O escravo Gaudêncio, por volta dos
seus dezessete anos, por alto do meio para o fim do século dezenove em as
cercanias da famosa cidade nascente Santa Maria de Belém do Grão Pará. Subia o
morrinho aclive talude a rampa de trilho estreito com um fardo de batatas-de-caboclo
nas costas. Um dado verão que não chovia o suficiente o desejado nem chovia
tempo morno arvoredo de folhas se derretendo rios quase secos gado desassossegado
o dia todo um sol de rachar. Amanheceu puxando uma perna e tinha que descascar
uma carroça de milho. E quando dava tempo.
E o negro foi presenteado premiado com
uma negrinha de uns 15 anos. Mocinha magra e arisca e esperta e nervosa e manhosa.
Esta fora comprada no dia da semana anterior lá em Tanque Novo, BA. Fora um
lance alto, do dono patrão seu Pitu Candango, uma aposta para melhorar o
plantel o elenco o time o grupo. Aí, então, o senhor trouxe para esta fazenda
do Juquiri. Uma peça de primeira.
Gaudêncio recebeu a negrinha muito
bem de presente e já estava na hora muito contente quase louco de contente. O
nome dela era Tauari. Ficaram a noite toda sem conversar um olhando pra outra
no escuro gatos escaldados tentando ser paciente uma jaguatirica indomável.
Na primeira meia hora, Gaudêncio
sentou num banquinho fora da palhoça na área e de costas para a porta. Ela lá
dentro enfiada no canto quarto no escuro quieta sentada no chão de terra batida
pávida abraçada aos joelhos. Os quero-queros do banhado assustados irrequietos
temperamentais vigilantes com alguma coisa por aí.
Na primeira hora ele estava lá
sentado a vinte metros dela e fumando um palheiro muito pensativo. Ela ainda
com os olhos vermelhos escondida somando tudo medo raiva desilusão resignação cansaço
no ângulo escuro.
No primeiro dia ele trouxe boa água
e boa comida muito de tudo e à vontade e deixou na porta do quarto, bateu na
porta avisou e saiu. Tratando com cuidado como se fosse um animal puro-sangue
para doma e sela. Cevando a potranca com o que tinha de melhor e à mão. Sempre
uma de olho no outro.
O sol foi sumindo as nuvens aparecendo.
As saracuraçus piando entre os sarandis. Se ouviu um grilo-cantor cantar trovar
numa fresta escura. Mugidos de boi na mangueira, mugidos de vaca na estrebaria,
balir de bodes no curral, ornejar de burros de carga no paiol, ruflar e
chilrear de arapongas no pé de paina-do-arpoador. Latidos ganidos dos cães da
fazenda aos quatro cinco e dos grandes.
Outra noite ele dormiu na rede
estendida na área. Tinha que esperar com paciência e já ia longe. Pela manhã o
céu levemente azul e simples, o vento levemente nordeste ameno, o verde
levemente campo e capão e mato e jacus-ciganos e socós-pintados e marrecas-carijós
e uirapuru... O vento também sabia à flor de pequizeiro, cardos-ananás,
aningas-da-água, canaranas, capotes...
No segundo ou terceiro dia Gaudêncio
abriu a porta do casebre para revê-la. E foi até o canto onde ela se recolhia
sobre a tarimba. E para saudá-la: “A-hã!...” Ela fazia tentativa drible finta
de correr e se tocar para a capoeira mais próxima, uma vez.
Oito dias depois, uma chuva grossa e
apressada, raios se ouvindo estilhaçando o mundo, trovões tremendo tudo,
terremoto, ela apareceu na porta abraçada a si mesma olhos grandes negros
bonitos como nunca se viu. Estava com frios com receios?
A água caía em pé rolava corria, corria deitada toda vida, na
perseguição aos rios caudalosos. Estes fugiam atônitos e afogados para as
margens arranhando barrancos, arrastando outras árvores cansadas e mortas de
atropelamento, inundando várzeas igarapés pântanos etc, invadindo terras
indígenas estradas sinuosas ruas antigas praças. As lagoas arrebentando os
lençóis freáticos.
E
Gaudêncio ficou contente e ficou sorrindo para ela e foi dormir perto com a
Tauari. Ela tinha muito assustada e reticente e superstição. Ficaram ouvindo a
chuva os clarões os trovões. Somente o branco dos olhos no escuro e um de cada
lado do barraco cada qual no seu estrado.
