Mostrando postagens com marcador canindé. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador canindé. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 2




  Ana Ricarda (menina antes bem antes de mulher de mãe e etc) mais leve que uma pena, pluma, paina, sorvete de pitanga, bem doce. Acariciando o próprio rosto, jogando os cabelos para trás, cruzando os braços diante do espelho no quarto e nada de tatuagem (por enquanto).
Quase na hora, praticamente. E o quadrilátero tem quatro lados bem conhecidos.
- Você gosta de História do B? Que fase?
Naquela manhã uma manhã diferente a cada manhã. E zumbiam as abelhas zum-zuns de confidências reuniões. O sol colaborava voar malandramente como a fogueira acesa alada espontânea do pensamento. Mania e balda das rodriguézias.
Bem, vamos lá!, o beija-flor verde metálico de gola branca, ali pela vizinhança, está chamando sem parar, e dia dias semanas mês.
Ela somente a Ana Ricarda comprou duas malas, fez tudo direitinho, preparou o cabelo vermelho, telefonou para as melhores amigas (Abaiara, Acari, Aracuã, Anajatuba e Caúna), adquiriu a passagem para Prata do Piauí, as coisas de sempre, e foi visitar os primos e as primas os tios os avós antigos maternos.
            Afastou os cabelos dos olhos mil vezes. Viajar ela achava era uma moda. Apressou o passo. Esfregou as mãos. Jogou a mecha com as costas da mão e bem para trás.
            - Procurando o céu o mar a árvore a montanha os horizontes.
            Cada momento cada etapa colecionava uma coisa diferente e importante. Colecionou músicas dos cantores sertanejos universitários do pancadão do axé do brega paraense. Colecionou vasinhos de orquídeas da mata atlântica as bromélias da serra do Espinhaço os artesanatos aracadaini. Colecionou balas e doces e sempre uma para cada bochecha. Pois por ontem colecionava sapos de enfeite de todos os tipos de materiais e cores e poses e tamanhos e regiões, etc.
            No dia seguinte bem cedo, pronto, acordou com o frio na barriga feito pela ansiedade da partida. A luz da manhã batia na persiana, assim, toque! toque!... Mas toda despertada, elegante como um talhe de palmeira acumã, toda flexível, tenra, ofegante, azul-celeste, samambaia, garrida. Sorriu um sorriso de perfume suave e banho bem tomado. Depois esticou os braços abriu as mãos alongou as pernas mostrou a língua.
            Algumas nuvens se esforçavam e por aparecer num céu muito azul e limpo e claro e azul de cristal. E o tempo e o rio e a qualidade do ar e o despertar das pataquinhas, das begônias-sempre-floridas, das gloxíneas, dos tinhorões, das murtinhas, o xuaxalhar!... das folhas da veludinha. Todas tinham o que competir e dizer e o dia por fazer, garrular!... balar!...
            - Procurar rio lagoa enseada com praia branca de areia fina peixes mandando.
            Todos a olhavam a guria querendo vê-la. Arrastando uma mala e uma bolsa a tiracolo. Nunca um dia tão-somente pra lá de admirável. O rabo de cavalo balançando pêndulo insistente e arrogantemente. Chorão chamando fêmea na copa da axuarana.
            Então, por certa e qualificada e nobre manhã de novembro de alta temperatura, em diante, etc., a menina apareceu no pátio da casa da avó do avô. Ela ali de tempos em tempos inteira de cima pra baixo, etc.
            Quantos moradores moravam ali na casa com a avó e o avô? Ótimo. E sobre a mesinha de centro uma acariquara, um araticum-catinga, um apuruí, uma ameixa-da-terra, um abajeru (lado a lado bem dispostos dentro da bandeja de latão sobre o tampo retangular de vidro transparente).
            Lá pelas 17h e 08min, mais ou menos, sentados lado a lado a menina a prima o primo a amiga da prima o amigo do primo, e o primo contou que havia por ali por perto aparecendo no pátio nas árvores de vez em quando talvez na grama do jardim, uma ave de tamanho médio para pequeno com cantar que lembrava xuatê ou coisa assim e tinha um brilho de penas de sete cores, saíra-de-sete-cores. E isso interessou muito a guria, naquele dia mormacento assazonado. A nuvem confidencial.
            Assim, Ana Ricarda foi até o canteiro do jardim fazer uma espera com quirera de milho e fotografar. Uma atração para atrair a avezinha, a cor, o canto, o bichinho. Esperou que o fabuloso passarinho aparecesse. E ele não apareceu naquele dia nem na outra manhã. A chuva centenária, a chuva sempre alegre, a chuva para melhorar, a chuva para o entardecer.
            Pois, Ana Ricarda foi até a praça Mururé em frente fazer espera com arroz quebradinho e aguardou o fantástico passarinho que não deu as cores nem as curiosidades nem os gorjeios. Nem era tempo. Demorou esperando uma semana e dois dias e meio mas, não apareceu o tipo nem nenhum tipo pipiou por perto. Cansou os olhos de olhar e a foto por tirar o autorretrato.
            Quando que chovia era espetacular espetáculo. Tutores com seus bichos de estimação passeavam de guarda-chuva na calçada da rua Trombudo Central. Árvores evocativas. Neblina na serra do Japi.
            - Procurando as cores as árvores as aves as casas as disputas de território.
            Como Ana Ricarda foi até o capoeirão e limpou um metro quadrado de terreno na terra preta para fazer a espera com migalhas de pão e se sentou camuflada atrás de um pé de carvão-de-ferreiro. No outro dia e mais outro não havia passarinho espetacular que surgisse e nem desaparecesse. Nem era a vez a estação a comidinha adequada.
            2-urumutum.
            Com as palavras de Aline: seira, ucharia, choutar, dobadoura, opimo, gonzo, ressupino, crisol, báratro, crivo.
            2-sabiá-da-campina.
            Quando, Ana Ricarda foi até a quadra vizinha e fez a espera de bolachinhas salgadas na calçada e se escorou na sombra de uma muirajuba marcando o tempo no relógio analógico. O passarinho nem sim nem não totalmente sumido e invisível e feliz e sonhador e enigmático passageiro quem sabe do acaso.
            Total, Ana Ricarda foi reclamar com a prima e a amiga da prima:
            - Não vi nada do aladinho sete cores maravilhosas! Com quem vou fotografar?
            - Você ouviu um assobio assim, tchintchorrintcho!!!...
            A menina Ana Ricarda (pro futuro de Ana Emília, a filha) disse certamente que nem nem nunca:
            - Não sei, nem ouvi, não me lembro, nem vi sete cores, ora! As árvores da praça Visconde de Cabo Frio se agitavam, uma vez!
            Por isso mesmo, a prima disse uma coisa sensacional que espantou todo mundo, a amiga da prima olhou por baixo dos óculos, Ana Ricarda principalmente ali pertinho e interessada:
            - Você tem que perguntar para as índias catuquinaru. Elas são livres e gostam.
            - Acui-cui!
            Ana Ricarda foi dormir na primeira noite com essa na cabeça e nem voltou mais.
            - Aquiqui!
            O pensamento claro como a manhã, como esperando qualquer coisa, como querendo prosseguir.
            Bairro da Trindade avenida Valentim Magalhães rua simples e até invertebrada.
            - Mas o que é que posso fazer?
            Foi fácil e cômodo e abrangente, ali pelas 8h e 18min, Ana Ricarda se encontrou com a manhã a quarta-feira o novo dia, etc., e os degraus do dia, as nuvens derramando açúcar no ar, os tamaris brincando nos galhos da guaçatunga. Havia disputa entre ideias.
            Ana Ricarda (futura mãe de Ana Carolina, outra filha) despertou e andou até a tribo dos catuquinaru ouvir fotografar, chios!... chios!... e penas do passarinho sete cores imperdível e frutas do mato e cambucás.
