domingo, 15 de dezembro de 2019

A Excursão (juvenil) Quarta Parte



E seu Francisco foi logo sendo muito receptivo e atencioso e útil e amigo. Aprontou uma mesa grande e bem sortida de comes e bebes e frutas locais da estação sobremesas compotas quitutes para os visitantes ilustres se fartarem. Nem era todo dia que podia receber o nobre Pedro Príncipe Regente e sua comitiva. Honra dessas só uma vez na história e olhe lá!
Lilás, por sua vez, pegou o amigo Xuri - cão da raça januaíra de procedência selvagem - e uma cestinha cheia de umas fatias de pão com queijo, broa de milho, biscoito beiju-membeca, mel silvestre, frutas do pomar, e foram para a beira do riachinho Ipiranga. O lugar parecia aprazível com a de aprazível. O ar atmosférico com a de atmosférico.
- E aprazível é bom? E campestre é ótimo? E silvestre é o ar livre?
            No caminho encontraram um pássaro, o bem-te-vi-do-brejo, pousado no alto de um jequitibá. Ele o pássaro era impossível. Depois que viu a menina e o Xuri nem largou mais do pé. Falava assim, chirriou:
            - Bem te vi, bem te vi, menina, cachorro!...
            - E daí, e daí! O que você vê por esses lados, com esses seus olhos abertos?!
            - Bem te vi, bem te vi, passear!...
            - Fala outra coisa! O que que você quer, seu plumoso de ouro e prata!
            - Bem te vi, bem te vi, um lanche!...
            - O quê?! Quer um pedaço do meu bauru, é isso?!
            - Bem te vi, bem te vi, um pedaço de pão!...
            - Então pegue, seu peninha! Lá vai, seguuuure!...
            Depois de pegar o naco de pão oferecido, bico cheio, o bem-te-vi-do-brejo caiu fora, voou para outra freguesia, voou para o capão mais próximo, quem sabe alimentar os filhotes. E o céu azul com nuvens brancas espalhadas esgarçadas estendidas direcionadas pelos ventos... O vento que vinha do nordeste fazia ali mesmo a curva para oeste.
Lilás continuou seu caminho saltitante tranquila faceira leve solta. Xuri correndo muito afoito na frente na frente. Até toparem com o riachinho Ipiranga. O riozinho era ali muito fininho e tímido e limpo e cristalino e transparente e murmurante iniciante. O rio Ipiranga, mas pode ser qualquer rio, se comportava muito engraçado interessante. Refletia o céu azul as poucas nuvens aqui e ali brancas os pássaros que voavam pra cá pra lá, chupim, brujajara, papa-moscas-de-topete-marrom, traz-farinha-aí, narceja-muda... A menina foi se estendeu no barranco gramado, se estendeu de costas, ouvidos e olhos ligados nos insetos, zumbizar, marimbondos cavalos-do-cão, libélulas, etc., lugar com mais de cem espécies de libélulas. E olhou tudo em volta, o céu, contou as nuvens, o alarido desordeiro do gavião-carijó rondando bem pelo alto. E começou a pegar no sono no sono e len-ta-men-te divagar devanear...
Dado momento Xuri latiu as orelhas levantadas o corpo todo alerta ligado esticado em excelente superextensão, e latiu avisando:
- Au-au-au!... Olha ali, olha aí!...
            - Que houve, Xuri? Que que você quer dizer? Fique quieto senão você espanta os peixes e os passarinhos e os insetos e as plantas e as nuvens brancas cada uma qual e tal com cara de objeto real.
            Mas o cão nem sossegou. Mas a menina pouco entendia de au-aus. Xuri olhou para o mato ali à beira do riachinho, um capoeiruçu, e acabou falando, e latiu mais ou menos num sotaque parecido com este:
- Tem um cara ali ali nos cuidando nos olhando e nem é deste mundo, tá ligada!...
            - Que está acontecendo, Xuri? Que nervoso é esse? Você está delirando!
            - Estou vendo sim um fantasma.
            - Que novidade!
            - Um ser fantástico!
            - Que ma-ra-vi-lha!
            De repente o Xuri viu cair na água uma pedrinha, pleque!... O cão ficou doido, ainda mais excitado, bem mais nervoso, pra lá de irritado, latiu rouco e falou alto, gesticulou do jeito que os cães gesticulam, grunhiu:
            - Graaa!... Ban-di-do na área!
Nem demorou muito e novamente outra pedrinha, pleque!...
- Mas afinal - pensou alto a Lilás -, que história é essa de pleque?!... Vou até lá pra vê e confirmar.
Chegando lá, bem na beirinha do riachinho, deu de cara com o saci-pererê, com gorro vermelho na cabeça, entidade, cachimbo pegando fogo na boca e uma perna só. Este malandro arteiro moleque, falou:
            - Achôooo!, ih ih ih!... Quem é que lhe deu autorização pra descansar aqui, miudinha lilás?, ih ih ih!...
            E este, ih ih ih!... era lá mesmo seu riso muito sincero e engraçado e brincalhão e característico. A menina disse, respondendo:
            - Ora, seu Saci, o dono das terras, o seu Francisco Marins, dono da fazenda Taquara-Poca, quem mais haveria de ser?!
            - Pois ele nem manda nada, ih ih ih!... O dono desse mundão, sou eu! sou eu! ouviu?!, ih ih ih!...
            - Olhe! Deixe de brincadeira comigo. O Xuri aqui pode lhe morder a bundinha, tá sintonizado?
            - Ah, ih ih ih!... Só rindo mesmo, ih ih ih!... Eu com medo de cachorro jaguacininga, ih ih ih!... Conta outra vai, esta foi boa, ih ih ih!... Sou mais esperto que qualquer coisa que existe neste mundo, miudinha! Acorda!, ih ih ih!...
            - Você tá mais feliz que um bem-te-vi-gameleiro, que dois bem-te-vis-de-três-riscas, que muitos, até um bando de bem-te-vis-barulhentos.
            - Obrigado obrigado, ih ih ih!...
            - Muito bom, seu Saci. Nem quer me ajudar a comer o lanche? Até te ofereço.
            - Opa!, tô nesta, ih ih ih!... Que você tem aí, ih ih ih!....
            - Sanduíche de pão com o queijo, mel de abelhas do campo, doce de pequi para passar no pão, doce de abóbora para passar no pão, broa de arroz, mangaba, araçá, goiaba-do-mato, macaba tirada recém-recém do pé de macaúba...
            - Tá ótimo e faz o seguinte, ih ih ih!...
            Sentaram os três num lugar bem confortável, bem tranquilo, longe das formigas com tenazes de fogo, longe dos cupins, longe dos micuins, longe quem viu quem deixou de ver dos pulgões das cochinilhas das cigarrinhas, na sombra de uma pitombeira, e comeram a merenda. O saci-pererê, sem dúvida alguma, se mostrava o maior dos gulosos dos glutões.
            - Que você tá fazendo aqui por estas bandas, Saci?
            - Nada que preste, ih ih ih!... nhoque!...
            - Este riachinho, é seu, é? Estas matas são suas, são? Esse sol, é seu, é? Esse céu raro azul por tudo e poucas nuvens navegando cada qual na própria caravela, é seu, é?
            - Que rapariguinha supermetida, ih ih ih!... Nem para de fazer perguntas... Só porque repartiu um sanduba, ih ih ih!... pensa que pode se meter na vida alheia dos imortais, nhoque!...
            - É, foi mal.
            - E já tá perdoada, ih ih ih!.... O lanche tava bótimo, lambuzei os beiços, ih ih ih!... me cansou.
            - Dizem que você faz qualquer mágica, é vera?
            - Tá duvidando?, ih ih ih!...
            - Não, nem, de jeito manera. Só queria ter certeza.
            - Então pede, ih ih ih!...
            - Faz aparecer um pé de vento, um rodamoinho. Lá longe...
            - Pé de vento? Rodamoinho?, ih ih ih!... Qual o tamanho?, ih ih ih!... Com chuva ou sem chuva?, ih ih ih!... Com poeira e folhas secas?, ih ih ih!...
            - Do tamanho que você puder. Sem chuva. Sem muito cisco. Sem granizo. Sem furacão ou tempestade subtropical.
            Então, o brincalhão do saci-pererê aceitou o desafio. Foi daí que sacudiu seu gorro vermelho e de lá de dentro saiu um pé de vento terrível, que foi rodopiando, e aumentando, e levando folhas secas, poeira, pedaços de pau, até mesmo o pobre do Xuri, lá para cima nas nuvens já fantasiadas pro carnaval de verão, altura de quinze andares quinze departamentos, pra lá das copas das altas palmeiras javaris, etc.
Vendo seu amigo nas nuvens plácidas, voando sem as asas, rodopiando como pandorga sem controle, altas esferas, Lilás se apavorou:
            - Volta! Volta! Volta com tudo, seu Saci. Volta com o Xuri, desencante o pé de vento, extermine o rodamoinho, seu Saci. Por favor!
            - Mas você, ih ih ih!... nem queria um pé de vento, puxa vida!, ih ih ih! Cal que é, comadre!, ih ih ih!...
            - Sim, eu quis mas... sem o envolvimento do meu amigo Xuri.
            - Ora, ora que miudinha vagal, sô!, ih ih ih!...
            Logo o saci-pererê fez outra mágica com o gorro e o pé de vento foi diminuindo, veio baixando, até extinguir inteirinho, fiapinho, soprinho, bafinho, aterrissando, e sem folhas secas e poeira e cisco, para dentro do gorro do diabinho. E o pobre do Xuri aterrou tontinho tontinho, nem sabia mais para que lado apontava o focinho, a cauda e as quatro patas perdidinhas.
            - Que brincadeira sem graça, seu Saci! Olhe só o Xuri. Coitado, vai vomitar.
            - Pra falar francamente, ih ih ih!... nem sou muito fã de cachorros, cães, guaipecas, cuscos e carroças, carruagens, barcos a vela, jangadas, galeotas, navios...
            - Mas nem precisa humilhar, né!
            - Acabou o lanche?, ih ih ih!... Já vi, vou ter que bater em outra porta e outra freguesia, ih ih ih!... Seu lanche evaporou, pofe!...
            - Tamém!...
            - Sou mesmo é muito rápido, muito de repente, ih ih ih!...
            - Pra onde você vai agora? Posso saber?
            - Nem precisa saber, ih ih ih!....
            - Se se pode com um risinho destes, hein?!
            - Olha só a mágica, ih ih ih!... Fui!!
            E foi o saci-pererê sem deixar pistas, sumindo assim, pofe!... no ar. Foi um passe de mágica. Instantâneo. Milagroso. De repentemente.
Quanto ao Xuri parecia agora melhor, parecia normal, parecia satisfeito, parecia se recuperar e se equilibrar nas quatro perninhas. Seus olhos já haviam parado de girar dentro das órbitas. Vomitara, mas já estava pronto para outra.
Lilás pegou suas tralhas todas do piquenique e retornaram ao casarão da fazenda de seu Francisco.
Ouvir passarinhos e ver plantas sempre era o normal e do dia a dia. Cada planta cada arbusto cada ser vivente com seu nome próprio ou apelido, orabutã, periquiteira-da-mata, caimito-do-monte, buchinha, juçara, cardeal-do-brasil, quina-cruzeiro...
            Naquela hora, ali, no meio do nosso país, Lilás ficou sabendo - ela também ficou sabendo - uma coisa pra lá de certa e importante: que um bando de ararinhas-azuis nascera ali no meio do rio calmo, calmo riozinho Ipiranga. Era assim mesmo. Estava tudo ótimo. Dia muito bom. Dezesseis horas e pouquinho. Temperatura próxima dos 26°C.
            Parecia uma frondosa árvore bracuí. Porque uma planta sempre toda sorte longa história sempre produz seu próprio alimento. Então, a árvore qualquer árvore ou planta ou arbusto ou erva, produz seu próprio sustento, e esse processo se chama curiosamente... autótrofo.
            Porém, somente parecia que alguma coisa nem ia acontecer. O céu com nuvens navegando a favor do vento quente, então nada de novo no céu. O campo verde com os verdes nas árvores no pasto, etc., aveias-do-campo, imburis, axuás, malvaíscos-de-pernambuco. O casal de beija-flores-brancos muito simpáticos beijando bebendo comendo do néctar da flor da congonha-do-gentio. E brilhavam conforme a luz. E trocavam de cor conforme a luz do sol. E trocavam de lugar e de voo conforme a ideia lá deles, etc.
            Perto da casona da fazenda, Lilás ouviu o maior banzé, a maior algazarra, o maior auê, a maior zorra vindo do terreiro. Comentou com Xuri:
            - Mais uma festa?  Que será que tá havendo? Festa novamente? Que gritaiada, meu!
            O Xuri fez um, au!... tampouco entendendo daquela comemoração além da hora, e latiu o seu modo de falar meio confuso animal:
- E parecem eu-fóricos!
Afinal o todo pessoal da comitiva tinha feito um banquete na chegada, já seria o suficiente. Iriam se acostumar mal. Será que nem podiam parar de bebemorar?
Mas aí na dúvida a menina e o cão pegaram e foram lá ver de perto e ao vivo. Caminhando na grama entre umas sombras debaixo das imbuias. E o alarido aumentando conforme. E os tiros de espingardas disparados para o ar.
            Eram 4 horas mais 22min da tarde de 7 de setembro de 1822.
            E ali no pátio da fazenda Taquara-Poca, Lilás pôde comprovar que todo mundo já estava mesmo na maior farra e se divertindo por conta. Aproveitavam do bom e do melhor, avançavam nos comes e bebes, bagunçavam durante os discursos com gritos de vivas e aplausos e tapões nas costas. E a rapaziada tomava caninha e falava muito alto. Erguiam brindes um atrás do outro, se abraçavam, dançavam, riam sem parar, e o príncipe Pedro no meio do forrobodó... o quê?! O príncipe misturado aos dragões e todos abraçados pulando numa só bagunça, bebendo pinga de alambique e farreando com os simples mortais? E recebendo vivas e tapinhas nas costas? E tomando copos e taças de caipirinha de limãozinho de cachacinha de branquinha? E muitos uivos de comemoração? Algo estava fora do normal e bem absurdo e nada explicado.
Lilás se aproximou do príncipe Pedro e lhe perguntou:
            - Que festa de arromba é esta, seu Pedro?
            - Alegria... alegria... alegria, minha miudinha. De hoje em diante nem somos mais portugueses, somos livres, somos brasileiros!
            - O príncipe tá voltando das nuvens, é? Que que houve? Explique melhor.
            - É que acabo de... de gritar aos sete ventos, aos sete cantos, aos sete interessados o sete de setembro e proclamado a independência do Brasil: Independência ou Morte!
            - O quê, como, por quê?!...
            - Eu sou do... Braaaassssil-sil-sil-sil-sil!... heia! heia!...
            Quando Pedro Imperador falou isto, repetiu este breve discurso, etc., todo mundo, todos os presentes, gritaram malucos e em coro, “ru-ra-raaaa!...” e mais brindes se ergueram, chapéus ou quepes foram jogados às alturas, tiros de garrucha para o alto... Era a farra do boi Garantido do boi Caprichoso, no mínimo.
            - Viva o primeiro rei do... Braaaasiiiil-sil-sil-sil!!!...
            Por alguns dias o Brasil nem soube o que fazer com essa notícia com essa história a mais importante da sua História: Independência ou Morte! Como sempre acontece, a ficha demorou para cair. Uns souberam da notícia e nem acreditaram; outros souberam só um ano depois; ainda os que nem queriam saber; outros nem souberam e morreram antes de saber; mais alguns que foram morar no estrangeiro, embora recebendo em mil-réis; sem contar os que fizeram anedota e chacota e piada e galhofa.
País livre, povo livre e por quê, e para quê. O povo demorou para entender. Demorou para cair na real, na nova era, no novo tempo, no novo país. Era um milagre ou uma piada de português? Era uma necessidade ou um golpe de esperteza?
Isso tudo podia ser um novo país? E quem ia mandar ou governar o novo país? E como seria o nome do novo país recém-inaugurado? E com que cara? Quem mais tinha que saber disso tudo? O mundo tinha de saber? E pra que um país novo igual ao Brasil? Era necessário um novo país no mundo? Quem tinha a ver com isso? Que lugar era esse, é este?
Ficaram duas semanas um mês esperando a resposta de D. Talvez os talvezes D nem tenha nada a ver com este país. Vai saber!
E os membros da caravana foram pensando sobre falando sobre as horas o sol a chuva o calor, etc. E se cada coisa estava realmente no seu lugar, o cipó-trindade, a bênção-de-deus, o cordão-de-frade, o caimbé, a capeba-do-mato... Cada coisa cada ser tinha o seu lugar de merecimento, a garça-real, o barulhento, o arapaçu-de-bico-preto, o japiim... Os bugios chegavam e comiam as flores do almeirão-da-terra; pois estes macacos gostavam e se alimentavam de flores doces; então eram primatas florífagos, uma vez.
Lilás prestando atenção assim os olhos atônitos olhava e nem via nada ou algo ou alguém fora do lugar. Se sentia assim conforme e de bem com ela mesma bem por dentro e bem por fora.
- Tenho uma ideia imperial!
- E qual?
- Sete de Setembro é um bom dia e mês para começar uma data de aniversário, é.
E sua majestade imperial Dom Pedro I ele mesmo arrancou um talinho de capim-marmelada olhou o ar de em volta, coisas por fora das horas e horários, mastigando, e disse, proclamou:
- E se cada um e cada qual fosse fazer o que cada um e cada qual deve de fazer e chega, hein?!
- E o dia mês e ano do Brasil chegou. Isso perfeitamente.
            Treze dias depois do grande acontecimento que abalou o Brasil, e a Coroa portuguesa lá em Portugal, grito do Ipiranga que ecoou por todo o planeta, a comitiva chegava à ilha de São Vicente, também reconhecida com o nome de Tumiaru, litoral de São Paulo, e com um prestígio fora do comum. Com uma fama e um sucesso fora do comum e do normal e da lógica. Absurdo até. Mas nem parecia real. E nem devia ser lógico.
            - Tenho uma ideia capitã!
            - Qual.
            - Acho que o nome do nosso país, recém-criado recém-renascido recém-emancipado, poderia se chamar recém-nomeado de... Solar. Nem seria legal, hein?!
            - E por que Solar, minha miudinha?
            - Lugar de muito sol muita praia muita floresta muita chuva muito mar tropical muita arara-vermelha-grande muita fruta de verão, etc.
Na vila Ipanema - reduto dos colonos invasores -, Pedro Imperador ficou sabendo que o beato José de Anchieta havia sido tomado como refém pelos silvícolas. Esses índios - os tupinambá, maracajá, carijó, tupiniquim, pancaru, xacriabá, oapixana - exigiam que os brancos os respeitassem, que suas terras fossem desocupadas, que suas cunhantãs e guerreiros nem fossem sequestrados roubados e escravizados, etc. Caso contrário nem libertariam o padre jesuíta. Senão a coisa até podia piorar para atentados horríveis. E podia acontecer o estouro de uma guerra sangrenta.
 Então, na manhã de segunda-feira, logo no dia seguinte à chegada da caravana, se formou esse grupo de colonos, missionários jesuítas e o próprio Pedro Imperador para ir até a aldeia dos autóctones e tentar as negociações. Aliás, essa pendenga de terras, entre índios e colonos brancos, vinha se arrastando desde muitos anos na região e em outras regiões do país. Estava na hora de se resolver com isso e do melhor modo possível, etc. Resolver de modo que ambos os lados saíssem honrados do acordo.
            Chegando na aldeia dos índios amotinados, os vilões foram convidados a se sentar nos toros de moreira ou jacarandá com os caciques e pajés e índias mais velhas. De ambos os lados havia certa desconfiança, portanto as negociações seriam muito melindrosas e delicadas e arriscadas e perigosas e demoradas. Podia até haver combates ferozes. Inclusive os índios estavam pintados de jenipapo e urucum e também armados de tacapes zarabatanas arcos e flechas, dispostos a tudo.
Enquanto ali na taba se discutia política, Lilás e Xuri resolveram dar um rolê pela praia de Itararé. Tinham saudade do mar, de um mergulho, brincar, correr na areia, ver as ondas indo e vindo, gaivotas piando precavidas, etc.
- Tenho uma ideia de alto mar!
- Qual?
- Vamos visitar a ilha Grande!
Nem andaram muito quando deram por acaso com o beato Anchieta escrevendo uns versos no chão de areia. Lilás puxou conversa admirada:
            - Olá!, seu Anchieta. O que o bem-aventurado escreve aí na areia?
            - Um poema em louvor à Maria mãe de J. Um poema com vários versos em latim.
            - Legal. Sabe, nós viemos com Pedro Imperador para tentar libertá-lo dos índios revoltados. Quem sabe ainda hoje.
            - Os índios estão muito brabos. Eles têm razão. Estão com receio de perder as terras, perder os parentes, perder a liberdade, etc.
            - Negócio complicado. Escuta, seu Anchieta. Eu sei que o senhor é santo, fala com D e tudo mais...
            - Mas nem é todo dia que Ele me escuta. Ou que prefere me ouvir. Nem é bem assim. Imagina o quê!
            - Seguinte. Pensei então, já que o senhor, vez ou outra, fala com o Todo-Poderoso, pudesse me ajudar a resolver um caso. Ajeitar um problema quase particular.
            - Qual caso, minha flor de manjerona-do-campo.
            - É o Xuri. O cão nem fala um português brasileiro conforme. Quer dizer, falar ele fala, mas uma língua mistura de latidoscompalavras. Tá entendendo, seu santo?! O que eu gostaria que o senhor me ajudasse é ver se ele pode falar e entender muito bem na língua dos homens e vice-versa. Dar assim uma outra opção de comunicação ao meu cão amigo. Fazer dele um bilíngue fluente.
            Seu Anchieta parou de escrever na areia. Levou a mão até a cabeça e segurou o queixo para pensar melhor. Olhou o céu todo azul e bonito por fora e por dentro. A tarde era agradável e imensa e profunda. O mar rangia agradável e azul. O azul do céu emendava com o azul-verde do mar. As aves do mar eram tagarelas e o mar barulhento. Nem apareciam baleias jubartes nem tartarugas-verdes, por enquanto. Havia ondas e espumas flutuantes. Bando de papagaios-do-mangue viajavam da ilha para o continente em alta bem sonora algazarra. Na paisagem ainda se podia curtir o visual da laguna Araruama. Os coqueiros dormiam nas redes dos ventos. O lugar mais bonito do mundo. O beato falou para a menina:
            - Você quer um milagre? Então você vai ter um milagre e tanto. Chame aqui seu amigo Xuri, faz favor.
            - Pra já!
E Lilás correu gritar assobiar ao Xuri:
- Ei, Xuuuriii!... fiiiiuuu!...
            Lilás assoviou chamando o amigo. O cão corria até o mar, brincando, e voltava com susto das ondas. Quando o cão ouviu o chamado e se aproximou dos dois, o santo padre já erguia a varinha que usava para escrever seus poemas na areia e disse e mandou:
            - Xuri, meu bom cão das linhagens dos jaguaracambés, você quer falar também na língua das gentes? E sem sotaque? E sem gaguejar? E sem tatibitatear? Quer mesmo?
            Xuri então baixou a cabeça pensativo, se demorou assim uns quinze segundinhos... e latiu decidido fazendo com a cabeça que sim:
            - Ih-uuu!... - uivou o Xuri com certa alegria canina.
            - Então, vamos lá! - favoreceu o jesuíta.
O padre José, então, apontou de leve a mão na testa do cão Xuri. Imediatamente desceu uma luz milagrosa maravilhosa mágica como raios de sol em muitas cores tipo assim um arco-íris e... o cão Xuri virou outro. O cão se sentiu outro. Principalmente por dentro e intelectualmente mentalmente. Tentou resmungar isso e já falando mais ou menos:
            - Tenho... muita... coisa, etc., pra falar...
            - Pode ir com calma senão você engasga. Respira fundo, depois fala. Você praticamente virou uma pessoa comum.
            - É ma... ra... vilhoso!
            - Puxa! Que legal, amigão! Você tá falando, sem dúvida. Te adoro, meu xerimbabo - falou a menina, sem poder se conter de alegria.
            - O... briga... do, seu pa-pa-pa... dre!
            - Vá com calma. Nem precisa falar tudo de uma vez. Não carece falar tudo num dia - recomendou o santo católico. Escute e ouça o pensamento dez vezes antes de falar; você tem duas orelhas e uma boca.
            A tarde ia tombando, etc., revirando o sol atrás das grandes árvores na floresta da mata atlântica, piraguaias, trapoerabas-vermelhas, rabugens, catingueiras, jundiaís, capebas-do-norte... o canto dos tantos pássaros da hora, arrelias, corucões, inhambuxororós, xexéus, jacamins, corujas-baratas... De um lado a floresta, do outro o mar, no meio a branca praia sorrindo de orelha a orelha. As nuvens pouco a pouco se tornavam amareladas, as aves mais avermelhadas voavam mais baixo, e os versos da areia chegavam ao fim. De repente um último raio dourado recolheu o poema do seu Anchieta lá para o céu, lá para cima, lá para o universo nem começo nem fim.
            Na boca da noite, o grupo de vilões que negociava com os índios voltou com boas notícias e informações e recomendações. O padre Anchieta, mediante acordo com os colonos e o governo, de um lado, e os índios confederados, do outro, poderia voltar para casa, para a vila Ipanema na ilha de São Vicente. Todavia, o bom padre nem aceitou esse porém com quem também. Preferiu continuar entre os índios, os quais precisavam realmente dele. E os aborígenes precisavam mais do grande jesuíta que mesmo os brancos. E o padre decidiu viver entre os selvagens nativos ali na aldeia.
Lilás contou logo ao imperador Dom Pedro I:
            - Seu imperador, sabe o que aconteceu aqui na praia?
            - Nem imagino. Conta tudo, nem me esconda nada.
            - O Xuri tá falando melhor que muito professor de ciências? Xuri, fale algo ao imperador pra ele ver e ouvir e ter certeza.
            E o Xuri, todo bobo e feliz, língua de fora, cauda balançando de risos, falou sem latir ou latiu uma fala, assim:
            - E daí, impera?! Tudo legal e outras coisas mais e etc?
            - Ei! Que espantoso! Mas que milagre é este? Xuri engoliu uma ave tipo papagaio-verdadeiro, periquito-tuim, baitaca, maracanã, humaitá?
            - Nem é o máximo, seu Pedro?!
            E para festejar o acordo com os índios, os colonos e missionários religiosos prepararam uma grande festa um funfungagá à moda do interior e com casamento caipira e quermesse com barraquinhas de doces, etc.
            - Tenho uma ideia carnavalesca!
            - Qual?
            - Vou inventar o bumba meu boi.
Aí então todo mundo teve que se trajar, até o imperador D. Pedro I e mais os seus dragões, com aquelas roupas típicas, largas, velhas e remendadas. Inclusive riscar um dente a carvão para dizer... “êta, sô!” No centro do terreiro, junto às fogueiras, um casal de noivos, todo envergonhado de falsete, jurou alegria até que a festa acabasse. Quando os noivos iniciaram oficialmente o baile, e dançaram a quadrilha, ninguém mais ficou parado, nem podia, todo mundo foi dançar. Quem perdia o fôlego comia milho verde, pé de moleque, rapadura, cocada preta, cocada branca, broa de centeio, pastel de abóbora, bebia garapa, bebia quentão... E tudo na moda caipira, sô! Até as estrelas dormir e o sol raiar. Até a matinada da passarada na mata na praia, alma-de-caboclo, joão-conguinho, bigode...
            Um rapaz de chapéu na mão e dente de menos se aproximou de Lilás e lhe perguntou, convidando:
            - A miudinha, prum obséquio, qué dançá mais eu?
            - Pois óia, tô em dúvida, seu moço...
            - Mais prum quê? Nem gostô mais eu?
            - Não, nem, que isso, moço. É qui tô vergonhada, levo receo de pisá nu seu pé...
            - Mais eu num reparo. Ocê, permite?
            - Intão, tá!...
            De manhã o céu era já do outro dia bem cedo. O mundo já era do outro lado de cá. No fundo do horizonte tinha uma estrela, uns chamam estrela da Manhã outros estrela D’alva ou o planeta Vênus. Mas era sim um sorriso de estrela guia e magnífica. Já o sol vinha deslizando por cima do universo. O sol e sua parábola. A paisagem ocupando.
            Depois já se visualizavam as ilhas jogadas no oceano Atlântico. As mais em conta com o continente. O mar estava verde como a floresta como o azul do céu. Aves pescadoras.
            Largando para trás a ilha de São Vicente, a caravana foi costeando o mar rumo de casa. Passaram alguns vilarejos, futuras cidades, Itambé do Mato Dentro, Major Gercino, Botuverá, Cabo Frio, São João da Barra... praia da Feiticeira... e também Nova Trento que era cidade santuário da santa Madre Paulina... parque dos Aparados da Serra... bairro Sanga da Toca em Araranguá...
            Mais uns dias e atravessaram o rio Paraíba do Sul dividindo a província de São Paulo da do Rio de Janeiro... carroças carros de boi e lotados de sacos de café... lagoa dos Quadros... mascates com seus burros pesados de canastras...
            - Tenho uma ideia alçada!
            - Qual?
            - Penso que o tema da nova bandeira do B precisa de um sol de um céu ou mar e de uma floresta, ou seja, amarelo azul e verde. Tudo isto tocado pela brisa suave.
            Mês seguinte mês de maio, a comitiva do imperador Dom Pedro I entrava apoteoticamente maravilhosamente no Rio de Janeiro, rua principal avenida da Azenha, e sob os foguetes os aplausos os vivas da massa enlouquecida. A rua Visconde de Uruguai toda atapetada de folhas verdes flores coloridas. Era a glória, foi um sucesso estrondoso. O povo exultava... praça General Freitas... avenida das Nações...
            - Tenho uma ideia ideal!
            - Qual?
            - Por que nem fazer três dias e três noites de carnaval, ué?!
            Já o pessoal da praia do Coqueirinho e os moradores do Morro do Pai Inácio nem se seguraram na empolgação e gritaram e chamaram e pediram aos expedicionários de regresso:
            - Ei! Olhem pra cá!
            - Ei! Olhe aqui!
            - Ei! Olhem praqui!
            Com efeito, Sua Majestade Imperador Dom Pedro I fez a entrada magnífica na capital do império do B. Entraram na cidade capital percorrendo ruas e foram aplaudidos e vivados. O povo ergueu as mãos para o alto... rua Padre Miguelinho... calçadão João Pinto... panos lenços de seda de linho de algodão coloridos...
Seguindo o Imperador vinha a comitiva a caravana o cortejo e pela frente o chão florido atapetado de folhas de flores as janelas das casas e calçadas com gente abanando feliz. O dia pronto azul e mais. Começo de uma festa de três dias. E dali pra frente a H com h maiúsculo seria bem melhor e diferente. Disseram uns e outros, dizem uns e outros, disseram muitos, dizem muitos...
            - Tenho uma ideia capital.
            - Qual?
            - Fazer do Rio de Janeiro a Corte deste país!
O povo nem se continha na alegria, na euforia, na festança, na algazarra, rua Barão de Piraí, ao rever seu ex-príncipe regente agora imperador Dom Pedro I do Brasil:
- Pedro I!... Que D lhe reserve sempre muita saúde e sabedoria!
A multidão carregou o imperador nos braços até o paço frente o palácio imperial. Tanta foi a folgança, a farra, o número de comícios ali na praça, que se decretou oito nove dias de festa, de feriado, de procissão, de sinos tocando em comemoração.
            E tinha que ser muito mais e nem devia ser por menos, uma vez.

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