- Tô com frio - pediu ela, humilhadamente.
As
torrentes enormes de água da chuva despencavam das alturas desciam dos morros,
inundando pátios lavrados plantações valas ipucas, arrastando folhas secas, modificando
e isolando casas ou pequenas taperas abafando o verde da paisagem, tapuru,
aperta-ruão, chope, tapiá...
Aí o Gaudêncio foi buscá-la de junto
da parede. Ela meio que não queria e cruzou os braços e travou os pés resistia e
nem disse nada. Ele teve de arrastá-la no braço. Deitaram os dois. Ela mais
encolhida. Ele segurando para nem escapar. A chuva entrava filtrava no casebre contando
goteiras entre as palhas de sapê do telhado. Ela encolhida como bichinho
sabendo o que ia acontecer e tinha que acontecer mais cedo ou mais tarde.
Lá fora o vento e a chuva andavam juntos abraçados teor carregados
e de acontecimentos imprevisíveis. A tempestade estranha e devastadora modificava
algumas coisas e arrastava outras. O tempo colaborava para os novos nascimentos
que os nativos autóctones costurarão em outras lendas páginas comissões abusões
e mais outras palavras.
Depois os dois medrosos dormiram
agarrados sem se mexer, praticamente. Mas não dormiram e nem fizeram nada. Os
olhos brancos de ambos os dois juntos no escuro. Até cansar e dormir dormir.
- Vossa excelência!...
- Ilustríssimo excelentíssimo
senhor!...
Dormiram no fim da madrugada e o
arrebol. Ela tremia toda hora acordando. Ele tremia o maganão. Mas tremiam
quase por motivos parecidos. Os cheiros se apegando e se acostumando, ressumbrar.
O que ia dar dever de casa mesmo mais cedo ou mais tarde.
3-azoar.
Frases sentenças de Pedro:
- Governava seus olhos e ouvidos
bandeira agitada tatalando conforme um perfume recém-saído do banho na praça as
árvores tremulando na pele.
- Um domingo como outro qualquer de
manhã e fumegante e sonorizado a paisagem por dentro o B no Holoceno Inicial.
- Fintei ceca e meca antes de chegar
deitar poita nesta cidade.
- O preguiça-terrícula-gigante que
acontece aí banzar matutar cismar olha a paisagem soberano 10min 15min uma
azulona também passa e grita “vem aí o frevo-ventania!” e pode falar também
respira fundo os 360º capítulo fato ocorrência pensa outra coisa e come
capim-paraturá sendo que o sol o mesmo.
- Eu queria sempre morar na
geografia dos rios montanhas reserva dos carijó e episódios diferentes
mistérios das ruas cidades praças novos lugares.
3-azoinar.
Com as palavras de Aline: aricapu, crase,
pirupiru, sinérese, tapanhoacanga, jacumã, elisão, japuaçu, bisca, sinalefa.
3-zoar.
Rua Tiradentes com rua Coronel
Machado Filho em Triunfo.
O gliptodonte escuta e olhos
semicerrados sopitado. Sem premonições. Anda anda pela rua Cônego Bernardo na
Trindade e para e olha procura um lugar senta e descansa irresoluto. Do tamanho
de um carro esporte estaciona na sombra da camboatã-de-folha-grande. Anota
alguma coisa na memória ou deixa o cérebro em ponto morto. Procura pela
lembrança um prédio uma casa uma área verde um vinhático-testa-de-boi. Já tinha
passado nessa mesma rua quantas vezes. Outrora tinha uma casa pequena aqui não
tem mais tem um prédio de oito andares com garagem subterrânea. E sacadas
envidraçadas teladas. Havia um armazém não tem mais tem um supermercado com
muitas ofertas de fim de ano e prêmio de carro novo. Outrora um terreno baldio
com capim ervas arnicas-silvestres arbustos lava-pratos galinhas-chocas pássaros
tico-ticos-do-mato graúnas pai-pedros e sapos-martelos... Que bom que ninguém o
reconhece. Ele o gliptodonte, sujeito pré-histórico relacionado com os tatus e
nativo das Américas, nem reconhece ninguém. Aliás, os paralelepípedos são os
mesmos, as esquinas, a rótula, o nome das ruas, a travessa Senabó. Que mais?
Tinha uma enorme e centenária sapupira bem ali do lado desta capela em honra a
Santa Clara. O gliptodonte nem tem mais idade para muitas coisas. Seu estado de
abandono, ou de conserva, exige cuidados redobrados. E lembra especialmente
dela. Buzinas de carros desviam a atenção. É o nome e um tão somente que podia,
pois bem! ainda estar por aí.
Encontrei num sebo de Passo Fundo
uma relíquia fora de linha, qual seja, “Três Garotos em Férias no Rio Tietê”,
Francisco de Barros Jr. Como imaginar isso?! Casos raros ocaso acaso. Um tio
dois irmãos e um primo compunham a expedição que descia pelo rio. Essa a
história. De aventuras novidades curiosidades bichos batuíras-de-coleira-dupla
jaguapitangas maús saás perdizes pescas e exploração. Então encontro esse livro
uns trinta e tantos anos depois de tê-lo lido pela primeira vez. Eu sempre quis
ser esse livro. Um raro exemplar perdido por aí. Pertencia a uma série de mais
outros 3 sobre aventuras e rios. Chega a ser um acaso encontrar o exemplar.
Olhei a capa e me lembrei direitinho da estampa e nos detalhes. A minha ideia
de aventura pelo resto dos anos. Como rever e reler um passado livro da
adolescência. Não lembrava de nada da história ou muito assim por cima a não
ser do título da capa. A história está fora de moda politicamente incorreta
pros dias de hoje agriófaga, mas era com a saudade que ainda tenho. O livro
fora até recomendado tempos idos antepassados nas escolas do país.
E mais. Coincidência que entrou
também por dentro dos meus dias. O livro de Jô Soares conta a história passada
no mês de maio, 1, 2, 3... justamente os dias e mês que eu lia, curtia, etc.
Uma coincidência um acaso que é pura sorte. Uma fortuita coincidência. E sem
planejamento, da minha parte. Ruas do Rio de Janeiro que já estive aí e
passeando. Variáveis e probabilidades, etc. Seriam razões cósmicas em uma
integração total? Presente!
3-zumbir.
As perguntas de Paulo:
- Quer saber o que o mundo esconde e
os seus segredos?
- Quem leva o rio que tem este nome?
- A nuvem tem a sua chuva predileta?
- Já viu a praia de Itacimirim da
ausência de D?
3-zoada.
A manhã deslumbrou o amanhecer
naturalmente. Os pássaros exultavam. O maguari era uma ave que já cantava no
banhado, palmípedes. A paisagem com panorama de montes morros de pedra e verdes
de árvores, cumaruranas, itaúbas, copaíbas-curiaranas, aturiás... perdidas no
pasto alto verde. As formigas-de-embaúba trabalhando bem desde cedo. O anajé
guinchando desde as nuvens cúmulos nimbos aproveitando os ventos os repiquetes
dos ventos.
Os passarinhos discutiam o novo dia
o sol quente a manhã superclara e antológica. E mistura de sabores e aromas.
Geologias, rio Araçá, paranás-mirins, saicangas, chás-da-campanha, piuns,
sucuriús, carapanãs, tapiretês, meruins... O canto de todas as cores e tamanhos
e distâncias e alturas. O princípio e a tarde.
O Gaudêncio, depois de viúvo,
setenta e tantos anos, cabelos raros e brancos, cuidava da horta do pomar de
sentar na espreguiçadeira na área comer jacuba beber suco de andiroba e pensar
em praticamente nada. Olhar a nuvem passando.
- Já vai chover lá pras bandas atrás
dos cômoros de Iaçu, é.
Uma noite, três e meio anos depois
de enterrar, teve um sonho com a falecida e cinco dias após foi visitar Nossa
Senhora da Conceição em Baependi. Lá se ajoelhou na frente da santa e rezou na
igreja o que não entendia. Ficou ouvindo a beata Nhá Chica falar coisas de reza
e prece e oração para salvar gente em perigo e bichos em extinção.
Gaudêncio se animou com isso e
aquilo. Ele podia ficar por aí se quisesse. E pertinaz, consciencioso, modesto.
- Aqui estacionar dois ou três
meses. Daqui partir dentro quem sabe entre cinco ou seis meses. Conforme a
seca. Passar de factível para o factual.
Naquela mesma noite, no meio do sono
e do sonho, numa pensão da cidade de Lábrea, viu e ouviu seres entes
sobrenaturais rezando por ele e caminhando ao seu lado. Sua finada esposa entre
eles. Aconselharam discretamente entoando cantigas e rezas e gestos e romarias.
Todos cheios de luz divina, vestidos de luz, corpos de luz, palavras feitas de
luz, muita luz, muito ouro e luz azul. E lhe falaram e lhe entregaram poderes
de luz e energia e carisma. Ensinaram a rezar e a salvar os doentes do corpo
doentes do espírito doentes da alma. Palavras mágicas, palavras de luz,
palavras de muita fé e poder. Palavras que todos procuram e querem ouvir.
Bastou uma explicação tão somente.
Voltou para casa e virou pajé ou pai de santo ou curandeiro ou feiticeiro ou
xamã, quem sabe tudo ao mesmo tempo agora (vascolejar, vate, jongo, concitar,
mandinga). Aproveitou uns conhecimentos de ervas do mato do campo,
sete-casacas, iatás, cebolas-bravas-do-pará, tarumãs-mirins,
chocalhos-de-cascavel, cunabins...
Seu Gaudêncio ficou diferente de
todos, teatral, paradoxal, sobrenatural, filosófico. O que é mesmo ponderável.
- Para mais além daquelas dunas fica
Itatim, é.
E a especialidade era socorrer os
doentes e os doentes terminais e os doentes desenganados pela medicina comum e
urbana mais os bichos de estimação resgatados dos maus-tratos e do tráfego,
todos os doentes precários.
- A paisagem o panorama da cidade de
Rafael Jambeiro com seus outeiros e combros de sempre, é.
Sentava perto do paciente olhava o
paciente e rezava mexendo os lábios murmurando baixinho falava gesticulava preces
de olhos abertos para o paciente para o teto ou de olhos fechados voltados para
o íntimo orava baixinho palavras certas e santas e puras. Rezava o tempo todo que
era preciso para salvar o desenganado até o moribundo abrir os olhos.
- Destaque formidáveis os fastígios
da serra de Amambai, é.
Então, o velho Gaudêncio mudou um
pouco o seu jeito de olhar o mundo sentir o mundo olhar as pessoas os bichos as
plantas as pedras do caminho. E esperava que o procurassem ali pachorrentamente
repimpado sentado na varanda da capuaba. Quase sempre ia até o paciente
terminal. Se o doente acreditava e tinha fé crença, logo logo era curado e a
saúde voltava.
E os milagres de Gaudêncio, enquanto
isso. E as curas de Gaudêncio ficaram famosas na região de Mateiros e de todo o
Jalapão, desde o rio Muricizal ao rio Jaboatão, da serra do Cipó à serra da
Borborema, da Ponta do Munduba passando por Pelotas e Elísio Medrado até o
município de Vigia, igarapé São Raimundo, a jusante a montante do rio
Piabanha...
Gaudêncio feiticeiro não descuidava
do pomar da horta do herbário do arboreto. E escutava os passarinhos batendo na
janela da manhã, japiim-xexéu, cigarrinha-de-peito-branco, japacamim, charão,
chora-chuva-preto, gaturamo, tizio... A sombra boa do araratucupi. Um vento
inesperado sacudia o mundo e abraçava. Um agito qualquer de vento nas folhas
verdes indaiá-do-campo, cutitiribá, capeba, majuba, ambaitinga, tambu-verde, ingarana...
o riacho cantando nas pedras, o tapicuru assobiando para conquistar a namorada,
o sol do dia, o vento nascendo no rio Jordão, o mundo sempre em construção.
- Alguns cumes vão desenhando
assinalando a serpentina do rio Apa, é.
Vieram buscar o milagreiro Gaudêncio
no carro de praça. Com frequência. Cinco de maio às 5h e 55min do ano de 1555,
partiram da ilha de Cotijuba para a localidade de Nova Iguaçu. Com expectativa.
Não conhecia o bairro, costuraram ruas e trilhas, entraram numa rua ladeada de
mututis-brancos. Com arte e tarubá. Entrou na casa toda expectativa e pegou na
mão do adoentado largado na cama desenganado olhos fundos quase do outro lado
quase do lado de lá quase mais pra lá.
E assim destarte por diante.
3-bezoar.
Nesse momento a filha da Aline abriu a porta de vidro do hotel Ixu e
pisou fora na calçada da rua Pinheiro Machado do bairro Tangará em Campina
Grande, saiu para andar e conhecer, escolheu sair. Era tudo sol e mormaço.
A
filha da Aline fez a pergunta na sombra do toldo para a mulher do quiosque:
-
Será que chove?
-
Muitas nuvens e no céu nem sei. O que fazer? Deixar, aliás.
-
Por esses dias em diante, quer ver verá.
-
Nem desistem do sol as mudanças vicissitudes do sol por que escapara a hora a
hora na penúltima era.
Sem
querer, a filha da Aline desabafou de dentro de si, com umas cócegas que
afligiam e irritavam, uma das risadas que viraram já a dois passos uma grande
gargalhada.
Olhou
o relógio, sete e doze, viu que o passaredo estava mais agitado, o tempo
abafado, tudo prometia outro dia qualquer e pegou um ônibus qualquer. O
primeiro que chegou na parada.
Uma
história de aventuras tinha que ter mato rio grande cascata do Gamelão e
onças-pintadas prodigalidade generosidade dadivosidade.
O
dia nacional do pedreiro, e também o dia nacional do auxiliar de cozinha.
Uma
varanda com balaustrada de madeira e o sol de chofre de chapa de cheio.
Contornou
a quadra, desceu pela Protásio Alves, sestro trejeitos cacoete, árvores
destemidas ao longo das calçadas, espinheiro-bravo taquarinhas araçá-cinzento
aroeira-de-capoeira... monumento ao Expedicionário epigrama, e subiu a Rio
Branco.
Correu
os olhos ao redor conferindo o ambiente do shopping Saquirabiape.
Olhou
as horas e pensou em comida. Foi o que fez. O dia lhe pareceu muito
circunspecto. Não falou nada. Mania de caminhar pelas ruas e como conhecer
Camapuã.
Uma
sacada de ferro retorcido com anúncio para cortes unissex.
Entrou
numa casa na subida da rua Presidente João Goulart. Andorinhas revoluteavam por
tudo. Ficou sabendo ontem de uma rezadeira de extremo alcance e sucesso e
sabedoria. Ela curava qualquer tipo de problema físico ou mental ou espiritual
ou emocional ou nacional ou lombar ou alimentar.
E
as nuvens pelos ares pelos pássaros pelos aviões pelo gavião-carijó, auspícios.
Uma
senhora emproada a atendeu na porta e mandou entrar e esperar. Sentou num sofá
tipo verde de frente para JC crucificado na parede tipo branca. A Dona Santa só
podia atender depois das 4h e 40min. Aguardaria? Esperou. Cheiro de incenso e
velas e fumo de corda, quase que só misturados ao mesmo tempo. Uma cobra
amarela importada enrolada de fantasia num cabide em pé distantinho no canto da
sala.
A
serpente ficou mostrando a língua. Era fantástica. Depois bonita amarela com
desenhos que os índios cauaíbe gostam de imitar na pele. Seus olhos piscavam ou
era imaginação? A língua sempre acesa. De repente começou a se arrastar. E era
seda suave leve silenciosa longa longa coleante.
De
supetão caiu do galho e veio mais perto mas muito len-ta-mente. Parou, olhou
para os lados coleou... é que vinha chegando. A língua tremia a poucos
centímetros. Parecia não ser traiçoeira venenosa assassina... porém todo
cuidado e o seguro morreu de velho. Tinha a cara de quem? Talvez de uma pajé de
uma feiticeira. Muita curiosidade de ambas as partes.
Despertou
a filha da Aline com o chamado da mulher que a atendera na chegada. Esta falou
que a orientadora Dona Santa já estava a postos para recebê-la. E lhe apontou
uma porta aberta que dava para outra sala em penumbra e janelas tapadas pelas
cortinas bordadas luz verde artificial, e olhe lá!
Conheceu
a Dona Santa mais tranquila que a recepcionista. Foi convidada a sentar numa
cadeira de frente face a face. Entre as duas uma mesinha com toalha tipo branca
e um terço enorme de contas tipo brancas estendido com o crucifixo voltado para
a pastora.
Dona
Santa foi falando coisas que adivinhava, sempre acariciando o terço de grossas
contas. Foi falando conselhos num tom muito suave e baixo murmurante. Às vezes projetava
o corpo outras não projetava o corpo. Parecia sonolenta cambaleante amortecida
e recendia a perfume muito perfume essência de uma erva cauaçu.
A
santa fez e apontou o terço três vezes para a filha da Aline beijar,
demoradamente. E também a mão que lhe foi estendida que foi oferecida para
beijar, sutilmente. A paciente pagou o que fora estipulado e saiu deixou partiu.
O incenso os fumos o perfume o ambiente tudo acompanhou com ela e durou um
bocado.
As
andorinhas faziam um verão muito revoltado pelo céu ali por perto, pousando e
decolando pelos telhados abas e fios de luz. Certo paricá-de-esponja casa de
uma família de pequenos primatas já urbanizados íncolas e serelepes, os
cuxiús-comuns, etc.
Uma
pessoa homem de branco e preto passou pela filha da Aline e a olhou e a
cumprimentou. Esta nem o reconheceu. Depois ela desceu a rua Duque Estrada. Parou
na frente de uma casa para olhar um jardinzinho maneiro. A casa tipo verde na
porta e janelas tipo marrons o cão de guarda tipo fila brasileiro.
Sentou
no banco de madeira da praça XV de Novembro. Olhou em torno, olhou o trânsito,
olhou a sorveteria bem em frente. Era espetáculo! Uma mulher e três filhotes
mais dois cachorrinhos pela guia. Pronto, estavam felizes por onde fossem.
Passou
pelo hotel onde se hospedava e lhe deu vontade de morar ali por uns meses, a
cidade as ruas a padaria sempre à mão. E tinha garapa na esquina da Bahia com
Afonso Pena. E ônibus de excursão todo dia para Figueirão e Paraíso das Águas.
Caminhou
mais olhando a calçada as vitrines as pessoas e seus cachorros. Parecia o mundo
que conhecia. Um carro de polícia andava de vagar no rumo das ruas dos bancos
das joalherias das lojas.
Um
gato se adiantou, cruzou frente uma escada, nem olhou. Fugiu de um cão que
guardava uma casa e foi correndo calçada acima. Lá para cima sentou diante de
um restaurante olhando em volta e miou aborrecido ou esperançoso ou sonhador e
aguardando convite.
Sacada
com floreiras exibindo flores anônimas, madressilvas-verdadeiras,
alecrins-bravos, candeias, jomirins, hubérias... e os difíceis e isolados
juncos-de-cobra.
Galgou
os três andares do prédio Gueguê. Quase na hora da consulta. A secretária
cumprimentou com olhar tipo azul por trás dos claros óculos de grau. Na mesinha
de centro revistas passadas com reportagens de turismo esotérico ou pitoresco
praieiro agreste Glória do Goitá e Passira e Feira Nova... Parou para ler...
que no meio de uma pedra com desenhos de Sete Cidades foi chamada.
A
rua Darcy Ribeiro e descendo... De vez em quando olhava para cima ver as
janelas dos prédios e das casas e dos apês. Dentro de um lote cercado por
grades um jardim de canteiros bem cuidado e um fila brasileiro manchado de
cores tipo orelhudo dormitando linguarudo aborrecendo. Flores tipo vermelhas
tipo azuis tipo brancas numa planta só que parecia petúnia. Queria acariciar o
fila.
Diminuiu
o passo, esfregou as mãos, casal de urubus na copa da igreja Matriz, avenida
Maxacali povoada de tangaracás-açus, um carro buzinou e nem reconheceu os
ocupantes as ocupantes.
Varanda
para o sul com xaxins samambaias possivelmente orquídeas e bromélias,
begônias-sempre-floridas, biru-manso...
Dois
degraus e entrou no bar do Tinga. Um refri gelado de dar as dores em as
bochechas. Sentou na frente da janela envidraçada para olhar a rua 25 de Março
às 17h e 17min. Fazia um tempo.
A
proximidade das árvores e morros florestados criava diferença e bem à cidade.
Entrou
cabedal na igreja àquela hora aberta e deserta. Andou pela nave procurando um
santo da sua devoção. Talvez o santo não era cultivado ali, nem tinha certeza.
A pouca luz vinha de ser filtrada pelos vitrais de cores e santos e santas e
anjos e estações da via crúcis.
Subiu
na timbaúva correndo ligeirinha. Se escondeu entre galhos e folhas para sempre.
Alguém a viu? A timbaúva lhe pertencia. E juntou alma dela com a da planta
vegetal folhas flores frutas ramas. O mais sério e importante que ninguém sabia
que ela estava ali trepada como uma uaiapuçá.
A
filha da Aline olhou o celular e logo esqueceu a hora. Uma janela por aí
despejava música da mpbu.
A
criança com a bicicleta, mulher comendo pastel de carne e resmungando, hm!...
um táxi estacionado no ponto da praça Coronel Sylvio Luiz, o vento atiçando os
cabelos da pindaíba-preta. Era tudo doce. Era tudo palavra principal.
Ela
sabia, sempre soube, que seria assim. Olhe o dia todo!
Descendo
ou caindo do céu vinha a sombra, na linha do horizonte uma nuvem carregada, nos
ares um objeto espacial óvni soltando faíscas e fumaça e fazendo estardalhaço
com turistas rindo tirando fotos gritando pedindo risos pedindo carnaval.
A
criação dos rios a invenção das pontes porque elas foram inventadas.
Da
linha traçada do horizonte, entre montanhas enormes e bicudas, vinha chegando
um helicóptero com mil e oitocentas pás hélices aspas carregadas de nuvens de
chuva de raios de trovões de ventos etc. O céu não parava de urrar fazendo
tremer o céu e o chão como numa cavalaria numa boiada. Corriam homens mulheres
crianças bichos aves gado maitacas-verdes... assustados da bomba-d’água da
chuva iminente próxima recém quase rasteira.
Tudo
respirava susto, uma trepidação no ar cada vez mais forte. Estava acontecendo,
mais nada.
A
escuridão se alastrando como um eclipse feroz. Surgiu com a nave espacial e em
ondas extravagantes e brabas e enormes e tipo fuliginosas, pois bem, após
muitos anos e épocas de expectativas.
Na
fronteira desequilibrada entre o bom e o quase perfeito, com desassossego.
Era
fim de tarde e hora do tempo fechar. Tinha de ser e todo dia no verão na tarde
chove, as monções.
Nem
havia por que fugir. Era a mesma hora. Mais uma vez.
Eram
ali 18 horas, mas parecia mais. E todo dia o mesmo procedimento: chuva no
entardecer. O tempo nem consultava alguém.
Alegria
da chuva, já sabia, ia até o rio os rios e olhar as águas, até ela mesma filha
da Aline se pensou já se resolver em água corrente até o rio. Então, que chova!
Mas uma pele escorregadia de peixe ou batráquio juiponga mergulhadora. Passar o
dia na chuva caminhar na chuva correr na chuva e se molhar como um pinto
molhada. E chuva e sol casamento da viúva.
E
filha da Aline julgou o sol a chuva o rio as estrelas a cidade e passou daí em
diante a julgar tudo. Como se pesquisa a etnografia do povo.
Um
sapo-rei sozinho na pedra do charco cantava para chamar chuva. Todos tinham
preocupação e escutavam e corriam apressados a recolher a roupa do varal, bater
as portas e as janelas. Outros com filhotes tiravam os mesmos dos pastos e das
beiras de rios e os mandavam entrar. Corriam saracuras-do-brejo para os lugares
protegidos. As árvores altas se sacudiam de norte a sul, e as arvorezinhas no
escuro se arrepiavam nuazinhas. Bandos empoleirados de macacos-de-cheiro
macacos-pregos bugios... começavam a rezar e nem paravam mais.
As
palmeiras jacitarapuís, como pilares agarrados com o céu, espanavam as nuvens
de chumbo baixas tipo azuis grandes pesadas. Tudo que havia corria risco do alagamento
definitivo infinito universal.
Logo
um escuro tipo carvão cresceu, uma parede de pedras avançou, o céu apertando a
terra, um soar diferente, um ressoar, e que forças!, um troar, vento
desbaratando palmeiras, mais um tremor do chão, rugido de D, um escuro mais e
mais compacto, cheiro de poeira, estremecer de planeta, pássaros se escondiam
em troncos de árvores, plantas se abraçando novamente e estava feito a
armadilha para detonar a tempestade que vinha do nordeste e junto no disco
voador.
Quase
duzentos fenômenos. Paradoxo. Tudo rápido. E fazia parte. Quando uma fagulha
fez explodir a casa de pólvora no céu baixo, e lâminas brilhantes de todas as
cores e tipos abriram chamas de fogo sob a couraça de nuvens de tipo chumbo.
Trovões sacudiram furiosos de todos os lados.
Zunindo
o helicóptero contornou na curva carregado de toros enormes de árvores nobres
em extinção. Começaram os primeiros pingos grossos, chuva de repente, chova
sempre, chova! chove chuva! chuva grande num total de três dias e noites sem
parar.
O
caruana, ente indígena do bem bom, que habita o fundo do rio e que livra as pessoas
das consequências, aliás e etc.
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