sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 3




            O escravo Gaudêncio, por volta dos seus dezessete anos, por alto do meio para o fim do século dezenove em as cercanias da famosa cidade nascente Santa Maria de Belém do Grão Pará. Subia o morrinho aclive talude a rampa de trilho estreito com um fardo de batatas-de-caboclo nas costas. Um dado verão que não chovia o suficiente o desejado nem chovia tempo morno arvoredo de folhas se derretendo rios quase secos gado desassossegado o dia todo um sol de rachar. Amanheceu puxando uma perna e tinha que descascar uma carroça de milho. E quando dava tempo.
            E o negro foi presenteado premiado com uma negrinha de uns 15 anos. Mocinha magra e arisca e esperta e nervosa e manhosa. Esta fora comprada no dia da semana anterior lá em Tanque Novo, BA. Fora um lance alto, do dono patrão seu Pitu Candango, uma aposta para melhorar o plantel o elenco o time o grupo. Aí, então, o senhor trouxe para esta fazenda do Juquiri. Uma peça de primeira.
            Gaudêncio recebeu a negrinha muito bem de presente e já estava na hora muito contente quase louco de contente. O nome dela era Tauari. Ficaram a noite toda sem conversar um olhando pra outra no escuro gatos escaldados tentando ser paciente uma jaguatirica indomável.
            Na primeira meia hora, Gaudêncio sentou num banquinho fora da palhoça na área e de costas para a porta. Ela lá dentro enfiada no canto quarto no escuro quieta sentada no chão de terra batida pávida abraçada aos joelhos. Os quero-queros do banhado assustados irrequietos temperamentais vigilantes com alguma coisa por aí.
            Na primeira hora ele estava lá sentado a vinte metros dela e fumando um palheiro muito pensativo. Ela ainda com os olhos vermelhos escondida somando tudo medo raiva desilusão resignação cansaço no ângulo escuro.
            No primeiro dia ele trouxe boa água e boa comida muito de tudo e à vontade e deixou na porta do quarto, bateu na porta avisou e saiu. Tratando com cuidado como se fosse um animal puro-sangue para doma e sela. Cevando a potranca com o que tinha de melhor e à mão. Sempre uma de olho no outro.
            O sol foi sumindo as nuvens aparecendo. As saracuraçus piando entre os sarandis. Se ouviu um grilo-cantor cantar trovar numa fresta escura. Mugidos de boi na mangueira, mugidos de vaca na estrebaria, balir de bodes no curral, ornejar de burros de carga no paiol, ruflar e chilrear de arapongas no pé de paina-do-arpoador. Latidos ganidos dos cães da fazenda aos quatro cinco e dos grandes.
            Outra noite ele dormiu na rede estendida na área. Tinha que esperar com paciência e já ia longe. Pela manhã o céu levemente azul e simples, o vento levemente nordeste ameno, o verde levemente campo e capão e mato e jacus-ciganos e socós-pintados e marrecas-carijós e uirapuru... O vento também sabia à flor de pequizeiro, cardos-ananás, aningas-da-água, canaranas, capotes...
            No segundo ou terceiro dia Gaudêncio abriu a porta do casebre para revê-la. E foi até o canto onde ela se recolhia sobre a tarimba. E para saudá-la: “A-hã!...” Ela fazia tentativa drible finta de correr e se tocar para a capoeira mais próxima, uma vez.
            Oito dias depois, uma chuva grossa e apressada, raios se ouvindo estilhaçando o mundo, trovões tremendo tudo, terremoto, ela apareceu na porta abraçada a si mesma olhos grandes negros bonitos como nunca se viu. Estava com frios com receios?
            A água caía em pé rolava corria, corria deitada toda vida, na perseguição aos rios caudalosos. Estes fugiam atônitos e afogados para as margens arranhando barrancos, arrastando outras árvores cansadas e mortas de atropelamento, inundando várzeas igarapés pântanos etc, invadindo terras indígenas estradas sinuosas ruas antigas praças. As lagoas arrebentando os lençóis freáticos.
            E Gaudêncio ficou contente e ficou sorrindo para ela e foi dormir perto com a Tauari. Ela tinha muito assustada e reticente e superstição. Ficaram ouvindo a chuva os clarões os trovões. Somente o branco dos olhos no escuro e um de cada lado do barraco cada qual no seu estrado.