            Os catuquinaru moravam no vale do Itajaí-Açu. A primeira coisa que os catuquinaru perguntaram para a menina:
            - Você tá fugindo de quê ou indo ao encontro de qualquer coisa? Posso saber?
            Aí, Ana Ricarda explicou que queria trocar imagens de aves que eles catuquinaru colecionavam e brincavam e estimavam e imitavam. Até para fazer um álbum muito brilhante e colorido e apresentável. E colecionou no gravador também os guinchos de humaitás.
            O pensamento guiando os passos, e como bebendo água e respirando, e como olhando as montanhas com a mão em pala.
            Árvores morros árvores serras azuladas muitas e completas e as abutuas-do-rio verdejantes. O arvoredo agitado pelo sol, pacificado de vento verde, etc. Quem diria!
            - Procurando rio de cascata e corrente e remanso e piscina natural.
            Onde passa o rio São Francisco, e ali por perto encontrou com os xucuru-cariri. Os índios pescavam no rio e caçavam à vontade pela caatinga. Tinham pequis para comer e jequiás para vender. Foram com a menina até a cascata. Sugeriram voos de carcará. Recomendaram erva da ipecacuanha-preta. Descansaram na sombra da gameleira. A manhã sem falta.
            O pensamento subindo degraus de nuvens, e como se elevando, como acompanhando. Havia outra razão.
            O dia nem custou a sair. Nuvens altas o dia solto e tudo por fazer. O ar com sabor pitanga, araçá, sete-capote, buri-do-campo, mais pitangas amarelas com abelhas zumbindo.
            Jogou os olhos e a vista para cima da paisagem verde. A floresta continuava agitada de vento verde. Verde total da floresta para sempre. E nenhuma palavra trocada foi trocada. A canela-de-folha-larga fazendo de moradia para bando de soins.
            Ana Ricarda (mãe futura de Ana Paula, terceira das filhas) toda satisfeita rosto sadio e olhar de canário-da-terra. Amarelo o dia amarela as asas as penas amarelo o gorjeio.
            E com o azul das alturas um pouco mais de azul dos olhos azuis. Os azuis que se emprestavam muito. Indiferentes as ucuubas-punãs. Conterrâneos os pepinos-do-mato.
            2-soldado-do-nordeste.
            As perguntas de Paulo:
            - E agora pra onde vai?
            - Mas de quem e alvíssaras estamos pelas boas-novas?
            - Por que várias espécies de sobras despojos restos sobejos?
            - E o conjunto musical da terra pé de serra com Santana de Parnaíba?
            - Já viu a loja Sebe-Bardo como ficou por fora?
            - Aprontamos tudo até a manhã de sexta-feira?
            - Como que nem não manda alguém?
            2-ibijaú-guaçu.
            Não obstante... e Ana Ricarda pegou um piquira foi até a aldeia dos guajá, em Açu. Falou com eles todos as índias velhas e pediu emprestado pios de pássaros bem luxuosos e bonitos e coloridos e serelepes. Ouviu ganhar gargalhadas de maitacas-roxas.
            O pensamento como simples, como procurando o rio, como inventando números inteiros e matemáticas por toda a extensão da paisagem de galeria. A trilha das Três Pedras na área de Bofete e Botucatu.
            Um diapasão, incrivelmente, lembrando um bem-te-vi-de-bico-largo. Manhã cheia, sol volátil. Manhã acima dos 25ºC.
            - Globo terrestre! Eu vi o sol na manhã, ouvi o ciscador, tomei banho de rio, etc.
            Morro acima o vento estranho, morro abaixo o vento invencível, por dentro do vale o vento infatigável. Um vento enrolado seguindo os passos. Revoluteio de andorinhas. Trovoadas escapando de dentro ou de trás do morro. Aguaceiro despencou em forma de cortina. O vento no meio da chuva. E toda a natureza em toboágua.
            - Procurando caverna gruta loca lapa.
            Logo logo chegou às terras dos tingui-botó, ali na serra da Mantiqueira. E pediu concertos de alados exclusivos endêmicos. Presenteada com, cicios!... e tititios!... de tié-fogo. Cochichos avisos em surdina de pipira-de-prata. 
            O pensamento sem explicação, e como limpo e penteado, e como distinguindo as cores separadamente. Sementes de aprajus, perobas-amargas, pirangas, mandingas...
            - Acredito nem incorrer em exagero, uma vez.
            Perto, então bem pertinho, junto praticamente, um canto de passarinho já alterou o mundo, e que dividiu o mundo em mundo daqui e mundo dali dois lados inteiros de para lá para cá.
            - Em uma fração de segundo ápice átimo...
            Manhã nova e cenário grandioso da mesma floresta, manhãzinha rápida. O voo da ave pernalta. Os lepilepis!... das asas do udu-de-coroa-azul. A goiabeira-do-mato carregada. O vento agitava as jabuticabas-do-cerrado, o rio Cuiabá cortava o mundo em duas partes certas importantes. Cada nuvem tinha um enfeite na cabeça, um chapéu diferente escondendo os cabelos revoltos os cabelos arrebicados as crinas crespas.
            Pés no chão, um dia descalça, outro dia um espinho, mais outro dia uma mordida de formiga, um belo dia um escorregão nas lajes perto do rio, e a menina explorava os matos e capoeirões e florestas e brejos e beiras de rio e escalando o pé de curupiá cabelo trançado em diadema.
            Ana Ricarda vai visitar agora os índios cupinharó, ali em Cabeceiras. Ana Ricarda ao natural. Solicitou umas lendas coloridas brilhantes esvoaçantes. Comparou a imitação das cunhantains e curumins com os cantos gritados de uma arara-canindé.
            O dia era bom e bom era andar no dia, etc. Possível, mas por pouco quase impossível. Seria milagre fazer imaginar outro dia assim. Tem índio que coleciona acha interessante colecionar espinhas e dos diferentes peixes.
            O pensamento vai se esticando, e como que aguardando seu complemento de qualquer maneira, e como colocando figuras no ar.
            Para saber quem é, tem que chamar por Ana Ricarda, e chamou:
            - Que dia da semana é depois de sexta-feira, hein, guria?
            E no primeiro dia ela passou sem olhar. Bem no limiar. No segundo ela mal cumprimentou. Sem nada para fazer. No terceiro ela foi mais além e chegou perto. Sentiu a temperatura ambiente. No quarto dia ela entrou na aldeia dos cambeba, na praia da ilha Diamante. O pajé Ubirajara sacudia o maracá para chamar chamar ancestral espírito sagrado, parente do ar ou da terra, fantasma da ave de rapina.
             Que os cambeba disseram para ela ouvir ver e decidir:
            - Nós temos mascotes de soias, e parentes próximos de canto de pepitas.
            Que ela aceitou em troca de trabalho na roça junto das cunhãs:
            - Aceito em troca de ajudar na roça de milho colher milho comer milho verde, pode ser? Eu gosto muito de mexer com a terra as plantas e os animais sociáveis.
            Quando o pensamento que se repete, e como trocando a fantasia pelo correto, e como mantendo o sossego na hora de escolher o acaso.
            Nesta boa hora h todos já devem ter descoberto identificado adivinhado o rio corrente catadupas de qualidade alturas consideráveis barulhos em quantidade rio Paraíba do Sul por baixo da terra.
            2-gavião-mateiro.
            Com as palavras de Aline: gazil, jarreta, galhofar, adelgaçar, farrancho, descante, despicar, custódia, casula, aljofre.
            2-saudade-de-asa-cinza.
            O riso da menina Ana Ricarda a saltar da boca e dos olhos resplandecentes, o cabelo percebendo o vento, calma para aprender a nadar. Que queriam aqueles olhos de guria? E ela derramou seus olhos pela paisagem manhã paisagística passarinha borboleta ululante. Iluminado sorriso resplendente.
            - Procurando procurar árvore fruto de árvore frutífera comestível.
            Pitaguaras bebendo do rio, curvadas para o rio, verdes de rio claro. Acarapixunas pulando na água. Muiás ergueram os olhos. Muricis descendo frutinhas para os dourados, as traíras, bagres, os pirarucus, os graviolas, lambaris, os gravataís, os mandubés, pacamãos...
            A menina apoiou as costas numa peroba-de-goiás. E cabelos lindos, olhos já lindos conhecidos, boca muito belíssima. Bonita sombra descendo estriada da galharia. E falando para si mesma:
            - Se eu não viesse aqui isso tudo e mais um pouco nem existia, também.
            E foi embora para os lados dos índios canamari, perto de Abatiá. Eles tinham pressa em negociar palavras novas de papagaios-do-peito-roxo, negociar chilreios de cricriós, negociar cambucis, pinhões, pequenas cestas feitas de palha de caxandó trançado. Eles tocavam música cantos com muremurés, teirus...
            O dia vinha entrando nascendo chegando cheio de azul e sol rodeado de montanhas árvores rio zumbidos de besouros dobres de pintassilgos-da-mata revolteios de andorinhas. Um morro todo do tamanho de uma montanha na serra do Cipó. Que só visse!
            Então, uma luz de ouro e diamante num leve ar reconfortante de esmeralda, tudo muito bem trabalhado em quinta-feira das 10h em diante. Embora meio na dúvida. Nuvens espertas douradas aterrissando no planeta, sobrevoando nesta Terra. Canto de pitanguá, viuviuviu-riiii!...
            O pensamento não sabe ainda de onde vêm as ideias, e como segue o caminho interior, e como brinca de arrumar quebra-cabeças palavras-cruzadas caça-palavras palavras-chave, e desarrumar os labirintos e espirais e remoinhos.
            - Procurando montanhas de pedra e animais de pedra fragas penedos e formas de animais nas pedras nas nuvens nas árvores.
            Uma bonita tarde que apareceu assim, lá estava a tarde descendo os barrancos da esquerda rumo os vermelhos do rio em frente derrapante. Araçá-pedra carregado de xauins. Lancha subindo o rio para entregar mercadorias em Juiz de Fora e Porto Feliz e Osório e Rio dos Cedros...
            Perto da noite já estava com os índios pipipã e ilha São Francisco do Sul. A taba em forma de coroa. As picadas as travessas indo e voltando do rio da mata taiobal do grotão do cafundó. De presente poses de araçaris-bananas voar em redor e de brinde uns, retintios!... de patuqueiras e mais gosto maduro das guabirobas amarelas.
            A menina perguntou para os silvícolas pipipã:
            - Mas vocês viram veem o sete-cores já cantar?
            - Sim, claro, o sete-cores. O sete-cores espera acabar a noite ali escondido no meio da condurango. Quando a luz surge ele pula em busca do sol. Quando é hora de madrugar ele canta como nunca como sempre como ninguém. O sete-cores é assim mesmo. Porém, eu nunca vi nem ouvi me contaram e dizem que é reconto.
            Uma lua parada e normal e cheia e hipnótica, ainda. Logo o fiscal celeste apita um assobio fino e um raio com trovão começa a chover. Reconfortante, espumosa, inesquecível, líquida, deliciosa como sabor de açaí no céu da boca.
            Então, a menina já tinha todos os cantos e cantares e frutinhas que procurava? Tinha o suficiente de fotografar? Para fazer um acompanhamento fundo musical? Cinco dias de carnaval em Pituaçu? Comer abóbora de polpa amarela com açúcar refinado por cima caramelado? Plantando o verde sadio ali por onde passava, azougues-do-campo, chás-da-terra, pinheirinhos-de-sala, brilhantinas-brasileiras...
            E a resposta simples como o pensamento que não se desvia e que não esvazia e que nem se contradiz:
            - Sim, claro, e praticamente.
            2-galo-da-rocha.
            O gliptodonte prisioneiro do seu torrão natal do seu sertão do seu clima do seu corrimão. E as últimas semanas os últimos dias as últimas notícias. Anda devagar e faz tudo lentamente, aposentadoria, pachorrentamente. Uma serra da Capivara seu círculo de giz? Já nos últimos anos sonhava pouco, e voltou: “Antes e antigamente, aqui neste lugar, corriam trilhas de tropeiros. Foi bem antes antigos. Tropas de burros burras porque conseguiam carregar mais e melhor pelos caminhos estreitos pedregosos desfiladeiros atalhos desvios atoleiros.” Depois os gliptodontes acabaram foram extintos ou se mudaram para outras aguadas paragens ambientes. Ele mesmo nascera gliptodonte neste lugar. Teve como gliptodonte que andar e andou por este país solar. E como gliptodonte sempre volta, voltou, retornou, olhou pra trás. E revoltou a sua serra da Canastra? Agora até conseguiu muitos livros para ler mas nem saco para tanto. O gliptodonte também conhecido como Dente de Pedra não come bem não bebe além de água mineral e dorme mal e acorda de madrugada acorda de primeira. Somente anda pelas ruas, que lhe recordam lhe parecem ruas de outrora. Repara nas formigas-carregadeiras. Antes uma casa e agora um prédio de dezoito pisos. Passa aqui ali como em qualquer lugar ou lugar algum. Um sorriso misterioso nos beiços. E sem saber o que pensar. E sem lembrar de como cavar com suas próprias unhas retráteis.
            Avenida movimentada Fernão Dias Paes Leme com outra avenida arborizada Borba Gato em Pedro Leopoldo.
            Eu lia, por que talvez, um conto de horror ou terror: “Os Três Cachorros do Senhor Heitor”, de Rosa Amanda Strausz. Já na primeira frase eu ouvi um latido de cachorro vindo lá de fora na vizinhança. Talvez na rua aqui em frente Félix Pacheco talvez amarrado na corrente ou preso no cercado ou morador do prédio ao lado. Na hora eu pensei: “É pura coincidência.” E continuei lendo e pensando. O cão lá de fora voltou a acoar. Era um cão sem com linhagem pedigree nacional estirpe importada. Era uma cadela malhada marrom azul-clarinha e usando um lenço de seda combinando no pescoço. Dos grandes pequenos ou médios, interativo. Depois de hora parei de ler terminei o conto. E fiquei olhando a parede? O cão lá fora silenciara. Pura coincidência semeada ao acaso. Tem gente que gosta e confia mais no cachorro que no parente. Tem cadela língua solta olhar simpático singela popular que gosta de passear na praça Eurico Gaspar Dutra todos os dias ali pelas seis em ponto. Tem cão que gosta mais de dono que de pessoas e outros gatos e cachorros. Cão cadela com atitudes filosóficas civilizadas atitudes características idiossincrasias. Minha tia Candonga tinha uma cadelinha chamada Chusma que se derretia no verão nem tinha nenhuma vocação para frutas e legumes mas e gostava muito de sorvete e picolé.
            2-jesus-meu-deus.
            Com as palavras de Aline: farândula, ganga, fototipia, supino, cendal, jogral, trangalhadanças, protração, altívolo, prolóquio.
            2-iraúna-grande.
            A filha de Aline estava no aeroporto Santos Dumont, o dia 26 o mês de maio o ano 2014, um leve incômodo em o siso lado direito. Mas esperando avião e paciência e caminhar para lá de lá pra cá. E fazia um círculo. E desfazia umas pegadas pistas.
            A seleção estava em campo jogando com a seleção uruguaia na cidade na tela de João Pessoa, Alagoas. O gramado era verde e a torcida verde-amarela. Um quadro líquido tridimensional no alto da parede e as pessoas aqui roendo as unhas e a jovem até sorrindo a socapa dos preocupados inúteis. Um jogo mas porém um passatempo de lazer.
            Sentada numa poltrona por acaso por sorte ali na sala aclimatada e tal. Sem muito lanche no estômago. Comera um minuto atrás no hotel Itambé um pastel de queijo, uma lasquinha de goiabada e uma vitamina de cenoura-beterraba-açaí-alface. Barriguinha no tanquinho, aliás e etc. Vasos exposição de chusqueias, interessantes interessante.
            Esperava o voo para Porto Velho, Mato Grosso do Sul. Aliás, o voo já estava atrasadão. Já andara até o janelão trocentas vezes ida e volta. “Que que houve, meu!”, se perguntava. Pensara chupar um picolé de pitangas, caso estivesse em oferta. Voo recomendado para Icaraí de Minas...
            Um grupo anajá desfilando aguardando com roupas da cidade e enfeites de botoques e tintas e desenhos da tribo na cara no corpo. E chamavam a atenção tiravam selfes com outros esperantes aguardantes.
            Dezesseis horas e vinte cinco minutos, agora. Já devia estar no ar há um século e meio, até agora nada. Poucas explicação explicações. Voo recordado para Pintópolis...
            Uma garotinha magrinha, os pais cuidando, se aproximou, olhou a jovem filha de Aline, sorriu e ganhou de volta um outro sorriso. A menininha resmungou algo, muxoxou, se contorceu e foi dar umas voltas. Arrastava os tênis fazendo ruído. O solado do tênis piscando em verde. Era época dia de conhecer Anísio de Abreu...
            Parecia tudo um jogo de paciência e espera e aguardo. Um jogo de xadrez com as peças indo e vindo para os mesmos lugares. O mundo tão engraçado, de um ângulo de vista, de um ponto de vista, de um certo olhar desinteressado sonolento precário.
            - Por que D criou a formiga?
            - Para ser amiga da cigarra! Ou a vizinha!
            O mundo, pensava a filha de Aline, do vaivém dos aeroportos, todos os lugares do mundo e adjacências. Tem gente que prefere passar as férias em Socorro. Outros uma semana com os índios curuaia. Ainda a pedra da Ema em Burarama território de Cachoeiro de Itapemirim. Voo patrocinado para Cambuquira...
            As pessoas esperam do mundo, os tuins, os brecambuçus, as favas-contra... O mais dia os mesmos dias.
            Naquela hora o aeroporto e um aquário. A menininha contando poltronas tocando uma por uma. No painel, voos com sobremesa para Águas Belas, Campo Grande, Uberaba, Rio Grande, Campina Grande, Porto Real do Colégio, Ajuricaba, Biguaçu... voos com direito a almoço e suco de caju para Mâncio Lima, Baturité, São José da Coroa Grande, Brejo da Areia... voos com acompanhante para Ipiranga do Norte, Magé, Penedo, Itaberá, Ilha das Flores, Feira Nova, Itaiçaba...
            Asfalto paisagens de aviões prédios barracões pneus homem de abafador vermelho vivo nas orelhas trator carregado de bagagens rastos de pousos céu de teto baixo esfumaçado. Prédios da cidade apontando as nuvens ocasionais.
            Os pais da garotinha falavam com uma senhora de amplo vestido azul que não era nem mãe nem sogra nem avó sequer de uma das três. Vai saber!
            O casal cuidava da guriazinha, leva e trás de lá pra cá, como se cuida de um tesouro ou uma relíquia ou um mito ou uma beata ou uma lenda ou uma fonte de água potável. Ela a guriazinha fazia o que queria e perguntava gesticulava. As perguntas às vezes inéditas:
            Ao mesmo tempo, se achando, a menininha fazia de explorar o mundo com livre arbítrio e autoconfiança e cabelos soltos, carismática simpática hipnótica prismática.
            Quando as pessoas modernas olhavam os aviões e os celulares, jornal debaixo do braço, revista, livro grosso de capa dura para esquecer na poltrona lá no desembarque, e se perguntavam:
            - Vamos todos viajar no escurão da noite?
            - Por que D chove quando bem quer?
            - Quando começou tudo isso de hora marcada?
            Menininha veio de lá e se aproximou novamente da filha de Aline, subiu na cadeira estofada bem do lado, meio desajeitada, como uma criança aprendendo o mundo, e olhou a jovem nos cabelos. A outra a cuidou de rabo de olho, sem querer dar muita confiança, sem querer dar ousadia, os pais fingindo não cuidar, a guriazinha se sentindo o centro das atenções, o foco dos sorrisos, mais a tensão dos pais disfarçando, a estrela o astro do filme, perguntou:
            - Nhenhenhém?!...
            A filha de Aline olhou sem entender, e o pai, muito ligado, e mãe muito atenta, de lá, traduziram, quase em coro:
            - O seu nome... ela perguntou.
            A loja do lado oferecia relógios com pulseira de ouro e ponteiros de diamantes. Piso tátil. A vitrine enriquecia o valor dos perfumes de cores diversas e cheiros amazônicos. O quiosque vendia bichos de estimação de pano para dormir na viagem bem fofos e de preferência os com cara de bicho do cerrado. Os telefones sempre com um brinquedinho mais moderno e imperdíveis e pagáveis em até 20x. Voo amanhã cedo para Várzea Branca...
            Daí, a jovem olhou a garotinha mesmo, a menininha não era feia de uma vez, se parecia muito com a mãe talvez, até um pouco com o pai quem sabe, e vice-versa.
            De mais perto a garotinha tinha cabelo mais vermelho quase de fogo, um nariz pequeno, uns olhos pequenos e azuizinhos. Ela a garotinha só tinha olhos e ouvidos e boca para perguntas. Praticamente uma perguntadeira:
            - Ocê biu... di vaia Co-pa-ca-ba-na?
            A guriazinha tinha mais curiosidade, pilhas novas, bateria nova, antenas novas e modernas e felizes, queria mais e foi se expandindo:
            - Dos... anins...
            - Dois anos, o que você tem? - e a jovem, para provocar provocar, mostrou três dedos.
            Para falar a verdade, e todos se decepcionaram: não apareceu ninguém celebridade famoso conhecida da tevê no palco do saguão atleta da Seleção para embarque ou desembarque. Era um horário de pobres e anônimos e comuns e consoantes. A maioria ensurdecedora. A minoria multidão popular. A maioria dos zumbis.
            A menininha olhou a mão da jovem e ficou na dúvida do número de dedos. E olhou.   Pegou e saiu fora, foi bater a cabeça nos vidros grandes da vidraça enorme, deu mais umas voltas pelo longo saguão, os pais policiando, fingindo ler um livro volumoso cada um com seu best-seller saído do cinema recém-recém, a guriazinha pediu sorvete ou picolé, os pais muito felizes ou gostando imenso cada um da sua leitura e sorrindo até rindo alto, a anjinho pediu chocolate ou suco de caixinha, a menina um bem divino um bem de todos uma realização interpessoal a dois conjugal.
            Um mundo do outro mundo dentro de um mundo dentro de um mundo o mundo. Agora sim agora não talvez quem sabe. Voo direto correto para Araçariguama...
            A filha de Aline bocejou, tapeando três vezes a boquinha. E cometeu um espreguiçamento com, huuuu!... Segurou a cabeça com as mãos estendeu a nuca. Os cabelos... pronto, em cascata para trás. Lindos cabelos cuidados caros.
            E a guriazinha veio que veio em outra vez para perto da jovem. Uma velocidade sem parar e sem por quê. Pegou as pontas dos cabelos vermelhos da filha de Aline. Comparou com os seus. Achou bom e riu. Achou que devia e disse, perguntando:
            - Em que que... bondade voá, nhanhã?
            Subiu tênis acendendo luzinha na poltrona de tecido vermelho, os dentes pequenos sorrindo, os cabelos enormes, olhou brilhante, perguntou outra coisa: