sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 14




Parado parado no meio da noite do terreiro o filho do Gaudêncio olhava o infinito noturno e quem sabe D. A noite estava primorosa e estrelas pintadas de verde-claro. O terreiro tinha o som normal das todas noites passadas futuras presentes, o som do batuque e o arrastar das danças improvisadas, os frufrus e ruge-ruges, os namoros na sombra das árvores entre as macegas os gapuicipós coités petúnias juncos-bravos arranca-estrepes, etc., por ex.
A noite tinha o escondido da escuridão da traição do anonimato cilada insídia. Os coaxos os grasnados da zona do arroz-do-campo mastruços taquaruçus banhados garças-brancas-grandes igupás patos-de-crista e outras descendências. A noite, aquela noite dissímil dessemelhante diferente diversa, tinha uma lua poderosa satélite feiticeira.
Ele Gaudêncio admirou olhando a lua pintada de prata a lua aberta prestativa interessada. O estranho corpo celeste era terrivelmente ameaçador e até surreal. Um olho de um ser monstruoso perdido no espaço visão noturna. Um monstro que só mostrava se notava o olho gigante arregalado. Quem sabe um ser um estupendo ancestral pai D dos orixás.
Era coisa de D? Mas que deus era esse que espreitava à noite com a lua e de dia com o sol? Tinha que ser um demônio antigo e perfeito.
O bisneto do Gaudêncio admirava ali no terreiro, meio num canto sozinho, contemplativo, todo imóvel e febril, admirava com respeito a lua total. Parado parado olhando o olho branco da lua prateada. O céu estacionado nas eras nos tempos dos homens moderados conservadores dos liberais exaltados dos caramurus. O mundo também parado aguardando espreitando calculando.
Gaudêncio nem queria dividir seus fantasmas com ninguém. Por isso ficava quieto, alheio ao batuque e ao arrasta pé, pensando. Olhando todo sintonizado de assustado o olho monstruoso o olho próprio de D. O sossego do céu noturno e o batuque no terreiro, a imensidão de tudo aquilo pesava na ideia.
E nem parava de olhar a lua perigosa, o olho cada vez mais forte e próximo de um deus absolutista e sem paciência. O tempo da procriação os tinguis-da-praia dando cria dando voo ao ovo gigante branco redondo ou lua. 
E D sobre tudo sobre ele sobre nós. E por quê.
Mais um pouco e Gaudêncio se sentou no chão de terra vermelha a ilha Grande dos Marinheiros. O batuque não parava nem parava estava até muito animado. Ele também nem se incomodava com as danças bêbadas dos seus companheiros e irmãs de quilombo. Isso aí era toda noite, todas as noites e nos fins de semana com cachaça à vontade. Casais rodeavam a fogueira, comiam bebiam, dançavam cansavam, todas as idades, dormiam por aí mesmo nas sombras cômodas dos timbós-de-caiena dos assa-peixes das sete-casacas no sossego sossegado capim-andrequicé, acordavam, continuavam a beber e a dançar e a cantar, o batuque toda a noite... e outras gerações.
Naquela noite, como nas noites de lua e temperatura agradável, o filho do Gaudêncio nem conseguia dormir nem se concentrar nem buscar companhia nem convocar os espíritos ancestrais, o vento espantando as nuvens.
...seguir o rio Uberabinha até seu centro de gravidade e líquido e parada e mar.
14-Exu das encruzilhadas.
Num povoado chamado Caoba agricultura pecuária minério nos planaltos do cerrado parque Lapa Grande entre as cidades de Claro do Poções e Juruti e Francisco Sá e Glaucilândia... portanto disponível nas melhores casas do ramo, a filha de Aline procurar procurava a metade de um par ou ímpar. Ruas que sobem rua Piracururuca ruas que também descem.
- Vamos a passear!
Pela manhã o vento virou a casaca e o tempo firmou nos cascos. Apareceu o sol os pássaros, garrincha-trovão, trinar os bicos-de-pimenta, caburé-de-cupim, as crianças praça Largo do Machado capacetinhos-cinzas guirris as bicicletas e já estava domingo.
A filha de Aline acordou enrolada no lençol de cambraia cheirosa quentinha e nem queria mais largar a preguiça. Era bom. Abriu os olhos e o quarto do hotel Capom estava em paz e em silêncio também lá por fora na praia de Laranjeiras no mar das raias-manteigas das corcorocas dos tubarões-vitamínicos. Estava tudo ótimo e quieto como uma bênção.
Depois de perdido perdido e meio o mundo voltou a si. Eram 14h em Rio Branco, eram 15h em Balneário Camboriú e Itajaí, eram 16h em Brasília e em Foz do Iguaçu, eram 17h em Taciba e Narandiba.
A Letícia abriu o espanto diante do dia, mas ela tinha uns olhos um mega olhar bem longe de tudo e às vezes:
- Hum!...
- Como? Nem entendi.
- Tá chovendo chuva grossa, e essa chuva pode estragar minha trança meu torçal com fios de ouro e prata, é isso.
Se ouvia toadas de Parintins na tevê da manhã. Um boi branco com coração vermelho no meio do ringue. Parecia duelar com a câmara. Era um boi garantido e caprichoso, pingue. História da índia com o boto-cinza Tucuxi.
Nem aconteceu nada aquele dia 24 de agosto. Foi visto pouco demais. Dia claro o tempo todo, sem nuvens, ninguém por e-mail telefone ao vivo, mas muito ainda seria perguntado ou nem respondido.
- Cabelo encaracolado deixa o seu cabelo loiro como você sempre sonhou, guria!
Quando a filha de Aline viu a tucumãí ela foi direto e se apoiou afobada e tirou os sapatos de salto agulha. Era o que precisava depois de noite estropiada onde praticou aquele sexo virtuoso e sem descanso. O trânsito estava já se mexendo e buzinando perto do canal do rio Paraopeba. Tinha recém-saído do hotel Ipiranga e o cabelo estava molhado. O parque hotel Itaúna, onde estava hospedada, ficava a duas quadras. O centro do mundo, que tonteava de sono e espumantes, era aquela praça Lindolfo Rocha com verdes aos montes, canavieiras, sessenta-e-dois, jurubebas-grandes, muirajuçara... Depois deslocou como numa calçada rolante ou rodas nos pés.
14-Ogum dos fogos.
O pai do Joel estava comendo sossegadamente sua marmita a quentinha ali na praça Oswaldo Cruz, frente olhando o movimento com a rua Rio Novo do Sul. Era um pouco de carne de panela, arroz soltinho, feijão preto da região do Triângulo Mineiro, ovo frito com pouco sal, batata frita com queijo ralado, salada de tomate e cenoura e uma cerveja latinha que ninguém é de ferro produzida em Feira de Santana. Nem queria perder tempo nem chance nem acaso para ver o filho passar. Um dia eles se encontrariam se cruzariam se abraçariam.
O rio nem avisa ninguém. O rio não manda aviso de hora dia mês ano. Pode chegar à tarde, pode voltar na noite. E todos ficam, então, de sobreaviso. O rio Capivari está sempre ali e a qualquer hora.
Ainda tomando o restinho da cerveja, o pai do Joel teve a grata companhia de um caboclo cariboca da região do ABCD paulista. O homem parecia disposto a contar uma história e na tal e qual poranduba disse que conhecia vivera muito bem os detalhes:
- Era um tempo de um mundo animal, floresta virgem, muito selvagem e habitat, difícil de sobreviver e viver e de conviver. Um mundo despovoado e no meio da floresta enorme tipo assim como Cucuí distrito lá de São Grabriel da Cachoeira. Então longe distante largo.
“Os dois irmãos gêmeos Paraná e Sergipe já brigavam entre si no ventre da mãe Taquarembó. A disputa era pela conquista da primogenitura. Quem sairia primeiro quem viria primeiro: par ou ímpar? Um dois... três!
“Depois de nascidos continuaram a se desafiar a se comparar em duros combates, duelos, disputas, perigosas provas de fogo água e ar. Quem era melhor nisso quem era melhor naquilo. Quem superava quem era superado.
“Finalmente Paraná (que era mar) conseguiu expulsar o irmão Sergipe (que era rio de siri) numa disputa de pedradas, onde este último foi ferido na testa. Paraná ficou com o território do pai almirante Piraí.
“Sergipe teve que se exilar se retirar e foi para a ilha de Vitória, no Espírito Santo. Chegando lá já pretendeu a mão da Seriguela filha do mandachuva cacique local o tal e qual todo-poderoso seu Caaingá.
“E para casar com a beldade destacada a Seriguela, Sergipe teve que se render a muitas exigências a vários obstáculos e muitas provas de bravura, etc. A mais feroz e séria tinha de ser a captura dum tubarão assassino de pescadores e banhistas e surfistas.
“Sergipe montou, então, na sua máquina motoaquática e foi procurar o bicho-monstro bem pra lá da arrebentação das ondas. Encontrou-o dentro de uma caverna meio submersa nos arrecifes de Abrolhos. Provocou-o até que o monstro saiu para o oceano aberto. Montado na sua supermotocicleta a jato, Sergipe subiu para o alto das ondas e atacou o cramulhão pelas barbatanas. Lutaram e rolaram nas ondas e que logo logo ficaram vermelhas e tumultuadas.
“Depois de hora e meia Sergipe venceu a luta e foi considerado herói da praia de Camburi herói do povo herói da nação. Desfilou pela longa avenida central Porecatu em carro aberto. E casou logo com a modelo de beleza a Seriguela se tornando o maior desportista e o insuperável galã da cidade litorânea.
“Paraná, por seu lado, no território herdado ao pai Piraí, também enfrentou bichos-monstros inimigos de sete cabeças. E não foi uma, nem foram duas, foram várias lutas contra inimigos desalmados gigantescos medonhos traiçoeiros peçonhentos problemáticos.
“Numa luta terrível Paraná venceu ao jacaré-de-papo-amarelo com cabeça de onça-pintada e veneno de cascavel. Esse monstro era muito perigoso e versátil, quase indestrutível. Esse bicho-monstro era do tipo que bastava ser ameaçado para que, de dentro dele, saísse outro igual a auxiliá-lo. Paraná conseguiu, como foi feito, matá-lo por meio de uma estratégia calculada e inteligentíssima. Paraná convenceu o monstro a passar por uma ponte em chamas, e essa ponte ruiu na hora h devido ao peso do próprio monstro. Assim, o bicho que era do tamanho de um dino caiu no abismo sumindo nos quintos para sempre. Aconteceu assim aparentemente fácil, mas nem foi sopa.
“Paraná enfrentou ainda um monstro muito maior e mais perigoso e mais assustador e mais horrível e mais complexo. Era uma arraia gigante de aço com cabeça de morcego mostrando a língua o tempo todo. Como se não bastasse, o monstro ainda tinha umas asas no lugar da grande capa. Era um monstro extravagante e exterminador e predador, e bem pintado de amarelo com traços escuros nas laterais. Para vencer ao protótipo dos cientistas loucos precisou da ajuda de mil mágicos que o fizeram invisível a ele Paraná.
“Então, um dia que a arraia gigante desceu para veranear na praia do Baixa-Grande, Paraná se escondeu na curva do rio e de supetão prendeu a língua da monstra numa pedra no fundo do remanso. Ainda está lá a medonha esperando para que alguém corajoso e suicida a desencalhe. Seria um grande feito chegar perto e libertá-la. É pegar ou largar. Um dia é da caça outro do conquistador.”
Depois, seis horas da tarde, por aí, começou a cair uns pingos, engrossou, e caiu uma forte chuva que foi quase uma enxurrada. Muita água para poucos escoadouros. Muito asfalto para muita água querendo sumir chão adentro. Todo mundo ali na praça se abrigou por ali numa ou noutra aba dos vários quiosques presentes olhando para a chuva com peito aberto e muito respeito.
- Eu nem sei chover!
A praça Oswaldo Cruz era legal mas pequena. Bem no centro da cidade e morro abaixo. Uma igreja fazia parte, do outro lado da rua Mucurici, da mesma paisagem. Do lado da igreja de Santo Antônio, padroeiro da cidade, uma torre de cor alaranjada com relógio marcando a hora local. De hora em hora ele batia e se ouvia longe. Não era uma praça fácil, com aquelas escadarias pra cima e pra baixo. Tinham plantado dezoito palmeiras-barrigudas mas só vingaram cinco. E por acaso apareceu e adotaram o lugar um casal de socoís-vermelhos.
A guria sentada sozinha no banco de concreto, olhando o chão, bolsa preta do lado, patrocínio da loja Itaara. Ninguém saberia dizer em que pensava. Talvez descansasse no intervalo do meio-dia, talvez esperasse simplesmente as horas, quem sabe fosse natural de Candiota e esperava carona, talvez aguardasse o displicente namorado, talvez sugerisse um encontro com um qualquer, quem sabe fosse de Cacequi e estivesse à procura de um parente para morar na cidade, talvez descansava os pés do calçado de salto agulha moda internacional, quem sabe já pensava em voltar definitivamente para Pirapó salto do peixe. Ao que parece.
14-Oxóssi das caças.
A filha de Aline tirou o fonezinho do ouvido e entrou no salão de massagens da doutora Huri Guamiranga. Pois ela vinha e estava leve e faceira e dia de semana. O dia estava verde e sem ventos com alamandas-amarelas. Uma quarta-feira nem pra lá nem pra cá, praticamente. O mundo nem precisava de nada de ninguém, ali por perto. O mundo nem precisava de gente cidades ruas estradas usinas submarinos cultos comandâncias doutrinas vedorias campeonatos de futebol.
Massagem com pedras era engraçado sempre foi. Com pedras grandinhas e quentes, terapia relaxante, pedras coloridas bonitas polidas seixos colocadas com método nos lugares certos principalmente nas costas nas costas. Uma tradição indiana e se era indiana era exótico era esotérico e era chique e dava resultado era filosófico. Terapia para aliviar tudo de dores do corpo e receios da mente que se tenha ou se pense ou se adquira se imagina, se o se existisse.
- Aaaaah!... - suspirou ela filha de Aline quando a moça Huri lhe debruçou a primeira pedra coletada desde a serra da Mantiqueira.
As pedras foram selecionadas recolhidas dos lugares muito alto astral do mundo que a gente conhece. Uma pedra foi roubada de uma cordilheira no Peru e perto de yurimaguas. Outra pedra importante foi trazida do monte Roraima. Ainda uma pedra na caatinga em o município de Caruaru. Imagens nas paredes dos taimbés fotos despenhadeiros diretos de Rio dos Cedros e Cândido de Abreu e Quevedos... Umas pedras importadas das montanhas importantes do Nepal e Laos e Tailândia e Brunei. Mais outras dos picos daquele país pequeno com capital Malabo na ilha e mais no continente africano.
- Aaaaah!... - suspirou ela quando a cunhantã Huri lhe pousou a pedra basalto colhida de Nova Prata.
No fundo no ambiente no mundo havia uma música suave e confortante e relaxante e geométrica, uma música eclética com cordas armênias e que nem acabava nunca, u-huuum!... u-huuum!...
Um vira-lata se aproveitou para urinar na sua bota de azul e sintética. Era um dia frio na rua Alto Rio Novo. A filha de Aline se escandalizou, então:
- Mas como seu... graxinha?!
O guaipequinha a olhou com cara de pedinte e coisa e tal, por favor! A guria ficou com dó e se ajoelhou e pedindo desculpas lá do seu jeito:
- Que foi meu querido? Tá com fome? Tá sozinho e procurando? Somos dois. Somos dois mil e dois.
E os dois fizeram uma amizade, praticamente. A guria pegou o vira-lata e o carregou. Carregou como se fosse um bebê. Subindo com o carinha no elevador do hotel Surubi e debaixo do braço e sempre trocando conversa com carinhos e sorrisos.
No quarto do hotel largou ele e ficou olhando a reação do ex-abandonado. Ele latiu um pouco e pediu colo. Ela foi ensinando confiança e mostrando o quarto do hotel. A cama, o tapete ao pé da cama, o banheiro, a varanda. O cãozinho latia conforme.
- Seu nome para nosso convívio é... Abaré. Abaré quer dizer amigo.
Depois foram comer qualquer coisa. Ela pediu alguma coisa por telefone: uns pastéis de queijo, uma pizza à portuguesa, uma água sem gás, umas bolachinhas de chocolate, umas paçoquinhas para o recreio.
- E hoje foi o suficiente.
Como dissemos, a filha de Aline parou no balcão da padaria para comprar cigarros:
- O longo, faz favor!
Pegou o cigarro e quis o fogo:
- Começa pra mim, faz favor, moço?! - disse a guria pro atendente.
O rapaz sorriu e acendeu o cigarro, dizendo:
- Tudo bem, moça, mas nem se pode fumar aqui dentro, tá... bonita?!
O rapaz atendente acendeu mesmo assim o cigarro da guria e ela já saía na rua pegando a calçada da avenida Guacuí.
Eram umas seis horas da tarde quando ela pagou o cigarro e saiu. Umas cinco e cinquenta tinha aparecido ali mesmo o homem com cara de gigante. O carudo pediu uma cerveja no balcão e bebeu um copo em meio segundo. Pediu um pastel e mais o sachê do molho de tomate. Comeu o pastel com força e fúria e apetite de gigante. O homem com cara de gigante bebeu a cerveja com calma. Logo logo olhando pela ampla janela do estabelecimento o movimento na rua.
Uma corda de mato replantado repousante subia um morrinho ali por perto, pinhão-roxo, pinguacibas, velames-do-campo, comandaíba... e sem perda de tempo.
O avião pesado, noite de estrelas e cidades iluminadas sem poluição, tudo lá embaixo. O avião levantou voo de Londrina escala em Curitiba para chegar perto do meio-dia em Fortaleza. Quando possível.
14-Oxumaré das chuvas.
Eram os 13 dias do mês de março de 2018, às 14h e 21min. E todos ali estavam para o que desse e viesse. E por que nem dizer, a praça sempre um espetáculo cheio tumultuado barulhento e de cambulhada. Gente como igual esperando condução para Canguçu, Itaiçaba, Porto Vera Cruz, a reserva dos galibi-do-uaçá...
O pai do Joel caminhava lentamente de mãos nos bolsos rodeando a praça. E esta estava musical e passarinhos estavam em trânsito aéreo. Uma placa num ângulo de um canteiro já assinalava praça General Osório. O homem parou numa banca para olhar as manchetes: a drenagem do rio Vacacaí-Mirim; os bará-tucano vão a Brasília buscar apoio dos deputados; inauguração dos aerogeradores do parque eólico Geribatu; o farol de Santa Marta atração turística; distrito de Bojuru em São José do Norte...
Pediu um cafezinho preto só para constar e foi papeando entre uma notícia e outra, conforme:
- Quando meu filho aparecer... pronto, tudo feito, nos reconheceremos.
- No meio de tanta gente da multidão redemoinho espiral pra lá e pra cá?
- Claro! Eu tenho a cara dele e ele tem a minha fuça.
- Como olhar para o espelho?
- Uns vinte anos de diferença: menos pra ele, mais pra mim.
- E por que viria ele até aqui na praça General Osório?
- O mesmo que eu. E procurar.
Assim como chegaram eles partiram. E chegaram de surpresa como sempre fazem nessas escaramuças atirando para todos os lados. Ou seja, a praça foi tomada por inconformados revoltosos federalistas. Chegaram pela avenida Wenceslau Escobar uma das muitas que desboca na praça. Liderados pelo caudilho dos pampas o tal e qual Gumercindo Saraiva. Os invasores todos armados uns de facões e lanças outros de revólveres ou espingardas, a maioria a cavalo. O que eles queriam? Queriam prender a cidade? Queriam mais cavalos mais moedas mais mantimentos mais alguma coisa? Os sitiados, o povo da praça, que nem tinha nada a ver com a história e nem queriam se meter, correu todo para se esconder no pequeno prédio do mictório público.
- Ao que parece... adjudicar, adjudicar!
Depois de oito dias e noites de acampamento, os revoltosos recolheram as barracas e saíram. Pegaram dessa vez a estrada para Hulha Negra e subiram para o norte do país. Tiveram as notícias urgentes? Encontraram o que queriam? Assim como chegaram, e sem avisar, foram embora, emboralá!
A praça tinha o seu minicampo de futebol onde todo mundo do bairro vinha jogar todo dia todos os dias no fim da tarde. Onde parava o goleiro já não nascia mais grama. Tufos de capitiçoba pelas laterais. Sombras das carnaúbas, os calumbis, os arrebenta-cavalos, juremas-brancas, paratudos... Chafariz cantando tagarela junto dos pássaros pombas-pararus bandeiras-do-campo coró-corós... tagarelas e mais as taramelas árvores de sombras gigantes. Toda praça tem seus vendedores ambulantes mesmo que a prefeitura nem autorize. Hoje eles vendem relógios baratos amanhã são expulsos depois reaparecem vendendo capas de celular ou guarda-chuvas a vinte reais. Muito bom porque original de fábrica estalando de novo em folha.
Havia nesse tempo na praça General Osório um vendedor de livros usados. Os frequentadores já o conheciam. Chapéu de palha caindo mal e mal da cabeça, bolsa a tiracolo lotada de livrinhos de poesia artesanal, atento a todos que passavam o quadrado seu território escolhido a dedo. Morador do bairro Barão de Jacuí abordava somente pelas manhãs de terça a domingo e aparecia sempre surgindo pela rua Jaguarão que desembocava e vem até a praça. Quando muito descansava um pouco sentava no banco à sombra do salgueiro-do-mato seu pouso preferido. Para os que pisavam pela primeira vez ali no passeio público nem demorava muito nem conseguiam oito passos uns exemplares à mão ele já ia em cima e fazia o preço conforme a cara do freguês (a):
- Ei! Quer comprar um livro? Minha própria autoria, sim senhor! sim senhora!
14-Iemanjá dos mares.
Com as palavras de Aline: achocolatada, arremedou, arrazoou, brejeiro, lambaz, zabumba, corrupio, boleado, aresto, confinante.
14-Oxalá das pazes.
E a filha de Aline se arrepiou toda - apesar do calor do dia, calor constante da estação, aquecido - sentindo que se espedaçava em centenas de pedaços fragmentos partículas mais ou menos iguais, como um quebra-cabeça, cada partezinha para um lado do espaço aéreo aberto explosão, tufe!...
E 21h mais 12min rua Primeiro de Março ela mesma em pessoa pegou o carro rodou o centro praça XV de Novembro procurando um confortável estacionamento. Nem que fosse para remédio.
Por aquela vez, ela viu, foi mais ou menos conforme. Junto à quieta rua Ibitirama, arvorezinhas fazendo sombra as periquiteiras-da-mata, carros estacionados no meio-fio, alguns da vizinhança, Fortaleza dos Valos, Reserva, Jari de pequeno riacho...
O coleirinha descobriu uma coleirinha dentro do espelho. Talvez nem soubesse do que seja um espelho, nem precisasse. Talvez soubesse e brincasse como as pessoas também fazem. E gostou. Tanto gostou que pulava sem mais sossego pra cima e pra baixo do retrovisor externo do carro. Uma alegria e um recreio e uma euforia. Assobiou e pulou. Se divertia como nunca. E era um dia de forte sol com céu claro vento titilando com as árvores araribás-brancos, e macho ou fêmea.
- Eu nem sei correr.
Fazia uma semana que chovia e quase sem parar e estávamos, a filha de Aline estava, em o parque Serra Nova, andirobas, trapoerabas-vermelhas, madressilvas-verdadeiras, tipis-açus, rio Itapecuru, juritis, maçaricos-do-campo, cotingas...
O melhor programa ela já sabia. A toda hora. Assistir ao seu programa favorito na tevê: trocar de canal sem parar, sem cessar, ida e volta. O canal do gado: poldrinho, poldreta, poldro, égua.
A filha de Aline pegou a rodovia e foi para Foz do Iguaçu. Iluminou o rosto com um sorriso duradouro e também os olhos quentes. Uma parada em Jacuizinho. A guria é carne enxuta, corpo organizado, as tripas funcionais, ou seja, guria magra. A usina de Itaipu como um mistério no meio das águas enormes. As cataratas como um milagre de águas. A floresta com barulho de água que nem acaba mais. Voo engraçado do beija-flor-tesoura-verde. Os quatis ansiosos por comida, muito agitados, caudas em periscópios, muito diferentes. Desciam do guarabu para correr atrás dos turistas. Subiam correndo no cupuaçuzeiro com as mãos cheias de banana e amendoim e pipoca e chocolate.
De ontem pra hoje, sentiu saudade falta carência física de nadar. Onde? Na piscina do parna da Chapada das Mesas do clube da casa da sanga do açude e ou praia de Piranji da ilha Cabral...
14-Xangô dos trovões.
Avenida Mauá com a rua General Câmara em Porto Alegre.
O informal gliptodonte continua nem tendo receio da chuva. Chove pouco peneirado, embora. Mas pode vir a ter. O gliptodonte olhar difuso está na rua Itabira outra vez e já chove a previsão para este dia quinta-feira março. Nem quer pegar um ônibus e um taxi fica muito perto. Deixa chover que chover só pode fazer bem. Visão clássica da classificação climática global. Onde se viu gliptodonte ter esgotamento de água da chuva!
Mais uma coincidência para a seleção. Mais que coincidência. E na hora. Uma hora depois. Uma hora antes eu lia um livro juvenil: “O Gênio do Crime”, de João Carlos Marinho. Ali na história o personagem diz numa cena em sala de aula para crianças: “O rio Amazonas é o maior rio em volume de águas e o segundo em extensão.” Uma hora depois, na tevê, assisto um documentário atual urgente nacional sobre as nascentes do Amazonas lá longe no Peru. “Foi comprovado, definitivo, definido pelos estudiosos renomados das universidades e etc e tal por ex, o Amazonas é o rio mais extenso e em volume de águas do planeta”. Uma coincidência é isso: a gente pensa que sabe pensa que já aprendeu, porém nem sabe nem aprendeu ignora. E depois tem mais ainda: a coincidência.
E mais. Pois eu considero coincidência também. Todos sabem que fui a BH. De lá eu trouxe uns livros comprei no sebo um prédio quase inteiro várias salas vários andares. Vou nessas lojas e compro livros aos montes o que me parece bom o que me dá de topar e até por estarem fora de linha. Acho ótimo. E foi assim. Em casa acabo conhecendo melhor olhando com calma e lendo até conhecer esta coincidência: um livro, “Os Rios Turvos” conta a história de Bento Teixeira e que existiu por volta de 1570 entorno de 1600, por aí. E um outro livro, “Nassau, sangue e amor nos trópicos”. Onde a coincidência? Ali mesmo que as duas histórias se aproximam no tempo e no espaço em Recife. Então é coincidência bacana. Roteiro de viagem nas férias. E Recife, Paulista, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe, Palhano... já estão sendo os meus próximos assuntos e interesses e alvos.


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