            - Tô com frio - pediu ela, humilhadamente.
            As torrentes enormes de água da chuva despencavam das alturas desciam dos morros, inundando pátios lavrados plantações valas ipucas, arrastando folhas secas, modificando e isolando casas ou pequenas taperas abafando o verde da paisagem, tapuru, aperta-ruão, chope, tapiá...
            Aí o Gaudêncio foi buscá-la de junto da parede. Ela meio que não queria e cruzou os braços e travou os pés resistia e nem disse nada. Ele teve de arrastá-la no braço. Deitaram os dois. Ela mais encolhida. Ele segurando para nem escapar. A chuva entrava filtrava no casebre contando goteiras entre as palhas de sapê do telhado. Ela encolhida como bichinho sabendo o que ia acontecer e tinha que acontecer mais cedo ou mais tarde.
            Lá fora o vento e a chuva andavam juntos abraçados teor carregados e de acontecimentos imprevisíveis. A tempestade estranha e devastadora modificava algumas coisas e arrastava outras. O tempo colaborava para os novos nascimentos que os nativos autóctones costurarão em outras lendas páginas comissões abusões e mais outras palavras.
            Depois os dois medrosos dormiram agarrados sem se mexer, praticamente. Mas não dormiram e nem fizeram nada. Os olhos brancos de ambos os dois juntos no escuro. Até cansar e dormir dormir.
            - Vossa excelência!...
            - Ilustríssimo excelentíssimo senhor!...
            Dormiram no fim da madrugada e o arrebol. Ela tremia toda hora acordando. Ele tremia o maganão. Mas tremiam quase por motivos parecidos. Os cheiros se apegando e se acostumando, ressumbrar. O que ia dar dever de casa mesmo mais cedo ou mais tarde.
            3-azoar.
            Frases sentenças de Pedro:
            - Governava seus olhos e ouvidos bandeira agitada tatalando conforme um perfume recém-saído do banho na praça as árvores tremulando na pele.
            - Um domingo como outro qualquer de manhã e fumegante e sonorizado a paisagem por dentro o B no Holoceno Inicial.
            - Fintei ceca e meca antes de chegar deitar poita nesta cidade.
            - O preguiça-terrícula-gigante que acontece aí banzar matutar cismar olha a paisagem soberano 10min 15min uma azulona também passa e grita “vem aí o frevo-ventania!” e pode falar também respira fundo os 360º capítulo fato ocorrência pensa outra coisa e come capim-paraturá sendo que o sol o mesmo.
            - Eu queria sempre morar na geografia dos rios montanhas reserva dos carijó e episódios diferentes mistérios das ruas cidades praças novos lugares.
            3-azoinar.
            Com as palavras de Aline: aricapu, crase, pirupiru, sinérese, tapanhoacanga, jacumã, elisão, japuaçu, bisca, sinalefa.
            3-zoar.
            Rua Tiradentes com rua Coronel Machado Filho em Triunfo.
            O gliptodonte escuta e olhos semicerrados sopitado. Sem premonições. Anda anda pela rua Cônego Bernardo na Trindade e para e olha procura um lugar senta e descansa irresoluto. Do tamanho de um carro esporte estaciona na sombra da camboatã-de-folha-grande. Anota alguma coisa na memória ou deixa o cérebro em ponto morto. Procura pela lembrança um prédio uma casa uma área verde um vinhático-testa-de-boi. Já tinha passado nessa mesma rua quantas vezes. Outrora tinha uma casa pequena aqui não tem mais tem um prédio de oito andares com garagem subterrânea. E sacadas envidraçadas teladas. Havia um armazém não tem mais tem um supermercado com muitas ofertas de fim de ano e prêmio de carro novo. Outrora um terreno baldio com capim ervas arnicas-silvestres arbustos lava-pratos galinhas-chocas pássaros tico-ticos-do-mato graúnas pai-pedros e sapos-martelos... Que bom que ninguém o reconhece. Ele o gliptodonte, sujeito pré-histórico relacionado com os tatus e nativo das Américas, nem reconhece ninguém. Aliás, os paralelepípedos são os mesmos, as esquinas, a rótula, o nome das ruas, a travessa Senabó. Que mais? Tinha uma enorme e centenária sapupira bem ali do lado desta capela em honra a Santa Clara. O gliptodonte nem tem mais idade para muitas coisas. Seu estado de abandono, ou de conserva, exige cuidados redobrados. E lembra especialmente dela. Buzinas de carros desviam a atenção. É o nome e um tão somente que podia, pois bem! ainda estar por aí.
            Encontrei num sebo de Passo Fundo uma relíquia fora de linha, qual seja, “Três Garotos em Férias no Rio Tietê”, Francisco de Barros Jr. Como imaginar isso?! Casos raros ocaso acaso. Um tio dois irmãos e um primo compunham a expedição que descia pelo rio. Essa a história. De aventuras novidades curiosidades bichos batuíras-de-coleira-dupla jaguapitangas maús saás perdizes pescas e exploração. Então encontro esse livro uns trinta e tantos anos depois de tê-lo lido pela primeira vez. Eu sempre quis ser esse livro. Um raro exemplar perdido por aí. Pertencia a uma série de mais outros 3 sobre aventuras e rios. Chega a ser um acaso encontrar o exemplar. Olhei a capa e me lembrei direitinho da estampa e nos detalhes. A minha ideia de aventura pelo resto dos anos. Como rever e reler um passado livro da adolescência. Não lembrava de nada da história ou muito assim por cima a não ser do título da capa. A história está fora de moda politicamente incorreta pros dias de hoje agriófaga, mas era com a saudade que ainda tenho. O livro fora até recomendado tempos idos antepassados nas escolas do país.
            E mais. Coincidência que entrou também por dentro dos meus dias. O livro de Jô Soares conta a história passada no mês de maio, 1, 2, 3... justamente os dias e mês que eu lia, curtia, etc. Uma coincidência um acaso que é pura sorte. Uma fortuita coincidência. E sem planejamento, da minha parte. Ruas do Rio de Janeiro que já estive aí e passeando. Variáveis e probabilidades, etc. Seriam razões cósmicas em uma integração total? Presente!
            3-zumbir.
            As perguntas de Paulo:
            - Quer saber o que o mundo esconde e os seus segredos?
            - Quem leva o rio que tem este nome?
            - A nuvem tem a sua chuva predileta?
            - Já viu a praia de Itacimirim da ausência de D?
            3-zoada.
            A manhã deslumbrou o amanhecer naturalmente. Os pássaros exultavam. O maguari era uma ave que já cantava no banhado, palmípedes. A paisagem com panorama de montes morros de pedra e verdes de árvores, cumaruranas, itaúbas, copaíbas-curiaranas, aturiás... perdidas no pasto alto verde. As formigas-de-embaúba trabalhando bem desde cedo. O anajé guinchando desde as nuvens cúmulos nimbos aproveitando os ventos os repiquetes dos ventos.
            Os passarinhos discutiam o novo dia o sol quente a manhã superclara e antológica. E mistura de sabores e aromas. Geologias, rio Araçá, paranás-mirins, saicangas, chás-da-campanha, piuns, sucuriús, carapanãs, tapiretês, meruins... O canto de todas as cores e tamanhos e distâncias e alturas. O princípio e a tarde.
            O Gaudêncio, depois de viúvo, setenta e tantos anos, cabelos raros e brancos, cuidava da horta do pomar de sentar na espreguiçadeira na área comer jacuba beber suco de andiroba e pensar em praticamente nada. Olhar a nuvem passando.
            - Já vai chover lá pras bandas atrás dos cômoros de Iaçu, é.
            Uma noite, três e meio anos depois de enterrar, teve um sonho com a falecida e cinco dias após foi visitar Nossa Senhora da Conceição em Baependi. Lá se ajoelhou na frente da santa e rezou na igreja o que não entendia. Ficou ouvindo a beata Nhá Chica falar coisas de reza e prece e oração para salvar gente em perigo e bichos em extinção.
            Gaudêncio se animou com isso e aquilo. Ele podia ficar por aí se quisesse. E pertinaz, consciencioso, modesto.
            - Aqui estacionar dois ou três meses. Daqui partir dentro quem sabe entre cinco ou seis meses. Conforme a seca. Passar de factível para o factual.
            Naquela mesma noite, no meio do sono e do sonho, numa pensão da cidade de Lábrea, viu e ouviu seres entes sobrenaturais rezando por ele e caminhando ao seu lado. Sua finada esposa entre eles. Aconselharam discretamente entoando cantigas e rezas e gestos e romarias. Todos cheios de luz divina, vestidos de luz, corpos de luz, palavras feitas de luz, muita luz, muito ouro e luz azul. E lhe falaram e lhe entregaram poderes de luz e energia e carisma. Ensinaram a rezar e a salvar os doentes do corpo doentes do espírito doentes da alma. Palavras mágicas, palavras de luz, palavras de muita fé e poder. Palavras que todos procuram e querem ouvir.
            Bastou uma explicação tão somente. Voltou para casa e virou pajé ou pai de santo ou curandeiro ou feiticeiro ou xamã, quem sabe tudo ao mesmo tempo agora (vascolejar, vate, jongo, concitar, mandinga). Aproveitou uns conhecimentos de ervas do mato do campo, sete-casacas, iatás, cebolas-bravas-do-pará, tarumãs-mirins, chocalhos-de-cascavel, cunabins...
            Seu Gaudêncio ficou diferente de todos, teatral, paradoxal, sobrenatural, filosófico. O que é mesmo ponderável.
            - Para mais além daquelas dunas fica Itatim, é.
            E a especialidade era socorrer os doentes e os doentes terminais e os doentes desenganados pela medicina comum e urbana mais os bichos de estimação resgatados dos maus-tratos e do tráfego, todos os doentes precários.
            - A paisagem o panorama da cidade de Rafael Jambeiro com seus outeiros e combros de sempre, é.
            Sentava perto do paciente olhava o paciente e rezava mexendo os lábios murmurando baixinho falava gesticulava preces de olhos abertos para o paciente para o teto ou de olhos fechados voltados para o íntimo orava baixinho palavras certas e santas e puras. Rezava o tempo todo que era preciso para salvar o desenganado até o moribundo abrir os olhos.
            - Destaque formidáveis os fastígios da serra de Amambai, é.
            Então, o velho Gaudêncio mudou um pouco o seu jeito de olhar o mundo sentir o mundo olhar as pessoas os bichos as plantas as pedras do caminho. E esperava que o procurassem ali pachorrentamente repimpado sentado na varanda da capuaba. Quase sempre ia até o paciente terminal. Se o doente acreditava e tinha fé crença, logo logo era curado e a saúde voltava.
            E os milagres de Gaudêncio, enquanto isso. E as curas de Gaudêncio ficaram famosas na região de Mateiros e de todo o Jalapão, desde o rio Muricizal ao rio Jaboatão, da serra do Cipó à serra da Borborema, da Ponta do Munduba passando por Pelotas e Elísio Medrado até o município de Vigia, igarapé São Raimundo, a jusante a montante do rio Piabanha...
            Gaudêncio feiticeiro não descuidava do pomar da horta do herbário do arboreto. E escutava os passarinhos batendo na janela da manhã, japiim-xexéu, cigarrinha-de-peito-branco, japacamim, charão, chora-chuva-preto, gaturamo, tizio... A sombra boa do araratucupi. Um vento inesperado sacudia o mundo e abraçava. Um agito qualquer de vento nas folhas verdes indaiá-do-campo, cutitiribá, capeba, majuba, ambaitinga, tambu-verde, ingarana... o riacho cantando nas pedras, o tapicuru assobiando para conquistar a namorada, o sol do dia, o vento nascendo no rio Jordão, o mundo sempre em construção.
            - Alguns cumes vão desenhando assinalando a serpentina do rio Apa, é.
            Vieram buscar o milagreiro Gaudêncio no carro de praça. Com frequência. Cinco de maio às 5h e 55min do ano de 1555, partiram da ilha de Cotijuba para a localidade de Nova Iguaçu. Com expectativa. Não conhecia o bairro, costuraram ruas e trilhas, entraram numa rua ladeada de mututis-brancos. Com arte e tarubá. Entrou na casa toda expectativa e pegou na mão do adoentado largado na cama desenganado olhos fundos quase do outro lado quase do lado de lá quase mais pra lá.
            E assim destarte por diante.
            3-bezoar.
            Nesse momento a filha da Aline abriu a porta de vidro do hotel Ixu e pisou fora na calçada da rua Pinheiro Machado do bairro Tangará em Campina Grande, saiu para andar e conhecer, escolheu sair. Era tudo sol e mormaço.
            A filha da Aline fez a pergunta na sombra do toldo para a mulher do quiosque:
            - Será que chove?
            - Muitas nuvens e no céu nem sei. O que fazer? Deixar, aliás.
            - Por esses dias em diante, quer ver verá.
            - Nem desistem do sol as mudanças vicissitudes do sol por que escapara a hora a hora na penúltima era.
            Sem querer, a filha da Aline desabafou de dentro de si, com umas cócegas que afligiam e irritavam, uma das risadas que viraram já a dois passos uma grande gargalhada.
            Olhou o relógio, sete e doze, viu que o passaredo estava mais agitado, o tempo abafado, tudo prometia outro dia qualquer e pegou um ônibus qualquer. O primeiro que chegou na parada.
            Uma história de aventuras tinha que ter mato rio grande cascata do Gamelão e onças-pintadas prodigalidade generosidade dadivosidade.
            O dia nacional do pedreiro, e também o dia nacional do auxiliar de cozinha.
            Uma varanda com balaustrada de madeira e o sol de chofre de chapa de cheio.
            Contornou a quadra, desceu pela Protásio Alves, sestro trejeitos cacoete, árvores destemidas ao longo das calçadas, espinheiro-bravo taquarinhas araçá-cinzento aroeira-de-capoeira... monumento ao Expedicionário epigrama, e subiu a Rio Branco.
            Correu os olhos ao redor conferindo o ambiente do shopping Saquirabiape.
            Olhou as horas e pensou em comida. Foi o que fez. O dia lhe pareceu muito circunspecto. Não falou nada. Mania de caminhar pelas ruas e como conhecer Camapuã.
            Uma sacada de ferro retorcido com anúncio para cortes unissex.
            Entrou numa casa na subida da rua Presidente João Goulart. Andorinhas revoluteavam por tudo. Ficou sabendo ontem de uma rezadeira de extremo alcance e sucesso e sabedoria. Ela curava qualquer tipo de problema físico ou mental ou espiritual ou emocional ou nacional ou lombar ou alimentar.
            E as nuvens pelos ares pelos pássaros pelos aviões pelo gavião-carijó, auspícios.
            Uma senhora emproada a atendeu na porta e mandou entrar e esperar. Sentou num sofá tipo verde de frente para JC crucificado na parede tipo branca. A Dona Santa só podia atender depois das 4h e 40min. Aguardaria? Esperou. Cheiro de incenso e velas e fumo de corda, quase que só misturados ao mesmo tempo. Uma cobra amarela importada enrolada de fantasia num cabide em pé distantinho no canto da sala.
            A serpente ficou mostrando a língua. Era fantástica. Depois bonita amarela com desenhos que os índios cauaíbe gostam de imitar na pele. Seus olhos piscavam ou era imaginação? A língua sempre acesa. De repente começou a se arrastar. E era seda suave leve silenciosa longa longa coleante.
            De supetão caiu do galho e veio mais perto mas muito len-ta-mente. Parou, olhou para os lados coleou... é que vinha chegando. A língua tremia a poucos centímetros. Parecia não ser traiçoeira venenosa assassina... porém todo cuidado e o seguro morreu de velho. Tinha a cara de quem? Talvez de uma pajé de uma feiticeira. Muita curiosidade de ambas as partes.
            Despertou a filha da Aline com o chamado da mulher que a atendera na chegada. Esta falou que a orientadora Dona Santa já estava a postos para recebê-la. E lhe apontou uma porta aberta que dava para outra sala em penumbra e janelas tapadas pelas cortinas bordadas luz verde artificial, e olhe lá!
            Conheceu a Dona Santa mais tranquila que a recepcionista. Foi convidada a sentar numa cadeira de frente face a face. Entre as duas uma mesinha com toalha tipo branca e um terço enorme de contas tipo brancas estendido com o crucifixo voltado para a pastora.
            Dona Santa foi falando coisas que adivinhava, sempre acariciando o terço de grossas contas. Foi falando conselhos num tom muito suave e baixo murmurante. Às vezes projetava o corpo outras não projetava o corpo. Parecia sonolenta cambaleante amortecida e recendia a perfume muito perfume essência de uma erva cauaçu.
            A santa fez e apontou o terço três vezes para a filha da Aline beijar, demoradamente. E também a mão que lhe foi estendida que foi oferecida para beijar, sutilmente. A paciente pagou o que fora estipulado e saiu deixou partiu. O incenso os fumos o perfume o ambiente tudo acompanhou com ela e durou um bocado.
            As andorinhas faziam um verão muito revoltado pelo céu ali por perto, pousando e decolando pelos telhados abas e fios de luz. Certo paricá-de-esponja casa de uma família de pequenos primatas já urbanizados íncolas e serelepes, os cuxiús-comuns, etc.
            Uma pessoa homem de branco e preto passou pela filha da Aline e a olhou e a cumprimentou. Esta nem o reconheceu. Depois ela desceu a rua Duque Estrada. Parou na frente de uma casa para olhar um jardinzinho maneiro. A casa tipo verde na porta e janelas tipo marrons o cão de guarda tipo fila brasileiro.
            Sentou no banco de madeira da praça XV de Novembro. Olhou em torno, olhou o trânsito, olhou a sorveteria bem em frente. Era espetáculo! Uma mulher e três filhotes mais dois cachorrinhos pela guia. Pronto, estavam felizes por onde fossem.
            Passou pelo hotel onde se hospedava e lhe deu vontade de morar ali por uns meses, a cidade as ruas a padaria sempre à mão. E tinha garapa na esquina da Bahia com Afonso Pena. E ônibus de excursão todo dia para Figueirão e Paraíso das Águas.
            Caminhou mais olhando a calçada as vitrines as pessoas e seus cachorros. Parecia o mundo que conhecia. Um carro de polícia andava de vagar no rumo das ruas dos bancos das joalherias das lojas.
            Um gato se adiantou, cruzou frente uma escada, nem olhou. Fugiu de um cão que guardava uma casa e foi correndo calçada acima. Lá para cima sentou diante de um restaurante olhando em volta e miou aborrecido ou esperançoso ou sonhador e aguardando convite.
            Sacada com floreiras exibindo flores anônimas, madressilvas-verdadeiras, alecrins-bravos, candeias, jomirins, hubérias... e os difíceis e isolados juncos-de-cobra.
            Galgou os três andares do prédio Gueguê. Quase na hora da consulta. A secretária cumprimentou com olhar tipo azul por trás dos claros óculos de grau. Na mesinha de centro revistas passadas com reportagens de turismo esotérico ou pitoresco praieiro agreste Glória do Goitá e Passira e Feira Nova... Parou para ler... que no meio de uma pedra com desenhos de Sete Cidades foi chamada.
            A rua Darcy Ribeiro e descendo... De vez em quando olhava para cima ver as janelas dos prédios e das casas e dos apês. Dentro de um lote cercado por grades um jardim de canteiros bem cuidado e um fila brasileiro manchado de cores tipo orelhudo dormitando linguarudo aborrecendo. Flores tipo vermelhas tipo azuis tipo brancas numa planta só que parecia petúnia. Queria acariciar o fila.
            Diminuiu o passo, esfregou as mãos, casal de urubus na copa da igreja Matriz, avenida Maxacali povoada de tangaracás-açus, um carro buzinou e nem reconheceu os ocupantes as ocupantes.
            Varanda para o sul com xaxins samambaias possivelmente orquídeas e bromélias, begônias-sempre-floridas, biru-manso...
            Dois degraus e entrou no bar do Tinga. Um refri gelado de dar as dores em as bochechas. Sentou na frente da janela envidraçada para olhar a rua 25 de Março às 17h e 17min. Fazia um tempo.
            A proximidade das árvores e morros florestados criava diferença e bem à cidade.
            Entrou cabedal na igreja àquela hora aberta e deserta. Andou pela nave procurando um santo da sua devoção. Talvez o santo não era cultivado ali, nem tinha certeza. A pouca luz vinha de ser filtrada pelos vitrais de cores e santos e santas e anjos e estações da via crúcis.
            Subiu na timbaúva correndo ligeirinha. Se escondeu entre galhos e folhas para sempre. Alguém a viu? A timbaúva lhe pertencia. E juntou alma dela com a da planta vegetal folhas flores frutas ramas. O mais sério e importante que ninguém sabia que ela estava ali trepada como uma uaiapuçá.
            A filha da Aline olhou o celular e logo esqueceu a hora. Uma janela por aí despejava música da mpbu.
            A criança com a bicicleta, mulher comendo pastel de carne e resmungando, hm!... um táxi estacionado no ponto da praça Coronel Sylvio Luiz, o vento atiçando os cabelos da pindaíba-preta. Era tudo doce. Era tudo palavra principal.
            Ela sabia, sempre soube, que seria assim. Olhe o dia todo!
            Descendo ou caindo do céu vinha a sombra, na linha do horizonte uma nuvem carregada, nos ares um objeto espacial óvni soltando faíscas e fumaça e fazendo estardalhaço com turistas rindo tirando fotos gritando pedindo risos pedindo carnaval.
            A criação dos rios a invenção das pontes porque elas foram inventadas.
            Da linha traçada do horizonte, entre montanhas enormes e bicudas, vinha chegando um helicóptero com mil e oitocentas pás hélices aspas carregadas de nuvens de chuva de raios de trovões de ventos etc. O céu não parava de urrar fazendo tremer o céu e o chão como numa cavalaria numa boiada. Corriam homens mulheres crianças bichos aves gado maitacas-verdes... assustados da bomba-d’água da chuva iminente próxima recém quase rasteira.
            Tudo respirava susto, uma trepidação no ar cada vez mais forte. Estava acontecendo, mais nada.
            A escuridão se alastrando como um eclipse feroz. Surgiu com a nave espacial e em ondas extravagantes e brabas e enormes e tipo fuliginosas, pois bem, após muitos anos e épocas de expectativas.
            Na fronteira desequilibrada entre o bom e o quase perfeito, com desassossego.
            Era fim de tarde e hora do tempo fechar. Tinha de ser e todo dia no verão na tarde chove, as monções.
            Nem havia por que fugir. Era a mesma hora. Mais uma vez.
            Eram ali 18 horas, mas parecia mais. E todo dia o mesmo procedimento: chuva no entardecer. O tempo nem consultava alguém.
            Alegria da chuva, já sabia, ia até o rio os rios e olhar as águas, até ela mesma filha da Aline se pensou já se resolver em água corrente até o rio. Então, que chova! Mas uma pele escorregadia de peixe ou batráquio juiponga mergulhadora. Passar o dia na chuva caminhar na chuva correr na chuva e se molhar como um pinto molhada. E chuva e sol casamento da viúva.
            E filha da Aline julgou o sol a chuva o rio as estrelas a cidade e passou daí em diante a julgar tudo. Como se pesquisa a etnografia do povo.
            Um sapo-rei sozinho na pedra do charco cantava para chamar chuva. Todos tinham preocupação e escutavam e corriam apressados a recolher a roupa do varal, bater as portas e as janelas. Outros com filhotes tiravam os mesmos dos pastos e das beiras de rios e os mandavam entrar. Corriam saracuras-do-brejo para os lugares protegidos. As árvores altas se sacudiam de norte a sul, e as arvorezinhas no escuro se arrepiavam nuazinhas. Bandos empoleirados de macacos-de-cheiro macacos-pregos bugios... começavam a rezar e nem paravam mais.
            As palmeiras jacitarapuís, como pilares agarrados com o céu, espanavam as nuvens de chumbo baixas tipo azuis grandes pesadas. Tudo que havia corria risco do alagamento definitivo infinito universal.
            Logo um escuro tipo carvão cresceu, uma parede de pedras avançou, o céu apertando a terra, um soar diferente, um ressoar, e que forças!, um troar, vento desbaratando palmeiras, mais um tremor do chão, rugido de D, um escuro mais e mais compacto, cheiro de poeira, estremecer de planeta, pássaros se escondiam em troncos de árvores, plantas se abraçando novamente e estava feito a armadilha para detonar a tempestade que vinha do nordeste e junto no disco voador.
            Quase duzentos fenômenos. Paradoxo. Tudo rápido. E fazia parte. Quando uma fagulha fez explodir a casa de pólvora no céu baixo, e lâminas brilhantes de todas as cores e tipos abriram chamas de fogo sob a couraça de nuvens de tipo chumbo. Trovões sacudiram furiosos de todos os lados.
            Zunindo o helicóptero contornou na curva carregado de toros enormes de árvores nobres em extinção. Começaram os primeiros pingos grossos, chuva de repente, chova sempre, chova! chove chuva! chuva grande num total de três dias e noites sem parar.
            O caruana, ente indígena do bem bom, que habita o fundo do rio e que livra as pessoas das consequências, aliás e etc.


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