sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 8




A rua Francisco Sá com a avenida NS de Copacabana o bairro de Copacabana em o Rio de Janeiro.
Este gliptodonte! A cabeça começa a puxar e o todo do corpo acompanha, assim, mais ou menos. A ideia de repente dá um lampejo e todo o resto segue em frente paquidermica-mente. Os gliptodontes não desapareceram nem foram extintos nem esquecidos mais ou menos há 10.000 datas. Simboralá! e ainda lúcido, o cérebro já não cresce e os pensamentos só dilatam muitas horas depois de expostos ao sol ao calor ao vento à chuva ao trânsito. Completou o ciclo deu a volta ao mundo e voltou para o mesmo lugar. Os problemas todos resolvidos? Os abraços. No estado em que se encontrava antes. Rua 2 de Dezembro. Então para de andar respira cansado a umas tantas quadras do museu Nacional UFRJ. São 11 horas, e luminosas.
Bota uma coincidência aí! Mais esta mais uma. Em casa, tenho 4 livros para ler. Devia ter mais? Estes quatro. Um de contos outro de crônicas mais um de novelas a até um romance tipo tijolão. É tudo muito raro e estranho. A coincidência fica com a seleção de tipos narrativos, por acaso, está claro! Coincidência que alguns optam por chamar de surpresa supetão.
Que tem mais, tem. Ultimamente estas pequenas porém certas e ótimas coincidências. Garrafas vazias para vender? Coincidências que coincidem, e têm me acompanhado nas horas mais inusitadas ou reservadas ou públicas: 11h e 11min, 21h e 12min, 17h e 07min, 13h e 04min... Hoje de manhã, agora mesmo, 7h e 7min. Sem engano, é muita coincidência e acaso. Por que D dispõe do seu jeito.
8-rua Marechal Correia da Câmara.
O pai do Joel, velho antes de tudo involuntariamente, saiu para procurar o filho seja lá onde for. E foi de cidade em cidade, de rodoviária em rodoviária, aeroporto em aeroporto, porto em porto, principalmente praça em praça... E quem sabe casado e com filhos, o tal filho desgarrado, seus netos.
Pois o Joel saiu de casa sem dizer nada, sem deixar vestígios?
O tio do Joel por parte de mãe, o João Trumai, tinha uma banda Mamucha de música axé. A banda gravou um cd (em a época) e lançou na cidade onde moravam e na capital do Estado foi durante um carnaval. E a banda ficou famosa na região e tocava também em eventos agropastoris agropecuários agronegócios eventos rurais festivais do campo. O tio do Joel, o JTrumai, morreu e com ele morreu também a banda Mamucha. Aí, apareceu, dez anos depois, o filho de JT, primo do Joel, que tinha o nome de Uirari, e a banda Mamucha II ressuscitou dos escombros das cinzas das ruínas do ferro-velho. Depois, bem mais tarde, de novo a banda morreu quando Uirari viajou sem avisar ninguém. Isso de viajar sem avisar lá em casa deles era coisa típica, quase como uma mania ou moda.
Esse turuna Uirari, certa feita, leu um livro, “Maria Dusá” de Lindolfo Rocha, e viu que Pium era o nome de um garimpo tirado ali mesmo do rio Pium e este deslizava no meio do sertão. Achou o nome “pium” curioso. Foi ao dicionário do seu H e pium é uma espécie de mosquito (borrachudo) que gosta de andar pela beira dos rios pântanos alagados entre os aguapés os cipós-sumas as unhas-de-gato e atacando os incautos pescadores noturnos, ex. Não de todo contente, Uirari foi à internet e lá conferiu que existem uma cidade tocantinense de nome Pium e mais um romance com o mesmo nome comum de “Pium nos garimpos de Goiás” do autor Eli Brasiliense. Portanto o tupina Uirari ficou sabendo que o riacho Pium deu nome ao mosquito que o habitava e este inseto deu nome ao córrego ao garimpo à cidade e às histórias de ficção.
8-rua Visconde de São Leopoldo.
O pai do Joel chegou a uma cidade mineira de pontas espetando sagradas o céu, mãos abertas ou espalmadas para o céu de Minas Gerais, igrejas bonitas por dentro por fora e pesadas por dentro por fora e escadarias por fora anjos por dentro e ladeiras por fora altares por dentro e santos santas por dentro cruzeiros por fora, capelas nas alturas mas pontes e chafarizes nas canhadas, casas antigas com janelas de portas muitas. Cidade antiga e moderna convivendo como pode e como pede com montanhas de ferro.
Assim, uma noite, o pai do Joel resolveu procurar o filho que se extraviara no mundo e sabe D onde e como. Na manhã imediata se espreguiçando disse para a esposa, mãe do Joel:
- Eu vou atrás de pesquisar aquele bobo.
- Bobo não, maluco.
- Tá bem, bocó, então.
- Talvez um pouco lunático.
- Desvairado como a mãe dele.
- Toldado como o pai dele.
E de lá se pinchou o pai do Joel atrás de achar o filho Joel. E ele se foi, e veio, mundo afora adentro esperançoso, ele que era o pai escarrado e cuspido do Joel. Olhando tudo em volta de si. Colecionando praças e alimentando muitas esperanças. Por causa de que as praças.
O pai do Joel era natural de Viamão, viveu muito tempo em Criciúma, e naquele dia da decisão morava, com a esposa mais cinco filhos, em Montenegro que é perto do rio Caí. O pai do Joel era filho de Alfredo e Maria, casado com Neusa - que era filha de João Carriola e Isaura - ela natural de Alegrete, distrito de Vacaria, cidade esta fundada pelo grande fazendeiro sesmeiro o capitão Cauã Canjirão Tabajara.
E pai do Joel chegou até uma praça na cidade de Casca e perguntou o nome da praça:
- Nome da praça?
- Praça da... Bandeira.
- Ih, conheço várias! E da Matriz, então! E da República, nem se fala! E Tiradentes uma centena! E Santos Dumont uma grandeza! E Tupiná uma apenasmente.
Outra feita, desembarcou em São Borja e foi ver a praça Sete de Setembro. Tinha que ser ali! Muitos automóveis esperando seus proprietários estacionados de viés embicados dentro dos traçados a cal no costado da praça. Dois deles incipientes um branco outro bege lado a lado mudos compenetrados estudando português com dicionários de bolso na sombra malhada do mata-olho.
O pai do Joel navegou pelo rio Pajeú, o rio do pajé, mesmo território dos índios ingarune, e foi parar numa cidade de nome Tabira, pernoitou no hotel Marajó, onde conheceu dia seguinte uma sexta-feira a praça XV de Novembro. Justamente a praça essa ribeirinha e da beira do rio, praça cheia de palmeiras açaís e palmeiras perinãs e tucanos-de-peito-branco em algazarra no nascer e deitar do dia.
A praça na qual chegava hoje era nova em folha e tinha quatro lados desiguais e trilhos de ponta a ponta e lado a lado fazendo um labirinto. Dois três nomes os moradores tentaram apelidar a praça mas nenhum conseguiu pegar sozinho e liderar com folga e democraticamente. Vamos dar nome à praça!
Certo dia e hora de terça-feira mês de maio, pai do Joel chegou diante de uma das tantas praças Presidente Vargas que para se ver no geral tinha que subir uma escada de pedra basalto. Do topo da escada no morro se viam a praça total o bairro do Xaxim e a beira do rio Guaíba com o outro lado de lá.
Depois de sair do espaço público, o pai do Joel resolveu lembrar do nome da praça mas já esquecia. Tinha outra praça pela frente em mente aquele mesmo dia e noutra cidade a praça João Mendes. Conhece?
8-rua Goitacaz.
As frases sentenças de Pedro:
- Dia manhã parada parado nas nuvens baixas, garoa, névoa, frio, vento, Muribara em São Lourenço da Mata, pouco mais das 8h e 18min.
- O mais próximo que se consegue ou se sabe desse colégio Diogo Penha, avenida Itália, é que era numa cidade Balneário Pinhal de um Estado do nordeste deste mesmo país.
- O graxaim é bicho brabo como tucunaré como tiborna-traiçoeira como charão.
- Naturalmente e quando voa lembra muito uma capivara um capincho.
- Ela se confortou para a janela aberta sobre o mar de Xangri-Lá e disfarçar seus olhos totalmente azuis e mentolados.
- A moça do vôlei se atirou na bola num peixinho confiante de puro movimento de hiperextensão... “Eeeeeu!”
- Praia, esquecera de dizer esta certeza: praia da Barra de Guaratiba.
8-rua Luciana de Abreu.
Sem alopração, o gliptodonte para trava se reconhece diante do espelho lá dele do banheiro. Cara preocupada sem poder dormir adequadamente. Nota que o casco adquiriu uma cor cinzenta e outras manchas mais cinzas bem acinzentadas. Fica eterno se olhando interessado preocupado meia hora, etc. Como em que planeta se escolhe a cidade para morar? De que ponto do universo se parte para pousar aqui? Quem decide na hora de virar gente tatuxima buranhém napopé candiru-vermelho mineral ponte General Osório máquina de lavar roupas aeroporto internacional Afonso Pena, hein, ex?
As ruas, rua Avanhandava com a avenida Nove (9) de Julho de capital São Paulo.
Eu não pedi nem pensava nisso, mas na ida e na volta à estação ecológica de Taiamã ganhei a poltrona 11. Que será esta coincidência? Camisa 11? Já nem gosto de sentar na janela de avião. Posso até ocupar a poltrona, mas raramente olho para fora. Me congela a sensação particular de pássaro sem asas.
8-rua General Bento Martins.
Com as palavras de Aline: capepena, desteridade, cacuri, fungível, algeroz, encampar, escápula, realengo, pé-de-alferes, desconchavo.
8-rua Sepúlveda.
O pai do Joel, ao sentar em banco na praça JK, braços abertos apoiados no encosto e pacífico, lembrando de nem esquecer:
- Nem devo esquecer de cortar o cabelo ainda hoje, se for o caso.
- Não devo esquecer de assistir o programa Senhor-Sampaio das 23h em o canal Lereia.
- Nem devo esquecer barba cabelo e bigode no salão Cuíca-Lanosa.
O pai do Joel procurou nos bolsos: pente, barbeador descartável, alguns reais em moedas outros em papéis, cartões, documentos, lenços descartáveis, recibo do hotel Próceres pago até o dia 23 do mês em vigor...
Depois das 16 horas, hoje, uma enxurrada na praça do mesmo nome. Choveu chuva choveu bem choveu firme e amazônico.
- Até o fim de fevereiro março vai ser isto mesmo.
- A chuva é boa para a agricultura e pecuária e energia limpa.
- Depois da chuva o tempo fica mais agradável saudável respirável aprazível.
- Na Amazônia chove todo santo dia e pelo menos uma vez por dia.
- Eu gosto de chuva mas nem tanta água assim.
- Bom é dormir com o barulho da chuva, chuá!... chove chuva no telhado.
Sempre o pai do Joel olhou pelo céu povoado de estrelas lavadas e lúcidas e eternas e distantes e diamantes, resmungou para si:
- É, o que tinha de chover choveu com tudo. Nem vai mais chover para os próximos oito dez dias. Garanto!
No dia imediato a mesma praça JK, o pai do Joel parou bem debaixo da canjerana reflorida, olhou em volta, achou o banco gentileza das lojas Bilosca que procurava para descansar.
Umas 10h e tanto. O café do hotelzinho mais ou menos no estômago. O casal de tchintchorrintchos espertos coloridos atentos nos galhos do cambuí, os joões-de-barro casal caminhando saltitando ciscando gargalhando batendo as asas no peito, as muitas andorinhas um bando esvoaçando trissando varrendo o ar entrando se infiltrando pelas gretas frestas das abas das casas um casarão de fachada em azulejos...
Numa mesa de pedra quatro jogadores de damas. Um peru dando voltas sem parar. Altas árvores faziam sombra larga, cajueiro-bravo, orabutã, espinho-de-vintém, arapari... Muita sombra malhada estampada pelo chão. Crianças berrando nas gangorras, nos balanços, babás ao celular empurrando carrinhos de neném com toldo com chocalho.
O pai do Joel chegou mais perto dos jogadores. Ficou peruando o jogo. Os jogadores riam e cantavam as pedras. Os perus olhavam preocupados com a mão no queixo com as mãos nos bolsos das calças com as mãos às costas com os braços cruzados. Olhavam com os olhos e às vezes com gestos com muxoxos com grunhidos com risos. Coçavam os mais diversos pontos do próprio corpo e até mesmo onde as mãos dificilmente geralmente moralmente nem alcançam.
Passou um ônibus na rua Leonel de Moura Brizola pavimentada de paralelepípedos. Nas calçadas de passeio cobertas de lajes basálticas, de espaço em espaço, as em indianas seguidas arnicas-da-chapada. Crianças no escorregador deslizando até a caixa de areia. E repetindo. E  gritando “por favor!”
O pai do Joel não quis jogar damas no lugar de alguém. O ex-jogador preferiu virar peru. Já o primeiro peru virou jogador. O pai do Joel puxou a foto do bolso da camisa:
- É meu filho que procuro. Por acaso...
O ex-jogador agora peru pegou a foto, pediu licença, aproximou a foto dos olhos, olhou. Depois de admirar por um tempo passou aos jogadores. Cada um olhou o seu tempo. Cada um demorou seu suficiente e passou ao seguinte. Girou voltou ao dono pai do Joel. Este reiniciou a explicação:
- Ele saiu de casa há uns tantos anos. Na foto ele tem 12 para 13 anos. Hoje deve ter por volta por alto calculo uns 32.
- Brigou? - perguntou o jogador um, a quem havia sido entregue a foto por primeiro.
- Essas coisas acontecem em toda e qualquer família - já foi dizendo o jogador dois, no sentido horário.
- Ele queria ser jogador de futebol e foi fazer um teste no Esporte Clube Recreativo Cabuçu lá de Capão da Porteira.
- Ah, é?! - resmungou o peru, ex-jogador.
- O nome dele é Joel. Joel Cuiambuca. O sobrenome do pai, este que vos fala. Pois o meu Joel tinha ouvido dizer que o Cabuçu estava fazendo peneira. Ele sonhava ser goleiro da Seleção. Eu disse a ele: é difícil, filho! Ele me devolveu: vou ver se é impossível. Então, pegou uma mochila com as coisas dele e na manhã seguinte saiu fora. Aconteceu. Não tive ânimo para segurar. Não tivemos argumentos para demovê-lo. Mas também era o sonho dele e eu não podia detê-lo. E ele saiu em janeiro, final de janeiro daquele ano de 1984. Faz tanto tempo, então, né?! Mais de tantos anos que não dá as caras nem telefona. Eu pensei que pudesse encontrá-lo aqui, e quem sabe perdido, desmemoriado, precisando, etc., ex.
- Mas o senhor vai encontrá-lo, sem dúvida - continuando pelo terceiro jogador, o ex-primeiro peru.
- Se não hoje, amanhã - finalmente o quarto jogador.
Então, voltou a falar o jogador um. Depois novamente o dois. Mais o três. O quatro. O peru ex-jogador. Falaram um, dois, três, quatro, peru. Os quatro jogadores e o peru.
O pai do Joel ficou olhando os jogadores jogar. Ele mais o outro peru rodeavam a partida o jogo. Os dois perus trocavam opiniões e risos e preocupações a respeito do jogo. Conversavam sério sobre as jogadas. O peru ex-jogador até fumava muito, acendendo um cigarro no outro.
Umas crianças gritando de alegria e euforia no brinquedo de girar. Sanhaços-da-amazônia buscavam os galhos a proteção os poleiros da moliana. As babás olhavam o movimento da rua o voo dos anambés-pretos o rebuliço das petizadas com interesse com displicência com tédio com a mão segurando o queixo. Uma pensava no namorado mais tarde, outra na conta da loja, mais outra no final de semana na praia de Capão da Canoa.
Passavam oito carros na rua de cima a Cainguá, sete carros na rua do lado direito a João Goulart, seis carros e uma caminhonete na rua do lado esquerdo a L. M. Brizola. Não se via a igreja de São Sebastião, nem a ponta da torre. Estavam longe do hospital NSAparecida e do corpo de bombeiros voluntários. A prefeitura ficava para os lados de lá para além de duas quadras e meia e era um prédio neoclássico ou eclético.
O pai do Joel cansou, aí pelas 11h e 21min, e retornou para o hotelzinho almoçar e fazer uma sesta. Voltaria à tarde? O sol estava de deixar alguém meio bobo. Os jogadores acharam que sim, o sol estava brabo. Os jogadores foram para o outro lado, moravam todos na rua Pirapetinga cinco minutos de caminhada num passo lento perto do museu antropológico Índios Coroado.
Já o pai do Joel voltou à praça JK no meio da tarde e sob o mesma estrela pequena dona do sistema solar. Um mormaço. O almoço já caíra bem, obrigado, arroz e feijão e outras iguarias de praxe. O céu com poucas nuvens para o lado do sul, de onde vem frequentemente a chuva. A temperatura alta. Procurou a sombra das paineiras altas. Sentou e olhou tudo que podia em 300 graus.
Na rua de cima uma mulher jovem presumida e sem dúvida muito atraente. Estava vestida de vestido floreado predominando os arabescos de vermelho. Bem carnaval. Mulher pode vestir qualquer acessório. Moça bonita tudo cai bem. Os olhos saudáveis, orelhas prontas com brincos longos em cordões com bolinhas douradas, cabelo negro alçado preso por fita azul, unhas rentes, etc., postura e andar definitivo.
O pai do Joel se ergueu e foi mostrar a foto do filho ao policial. A autoridade pegou e olhou e ficou olhando com calma:
- Recente?
- Sim, recente. Do ano passado.
- Quando que ele sumiu?
- Ele desapareceu em janeiro do ano passado. Saiu de casa para procurar emprego e não mais voltou. Estou com receio. Não deu mais notícias. Avisou certo dia lá em casa simplesmente que queria ser um polícia, um brigadiano, como dizem por aqui. Somos de outro Estado, compreende? Me disse ele: pai, eu vou para uma cidade grande vê se tem emprego corajoso violento perigoso que é o que eu gosto e aprecio. E pegou e foi e veio. Mas não mandou mais notícias. Não manda notícias. E faz esse ano todo e olhe lá!
- Já foi na delegacia mais próxima, no iml, nos hospitais? Consultou o spc?
- Pensei que aqui na praça alguém pudesse me esclarecer. A praça é um bom lugar para todo mundo. Todo mundo que se perde ou que não tem onde ir e ficar, vai procurar na praça vai andar na praça vai dormir na praça. Todo mundo que não tem onde comer ou dormir ou trabalhar ou se distrair, vai olhar na praça. Pensei assim.
- Fez bem. É dentro de uma lógica.
- E estou indo por todas as praças do Estado e do país e do mundo e de D.
Era anoitecendo e o pai do Joel se despediu do vendedor de cachorro-quente e voltou para o hotel. Parou um pouco antes de abandonar a praça e olhou para trás. Era uma praça como outra qualquer. Na noite se iniciando uma praça com donos ou donas procurando distrair os cães de estimação, canteiros aromas perfumes de plantas misturadas aleatoriamente braço-de-mono arruda-do-campo caiofora erva-tostão... casais saboreando sorvetes caminhando len-ta-men-te, estudantes gazeteiros em revoada algazarra empurrões para os lados do bar Canitar.
8-rua Cel. Genoíno.
Com as palavras de Aline: pintalgado, chibante, burundanga, amásia, mondongo, panete, papiamento, cimeira, munício, alvedrio.
8-rua Dona Laura.
A rua das Hortências com Vinte de Setembro em Capivari do Sul.
Coincidência eu gosto e recomendo. Vou seguidamente é habito à biblioteca. Pego o meu livro ao acaso e o que trago: “Enigma na Capela Real”, de Ana Cristina Massa. É infanto-juvenil e trata de um roubo de imagens sacras. Aí, dois dias após (um certo tempo ainda dentro do prazo do acaso), apareceu a coincidência: um roubo no Masp: um quadro de Picasso e outro do Portinari (os dois também com p). Coincidência para muitas pessoas esta palavra nem existe. Quantas coincidências aparecem e descendo o rio sobrepostas? Até porque convivem pessoas que são veganas e recomendam.
O gliptodonte pesa muito, embora desconjuntado. Esquálido? E bem menos a carcaça física que a outra o arcabouço da sua memória. Se escora na embaíba e se coça com gosto, rindo sozinho. Não pode se debruçar à janela, não pode passar pela porta sem quebrar a moldura. Esta época por estes tempos reduziu os alimentos as oportunidades de se alimentar e come só duas vezes por dia. Duas refeições leves uma o café da manhã às 8h e 30min e outra a sopinha às 20h em ponto. Gosta de tudo um pouco mas precisa dar preferência para os grãos os vegetais, caprichando na variedade das cores. Detesta animais de estimação mascotes que latem e rosnam e miam a sua passagem na rua. E de esnobes poliglotas umas e outros desta ou outra maneira privilegiados pela família pelos correligionários pela grei parasitas sociais que estão hereditariamente ligados ao Itamaraty. E comer é uma palavra de amplo sentido significado mais cheia e com os olhos.
8-rua Visconde de Santa Isabel.
Quando o pai do Joel visitou a praça do Avião, tudo estava em festa tudo estava no seu devido lugar tudo ali as coisas com nome de batismo. Tinha chovido forte na madrugada. Então, ali na manhã, fazia, por que não! um sol livre agressivo às 8h e 7min. Isso acontece muito.
Da mesma praça de grandes árvores, mantimento-de-pobre, guaraçaí, abiorana-guta, jarana... ao redor a cidade de Cidreira era plana, arejada, ótima, espalhada, bafejada de forte vento marinho. O vento ajudava a dissipar um pouco o mormaço.
Alice passou com Marcelle. Uma a sombra da outra. Parecidas. Marcelle com nove anos para fazer dez em setembro. Marcelle de olhos nos balanços, de ouvidos nos gritos dos brincantes, avenida central Fausto Borba Prates com ciclovia entre uma faixa e outra. Estranho, a calçada de pedestres pelo meio da avenida? Alice convidou:
- Você quer sorvete de araçá ou açaí ou pitanga?
- Quero sorvete de pitanga e murici e abacaxi.
- Com pedacinhos de frutas?
- Quero pedaços de abacaxi e jabuticaba e pequi.
- Com calda de caju por cima?
- Quero sabor de açaí e guabiju e abio por cima.
Música dos pássaros presentes, furriéis, pintassilgos, tangarazinhos, bem-te-vis e suas amigas companheiras siriricas... O sol acontecendo na fogueira das horas matinais, as pessoas se cansaram logo logo, os bichos em geral fugiram se esconder na sombra: preguiça. Cigarras foram azucrinar já as primeiras horas da tarde.
Era um bom começo. Os caimbé vieram da serra do Corvo Branco. A manjerona-do-campo e a ipecacuanha e o mil-homens-do-rio-grande vieram de Senador Pompeu e Loreto e Canela, respectivamente. O escorpião-amarelo veio do bairro Petrópolis, PoA. A piraíba veio do rio Novo. E quem criou a roda não estava nem aí.
O pai do Joel, ali sempre sentado no banco, por enquanto, olhou a nuvem, esqueceu a nuvem, olhou a rua Joca Marques, tentou pensar em outras coisas boas, tentou, lembrou de quem?, parcialmente lembrou.
Nesse mesmo momento, passou a sua frente uma mulher bonita e sem destino e sem nome e sem nada no ombro nas mãos nos bolsos. Uma mulher vaporosa. O seu merecimento físico era muito interessante. Podia ser que tivesse uns olhos lindos, por quê?, porque eram passos firmes fortes decididos autoritários convictos fanáticos:
- Pra mim sempre foi algo de diferente ir até uma cidade conhecer cidades que gosto e recomendo.
A guriazinha diferente e em sentido poente, a moça chegou perto das flores, e sorriu, o cãozinho veio perto e cheirou as flores, e sorriram, a moça esticou o braço e tocou as flores, e sorriu, a moça foi indo embora com o cãozinho no rastro, e sorriam, sorrindo, aromados das flores de flores-do-campo.
Era uma menininha à procura de perguntas e respostas. Inquieta quando ninguém lhe perguntava nada. Desassossegada pelo motivo de ninguém responder suas perguntas:
Um dia ela resolveu perguntar mesmo assim:
- O que devo fazer para conhecer o B? E todinho!
Então lhe disseram com todas as letras:
- Você precisa conhecer a Amazônia o pico do Gavião lá de Andradas e Águas do Prata o rio Vacacaí a rua Barão de Batovi...
Ela pegou e foi viu conheceu tirou fotos comprou coisas fez amizades e perguntou:
- O que que eu faço para conhecer o B? Ontem e hoje e amanhã!
A moça de bermuda plissada cabelo enxuto tênis de cadarço dobrou a esquina e o pai do Joel sentiu saudades dos tempos que tinha em torno dos seus 22 anos, tardes de sol com praia Ponta das Canas, carro e liberdade, faculdade e desemprego:
- Alagoas nem é só Quixeramobim e Santa Rosa de Lima mas também Leopoldo de Bulhões e Bofete e Marechal Thaumaturgo...
As árvores queriam conversar e farfalhavam, as folhas viraram em passarinhos, os aladinhos viraram em borboletas verdes azuis brancas vermelhas, as asas amarelas viraram em bicolores tricolores. Quanto custa inventar uma árvore hoje em dia? E todos os seres viventes ali queriam pertencer à água à praia ao campo ao vento ao dia aberto.
Este mundo é muito universal para um só D e sozinho.
8-rua Monte Belo do Sul.
O escravo Gaudêncio apanhava de chicote ali mesmo no pátio, no pelourinho da herdade da fazendola Tapiri, debaixo do verde pé de umbu, na sombra, por volta da 11h e 12min. Um gritedo de homens com cara de cachorro. Um gritedo de guaipecas parecidos com os donos. As lapadas, 1, 2, 3... E o escravo, mateiro toqueiro piqueiro, gemia e uivava e pedia em favor, 4, 5... Os cachorros mais loucos ainda, 6, 7, 8, 9... Açaimar os cães farejadores de negros fugidos mocamaus. Valor de mercado avaliado em 2:200$000 considerado valioso e bem alto.
Nem o sol nem a lua, está claro está escuro! tinham japuaçus. Ventos importantes.
O escravo vomitara verde caíra de joelhos e pareceu ter perdido os sentidos. Jogaram água, o escravo olhou para os lados se queixou muito tentou falar, o cara de cachorro gritou mais bravo os cães imitaram o dono, e 10, 11, 12... Um valor intermediário bom para a idade da peça, couro riscado de açoites, 1:300$000 (um conto e trezentos mil-réis ou um quilo de ouro).
A lua atravessou em claro a quase noite toda. O sol elogiado à gandaia do céu.
O Gaudêncio ficou de joelhos e botou a língua de fora, 13, 14... desaçaimar o escravo que berrou, esperneou, 15, abriu a boca para gritar e não gritou, 18, uma baba escorreu dos beiços grossos, 25, a vítima chorava, 19, os cães latiam loucos com o cheiro de sangue, por causa dos gritedos, dos reboliços, das bagunças, 19, preço despencado ao mínimo, 50$000, quase de graça se fosse vender ou trocar, peça estragada, só se ouviu a última chibatada no meio do terreiro da fazenda, a idade do negro condenado, 32.
8-rua Caldas Júnior.
Frases sentenças de Pedro:
- Embevecido nessa contemplação e êxtase, Mucuri admirava todas aquelas paisagens verdes e cantantes e aladas e terrenas e parecidas e mulheres da praia.
- Ela se viu no espelho da vitrine e pensou dois segundos três segundos e entrou.
- Ilha do Mel, luar sem vento, sol espetacular, guria solerte e por aí surfar.
- A chuva quando cai e cai uma duas três vezes ao dia e quando nem cai no dia troveja no fim do dia para cair amanhecendo no outro dia.
- A conversa a nível do aruá-do-mato engana, daí por que o embuá a preguiça-preta o pau-de-jangada a língua-de-vaca falam pouco falam nada.
8-rua Entrelopo.
Uma estátua de homem em tamanho normal sobre pedestal, mão em pala diante dos olhos, boné vitorioso com abas que cobrem as orelhas, fardado como soldado brasileiro na guerra do Paraguai, armado até os dentes com armas de fogo e brancas e com inscrição de epigrama: “Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo B”. Sujo de grafite sujo dos pombos urbanos e corruíras e tico-ticos e pica-paus-carijó e andorinhas donos do espaço aéreo terrestre diuturnamente, etc., ex. Um estreito canteiro de cultivo circunda o monumento jardinzinho cercado por grades e plantado por acaso de alcaçuzes-da-terra.
O impertinente pai do Joel compareceu à praça General Osório, e muito importa saber o nome da praça, a latitude longitude altitude atitude. Olhou a praça em roda e como qualquer outra. Um vendedor de espetos de metal, vários tamanhos vários preços para vários tipos de assados.
A árvore é o bicho que mais cresce sobe neste planeta. A anta é o bicho solto que dura em média quinze anos. O pássaro é o bicho mais satisfeito. A borboleta é o bicho que dura um dia ou dois no máximo quinze dias em certas raras espécies um mês.
O pai do Joel sentou no banco da praça e agora era só esperar ver o Joel passar. E esperava. Cuidava de todo mundo, ouvia o ambiente, cheirava o vento. “A qualquer momento o guri me aparece e será bem na hora”, pensava.
E sempre o pai do Joel percebeu o assobio. Olhou para lá, uma linda fêmea assobiando. Então, era um assobio muito interessante e engraçado e digno de nota. Talvez até para chamar o animalzinho de estimação, ou um idioma. Talvez para chamar a atenção dos fregueses e freguesas e clientes, ou uma linguagem nova. Talvez para comemorar o dia aberto o campeonato o aniversário a cidade... Talvez para namorar um passarinho livrinho pelaí.
Todos a olhavam, todos queriam vê-la; e quando apareceu na calçada da praça, todos compreenderam. Caso não a olhassem com volúpia, com acinte, não olhariam nada, não olhariam como deviam olhar, como os machos olham. E como era bom vê-la desfilar como beldade de televisão de passarela empoderada.
Uns riram, outros procuraram amores perdidos na memória; e todos, finalmente, sorriram.
- Sabe que lembrei daquela campeã olímpica do decatlo!
- Eu pensei na minha prima...
O vendedor de picolés se aproximou da assembleia comandada informalmente pelo pai do Joel. Estacionou o carrinho e se sentou no meio-fio de cal branca. Olhou em volta e passou a mão no suor da testa com as costas da mão. Logo puxou o que dizer, e pela ordem:
- Bonita guria, hein?!
- Olhar nem tira pedaço.
- Parece preocupada atarefada apressada estamentada?
- E por dentro cada qual e tal com seus mistérios assim.
- Bonita praça, seu?
- Disputada por ximangos e maragatos, lenços vermelhos e lenços brancos, situacionistas e federalistas.
- Bonito dia e espaçoso no céu azul com aviões de carreira?
- No concerto das horas.
Depois de quatro horas mormacentas, o pai do Joel estava assim ainda na praça. Procurou um lugar para se recostar. Achou esse tal lugar ali. Se sentou. Um japu-do-bico-encarnado cantava ali bem perto e isso era decente honesto verdadeiro. Não só chincoãs-pequenos piavam por aí saltavam aqui e ali e de cá pra lá. Tuiparas-de-asa-dourada irisados conforme a luz dos raios do sol nas penas.
A maioria das praças são pequenas do tamanho de uma quadra, umas são redondas, outras são triangulares. Lugar com árvores e trilhos para caminhar à vontade. Lugar de praça é no Centro. A praça é um desafogo de árvores. Árvores privilegiadas.
Então, o camarada chega na praça e para e olha ao redor. Vê as ruas descendo e subindo pelos limites do espaço público. Entre essas ruas umas árvores altas: ali a praça. As árvores em indiana fila descem e sobem das ruas acabam acampando no largo.
O que tem de acontecer acontece, e só D quando onde com quem.
O pai do Joel estava tão distraído olhando o trânsito da rua ao lado Amaral Ferrador, que não viu uma sombra chegar perto e toldar seu espaço misturar os perfumes:
- E aí, compadre?!
O pai do Joel se virou rápido, meio no susto, olhou a chegante e não a reconheceu mesmo e total:
- Quem? Eu?
- Não me reconhece mais, compadre? A Jarana! Ja-ra-na, dos chimango!
- Nunca ouvi falar de nenhuma Jarana e nem de ximango nem de maragato, minha senhora ou senhorita.
Depois de 3h e 30min a mulher se ergueu se despediu com bom aperto de mão e abraço apertado e beijos um de cada lado e foi embora lá para os lados de lá escalando a rua São Sepé. Abriu inauguraram uma choperia do lado do cine Uari ali na esquina e nem faz duas semanas, bombava.
O pai do Joel ainda continuou ali, olhos abertos, nariz alto farejando... um gritedo de pegas em bando passando voando correria de raspão sobre as árvores rumo oeste. As plantas em geral falam durante o dia a noite e conforme o vento nas folhas.
Duas fêmeas encurtando caminho possivelmente, conversando sem parar, bolsas cada uma a sua pendurada no ombro, uma delas de cabelos negros, cabelos em ondas móveis, rosto exótico, olhos doces e densos, dentes com armação de borracha, seios copiosos e empolgados e empolgantes e pontiagudos, mãos de unhas verdes e de uma magreza como quê.
O pai do Joel ainda continuou ali por mais umas 2h e 44min. Sempre olhando e esperando e aguardando. Às vezes bufava de cansaço e tédio e vazio. Às vezes espirava limpando a comissura dos lábios com as costas da mão.
Dez horas da noite deixou a praça e não foi para o hotel. Nem foi logo.
No outro dia pela manhã, um dia prometendo a algazarra dos automóveis, o confuso e intermitente movimento de carros e pessoas pelas ruas e calçadas, etc. O mundo era assim mesmo. E levá-lo para onde ele for.
Daí, o que o pai do Joel fez. Foi até o banco e se sentou, sentou, se acomodou. Olhou todas as árvores grandes, guarirobas-do-campo, bracajanambis, carandás... Reparou no vento oeste. Reparou nas pessoas que passavam, passavam. Ficou tonto. Se ergueu e foi, foi, deu voltas pela praça, subiu e desceu, foi e voltou. Descobriu uma bica, bebeu, bebeu. Descobriu uma santa e olhou, olhou, a santa mesmo olhava e olhava o céu sem ver a terra. Vinha chegando um vendedor de mandolates. Comprou um. Conversou, conversou, conversaram.
Não sem demora, aí, o pai do Joel voltou a se sentar no banco, escolheu um ao seu gosto, ao seu alcance, num lugar de sombra e pouco vento, um lugar estratégico, se sentou, sentou. Olhou dois três bem-te-vizinhos-do-brejo catando no chão, e passavam voavam retornavam apressados e voltavam a ciscar sobressaltados. Uns índios coroado, umas cinco mulheres dois homens oito curumins, chegaram e ficaram ali reunidos, cestos de taquara para vender, olhando, falando pouco, uns sentados nos bancos, outros no barranco gramado, etc.
As moças de verde passaram desfilando sem ninguém ver. Só o pai do Joel as viu. Nem viu tudo. Elas passaram e foram embora e riam. Não riam para ninguém, não riam de ninguém, riam com as perguntas e respostas entre elas mesmas, riam de propósito. Mas eram bonitas e o pai do Joel viu tudo com seu olhar de carancho. Viu um bom pouco e tão bem que ficou refletindo, guardando, olhar filosofado.
Logo quem o pai do Joel foi foi, muito lento, e se sentou sentou debaixo de um pé de grápia; e pensativo, pensando. Uma sexta-feira de bandeira patriótica ruflando na fachada do colégio Barão de Santa Tecla e muros no hábito dos tijolos cobogós. A praça respirava por dentro e por fora a praça General Osório.
Chegou um vendedor de vassouras piaçavas e perguntou:
- Qual a causa?
- Procuro meu rebento. Não tenho noção nem ideia. Nem tenho.
- Mas vai que um dia... uma hora... e talvez.
- Sonhei com meu filho essa noite. Sonhei que nunca mais vou vê-lo. Isso seria possível, um pesadelo?
- Você acreditou?
- Eu acredito em notícia ruim.
- E naquilo que os outros desmentem, você distorce?
Depois apareceu do nada um mágico ilusionista vestido de palhaço, pintado, pernas de pau, fantasia vestida entre verdes e amarelos. E com um saco de tecido cheio de coisas jogadas ali sortidas para doar às crianças. O ator de rua chamou a atenção de todo mundo com sua altura sua cor seus gritos e presentes. Reuniu gente de todas as idades e começou a inventar mágicas complicadas. Tirou jabuticabas da cartola e ofereceu para experimentar, tirou pombas-rolas e as soltou livrou no ar, tirou garota bonita sorridente que o abraçou e chamou de “querido papai!”, tirou uma flauta de taquara soprou e espalhou bolhas de sabão de todos os tamanhos...
Duas radiantes orquídeas novas apareceram. Vinham vindo sabe D de onde. Apareceram e eram duas lindas e bonitas e amigáveis. Talvez de Cidelândia. Apareceram por sorte de quem as olhava para melhorar os olhos colírios. Quem sabe de Solonópole. O pai do Joel as olhava tirou recibo e não podia tirar os olhos e ser diferente.
Um tufo de erva-de-passarinho só envelhece quando envelhecer sua hospedeira a carobaguaçu uns oitenta anos com certeza. Uma abelha-mulata acontece durante o verão e desaparece no inverno. O gavião-carrapateiro envelhece aos cinco anos. O jaguané se aposenta com quinze para dezesseis.
Apareceram, vinham vindo, vinham, passando... (esperar um pouco, pausa, imagem frisada) e passaram seguiram embora. Duas bromélias sem espinhos; uma lilás com riscos risos de azul e amarelo, a outra azul com traços com risos lilases e vermelhos. E era todo um conjunto uma dupla e cada uma fazia sua parte no mundo. Uma orquídea falava e ria, a outra escutava e ria. Naquele instante. Porque a praça existe para isso mesmo, obrigado!
Carregou mais algumas horas ali na praça do herói General Osório e recuou o pai do Joel para o hotel Guanaré três estrelas e meia.
Sentado, sentado, bocejou com força, se esticou, e finalmente se decidiu a ir para o hotel.
Já um século ali no mesmo banco ou um banco próximo na pracinha acanhada, consultou as horas no relógio da Matriz, olhou em volta para mais uma olhada, as horas já passavam do normal para a boca da noite, e se decidiu afinal e rumou para o hotel para o hotel. Arrastando os pés e tranquilo e dando o dia por encerrado.
Não podia ser diferente. Quantos metros, trezentos metros quatrocentos até a portaria do hotel. Um carro parou no meio-fio desembarcando uma mulher dos seus quarenta e cinco.
O pai do Joel comprou um guarda-chuva dos grandes, vinte reais. A previsão era chuva chuva todo o dia seguinte amanhã e uns três ininterruptos interessantes dias. Quem não gosta de chuva? O pai do Joel rodou rodava o labirinto de trilhas da praça não parava para sentar esperava em pé consultava as horas. Compensado? Tava sentindo alguma coisa? Se acaso encontrasse alguém disposto a conversar:
- Vai chover ainda um bocado amanhã.
- Conforme.
- Ou talvez limpe de vereda.
- As valas.
Ela devia ter 20 mais 20 anos, pouco para mais ou mais para pouco menos, e tinha uns cabelos de cascata lisos como de cortina, cabelos quietos, bonitos, cabelos maravilhosos, muito limpos como papel novo em folha. Começou a chover tudo que podia. Porém ela estava de guarda-chuva dos grandes, um guarda-chuva que nunca se viu, todo de pano vermelho com cabo decorado de fitas uma de cada cor, umas cem ou cento e trinta fitas do Senhor do Bonfim. O vento batia de frente e ela se arcava para não ser pega pela chuva derrubada pelo vento. Parecia uma mulher rara determinada decidida a encontrar aberta a loja de cosméticos. E aí ela virou pela direita e saiu fora da praça, desceu uns metros pela rua 24 de Outubro, fechou o guarda-chuva e entrou no carro com alerta buzinando.
O vento viu as árvores grandes da praça. Viu folhas nas árvores. Viu folhas espalhadas pelo chão. Varreu as folhas para os ninhos dos canteiros cercados de gradezinhas de ferro pintadas de verde. Um piazote pedalava sua bicicleta de fim de semana.
As pitangueiras estavam ali perto, gostar ou não, eram belas árvores esguias, não era época de pitangas, folhas verdes e cheirosas, era gostar ou largar. As aparências nem enganavam viçosas nervosas verdejantes, ervas-de-parida, cipós-guiras, guaxixins...
E na prática a chuva molhava literalmente. E tocada a chicote de fogo e tremores retumbantes de trovão.
Desfile de cavalos mangas-largas paulistas. Os cavaleiros de pala e chapéu desabado. Crinas bem podadas orelhas altas cocôs esquecidos no paralelepípedo. Era engraçado porque andavam com caneleiras e a cola atada ao cantagalo. Eles obedeciam sérios fechados compenetrados adestrados garbosos. Gente expectativa chegava na sacada dos prédios gradil guarda-corpos. E os condutores cavaleiros cada tal e qual todos pareciam ter achado algo bom e ótimo de brincar e ensinar aos filhos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário