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quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Montanha Roraima (juvenil) quinto capítulo




            O mês de fevereiro indo estava vindo lindo, aquele ano, e Lilás acordou, tomou café sem açúcar, foi correr de bíci na pracinha Tapicuri já em frente de casa, voltou, tomou banho cantando, almoçou três tipos de saladas sem sal, broa de fubá, e de sobremesa musse de chocolate com bolacha maria e sagu tudo feito em casa doce caseiro. Tá bom?!
            Lilás adorava sábados e domingos e feriados e aniversários. Como estava de férias escolares adorava qualquer dia, adorou todos os dias, estava adorando.
            - Deixe comigo, em!
            Escolheu um livro para ler: “A Inspetora e a Mula Sem Cabeça”, do Santos de Oliveira. Leu o livro duas horas seguidas, empolgante. Nem podia parar de ler. A mula sem cabeça era um mistério impressionante e de arrepiar. Terminou o livro, recordou as aventuras da turma da Inspetora, se espreguiçou, foi olhar a paisagem da janela vitrô de correr. Olhou a paisagem. Queria, então, sair de bicicleta. O dia dava tempo para outras coisas. Emboralá... por aqui, por aqui!
            - Espero virar lenda dentro de 100 anos 101 anos, é. Cem é um número exato redondo perfeito, é.
            A menina pegou a rua Mestre Valentim a estrada rumo Friburgo e se preparou para atravessar o país até porém até Roraima. Ia visitar os amigos da tribo gavião. Os ventos estavam calmos, ventos do sul, ventos de baixo, às vezes ventos de cima. Passou uma ponte, dois pontilhões, três riozinhos, cidades pequenas e médias e grandes, Vista Gaúcha, Teixeiras, Raposos, continuando... e mais Derrubadas, cascata do Maringá, sempre em frente, avante, avançando... cascata do Pirata em São Joaquim. Tá bom?!
            Passou por muitas estações ecológicas, passou pela Taim, pela Mico-Leão-Preto, pela Serra das Araras, pela Maracá, e passou pelos parques nacionais dos Aparados da Serra, pelo serra do Cipó, pelo serra da Capivara, pelo Araguaia (dos índios javaés), passou pelas reservas biológicas da Sooretama, pela serra Negra, pela lago Piratuba, pela monte Roraima... epa!
            - Treeeeeeeu! Treeeeeeeu!...
            A menina ficou alerta, declarou:
            - Que que é isso, seu!
E Lilás, que viajava o país animadamente repentinamente, até se interessou muito por esse sonido ruidoso. Todos ao redor do mundo se espantaram com o assovio. Que som foi este? Que guincho foi aqui? Assustou ligou alertou todo o mundo. A menina se virou e procurou em volta ver o que tinha sido aquele alto... treeeeeeu!... Procurou o dono do berro. E o encontrou lá no alto do morrinho gramado positivo. Muito sim senhor e mãos nas costas.
            - Olha! É uma pernalonga-comum!...
            E a menina ia passando, gostando de tudo, gostando das árvores catiguás, candeias, sarandis, tatajubas, unhas-de-gato, canas-do-mato, ananás, cipós-de-beira-mar... e dos risos e gargalhadas dos pássaros tesoureiras, pombas-rolas, tico-ticos, azulões, perdizes, codornas-mineiras... e conhecendo o que nem conhecia, e vendo o que faltava ver. E as árvores e os passarinhos conhecendo a menina também. A menina ainda confessou para si mesma:
            - Ah!, tenho vontade de tudo ver e observar e voar.
            Depois de ter vontade de tudo mesmo, a menina foi parou para comer gabirobas, panãs, jabuticabas, mangabas, araçás, cajus...
            - Meu aniversário é o mês que vem... e eu só quero esperar até lá.
            Do bicho ao carrapicho todos todos eram verdes ou mais ou menos verdes verdinhos camuflados entre os vegetais. O gavião-carijó voava alto. E tudo muito misterioso oculto. E o segredo amanhecia, anoitecia, ficava até tarde e sobrava para o outro dia inclusive. Tá bom?!
            - Qual o de maior valor? Quanto que posso pagar?
            No meio da estrada no meio da mata no meio da estrada e passando já do bairro do Grajaú, a menina ouviu uma lobo-guará chamada batizada Capeba impressionar com seu uivo seus latidos seus murmúrios:
            - Bruuu-au-au!...
            Ainda ouviu outro lobo-guará, chamado nomeado Tapuio, responder, bramindo:
            - Truuu-au-au!...
            A poucos metros outro filhote de lobo-guará, de nome oficial Iguatu, imitar os pais:
            - Uruuu-au-au!...
            Havia morros muito custosos para subir pedalando, então, a menina Lilás descia da bíci, empurrava, demorava mais, bando de araçaris... bufava, bastantes, cansava, batia o pé no chão e suspirava. Uma hora suspirou bem mais:
            - Por que o jabuti, hein?! Penso comigo.
            O jabuti nem estava por perto para responder. O jabuti fazia parte de todos os jabutis e jabotas do país. O jabuti e a jabota eram muito conhecidos do povo de Capela. O jabuti era inteligente, sabido, pesquisador, pensador, andador. O jabuti era calmo e lento e sossegado. E pensava muito o tempo todo. E pensava sem voz. Nem falava nada. Andava devagar. E o jabuti tinha mesmo razão, segundo a lenda. Geralmente o jabuti a jabota andam no meio da vegetação procurando algo verde para comer algo maduro caído por exemplo do araticum-pitaiá. Depois sabem nadar e nadam no rio Pirapó.
            Deus quis o jabuti assim, desse jeito aí. O jabuti e ou a jabota eram desse jeito. O jabuti seguiria assim pelo progresso afora. D tinha muita razão no que inventava e soltava por aí tudo. D dizia sempre e diz:
            - Qual que é! Escute! Telefone, viu?! Mais detalhes! Você tem o meu endereço, tá certo?! Tô até estranhando, meu!
            Então, pela estrada qualquer, de terra vermelha ou asfalto, a menina Lilás ia olhando, se agradando, e dando parabéns. Deu os parabéns e conheceu Buritizeiro, Caxambu do Sul, Sumidouro... E o bem-te-vi deu os parabéns. E também o sebinho deu os parabéns. A lontra deu os parabéns. Um bando de chupins pretos e homônimos, e homógrafos, e homófonos, deram parabéns. Enfim, todos interessados em cumprimentar:
            - Conto ou nem conto?
            - Contar o quê?
            - Conte!
            - Era um dia... onde?, um trem apitou... alguém ouviu... onde?, perto ou longe ou talvez... onde?, do parque Centenário em Criciúma... o trem dizia... o quê?, tiuiiii!... tiuiiii!... apitando nas curvas... o quê?, sendo emboralá!... o quê?, qual o seu nome...
            Os passarinhos diversos coloriam o dia de cantos e pios e bordados. Cantavam o dia de sol, o dia bonito, o dia acontecendo. Quem ouvia aqueles passarinhos, igual Lilás passando ali, nem sabia contar exatamente como eram todos aqueles cantares e piares todos ao mesmo tempo. Na beira do rio Ipanema era mais fácil. E os passarinhos uns animavam os outros. Piavam, cantavam, gorjeavam, pipilavam muito e em toda a redondeza. Um milagre. E nem só para um lado do dia. Para todos os lados que se olhasse. Tá bom?!
            - Mais uma coisa e a penúltima coisa...
            A Lilás olhou a gabirova verde, olhos verdes; e olhou o pé de ipê-amarelo, olhos amarelos; o lírio-das-pedras, olhos verde-amarelos. A cutia viu a menina e perguntou:
            - De que sítio vacê vem vindo, menina? Eu acho que vacê é de fora, então! Simples.
            Pela esquerda da menina iam passando árvores paradas. Pela direita da menina Lilás iam árvores estáticas. É que a menina andava já por uma trilha estreita no meio da mata. E ali todas as árvores e plantas e arbustos e ervas e cipós desacompanhavam a menina. E a menina Lilás ia em frente, muito bem vigiada de árvores, das sombras, dos cheiros das florzinhas, dos gostos das frutinhas silvestres, laba-labas, peroba-café, craveiro-do-campo...
            - Como é aconchegante o verão aqui, é! Eu adoro mais verões, é.
            De repente todos podiam se lembrar de tudo: aves piando, jacarés tomando sol nas lajes do rio, passarinhos voando em bando, peixes nadando atrás de frutos caídos da copa das árvores, insetos zunindo no espaço aberto.
            - Nem ri assim seu saruê, em!
            Um assobio de passarinho escapou descansado das sombras entre os galhos da andiroba. Era o dia de ontem. Depois, ao vento lerdo, o balançar lento dos galhos da árvore. E ainda o assobio do curió. Era de hoje em dia.   
            Daí a poucos metros a menina ouviu o uivar de um graxaim:
            - Au-au-auuuuuu!...
            No alto da árvore amapá uma cigana piou, batendo as asas fisicamente:
            - Piuí-piuíiiii!...
            Onde logo a menina se encontrou com uma cobra urutu, que sibilou:
            - Aonde você vai, menina do cabelo solto?
            - Vou até o rio Negro e que fica oeste. Vou hoje e volto em setembro.
            - Eu já sabia!
            A menina entrou por florestas do Acre, seringueira-amarela, seringueira-vermelha, seringueira-roxa, seringueira-branca, seringueira-preta, seringueira-rosada, seringueira-tambaqui... Depois caminhou mais um pouco para o norte do Estado até Cruzília ou mais.
            A menina perguntou ao lagarto teiú:
            - Esta mata tem curupira? Isto é que é!
            O teiú correu e a menina ficou sem resposta. Sem pergunta e sem resposta. Têm dias que são assim e mais ou menos.
            Mais um pouco a Lilás perguntou ali na beira de um córrego para o peixe carataí:
            - Tem visto a teiniaguá? É difícil, mas...
            O carataí abriu a boca e disse borbulhas muito transparentes e sem compreensão e que a menina nem soube ouvir ou traduzir.
            - Hein?! Bondade sua e o calor é muito forte. Fique com D.
            Mais para o noroeste e região da tribo laiana, perto de umas quatro horas e quinze minutos, a menina perguntou para a lebre:
            - Seu tapiti! Tem aí uma tal de boicininga? Cuidado!
            E isso foi mesmo num dia de semana.
            O cachorro-do-mato cheirou, olhou de lado e respondeu, lá na língua dele, que nem deu pra menina entender:
            - Grau-au-au!...
            A Lilás ainda entrevistou já a árvore tapinhoã, e seus braços todos ao vento:
            - Tem visto, quem sabe ou quem viu, um tal de boitatá? Por aqui por lá?
            A árvore sacudiu com um vento muito tranquilo, as folhas fizeram fru-fru ou flu-flu ou tlu-tlu ou ble-blo... Tá bom?!  
            A menina, naquela altura, já chegava perto do seu destino, que jabá-ana, perto do rio Marauia e rio Cauabori, em Roraima. Belezas naturais e nativas e exclusivas. Palmeiras jarás. Árvores ipecacuanhas. Tá bom?!
            Olhando e cheirando o lugar do país de Roraima, vai chegar o dia que todos todos terão tudo tudo. Era um mar de verde.
            - Queridos queridas ouvintes da rádio Suave aqui quem vos fala é uma menina lilás que atende pelo nome de Lilás...
            A Lilás seguia uma estrada de catetos, um caminho de capivaras, uma trilha de antas. Pelo meio da mata. Já pelas terras da tribo dos índios charrua. Ou mais além. Aí, por essa altura, uma tesoureira começou a segui-la. Era engraçado porque a tesoureira voando seguia a menina sentando sempre uns metros adiante em um galho de árvore, toco de árvore, casa de cupim, voando adiante, voar, voando baixinho, esperando pela menina. E puxando assuntos quando queria:
            - Aonde vacê vai com essa pressa, menina?
            - Eu vou até a tribo dos meus amigos carapanã.
            - E isto é possível? Quem pode pode, né?!
            E a tesoureira dava mais um salto voando de um arbusto a outro, de um palanque de cerca a outro, voar, galho seco de guanabira. E novamente interrogando, piando:
            - Por que existem caranchos, gaviões, harpias, teco-tecos, bimotores, e hidroaviões?
            - Eu também tenho receio de onças-pintadas, gatos-do-mato, botos-cinzentos, jacarés, sucuris e arraias... - respondeu a menina.
            Daí a pouco a menina já ouvia o napi bater na ocara dos índios xerente. Mais perto ainda foi recebida por cunhantains e curumins e bichinhos de estimação, em bando em grupo. Muita risada, alegria, gritos, convites, abraços, correria, risos, empurrões, beijos tepe! tepe!... um de cada lado da bochecha. Correram todos para o rio e mergulharam, chape! chape!... Um tumulto na beira do rio Marauia. Era sexta-feira feriado.
            - E, mais uma duas três... vezes, parabéns e obrigada!
            Aparentemente a Lilás e o panorama. O monte Roraima grande, todo de pedra, uma pedra verde. Dali um pouco distante, ao longe, longe, deitado no horizonte. A distância de Lilás, ali, até o monte Roraima, lá, era a mesma. Entre Lilás e o monte Roraima existia uma floresta enorme e verde e cheia de árvores nos tons de verde. Ela ainda disse hoje cedo:
            - Em Nova Prata, sou de lá.
            Os dias e meses e ventos se passaram e os gambás andaram e o monte Roraima continuou firme no mesmo lugar. Sossegado, rochoso e deitado em berço esplêndido. E a montanha, vista assim de longe, ou de perto, era verde e corajosa e firme e séria. Também muito fechada e quieta dos seus pensamentos. Flechada de raios ultravioletas.
            E a vida boa na aldeia dos índios bororo estava boa e muito legal. Os índios descansavam da roça, as mulheres raspavam mandioca, os curumins brincavam de pega-pega com as cunhantains, as cunhantains corriam aos gritos deixando para trás os curumins, Lilás ia no grupo das cunhantains, os bichinhos de estimação corriam para todos os lados, pulavam de ombro pra ombro. Tá bom?!
            - Tenho uma surpresa pra ocês!...
            Um gavião-pescador aterrissou no meio da ocara. Era uma ave impressionante e enorme e braba. Do tamanho de uma cadeira. Todos os curumins e todas as cunhantains ficaram olhando assustados, quietos, travados. Uma cadeira de plumas? A enorme ave ainda caminhou para cá e para lá, olhando em volta, provocando os bichos de estimação, bicando o chão da taba, arrepiada, piando assim:
            - Creee-iu!... Creee-iu!...
            Ninguém entendia o que a ave queria. O olhar dela era um olhar de dois olhos amarelos e brabos e firmes. E a ave bateu as asas, enormes, e espalhou muita poeira e ciscos. Num gesto de repente... o gavião-pescador se transformou num caitetu ou porco-do-mato. E muito bravo, e muito ranzinza, e muito brabo, e muito roncando, e muito provocando os xerimbabos, assim:
            - Tru-tru-truuuu!... Tru-tru-truuuu!...
            O caitetu andou por aí, pela ocara, fez voltas, idas e vindas, procurando nem se sabia o quê, sem sossego, mandão, farejando. Depois também ele se cansou e de repente... subiu no ar uma poeirinha e... pronto: era um índio adulto: era o Macunaíma. E todos conheciam o famoso índio Macunaíma. E todos os curumins, as cunhantains, a menina Lilás, os animaizinhos de criação, aplaudiram o aparecimento repentino e mágico do fabuloso Macunaíma. E sua entrada espetacular.
            - Eu nem disse que vinha... então, eu cheguei!... Tem tapioca?
            Macunaíma era um índio nem bom nem mau ou talvez muito antes pelo contrário. Ele às vezes fazia coisas boas e outras vezes já fazia coisas más ou ruins ou chatas. Gostava de animais e plantas e rios e isso era seu trabalho. Nem gostava lá muito de gente branca, cara-pálida, gente de cidade, gente que nem tinha língua de índio, gente que usava armas e machado e motosserras e caminhões, povo urbano. Ninguém pegava Macunaíma na corrida. Ninguém laçava Macunaíma. Ninguém prendia o mágico Macunaíma.
            - Hoje tá um dia bom e mais fácil, nem é?! Tem beiju aí?
            Quando queria, Macunaíma era mais veloz que a ave arapapá. Quando queria, Macunaíma era mais alto que a palmeira miriti. Quando queria, Macunaíma nadava melhor que o peixe matupiri. Quando queria, Macunaíma era mais manhoso que o mucura. Quando queria, Macunaíma era mais forte que a pororoca. Quando queria, Macunaíma era mais invisível que os raios do sol ao meio-dia. Quando queria. Tá bom?!
            - Deixe comigo! Vou partir daqui a pouco! Mas quando eu quiser, tá legal?!
            A maior parte do tempo Macunaíma andava na floresta cuidando das matas, entocado lá no monte Roraima, andando como bicho do mato, camuflado nas folhagens como caapora. Outras vezes sentia saudade da tribo dele parintintim, então ia até a aldeia e comia abóbora, pamonha, canjica, açaí, essas coisas deliciosas. Macunaíma era impossível. E todos já mais ou menos sabiam conviver com o feiticeiro Macunaíma, ou sentir saudades com a ausência do fabuloso Macunaíma. Macunaíma era tremendamente útil e atento a tudo que dizia respeito à floresta os bichos as árvores os rios os cafundós os pântanos.
            Macunaíma era onça-vermelha nos labirintos da montanha Roraima. E a montanha já era o próprio Macunaíma, quando ele queria. E a montanha, verde e gigante, ficava sempre ali, olhando de longe, olhando do horizonte, toda empedrada, ou mesmo muda sem nada nada a dizer, toda pedra verde, setenta mil quilômetros de pedra verde. Tá bom?!
            - Meu nome é Macunaíma! E daí? Nem qué?! Olha só o meu perfil o meu bíceps!
            Pois Lilás sabia aproveitar a hora na aldeia dos índios e índias Kaingang. Principalmente tomando banho de rio, e isso na manhã ao acordar, durante a manhã toda, e na tarde, de tardezinha, e já de noite com lua cheia, com estrelas piscando, Cruzeiro do Sul, vaga-lumes, corujas, companhia das cunhantains. Treinar muito o nadar. Subir em árvore, se lançar de cipó, deitar na rede e se balançar nos galhos das árvores. Comer frutas, araçá, goiaba-do-mato, araticum, sete-capote, muitas pitangas, guabirobas, pequis, ananás...
            - O que você está dizendo está fazendo é muito útil, é.
            Os índios e índias da tribo mehináku gostavam de comer mel tirado na hora. Uma manhã muito bonita a menina Lilás foi com eles. Macunaíma ninguém sabia onde ele estava e quem ele era. Devia estar no céu como um caracará, ou na água como um pirarucu ou peixe-boi, no meio do mato como uma anta ou como um capincho ou uma preguiça-real, plantado no mato como uma palmeira guacuri ou arbusto caiaté. Ele se metamorfoseava. Podia ser aquela mesma ali iaupê-jaçanã. Vai saber!
            - O B todo é mais pra lá, claro!
            Então os índios e índias jarauára descobriram no meio de um taquaral criciúma um enxame das de abelhamirins. As crianças ficaram de fora olhando e esperando. Os índios e índias entraram no criciumal. Era perigoso. Muito estouro de taquara, fumaças, risos, conversas, tu-tu-tus!... de sapos alarmados, gritos e risos lá por dentro. Alguém gritou que chegara ao ninho das abelhamirins. E foi pra já... Se ouviram os gritos, berros, mais outros gritos e estalar de taquaras, uma avalanche e todo mundo correu para o riozinho mais próximo fugindo do perigo das abelhas. Eram índios e índias correndo das abelhas. Era guerra de abelhamirins ou mandaçaias ou jataís ou lechiguanas ou tataíras? Elas mordiam com apetite, bom apetite!, vingativas. Tá bom?!
            - Eu só tenho interesse de ir de manhã, à tarde nem falá!
            - Com dezoito anos a gente corre de abelhas? Pura paixão!
            - Por que tá todo mundo descabelado e rindo à vontade? Nasceu um novo país?!
            - Deixem elas acreditar que é verdade. Elas o enxame merecem!
            Uma hora depois, todos os índios e índias e curumins e cunhantains e a visita menina Lilás e bichinhos de estimação, estavam subindo um morro para espiar espreitar ninho de abelha, abelheiras, colmeias. Todos da tribo munduruku estavam com a ideia de comer mel de abelha na hora e grátis. E todos eles gostavam muito de mel de abelhas selvagens. Era um dia para isso mesmo, coletar, tirar, colher... Subindo o morro, eles viram uns furinhos no barranco. O cacique já ia na frente, e gritou:
            - Parado aí, familiares! Tão vendo? Tem furinho no barranco, então, tem abelha aí dentro. E onde tem abelha tem mel da melhor qualidade. Vamos em mutirão e pegar esse mel. Pra já, parentes! Um dois três!...
            Com pedaços de pau, os índios e as índias e as crianças índias foram cavando e tentando encontrar o mel escondido no interior dos buraquinhos do barranco vermelho. Aí, com a casinha sendo arrombada, muitas abelhamirins vinham saindo e se assustando e se enfurecendo com aquela desarrumação toda. Por isso o enxame de abelhamirins se organizou e começou a atacar os índios invasores. E a guerra iniciou. E atacaram os índios com muita brabeza e certeza. E os índios e índias tuiúca, e principalmente crianças índias com seus mascotes nos braços, nem aguentaram o contra-ataque das abelhamirins e tiveram que correr, descendo o morro na corrida e se abanando para fugir das ferroadas. Era, morro abaixo, uma avalanche de índios, índias, indiozinhos, indiazinhas, bichinhos de estimação. Mas será que eram abelhamirins ou abelhas irapuás ou tataíras? Dúvida em paz, uma vez. Dívida com as abelhas, uma vez. Tá bom?!
            - Querem um conselho, meus parentes?! Aceitem uma opinião comum, meus filhos?! Escutem só!
            Na volta da tribo abacaxi para a aldeia, eles se depararam com Macunaíma sentado no meio do mato. Sentado numa pedra aí no meio da mata. Macunaíma estava reconhecido como um índio tabajara. Macunaíma fazia um desenho no chão com o dedo da mão direita. Um desenho muito simples que qualquer curumim ou cunhantaim podia fazer. Macunaíma desenhava na areia uma tartaruga ou tracajá. A tartaruga ressuscitou e virou um jabuti. O jabuti olhou para os lados e saiu caminhando muito devagar. Demorou, até. E o jabuti nem mais olhou para trás. E o jabuti ficou com fome e foi comendo folhas verdes e apetitosas. Depois o jabuti ficou com sede e foi até o rio mais próximo.
            - Eu vou indo. Estou viajando, é. O dia é longe e comprido, entendem?!
            Macunaíma ainda ficou sentado naquela pedra. Mais um pouquinho sentado na pedra basalto. Macunaíma roia as unhas. Daí cuspiu fiapinho de unha. O pedacinho de unha caiu no chão e virou uma lebre arrisca e corredeira. Nem satisfeito, Macunaíma jogou um pedacinho de pau no ar, e o tal pedacinho de palito virou um tuiuiú que já ia voando para a beira do igarapé. Mais uma vez Macunaíma suspirou, e do bafo lá dele, saiu um rastro de raposa ou zorrilho ou zorro mascarado. Depois Macunaíma abraçou a árvore guarapiranga, Macunaíma virou cipó alamanda-de-flor-grande todo retorcido e enroscado, Macunaíma subiu até o topo dessa árvore e Macunaíma ficou por lá como um vegetal enrolado.
            Lilás perguntou ao pajé sujeito dos espíritos do chão do ar das sombras etc:
            - Era Macunaíma que estava ali, seu pajé? Me diga!
            - Macunaíma será sempre jovem e guerreiro. Às vezes ele apronta.
            E Lilás voltou:
            - E Macunaíma incomoda? Ele vira planta? Ele vira acidente geográfico?
            - Macunaíma é contra a caça e a pescaria e o corte de lenha e o garimpo.
            E a menina perguntou:
            - De onde vem Macunaíma? Para onde ele quer chegar?
            - Macunaíma fala com os índios e índias, com os bichos, com os insetos, com as árvores, com as águas, com as pedras. Macunaíma é um deus mágico ou extraterrestre. Ele já virou a pariparoba já aconteceu murucututu já foi uma vez pelo menos anfitrião na restinga de Marambaia...
            A guria era mesmo curiosa e interessada:
            - O Macunaíma existe mesmo, seu pajé? É um ser diferente!
            - Macunaíma sorri, ri, gargalha e nunca chora ou chorou. Macunaíma é uma montanha de pedra. Frio como o vento minuano.
            Os índios nhandeva eram grandes comedores coletores de mel silvestre. Aquele dia nem descobriram nada. Talvez fosse culpa da lua Jacy. Talvez fosse culpa do Anhangá-Pitã. Voltaram para as ocas e de mãos abanando. Os deuses do mato protegiam mesmo as abelhas e etc. Os matos se enroscavam e protegiam tudo, espelina-verdadeira, papos-de-peru, embiruçu, favas-de-besouro, macambira-de-serrote...
            E Lilás se despediu dos índios karipuna e voltou para a sua casa. Tá bom?!
            - Ora, para viajar é preciso caminhar! Um passo depois outros!
            Lilás com os olhos dela no ar de Roraima. Olhos ligados como relâmpagos. E a menina disse para si consigo e se abraçando:
            - Roraima é bom! Esta tarde é bom! Ninguém esquece o que é bom! Tá bom?!
            Na volta, pelo meio da floresta, de bíci, pedalando, lugares de Brodowski ou Natividade da Serra ou Guatambu ou Chã Preta, subindo e descendo morros no meio da floresta, babosa-branca, mocitaíba, goiabeira-serrana, fruta-de-coruja... por trilhas e furos da mata, a menina ouviu uns gritos de bugios vermelhos e bugias nem muito vermelhas amarronzadas carregando filhotinhos nas costas:
            - Huuuu-ú!... Huuuu-ú!...
            Mais adiante, já bem longe da aldeia dos índios cariri-xocó, a menina encontrou uns bichos que dançavam em grande harmonia. Muitos bichos, como a ariranha, a garça-branca, o tucunaré, o jacaré-de-papo-amarelo, o furão, o tamanduá-bandeira, a joaninha, a mamangaba, a coruja buraqueira, a jaguatirica... esse pessoal todo povoador da mata profunda. Gente que comia bebia, e o que a mata oferece desde sempre.
            A menina nem quis parar porque estava com vontade de chegar antes em casa e tomar café e comer bolo de chocolate na varanda da casa da avó com a vovó. Nem parou muito tempo olhando o baile no claro da floresta no palácio Laranjeiras. Passou Ubatuba. Se acercou do monumento ao famoso Olegário Mariano. Voltando voltada para casa a casa da vovó e dela mesma. Passou o rio Quaraí e nem parou foi andando até mais tarde até a praça Mauá. Muitos hotéis na beira do mar e hotéis tudo incluído. Tá bom?!
            Tinha o caminho andado na terra tinha o mar oceano Atlântico e a cúpula do céu.

domingo, 15 de dezembro de 2019

A Excursão (juvenil) Terceira Parte



   
            E surgindo o dia seguinte, os visitantes partiram. Mais ou menos bem dispostos com 8h e 20min. Jacás carregados. Toda a comitiva a caravana a procissão. Prosseguiram de viagem. Como se nada houvesse acontecido. Como carreira de formigas-correição. Como se tivesse acontecido. Um pé de cedro-batata só podia ser muito estranho ali parado no campo. Os pássaros pica-pau-verde-barrado, joão-tolo, araponga-da-horta... voando de sol em sol de céu em céu de árvore em árvore de planta em planta cardo-ananá, alfazema-de-caboclo, capim-navalha... e passarinhos rápidos... um sem-número deles... inúmeras vezes...
            Lilás, sem querer, ficou pensando em como seria confortável se D voltasse a habitar outra vez o paraíso. O tempo passava e bastantes. Uma árvore bem de manhã e amarela como ipê-amarelo. O sol se lembrando como se fosse hoje. Era melhor ser um passarinho. Foi bom conhecer de passagem o rio Iguá. Os maracanãs criavam polêmica nos pés de javaris.
            Nem há tempo a perder. O voo majestoso do jaburu. Pássaros abrindo voo a partir das árvores, sabiás-da-mata, arapongas, saurás, vim-vins, corujinhas-do-mato... bando de papa-cacaus...
            E o caminho era sempre longo pelas serras e chapadões e trilhas e estradinhas do cerrado das Minas Gerais, etc. Aqui e ali toda hora cruzavam com um rio de itaipava o rio das Almas as cidadezinhas localidades de Almenara, Medina, Rio Manso, Jussari, Quissamã, Campos dos Goytacazes... e serra do Cipó...
            Na quinta-feira da outra semana pela manhã e boa parte da manhã uma chuva de enfrentar. Trisques e trisques e faíscas de energia abrindo o céu escuro na atmosfera cheia cheia de e-le-tri-ci-da-de. Abriu a chuva, choveu. Até o meio-dia e meia choveu o que D concluiu. Na tarde voltou o sol de raios. Abriu a tarde com sol e a noite prometia estrelas muitas para contar, etc. Ou era chuva e barro, ou era sol e poeira. Mas sempre a fadiga o cansaço da longa jornada, e assim por diante.
            Os reflexos do sol na água nas cores no verde das plantas dos alagados iaupês-jaçanãs, catuabas-do-mato, ouricuris, lixeiras... O mundo era governado pelo capim-rei. O planeta precisava e muito dos sabiás-pretos, catirumbavas, bicos-miúdos, siriúvas... A terra estava rodeada de canelas-de-ema, bananeiras-bravas, facheiros, carludovicas-brasileiras, cerejas-do-mato... O cipó-timbó era uma liana sempre da esquerda para a direita.
            Somente os lugares são felizes e aprendizes. Bandos de perdizes perdigões perdigotos estes perdidos dos pais, piu-piu! piu-piu!... rio Santana...
            Os saripocas-de-bico-riscado cantavam preferencialmente logo de manhãzinha e isso era honesto. A arnica-do-campo florescia em setembro até novembro. Os tamanduás-bandeiras pastavam formigas e cupins. Ao meio-dia de sol forte, a tapiíra escolhia deitar debaixo na sombra da faveira. Na tarde descabelada beirando a noitinha era a vez da suindara dar umas circuladas voo baixo reconhecendo o ambiente, etc. Ora se não!
            - No calor do dia de verão... - suspirou o Pedro.
            - Até que o sol aqui é legal - e já respondeu a menina.
            - Oh, linda situação para se construir uma vila! - disse o príncipe.
            - Pois se não é!
            Lilás olhava as plantas as árvores com suas cores e troncos e folhas de tamanhos diversos. E colheram araticuns, goiabas-do-mato, muricis, tarumãs... As árvores se agitavam com o vento para melhor serem reconhecidas apreciadas. O beija-flor-brilho-de-fogo é dos indivíduos passarinhos que gostam do néctar das flores, assim como as abelhas em geral, e são nectarívoros, são polinófagos.
            Passaram uma pontezinha de pedra quando por baixo rolava um rio o tal e qual rio do Peixe. Quanto tempo de espera para o rio chegar até o mar? Quem disse por que que o rio tem de chegar até despejar no mar? O mundo total tinha um mundo que ia pela direita do rio do Peixe e outro mundo que vinha pela esquerda do mesmo rio. Uma cidade atrás da montanha Baependi outro lugarejo Pati do Alferes arraial Pitimbu localidade Cachoeiras de Macacu... parque de preservação ambiental São João Marcos... território dos caeté...
            - Por que que o mundo tem tanta montanha, seu príncipe Pedro? - era a dúvida momentânea e urgente da menina.
            - Montanhas que escondem ouro, sim senhora!, querida amiga miudinha.
            - Então são montanhas e montanhas muito ricas!
            - Sim. Debaixo dentro durante destas montanhas tem muito ouro escondido.
            - Eu duvido e faço pouco.
            - Montanhas de ouro de diamantes de ferro, etc.
            - Mas por quê?
            - Olha, miudinha! Sei lá. Sempre foi assim. As pessoas preferem ouro e prata quando de vez em quando diamantes. As pessoas vendem pedras preciosas prata... para pagar o ouro. As gentes ganham ouro prata pedras preciosas... para comprar ouro.
            - Meu pensamento é uma árvore ubiratã - desabafou a menina.
            - Meu pensamento voa como as andorinhas, para chegar mais rápido.
A caravana avistou foi chegando chegou e entrou em Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, céu baixo, terça-feira em meio-dia sem sol, 12h e 34min., nuvens baixas arrastando montanhas, vento conforme, várias casas cobertas com telhado de sapê, cães soltos nas casas vinham dar as boas-vindas saudar vivar, algumas casas cobertas de telha de barro cozido e com janelas vidraçadas.
Os visitantes decidiram aproveitar a rua estreita Visconde de Inhomirim. Junto a uma igreja em construção - igreja São Francisco de Paula - pararam as alimárias, apearam, saciaram a sede, deram água aos cavalos e aos burros, e agradeceram ao santo do dia. Na igrejinha ali trabalhavam uns homens escravos alguns outros alforriados uns brancos um mulato pequeno apelidado Aleijadinho.
O Alejadinho reconheceu, ou adivinhou, que era para ser o príncipe Pedro e sua comitiva. Então, fez as mesuras, se curvou, sorriu um sorriso quase sem dentes, muito mal na aparência, todo estropiado, praticamente em farrapos. Falou assim o mestre artesão:
            - É mesmo a sua alteza Pedro Príncipe Regente?
            - Com certeza, meu amigo escultor - o príncipe Pedro apontou para a comitiva. E mais essa gente toda que me acompanha desde o Rio de Janeiro.
            - Ficamos sabendo pelos viajantes e mercadores que o príncipe estaria para chegar. O povo o aguarda com ansiedade. Só nem tínhamos ideia exata do dia - dizia o Aleijadinho e de nome Antônio Francisco Lisboa.
            - E por falar em povo, onde anda todo mundo? - questionou o príncipe.
            - Pois é, alteza. O povo está todo concentrado em frente da intendência onde julgam um traidor que atentou contra a Coroa portuguesa.
            - Está bem, vamos até lá. Obrigado pela água, amigo.
            - Sejam bem-vindos a nossa cidade, alteza Pedro Príncipe Regente e comitiva.
            Após andarem praticamente toda a rua Padre Rolim, chegando à intendência (ou prefeitura), o príncipe regente e sua caravana esbarraram com um tumulto no meio da praça, no chafariz Marília de Dirceu, largo do Rosário. Bastou serem reconhecidos para que toda a multidão se voltasse para eles e esquecesse o resto. E foram recebidos com aplausos, vivas, beija-mãos, salamaleques, ademanes, beija-pés, tapinha nas costas, fogos de artifício, uivos, acenos, bimbalhar de sinos, lenços agitados... Todos os viajantes deram a volta por cima e desmontaram bateram a poeira.
Veio o governador da capitania das Minas Gerais o seu Cláudio Manoel da Costa, e todo agitado, todo nervoso e agitadíssimo, para recebê-los, cumprimentá-los, vivá-los, acarinhá-los, etc., abrir as portas da vila, começando diretamente com a saudação ao príncipe Pedro. E com reverência, sorrisos e brilho nos olhos, beijou a mão do regente em sinal de respeito e hierarquia e honra, fez as gentilezas de todo o povo:
            - É uma felicidade para todos nós da comunidade poder recebê-los, sua alteza Pedro Príncipe Regente e acompanhantes! Um grande acontecimento para esta cidade de Vila Rica e para Minas Gerais! É o dia mais feliz das nossas vidas! Sejam bem-vindos! Estávamos aguardando a chegada e com muita expectativa!
            - Obrigado. Mas, pelo que se vê, há problemas e controvérsias e os quiproquós.
            - Pois é, alteza. Apresentávamos ao povo o traidor da nossa estimada Coroa portuguesa. Pegamos o aventureiro em delito grave e vamos enforcá-lo para servir de alerta e exemplo a outros que por acaso venham a pensar a mesma asneira. Ele tentou fazer a independência das Minas Gerais... e quem sabe do Brasil...
            - Quem é o homem?
            - Um revolucionário, um ex-militar alferes, um bandido de apelido Tiradentes. Nem é de família conhecida, um tal e qual Joaquim José da Silva Xavier.
            - O senhor governador então está a me dizer que se pretende enforcá-lo, esquartejá-lo, é isso?
            - A ideia era julgá-lo, alteza Pedro Príncipe Regente, no rigor da lei e como a lei manda e ordena. O povo assim o quer assim o exige. Pensamos julgá-lo e mandá-lo ao Rio de Janeiro onde seria enforcado e esquartejado. O povo da capital teria um belo espetáculo um grande desfile uma concorrida quermesse e faria um magnífico carnaval de rua.
            - Quero que parem com esse julgamento até eu me inteirar de tudo que está acontecendo e por quê. Por agora gostaria que eu e comitiva tivéssemos bons banhos, boas comidas, confortáveis camas, etc. A viagem por esse país de sertão e sertões foi longa, cansativa, sem fim. Necessitamos de repouso, sono dos justos, três dias e três noites de sono e bons sonhos e silêncio. De acordo, senhor governador?
            - Escuto e obedeço, alteza Pedro Príncipe Regente!
            E nem houve mais nada naquele dia fechado nublado carrancudo encasacado. O julgamento foi suspenso até segunda ordem e o preso reconduzido à cela na cadeia pública na rua do Tereterê. Quanto à comitiva, essa foi instalada na intendência mesmo e o príncipe na casa do fazendeiro rico proprietário de 300 escravos e muitas minas de ouro fazendas de gado o tal e qual Tomás Antônio Gonzaga, etc. Os sinos da igreja de Nossa Senhora do Pilar nem pararam de bimbalhar em festa em saudação. Aliás, todas as igrejas fizeram o mesmo e por merecer. E também por toda a cidade de Vila Rica de Ouro Preto um chiado de chuva para provocar bons sonos bons sonhos, e somente os possíveis e mansos.
            No meio da tarde começou continuou a chover ainda mais forte. Era justo. O mau tempo pegou a cidade e a trancou em casa. A rua Marquês de Olinda a principal estava deserta e abandonada. Quem sabe outras ladeiras. Tarde de chuva como tem de ser. Um pouco de frio no vento do sul. Água escorrendo na sarjeta junto às casas aos prédios de estilo rococó, simples assim. E o som da chuva no telhado e na rua dava um gosto de dormir que só ouvindo. E a maioria foi dormir e todos foram dormir muito bem naquela tarde úmida, e depois de tomar o bom caldo gorduroso nutritivo revigorante. Todos foram dormir sem pensar que podiam fazer muitas coisas e isso e aquilo e outras mais todos os dias e nas horas e nem só naquela tarde, etc.
            O tempo chuvoso e meio frio, no entanto, nem abalou os planos secretos que, junto com seu amigo Xuri, a menina Lilás pretendia planejava executar naquela mesma tarde. Acompanhada do cão de linhagem aracambé, desceu a rua Alvarenga em direção à periferia bairro Nova Vicenza. Caminhou a rua Barão de Vassouras, passou pelo mercado São Pedro, etc. Minutos depois chegou à igreja onde encontrou o tal Aleijadinho entregue as suas obras de arte sacra. Este ainda no trabalho iluminado mais ou menos por alguns candeeiros e velas de sebo.
            - Seu Aleijadinho, eu poderia falar um minuto com o senhor?
            - Oh, pois não, miudinha. Vocês acompanham o príncipe Pedro, se bem me recordo. Que desejam?
            - Olha! Eu estava pensando em livrar o Tiradentes da prisão, só quê...
            - Mas isso é suicídio, uma loucura!... Que ideia!
            - É que nem posso ficar parada e ver aquele herói ser morto assim... sem mais nem menos, entende?! Temos que fazer alguma coisa!
            - Eu também sinto dó do pobre homem mas, como se pode fazer? Se nos pegarem tentando libertá-lo, vão nos enforcar junto com ele.
            - O príncipe Pedro nos salvará, caso nos peguem com a mão na massa.
            - Olha, miudinha, nem sei se o príncipe ficará do nosso lado. Você sabe, ele é português, e são os portugueses que servem à Coroa, que mandam no país, que pretendem enforcar Tiradentes, etc.
            - Uta! Mas eu vou livrar Tiradentes da cadeia. O senhor pode me ajudar, o senhor quer me ajudar, o senhor gostaria de me ajudar? Entenda o meu lado, seu Aleijadinho!
            O grande artista ficou de ânimo desconsolado e de braços caídos. Nem conseguiu convencer a menina Lilás e o cão que seria uma operação arriscada e, ao mesmo tempo, nem queria passar por covarde. Que fazer numa hora dessas? Como resolver um problema desses? Que fazer em caso de enchente?
            - Ah, se ao menos eu tivesse a minha boa saúde! Que planos a menina tem para libertar o aventureiro revolucionário? Pode falar, sou todo ouvidos!
            - É o seguinte. Vamos combinar uma coisa e antes que anoiteça, e mais isto e...
            Lilás expôs seu plano detalhe por detalhe, passo a passo, sinais e pontos e travessões. Discutiram um porém ou outro e foi, fecharam o caso. Estava decidido. Mãos à obra. E da teoria para a prática.
            - Eu aceito entrar na aventura mas... Quero que saiba de uma coisa: estou para pegar uma gripe horrível.
            - Vai dar tudo certo, imagine, será uma moleza.
            - Meu Deus, se fosse há vinte anos!... - resmungou o Aleijadinho se recordando dos seus idos tempos de rapaz cheio de força e coragem e vontade e tempo de sobra.
            Lá pelas 17h e 08min., debaixo de uma chuva voluntariosa copiosa, chuva capacitada comprometida, ladeira estreita rua Barão de Vargem Alegre, iniciaram a operação para libertar Joaquim José da Silva Xavier ou Tiradentes.
Aleijadinho e cão Xuri se encaminharam para o portão principal da casa da cadeia localizada na rua do Tereterê em frente da praça Monsenhor Castilho Barbosa e ali ensaiaram um teatro. Aleijadinho gritou, esbravejou, teimou com o pobre cão por n fingidos motivos. Tudo bem esquisito. Em princípio, os guardas olharam e nem queriam sair da guarita. Nem queriam se molhar, não queriam se irritar, nem queriam conversa com bêbado, nem queriam conversa com mendigo maltrapilho vagabundo. E tudo mais ou menos muito estranho. Chovia, e sem parar. Todavia, o alarido foi tão grande, tão sem propósito, tão idiota, que as sentinelas nem tiveram outro trabalho a fazer senão intervir. E muito tensos e com os nervos à flor da pele, provocados, resolveram ver do que se tratava:
- Isso nem pode ser - disse o guarda Um.
- Isso é coisa do fim do mundo - disse o guarda Dois.
- É uma falta de respeito com a lei e a ordem - disse o guarda Um.
- Nem só com a lei a ordem e o progresso mas com a gente também, os representantes da lei da ordem e do progresso - disse o guarda Dois.
- Então eu vou lá - decidiu o guarda Um.
- Então vamos lá - decidiu o guarda Dois.
- Na chuva para se molhar - disse o Um.
- E molha um e molha dois - disse o Dois.
Assim, ali na calçada de pedras pé de moleque, os guardas chegaram e conferiram aquele homem aparentemente bêbado, gesticulando e bufando a torto e a direito, ora contra o cão, ora contra a chuva, ora ainda contra a própria miséria, a política, muita coisa, etc. O soldado Um se aproximou mais, então, ameaçou com o mosquetão e ordenou:
            - Oh, camarada! Que palhaçada é essa? Por que nem vai incomodar a loba boba da tua rua de lua cheia! Vai timbora, vai!
            - Meta-se com sua... vida... cuide... de sua... - Aleijadinho fingindo estar bêbado ou até muito bêbado.
            - Vamos, xô! Cai fora antes que lhe passe a borracha!
            - É minha mulher... nem sabe?!
            - Sei. Ela voltou pra casa dos pais, ela te abandonou, ela nem te aguenta...
            - Ela... ela é uma dama... sem muito, bla-bla-blá!...
            - Quem manda casar sem confiar. Agora cai fora. Minha paciência está se esgotando. Já se esgotou. Nem tenho mais paciência para esperar!
            - Preciso...  minha esposa...
            - Sim, faça isso! Mas agora saia! Te arranque!
            A dupla de vigias pressentia encarar uma situação limite. O diálogo estava realmente bem amalucado bem brabo. E então, dizendo assim, ao mesmo tempo que falava, o guarda Um quis empurrar o pobre homem com a ponta da baioneta presa no mosquetão. Soldado Um foi determinado pra cima do Aleijadinho mas desistiu na hora ao ver o Xuri arreganhar os dentes e rosnar, grrrrr!...
            - Se retirem daqui o quanto antes! Fora! - dessa vez quem gritou foi o guarda Dois.
            - Está bem, já tô indo... droga! Estamos indo... né, cãozinho?! - resmungou Aleijadinho.
            Aleijadinho então entendeu que já tinham distraído os guardas o suficiente para que a operação pudesse dar prosseguimento e resultado. A representação toda o teatro todo já durara uma boa meia hora. Trinta e oito minutos bem exatos. Como o artesão nem viu nenhuma anormalidade, nenhum alerta nenhum alarma que pudesse denunciar algum fracasso da menina, considerou que assim tudo correra como fora planejado. Então, pegou o cão e, devagar e sempre e sob a chuva torrencial, muita água, mundo encharcado, subiu a ladeira do Aranhi nas imediações do museu Mariano Procópio. Chovia, e bastantes. Chovia e como descia água ladeira abaixo, nossa! Qualquer um podia ter a sensação de que nunca mais cessaria de chover e o sol e a lua nunca mais reapareceriam. E de uma vez só.
            - Fizemos tudo certo, Xuri? Será? - perguntas do Aleijadinho para o seu companheiro de empreitada.
            - Au-au-au!... Faltou pouco pra eu nem morder um ou dois deles, quer saber!
            - Eu só nem queria ser preso...
            - Esse negócio de ser preso e ser mantido na jaula nem passa pela minha cabeça, gruuu!...
            Enquanto o Aleijadinho e o Xuri faziam lá o seu teatro no portão principal, Lilás aproveitou a falta de atenção das sentinelas e escalou o muro. Já no pátio interno, procurou entre as várias celas gradeadas a do Tiradentes. Foi difícil procurar sem um mapa, naquele frio, naquela solidão. Foi mais difícil encontrar o herói no labirinto.
E logo depois que o herói foi encontrado, e que soube disso e soube daquilo, trocaram umas ideias a respeito da fuga:
            - Seu Tiradentes! Tô aqui com a missão de livrá-lo. O senhor quer vir comigo?
            - Que dúvida. Mas, e os guardas? Como entrou aqui, miudinha?
            - Pulando o muro. Temos um bom tempo. Se o senhor me ajudar com essas trancas pesadas, upa!... eu o liberto.
            Um pouco de esforço, boa vontade e a necessidade de dar o fora, nada nada de magia, e já o prisioneiro estava livre das grades e correntes. E falando perguntas:
            - Quede o resto do pessoal, miudinha? Você veio sozinha? Você é intrépida?
            - Tem uma turminha ali fora dando um apoio estratégico uma cobertura. Simboralá, seu Tira Dentes!
            - Vamos viajar? Vamos para Guaranésia? Vamos para Ubá? Nos bandearemos para Porto Feliz? Quem sabe a ilha de Itacuruçá, hein?! Eu posso ir para onde for, baía de São Marcos... porto do Mucuripe... e outros bem longes.
            - O senhor com certeza precisará se mandar e urgentemente. A chapa vai esquentar e até queimar, seu Tira! Temos que escolher um destino e é pra já. O mundo é pequeno para quem precisa se esconder!
Do pátio rapidamente pularam o muro de cacos de vidro arame farpado pontas de lança, e caíram no mato, evitando as ruas centrais e casas para nem serem descobertos. A noite já estava caindo e mais a chuva o vento frio e tudo pontilhado de coaxos e latidos e cri-cris e vu-vuuus!...
- Tenho a sensação de que alguém está nos seguindo. Você nem sente a mesma coisa, amiga miudinha? - pergunta aflita do Tiradentes.
- Com essa chuvarada toda, seu Tira! Não, nem tem ninguém nos nossos calcanhares, é.
Tiradentes estava debilitado, fraco, devido a pouca comida, comida podre, e muito aos maus tratos que recebera nesses últimos dias. Mesmo assim, com sacrifício e sufoco, uma hora, pouco mais, chegaram no alto de um morro - morro do Rola-Moça - que circundava a cidade, que via a pequena cidade de longe. Ali entraram numa casa em ruínas uma choça qualquer para descansar e esperar o cantar dos galos. Com sorte até mesmo a chuva pararia. Com conversa fiada até aguentariam a fome e a falta do que comer. Tiradentes falou as tais e quais perguntas que nem queriam calar:
            - Agora podemos conversar melhor. Você poderia me dizer o que pretendem de mim? Acho que há mais gente contigo nessa empreitada. Você é agente secreto? Espiã de alguma irmandade beneficente? Você está agindo em nome do príncipe Pedro? Você veio de tão longe para me libertar? Você é da capitania de Pernambuco? Você é de São José do Vale do Rio Preto? Você é da tribo tabajara? Você nasceu no rio Caceribu?
            - Ufa! Não, nada disso. Eu sou somente eu o meu amigo Xuri e meu outro amigo Aleijadinho, nós três e mais ninguém. É um trio trilegal!
            A chuva ainda caía e rolava na sarjeta com a noite que entrava. Mais outras poucas horas friinhas a noite ficaria mais madura. Na madrugada acordariam os galos para cantar anunciando a manhã, etc.
Seu Tiradentes sofria com muito frio nos ossos, na pele arrepiada, na raiz dos cabelos longos barbas longas. Menina e herói com roupas molhadas e tremendo de frio, batiam os queixos, pingavam dos narizes. As horas demoravam cada qual uma volta completa no relógio. Os galos nem acordavam antes do cedo. Lilás, 01h e 10min, falou sem demora:
- O senhor pretende sumir pela geografia? Tem alguma ideia? Gostaria de tirar férias em Marajó? Ou no parque do Xingu? Ainda quem sabe subir o alto rio Solimões no Estado do Amazonas? Morar em Tabatinga? Nem sei o que recomendar. Nem recomendo que pegue o Caminho Novo ou Estrada Real, isso sim.
            - Sei lá. Vou correr até acabar as pernas. Outra coisa. Como vou agradecer esse favor? Vocês três salvaram a minha vida. Por enquanto.
            - Nem é preciso agradecer. Fiz isso porque o senhor é um homem de valor. Fiz isso porque gosto da H do B. Fiz isso porque gosto de História do Brasil Colonial. Faria qualquer coisa para salvar um herói poderoso como o senhor, seu Tira Dentes.
            - Sabe, eu pensei que era fácil acabar com os políticos corruptos. Infelizmente o povo nem acreditou em mim e nem foi na minha. E o povo é a voz de D.
            - Talvez se o senhor tentasse de novo, insistisse noutro lugar, daqui uns anos...
            - É, vamos ver, vamos ver, miudinha. Estou desanimado mas, se nem consegui agora... pelo menos poderão dizer que ousei que tentei. Mais cedo ou mais tarde alguém terminará o que comecei. Pode demorar, mas a liberdade virá. A independência do país virá!
            Uma semana após a libertação misteriosa mágica pretensiosa de Tiradentes, Pedro Príncipe Regente e sua longa comitiva estavam de partida para São Paulo, pegando aí a poeirenta Estrada Real. Ao todo uns cento e poucos, entre pessoas cavalos burros cão, os semoventes. Era uma longa centopeia. E alaranjada de sol e poeira.
            - Daqui mesmo se vê muito longe - dizia a menina, admirando o horizonte.
            - Além das montanhas e vales profundos - conversava o príncipe.
            - Eu queria morar em mil lugares...
            - Eu já tenho saudades do Rio de Janeiro, a praia, a lagoa, a baía...
            - Por que o B nem tem zebras e girafas e leões?
            - Deve de ser porque tem sauás, acamins, camu-camus, carapebas, geribás...
No entanto, antes de sair de Vila Rica de Ouro Preto, passaram na igreja onde o tal Aleijadinho trabalhava. Passaram ali para as despedidas de praxe e gerais e comuns. Deixaram os cavalos beber água, os dragões esperando perfilados, o povo da vila olhando e cochichando, o céu de anil, as montanhas de ferro, as maúbas-amarelas florindo amarelo, saíras-negaças gorjeando, etc. O mundo existia as coisas também torres de igrejas molduras de janelas.
No templo sagrado que se erguia aos poucos e conforme o dinheiro, observaram a arquitetura barroca, olharam também as esculturas, desenhos e pinturas do mestre Manuel da Costa Ataíde, as estatuetas, nichos e capelas, a beleza única e criativa e original, etc. E uma igreja tinha de ser muito rica e bem trabalhada. A Lilás comentou:
- Tenho uma ideia relâmpago!
- Qual?
- Os artesãos podem decorar tudo com anjos céus pássaros e tudo mais que existe de alados, etc.
Antônio Francisco Lisboa o Aleijadinho era pra ser mesmo um extraordinário artista escultor. Caso raro naquele tempo naquele lugar e arredores. Um gênio da raça. Um artista caprichoso.
            - O senhor - dizia Pedro ao Aleijadinho - me surpreende com seu maravilhoso talento para imagens sacras. Nunca vi tamanha perfeição em detalhes. Suas estátuas de santos e santas parecem querer falar, parecem realmente existir, parecem se mexer, parecem com a cara do povo.
            - Que nada, alteza! Agradeço o elogio, mas nem mereço. Faço o que posso. Minha saúde já nem é a mesma de alguns poucos anos atrás. Nem sei o porquê. D sabe o que faz.
            - Muito legal tudo que acontece - completou a Lilás. Os anjos foram tirados do céu, com certeza. Lá de cima das nuvens de algodão. Anjos de asas coloridas, de rostos alegres, em voos de passarinhos, etc.
            - Pra falar a verdade a inspiração vem mesmo com as crianças, que são anjos presentes aqui na terra. Eles estão por aí, eu só os coloco no altar. Depois de esculpidos e pintados e acrescidos de asas, eles bem que podem voar.
            - Genial!
            - Um dia desses mandarei buscá-lo para fazer, lá no Rio de Janeiro, algo parecido. O senhor aceita? O senhor concordaria? - convidava o Príncipe Pedro.
            - Quanta honra, alteza! Também gostaria muito de conhecer o Rio de Janeiro. Dizem, os que viajam para lá, que é um lugar lindo, de uma natureza exagerada, natureza engraçada e única no mundo, o progresso, as modas que vêm da Europa e da Índia e da China, etc.
            - E com muitas praias fantásticas pra se molhar os pés, fazer piqueniques nos domingos - disse Lilás. Conhece praia salgada, seu Aleijadinho? Praia de Ipanema... praia da Galheta...
            - Está aí uma coisa que gostaria de fazer antes de bater as botas, miudinha. Nunca vi o mar. Dizem que o mar é azul como o céu profundo. Nem sei, mas calculo.
            - Bem, está na hora de partirmos - sugeriu o príncipe. A longa estrada para São Paulo nos espera nos aguarda.
            - Foi um prazer enorme recebê-los em minha humilde igreja, alteza e comitiva!
            - Tenho uma ideia brilhante - ainda lembrou a menina.
            - Qual?
            - O senhor poderia fazer um chafariz na entrada da cidade. Seria bem proveitoso e refrescante. Um chafariz artístico e de época.
            Enfim, se ajoelharam diante dos santos na igreja, fizeram o sinal da cruz na testa, montaram nos cavalos e tomaram a estrada. Todos eles e mais alguns. O povo da vila ainda estourou foguetes na praça Padre Lobo, ladeira de Santa Efigênia, bairro Santa Corona, etc.
            - Tenho uma ideia perfeita - foi a Lilás.
            - Qual? - perguntou o mascote Xuri.
            - A gente poderia deixar o endereço pro seu Aleijadinho nos visitar lá no Rio, hein, que acha Xuri?!
As eternas montanhas desenhavam corcundas no horizonte de ferro. Subindo e descendo, contornando grandes peraus, cruzando vales e desfiladeiros... As montanhas do ouro. O rio da Cruz. O vale do Jequitinhonha.
- Tenho uma ideia genial.
- Qual? - desta vez o príncipe perguntou.
- Podíamos viajar de carroça. Nem seria mais cômodo? Dava até para ir dormindo sem o risco de cair.
Os moradores aplaudiram, saudaram, desejaram as boas viagens, dias de bons tempos, etc. Até São Paulo muitos sóis e chuvas, noites mais ou menos frias, cansaços, cavalos estropiados, outras coisas, etc., que os aguardavam.
No último morro da cidade com vista para Ouro Preto, um sinal da cruz diante da capela de Santana. Quem olha para trás sempre volta? Então, tem gente que olha e que nem olha.
- Sempre volta - disse o príncipe Pedro.
- E é bom voltar e se deve voltar - concordou a menina, cara aberta risonha.
As árvores falavam com os pássaros. Os passarinhos que se apresentavam às plantas. Os espaços falavam com a luz do sol. Em breve outras árvores teriam nomes, canjeranas-do-brejo, quaresmeiras, mangabeiras, girassóis-do-campo, castanhas-mineiras... e outros pássaros pegariam nomes ou apelidos, beija-flores-da-mata, pintassilgos, bicos-chatos-de-orelha-preta, trombeteiros... o bando de papagaios-de-coleira comiam as frutinhas que encontravam e por isso tinham essa característica de frugívoros.
Localidades aparecendo nas encostas dos montes, Goianésia, Barra, Igaraçu do Tietê... Pareciam brancas de casas brancas com janelas verdes portas verdes. Telhados avermelhados. Campinas de capim-cheiroso. As lianas quinas-cruzeiros carregadas de flores cheias de pólen poliníferas atraindo sempre as abelhas tipo as bijuris, bizzz! bizzz!... Montanhas azuis. Como era viver ali em a aldeia dos piratapuia? O rio Macabu ziguezagueante descendo cachoeiras e corredeiras. E mais adiante São Joaquim de Bicas, Passos, Resende, Juiz de Fora, São João do Sul...  
Ninguém ficou sabendo que destino na verdade Tiradentes tomou depois que fugiu da penitenciária de Vila Rica. Hipóteses foram levantadas, palpites nem faltaram mas, até hoje, nada foi concretamente apurado e comprovado e registrado na história. As pesquisas foram feitas em vão. A lenda que corre de boca em boca, de livro de História em livro de história, dá conta de que Tiradentes arrumou um disfarce de mascate, regateiro, vendedor ambulante, montado num burrinho ruão, todo carregado e cheio de quinquilharias, e atravessou metade do mapa do país para chegar ao parque Tumucumaque, no Amapá. E como é grande este país! Ali no parque armou uma barraquinha e um pequeno comércio e um pequeno negócio, etc., à beira do rio Flexal. E viveu escondido por lá até sua sorte acabar, muito avançado em idade, até sua sorte o abandonar, barbas longas e brancas, cabelos escassos ou meio careca, rodeado de filhos e netos e bisnetos. Passou o tempo plantando aipim pescando colhendo açaí convivendo dentro da reserva dos aborígenes mapuá. Ao certo mesmo, definitivamente, nada nada se sabe até o presente. Nem depoimentos, nem fotos que possam comprovar ou comprometer. E o que deve ter imaginado fantasiado pensado! Continuou a idealizar o país e o mundo. Até os últimos dias e horas da existência. O mundo do outro lado do mundo do outro lado do oceano do outro lado da mata do outro lado da história do outro lado do B de Brasil.
            Mas a jornada da grande comitiva do príncipe regente Pedro estava na metade e seria longa, exagerada, estafante, enervante, gigante, ainda seria longa. Passariam justamente por São Paulo. Os encantos de Minas Gerais ficariam nos arquivos das memórias das lembranças das recordações. Uma coisa Minas Gerais possuía e que nenhum outro lugar poderia lhe igualar: as montanhas de ferro, as fontes de água quente, as cavernas de ouro, os rios e tijucos de diamantes, as cidades antigas, Mariana, Miguel Pereira, Santana do Riacho, Barreirinhas, Manhuaçu... aliás e talvez.
            - Essa região é lugar de riquezas sem fim, minha miudinha - comentou por fim o príncipe.
            - Muitas famílias irão enricar, nem é mesmo? - perguntou a menina Lilás.
            - Igrejas e palácios e casarões e fazendonas serão erguidos do dia pra noite. Tudo por conta do brilho do ouro e do resplendor do diamante da esmeralda.
            - E até quando? Quanto tempo?
            - Até sempre. Ou até o sertão virar mar e o mar virar sertão, hum!...
            Era preciso saber o dia em que estavam. Os pássaros acordaram cedo e bateram palmas dentro das árvores bateram asas fora na paisagem fora no céu com azul e nuvens.
            - Tenho uma ideia caprichosa! - tirou assunto a menina.
            - Qual?
            - Que as casas ricas e grandiosas e enjaneladas virem museus, etc. Cada cidade por aí tem muitas casas das antigas e históricas. Olha a cidade de Iguatama... olha Birigui...
            Os olhos dos caravaneiros nem se acostumavam com o resplendor do sol forte. O dia estava cantando bem-te-vis, coleirinhas, tesoureiras, corruíras, canarinhos-da-terra, tico-ticos, curiós, pombas-trocais e outros. Os tipos magros e saltitantes dos passarinhos, das abelhas, das vespas, dos besouros e até das florezinhas-do-campo, faziam a maravilha nos olhos e nos ouvidos dos viajantes cansados fatigados quebrados alquebrados bronzeados. As plantinhas do campo as ervas anônimas disfarçavam o balanço do vento para continuar colorindo perfumando o dia.
            - Daqui mesmo se enxerga longe - falou a menina, cheia de horizontes nos olhos.
            - Já falei que este país é enorme e bonito? - arriscou o Pedro.
            - E tem rios como veias de um corpo.
            - E rio dos tamanduás-bandeiras se chama Tamanduateí.
            Algumas árvores de amarelo, ipês-amarelos, outras árvores, andirobas, juquiris, cuieiras, mutambas, malvaíscos... A tarde imensa imensa enorme, quase do tamanho e cor de uma abóbora madura. Tarde macia e com cheiro de vento verde desde longe... o rio Tega... o parque da serra da Tiririca...
            Os verdes do cerrado o pipiar do sabiá-coleira o verde dos olhos verdes da mata, bocaiúvas, sucupiras, cujumariranas, velames-do-campo... E passaram por vilas e comunidades, futuras cidades, promissoras municipalidades, Comercinho, Nova União, Engenheiro Paulo de Frontim, Poconé... aldeia dos uirina... rio Grande... já agora pela serra do Espinhaço...  
            Pois a Lilás gostava de ver os gafanhotos saltar das moitas de sarabatucu, de ver os lobos-guarás beber na sanga, as borboletas-de-restinga, socós-bois-baios voando pesados em direção aos pés de jacatirões, etc., os índios mongoió pescando na técnica da xeripana que consistia de pescar com canoa bem na época da piracema, ou seja, na época em que os peixes procuram migrar para as nascentes dos rios e desovar, etc. Cruzaram uma manhã ensolarada o grande rio Bicudo, onde dava pé.
            Ainda para trás se passou uma semana. A caravana ia em frente e ninguém esperava a mala dos milagres cair do céu.
            - Sabe, seu Pedro!
            - Continue.
            - Nem adianta nada passar aqui uma vez e depois nem mais voltar um dia, entende?!
            - Como assim, rapariguinha?
            - É que tudo isso vai me dar saudades um dia e tal, quem sabe!
            Lilás mesmo queria conhecer a pedra do Ingá. E podia ser no fim do ano no começo do ano no meio do ano no mês de setembro.
            O verão da região fazia as árvores que faziam os pássaros que faziam os rios que concluíam os panoramas. A paisagem concluía o rio Ratones que refazia o verão que refazia os pássaros que refaziam as plantas.
            - Tenho uma ideia tupi-guarani!
            - Qual?
            - Morar na floresta como índia assurini como cunhantã de nome Japira e cantar de amor as noites de canções do divino deus Rudá. Tem coisa melhor?, pergunta.
            Já na capitania de São Paulo, a caravana resolveu dar um tempo numa fazendona à beira do Caminho Velho, junto a um riachinho Ipiranga. Eram terras de um tal de Francisco Marins, dono da fazenda Taquara-Poca.