O
mês de fevereiro indo estava vindo lindo, aquele ano, e Lilás acordou, tomou
café sem açúcar, foi correr de bíci na pracinha Tapicuri já em frente de casa,
voltou, tomou banho cantando, almoçou três tipos de saladas sem sal, broa de
fubá, e de sobremesa musse de chocolate com bolacha maria e sagu tudo feito em
casa doce caseiro. Tá bom?!
Lilás
adorava sábados e domingos e feriados e aniversários. Como estava de férias
escolares adorava qualquer dia, adorou todos os dias, estava adorando.
-
Deixe comigo, em!
Escolheu
um livro para ler: “A Inspetora e a Mula Sem Cabeça”, do Santos de Oliveira.
Leu o livro duas horas seguidas, empolgante. Nem podia parar de ler. A mula sem
cabeça era um mistério impressionante e de arrepiar. Terminou o livro, recordou
as aventuras da turma da Inspetora, se espreguiçou, foi olhar a paisagem da
janela vitrô de correr. Olhou a paisagem. Queria, então, sair de bicicleta. O
dia dava tempo para outras coisas. Emboralá... por aqui, por aqui!
-
Espero virar lenda dentro de 100 anos 101 anos, é. Cem é um número exato
redondo perfeito, é.
A
menina pegou a rua Mestre Valentim a estrada rumo Friburgo e se preparou para
atravessar o país até porém até Roraima. Ia visitar os amigos da tribo gavião.
Os ventos estavam calmos, ventos do sul, ventos de baixo, às vezes ventos de
cima. Passou uma ponte, dois pontilhões, três riozinhos, cidades pequenas e
médias e grandes, Vista Gaúcha, Teixeiras, Raposos, continuando... e mais Derrubadas,
cascata do Maringá, sempre em frente, avante, avançando... cascata do Pirata em
São Joaquim. Tá bom?!
Passou
por muitas estações ecológicas, passou pela Taim, pela Mico-Leão-Preto, pela
Serra das Araras, pela Maracá, e passou pelos parques nacionais dos Aparados da
Serra, pelo serra do Cipó, pelo serra da Capivara, pelo Araguaia (dos índios
javaés), passou pelas reservas biológicas da Sooretama, pela serra Negra, pela lago
Piratuba, pela monte Roraima... epa!
-
Treeeeeeeu! Treeeeeeeu!...
A
menina ficou alerta, declarou:
-
Que que é isso, seu!
E Lilás, que
viajava o país animadamente repentinamente, até se interessou muito por esse sonido
ruidoso. Todos ao redor do mundo se espantaram com o assovio. Que som foi este?
Que guincho foi aqui? Assustou ligou alertou todo o mundo. A menina se virou e
procurou em volta ver o que tinha sido aquele alto... treeeeeeu!... Procurou o
dono do berro. E o encontrou lá no alto do morrinho gramado positivo. Muito sim
senhor e mãos nas costas.
-
Olha! É uma pernalonga-comum!...
E
a menina ia passando, gostando de tudo, gostando das árvores catiguás,
candeias, sarandis, tatajubas, unhas-de-gato, canas-do-mato, ananás, cipós-de-beira-mar...
e dos risos e gargalhadas dos pássaros tesoureiras, pombas-rolas, tico-ticos, azulões,
perdizes, codornas-mineiras... e conhecendo o que nem conhecia, e vendo o que
faltava ver. E as árvores e os passarinhos conhecendo a menina também. A menina
ainda confessou para si mesma:
-
Ah!, tenho vontade de tudo ver e observar e voar.
Depois
de ter vontade de tudo mesmo, a menina foi parou para comer gabirobas, panãs,
jabuticabas, mangabas, araçás, cajus...
-
Meu aniversário é o mês que vem... e eu só quero esperar até lá.
Do
bicho ao carrapicho todos todos eram verdes ou mais ou menos verdes verdinhos
camuflados entre os vegetais. O gavião-carijó voava alto. E tudo muito
misterioso oculto. E o segredo amanhecia, anoitecia, ficava até tarde e sobrava
para o outro dia inclusive. Tá bom?!
-
Qual o de maior valor? Quanto que posso pagar?
No
meio da estrada no meio da mata no meio da estrada e passando já do bairro do
Grajaú, a menina ouviu uma lobo-guará chamada batizada Capeba impressionar com
seu uivo seus latidos seus murmúrios:
-
Bruuu-au-au!...
Ainda
ouviu outro lobo-guará, chamado nomeado Tapuio, responder, bramindo:
-
Truuu-au-au!...
A
poucos metros outro filhote de lobo-guará, de nome oficial Iguatu, imitar os
pais:
-
Uruuu-au-au!...
Havia
morros muito custosos para subir pedalando, então, a menina Lilás descia da
bíci, empurrava, demorava mais, bando de araçaris... bufava, bastantes, cansava,
batia o pé no chão e suspirava. Uma hora suspirou bem mais:
-
Por que o jabuti, hein?! Penso comigo.
O
jabuti nem estava por perto para responder. O jabuti fazia parte de todos os
jabutis e jabotas do país. O jabuti e a jabota eram muito conhecidos do povo de
Capela. O jabuti era inteligente, sabido, pesquisador, pensador, andador. O
jabuti era calmo e lento e sossegado. E pensava muito o tempo todo. E pensava
sem voz. Nem falava nada. Andava devagar. E o jabuti tinha mesmo razão, segundo
a lenda. Geralmente o jabuti a jabota andam no meio da vegetação procurando
algo verde para comer algo maduro caído por exemplo do araticum-pitaiá. Depois
sabem nadar e nadam no rio Pirapó.
Deus
quis o jabuti assim, desse jeito aí. O jabuti e ou a jabota eram desse jeito. O
jabuti seguiria assim pelo progresso afora. D tinha muita razão no que
inventava e soltava por aí tudo. D dizia sempre e diz:
-
Qual que é! Escute! Telefone, viu?! Mais detalhes! Você tem o meu endereço, tá
certo?! Tô até estranhando, meu!
Então,
pela estrada qualquer, de terra vermelha ou asfalto, a menina Lilás ia olhando,
se agradando, e dando parabéns. Deu os parabéns e conheceu Buritizeiro, Caxambu
do Sul, Sumidouro... E o bem-te-vi deu os parabéns. E também o sebinho deu os
parabéns. A lontra deu os parabéns. Um bando de chupins pretos e homônimos, e
homógrafos, e homófonos, deram parabéns. Enfim, todos interessados em
cumprimentar:
-
Conto ou nem conto?
-
Contar o quê?
-
Conte!
-
Era um dia... onde?, um trem apitou... alguém ouviu... onde?, perto ou longe ou
talvez... onde?, do parque Centenário em Criciúma... o trem dizia... o quê?,
tiuiiii!... tiuiiii!... apitando nas curvas... o quê?, sendo emboralá!... o quê?,
qual o seu nome...
Os
passarinhos diversos coloriam o dia de cantos e pios e bordados. Cantavam o dia
de sol, o dia bonito, o dia acontecendo. Quem ouvia aqueles passarinhos, igual
Lilás passando ali, nem sabia contar exatamente como eram todos aqueles
cantares e piares todos ao mesmo tempo. Na beira do rio Ipanema era mais fácil.
E os passarinhos uns animavam os outros. Piavam, cantavam, gorjeavam, pipilavam
muito e em toda a redondeza. Um milagre. E nem só para um lado do dia. Para
todos os lados que se olhasse. Tá bom?!
-
Mais uma coisa e a penúltima coisa...
A
Lilás olhou a gabirova verde, olhos verdes; e olhou o pé de ipê-amarelo, olhos
amarelos; o lírio-das-pedras, olhos verde-amarelos. A cutia viu a menina e
perguntou:
-
De que sítio vacê vem vindo, menina? Eu acho que vacê é de fora, então!
Simples.
Pela
esquerda da menina iam passando árvores paradas. Pela direita da menina Lilás
iam árvores estáticas. É que a menina andava já por uma trilha estreita no meio
da mata. E ali todas as árvores e plantas e arbustos e ervas e cipós desacompanhavam
a menina. E a menina Lilás ia em frente, muito bem vigiada de árvores, das
sombras, dos cheiros das florzinhas, dos gostos das frutinhas silvestres,
laba-labas, peroba-café, craveiro-do-campo...
-
Como é aconchegante o verão aqui, é! Eu adoro mais verões, é.
De
repente todos podiam se lembrar de tudo: aves piando, jacarés tomando sol nas
lajes do rio, passarinhos voando em bando, peixes nadando atrás de frutos
caídos da copa das árvores, insetos zunindo no espaço aberto.
-
Nem ri assim seu saruê, em!
Um
assobio de passarinho escapou descansado das sombras entre os galhos da andiroba.
Era o dia de ontem. Depois, ao vento lerdo, o balançar lento dos galhos da
árvore. E ainda o assobio do curió. Era de hoje em dia.
Daí
a poucos metros a menina ouviu o uivar de um graxaim:
-
Au-au-auuuuuu!...
No
alto da árvore amapá uma cigana piou, batendo as asas fisicamente:
-
Piuí-piuíiiii!...
Onde
logo a menina se encontrou com uma cobra urutu, que sibilou:
-
Aonde você vai, menina do cabelo solto?
-
Vou até o rio Negro e que fica oeste. Vou hoje e volto em setembro.
-
Eu já sabia!
A
menina entrou por florestas do Acre, seringueira-amarela, seringueira-vermelha,
seringueira-roxa, seringueira-branca, seringueira-preta, seringueira-rosada,
seringueira-tambaqui... Depois caminhou mais um pouco para o norte do Estado
até Cruzília ou mais.
A
menina perguntou ao lagarto teiú:
-
Esta mata tem curupira? Isto é que é!
O
teiú correu e a menina ficou sem resposta. Sem pergunta e sem resposta. Têm
dias que são assim e mais ou menos.
Mais
um pouco a Lilás perguntou ali na beira de um córrego para o peixe carataí:
-
Tem visto a teiniaguá? É difícil, mas...
O
carataí abriu a boca e disse borbulhas muito transparentes e sem compreensão e
que a menina nem soube ouvir ou traduzir.
-
Hein?! Bondade sua e o calor é muito forte. Fique com D.
Mais
para o noroeste e região da tribo laiana, perto de umas quatro horas e quinze
minutos, a menina perguntou para a lebre:
-
Seu tapiti! Tem aí uma tal de boicininga? Cuidado!
E
isso foi mesmo num dia de semana.
O
cachorro-do-mato cheirou, olhou de lado e respondeu, lá na língua dele, que nem
deu pra menina entender:
-
Grau-au-au!...
A
Lilás ainda entrevistou já a árvore tapinhoã, e seus braços todos ao vento:
-
Tem visto, quem sabe ou quem viu, um tal de boitatá? Por aqui por lá?
A
árvore sacudiu com um vento muito tranquilo, as folhas fizeram fru-fru ou
flu-flu ou tlu-tlu ou ble-blo... Tá bom?!
A
menina, naquela altura, já chegava perto do seu destino, que jabá-ana, perto do
rio Marauia e rio Cauabori, em Roraima. Belezas naturais e nativas e exclusivas.
Palmeiras jarás. Árvores ipecacuanhas. Tá bom?!
Olhando
e cheirando o lugar do país de Roraima, vai chegar o dia que todos todos terão
tudo tudo. Era um mar de verde.
-
Queridos queridas ouvintes da rádio Suave aqui quem vos fala é uma menina lilás
que atende pelo nome de Lilás...
A
Lilás seguia uma estrada de catetos, um caminho de capivaras, uma trilha de
antas. Pelo meio da mata. Já pelas terras da tribo dos índios charrua. Ou mais
além. Aí, por essa altura, uma tesoureira começou a segui-la. Era engraçado
porque a tesoureira voando seguia a menina sentando sempre uns metros adiante
em um galho de árvore, toco de árvore, casa de cupim, voando adiante, voar,
voando baixinho, esperando pela menina. E puxando assuntos quando queria:
-
Aonde vacê vai com essa pressa, menina?
-
Eu vou até a tribo dos meus amigos carapanã.
-
E isto é possível? Quem pode pode, né?!
E
a tesoureira dava mais um salto voando de um arbusto a outro, de um palanque de
cerca a outro, voar, galho seco de guanabira. E novamente interrogando, piando:
-
Por que existem caranchos, gaviões, harpias, teco-tecos, bimotores, e
hidroaviões?
-
Eu também tenho receio de onças-pintadas, gatos-do-mato, botos-cinzentos,
jacarés, sucuris e arraias... - respondeu a menina.
Daí
a pouco a menina já ouvia o napi bater na ocara dos índios xerente. Mais perto
ainda foi recebida por cunhantains e curumins e bichinhos de estimação, em bando
em grupo. Muita risada, alegria, gritos, convites, abraços, correria, risos,
empurrões, beijos tepe! tepe!... um de cada lado da bochecha. Correram todos
para o rio e mergulharam, chape! chape!... Um tumulto na beira do rio Marauia.
Era sexta-feira feriado.
-
E, mais uma duas três... vezes, parabéns e obrigada!
Aparentemente
a Lilás e o panorama. O monte Roraima grande, todo de pedra, uma pedra verde.
Dali um pouco distante, ao longe, longe, deitado no horizonte. A distância de
Lilás, ali, até o monte Roraima, lá, era a mesma. Entre Lilás e o monte Roraima
existia uma floresta enorme e verde e cheia de árvores nos tons de verde. Ela
ainda disse hoje cedo:
-
Em Nova Prata, sou de lá.
Os
dias e meses e ventos se passaram e os gambás andaram e o monte Roraima continuou
firme no mesmo lugar. Sossegado, rochoso e deitado em berço esplêndido. E a
montanha, vista assim de longe, ou de perto, era verde e corajosa e firme e
séria. Também muito fechada e quieta dos seus pensamentos. Flechada de raios
ultravioletas.
E
a vida boa na aldeia dos índios bororo estava boa e muito legal. Os índios
descansavam da roça, as mulheres raspavam mandioca, os curumins brincavam de
pega-pega com as cunhantains, as cunhantains corriam aos gritos deixando para trás
os curumins, Lilás ia no grupo das cunhantains, os bichinhos de estimação
corriam para todos os lados, pulavam de ombro pra ombro. Tá bom?!
-
Tenho uma surpresa pra ocês!...
Um
gavião-pescador aterrissou no meio da ocara. Era uma ave impressionante e
enorme e braba. Do tamanho de uma cadeira. Todos os curumins e todas as cunhantains
ficaram olhando assustados, quietos, travados. Uma cadeira de plumas? A enorme
ave ainda caminhou para cá e para lá, olhando em volta, provocando os bichos de
estimação, bicando o chão da taba, arrepiada, piando assim:
-
Creee-iu!... Creee-iu!...
Ninguém
entendia o que a ave queria. O olhar dela era um olhar de dois olhos amarelos e
brabos e firmes. E a ave bateu as asas, enormes, e espalhou muita poeira e
ciscos. Num gesto de repente... o gavião-pescador se transformou num caitetu ou
porco-do-mato. E muito bravo, e muito ranzinza, e muito brabo, e muito
roncando, e muito provocando os xerimbabos, assim:
-
Tru-tru-truuuu!... Tru-tru-truuuu!...
O
caitetu andou por aí, pela ocara, fez voltas, idas e vindas, procurando nem se
sabia o quê, sem sossego, mandão, farejando. Depois também ele se cansou e de
repente... subiu no ar uma poeirinha e... pronto: era um índio adulto: era o
Macunaíma. E todos conheciam o famoso índio Macunaíma. E todos os curumins, as
cunhantains, a menina Lilás, os animaizinhos de criação, aplaudiram o
aparecimento repentino e mágico do fabuloso Macunaíma. E sua entrada
espetacular.
-
Eu nem disse que vinha... então, eu cheguei!... Tem tapioca?
Macunaíma
era um índio nem bom nem mau ou talvez muito antes pelo contrário. Ele às vezes
fazia coisas boas e outras vezes já fazia coisas más ou ruins ou chatas.
Gostava de animais e plantas e rios e isso era seu trabalho. Nem gostava lá
muito de gente branca, cara-pálida, gente de cidade, gente que nem tinha língua
de índio, gente que usava armas e machado e motosserras e caminhões, povo
urbano. Ninguém pegava Macunaíma na corrida. Ninguém laçava Macunaíma. Ninguém
prendia o mágico Macunaíma.
-
Hoje tá um dia bom e mais fácil, nem é?! Tem beiju aí?
Quando
queria, Macunaíma era mais veloz que a ave arapapá. Quando queria, Macunaíma
era mais alto que a palmeira miriti. Quando queria, Macunaíma nadava melhor que
o peixe matupiri. Quando queria, Macunaíma era mais manhoso que o mucura.
Quando queria, Macunaíma era mais forte que a pororoca. Quando queria,
Macunaíma era mais invisível que os raios do sol ao meio-dia. Quando queria. Tá
bom?!
-
Deixe comigo! Vou partir daqui a pouco! Mas quando eu quiser, tá legal?!
A
maior parte do tempo Macunaíma andava na floresta cuidando das matas, entocado
lá no monte Roraima, andando como bicho do mato, camuflado nas folhagens como caapora.
Outras vezes sentia saudade da tribo dele parintintim, então ia até a aldeia e
comia abóbora, pamonha, canjica, açaí, essas coisas deliciosas. Macunaíma era
impossível. E todos já mais ou menos sabiam conviver com o feiticeiro Macunaíma,
ou sentir saudades com a ausência do fabuloso Macunaíma. Macunaíma era
tremendamente útil e atento a tudo que dizia respeito à floresta os bichos as
árvores os rios os cafundós os pântanos.
Macunaíma
era onça-vermelha nos labirintos da montanha Roraima. E a montanha já era o
próprio Macunaíma, quando ele queria. E a montanha, verde e gigante, ficava
sempre ali, olhando de longe, olhando do horizonte, toda empedrada, ou mesmo
muda sem nada nada a dizer, toda pedra verde, setenta mil quilômetros de pedra
verde. Tá bom?!
-
Meu nome é Macunaíma! E daí? Nem qué?! Olha só o meu perfil o meu bíceps!
Pois
Lilás sabia aproveitar a hora na aldeia dos índios e índias Kaingang.
Principalmente tomando banho de rio, e isso na manhã ao acordar, durante a
manhã toda, e na tarde, de tardezinha, e já de noite com lua cheia, com
estrelas piscando, Cruzeiro do Sul, vaga-lumes, corujas, companhia das
cunhantains. Treinar muito o nadar. Subir em árvore, se lançar de cipó, deitar
na rede e se balançar nos galhos das árvores. Comer frutas, araçá,
goiaba-do-mato, araticum, sete-capote, muitas pitangas, guabirobas, pequis,
ananás...
-
O que você está dizendo está fazendo é muito útil, é.
Os
índios e índias da tribo mehináku gostavam de comer mel tirado na hora. Uma
manhã muito bonita a menina Lilás foi com eles. Macunaíma ninguém sabia onde
ele estava e quem ele era. Devia estar no céu como um caracará, ou na água como
um pirarucu ou peixe-boi, no meio do mato como uma anta ou como um capincho ou
uma preguiça-real, plantado no mato como uma palmeira guacuri ou arbusto caiaté.
Ele se metamorfoseava. Podia ser aquela mesma ali iaupê-jaçanã. Vai saber!
-
O B todo é mais pra lá, claro!
Então
os índios e índias jarauára descobriram no meio de um taquaral criciúma um
enxame das de abelhamirins. As crianças ficaram de fora olhando e esperando. Os
índios e índias entraram no criciumal. Era perigoso. Muito estouro de taquara,
fumaças, risos, conversas, tu-tu-tus!... de sapos alarmados, gritos e risos lá
por dentro. Alguém gritou que chegara ao ninho das abelhamirins. E foi pra
já... Se ouviram os gritos, berros, mais outros gritos e estalar de taquaras,
uma avalanche e todo mundo correu para o riozinho mais próximo fugindo do
perigo das abelhas. Eram índios e índias correndo das abelhas. Era guerra de abelhamirins
ou mandaçaias ou jataís ou lechiguanas ou tataíras? Elas mordiam com apetite, bom
apetite!, vingativas. Tá bom?!
-
Eu só tenho interesse de ir de manhã, à tarde nem falá!
-
Com dezoito anos a gente corre de abelhas? Pura paixão!
-
Por que tá todo mundo descabelado e rindo à vontade? Nasceu um novo país?!
-
Deixem elas acreditar que é verdade. Elas o enxame merecem!
Uma
hora depois, todos os índios e índias e curumins e cunhantains e a visita
menina Lilás e bichinhos de estimação, estavam subindo um morro para espiar
espreitar ninho de abelha, abelheiras, colmeias. Todos da tribo munduruku
estavam com a ideia de comer mel de abelha na hora e grátis. E todos eles
gostavam muito de mel de abelhas selvagens. Era um dia para isso mesmo, coletar,
tirar, colher... Subindo o morro, eles viram uns furinhos no barranco. O
cacique já ia na frente, e gritou:
-
Parado aí, familiares! Tão vendo? Tem furinho no barranco, então, tem abelha aí
dentro. E onde tem abelha tem mel da melhor qualidade. Vamos em mutirão e pegar
esse mel. Pra já, parentes! Um dois três!...
Com
pedaços de pau, os índios e as índias e as crianças índias foram cavando e
tentando encontrar o mel escondido no interior dos buraquinhos do barranco
vermelho. Aí, com a casinha sendo arrombada, muitas abelhamirins vinham saindo
e se assustando e se enfurecendo com aquela desarrumação toda. Por isso o
enxame de abelhamirins se organizou e começou a atacar os índios invasores. E a
guerra iniciou. E atacaram os índios com muita brabeza e certeza. E os índios e
índias tuiúca, e principalmente crianças índias com seus mascotes nos braços, nem
aguentaram o contra-ataque das abelhamirins e tiveram que correr, descendo o
morro na corrida e se abanando para fugir das ferroadas. Era, morro abaixo, uma
avalanche de índios, índias, indiozinhos, indiazinhas, bichinhos de estimação. Mas
será que eram abelhamirins ou abelhas irapuás ou tataíras? Dúvida em paz, uma
vez. Dívida com as abelhas, uma vez. Tá bom?!
-
Querem um conselho, meus parentes?! Aceitem uma opinião comum, meus filhos?!
Escutem só!
Na
volta da tribo abacaxi para a aldeia, eles se depararam com Macunaíma sentado
no meio do mato. Sentado numa pedra aí no meio da mata. Macunaíma estava
reconhecido como um índio tabajara. Macunaíma fazia um desenho no chão com o
dedo da mão direita. Um desenho muito simples que qualquer curumim ou cunhantaim
podia fazer. Macunaíma desenhava na areia uma tartaruga ou tracajá. A tartaruga
ressuscitou e virou um jabuti. O jabuti olhou para os lados e saiu caminhando
muito devagar. Demorou, até. E o jabuti nem mais olhou para trás. E o jabuti
ficou com fome e foi comendo folhas verdes e apetitosas. Depois o jabuti ficou
com sede e foi até o rio mais próximo.
-
Eu vou indo. Estou viajando, é. O dia é longe e comprido, entendem?!
Macunaíma
ainda ficou sentado naquela pedra. Mais um pouquinho sentado na pedra basalto. Macunaíma
roia as unhas. Daí cuspiu fiapinho de unha. O pedacinho de unha caiu no chão e
virou uma lebre arrisca e corredeira. Nem satisfeito, Macunaíma jogou um
pedacinho de pau no ar, e o tal pedacinho de palito virou um tuiuiú que já ia
voando para a beira do igarapé. Mais uma vez Macunaíma suspirou, e do bafo lá
dele, saiu um rastro de raposa ou zorrilho ou zorro mascarado. Depois Macunaíma
abraçou a árvore guarapiranga, Macunaíma virou cipó alamanda-de-flor-grande
todo retorcido e enroscado, Macunaíma subiu até o topo dessa árvore e Macunaíma
ficou por lá como um vegetal enrolado.
Lilás
perguntou ao pajé sujeito dos espíritos do chão do ar das sombras etc:
-
Era Macunaíma que estava ali, seu pajé? Me diga!
-
Macunaíma será sempre jovem e guerreiro. Às vezes ele apronta.
E
Lilás voltou:
-
E Macunaíma incomoda? Ele vira planta? Ele vira acidente geográfico?
-
Macunaíma é contra a caça e a pescaria e o corte de lenha e o garimpo.
E
a menina perguntou:
-
De onde vem Macunaíma? Para onde ele quer chegar?
-
Macunaíma fala com os índios e índias, com os bichos, com os insetos, com as
árvores, com as águas, com as pedras. Macunaíma é um deus mágico ou
extraterrestre. Ele já virou a pariparoba já aconteceu murucututu já foi uma
vez pelo menos anfitrião na restinga de Marambaia...
A
guria era mesmo curiosa e interessada:
-
O Macunaíma existe mesmo, seu pajé? É um ser diferente!
-
Macunaíma sorri, ri, gargalha e nunca chora ou chorou. Macunaíma é uma montanha
de pedra. Frio como o vento minuano.
Os
índios nhandeva eram grandes comedores coletores de mel silvestre. Aquele dia nem
descobriram nada. Talvez fosse culpa da lua Jacy. Talvez fosse culpa do
Anhangá-Pitã. Voltaram para as ocas e de mãos abanando. Os deuses do mato
protegiam mesmo as abelhas e etc. Os matos se enroscavam e protegiam tudo,
espelina-verdadeira, papos-de-peru, embiruçu, favas-de-besouro,
macambira-de-serrote...
E
Lilás se despediu dos índios karipuna e voltou para a sua casa. Tá bom?!
-
Ora, para viajar é preciso caminhar! Um passo depois outros!
Lilás
com os olhos dela no ar de Roraima. Olhos ligados como relâmpagos. E a menina
disse para si consigo e se abraçando:
-
Roraima é bom! Esta tarde é bom! Ninguém esquece o que é bom! Tá bom?!
Na
volta, pelo meio da floresta, de bíci, pedalando, lugares de Brodowski ou
Natividade da Serra ou Guatambu ou Chã Preta, subindo e descendo morros no meio
da floresta, babosa-branca, mocitaíba, goiabeira-serrana, fruta-de-coruja... por
trilhas e furos da mata, a menina ouviu uns gritos de bugios vermelhos e bugias
nem muito vermelhas amarronzadas carregando filhotinhos nas costas:
-
Huuuu-ú!... Huuuu-ú!...
Mais
adiante, já bem longe da aldeia dos índios cariri-xocó, a menina encontrou uns
bichos que dançavam em grande harmonia. Muitos bichos, como a ariranha, a
garça-branca, o tucunaré, o jacaré-de-papo-amarelo, o furão, o
tamanduá-bandeira, a joaninha, a mamangaba, a coruja buraqueira, a jaguatirica...
esse pessoal todo povoador da mata profunda. Gente que comia bebia, e o que a
mata oferece desde sempre.
A
menina nem quis parar porque estava com vontade de chegar antes em casa e tomar
café e comer bolo de chocolate na varanda da casa da avó com a vovó. Nem parou
muito tempo olhando o baile no claro da floresta no palácio Laranjeiras. Passou
Ubatuba. Se acercou do monumento ao famoso Olegário Mariano. Voltando voltada
para casa a casa da vovó e dela mesma. Passou o rio Quaraí e nem parou foi
andando até mais tarde até a praça Mauá. Muitos hotéis na beira do mar e hotéis
tudo incluído. Tá bom?!
Tinha
o caminho andado na terra tinha o mar oceano Atlântico e a cúpula do céu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário