troando:
            - Tro-vão!!... Tro-vão!!... Tro-vão!!!...
            Sapos e jias nas beiras dos rios e banhados respiravam, estufavam o peito, enchiam o peito e esvaziavam os papos. E coaxavam, entre um e outro suspiro:
            - Tu-ruuu! Tu-ruuu!...
            Desabou uma chuva grossa, pesada e demorada. O toró desabou com relâmpagos e barulhos, estrondos, pancadas, batidas, bumbos e surdos. E pingos de chuva enormes caíram no chão e em toda parte. O céu desabafou, veio abaixo, desmoronou, ruiu, desabou com água e tudo. O vento chegava chegando empurrando bufando.
            - Começaram as horas da chuva!...
            - Quando é que vai parar?!
            - Eu já tenho visto que um dia para uma hora!
            - Daqui a quinze dias!
            O mundo fazia um barulho e uma ventania bem legal de ambiente aberto. O meio do mundo era tomado de barulhos e ventanias que vinham de distâncias distante. Punhados de ventos homônimos, homógrafos, homófonos e outras palavras nomes esquisitos importantes difíceis. Ventos de toda parte partindo chegando para todos os lados, e por quê? Redemoinhos torciam grandes e médias e pequenas árvores na paisagem, impressionante.
            - A natureza inventa coisas, é!
            - Vai pelo caminho mais perto, então!
            Os aviões e aerodinâmicos, que quase sempre conseguem voar muito acima das nuvens, também nem passavam mais pelo país de Roraima. Receio, desassossego, precaução, distâncias das tempestades, etc.
            - Se bem que por toda parte temos árvores rio e pássaros!
            - Volta pelo caminho mais longo longe!
            Choveu muitos sóis e muitas luas, muitos dias e noites. Choveu muito, inundou tudo, alagou a terra toda. Rios de  cascatas. Foi bom. Muitas e mais e bastantes chuvas, que levaram semanas cheias. E se instalou a enchente, o alagado, o pântano. Era um mar de água doce que estufava o rio, subindo, chegando e chegou. O rio acima e abaixo tomou conta de todo o país. Tudo por baixo da água e árvores altas, craveiro-do-maranhão, pereiro-da-serra, imburis, manacás-açus... pela cintura. Roraima submersa, praticamente.
            O tanto de água doce foi ouviu Janaína cantar e ficou enfeitiçada. O mar provocou as tempestades, enchentes e inundações. A potência da água observou viu Janaína, subiu o rio, alagou tudo e a raptou.
            - Nem posso falar mais nada mais que isso? Nem é uma resposta sem pergunta, hum?!
            Assim, o morubixaba dos índios kaxarari convocou os homens a se pintarem com jenipapo e urucum para a guerra declarada ao mar de águas doces. Sempre era assim. O cacique, debaixo de grande chuva, no alagado da aldeia quase afogada, gritou para seus guerreiros jovens e mais velhos:
            - Atacar água invasora! Atacar água estranha estrangeira!
            Os guerreiros avá-canoeiro pintados para a guerra, ali sobre canoas feitas de casca de árvore embaúba, responderam gritando:
            - Atacar o mar doce! Atacar o oceano que invadiu a floresta! Atacar por atacar!
            Os índios todos da aldeia araueté foram para o igapó da floresta. Pegaram suas canoas e foram combater o mar de águas calmas. Remaram entre copas de árvores. Navegaram no topo de árvores, ingá-ferradura, batalhas, imburana-de-cambão, guarirobas... Os guerreiros nem tinham mais terra firme, quase nem tinham mais floresta, mas somente águas e mar sem fim.
            Uma coruja caburé chirriou:
            - Trololó!... Trololó!...
            Um rato-de-banhado saiu nadando e chichiando:
            - Chim!... Chim!...
            Uma grande anhuma piou para alertar e alarmar e trilar:
            - Teeee-é!... Teeee-é!...
            Os pavôs empoleirados nos galhos do mucajá, gralhavam, gralharam:
            - Fraaauuu!... Fraaauuu!...
            Um pixoxó pediu perguntou cantou:
            - Você me conhece?
            Com a enchente e a invasão de todas as águas doces do mundo, as terras da aldeia dos índios baticola se encheram de bichos de outros planetas. Ali já nadavam, muito à vontade e relaxadas, as baleias jubartes, as estrelas-do-mar, os cavalos-marinhos, as esponjas de mil espécies, os peixes-papagaios, os peixes-palhaços, os peixes-fantasmas... e estes mais que exóticos.
            - Por que e quem diria?!
            - Nada nada a ver, né, meu!
        Com os dias e dias e noites e noites de muita chuva e vento com chuvas, os sóis nem apareceram, as estrelas do céu nem apareceram, os astros nem apareceram, a lua nem apareceu, a chuva continuava caindo caindo como uma cortina. Durante essas longas chuvas desapareceram os passarinhos mais uma grande parte da floresta, e surgiram cardumes de peixes sardinhas, tubarões-lixas, namorados, meros, golfinhos-cinzentos, pinguins da Antártica, focas, leões-marinhos, polvos de oito braços, peixes-pedras... E demais a mais estranhos estrangeiros exóticos mesmo.
            - Acho melhor deixar para amanhã!
            - Acho melhor deixar até segunda-feira!
            Para separar as águas invasoras das águas normais do rio, para segurar a subida dos peixes do mar e separar os peixes do rio, os caciques e pajés e homens mais velhos e mulheres mais velhas da aldeia guaianá decidiram derrubar a grande árvore castanheira. Essa gigante que mais acerca estava. Levariam vinte dias para destroná-la. Vinte e um dias para destocá-la. Vinte e cinco dias para desmatá-la.
- Eta, coisa colossal! - falou comadre dona índia cunhã mãe de três guerreiros e duas cunhantãs avó de duas cunhantains e um curumim.
            - Vamos derrubá-la, nem temos outro jeito! - gritou o curandeiro da tribo.
            - E vamos derrotá-la com quê, meus compadres? - perguntou o cacique.
            - Acho que com um bom machado feito de pedra lascada, né?! - falou a cunhã mais velha da aldeia.
            - Mas nem vai ser fácil, hein?! - foi outra índia sicrana antiga.
            - Eu mesmo nem tenho força pra tanto, quer saber! - foi o que falou o índio avô.
            - Bem, mas temos que fazer o estrago e é logo sem demora agora, né, gente?! - disse o cacique já decidido decidindo.
Derrubaram a castanheira gigante e muito mais gigante. Huuu-tum!... caiu de comprido no chão tombou de lado. Derrubaram a árvore espetacular e magnífica e fantástica. No alto da castanheira um carcará ficou alarmado voou. A grande árvore gemeu e caiu com tudo, do alto, caiu de lado, estalou, teee-léee-queee!... caiu sobre boa parte do país com ruído, eschuaaaa-ah!!... E fechou a enchente a subida das águas. Fechou a porta.
- E pelo menos alguma coisa aconteceu, então.
- Vamos lá ver e de perto!
A árvore caiu, se petrificou mesmo, e virou montanha verde com o passar dos anos. O rio ficou preservado e o excesso de água doce sossegou limitou.
- Sim, por que nem?! - falou um índio dos antigos.
- Claro! Podemos comemorar o feito! - disse uma índia mais contente.
- E almoçar fora na floresta na beira do rio Cubatão do Sul! - falou mais uma comadre.
            E todos os índios e índias importantes da tribo senabó foram derrubar a grande árvore, como já foi dito. Com machado, serrote, serra elétrica? Foram todos derrubar a castanheira de mais de cem anos. Mulheres mais jovens, cabelos lisos e longos e pretos, ficaram olhando de longe com a mão na boca. Os curumins subiram em árvores próximas junto com saguis-caratingas de estimação. E já os adultos derrubavam a castanheira com aquele mesmo estrondo longo barulho, huuu-tum!... e eschuaaaa-ah!...
            Quando viram a grande árvore cair... os deuses da floresta ficaram irados ou nem. Uns ficaram muito brabos, e outros nem deram bola. E a árvore castanheira caiu no chão, caiu de comprido ao longo do rio cheio, huuu-tum!... e eschuaaaa-ah!... A queda fechou a porta de entrada da enchente. Fechou a porteira. Que bom! Separou o volume excesso do rio normal. Nem deixou mais que o mundo virasse em pântano permanente. De um lado a água tranquila corrente do rio Formoso, do outro a água que sobrava. A árvore foi derrubada e deitou no meio do caminho entre a terra firme e a enchente. E foi bom mesmo.
            - Vamos pular em cima!
            - Com muito gosto!
            - Só se for agora!
            O tronco enorme e gigantesco da árvore castanheira, imperatriz da floresta, ficou da altura de muitas montanhas amontoadas que se vê por aí. Uma cadeia de montanhas ou serra ou espinhaço. E com o tempo foi empedrando, e virou tudo umas montanhas de rochas. Era, no conjunto, o monte Roraima. Uma lenda. Uma prenda. Uma tenda.
            Com esse fenômeno todos que viram foram à lua e voltaram, ou seja, ficaram muito muito espantados e cheios de si. Os urubus-de-cabeça-vermelha, os urubus-de-cabeça-preta, os urubus-de-cabeça-amarela, foram à lua e nem voltaram tão cedo. O mutum flauteou:
            - Flau-flau-flau!...
            A jaguaretê, que sabia nadar muito bem desde criança, desabafou seu espanto, grunhindo:
            - Gruuuuuaaauuu!...
             Os mosquitos, por toda parte por toda parte, seis pernas, zumbiram sem entender:
            - Zuimmmmm!...
            Um papagaio-curau de olhos bem abertos, gritou do galho da figueira, gargalhou:
            - Corrupaco-paco-paco!...
            E assim, diante de muitos espantos e olhos arregalados e gritos de suspense, o país perdeu uma árvore gigantesca e ganhou uma alta montanha de rochas calcárias. Caiu a castanheira e nasceu o monte Roraima em RR. A aldeia dos índios barauana ou xirianá, também ganhou outra taba. Os rios Marari e Demeni, onde a tribo curtia as férias e tomava banho, também respiraram e se espreguiçaram aliviados. Aliás, todos os rios e lagos e lagoas estavam bem em forma e fisicamente. Nem muito fortes nem muito fracos. Falantes, isso sim:
            - Vamos descer por aí.
            - Agora lentamente devagar quase parando.
            - Conforme o progresso do dia a dia.
            - E fazendo fosquinha para as caperiçobas-brancas o capim-guaiamum...
            Quando as águas baixaram tudo reapareceu e voltou ao seu lugar, o rio ficou no seu lugar no seu leito, os rios caminharam em paz, a aldeia ressurgiu, a floresta desaguou, a mata enxugou, apareceram esses resultados: emas pastando nos campos do país, jabutis passeando em procura de frutas, e o lago Cajari demarcou o território, tamanduás-bandeiras farejando o cupinzeiro, o graxaim fazendo rasto na campina, o candimba correndo apostando velocidade mais de 80 por minuto...
            Daí em diante, então, nem veio mais para dentro do país aquelas águas todas estrangeiras desnecessárias. Nem mais inundou o país. Nem nunca se misturou com os rios. Nem mais invadiu terreno que nem era dela. Daí para frente os excessos batiam nas pedras altas do monte Roraima e ficavam brabos e nervosos e irados, porém nem passavam nem passavam dali. E o rio comum e normal podia correr à vontade, relaxado, tranquilo aqui desse lado, como uma estrada serpentina, como um bengo líquido, como um caminho navegável, como a estrela cadente no céu noturno.
            - Então, quem quer descansar pode descansar agora. Agora quem quer remar pode remar. Quem quer ficar olhando pode ficar admirando...
            Com toda essa confusão de dias e noites de chuva, com todo esse alagamento, com todo esse aguamento, com a queda da castanheira, com o nascimento da serra de Roraima, ninguém da tribo ararau se deu conta que Janaína fora raptada pela pororoca. E, então? Então, se deram conta e abriram a boca e puxaram os cabelos e se enfeitaram cobriram de penas.
            - Quede foi parar Janaína! - gritaram boa parte das gentes.
            O rekakê da tribo amarrou uma embira pintada de vermelho no braço e elevou a voz para todos ouvir:
            - Vamos resgatar Janaína! Vamos salvar Janaína!
            Os guerreiros em volta do cacique também gritaram para os deuses do céu e da terra e da montanha Roraima:
            - Salvar Janaína! Resgatar Janaína!
            Os sapos coaxaram, os macacos guincharam, as aves em geral piaram gritaram gorjearam, a cobra sibilou, o gavião-carijó assobiou:
            - Fiiiuuuu!... Fiiiuuuu!...
            Lilás nem se deu por achada e falou, gesticulando muito, se desculpando, desabafando, falando com as mãos e palavras ao vento:
            - Janaína estava comigo, brincando comigo, andávamos de bicicleta pra cima e pra baixo... Foi tudo muito rápido. Depois... a esta altura Janaína já virou iara da beira dos igarapés e paranás e canais. E então?
            Todos da aldeia ficaram nervosos com o rapto de Janaína. Confirmaram. Mas o índio Macunaíma ficou mais que preocupado, ficou pensando numa estratégia estratagema.
            - Sim, eu devo pensar em algo e o que fazer. Devo ir resgatar a bela Janaína. É o mínimo que eu posso fazer devo fazer. Sim, é isso mesmo. Vou salvar Janaína das garras da Pororoca. E é pra já, entende?!
            Com muito muito peso no coração, muito vazio nas mãos, muito amargo na boca, Macunaíma saiu por aí, pela floresta, correndo pelos carreiros da mata, pelo monte Roraima, saiu por aí tropeçando nas raízes salientes. Virou o bicho do mato. Um caapora ou um jurupari diabo da floresta. Ele virou um ente impossível e destemido.
            - É que eu nem entendo isto.
            Macunaíma ficou um índio esquisito, temperamental, estranho e escorregadio. Macunaíma gostou de se refugiar na floresta. Vez ou outra voltava na aldeia dos índios nhandeva para comer beiju e pamonha que as índias cunhãs faziam pra ele com todo respeito. Voltava com mágicas novas e incríveis. Era já de poucas palavras, poucos sorrisos e tantas gargalhadas:
            - Ora, veja isto... ah! ah! ah!...
            Macunaíma nem esquecia da sua amiga Janaína, mas nem queria falar disso. Macunaíma virou virou mágico, virou o que quis, virou o que ninguém acreditou, virou um grande perigo para ele mesmo. Alguém duvidava?
            - Como se chama? Onde você habita? Você conhece o nome das plantas?
            E se passaram os dias com as noites na mochila. O angico-branco agradeceu, agradeceu. A coruja-buraqueira agradeceu, agradeceu em nome da ninhada. O almeirão-da-terra agradeceu, agradeceu. Os mandis-bandeiras cardume borbulharam, ba-ble-bluuu!... O tatu-canastra agradeceu, parabenizou, vivou:
            - Agradeço, agradeço!...
            Depois de tudo isso acontecer, a menina Lilás resolveu voltar para casa. E voltou. E foi voltar justamente num dia amarelo e vento nas orelhas. E foi no melhor da tarde, do sol dourado do dia, que a guria olhou para trás e ouviu o uirapuru:
            - Uiiiiiii-haaa!... Uiiiiiii-heee!...
            Lilás trocou carinhos, beijinhos, tepe! tepe!... com os curumins e as cunhantains. Olhou a taba dos índios cainguá e bateu com a mão no coração. Lilás disse, expandiu:
            - Já vou indo... e techau!...
            Disse Lilás isso mesmo e se foi, veio, voltando para casa. E nunca mais se viram. E se voltou para outro lugar. Os lugares que são sólidos e muitos e lógicos.
            - Olha só este carrapicho-da-praia que planta maneira, meu! E esse olho-do-mato!
            E foi ótimo porque o cavalo cavalgou, o jabuti tartarugou, o canário-da-terra chilreou, o gato-do-mato miou, a anta assobiou, o peixe cascudo-barbado mergulhou, a cutia soprou, a jia fungou, o casal de araras-azuis-grandes palrou, o casal de coaracimimbi arrulhou e ruflou asas. Lilás já caminhava pela rua Teodoro da Silva em Vila Isabel e achou muito bom e disse:
            - Eles têm uns sonidos ótimos ouvir e de respeito.
            Agora o sol começava um novo mundo. Agora mesmo o sol semicerrava os olhos. Agora o sol movia magicamente os planetas e o mundo inteiro. Indo e vindo...

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