Ana Ricarda
(menina antes bem antes de mulher de mãe e etc) mais leve que uma pena, pluma,
paina, sorvete de pitanga, bem doce. Acariciando o próprio rosto, jogando os
cabelos para trás, cruzando os braços diante do espelho no quarto e nada de
tatuagem (por enquanto).
Quase na hora, praticamente. E o quadrilátero tem
quatro lados bem conhecidos.
- Você gosta de História do B? Que fase?
Naquela manhã uma manhã diferente a cada manhã. E
zumbiam as abelhas zum-zuns de confidências reuniões. O sol colaborava voar
malandramente como a fogueira acesa alada espontânea do pensamento. Mania e
balda das rodriguézias.
Bem, vamos lá!, o beija-flor verde metálico de gola
branca, ali pela vizinhança, está chamando sem parar, e dia dias semanas mês.
Ela somente a Ana Ricarda comprou duas malas, fez tudo
direitinho, preparou o cabelo vermelho, telefonou para as melhores amigas
(Abaiara, Acari, Aracuã, Anajatuba e Caúna), adquiriu a passagem para Prata do
Piauí, as coisas de sempre, e foi visitar os primos e as primas os tios os avós
antigos maternos.
Afastou os cabelos dos olhos mil
vezes. Viajar ela achava era uma moda. Apressou o passo. Esfregou as mãos.
Jogou a mecha com as costas da mão e bem para trás.
- Procurando o céu o mar a árvore a
montanha os horizontes.
Cada momento cada etapa colecionava
uma coisa diferente e importante. Colecionou músicas dos cantores sertanejos
universitários do pancadão do axé do brega paraense. Colecionou vasinhos de
orquídeas da mata atlântica as bromélias da serra do Espinhaço os artesanatos
aracadaini. Colecionou balas e doces e sempre uma para cada bochecha. Pois por
ontem colecionava sapos de enfeite de todos os tipos de materiais e cores e
poses e tamanhos e regiões, etc.
No
dia seguinte bem cedo, pronto, acordou com o frio na barriga feito pela
ansiedade da partida. A luz da manhã batia na persiana, assim, toque! toque!...
Mas toda despertada, elegante como um talhe de palmeira acumã, toda flexível,
tenra, ofegante, azul-celeste, samambaia, garrida. Sorriu um sorriso de perfume
suave e banho bem tomado. Depois esticou os braços abriu as mãos alongou as
pernas mostrou a língua.
Algumas nuvens se esforçavam e por
aparecer num céu muito azul e limpo e claro e azul de cristal. E o tempo e o
rio e a qualidade do ar e o despertar das pataquinhas, das
begônias-sempre-floridas, das gloxíneas, dos tinhorões, das murtinhas, o
xuaxalhar!... das folhas da veludinha. Todas tinham o que competir e dizer e o
dia por fazer, garrular!... balar!...
- Procurar rio lagoa enseada com
praia branca de areia fina peixes mandando.
Todos a olhavam a guria querendo
vê-la. Arrastando uma mala e uma bolsa a tiracolo. Nunca um dia tão-somente pra
lá de admirável. O rabo de cavalo balançando pêndulo insistente e
arrogantemente. Chorão chamando fêmea na copa da axuarana.
Então, por certa e qualificada e
nobre manhã de novembro de alta temperatura, em diante, etc., a menina apareceu
no pátio da casa da avó do avô. Ela ali de tempos em tempos inteira de cima pra
baixo, etc.
Quantos moradores moravam ali na
casa com a avó e o avô? Ótimo. E sobre a mesinha de centro uma acariquara, um
araticum-catinga, um apuruí, uma ameixa-da-terra, um abajeru (lado a lado bem
dispostos dentro da bandeja de latão sobre o tampo retangular de vidro
transparente).
Lá pelas 17h e 08min, mais ou menos,
sentados lado a lado a menina a prima o primo a amiga da prima o amigo do
primo, e o primo contou que havia por ali por perto aparecendo no pátio nas
árvores de vez em quando talvez na grama do jardim, uma ave de tamanho médio
para pequeno com cantar que lembrava xuatê ou coisa assim e tinha um brilho de
penas de sete cores, saíra-de-sete-cores. E isso interessou muito a guria,
naquele dia mormacento assazonado. A nuvem confidencial.
Assim, Ana Ricarda foi até o
canteiro do jardim fazer uma espera com quirera de milho e fotografar. Uma
atração para atrair a avezinha, a cor, o canto, o bichinho. Esperou que o
fabuloso passarinho aparecesse. E ele não apareceu naquele dia nem na outra
manhã. A chuva centenária, a chuva sempre alegre, a chuva para melhorar, a
chuva para o entardecer.
Pois, Ana Ricarda foi até a praça
Mururé em frente fazer espera com arroz quebradinho e aguardou o fantástico
passarinho que não deu as cores nem as curiosidades nem os gorjeios. Nem era
tempo. Demorou esperando uma semana e dois dias e meio mas, não apareceu o tipo
nem nenhum tipo pipiou por perto. Cansou os olhos de olhar e a foto por tirar o
autorretrato.
Quando que chovia era espetacular
espetáculo. Tutores com seus bichos de estimação passeavam de guarda-chuva na
calçada da rua Trombudo Central. Árvores evocativas. Neblina na serra do Japi.
- Procurando as cores as árvores as
aves as casas as disputas de território.
Como Ana Ricarda foi até o capoeirão
e limpou um metro quadrado de terreno na terra preta para fazer a espera com
migalhas de pão e se sentou camuflada atrás de um pé de carvão-de-ferreiro. No
outro dia e mais outro não havia passarinho espetacular que surgisse e nem
desaparecesse. Nem era a vez a estação a comidinha adequada.
2-urumutum.
Com as palavras de Aline: seira, ucharia,
choutar, dobadoura, opimo, gonzo, ressupino, crisol, báratro, crivo.
2-sabiá-da-campina.
Quando, Ana Ricarda foi até a quadra
vizinha e fez a espera de bolachinhas salgadas na calçada e se escorou na
sombra de uma muirajuba marcando o tempo no relógio analógico. O passarinho nem
sim nem não totalmente sumido e invisível e feliz e sonhador e enigmático
passageiro quem sabe do acaso.
Total, Ana Ricarda foi reclamar com
a prima e a amiga da prima:
- Não vi nada do aladinho sete cores
maravilhosas! Com quem vou fotografar?
- Você ouviu um assobio assim,
tchintchorrintcho!!!...
A menina Ana Ricarda (pro futuro de
Ana Emília, a filha) disse certamente que nem nem nunca:
- Não sei, nem ouvi, não me lembro,
nem vi sete cores, ora! As árvores da praça Visconde de Cabo Frio se agitavam,
uma vez!
Por isso mesmo, a prima disse uma
coisa sensacional que espantou todo mundo, a amiga da prima olhou por baixo dos
óculos, Ana Ricarda principalmente ali pertinho e interessada:
- Você tem que perguntar para as
índias catuquinaru. Elas são livres e gostam.
- Acui-cui!
Ana Ricarda foi dormir na primeira
noite com essa na cabeça e nem voltou mais.
- Aquiqui!
O pensamento claro como a manhã,
como esperando qualquer coisa, como querendo prosseguir.
Bairro da Trindade avenida Valentim
Magalhães rua simples e até invertebrada.
- Mas o que é que posso fazer?
Foi fácil e cômodo e abrangente, ali
pelas 8h e 18min, Ana Ricarda se encontrou com a manhã a quarta-feira o novo
dia, etc., e os degraus do dia, as nuvens derramando açúcar no ar, os tamaris
brincando nos galhos da guaçatunga. Havia disputa entre ideias.
Ana Ricarda (futura mãe de Ana
Carolina, outra filha) despertou e andou até a tribo dos catuquinaru ouvir
fotografar, chios!... chios!... e penas do passarinho sete cores imperdível e
frutas do mato e cambucás.
Os catuquinaru moravam no vale do
Itajaí-Açu. A primeira coisa que os catuquinaru perguntaram para a menina:
- Você tá fugindo de quê ou indo ao
encontro de qualquer coisa? Posso saber?
Aí, Ana Ricarda explicou que queria
trocar imagens de aves que eles catuquinaru colecionavam e brincavam e
estimavam e imitavam. Até para fazer um álbum muito brilhante e colorido e
apresentável. E colecionou no gravador também os guinchos de humaitás.
O pensamento guiando os passos, e
como bebendo água e respirando, e como olhando as montanhas com a mão em pala.
Árvores morros árvores serras
azuladas muitas e completas e as abutuas-do-rio verdejantes. O arvoredo agitado
pelo sol, pacificado de vento verde, etc. Quem diria!
- Procurando rio de cascata e
corrente e remanso e piscina natural.
Onde passa o rio São Francisco, e ali
por perto encontrou com os xucuru-cariri. Os índios pescavam no rio e caçavam à
vontade pela caatinga. Tinham pequis para comer e jequiás para vender. Foram
com a menina até a cascata. Sugeriram voos de carcará. Recomendaram erva da
ipecacuanha-preta. Descansaram na sombra da gameleira. A manhã sem falta.
O pensamento subindo degraus de
nuvens, e como se elevando, como acompanhando. Havia outra razão.
O dia nem custou a sair. Nuvens
altas o dia solto e tudo por fazer. O ar com sabor pitanga, araçá, sete-capote,
buri-do-campo, mais pitangas amarelas com abelhas zumbindo.
Jogou os olhos e a vista para cima
da paisagem verde. A floresta continuava agitada de vento verde. Verde total da
floresta para sempre. E nenhuma palavra trocada foi trocada. A canela-de-folha-larga
fazendo de moradia para bando de soins.
Ana Ricarda (mãe futura de Ana
Paula, terceira das filhas) toda satisfeita rosto sadio e olhar de
canário-da-terra. Amarelo o dia amarela as asas as penas amarelo o gorjeio.
E com o azul das alturas um pouco
mais de azul dos olhos azuis. Os azuis que se emprestavam muito. Indiferentes
as ucuubas-punãs. Conterrâneos os pepinos-do-mato.
2-soldado-do-nordeste.
As perguntas de Paulo:
- E agora pra onde vai?
- Mas de quem e alvíssaras estamos
pelas boas-novas?
- Por que várias espécies de sobras
despojos restos sobejos?
- E o conjunto musical da terra pé
de serra com Santana de Parnaíba?
- Já viu a loja Sebe-Bardo como
ficou por fora?
- Aprontamos tudo até a manhã de
sexta-feira?
- Como que nem não manda alguém?
2-ibijaú-guaçu.
Não obstante... e Ana Ricarda pegou
um piquira foi até a aldeia dos guajá, em Açu. Falou com eles todos as índias
velhas e pediu emprestado pios de pássaros bem luxuosos e bonitos e coloridos e
serelepes. Ouviu ganhar gargalhadas de maitacas-roxas.
O pensamento como simples, como
procurando o rio, como inventando números inteiros e matemáticas por toda a
extensão da paisagem de galeria. A trilha das Três Pedras na área de Bofete e
Botucatu.
Um diapasão, incrivelmente,
lembrando um bem-te-vi-de-bico-largo. Manhã cheia, sol volátil. Manhã acima dos
25ºC.
- Globo terrestre! Eu vi o sol na
manhã, ouvi o ciscador, tomei banho de rio, etc.
Morro acima o vento estranho, morro
abaixo o vento invencível, por dentro do vale o vento infatigável. Um vento
enrolado seguindo os passos. Revoluteio de andorinhas. Trovoadas escapando de
dentro ou de trás do morro. Aguaceiro despencou em forma de cortina. O vento no
meio da chuva. E toda a natureza em toboágua.
- Procurando caverna gruta loca
lapa.
Logo logo chegou às terras dos
tingui-botó, ali na serra da Mantiqueira. E pediu concertos de alados
exclusivos endêmicos. Presenteada com, cicios!... e tititios!... de tié-fogo.
Cochichos avisos em surdina de pipira-de-prata.
O pensamento sem explicação, e como
limpo e penteado, e como distinguindo as cores separadamente. Sementes de
aprajus, perobas-amargas, pirangas, mandingas...
- Acredito nem incorrer em exagero,
uma vez.
Perto, então bem pertinho, junto
praticamente, um canto de passarinho já alterou o mundo, e que dividiu o mundo
em mundo daqui e mundo dali dois lados inteiros de para lá para cá.
- Em uma fração de segundo ápice
átimo...
Manhã nova e cenário grandioso da
mesma floresta, manhãzinha rápida. O voo da ave pernalta. Os lepilepis!... das
asas do udu-de-coroa-azul. A goiabeira-do-mato carregada. O vento agitava as
jabuticabas-do-cerrado, o rio Cuiabá cortava o mundo em duas partes certas
importantes. Cada nuvem tinha um enfeite na cabeça, um chapéu diferente
escondendo os cabelos revoltos os cabelos arrebicados as crinas crespas.
Pés no chão, um dia descalça, outro
dia um espinho, mais outro dia uma mordida de formiga, um belo dia um
escorregão nas lajes perto do rio, e a menina explorava os matos e capoeirões e
florestas e brejos e beiras de rio e escalando o pé de curupiá cabelo trançado
em diadema.
Ana Ricarda vai visitar agora os
índios cupinharó, ali em Cabeceiras. Ana Ricarda ao natural. Solicitou umas
lendas coloridas brilhantes esvoaçantes. Comparou a imitação das cunhantains e
curumins com os cantos gritados de uma arara-canindé.
O dia era bom e bom era andar no
dia, etc. Possível, mas por pouco quase impossível. Seria milagre fazer
imaginar outro dia assim. Tem índio que coleciona acha interessante colecionar
espinhas e dos diferentes peixes.
O pensamento vai se esticando, e
como que aguardando seu complemento de qualquer maneira, e como colocando
figuras no ar.
Para saber quem é, tem que chamar
por Ana Ricarda, e chamou:
- Que dia da semana é depois de sexta-feira,
hein, guria?
E no primeiro dia ela passou sem
olhar. Bem no limiar. No segundo ela mal cumprimentou. Sem nada para fazer. No
terceiro ela foi mais além e chegou perto. Sentiu a temperatura ambiente. No
quarto dia ela entrou na aldeia dos cambeba, na praia da ilha Diamante. O pajé
Ubirajara sacudia o maracá para chamar chamar ancestral espírito sagrado,
parente do ar ou da terra, fantasma da ave de rapina.
Que os cambeba disseram para ela ouvir ver e
decidir:
- Nós temos mascotes de soias, e
parentes próximos de canto de pepitas.
Que ela aceitou em troca de trabalho
na roça junto das cunhãs:
- Aceito em troca de ajudar na roça
de milho colher milho comer milho verde, pode ser? Eu gosto muito de mexer com
a terra as plantas e os animais sociáveis.
Quando o pensamento que se repete, e
como trocando a fantasia pelo correto, e como mantendo o sossego na hora de
escolher o acaso.
Nesta boa hora h todos já devem ter
descoberto identificado adivinhado o rio corrente catadupas de qualidade
alturas consideráveis barulhos em quantidade rio Paraíba do Sul por baixo da
terra.
2-gavião-mateiro.
Com as palavras de Aline: gazil, jarreta,
galhofar, adelgaçar, farrancho, descante, despicar, custódia, casula, aljofre.
2-saudade-de-asa-cinza.
O riso da menina Ana Ricarda a
saltar da boca e dos olhos resplandecentes, o cabelo percebendo o vento, calma
para aprender a nadar. Que queriam aqueles olhos de guria? E ela derramou seus
olhos pela paisagem manhã paisagística passarinha borboleta ululante. Iluminado
sorriso resplendente.
- Procurando procurar árvore fruto
de árvore frutífera comestível.
Pitaguaras bebendo do rio, curvadas
para o rio, verdes de rio claro. Acarapixunas pulando na água. Muiás ergueram
os olhos. Muricis descendo frutinhas para os dourados, as traíras, bagres, os
pirarucus, os graviolas, lambaris, os gravataís, os mandubés, pacamãos...
A menina apoiou as costas numa
peroba-de-goiás. E cabelos lindos, olhos já lindos conhecidos, boca muito
belíssima. Bonita sombra descendo estriada da galharia. E falando para si
mesma:
- Se eu não viesse aqui isso tudo e
mais um pouco nem existia, também.
E foi embora para os lados dos
índios canamari, perto de Abatiá. Eles tinham pressa em negociar palavras novas
de papagaios-do-peito-roxo, negociar chilreios de cricriós, negociar cambucis,
pinhões, pequenas cestas feitas de palha de caxandó trançado. Eles tocavam
música cantos com muremurés, teirus...
O dia vinha entrando nascendo
chegando cheio de azul e sol rodeado de montanhas árvores rio zumbidos de
besouros dobres de pintassilgos-da-mata revolteios de andorinhas. Um morro todo
do tamanho de uma montanha na serra do Cipó. Que só visse!
Então, uma luz de ouro e diamante
num leve ar reconfortante de esmeralda, tudo muito bem trabalhado em
quinta-feira das 10h em diante. Embora meio na dúvida. Nuvens espertas douradas
aterrissando no planeta, sobrevoando nesta Terra. Canto de pitanguá,
viuviuviu-riiii!...
O pensamento não sabe ainda de onde
vêm as ideias, e como segue o caminho interior, e como brinca de arrumar quebra-cabeças
palavras-cruzadas caça-palavras palavras-chave, e desarrumar os labirintos e
espirais e remoinhos.
- Procurando montanhas de pedra e
animais de pedra fragas penedos e formas de animais nas pedras nas nuvens nas
árvores.
Uma bonita tarde que apareceu assim,
lá estava a tarde descendo os barrancos da esquerda rumo os vermelhos do rio em
frente derrapante. Araçá-pedra carregado de xauins. Lancha subindo o rio para
entregar mercadorias em Juiz de Fora e Porto Feliz e Osório e Rio dos Cedros...
Perto
da noite já estava com os índios pipipã e ilha São Francisco do Sul. A taba em
forma de coroa. As picadas as travessas indo e voltando do rio da mata taiobal do
grotão do cafundó. De presente poses de araçaris-bananas voar em redor e de
brinde uns, retintios!... de patuqueiras e mais gosto maduro das guabirobas
amarelas.
A menina perguntou para os
silvícolas pipipã:
- Mas vocês viram veem o sete-cores
já cantar?
- Sim, claro, o sete-cores. O
sete-cores espera acabar a noite ali escondido no meio da condurango. Quando a
luz surge ele pula em busca do sol. Quando é hora de madrugar ele canta como
nunca como sempre como ninguém. O sete-cores é assim mesmo. Porém, eu nunca vi
nem ouvi me contaram e dizem que é reconto.
Uma lua parada e normal e cheia e
hipnótica, ainda. Logo o fiscal celeste apita um assobio fino e um raio com
trovão começa a chover. Reconfortante, espumosa, inesquecível, líquida,
deliciosa como sabor de açaí no céu da boca.
Então, a menina já tinha todos os
cantos e cantares e frutinhas que procurava? Tinha o suficiente de fotografar?
Para fazer um acompanhamento fundo musical? Cinco dias de carnaval em Pituaçu?
Comer abóbora de polpa amarela com açúcar refinado por cima caramelado? Plantando
o verde sadio ali por onde passava, azougues-do-campo, chás-da-terra,
pinheirinhos-de-sala, brilhantinas-brasileiras...
E a resposta simples como o
pensamento que não se desvia e que não esvazia e que nem se contradiz:
- Sim, claro, e praticamente.
2-galo-da-rocha.
O gliptodonte prisioneiro do seu
torrão natal do seu sertão do seu clima do seu corrimão. E as últimas semanas
os últimos dias as últimas notícias. Anda devagar e faz tudo lentamente,
aposentadoria, pachorrentamente. Uma serra da Capivara seu círculo de giz? Já
nos últimos anos sonhava pouco, e voltou: “Antes e antigamente, aqui neste
lugar, corriam trilhas de tropeiros. Foi bem antes antigos. Tropas de burros
burras porque conseguiam carregar mais e melhor pelos caminhos estreitos
pedregosos desfiladeiros atalhos desvios atoleiros.” Depois os gliptodontes
acabaram foram extintos ou se mudaram para outras aguadas paragens ambientes.
Ele mesmo nascera gliptodonte neste lugar. Teve como gliptodonte que andar e
andou por este país solar. E como gliptodonte sempre volta, voltou, retornou,
olhou pra trás. E revoltou a sua serra da Canastra? Agora até conseguiu muitos
livros para ler mas nem saco para tanto. O gliptodonte também conhecido como
Dente de Pedra não come bem não bebe além de água mineral e dorme mal e acorda
de madrugada acorda de primeira. Somente anda pelas ruas, que lhe recordam lhe
parecem ruas de outrora. Repara nas formigas-carregadeiras. Antes uma casa e
agora um prédio de dezoito pisos. Passa aqui ali como em qualquer lugar ou
lugar algum. Um sorriso misterioso nos beiços. E sem saber o que pensar. E sem
lembrar de como cavar com suas próprias unhas retráteis.
Avenida movimentada Fernão Dias Paes
Leme com outra avenida arborizada Borba Gato em Pedro Leopoldo.
Eu lia, por que talvez, um conto de
horror ou terror: “Os Três Cachorros do Senhor Heitor”, de Rosa Amanda Strausz.
Já na primeira frase eu ouvi um latido de cachorro vindo lá de fora na
vizinhança. Talvez na rua aqui em frente Félix Pacheco talvez amarrado na
corrente ou preso no cercado ou morador do prédio ao lado. Na hora eu pensei:
“É pura coincidência.” E continuei lendo e pensando. O cão lá de fora voltou a
acoar. Era um cão sem com linhagem pedigree nacional estirpe importada. Era uma
cadela malhada marrom azul-clarinha e usando um lenço de seda combinando no
pescoço. Dos grandes pequenos ou médios, interativo. Depois de hora parei de
ler terminei o conto. E fiquei olhando a parede? O cão lá fora silenciara. Pura
coincidência semeada ao acaso. Tem gente que gosta e confia mais no cachorro
que no parente. Tem cadela língua solta olhar simpático singela popular que
gosta de passear na praça Eurico Gaspar Dutra todos os dias ali pelas seis em
ponto. Tem cão que gosta mais de dono que de pessoas e outros gatos e
cachorros. Cão cadela com atitudes filosóficas civilizadas atitudes
características idiossincrasias. Minha tia Candonga tinha uma cadelinha chamada
Chusma que se derretia no verão nem tinha nenhuma vocação para frutas e legumes
mas e gostava muito de sorvete e picolé.
2-jesus-meu-deus.
Com as palavras de Aline: farândula,
ganga, fototipia, supino, cendal, jogral, trangalhadanças, protração, altívolo,
prolóquio.
2-iraúna-grande.
A filha de Aline estava no aeroporto
Santos Dumont, o dia 26 o mês de maio o ano 2014, um leve incômodo em o siso
lado direito. Mas esperando avião e paciência e caminhar para lá de lá pra cá.
E fazia um círculo. E desfazia umas pegadas pistas.
A seleção estava em campo jogando
com a seleção uruguaia na cidade na tela de João Pessoa, Alagoas. O gramado era
verde e a torcida verde-amarela. Um quadro líquido tridimensional no alto da
parede e as pessoas aqui roendo as unhas e a jovem até sorrindo a socapa dos
preocupados inúteis. Um jogo mas porém um passatempo de lazer.
Sentada numa poltrona por acaso por
sorte ali na sala aclimatada e tal. Sem muito lanche no estômago. Comera um
minuto atrás no hotel Itambé um pastel de queijo, uma lasquinha de goiabada e
uma vitamina de cenoura-beterraba-açaí-alface. Barriguinha no tanquinho, aliás
e etc. Vasos exposição de chusqueias, interessantes interessante.
Esperava o voo para Porto Velho,
Mato Grosso do Sul. Aliás, o voo já estava atrasadão. Já andara até o janelão
trocentas vezes ida e volta. “Que que houve, meu!”, se perguntava. Pensara
chupar um picolé de pitangas, caso estivesse em oferta. Voo recomendado para
Icaraí de Minas...
Um grupo anajá desfilando aguardando
com roupas da cidade e enfeites de botoques e tintas e desenhos da tribo na
cara no corpo. E chamavam a atenção tiravam selfes com outros esperantes
aguardantes.
Dezesseis horas e vinte cinco
minutos, agora. Já devia estar no ar há um século e meio, até agora nada.
Poucas explicação explicações. Voo recordado para Pintópolis...
Uma garotinha magrinha, os pais
cuidando, se aproximou, olhou a jovem filha de Aline, sorriu e ganhou de volta
um outro sorriso. A menininha resmungou algo, muxoxou, se contorceu e foi dar
umas voltas. Arrastava os tênis fazendo ruído. O solado do tênis piscando em
verde. Era época dia de conhecer Anísio de Abreu...
Parecia tudo um jogo de paciência e
espera e aguardo. Um jogo de xadrez com as peças indo e vindo para os mesmos
lugares. O mundo tão engraçado, de um ângulo de vista, de um ponto de vista, de
um certo olhar desinteressado sonolento precário.
- Por que D criou a formiga?
- Para ser amiga da cigarra! Ou a
vizinha!
O mundo, pensava a filha de Aline,
do vaivém dos aeroportos, todos os lugares do mundo e adjacências. Tem gente
que prefere passar as férias em Socorro. Outros uma semana com os índios
curuaia. Ainda a pedra da Ema em Burarama território de Cachoeiro de
Itapemirim. Voo patrocinado para Cambuquira...
As pessoas esperam do mundo, os
tuins, os brecambuçus, as favas-contra... O mais dia os mesmos dias.
Naquela hora o aeroporto e um
aquário. A menininha contando poltronas tocando uma por uma. No painel, voos com
sobremesa para Águas Belas, Campo Grande, Uberaba, Rio Grande, Campina Grande,
Porto Real do Colégio, Ajuricaba, Biguaçu... voos com direito a almoço e suco
de caju para Mâncio Lima, Baturité, São José da Coroa Grande, Brejo da Areia...
voos com acompanhante para Ipiranga do Norte, Magé, Penedo, Itaberá, Ilha das
Flores, Feira Nova, Itaiçaba...
Asfalto paisagens de aviões prédios
barracões pneus homem de abafador vermelho vivo nas orelhas trator carregado de
bagagens rastos de pousos céu de teto baixo esfumaçado. Prédios da cidade apontando
as nuvens ocasionais.
Os pais da garotinha falavam com uma
senhora de amplo vestido azul que não era nem mãe nem sogra nem avó sequer de
uma das três. Vai saber!
O casal cuidava da guriazinha, leva
e trás de lá pra cá, como se cuida de um tesouro ou uma relíquia ou um mito ou
uma beata ou uma lenda ou uma fonte de água potável. Ela a guriazinha fazia o
que queria e perguntava gesticulava. As perguntas às vezes inéditas:
Ao mesmo tempo, se achando, a
menininha fazia de explorar o mundo com livre arbítrio e autoconfiança e
cabelos soltos, carismática simpática hipnótica prismática.
Quando as pessoas modernas olhavam
os aviões e os celulares, jornal debaixo do braço, revista, livro grosso de
capa dura para esquecer na poltrona lá no desembarque, e se perguntavam:
- Vamos todos viajar no escurão da
noite?
- Por que D chove quando bem quer?
- Quando começou tudo isso de hora
marcada?
Menininha veio de lá e se aproximou
novamente da filha de Aline, subiu na cadeira estofada bem do lado, meio desajeitada,
como uma criança aprendendo o mundo, e olhou a jovem nos cabelos. A outra a
cuidou de rabo de olho, sem querer dar muita confiança, sem querer dar ousadia,
os pais fingindo não cuidar, a guriazinha se sentindo o centro das atenções, o
foco dos sorrisos, mais a tensão dos pais disfarçando, a estrela o astro do
filme, perguntou:
- Nhenhenhém?!...
A filha de Aline olhou sem entender,
e o pai, muito ligado, e mãe muito atenta, de lá, traduziram, quase em coro:
- O seu nome... ela perguntou.
A loja do lado oferecia relógios com
pulseira de ouro e ponteiros de diamantes. Piso tátil. A vitrine enriquecia o
valor dos perfumes de cores diversas e cheiros amazônicos. O quiosque vendia
bichos de estimação de pano para dormir na viagem bem fofos e de preferência os
com cara de bicho do cerrado. Os telefones sempre com um brinquedinho mais
moderno e imperdíveis e pagáveis em até 20x. Voo amanhã cedo para Várzea Branca...
Daí, a jovem olhou a garotinha
mesmo, a menininha não era feia de uma vez, se parecia muito com a mãe talvez,
até um pouco com o pai quem sabe, e vice-versa.
De mais perto a garotinha tinha
cabelo mais vermelho quase de fogo, um nariz pequeno, uns olhos pequenos e
azuizinhos. Ela a garotinha só tinha olhos e ouvidos e boca para perguntas.
Praticamente uma perguntadeira:
- Ocê biu... di vaia Co-pa-ca-ba-na?
A guriazinha tinha mais curiosidade,
pilhas novas, bateria nova, antenas novas e modernas e felizes, queria mais e
foi se expandindo:
- Dos... anins...
- Dois anos, o que você tem? - e a
jovem, para provocar provocar, mostrou três dedos.
Para falar a verdade, e todos se
decepcionaram: não apareceu ninguém celebridade famoso conhecida da tevê no
palco do saguão atleta da Seleção para embarque ou desembarque. Era um horário
de pobres e anônimos e comuns e consoantes. A maioria ensurdecedora. A minoria
multidão popular. A maioria dos zumbis.
A menininha olhou a mão da jovem e
ficou na dúvida do número de dedos. E olhou. Pegou
e saiu fora, foi bater a cabeça nos vidros grandes da vidraça enorme, deu mais
umas voltas pelo longo saguão, os pais policiando, fingindo ler um livro
volumoso cada um com seu best-seller saído do cinema recém-recém, a guriazinha
pediu sorvete ou picolé, os pais muito felizes ou gostando imenso cada um da
sua leitura e sorrindo até rindo alto, a anjinho pediu chocolate ou suco de
caixinha, a menina um bem divino um bem de todos uma realização interpessoal a
dois conjugal.
Um mundo do outro mundo dentro de um
mundo dentro de um mundo o mundo. Agora sim agora não talvez quem sabe. Voo
direto correto para Araçariguama...
A filha de Aline bocejou, tapeando
três vezes a boquinha. E cometeu um espreguiçamento com, huuuu!... Segurou a
cabeça com as mãos estendeu a nuca. Os cabelos... pronto, em cascata para trás.
Lindos cabelos cuidados caros.
E a guriazinha veio que veio em
outra vez para perto da jovem. Uma velocidade sem parar e sem por quê. Pegou as
pontas dos cabelos vermelhos da filha de Aline. Comparou com os seus. Achou bom
e riu. Achou que devia e disse, perguntando:
- Em que que... bondade voá, nhanhã?
Subiu tênis acendendo luzinha na
poltrona de tecido vermelho, os dentes pequenos sorrindo, os cabelos enormes,
olhou brilhante, perguntou outra coisa:
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