A
rua Francisco Sá com a avenida NS de Copacabana o bairro de Copacabana em o Rio
de Janeiro.
Este
gliptodonte! A cabeça começa a puxar e o todo do corpo acompanha, assim, mais
ou menos. A ideia de repente dá um lampejo e todo o resto segue em frente
paquidermica-mente. Os gliptodontes não desapareceram nem foram extintos nem
esquecidos mais ou menos há 10.000 datas. Simboralá! e ainda lúcido, o cérebro
já não cresce e os pensamentos só dilatam muitas horas depois de expostos ao
sol ao calor ao vento à chuva ao trânsito. Completou o ciclo deu a volta ao
mundo e voltou para o mesmo lugar. Os problemas todos resolvidos? Os abraços. No
estado em que se encontrava antes. Rua 2 de Dezembro. Então para de andar
respira cansado a umas tantas quadras do museu Nacional UFRJ. São 11 horas, e
luminosas.
Bota
uma coincidência aí! Mais esta mais uma. Em casa, tenho 4 livros para ler.
Devia ter mais? Estes quatro. Um de contos outro de crônicas mais um de novelas
a até um romance tipo tijolão. É tudo muito raro e estranho. A coincidência
fica com a seleção de tipos narrativos, por acaso, está claro! Coincidência que
alguns optam por chamar de surpresa supetão.
Que
tem mais, tem. Ultimamente estas pequenas porém certas e ótimas coincidências.
Garrafas vazias para vender? Coincidências que coincidem, e têm me acompanhado
nas horas mais inusitadas ou reservadas ou públicas: 11h e 11min, 21h e 12min,
17h e 07min, 13h e 04min... Hoje de manhã, agora mesmo, 7h e 7min. Sem engano,
é muita coincidência e acaso. Por que D dispõe do seu jeito.
8-rua
Marechal Correia da Câmara.
O
pai do Joel, velho antes de tudo involuntariamente, saiu para procurar o filho
seja lá onde for. E foi de cidade em cidade, de rodoviária em rodoviária,
aeroporto em aeroporto, porto em porto, principalmente praça em praça... E quem
sabe casado e com filhos, o tal filho desgarrado, seus netos.
Pois
o Joel saiu de casa sem dizer nada, sem deixar vestígios?
O
tio do Joel por parte de mãe, o João Trumai, tinha uma banda Mamucha de música
axé. A banda gravou um cd (em a época) e lançou na cidade onde moravam e na
capital do Estado foi durante um carnaval. E a banda ficou famosa na região e
tocava também em eventos agropastoris agropecuários agronegócios eventos rurais
festivais do campo. O tio do Joel, o JTrumai, morreu e com ele morreu também a
banda Mamucha. Aí, apareceu, dez anos depois, o filho de JT, primo do Joel, que
tinha o nome de Uirari, e a banda Mamucha II ressuscitou dos escombros das
cinzas das ruínas do ferro-velho. Depois, bem mais tarde, de novo a banda
morreu quando Uirari viajou sem avisar ninguém. Isso de viajar sem avisar lá em
casa deles era coisa típica, quase como uma mania ou moda.
Esse
turuna Uirari, certa feita, leu um livro, “Maria Dusá” de Lindolfo Rocha, e viu
que Pium era o nome de um garimpo tirado ali mesmo do rio Pium e este deslizava
no meio do sertão. Achou o nome “pium” curioso. Foi ao dicionário do seu H e
pium é uma espécie de mosquito (borrachudo) que gosta de andar pela beira dos
rios pântanos alagados entre os aguapés os cipós-sumas as unhas-de-gato e
atacando os incautos pescadores noturnos, ex. Não de todo contente, Uirari foi
à internet e lá conferiu que existem uma cidade tocantinense de nome Pium e
mais um romance com o mesmo nome comum de “Pium nos garimpos de Goiás” do autor
Eli Brasiliense. Portanto o tupina Uirari ficou sabendo que o riacho Pium deu
nome ao mosquito que o habitava e este inseto deu nome ao córrego ao garimpo à
cidade e às histórias de ficção.
8-rua
Visconde de São Leopoldo.
O
pai do Joel chegou a uma cidade mineira de pontas espetando sagradas o céu,
mãos abertas ou espalmadas para o céu de Minas Gerais, igrejas bonitas por
dentro por fora e pesadas por dentro por fora e escadarias por fora anjos por
dentro e ladeiras por fora altares por dentro e santos santas por dentro
cruzeiros por fora, capelas nas alturas mas pontes e chafarizes nas canhadas,
casas antigas com janelas de portas muitas. Cidade antiga e moderna convivendo
como pode e como pede com montanhas de ferro.
Assim,
uma noite, o pai do Joel resolveu procurar o filho que se extraviara no mundo e
sabe D onde e como. Na manhã imediata se espreguiçando disse para a esposa, mãe
do Joel:
-
Eu vou atrás de pesquisar aquele bobo.
-
Bobo não, maluco.
-
Tá bem, bocó, então.
-
Talvez um pouco lunático.
-
Desvairado como a mãe dele.
-
Toldado como o pai dele.
E
de lá se pinchou o pai do Joel atrás de achar o filho Joel. E ele se foi, e
veio, mundo afora adentro esperançoso, ele que era o pai escarrado e cuspido do
Joel. Olhando tudo em volta de si. Colecionando praças e alimentando muitas
esperanças. Por causa de que as praças.
O
pai do Joel era natural de Viamão, viveu muito tempo em Criciúma, e naquele dia
da decisão morava, com a esposa mais cinco filhos, em Montenegro que é perto do
rio Caí. O pai do Joel era filho de Alfredo e Maria, casado com Neusa - que era
filha de João Carriola e Isaura - ela natural de Alegrete, distrito de Vacaria,
cidade esta fundada pelo grande fazendeiro sesmeiro o capitão Cauã Canjirão
Tabajara.
E
pai do Joel chegou até uma praça na cidade de Casca e perguntou o nome da praça:
-
Nome da praça?
-
Praça da... Bandeira.
-
Ih, conheço várias! E da Matriz, então! E da República, nem se fala! E
Tiradentes uma centena! E Santos Dumont uma grandeza! E Tupiná uma apenasmente.
Outra
feita, desembarcou em São Borja e foi ver a praça Sete de Setembro. Tinha que
ser ali! Muitos automóveis esperando seus proprietários estacionados de viés
embicados dentro dos traçados a cal no costado da praça. Dois deles incipientes
um branco outro bege lado a lado mudos compenetrados estudando português com
dicionários de bolso na sombra malhada do mata-olho.
O
pai do Joel navegou pelo rio Pajeú, o rio do pajé, mesmo território dos índios
ingarune, e foi parar numa cidade de nome Tabira, pernoitou no hotel Marajó,
onde conheceu dia seguinte uma sexta-feira a praça XV de Novembro. Justamente a
praça essa ribeirinha e da beira do rio, praça cheia de palmeiras açaís e
palmeiras perinãs e tucanos-de-peito-branco em algazarra no nascer e deitar do
dia.
A
praça na qual chegava hoje era nova em folha e tinha quatro lados desiguais e
trilhos de ponta a ponta e lado a lado fazendo um labirinto. Dois três nomes os
moradores tentaram apelidar a praça mas nenhum conseguiu pegar sozinho e
liderar com folga e democraticamente. Vamos dar nome à praça!
Certo
dia e hora de terça-feira mês de maio, pai do Joel chegou diante de uma das
tantas praças Presidente Vargas que para se ver no geral tinha que subir uma
escada de pedra basalto. Do topo da escada no morro se viam a praça total o
bairro do Xaxim e a beira do rio Guaíba com o outro lado de lá.
Depois
de sair do espaço público, o pai do Joel resolveu lembrar do nome da praça mas
já esquecia. Tinha outra praça pela frente em mente aquele mesmo dia e noutra
cidade a praça João Mendes. Conhece?
8-rua
Goitacaz.
As
frases sentenças de Pedro:
-
Dia manhã parada parado nas nuvens baixas, garoa, névoa, frio, vento, Muribara
em São Lourenço da Mata, pouco mais das 8h e 18min.
-
O mais próximo que se consegue ou se sabe desse colégio Diogo Penha, avenida
Itália, é que era numa cidade Balneário Pinhal de um Estado do nordeste deste
mesmo país.
-
O graxaim é bicho brabo como tucunaré como tiborna-traiçoeira como charão.
-
Naturalmente e quando voa lembra muito uma capivara um capincho.
-
Ela se confortou para a janela aberta sobre o mar de Xangri-Lá e disfarçar seus
olhos totalmente azuis e mentolados.
-
A moça do vôlei se atirou na bola num peixinho confiante de puro movimento de
hiperextensão... “Eeeeeu!”
-
Praia, esquecera de dizer esta certeza: praia da Barra de Guaratiba.
8-rua
Luciana de Abreu.
Sem
alopração, o gliptodonte para trava se reconhece diante do espelho lá dele do
banheiro. Cara preocupada sem poder dormir adequadamente. Nota que o casco
adquiriu uma cor cinzenta e outras manchas mais cinzas bem acinzentadas. Fica
eterno se olhando interessado preocupado meia hora, etc. Como em que planeta se
escolhe a cidade para morar? De que ponto do universo se parte para pousar
aqui? Quem decide na hora de virar gente tatuxima buranhém napopé
candiru-vermelho mineral ponte General Osório máquina de lavar roupas aeroporto
internacional Afonso Pena, hein, ex?
As
ruas, rua Avanhandava com a avenida Nove (9) de Julho de capital São Paulo.
Eu
não pedi nem pensava nisso, mas na ida e na volta à estação ecológica de Taiamã
ganhei a poltrona 11. Que será esta coincidência? Camisa 11? Já nem gosto de
sentar na janela de avião. Posso até ocupar a poltrona, mas raramente olho para
fora. Me congela a sensação particular de pássaro sem asas.
8-rua
General Bento Martins.
Com
as palavras de Aline: capepena, desteridade, cacuri, fungível, algeroz,
encampar, escápula, realengo, pé-de-alferes, desconchavo.
8-rua
Sepúlveda.
O
pai do Joel, ao sentar em banco na praça JK, braços abertos apoiados no encosto
e pacífico, lembrando de nem esquecer:
-
Nem devo esquecer de cortar o cabelo ainda hoje, se for o caso.
-
Não devo esquecer de assistir o programa Senhor-Sampaio das 23h em o canal
Lereia.
-
Nem devo esquecer barba cabelo e bigode no salão Cuíca-Lanosa.
O
pai do Joel procurou nos bolsos: pente, barbeador descartável, alguns reais em
moedas outros em papéis, cartões, documentos, lenços descartáveis, recibo do
hotel Próceres pago até o dia 23 do mês em vigor...
Depois
das 16 horas, hoje, uma enxurrada na praça do mesmo nome. Choveu chuva choveu
bem choveu firme e amazônico.
-
Até o fim de fevereiro março vai ser isto mesmo.
-
A chuva é boa para a agricultura e pecuária e energia limpa.
-
Depois da chuva o tempo fica mais agradável saudável respirável aprazível.
-
Na Amazônia chove todo santo dia e pelo menos uma vez por dia.
-
Eu gosto de chuva mas nem tanta água assim.
-
Bom é dormir com o barulho da chuva, chuá!... chove chuva no telhado.
Sempre
o pai do Joel olhou pelo céu povoado de estrelas lavadas e lúcidas e eternas e
distantes e diamantes, resmungou para si:
-
É, o que tinha de chover choveu com tudo. Nem vai mais chover para os próximos
oito dez dias. Garanto!
No
dia imediato a mesma praça JK, o pai do Joel parou bem debaixo da canjerana
reflorida, olhou em volta, achou o banco gentileza das lojas Bilosca que
procurava para descansar.
Umas
10h e tanto. O café do hotelzinho mais ou menos no estômago. O casal de
tchintchorrintchos espertos coloridos atentos nos galhos do cambuí, os
joões-de-barro casal caminhando saltitando ciscando gargalhando batendo as asas
no peito, as muitas andorinhas um bando esvoaçando trissando varrendo o ar
entrando se infiltrando pelas gretas frestas das abas das casas um casarão de
fachada em azulejos...
Numa
mesa de pedra quatro jogadores de damas. Um peru dando voltas sem parar. Altas
árvores faziam sombra larga, cajueiro-bravo, orabutã, espinho-de-vintém,
arapari... Muita sombra malhada estampada pelo chão. Crianças berrando nas
gangorras, nos balanços, babás ao celular empurrando carrinhos de neném com
toldo com chocalho.
O
pai do Joel chegou mais perto dos jogadores. Ficou peruando o jogo. Os
jogadores riam e cantavam as pedras. Os perus olhavam preocupados com a mão no
queixo com as mãos nos bolsos das calças com as mãos às costas com os braços
cruzados. Olhavam com os olhos e às vezes com gestos com muxoxos com grunhidos
com risos. Coçavam os mais diversos pontos do próprio corpo e até mesmo onde as
mãos dificilmente geralmente moralmente nem alcançam.
Passou
um ônibus na rua Leonel de Moura Brizola pavimentada de paralelepípedos. Nas
calçadas de passeio cobertas de lajes basálticas, de espaço em espaço, as em indianas
seguidas arnicas-da-chapada. Crianças no escorregador deslizando até a caixa de
areia. E repetindo. E gritando “por
favor!”
O
pai do Joel não quis jogar damas no lugar de alguém. O ex-jogador preferiu
virar peru. Já o primeiro peru virou jogador. O pai do Joel puxou a foto do
bolso da camisa:
-
É meu filho que procuro. Por acaso...
O
ex-jogador agora peru pegou a foto, pediu licença, aproximou a foto dos olhos,
olhou. Depois de admirar por um tempo passou aos jogadores. Cada um olhou o seu
tempo. Cada um demorou seu suficiente e passou ao seguinte. Girou voltou ao dono
pai do Joel. Este reiniciou a explicação:
-
Ele saiu de casa há uns tantos anos. Na foto ele tem 12 para 13 anos. Hoje deve
ter por volta por alto calculo uns 32.
-
Brigou? - perguntou o jogador um, a quem havia sido entregue a foto por
primeiro.
-
Essas coisas acontecem em toda e qualquer família - já foi dizendo o jogador
dois, no sentido horário.
-
Ele queria ser jogador de futebol e foi fazer um teste no Esporte Clube
Recreativo Cabuçu lá de Capão da Porteira.
-
Ah, é?! - resmungou o peru, ex-jogador.
-
O nome dele é Joel. Joel Cuiambuca. O sobrenome do pai, este que vos fala. Pois
o meu Joel tinha ouvido dizer que o Cabuçu estava fazendo peneira. Ele sonhava
ser goleiro da Seleção. Eu disse a ele: é difícil, filho! Ele me devolveu: vou
ver se é impossível. Então, pegou uma mochila com as coisas dele e na manhã
seguinte saiu fora. Aconteceu. Não tive ânimo para segurar. Não tivemos
argumentos para demovê-lo. Mas também era o sonho dele e eu não podia detê-lo.
E ele saiu em janeiro, final de janeiro daquele ano de 1984. Faz tanto tempo,
então, né?! Mais de tantos anos que não dá as caras nem telefona. Eu pensei que
pudesse encontrá-lo aqui, e quem sabe perdido, desmemoriado, precisando, etc.,
ex.
-
Mas o senhor vai encontrá-lo, sem dúvida - continuando pelo terceiro jogador, o
ex-primeiro peru.
-
Se não hoje, amanhã - finalmente o quarto jogador.
Então,
voltou a falar o jogador um. Depois novamente o dois. Mais o três. O quatro. O
peru ex-jogador. Falaram um, dois, três, quatro, peru. Os quatro jogadores e o
peru.
O
pai do Joel ficou olhando os jogadores jogar. Ele mais o outro peru rodeavam a
partida o jogo. Os dois perus trocavam opiniões e risos e preocupações a
respeito do jogo. Conversavam sério sobre as jogadas. O peru ex-jogador até
fumava muito, acendendo um cigarro no outro.
Umas
crianças gritando de alegria e euforia no brinquedo de girar.
Sanhaços-da-amazônia buscavam os galhos a proteção os poleiros da moliana. As
babás olhavam o movimento da rua o voo dos anambés-pretos o rebuliço das
petizadas com interesse com displicência com tédio com a mão segurando o
queixo. Uma pensava no namorado mais tarde, outra na conta da loja, mais outra
no final de semana na praia de Capão da Canoa.
Passavam
oito carros na rua de cima a Cainguá, sete carros na rua do lado direito a João
Goulart, seis carros e uma caminhonete na rua do lado esquerdo a L. M. Brizola.
Não se via a igreja de São Sebastião, nem a ponta da torre. Estavam longe do
hospital NSAparecida e do corpo de bombeiros voluntários. A prefeitura ficava
para os lados de lá para além de duas quadras e meia e era um prédio
neoclássico ou eclético.
O
pai do Joel cansou, aí pelas 11h e 21min, e retornou para o hotelzinho almoçar
e fazer uma sesta. Voltaria à tarde? O sol estava de deixar alguém meio bobo.
Os jogadores acharam que sim, o sol estava brabo. Os jogadores foram para o
outro lado, moravam todos na rua Pirapetinga cinco minutos de caminhada num
passo lento perto do museu antropológico Índios Coroado.
Já
o pai do Joel voltou à praça JK no meio da tarde e sob o mesma estrela pequena
dona do sistema solar. Um mormaço. O almoço já caíra bem, obrigado, arroz e
feijão e outras iguarias de praxe. O céu com poucas nuvens para o lado do sul,
de onde vem frequentemente a chuva. A temperatura alta. Procurou a sombra das
paineiras altas. Sentou e olhou tudo que podia em 300 graus.
Na
rua de cima uma mulher jovem presumida e sem dúvida muito atraente. Estava
vestida de vestido floreado predominando os arabescos de vermelho. Bem
carnaval. Mulher pode vestir qualquer acessório. Moça bonita tudo cai bem. Os
olhos saudáveis, orelhas prontas com brincos longos em cordões com bolinhas
douradas, cabelo negro alçado preso por fita azul, unhas rentes, etc., postura
e andar definitivo.
O
pai do Joel se ergueu e foi mostrar a foto do filho ao policial. A autoridade
pegou e olhou e ficou olhando com calma:
-
Recente?
-
Sim, recente. Do ano passado.
-
Quando que ele sumiu?
-
Ele desapareceu em janeiro do ano passado. Saiu de casa para procurar emprego e
não mais voltou. Estou com receio. Não deu mais notícias. Avisou certo dia lá
em casa simplesmente que queria ser um polícia, um brigadiano, como dizem por
aqui. Somos de outro Estado, compreende? Me disse ele: pai, eu vou para uma
cidade grande vê se tem emprego corajoso violento perigoso que é o que eu gosto
e aprecio. E pegou e foi e veio. Mas não mandou mais notícias. Não manda
notícias. E faz esse ano todo e olhe lá!
-
Já foi na delegacia mais próxima, no iml, nos hospitais? Consultou o spc?
-
Pensei que aqui na praça alguém pudesse me esclarecer. A praça é um bom lugar
para todo mundo. Todo mundo que se perde ou que não tem onde ir e ficar, vai
procurar na praça vai andar na praça vai dormir na praça. Todo mundo que não
tem onde comer ou dormir ou trabalhar ou se distrair, vai olhar na praça. Pensei
assim.
-
Fez bem. É dentro de uma lógica.
-
E estou indo por todas as praças do Estado e do país e do mundo e de D.
Era
anoitecendo e o pai do Joel se despediu do vendedor de cachorro-quente e voltou
para o hotel. Parou um pouco antes de abandonar a praça e olhou para trás. Era
uma praça como outra qualquer. Na noite se iniciando uma praça com donos ou
donas procurando distrair os cães de estimação, canteiros aromas perfumes de
plantas misturadas aleatoriamente braço-de-mono arruda-do-campo caiofora erva-tostão...
casais saboreando sorvetes caminhando len-ta-men-te, estudantes gazeteiros em
revoada algazarra empurrões para os lados do bar Canitar.
8-rua
Cel. Genoíno.
Com
as palavras de Aline: pintalgado, chibante, burundanga, amásia, mondongo, panete,
papiamento, cimeira, munício, alvedrio.
8-rua
Dona Laura.
A
rua das Hortências com Vinte de Setembro em Capivari do Sul.
Coincidência
eu gosto e recomendo. Vou seguidamente é habito à biblioteca. Pego o meu livro
ao acaso e o que trago: “Enigma na Capela Real”, de Ana Cristina Massa. É
infanto-juvenil e trata de um roubo de imagens sacras. Aí, dois dias após (um
certo tempo ainda dentro do prazo do acaso), apareceu a coincidência: um roubo
no Masp: um quadro de Picasso e outro do Portinari (os dois também com p).
Coincidência para muitas pessoas esta palavra nem existe. Quantas coincidências
aparecem e descendo o rio sobrepostas? Até porque convivem pessoas que são
veganas e recomendam.
O
gliptodonte pesa muito, embora desconjuntado. Esquálido? E bem menos a carcaça
física que a outra o arcabouço da sua memória. Se escora na embaíba e se coça
com gosto, rindo sozinho. Não pode se debruçar à janela, não pode passar pela
porta sem quebrar a moldura. Esta época por estes tempos reduziu os alimentos
as oportunidades de se alimentar e come só duas vezes por dia. Duas refeições
leves uma o café da manhã às 8h e 30min e outra a sopinha às 20h em ponto.
Gosta de tudo um pouco mas precisa dar preferência para os grãos os vegetais,
caprichando na variedade das cores. Detesta animais de estimação mascotes que
latem e rosnam e miam a sua passagem na rua. E de esnobes poliglotas umas e
outros desta ou outra maneira privilegiados pela família pelos correligionários
pela grei parasitas sociais que estão hereditariamente ligados ao Itamaraty. E
comer é uma palavra de amplo sentido significado mais cheia e com os olhos.
8-rua
Visconde de Santa Isabel.
Quando o pai do Joel visitou a praça do Avião, tudo
estava em festa tudo estava no seu devido lugar tudo ali as coisas com nome de
batismo. Tinha chovido forte na madrugada. Então, ali na manhã, fazia, por que
não! um sol livre agressivo às 8h e 7min. Isso acontece muito.
Da mesma praça de grandes árvores,
mantimento-de-pobre, guaraçaí, abiorana-guta, jarana... ao redor a cidade de
Cidreira era plana, arejada, ótima, espalhada, bafejada de forte vento marinho.
O vento ajudava a dissipar um pouco o mormaço.
Alice passou com Marcelle. Uma a sombra da outra.
Parecidas. Marcelle com nove anos para fazer dez em setembro. Marcelle de olhos
nos balanços, de ouvidos nos gritos dos brincantes, avenida central Fausto
Borba Prates com ciclovia entre uma faixa e outra. Estranho, a calçada de
pedestres pelo meio da avenida? Alice convidou:
- Você quer sorvete de araçá ou açaí ou pitanga?
- Quero sorvete de pitanga e murici e abacaxi.
- Com pedacinhos de frutas?
- Quero pedaços de abacaxi e jabuticaba e pequi.
- Com calda de caju por cima?
- Quero sabor de açaí e guabiju e abio por cima.
Música dos pássaros presentes, furriéis, pintassilgos,
tangarazinhos, bem-te-vis e suas amigas companheiras siriricas... O sol
acontecendo na fogueira das horas matinais, as pessoas se cansaram logo logo,
os bichos em geral fugiram se esconder na sombra: preguiça. Cigarras foram
azucrinar já as primeiras horas da tarde.
Era um bom começo. Os caimbé vieram da serra do Corvo
Branco. A manjerona-do-campo e a ipecacuanha e o mil-homens-do-rio-grande
vieram de Senador Pompeu e Loreto e Canela, respectivamente. O
escorpião-amarelo veio do bairro Petrópolis, PoA. A piraíba veio do rio Novo. E
quem criou a roda não estava nem aí.
O pai do Joel, ali sempre sentado no banco, por
enquanto, olhou a nuvem, esqueceu a nuvem, olhou a rua Joca Marques, tentou
pensar em outras coisas boas, tentou, lembrou de quem?, parcialmente lembrou.
Nesse mesmo momento, passou a sua frente uma mulher
bonita e sem destino e sem nome e sem nada no ombro nas mãos nos bolsos. Uma
mulher vaporosa. O seu merecimento físico era muito interessante. Podia ser que
tivesse uns olhos lindos, por quê?, porque eram passos firmes fortes decididos
autoritários convictos fanáticos:
- Pra mim sempre foi algo de diferente ir até uma
cidade conhecer cidades que gosto e recomendo.
A guriazinha diferente e em sentido poente, a moça
chegou perto das flores, e sorriu, o cãozinho veio perto e cheirou as flores, e
sorriram, a moça esticou o braço e tocou as flores, e sorriu, a moça foi indo
embora com o cãozinho no rastro, e sorriam, sorrindo, aromados das flores de
flores-do-campo.
Era uma menininha à procura de perguntas e respostas.
Inquieta quando ninguém lhe perguntava nada. Desassossegada pelo motivo de
ninguém responder suas perguntas:
Um dia ela resolveu perguntar mesmo assim:
- O que devo fazer para conhecer o B? E todinho!
Então lhe disseram com todas as letras:
- Você precisa conhecer a Amazônia o pico do Gavião lá
de Andradas e Águas do Prata o rio Vacacaí a rua Barão de Batovi...
Ela pegou e foi viu conheceu tirou fotos comprou
coisas fez amizades e perguntou:
- O que que eu faço para conhecer o B? Ontem e hoje e
amanhã!
A moça de bermuda plissada cabelo enxuto tênis de
cadarço dobrou a esquina e o pai do Joel sentiu saudades dos tempos que tinha
em torno dos seus 22 anos, tardes de sol com praia Ponta das Canas, carro e
liberdade, faculdade e desemprego:
- Alagoas nem é só Quixeramobim e Santa Rosa de Lima
mas também Leopoldo de Bulhões e Bofete e Marechal Thaumaturgo...
As árvores queriam conversar e farfalhavam, as folhas
viraram em passarinhos, os aladinhos viraram em borboletas verdes azuis brancas
vermelhas, as asas amarelas viraram em bicolores tricolores. Quanto custa
inventar uma árvore hoje em dia? E todos os seres viventes ali queriam
pertencer à água à praia ao campo ao vento ao dia aberto.
Este mundo é muito universal para um só D e sozinho.
8-rua Monte Belo do Sul.
O escravo Gaudêncio apanhava de chicote ali mesmo no
pátio, no pelourinho da herdade da fazendola Tapiri, debaixo do verde pé de
umbu, na sombra, por volta da 11h e 12min. Um gritedo de homens com cara de
cachorro. Um gritedo de guaipecas parecidos com os donos. As lapadas, 1, 2,
3... E o escravo, mateiro toqueiro piqueiro, gemia e uivava e pedia em favor,
4, 5... Os cachorros mais loucos ainda, 6, 7, 8, 9... Açaimar os cães
farejadores de negros fugidos mocamaus. Valor de mercado avaliado em 2:200$000
considerado valioso e bem alto.
Nem o sol nem a lua, está claro está escuro! tinham japuaçus.
Ventos importantes.
O escravo vomitara verde caíra de joelhos e pareceu
ter perdido os sentidos. Jogaram água, o escravo olhou para os lados se queixou
muito tentou falar, o cara de cachorro gritou mais bravo os cães imitaram o
dono, e 10, 11, 12... Um valor intermediário bom para a idade da peça, couro
riscado de açoites, 1:300$000 (um conto e trezentos mil-réis ou um quilo de
ouro).
A lua atravessou em claro a quase noite toda. O sol
elogiado à gandaia do céu.
O Gaudêncio ficou de joelhos e botou a língua de fora,
13, 14... desaçaimar o escravo que berrou, esperneou, 15, abriu a boca para
gritar e não gritou, 18, uma baba escorreu dos beiços grossos, 25, a vítima
chorava, 19, os cães latiam loucos com o cheiro de sangue, por causa dos
gritedos, dos reboliços, das bagunças, 19, preço despencado ao mínimo, 50$000,
quase de graça se fosse vender ou trocar, peça estragada, só se ouviu a última
chibatada no meio do terreiro da fazenda, a idade do negro condenado, 32.
8-rua Caldas Júnior.
Frases sentenças de Pedro:
- Embevecido nessa contemplação e êxtase, Mucuri
admirava todas aquelas paisagens verdes e cantantes e aladas e terrenas e
parecidas e mulheres da praia.
- Ela se viu no espelho da vitrine e pensou dois
segundos três segundos e entrou.
- Ilha do Mel, luar sem vento, sol espetacular, guria
solerte e por aí surfar.
- A chuva quando cai e cai uma duas três vezes ao dia
e quando nem cai no dia troveja no fim do dia para cair amanhecendo no outro
dia.
- A conversa a nível do aruá-do-mato engana, daí por
que o embuá a preguiça-preta o pau-de-jangada a língua-de-vaca falam pouco
falam nada.
8-rua Entrelopo.
Uma estátua de homem em tamanho normal sobre pedestal,
mão em pala diante dos olhos, boné vitorioso com abas que cobrem as orelhas,
fardado como soldado brasileiro na guerra do Paraguai, armado até os dentes com
armas de fogo e brancas e com inscrição de epigrama: “Ou ficar a pátria livre
ou morrer pelo B”. Sujo de grafite sujo dos pombos urbanos e corruíras e
tico-ticos e pica-paus-carijó e andorinhas donos do espaço aéreo terrestre
diuturnamente, etc., ex. Um estreito canteiro de cultivo circunda o monumento
jardinzinho cercado por grades e plantado por acaso de alcaçuzes-da-terra.
O impertinente pai do Joel compareceu à praça General
Osório, e muito importa saber o nome da praça, a latitude longitude altitude
atitude. Olhou a praça em roda e como qualquer outra. Um vendedor de espetos de
metal, vários tamanhos vários preços para vários tipos de assados.
A árvore é o bicho que mais cresce sobe neste planeta.
A anta é o bicho solto que dura em média quinze anos. O pássaro é o bicho mais
satisfeito. A borboleta é o bicho que dura um dia ou dois no máximo quinze dias
em certas raras espécies um mês.
O pai do Joel sentou no banco da praça e agora era só
esperar ver o Joel passar. E esperava. Cuidava de todo mundo, ouvia o ambiente,
cheirava o vento. “A qualquer momento o guri me aparece e será bem na hora”,
pensava.
E sempre o pai do Joel percebeu o assobio. Olhou para
lá, uma linda fêmea assobiando. Então, era um assobio muito interessante e
engraçado e digno de nota. Talvez até para chamar o animalzinho de estimação,
ou um idioma. Talvez para chamar a atenção dos fregueses e freguesas e clientes,
ou uma linguagem nova. Talvez para comemorar o dia aberto o campeonato o
aniversário a cidade... Talvez para namorar um passarinho livrinho pelaí.
Todos a olhavam, todos queriam vê-la; e quando
apareceu na calçada da praça, todos compreenderam. Caso não a olhassem com
volúpia, com acinte, não olhariam nada, não olhariam como deviam olhar, como os
machos olham. E como era bom vê-la desfilar como beldade de televisão de
passarela empoderada.
Uns riram, outros procuraram amores perdidos na
memória; e todos, finalmente, sorriram.
- Sabe que lembrei daquela campeã olímpica do decatlo!
- Eu pensei na minha prima...
O vendedor de picolés se aproximou da assembleia
comandada informalmente pelo pai do Joel. Estacionou o carrinho e se sentou no
meio-fio de cal branca. Olhou em volta e passou a mão no suor da testa com as
costas da mão. Logo puxou o que dizer, e pela ordem:
- Bonita guria, hein?!
- Olhar nem tira pedaço.
- Parece preocupada atarefada apressada estamentada?
- E por dentro cada qual e tal com seus mistérios
assim.
- Bonita praça, seu?
- Disputada por ximangos e maragatos, lenços vermelhos
e lenços brancos, situacionistas e federalistas.
- Bonito dia e espaçoso no céu azul com aviões de
carreira?
- No concerto das horas.
Depois de quatro horas mormacentas, o pai do Joel
estava assim ainda na praça. Procurou um lugar para se recostar. Achou esse tal
lugar ali. Se sentou. Um japu-do-bico-encarnado cantava ali bem perto e isso
era decente honesto verdadeiro. Não só chincoãs-pequenos piavam por aí saltavam
aqui e ali e de cá pra lá. Tuiparas-de-asa-dourada irisados conforme a luz dos
raios do sol nas penas.
A maioria das praças são pequenas do tamanho de uma
quadra, umas são redondas, outras são triangulares. Lugar com árvores e trilhos
para caminhar à vontade. Lugar de praça é no Centro. A praça é um desafogo de
árvores. Árvores privilegiadas.
Então, o camarada chega na praça e para e olha ao
redor. Vê as ruas descendo e subindo pelos limites do espaço público. Entre
essas ruas umas árvores altas: ali a praça. As árvores em indiana fila descem e
sobem das ruas acabam acampando no largo.
O que tem de acontecer acontece, e só D quando onde
com quem.
O pai do Joel estava tão distraído olhando o trânsito
da rua ao lado Amaral Ferrador, que não viu uma sombra chegar perto e toldar
seu espaço misturar os perfumes:
- E aí, compadre?!
O pai do Joel se virou rápido, meio no susto, olhou a
chegante e não a reconheceu mesmo e total:
- Quem? Eu?
- Não me reconhece mais, compadre? A Jarana! Ja-ra-na,
dos chimango!
- Nunca ouvi falar de nenhuma Jarana e nem de ximango
nem de maragato, minha senhora ou senhorita.
Depois de 3h e 30min a mulher se ergueu se despediu
com bom aperto de mão e abraço apertado e beijos um de cada lado e foi embora
lá para os lados de lá escalando a rua São Sepé. Abriu inauguraram uma choperia
do lado do cine Uari ali na esquina e nem faz duas semanas, bombava.
O pai do Joel ainda continuou ali, olhos abertos,
nariz alto farejando... um gritedo de pegas em bando passando voando correria
de raspão sobre as árvores rumo oeste. As plantas em geral falam durante o dia
a noite e conforme o vento nas folhas.
Duas fêmeas encurtando caminho possivelmente,
conversando sem parar, bolsas cada uma a sua pendurada no ombro, uma delas de
cabelos negros, cabelos em ondas móveis, rosto exótico, olhos doces e densos,
dentes com armação de borracha, seios copiosos e empolgados e empolgantes e
pontiagudos, mãos de unhas verdes e de uma magreza como quê.
O pai do Joel ainda continuou ali por mais umas 2h e
44min. Sempre olhando e esperando e aguardando. Às vezes bufava de cansaço e
tédio e vazio. Às vezes espirava limpando a comissura dos lábios com as costas
da mão.
Dez horas da noite deixou a praça e não foi para o
hotel. Nem foi logo.
No outro dia pela manhã, um dia prometendo a algazarra
dos automóveis, o confuso e intermitente movimento de carros e pessoas pelas
ruas e calçadas, etc. O mundo era assim mesmo. E levá-lo para onde ele for.
Daí, o que o pai do Joel fez. Foi até o banco e se
sentou, sentou, se acomodou. Olhou todas as árvores grandes,
guarirobas-do-campo, bracajanambis, carandás... Reparou no vento oeste. Reparou
nas pessoas que passavam, passavam. Ficou tonto. Se ergueu e foi, foi, deu
voltas pela praça, subiu e desceu, foi e voltou. Descobriu uma bica, bebeu,
bebeu. Descobriu uma santa e olhou, olhou, a santa mesmo olhava e olhava o céu
sem ver a terra. Vinha chegando um vendedor de mandolates. Comprou um.
Conversou, conversou, conversaram.
Não sem demora, aí, o pai do Joel voltou a se sentar
no banco, escolheu um ao seu gosto, ao seu alcance, num lugar de sombra e pouco
vento, um lugar estratégico, se sentou, sentou. Olhou dois três
bem-te-vizinhos-do-brejo catando no chão, e passavam voavam retornavam
apressados e voltavam a ciscar sobressaltados. Uns índios coroado, umas cinco
mulheres dois homens oito curumins, chegaram e ficaram ali reunidos, cestos de
taquara para vender, olhando, falando pouco, uns sentados nos bancos, outros no
barranco gramado, etc.
As moças de verde passaram desfilando sem ninguém ver.
Só o pai do Joel as viu. Nem viu tudo. Elas passaram e foram embora e riam. Não
riam para ninguém, não riam de ninguém, riam com as perguntas e respostas entre
elas mesmas, riam de propósito. Mas eram bonitas e o pai do Joel viu tudo com
seu olhar de carancho. Viu um bom pouco e tão bem que ficou refletindo,
guardando, olhar filosofado.
Logo quem o pai do Joel foi foi, muito lento, e se
sentou sentou debaixo de um pé de grápia; e pensativo, pensando. Uma
sexta-feira de bandeira patriótica ruflando na fachada do colégio Barão de
Santa Tecla e muros no hábito dos tijolos cobogós. A praça respirava por dentro
e por fora a praça General Osório.
Chegou um vendedor de vassouras piaçavas e perguntou:
- Qual a causa?
- Procuro meu rebento. Não tenho noção nem ideia. Nem
tenho.
- Mas vai que um dia... uma hora... e talvez.
- Sonhei com meu filho essa noite. Sonhei que nunca
mais vou vê-lo. Isso seria possível, um pesadelo?
- Você acreditou?
- Eu acredito em notícia ruim.
- E naquilo que os outros desmentem, você distorce?
Depois apareceu do nada um mágico ilusionista vestido
de palhaço, pintado, pernas de pau, fantasia vestida entre verdes e amarelos. E
com um saco de tecido cheio de coisas jogadas ali sortidas para doar às
crianças. O ator de rua chamou a atenção de todo mundo com sua altura sua cor
seus gritos e presentes. Reuniu gente de todas as idades e começou a inventar
mágicas complicadas. Tirou jabuticabas da cartola e ofereceu para experimentar,
tirou pombas-rolas e as soltou livrou no ar, tirou garota bonita sorridente que
o abraçou e chamou de “querido papai!”, tirou uma flauta de taquara soprou e
espalhou bolhas de sabão de todos os tamanhos...
Duas radiantes orquídeas novas apareceram. Vinham
vindo sabe D de onde. Apareceram e eram duas lindas e bonitas e amigáveis.
Talvez de Cidelândia. Apareceram por sorte de quem as olhava para melhorar os
olhos colírios. Quem sabe de Solonópole. O pai do Joel as olhava tirou recibo e
não podia tirar os olhos e ser diferente.
Um tufo de erva-de-passarinho só envelhece quando
envelhecer sua hospedeira a carobaguaçu uns oitenta anos com certeza. Uma
abelha-mulata acontece durante o verão e desaparece no inverno. O
gavião-carrapateiro envelhece aos cinco anos. O jaguané se aposenta com quinze
para dezesseis.
Apareceram, vinham vindo, vinham, passando... (esperar
um pouco, pausa, imagem frisada) e passaram seguiram embora. Duas bromélias sem
espinhos; uma lilás com riscos risos de azul e amarelo, a outra azul com traços
com risos lilases e vermelhos. E era todo um conjunto uma dupla e cada uma
fazia sua parte no mundo. Uma orquídea falava e ria, a outra escutava e ria.
Naquele instante. Porque a praça existe para isso mesmo, obrigado!
Carregou mais algumas horas ali na praça do herói
General Osório e recuou o pai do Joel para o hotel Guanaré três estrelas e
meia.
Sentado, sentado, bocejou com força, se esticou, e
finalmente se decidiu a ir para o hotel.
Já um século ali no mesmo banco ou um banco próximo na
pracinha acanhada, consultou as horas no relógio da Matriz, olhou em volta para
mais uma olhada, as horas já passavam do normal para a boca da noite, e se
decidiu afinal e rumou para o hotel para o hotel. Arrastando os pés e tranquilo
e dando o dia por encerrado.
Não podia ser diferente. Quantos metros, trezentos
metros quatrocentos até a portaria do hotel. Um carro parou no meio-fio
desembarcando uma mulher dos seus quarenta e cinco.
O pai do Joel comprou um guarda-chuva dos grandes,
vinte reais. A previsão era chuva chuva todo o dia seguinte amanhã e uns três
ininterruptos interessantes dias. Quem não gosta de chuva? O pai do Joel rodou
rodava o labirinto de trilhas da praça não parava para sentar esperava em pé
consultava as horas. Compensado? Tava sentindo alguma coisa? Se acaso
encontrasse alguém disposto a conversar:
- Vai chover ainda um bocado amanhã.
- Conforme.
- Ou talvez limpe de vereda.
- As valas.
Ela devia ter 20 mais 20 anos, pouco para mais ou mais
para pouco menos, e tinha uns cabelos de cascata lisos como de cortina, cabelos
quietos, bonitos, cabelos maravilhosos, muito limpos como papel novo em folha.
Começou a chover tudo que podia. Porém ela estava de guarda-chuva dos grandes,
um guarda-chuva que nunca se viu, todo de pano vermelho com cabo decorado de
fitas uma de cada cor, umas cem ou cento e trinta fitas do Senhor do Bonfim. O
vento batia de frente e ela se arcava para não ser pega pela chuva derrubada
pelo vento. Parecia uma mulher rara determinada decidida a encontrar aberta a
loja de cosméticos. E aí ela virou pela direita e saiu fora da praça, desceu
uns metros pela rua 24 de Outubro, fechou o guarda-chuva e entrou no carro com
alerta buzinando.
O vento viu as árvores grandes da praça. Viu folhas
nas árvores. Viu folhas espalhadas pelo chão. Varreu as folhas para os ninhos
dos canteiros cercados de gradezinhas de ferro pintadas de verde. Um piazote
pedalava sua bicicleta de fim de semana.
As pitangueiras estavam ali perto, gostar ou não, eram
belas árvores esguias, não era época de pitangas, folhas verdes e cheirosas,
era gostar ou largar. As aparências nem enganavam viçosas nervosas verdejantes,
ervas-de-parida, cipós-guiras, guaxixins...
E na prática a chuva molhava literalmente. E tocada a
chicote de fogo e tremores retumbantes de trovão.
Desfile de cavalos mangas-largas paulistas. Os
cavaleiros de pala e chapéu desabado. Crinas bem podadas orelhas altas cocôs
esquecidos no paralelepípedo. Era engraçado porque andavam com caneleiras e a
cola atada ao cantagalo. Eles obedeciam sérios fechados compenetrados
adestrados garbosos. Gente expectativa chegava na sacada dos prédios gradil
guarda-corpos. E os condutores cavaleiros cada tal e qual todos pareciam ter
achado algo bom e ótimo de brincar e ensinar aos filhos.
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