quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Montanha Roraima (juvenil) quarto capítulo




            O clima parecia firme e paciente e verde; nem quente, nem frio, nem lá. Sol pintado de amarelo desde o crescente fértil. Sol todo metido a muito bom e, bam-bam-bam!... O sol subindo sem reparar por nada deste mundo. Dia calmo e proveitoso e passageiro e solidário. A temperatura e o dia e o sol: distraídos de nada ou tudo. E mais ou menos algo assim como o comum. E assim por diante desde sempre. E você sabe e está acostumado.
            Quem sabe onde anda Lilás? Talvez acho que em museu Solar Monjardim ou praça Heliodoro Balbi ou pana do Vale do Rio do Peixe...  
            O tempo nem tem idade, nem tem cor, nem tem endereço, muito menos cérebro. Mas o tempo tem uma idade total, uma cor de areia da praia, um endereço em todo lugar, um cérebro de ideias ligeiras. O tempo é invisível, também. Mas o tempo é visível. O tempo é de pedra, água, sol, sal, café e vento. O tempo nem passa. Mangue-do-pará é tempo. Avenca-da-terra marca o tempo. Xem-xem é um tipo de tempo.
E passou duas horas, dois dias, duas semanas, dois meses da última visita de Lilás a sua avó. A floresta anda sempre de verde. A menina sentiu saudades. O tiziu à toa.
            Lilás estava no quarto lendo um livro contos capítulos parágrafos estrofes estribilhos. Uma história de aventura enredo mirabolante. Ouviu ou leu alguém falar da vovó. Sentiu saudades memoráveis e que nem passavam.
            - Quer saber?! Vou ver minha avó! E fui!!
            Lilás cruzou a porta, passou da porta, desceu alguns degraus da escada da área, saiu de casa e entrou lá para fora na rua, a partir da praça Joaquim Manuel de Macedo do bairro Itaboraí. Era o começo do mundo. Sempre gente que começa o mundo assim: anda na rua Tomás Antônio Gonzaga e conjurado inconfidente.
            Um dia, uma tarde revoltada com o clima e a temperatura e a altitude e a umidade relativa do ar. O redemoinho sem pernas, tonto, redondo, sem saber ele mesmo para onde se atirar ou parar nem parar de acontecer saci-cererê. Que mundo estranho nós moramos!
            Lilás atravessou a rua João Monlevade correndo. E correndo mais que a chuva caía.
            - Perfeitamente, senhor! Bom mesmo! Hiperbom! - e abanou 5 cinco.
            A menina entrou com o vento lá para dentro da casa da avó. Vovó estava na cozinha preparando pudim de leite ca-ra-me-la-do. A casa com gosto de pudim, a cozinha muito mais, dava água na boca. Pela janela envidraçada se via o dia muito agitado com chuva e vento. Árvores tontas cabelos ao vento. Árvores desequilibradas, mamona, sabugueiro, rabo-de-foguete, indaiás, guaçatungas, abricós-de-macaco... Só faltava morar em Curitiba.
            Chovia no lugar. Chovia nessa parte aí do mundo. Chovia chuva que D deslocava. A chuva e o vento casados e unidos. E o casal do tempo zombava, zoava, zumbia, zunia, zonzoneava. Era crise dos elementos? Que nada, que esperança!
            - Olha a gameleira-de-pinga como dança que contradança balança! Olha a leiteira como se sacode perdeu o chapéu a sombrinha! - dizia a menina para a avó, olhando através do vidro transparente da vidraça.
            Vovó virou a forma do pudim no prato raso decorado com imagem de carreteiro antigo. Saiu inteiro e bonito e perfumoso e quentinho. A nuvem de vapor doce. A menina sentiu a boca pedir água. Avó pediu tréguas até uma hora para esfriar, se possível. Depois vovó serviu a menina, e se serviu. Coberto com casquinha cor caramelo muito doce. A colherinha aprofunda o doce, e chegou até a boca:
            - Hum!... Quer ouvir a lenda do guaraná?
            - Hum!... Que bom!
            - Hum!... Todo mundo conhece...
            - Hum!... Conta este...
            - Hum!... Era uma feita...
            - Hum!... Supermaneiro...
            A senhora avó levava pacientemente a colherinha até a boca e hum!... Avó de braceletes nos dois braços fazendo os barulhinhos, tilim!, tilim!... relógio digital com mostrador exagerado no pulso esquerdo vestido novo cor verde combinando com pequenos traços de amarelo e poucos traços de azul sorriso de sempre entre uma colherada e outra olhos atrás de óculos de grau, etc. Assim era morar em São Gonçalo do Rio de Baixo?
            A menina terminou logo a porção. A menina desejou outra porção. Vovó serviu outra porção à menina, e se serviu também com mais um bocadinho. Era um sacrifício. Eram dos deuses acomodando. E tem gente que gosta muito de doces.
            - Guaraná da Amazônia. Uma planta que nasce lá na floresta Amazônica. E você já ouviu falar, certo?! Convenhamos.
            - Hum!... Ouvi falar e recomendo, vovó.
            - Guaraná é energia, colabora e provoca a longevidade, cura a preguiça. O guaraná faz refrigerantes, bolos, tortas, pudins, bolachas, biscoitos e outras coisas legais. É um prazer dos sentidos. É um alimento popular. É reconhecido pelos autóctones parintintim.
            Chovia ali fora da casa da senhora. Chovia aquela chuva sem nada, tímida, fina e lenta. Mais vento que chuva. Um vento sem pé nem cabeça e descabelado. As flores se trancavam em casa, os passarinhos se trancavam em casa, os insetos se trancavam em casa, os besouros se trancavam em condomínios muito povoados apertados. Uma chuva um vento que iam e que voltavam revolucionando. Eram umas talvez quatorze horas, e pareciam já 20 horas.
            - A aldeia dos índios karapotó. Onde tem aldeia de índio, felizmente, tem um belo rio passando, rio Passo Fundo, rio Retiro, rio Paraná... Ou até um lago estacionado. Em toda aldeia tem um ou mais rios ou lagos ou lagoas ou balneários ou estações hidrominerais. Os índios precisam nadar andar de canoa e tomar banho todos os dias. E nessa aldeia karapotó tinha de tudo um pouco. De tudo que índio gosta e aprecia e mais um pouco. Um lugar assim só podia nem constar no mapa.
            A vovó olhou para a menina, sua neta, a Lilás, e até sorriu apreciativa. A menina gostava mesmo de pudim de leite ca-ra-me-la-do. Coisa mais séria e importante do mundo, no momento. Nem só no momento, mas no sentimento.
            - Uma índia teve um menino diferente, ou seja. O menino tinha uns olhos muito grandes e negros, pretos como carvão. O menino chegou mesmo a assustar quando nasceu abrindo os olhões esbugalhados saltados. O bebê curumim tinha ainda os cabelinhos vermelhos, e por causa dos cabelos vermelhos o chamaram de... Guará. Guará quer dizer vermelho, em tupi. O pai do curuminzinho de cabelo vermelho e olhões pretos arregalados, disse: “Eu nem entendo esse curuminzinho. Ele nem se parece nada comigo, uma vez. Ele nem se parece com nada de curumim nenhum. Ele é do outro planeta. Ele nem vai ser feliz assim tão diferente do comum e da maioria. E tem olhões de quelônio. E tem cabelo de fogo. Um índio! Onde que já se viu?” Foi tudo e mais um pouco que o pai falou do seu recém-nascido filho, curuminzinho Guará, diante da cunhã, e dos parentes da tribo, todo coletivo contraparentes. O pai era o mais aborrecido com a aparência do indiozinho Guarazinho. Era sem dúvida uma figura um tipo bem estranho.
            No meio da tarde já se pensava que era noite alta. Muito escuro ali fora da casa da avó. Noite funda profunda. Noite distante do mundo longe. Noite com vento e chuva e uivos uivar. E a chuva abria e fechava as asas fazendo barulho de vê com vês. Chuva para plantar o alagado a enchente. Chuva sem um osso sequer. Chuva e vento que batiam nas árvores, nas janelas das casas e nas janelas dos prédios altos, vuuu-vuuu!... Sorte de quem nem precisava sair de casa nessa hora nesse dia nesse contratempo.
            - Mas o que importa é a mãe, numa hora dessas. E a mãe cunhã índia abraçou com carinho o curuminzinho tão esquisito. O pai os parentes nem disseram mais nada, a mãe foi que adorou e quis muito. A mãe é que importa numa hora dessas. E a mãe do indiozinho quis o indiozinho igual ao que tinha de ser. E a criancinha ficou satisfeita com a mãe que a reteve. Ambos se abraçaram. A mãe índia cunhã achava o máximo os olhos grandes e enormes e pretos do curuminzinho. A mãe achava ótimo os cabelos de fogo do indiozinho. E a mãe exibia o indiozinho e mostrava seus olhos e cabelos para toda a tribo e tribos amigas. E também para índias e índios de outras tribos vizinhas, como os índios da tribo camacã, índios da tribo gerém, índios da tribo sapuiá-quiriri, índios índias da tribo guaná... E por cima dizia: “Vejam como meu curuminzinho Guarazinho tem olhos grandes e pretos e modernos nem nunca vistos. Vejam como ele olha muito bem olhado e talvez melhor que ninguém. Vejam como ele é diferente e bonito e exótico e esperto. Vejam estes cabelos de fogueira acesa. Vejam e revejam muita coisa nele”. E os parentes compadres comadres achavam aqueles olhos grandes um exagero. E os parentes sicranos e sicranas nem achavam que o curuminzinho era realmente real. E os parentes beltranos beltranas diziam pelas costas da mãe: “O filhinho dela tem olhos maiores do que pode carregar. Tem olhos maiores que a barriga. O indiozinho dela tem cabelos de cobre. O Guarazinho parece que nasceu assustado. O Guarazinho parece que nasceu do fogo ou do sol”. E todos falavam o que queriam. E todos tinham democracia pra falar à vontade.
            Nem dava para fazer nada lá fora e chovia muito, ventava muito, escurecera muito. Será que ia cair um poste e faltar luz? Vovó preparou um chá para duas. Um café com leite? Um chá de camomila? Um café com chocolate? Um chá de erva-doce? Um chá de avenca? Um chá de cascas secas de caju? Um chocolate sabor café? Você conhece? Era num dia de semana.
            - O pequeno curumi tinha realmente os olhos muito grandes e enormes. Os cabelos pegando fogo fogo. O pai índio dizia: “Meu curumi tem olhos de quelônio. Por quê?” Foi por aí que a mãe índia resolveu se aconselhar com a mãe-d’água, a extraordinária índia Iara. Todo mundo sabe que os índios do B todos acreditam em dona Iara. Essa dona vive no fundo dos lagos e rios e tem a forma de peixe e usa no pescoço um talismã chamado muiraquitã com cara de sapo. Essa dona pode até viver na forma de abelha tapiçuá e quando quiser. E pode aparecer na forma de libélula, borboleta e besoura e joaninha. Dona Iara é uma senhora mágica, uma deusa de rios e lagos e lagoas. Dona Iara é filha da lua Jacy com o sol Cuaracy. E essa dona falou com a mãe índia do culumim dos olhos grandes e cabelos vermelhos, e falou e disse aconselhando: “Seu filho tem olhos grandes porque nem vai ficar por aqui muito tempo. Seu filho tem cabelos vermelhos porque nem terá muito tempo e paciência para ficar andando por aí. E estas são as verdades novidades certezas. Então, se prepare para entregá-lo para outra sorte ou outra natureza ou outro mundo ou outro motivo. São coisas que acontecem dentro do plano das estrelas.”
            - E o culumi ia morrer de repente, vovó? Morreu de súbito? Se transformou?
            - A mãe índia do columim chorou e nem acreditou na dona Iara. O amor de mãe pelo filho fez a mãe índia nem acreditar, pela primeira vez, na deusa Iara. Mas o pai do colomim acreditou e ficou pensativo. Os parentes do colomi acreditaram. O pajé da tribo e o cacique da tribo acreditaram. A curuminzada da tribo afirmou e nem entendeu direito. A mãe do curumim nem queria acreditar, nem acreditou numa só palavra e se desmanchou em receios, lágrimas, gemidos e pedidos. E ela nem lembrava de mais nada.
            Ali fora lá fora na chuva as árvores balançavam e se sacudiam dentro da força do vento, vento e chuva. Vento e chuva num só tempo. Será que àquela hora tinha gente andando na chuva na rua na avenida Raul Pompeia? Será que alguém andava na praça Bernardo Guimarães molhada e alagada? Será que as pessoas já estavam encharcadas ensopadas? A cidade se encharcava durante tanta água. O vento zumbia e zunia e zunzunia como mil enxames de abelhas gigantes. Às vezes o pátio do colégio 11 de Agosto ficava alagado depois de tanta água precipitada. Árvore nhandipá dançava com o vento, árvore leitariga se sacudia na chuva, árvore pequiá se torcia na ventania. Será que a rua Epitácio Pessoa tava alagada também? A chuva queria encher tudo que podia ou via pela frente, o vento queria carregar guarda-chuvas e lonas e toldos e telhados e folhas e galhos secos. Será que o bairro Guaratiba estava boiando? A casa da vovó estalava, assobiava, cricrilava, resmungava.
            - Pois a mãe adorava o indiozinho filhinho de olhos enormes e cabelos de milho. O pai índio via que o filhinho dele parecia muito olhudo. E o curuminzinho tinha de verdade olhos grandes demais. Olhos realistas. Olhos mais espertos e abertos que os dos outros curuminzinhos. Olhos de ver longe e o futuro e as estrelas e os planetas. E cabelos em ondas de fogo, rio de fogo, rio de em chamas. Você lembra?
            - Esse novo curuminzinho Guará tinha desassossego nos olhos grandes? Tinha desassossego nos cabelos pegando fogo? Hein, vovó?
            - Pois os olhos grandes e bem abertos do curuminzinho, seu cabelo inédito de fogo, faziam esquecer que ele era muito inocente nessa história toda. Na sua inocência, Guarazinho continuava engatinhando e tranquilo na era da tribo sateré-maué. Guarazinho só queria conhecer um pouco de tudo mas os outros o olhavam com diferenças preconceituosas. Os olhões prontos para olhar tudo e mais um pouco, os cabelos em chamas jogados sobre as orelhas e os ombros. O curumim era a revolução dos tipos na tribo caiapó-cubem-cram-quem. E digo mais!
            Vovó gostava de saborear balas de café com recheio de chocolate ou amendoim. A menina gostava principalmente de balas de goma, uma de cada cor, todas as cores. A vovó ofereceu para a menina umas balas de goma, uma de cada cor, cores todas as frutas do hemisfério sul. E em seguida, cada qual, escolheu um seu sabor predileto de picolé e cada cor um sabor. Vovó apreciava picolé sabor de abacaxi. A menina apreciava picolé sabor pitanga. A menina olhou o picolé pitanga com olhos encantados, com água na boca, boca aberta. A vovó olhou o picolé abacaxi com olhos adocicados, com água nos olhos, com água na boca.
            No céu escuro, da tarde, talvez da noite, pelo mundo, muitos relâmpagos seguidos de trovões fortes de tremer a casa da vovó. Raios e raios riscando o teto do céu escuro. Barulhos rolando do alto se sabe lá de onde e para onde. Noite cheia de tempestade e elétrica. A tempestade parecendo uma ou muitas felinas onças-vermelhas bufando molhadas na chuva. Chuva e seu irmão vento antecipando a chegada da noite. E esses dois irmãos até conversavam, assobiavam, derrubavam placas de propaganda, entortavam árvores, plantas, arbustos, utensílios, rolavam pedaços desgarrados de qualquer coisa ali na rua Dalton Trevisan. Você ouviu, você se lembra?
            - E o curuminzinho dos olhos do tamanho do mundo só era mesmo muito muito respeitado e amado e beijado e abraçado pela sua mãe índia: total. E o curuminzinho dos cabelos de fogaréu tinha um amiguinho de nome Macunaíma, e uma amiguinha de nome Janaína. Eram três sementinhas de índios passando o dia inteiro e juntos. Macunaíma nem tinha olhos do tamanho do mundo. Janaína nem tinha olhos do tamanho do nosso planeta. Macunaíma tinha cabelos pretos. Janaína tinha cabelos pretos e mais longos compridos. Guará tinha um sagui de estimação chamado Bilontra. Janaína tinha uma sagui de estimação chamada Pilantra. Macunaíma tinha um sagui de estimação chamado Pelintra.
            A chuva que vinha do centro do mundo era sempre boa. Então, viesse que venha! A chuva caía e o rio corria mais giz. Então, que chova água pura! Chovia tudo que podia, e o rio Ipiranga corria ainda mais veloz. Vovó gostava de dormir com chuva chovendo, com chuva caindo, com chuva chiando, com chuva e vento balançando as árvores moderadamente.
E ali por fora as árvores entortando, dançando, e se contorcendo, aplaudindo. Quem sabe até um cavalo zaino galopando na chuva. Um outro cavalo, um cavalo salino, galopando debaixo do aguaceiro. Um terceiro cavalo, um cavalo lubuno, galopando sem querer no meio da tromba d’água. Crinas ao vento e com os ventos, sete ventos, sete guerras do pampa, sete redemoinhos. Na tempestade os cavalos e éguas correm para todos os lados com receio dos raios. Muito tudo muito cavalar e trotar e galopar e esquipar. Vamos adivinhar.
            As árvores do quintal da vovó olhavam muito para a chuva. E entortavam, e assobiavam, e aplaudiam, e pensavam muitas coisas. A árvore lechetrez, perdendo as flores verdes, olhava muito para a chuva. As árvores do quintal da avó, ingazeira e imbaubeira e juazeiro e guapebaçu e... dançavam ao vento molhado enlouquecido. Você entende? Você confere?
            - Pois, minha queridinha Lilás, o indiozinho curumim Guará dos olhos deste tamanho, dos cabelos lindos de colorado, acabou morrendo final e finalmente. Morreu como dona Iara previu. E mãe índia chorou ainda mais, mais ainda, muito muito mais. Chorou toda a chuva de um dia chuvoso como este aqui. Embora verão.
            - Morreu por causa de quê? Por causa dos olhões? Causa dos cabelos vermelhos pegando fogo? Eu nem conheço tudo isso.
            - Dormiu misteriosamente sem que ninguém soubesse sem que ninguém entendesse o porquê. E a mãe chorou por demais dois dias ou mais. E o pai nem disse nada. E os parentes nem disseram nada. E os amiguinhos Macunaíma e Janaína eram muito inocentes e bebezinhos para dizer alguma coisa, e nem disseram nada. E ninguém sabia o que dizer, na realidade. Mas a mãe índia chorou que nem dona Iara sabia consolar.
            - Será que o indiozinho Guará foi parar nas nuvens? Virou pássaro coroa-de-fogo?
            - Porém o caso foi assim: o Guarazinho nem conseguia reagir sequer aos chás de folhas e cascas que o pajé preparara. Guarazinho foi desanimando. E arrepiou, tossiu, esbugalhou um olhão mais ainda, abriu outro olhão por demais. Fazer o quê? 
            - O curuminzinho desapareceu com alguns meses, é, vovó?
            - Dormiu com poucos meses. Acho que foi com três ou quatro meses. E sumiu mesmo de olhos abertos, olhos olhando para o mundo, olhões pegando todo o ambiente da oca da taba da tribo do lugar, etc. Quando menos se espera.
            Lilás escutava a narrativa. Olhava os olhos da vovó. Passava a mão pelos seus próprios cabelos enlaçados. Lá fora o tempo e o clima falavam qualquer coisa na língua deles. Chuva e vento e vento e chuva. Caminhava a história, a avó continuou. E a avó sempre continuou com a história pelo caminho principal avenida Presidente Vargas embandeirada de árvores sapucaias em fila indiana:
            - Ninguém foi lá e teve coragem para fechar bem cerrados os olhos do ex-curuminzinho. E a mãe índia nem se importou. Nem fecharam os olhos dele? E o indiozinho se desprendeu e foi enterrado com os olhos bem abertos e enormes e negros. Parecendo um quelônio. E o curuminzinho ainda parecia ver e olhar com muita propriedade. E olhava mesmo. Talvez nem enxergasse, mas olhava muito bem. E seus cabelos vermelhos - vermelho tinto -, bem penteados, afofados nos ombros.
            A casa da vovó balançava, como assim também as árvores ali fora ao vento e sob a chuva. Uma chuva que D planejara. Uma chuva fria, que vinha do sul, que chegava do polo sul a Antártica, que aterrissava pelo pátio da avó. Chovia na ilha de Tinharé? Por certo chovia ainda pela cidade toda, nas montanhas e matas, no oceano que ficava quinhentos e cinquenta quilômetros de distância. Uma chuva sem fim e interminável. E até mesmo uma chuva séria e justa. E nem chovia parado, nem. Chovia com o mundo todo andando, talvez. E por que chovia tanto? Onde a chuva ia parar? As couves-da-água festejavam aquáticas.
            - Pois o curuminzinho dos olhos atônitos, o indiozinho dos cabelos de sanguanel, foi semeado num lugar escolhido pela mãe. E essa mãe índia regou o canteiro do bebezinho com todas as lágrimas do mundo interior dela.
            - E o marido dela e os parentes dela e a tribo iaualapiti toda?
            - A mãe índia do Guarazinho reagiu assim. Sentiu tanto porque precisava muito muito se despedir desde dentro. Foi essa emoção. E era o que podia fazer. E era tudo que podia dizer. E assim disse. Foi comoção comoção.
            A menina repetiu outro picolé. Um de sabor caju-pequi. E lá fora o vento com a chuva se divertiam assustando as árvores. Assustando principalmente as árvores. Assustando a árvore açacuí. Também o guabijuzeiro, a árvore bacupariaçu, a macambira, a jipoúba, o grande refolhudo umbu. A maria-mole pensava que ia cair e virar sucata. Quem vê reconhece.
            Vovó falou, netinha ouviu outro tanto, depois a senhora foi dizendo com paciência treinada de muitos e muitos anos de estrada ruas e avenidas e trilhas e caminhos:
            - E a mãe índia se reteve muito sobre o canteiro do seu ex-filhinho dos olhos grandes e cabelos vermelhos. E chorou dias e dias sem parar. Isso era importante. Nem parava de chover e de regar a terra roxa do ex-curuminzinho Guará. Os dias se sucederam. A chuva o sereno era sem parar, dia por dia. E tanto esperou e tanto regou que... no lugar do canteiro do curuminzinho nasceu qualquer coisa com cara de planta. E essa coisinha de plantinha foi crescendo e crescendo se desenvolvendo. Aflorando da terra. A mãe do ex-curuminzinho até parou de chover na esperança que aquela árvore fosse a sombra ou o espírito do seu filhinho sumido. Apareceu brotou crescendo escalando em busca do sol.
            - Era mesmo o Guarazinho de volta do céu? Assumindo a condição de planta?
            - E era mesmo a plantinha do guaraná, ou Guarazinho. E a plantinha bem parecida com o ex-indiozinho: os olhos muito negros e grandes. Os cabelos revoltados e bem vermelhos da cor do guará. O guaraná dos olhos grandes e negros. O guaraná quase todo vermelho. Uma maravilha vegetal. Maravilha!
            A senhora se levantou da cadeira de balanço e com a calma da altura da idade avançada. A chuva ia continuar ali fora. Por mais duas horas. Por mais muito tempo. Por mais dois dias. E vovó foi até o quarto buscar um álbum de fotografias. A menina esperou a avó retornar para a sala. E vovó trouxe um jogo de adivinhar o par. E trouxe também musse de chocolate com bolacha maria e sagu.
A chuva nem ia parar tão cedo, uma vez. Chuva por onde passava esta hora, Guapé, Pirapora, Capitólio, Paial, Vista Alegre do Prata... A curiosidade ensina o que se quer saber. As árvores do pátio da casa da avó, axuás, rabo-de-tatu, rabugens, cipó-de-coração, nhamburis... lutavam e se contorciam e vibravam para se manter em pé. Indo e vindo. Chuva e vento namoravam varrendo o planeta de oeste para leste.
            Então, o sol apareceu, olhou o mundo, olhou bem e descortinou o dia, e começou a subir uma rampa pela montanha invisível do céu. O meio-dia puxou a sombra para debaixo dos pés, e passou bem aqui, ali. O leste foi para o oeste. E queira ou nem queira. Foi maio ou março que foi à Bahia.
            Que onda anda onde.
            Lilás pensou se divertir e visitar Janaína lá no litoral do oceano Atlântico de Roraima. Pensou se divertir e convidar a Rê, a Esmeralda, a Pérola. Pensou e telefonou:
            - Você quer, Rê?
            - Posso e vou. Até nem poderia porque estou lendo um livro pela metade... Então, nós vamos. Ainda hoje, se for possível. Quando quiser. Adoro almoçar fora.
            A turma saiu num barco, catamarã, veleiro, paquete navio mercante a vapor, iate, a partir da ilha fluvial do Pavão. Ali na mesma ilha do Pavão, perto da ilha da Pólvora, as meninas apreciaram um delicioso e cremoso doce de abacaxi com pouco açúcar. Um joão-de-barro riu às gargalhadas. Outra que, maria-de-barro, imitou o companheiro, às gargalhadas. Tinham uma casa de barro no alto de um poste de tensão à beira-rio. O casal ria alto, gargalhava e aplaudia com as asas batendo no peito. Era domingo. Um bem-te-vi imperou, marcou hora, marcou dia, também marcou território:
- Bem-te-viiiii!...
Lilás perguntou, enquanto o sol continuava sua própria estrada e rotina:
            - Como é que é?!
            Depois a ilha de Santa Catarina, praia Brava, praia de Canasvieiras, praia da Armação e monumento aos surfistas com epigrama. Guarda-sol com gomos de duas cores bonitas e tradicionais vermelho e branco. A lua distante trezentos mil quilômetros. Praias com ventos fortes e temperados. Ninguém queria ser apanhado naquele sol quente. Pipilar das aves trinta-réis-de-bico-vermelho, gaivotas, andorinhas-do-mar, atobás-pardos... As flores, dos morros em torno à praia, perdiam o perfume no correr do dia. E perdiam o perfume para o vento do mar e a luz do sol. Palmeiras airis ou guacuris galhardamente. Lilás se mostrava por fora feliz e alegre e comunicativa, e Lilás se sentia por dentro contente e satisfeita e esfuziante: em triplaço.
            Lilás ouviu um marujo cantando. O marinheiro cantava as viagens intermináveis:
            “Quando o barco fantasia,
              Também anda a nuvem,
              Ainda voa e navega...”
            A menina Lilás, as amigas, perguntaram ao navegador do Atlântico Sul:
            - Quem é a Fantasia?
            O marujo voltou os olhos para as garotas e desconversou, falando:
            - Be-e-em! Chama-marés nem faltam. Chama-marés nem cantam. Chama-marés nem saltam. Chama-marés nem voam. E chama-marés são chama-marés. Chama-marés que se parecem com caranguejos. Amanhã é quinta-feira.
            Mais um pouco, ilha do Mel, água de coco no quiosque. Picolés de dois sabores no quiosque na quitanda. Taocas, aquelas formigas comedeiras de planta, formigas vermelhas, formigas grandes, formigas que dão sorte. Abelhas irapuás, abelhas mandaçaias, abelhas mirins, abelhas jataís ou sete-portas, abelhas tataíras. Tambor napi dos índios xokleng. As formigas, as abelhas estavam aí ali acolá, distraídas, trabalhando, sem tempo para nada, preocupadas, laborando, planejando a rua Fernando Machado de em Floripa, indo e voltando. O encantado azul-azulzinho de um passarinho, ou passarinha, pousado no galho qualquer da paineira ou juazeiro, e ainda irrequieto, elétrico, agitado.
            - Nem conto nem reconto.
            Na altura de São Paulo, a bela ilha Bela, ilha de São Vicente. Ninguém estava preparado para tantas ilhas e ilhas e arquipélago e praia de Itaguaré. As quatro meninas nem estavam entendendo tantas ilhas e ilhas sortidas. Sabiá-laranja estava tão satisfeito na tarde que cantava rindo, rindo muito, ria alto, ria provocando e nem parava de rir de trinta em trinta segundos. Sabiá-laranja gargalhava amarelo, longo, longuíssimo, de provocar cócegas, ria espatifado, cascateando, engraçado, de provocar graça, até nem acabar mais. Ora, essa! Ouça essa!
            Quem onda anda onde.
            Uma tarde no litoral de Búzios, tantas ilhas, pequenas ilhas, tantas ilhotas, tantas ilhazinhas, tantas ilhinhas, ilhéus, ilhetas, tantos buzos ou búzios atirados ali no litoral do Rio de Janeiro. As meninas sentiram vontade de voar. Flores em bando pelos morros e encostas, cravos-do-campo, mosquitinhos ou chuvisquinhos... Uma vaca comendo língua-de-vaca. Um passarinho, o pintassilgo, era uma boa ideia...
            Lilás perguntou para as gurias enquanto o sol procurava tomar água de coco:
            - Se a gente fosse passarinho, se eu fosse passarinho eu seria abre-asas-da-capoeira e ficaria satisfeita. E vocês, o que seriam? Confere.
            - Eu acho que seria tucana, colorida, carnavalesca, caprichosa, garantida, nacional - declarou a Esmeralda.
            - Já eu poderia ser beija-flor. Eu também adoro flores. Gosto de mel do perfume das flores. É isso aí - respondeu a Rê.
            - Pois por mim eu seria mesmo uma canarinho-da-terra. Toda carijó, me importo. E voaria que era uma maravilha. Eu adoro o sol as cores a paisagem o panorama. As flores amarelas chamativas. O dia amarelo ou ouro maciço. E dezembro e janeiro e fevereiro.
            A viagem no barco continuava e subia o litoral do país, cidade de Palhoça, cidade de Paulo Lopes, de Osório, de Ilicínea... Mais na subida do país, a ilha de Vitória. Chegaram na tarde tranquila, o sol no pôr do sol, Vassouras, Mendes... Aos poucos o sol já ia se pondo, se perdendo numa cor tipo ouro-forte, e os morros e mar e cidade também iam bebendo aquela cor de solouro. Aves pipiando, as guaracavuçus, as curutiés, as maria-leques, os mineirinhos... Manadas de antas e capivaras passando um alagado e interessantes, ruminantes, herbívoras, imensas, pessoas quase todas mugindo ou berrando, mais gordas que cabeçudas, lentas, olhando de vez em quando o barulho do rio chegando no mar e etc, cheirando o céu, prevendo chuva.
            Ilha de Itaparica, água de coco, suco de caju, doce de abóbora, mel com amoras lilases, galo cocoricando. Pato-de-crista, quem-quem!... Curucaca, cucuricando!... Jacu, quá-quá-quá!... Coqueiro é palmeira, palmeira quase sempre é coqueiro. Pai bem-te-vi e mãe bem-te-vi ensinando filhotinho bem-te-vi a cantar:
- Bem-te-viiiii!...
            Mais para cima, no nosso mapa, a ilha de Fernando de Noronha. As quatro meninas sentaram nas pedras da praia, conversaram alto e riram alto. Baía dos Golfinhos. Estava um dia tão bonito e o mar inclusive roncando. E o céu infinito se movendo pequeno num voo de gaivota, raios do sol, atobás. Gaivota sozinha no espaço. E o vento passando ou passeando folgado e quente. Na água nem se viam os golfinhos, peixes niquins, tartarugas, barcos, tartarugas-verdes marinhas. No céu nem caminhava uma nuvem. Muito sol de fogueira acesa. As pessoas estavam no domingo. Maresia. Mormaço. Mordomia. Marmita. Maré baixa, maré alta. As gentes mergulhavam nadavam no domingo e de braçada pernada, gla-gue!, gla-gue!...
            - Aquele barco se parece com uma Baependi.
            - O certo é que de manhã é mais agradável.
            - Mas vocês vão acreditar, eu juro.
            - Na verdade parecido com uma nuvem de morro do Catrambi.
            Eram uns sorrisos risos largos, quem sabe de horas 2 horas 3 dias pelo menos. Os primeiros dias quinzena do mês no verão. De fato era o movimento das águas embora os rochedos mais famosos.
            A famosa ilha de São Luís, no Maranhão. Bolo de chocolate em partes. Nem confundir jogral com painel. Olhos divertidos, Lilás perguntou, foi e disse:
            - O quinto dia da semana a partir do domingo entre quarta-feira e sexta-feira, então.
            A curiosidade das quatro meninas por pouco, ou quase nada, as derrubava. E parecia que a resposta, as respostas, a pergunta, nem tinham entendido as perguntas. Ninguém sabia, ou nenhuma delas queria responder.
            - Eu tenho uma lista de lugar pra ir.
            Um dia estava como elástico, o dia estava como de desenho escolar, o dia estava como ouvindo o cantar do coleirinha, cidade de Tanguá, lugar dos índios aticum-umã.
            Que onda anda onde.
            A grande ilha mãe de Marajó. Abraçada pelo mar e pelo rio Amazonas e rio Pará. Gavião itapema, maçarico-de-bico-branco, anhuma que encanta e estridula e grita e pia.
            Esmeralda perguntou para Lilás e vamos dizer:
            - Aonde vamos até?
            - Até o rio Araguari.
            As amigas até riram juntas e responderam juntas:
            - A gente já sabia!
            O vento quente empurrava as nuvens para o dia de amanhã.
            De Marajó até o rio Araguari, ali no Amapá. Ariranhas, ali do barranco do rio, olhavam com olhos cheios de água. Nas pedras, entre o rio que chegava até o mar e o mar que batia na pororoca do rio, ali nas pedras, as quatro amigas encontraram a amiga Janaína. Esta estava sentada numa pedra olhando no espelho, penteando o cabelo muito longo e liso e preto. Parecia nem esperar por nada. Dava entender que nem esperava tão cedo visitas.
            A menina Lilás chegaram as amigas e surpreendendo Janaína se penteando acomodada sobre a pedra:
            - Janaína! Chegamos e estamos aqui! Nem tô cantando, hein?!
            Janaína sorriu com sorriso meio cunhã e meio peixe. Nem podia caminhar, mas nadava muito bem. E Janaína, pela primeira vez Lilás notava isso, Janaína tinha já uns olhos verdes esverdeados. Antes, no início, eram negros. Já tinham sido castanhos. Agora, casada com o mar bastante tempo, já ficaram verdes. Além dos olhos verdes, de se pentear com calma os longos cabelos negros, Janaína também sorria, batia sem querer a cauda nas pedras. Um sorriso dividido por cunhã e peixe. Janaína até fez um pedido:
            - Olha, meninas cunhantãs. Eu gostaria muito um celular inteligente conectado compontobr. Por enquanto.
            Perto do anoitecer, o dourar das nuvens, e começou o mar a enviar onda após ondas para buscar por Janaína. Se ouviu um ronco do mar mais forte, ondas mais altas, ondas ainda mais altas. Um bramido do mar pedindo por Janaína. E, então, Janaína trocou mais umas palavras e disse que já estava querendo ir embora para sua casa, lá no fundo do mar ou entre o mar e o grande rio. E se preparou para ir embora e mergulhar.
            Janaína se preparou para ir embora e imergir. Deu uma assobiada, assim, tipo quem chama por algo ou alguém ou pede companhia:
            - Fiiiiiiuuuuuu!...
            Imediatamente chegou um cavalo zaino, se sabe lá de onde, e chegou perto da Janaína, pareciam amigos, ela pulou no seu lombo, montou no cavalo em pelo, disse tchau para as gurias todas, e pulou no mar de água doce, pularam ela e cavalo-marinho para dentro do mundo aquático. O mergulho foi assim: bululu!... Fizeram as bolhas borbulhantes na água azul ou verde da foz do mar doce Amazonas.
            E Janaína mergulhou dizendo que voltaria logo, ia buscar um talismã para cada menina. E Janaína demorou, demorou horas e horas. E Janaína nem voltou nem deu mais as caras. Talvez Janaína nem buscava os presentes as pedrinhas bonitas no fundo do rio.
            O tempo tem a caravela o comboio de naus barcos a vela navios transatlânticos e indicando falando descortinando explicando:
            - Que histórias de ondas de rio de pororocas e mupororocas, hein, meu?!
            - Foi assim e aqui que nasceu o oceano Atlântico, com certeza!
            - E bem todos os domingos para cá e para lá, né, gente?!
            - Sim. Agora vamos andar de gaiola por estas imensas terras de águas, hum?!
            As quatro amigas esperaram Janaína até a manhã clarear o dia. Aí pelas dez e dez, então, e já achando que Janaína nem voltaria tão cedo, pegaram e decidiram elas mesmas ir embora e voltar para casa. As quatro amigas ficaram se olhando, assim, meio indecisas, arriscando palpites, ensaiando planos e opiniões e viagens. Turismo de negócios:
            - Vamos simboralá, gente?! - falou Pérola.
            Nesse momento da história ouviram um... um berro bem forte e simples:
            - Grrrrraaaaauuuuu!... - um urro bem forte ali do meio da capoeira.
            Arrepiadas, as gurias se perguntaram surpreendidas:
            - É onça-pintada?
            - É canguçu?
            - É maracajá?
            - É jaguaretê?
            Todas elas quatro já sabiam muito de tevê e filmes que onças gostam de beber água. Certa hora do dia a onça-pintada prefere beber água doce. E nem se deve ficar no caminho de uma onça que quer beber água e está com sede. Onça-pintada anda, corre, escala, nada, salta... e é uma felina completa e elástica. As quatro gurias já sabiam disso muito bem, então... voltaram para casa direitinho. Deixaram a onça beber água em paz. Assim foi que fizeram e bem deve ser feito.
            Quem onda anda onde.

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